quarta-feira, 7 de maio de 2008

Realpolitik & Serviço Público

A posição desconfortável do BES e última notícia no site da RTP sobre Bob Geldof e Angola.

8 comentários:

Pedro Norton disse...

Caro Pedro,
Estive ontem na cerimónia onde o Bob Geldof proferiu essas polémicas palavras. Devo dizer duas coisas:
1 - O discurso surpreendeu-me muitíssimo e pela positiva. Foi de uma «political incorrectness» e de uma densidade que, confesso, não estava minimamente à espera. É claramente alguém que vale a pena ouvir.
2 - Sempre gostei de espíritos livres. É pena que, em relação a Angola, ninguém se atreva em Portugal a dizer um décimo do que ali foi dito. Só é respeitado quem se dá ao respeito

Sofia Galvão disse...

Pois...
Mas, Pedro (Norton), a partir de ontem, que cautelas terá o BES? Designadamente, a propósito deste Programa «Futuro Sustentável»... E, assim sendo, que margem de negociação estará o Expresso disposto a conceder? E, dentro desta, até onde estará disposto a ceder? Veremos Ricardo Salgado exigir visto prévio ao discurso de Kofi Annan?? E Francisco Balsemão resistirá?!
É bem verdade que, em Portugal, a regra é que ninguém se atreva a dizer um décimo do que deve ser dito. Seja o mote Angola, ou outro qualquer. Porque tudo é muito pequeno, muito próximo, muito fechado e é praticamente impossível encontrar um espaço de independência operante e verdadeira. Sem se dar por nada, tropeça-se num interesse que, se não for nosso, directa ou indirectamente, é, decerto, de um primo, um vizinho, um sócio ou um colega. É assim. E por isso se diz pouco, se incomoda pouco, se perturba pouco. A bem deste caldo pacífico e cúmplice que nos irmana...
Por mim, estou com o Pedro (Norton), mais uma vez: sempre gostei de espíritos livres. Só que espírito livre não tem quem quer, mas quem pode. E poder, reconheça-se, tem custos sérios.

Sofia Rocha disse...

Corremos o sério risco de ir, literalmente, dar comida aos pássaros...
Este comentário da Sofia Galvão é o mais sério, triste e verdadeiro retrato de Portugal.

Pedro Lains disse...

Mas, calma, o Bob Geldof é uma estrela mundial e fico contente de ver nas palavras do PN a confirmação disso, pois eu às vezes até desconfiava um pouco dele. Agora tenho a certeza. Nós temos por cá alguns protagonistas de valor também. Mas o Geldof tem poucos pares a nível mundial.
O que gosto menos é da forma como os governos portugueses, desde sempre, tratam Angola, sendo esta como é cada vez mais uma excepção numa África que se tem vindo a curar, muito lentamente, demasiado lentamente, nas coisas da democracia e dos direitos humanos.

Pedro Norton disse...

Sofia:
Abro uma excepção para falar do Expresso (faço questão que este blog não seja o espaço para eu o fazer). De qualquer forma cá vai: acho que a história do Expresso devia falar por si. Mas nestas coisas não vale a pena fazer grandes proclamações.O tempo encarregar-se-á de tornar claro se alguém se deixa condicionar.

Manuel S. Fonseca disse...

Gostava de lembrar que, no Expresso, e para dar só um exemplo, o Miguel Sousa Tavares já se pronunciou de forma desassombrada (e consistente) sobre Angola e sobre "o sangue que mancha as mãos do governantes angolanos". Em Portugal publicaram-se recentemente dois livros que relatam com minúcia alguns crimes praticados em Angola Purga em Angola e Holocausto em Angola.
Ou seja, a realpolitik portuguesa teve, antes de Geldof, algumas nobres excepções. Mas há um cruel paradoxo: não se vislumbra que haja em Angola sociedade civil ou forças políticas organizadas que possam garantir o desonvolvimento sustentado que os actuais dirigentes, com o seu cortejo de esqueletos e "cazumbis", têm prosseguido, mesmo que o tenham apenas feito entre os pingos da chuva que engrossam as suas bancárias contas tropicais.

Sofia Galvão disse...

Sobre a história do Expresso e o que o futuro do Expresso nos reserva, não tenho, felizmente, grandes dúvidas. Aliás, tenho uma razoável certeza de que, no essencial, não será aí que encontrarei, no tempo de vida que me falta, especiais motivos de decepção. Isso jamais esteve em causa, evidentemente.
O ponto era outro e prendia-se com a possibilidade de lançar, promover e patrocinar - neste País e, ademais, em parceria - iniciativas que envolvem o grau de desassombro decorrente da abertura ao imponderável. O episódio de Geldof consubstancia isso mesmo: o que não se anunciou e, nem sequer, previu. Ora, isso encerra sempre um risco pouco compatível - como se viu - com uma agenda de interesses e com a garantia de intangibilidade que se lhe associa. O que bem pode limitar o espectro da dinâmica possível no espaço público...

Helena Forjaz disse...

Pedro, não posso estar mais de acordo. No entanto, e falo apenas pelo que passou pelos media, o que me parece é que há uma ocasião e um lugar próprios para se dizerem as verdades . E aquele , aonde ele era pelo menos convidado ( não sei se pago) não era seguramente o sítio certo.
Este tipo de "desoportunidade" é que descredibiliza estas vozes.