sexta-feira, 28 de março de 2008

Fazer coisas belas a mulheres belas

Não dei um passo na vida em que não tropeçasse num filme de Jean-Luc Godard. Só o vi uma vez, no Forum Picoas. Genial e cabotino, Godard a fazer, como se esperava, de Godard. Ninguém se queixou. Nem eu me queixo dos filmes dele, cujo confessado programa é o de rimar homens com mulheres, o cinema com a vida. E disso, juro-vos que gosto.
Para Godard os filmes têm princípio, meio e fim, não necessariamente por esta ordem. De trás para a frente, esquerda para a direita e vice-versa, foi como lhe vi a obra. Pierrot le fou primeiro, em Luanda, ainda adolescente. No cinema Miramar, que já por si – esplanada aberta sobre a baía – era o triunfo natural do cinemascope. Nunca tinha visto nada tão amplo e radioso, “a natureza filmada com panorâmicas, a morte em plano fixo”. As imagens convidavam a fugir de casa, a atravessar rios e viver à beira da água. Pierrot ensinava a viver e viver era caminhar sempre ao longo da praia. De preferência, ao lado de uma mulher de beleza hipnótica e violenta que dissesse: “Qu’est-ce que j’ peux faire?... j’sais pas quoi faire”.
Reencontrei Godard no Lobito, estava ele nos “anos Mao” e eu em êxtase revolucionário e independentista. Sabe Deus porquê, exibia-se no Flamingo (esplanada também, mas de costas voltadas para o mar) o Weekend. Perdidos no cosmos, Unita e Mpla preparavam dias e noites de facas longas, em que se iriam trucidar fraternalmente, e Godard, no mais longo travelling da história do cinema, filmava carros destroçados, feridos ensanguentados, corpos a arder. À minha volta havia um mundo em desagregação. No filme, Godard obrigava-me a ver, de cabeça levantada, terroristas revolucionários que praticavam o canibalismo. Onde é que começava o cinema, onde é que acabava a vida? Foi a primeira vez que escrevi sobre um filme.

Devo a Godard trinta anos de casamento estável. Já em Lisboa, lembro-me de rever Pierrot com uma rapariga de seda vermelha. Levei-a a ver A Bout de Souffle e Une Femme est Une Femme. A câmara filmava fascinada a beleza formidável e milagrosa de Jean Seberg e de Anna Karina. Vi que o cinema é fazer coisas belas a mulheres belas; percebi que a vida só podia ser igual. E eu e a minha rapariga de seda vermelha ardemos na noite como o último par romântico de Pierrot. Juntos vimos, fechados numa sala da Gulbenkian, todos os episódios de Six Fois Deux. Suportámos, estóicos, offs intermináveis sobre a luta de classes enquanto a imagem apenas mostrava uma pescada morta sobre um prato. Com essa ciência, nada nos podia já separar. Li então, e por atacado, tudo o que Godard escrevera nos Cahiers. Jamais o cinema voltará a ser escrito assim. Como jamais a história do cinema será filmada como o foi, de A Bout de Souffle (extraordinária homenagem ao cinema americano) às Histoires du Cinéma. E talvez ninguém volte a filmar as mulheres como esse míope e misógino filmou a nuca rapada de Seberg, os lábios de Karina, os olhos de Wiazemski com cinzentos de Velasquez, as coxas, o belo cu de Bardot.
Mais tarde, Godard subiu ao céu, e entre céu e terra filmou - Puissance de la Parole - Deus e a Virgem Maria. Foi a última vez que me bati por ele. À porta da Cinemateca, Je Vous Salue Marie, ajudei como pude, ombro a ombro com a PSP, para que os meninos de Abecassis não impedissem a sessão.

Temo, ingrato e preconceituoso, embirrrar com o homem. Mas só os filmes dele se fundiram com a minha vida. Só com eles sonhei, amei e lutei como se fossem o maravilhoso e último canto da vida. Cinéma, mon beau souci.

Publicado hoje no "Público", só por causa da amizade cúmplice do Mário Augusto.

4 comentários:

sofia rocha disse...

Não sei o que é que em si é maior, se o amor pelas mulheres, pelo belo, pelo cinema, ou por África, e nem sei se a ordem é esta. Seja como for, abençoado.

Madalena Lello disse...

Gostei muito.

Manuel S. Fonseca disse...

Sofia e Madalena, agradeço sinceramente o aplauso. E espero que, se bem interpreto um velho Mestre, este nosso momento de prazer partilhado seja o passo certo para um merecido esquecimento. Lembro o que disse Josef von Sternberg: "The only way to suceed is to make people hate you. That way they remember you".

jorge silva disse...

Já tinha lido o texto no Público. É belíssimo. Ame-se ou odeie-se Godard (ele não será, de facto, esquecido).

Um abraço