quinta-feira, 17 de julho de 2008

Feliz em Cascais

No Paredão que liga Cascais a S. João do Estoril o dia começa cedo. A andar ou a correr inalo – cheiro! – o ar do mar. Ao longe, perto da Baía, vejo um mar caído e descansado apenas ligeiramente ondulado quando o vento sopra mais forte, criando pequenas cristas de espuma: os “carneirinhos”. O vento – esse mesmo vento que se diz dar aos habitantes da zona mais anos de vida do que aqueles a que teriam naturalmente direito – sopra-me na cara. Fresco e limpo traz consigo a sensação de que a vida pode ser boa, melhor, a garantia de que, aqui, a vida é boa.
Nascer nesta terra é nascer ao sol e com os pés dentro de água. Com frio ou com calor não se perde o pequeno grande prazer de sentir a areia húmida nos pés descalços. Qualquer que seja a estação do ano, nunca está frio demais para um mergulho. Na Praia da Conceição, vazia às primeiras horas, qualquer um pode ganhar uma vida nova e senti-la na pele fria de um corpo revitalizado. É o meu caso esta manhã.
De saída da praia subo até à Rua Direita, com a firme intenção de a descer, sentindo no corpo a roupa molhada e nos sapatos a areia que não limpei. Sem stress. Distraído, olho para as montras e vejo passar os outros. Uns outros que, tal como eu, não passam sem estas manhãs. Manhãs de fim-de-semana em que o mundo nos chama para fora e em que ficar em casa é apenas mais uma forma de dormir até tarde.
Depois de almoço, na praia do Guincho, olho para a serra de Sintra à minha direita. Por vezes envolta num capacete de nuvens mas sempre extraordinária. Um lugar sagrado entre lugares sagrados. No mar, surfistas “fazem” ondas, as mesmas ondas que eu, sem prancha, desço em “carreirinha”. Corpo hirto e braços estendidos por cima da cabeça, deslizando, de preferência, até à beira mar. Não estou sozinho. No Guincho as “carreirinhas” assumem-se como desporto (quase) Olímpico. Quando o vento cresce, saímos da água. Aparecem então outros surfistas, wind-surfistas, que aparelham as pranchas e proporcionam um espectáculo como não há outro. Centenas de velas coloridas rasgam o horizonte à medida que o sol se põe. Não quero ir embora, mas vou. Tem que ser. No entanto, levo comigo a certeza de que amanhã é outro dia e a esperança de que seja (mais um…) dia de Guincho.
Viver em Cascais faz-me sentir em férias. È, verdadeiramente, a melhor forma de ir para fora cá dentro. É viver num mundo próprio com sol todo o ano e um sorriso sempre na cara. Apenas a 30 kilómetros de Lisboa e, no entanto, um mundo à parte.
No Monte Estoril, alemães e suecos bebem à saúde de quem um dia lhes apresentou Portugal. Acreditam que aqui a vida anda mais devagar e que os dias são para ser vividos entre amigos. Na Frederico Arouca italianos comem gelados do Santini e confirmam, simplesmente, aquilo que já sabemos há gerações: são os melhores do mundo. Três portas abaixo, um outro italiano, escritor, António Tabuchi de seu nome, entra na sua livraria preferida, a Galileu. No epicentro de Cascais, o Largo Camões, espanhóis que vieram ver as motos ao autódromo sentam-se ao lado de irlandeses, queimados pelo sol, que não perdem todos os anos duas semanas de golfe nestas paragens. Nas mesmas esplanadas, sentam-se ingleses a beber cerveja, a comer marisco e hoje, fruto da modernidade digital, a ver jogos de futebol em ecrãs gigantes. Estão abrigados debaixo de guarda sóis e assistem a jogos que decorrem, exactamente naquele momento, em países onde a chuva nunca pára de cair. Maravilhas do mundo em que vivemos.
Quando o dia começa a chegar ao fim sento-me a jantar ao ar livre, no Lucullus, sentindo ainda na pele o calor de mais um dia de Sol. Não há melhor do que restaurantes onde nos conhecem e nos dão o que gostamos sem ter de pedir nada. Com as pernas estendidas e um copo, na mão deixo a noite correr. Como o vinho.
Mais tarde, um passeio pela Baía; uma espreitadela à Marina. Falo devagar com quem me faz companhia dando tempo ao tempo que demora pensar. Não há pressas e os passos são lentos e ritmados. Como as palavras. Sentamo-nos a olhar para o mar. A lua reflecte-se na água e ilumina os barcos. Ouve-se o som das ondas a morrer, devagarinho, na praia. O ar quente que sopra faz-me querer que o tempo pare. E, aqui, pára mesmo.
É por isso que todos os que por aqui passam cá querem ficar. Mas nem todos ficam. Ficam uns, sortudos como eu, felizes em Cascais.

