sábado, 26 de abril de 2008

A cultura da batata

Escreveram-me um comentário em que referiam as batatas, por referência ao 25 de Abril. Sem saberem, deram-me o mote para o presente.
Chamo-lhes histórias, porque sou eu a dar-lhes o tom, o contexto e o enquadramento. A mim contaram-me como factos. Ouvi-os de viva voz, pelos meus pais, avós, tios, primos e restantes parentes. Não os tenho por mentirosos e para além da sua boa-fé, de que não duvido, tive ocasião de ver fotos, a preto e branco, em que crianças, de olhos bem abertos, e pé descalço no chão, posavam para o fotógrafo que uma vez por ano visitava as aldeias. O que vou contar passou-se nas décadas de trinta até à década de sessenta do século xx. E passou-se em aldeias que distam de Lisboa 80 km. Nesse tempo, quem tinha o que comer, comia batatas. Só batatas. A minha avó, dizia que na sua casa de doze bocas, uma sardinha dava para seis. Comiam-se papas, feijão, couves. Havia batatas duas vezes por ano, e quando acabavam, a fome era geral. As galinhas matavam-se duas vezes por ano, por ocasião das festas religiosas. Em geral comia-se carne meia dúzia de vezes por ano. O resto, as galinhas, os ovos, vendia-se a quem os podia comprar. O pão era cozido uma vez por semana, e no final da mesma, já era duro e bolorento.
Lembro-me bem de ouvir contar que uma vez um rapaz, o António, que trabalhava no campo com o seu pai, num regime em que o trabalho era comprado ao dia, à "jorna" como se dizia, à hora do almoço contemplava a merenda com ar infeliz. Perante o ar infeliz do rapaz que contemplava a refeição, batatas, com um pouco de azeite, lhe dizia o pai: "- Mistura Tóino, mistura...".
Não sei porquê, mas nunca os ouvi a falar desses tempos gloriosos em tom saudoso.

7 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Não são bons tempos. Nem são maus tempos. São simplesmente tempos. Uns viviam bem, outros, mal. Tal como hoje, uns comem tudo, os outros, não comem nada.

No entanto, fizemos mal em substituir a batata pelo arroz. Com o seu preço nos mercados internacionais, temo que, dentro em breve, tenhamos de comer apenas o marisco, por falta de arroz.

sofia rocha disse...

Para comparar Portugal de hoje, com o de há trinta anos, sugiro a leitura do gráfico da Visão desta semana, com alguns indicadores fundamentais.
Dizer que é mais ou menos a mesma coisa, é ignorância ou má-fé.
Não são "tempos", são sistemas políticos que se fundamentam e perpetuam neste estado de coisas. À direita e à esquerda.
Da mesma forma, é preciso afirmar que os anos do PREC, com a nacionalização da economia e a quase abolição da propriedade privada, são anos de muito má memória para o país.

Pedro Norton disse...

Sofia, nunca é demais relembrar a absoluta iniquidade do regime que o 25 de Abril substituiu. Obrigado.

Táxi Pluvioso disse...

Para comparar os tempos, ou políticas perpetuantes, conferir os dados do programa Porta Amiga da AMI. 16 mil pessoas com apoio alimentar. Neste ano houve um aumento de 50% nos pedidos de paparoca. E a AMI é apenas uma organização, há outras.

De facto podem não ser tempos mas parecem negros. A não ser que a poesia do Teixeira Pinto nos abrilhante o futuro.

Inez Dentinho disse...

Não consigo ler humor quando se fala de fome.

Anónimo disse...

Exactamente "taxi pluvioso", e acresce que a fome hoje, que é se calhar quantitativamente muito mais, sobretudo nas zonas suburbanas, do que no tempo da chamada "ditadura" é muito mais indesculpável do que a que existia na altura, porquanto houve os avanços tecnológiocos na agricultura, etc.

Mas de é preciso ver-se as coisas factualmente e com isenção e sem má-fé e não ir pela lógica da batata, e não dizer-se que só havia relatos-lembranças de familiares acerca da fome a partir da década de 30 (de forma a atingir e a fazer coincidir com o Salazarismo, claro); então se nos lembrarmos como era na década de 20 e na de 10, as batatas eram poucas, a fome e a incompetência e a batatada é que eram demais .

Com os melhores cumpts.,
CCInez

Manuel S. Fonseca disse...

A questão do salazarismo não era apenas a da fome. Muito embora me pareça que num regime autoritário, sem oposição, sem esses incómodos que são a imprensa livre e uma sociedade civil efectiva, não é lá muito abonatório para os "gestores" de tão "suave e branda máquina de virtudes" que a dita questão não tivesse sido ampla e substancialmente resolvida.