segunda-feira, 31 de março de 2008

Às gerações e gerações...


Há um ano imaginei, no princípio da Primavera, que persistentes longos dias, quentes e luminosos, iriam encher a minha esperança pelo largo Verão a fora. Imaginei dias duplos, com tempo para tudo, e sem tempo a perder. Imaginei, que um horizonte novo pode estar sempre para despontar, se nos soubermos colocar a jeito de o ver, de o seduzir, de sermos seduzidos por ele. Haverá íman mais poderoso que a esperança, estampada no nervosismo da novidade?

Há um ano imaginei que alguma coisa poderia mudar se pelo menos eu conseguisse mudar-me. Imaginei forças novas, novos ímpetos, um calor que ajudaria a vencer o inverno e o desconforto, que pudesse até aquecê-lo e, assim, também gostar dele e da sua teimosia, que nos endurece os ossos e os músculos e nos torna hirtos e inflexíveis.

O Verão a pairar sobre os nossos espíritos habituados a pensar o belo, o bom e o que autenticamente conta para uma felicidade que se ama, nas imagens fugidias, por ser fugidio o nosso espírito, que não consegue abarcar num instante de brilho toda a beleza do mundo que se esconde no mundo que se vê.

Ver e amar, ver e pensar, e continuar a amar e a pensar, apesar de tudo nos fugir. Excepto o passado, excepto a memória que se reflecte no futuro, excepto a memória que nos faz ter saudades do que sonhámos e não do que vivemos. Porque em nós a posse é fugaz. Se o pudermos compreender talvez saibamos rejubilar com reflexos que nos revelam tudo o que desejamos e sorrir perante a sua evanescência.

— Volta, pirilampo, volta, Primavera, volta, juventude!
— Volta, Ó sensação de recomeço! Quem não recomeça morre!
— Gritem isto pelos campos e pelas cidades para que os homens não se esqueçam!
— Gritem que o ciclo recomeça em círculos cada vez mais etéreos e aprazíveis!
— Não se deixem perder, por favor, nas lamas e nos lodos de que o vosso corpo não se pode desprender!
— Deixem esse nevoeiro mefistofélico, em que Invernos cruéis vos tentam embeber e afogar!
— Deixem tudo o que vos tirar a sensação da leveza da borboleta, da fragilidade da papoila, da incorporalidade da areia!

— Exalem a vossa alma como um sopro enxameado de um destino, maior que o dos deuses de barro quebradiço, que ingloriamente se partem pela sua falsa rigidez!
— Lembrem-se que as gerações são essa mesma renovação, que vencendo o tempo, embelezam o jardim, que persiste florido e, todos os anos pela primavera, insiste em demonstrar que aí está para nossa salvação.

As palavras que lavramos são para a memória futura, são para que um dia se possa dizer de alguém, de algum lugar, de alguma coisa, que por ali passou a humanidade, por ali passou uma procura e que ali houve um momento de esperança que justificou toda uma existência.

De tudo o que nos falta há sempre uma palavra para o lembrar. Por isso pensamos, falamos, escrevemos.

1 comentários:

João Maurício disse...

Parabéns!
Mais um belo texto; cheio de entusiasmo e de vitalidade primaveris.
JW