(Este texto foi publicado no Guia ConVida sobre Cascais e Estoril. Agradeço à Sofia Paiva Raposo, quer o convite para o escrever, quer a autorização para aqui o colocar)

3 comentários:

Gonçalo Pistacchini Moita disse...

Que belo post. É pena é não poder ser todos os dias assim!

Sofia Rocha disse...

Não conheço ninguém que tendo crescido ao pé do mar, não saiba o que é o "ar do mar". Nenhuma destas pessoas sofre de problemas respiratórios, também. Para além de não ousarmos saír à noite sem um casaco. Nem haverá casal de namorados, que em noites de lua, resista a namorar em pontões,escassamente iuminados a encarnado e verde. E não será um filho da terra se não conhecer as luzes do seu farol, ou de dois, se ainda for mais afortunado:Peniche e Berlengas.

totodasbersas disse...

Aqui no interior não há tempo para "cheirar" essas maresias. É só trabalho e adormecer sobre o mesmo de todos os dias; mais trabalho. E pensar numa maneira de comer o "mexilhão do monte".
O Eulálio Ergue A. massa lá se vai safando. Vejamos:

Há uns dias fomos surpreendidos pela apresentação do projecto da primeira torre giratória, da autoria de David Fischer.
Quem não se impressionou com esta revolução na arquitectura tradicional foi Eulálio Ergue A. Massa que se mostrou visivelmente indignado com toda a publicidade feita ao que ele chamou de “vergonhosa mentira ao serviço do capitalismo de areia-rosa”, pois, segundo ele próprio, as construções GIRATÓRIAS são a sua imagem de marca desde o primeiro rabisco milimétrico feito a pau de giz com que projectou os galinheiros para as ovelhas da Tia Maria do sachôlo. “ Bem, nessa ocasião como ainda estava cheiinho de força na verga, projectei aquilo pela ribanceira abaixo acabando por foder o condomínio fechado das ovelhas que não tiveram outro remédio senão continuar a pastar e dormir no curral arquitectado por um Engenheiro de caminhos ermos e eiras de terra batida da CML".
Segundo Eulálio Ergue A. Massa, para atingir a perfeição dos apartamentos giratórios, o primeiro passo a dar é ter em conta um adiantamento generoso de uma concepção arquitectónica bioclimática que combine com a ecoconstrução de várias contas bem assentes sobre os alicerces de Trava-Línguas já que esta técnica requer uma estratégia de silêncio e contenção das massas envolvidas. “ No projecto inicial os abatimentos estarão fora de questão, pois ao contrário do que se diz por aí, para determinar a consistência do concreto pela falta de água ou excesso de vinho, é apenas necessário um Moiro de Trabalho, com os acabamentos mentais desestruturados, promovido a empreiteiro de construção civil e a quem se oferecerá imediatamente um bilhete (em envelope fechado) só de ida para Angola ou Iraque onde poderá continuara a ser o Moiro de origem. A partir deste ponto, quebram-se algumas regras da engenharia convencional e “começa-se a construção da casa ou prédio pela água-mestra e, (aqui é que está o truque), em vez das quatro águas, substituímos duas por whisky de excelente qualidade até se obter uma tacaniça que vai poupar muita telha", explicou Ergue A. Massa, chamando ainda a atenção para as aldravas que devem ser colocadas mesmo antes de qualquer porta ou parede para assegurar o sucesso final do projecto e construção. Deste modo tudo que era deixa de ser e onde deviam estar 4 ou 5 blocos de apartamentos passará a haver mais um caido do céu onde encaixará na perfeição (quase) nos baldrames que nunca ninguém viu! Eulálio Ergue A. Massa explica que “basta aproveitar os tempos difíceis para perceber que andam todos com os olhos no chão à procura do bilhete premiado do euromilhões; assim, ao começar a construção de uma casa pelo telhado, a única coisa que um dia vão ver é a entrada do prédio e a saída para a rua. O único problema é que ainda não consegui acertar a posição exacta do encaixe da estrutura sobre os tais baldrames pelo que alguns dos apartamentos ficam com os pilares principais espalhados pelo meio das salas, quartos e algumas casas de banho ficam com a banheira na vertical e bidés colados à parede!... Mas, diz Eulálio A. Massa, resolve-se o problema bastando mudar a teoria da relatividade”.
A verdade, é que todos que alugam ou compram um destes apartamentos fantasmas, depois de tantas cabeçadas nos pilares e esquinas atrevidas em recantos centrais, fazem tudo para GIRAR dali para fora em dois tempos. Assim se percebe que os prédios construídos por Eulálio Ergue A. Massa façam GIRAR tantos compradores, vendedores, contas de bancos e, principalmente de quem se mete nelas que sai dali com a cabeça à roda. Tudo com a benção do Santo.
São as construções Giratórias.