quinta-feira, 20 de março de 2008

Espanto, Comoção, Luz

Espanto. Espanto, antes de mais, por tão súbito e alargado consenso sobre a Universidade em particular e o Ensino em geral, uma das mais caras e fundas paixões do pobre ex-Primeiro Ministro de Portugal, de sua graça, António Guterres, quando nem o próprio, não menos perdidamente apaixonado pelos consensos, fossem eles quais fossem, vez alguma alcançar logrou. Consenso tão súbito, tão vasto, tão alargado, não deixa mesmo de ser comovente. Sobretudo quando estamos em Portugal, ou seja, aquela nação, como hoje é mister sempre lembrar antiquíssimo dito, que «não se governa nem deixa governar». Posto quanto exarado fica nos anteriores textos do Paulo Rangel e do Miguel Poiares Maduro, uma certeza parece emergir também súbita mas inexirável, tudo quanto respeita à Universidade e ao problema do desemprego, é afinal, de fácil resolução. Afinal, há Luz.

Lida Abdul, «What We Saw Upon Awekening», 2006



Vale a pena atender a alguns dos argumentos belissimamente expostos.

Que nos diz de essencial Paulo Rangel? De há muito preocupado com o tópico «levantado» pelo Miguel Poiares Maduro e Rui Tavares, ou seja da relação entre a Universidade e um consequente emprego, diz-nos Paulo Rangel: «No limite - e sem que, por um minuto, eu o advogue -, Portugal poderia fazer um outsourcing do seu ensino universitário, pagando-o a sistemas estrangeiros. A massa humana de pessoas que abandonam o sistema de ensino, que completam o ensino básico, que atingem o secundário ou que entram no universitário e não dispõem de qualquer know-how é deveras assustadora».

Paulo Rangel não advoga o «outsourcing», mas não o chocando tal desiderato não se vislumbra exactamente quanto lhe impede tal advocacia: Razões de ordem financeira? Razões de ordem «operacional», como agora se diz? Não, não se percebe, tanto mais quanto, ao escrever textualmente, «a massa humana» - sugestiva e bela expressão - «de pessoas que abandonam o sistema de ensino, que completam o ensino básico, que atingem o secundário ou que entram no universitário e não dispõem de qualquer know-how é deveras assustadora», tudo ordena, afinal, ao muito anglo-saxónico e pragmático «know-how».

Quanto à verídica finalidade da Educação, ao quanto mais importa, nem uma palavra.

Que nos diz de essencial o Miguel Poiares Maduro?

Que concorda com o tal Rui Tavares, cronista do Público, com quem Paulo Rangel em pleno acordo se encontra também. É simpático mas não nos diz muito.

Que distintas são as dinâmicas do mercado e da Universidade, recordando-nos um «post», por si publicado, alertando já «para o excesso de ênfase que é colocado na instrumentalização dos cursos universitários às necessidades imediatas do mercado». Se Miguel Poiares Maduro assim o afirma, não temos senão de aceitar que assim seja mas, se assim é, o erro é evidente e grosseiro, tão evidente e grosseiro quanto nem os famigerados planos Quinquenais da extinta U.R.S.S. em tal incorriam. Todavia, a dúvida afigura-se-nos pertinente: tudo se resume, afinal, a uma questão de distintas dinâmicas e errado ou necessidade de mais complexo planeamento?

Miguel Poiares Maduro dirá de sua justiça. Entretanto, porém, mais tem a acrescentar, afirmando também a existência de «problemas sérios no funcionamento do nosso mercado de emprego». O que sendo inegável nos coloca já em distinto plano de discussão, não sendo, no fundo, uma questão de «mercado de emprego» mas a existência de um verdadeiro mercado, sem mais.

Todavia, quanto ao mais, quanto ao quanto mais importa, quanto à finalidade da Educação, à finalidade da Universidade, nem uma palavra.

Serão as questões de emprego tudo quanto importa, que mais importa?

Bom, e tudo isto a propósito de quê? A propósito de uma crónica no Público de um tal Rui Tavares, que não houvéramos lido mas, perante tão alta e vasta exaltação, não deixámos de, atentamente, ir ler. E que afirma diz de essencial Rui Tavares em tão extraordinária crónica?... Que o problema do desemprego se deve ao mercado...

De peito aberto, aqui expomos toda a nossa vasta ignorância e incompreensão de tão preclara tese mas, na nossa muito humilde ingenuidade, sempre interrogamos: como de outro modo poderia ser?... Não garantido o Estado emprego a todos – a todos os licenciados, entenda-se -, obrigado estaria o «mercado» a fazê-lo, sem mais, apenas porque licenciados pelo Estado para empregados serem, se encontrarem os ditos?...

Não vislumbramos o alcance da tese – com pesar o confessamos.

Ah!, sim, Rui Tavares acrescenta mais, acrescenta igualmente que um dos nossos grandes males, como portugueses, é não possuirmos «head hunters» à altura dos americanos, de largos horizontes e superior entendimento da vida...

Será mesmo para levar a sério?...

Entretanto, três outros comentários respeitantes ao texto do Miguel Poiares Maduro, um da Sofia Galvão, outro do Pedro Norton e um outro ainda do Gonçalo Pistacchini Moita, nos suscitam também adicionais chamadas de atenção.

No caso do comentário da Sofia Galvão, como sempre, particularmente pertinente e arguto, afigura-se apenas pecar por parecer não atender em toda a sua extensão, ao facto dessa mesma atitude do tal «jovem» de 30 anos entender ser-lhe devido, por definição, um emprego para vida, à altura dos seus muito elevados pergaminhos, surgir pela mesma subtil instigação pragmático-socialista que deforma a actual Universidade e subjaz tanto na crónica de Rui Tavares quanto nos subsequentes textos aqui comentados.

No caso do comentário do Pedro Norton, embora seja hoje muito politicamente correcto apelar e exaltar uma «cultura de meritocracia», para além de profundamente anti-portuguesa, já Hayek a denunciava, com horror e profundo sentido crítico», n’«Os Fundamentos da Liberdade». Onde o socialismo falha, sempre se apela, em vão, mas não sem graves consequências, à «meritocracia» como grande e universal panaceia. É preciso atenção.

Finalmente, no caso do Gonçalo Pistacchine Moita, importa lembrar o seguinte: Saber é sempre saber da verdade; a verdade é una e individida; a Universidade nasce como a busca do saber Universal, como o que tende para o uno, o uno que há em todo o saber, como saber da verdade, una e individida.

Ou seja, em resumo e conclusão, talvez por aqui iniciando, mais clara Luz, em verdade, possível seja alcançar.

10 comentários:

Pedro Norton disse...

Caro Gonçalo,
Permita-me a provocação: agora é você que, para além de sugerir que é politicamente correcto invocá-la, sobre a meritocracia «nada diz». Estou sinceramente interessado em conhecer a sua tese. A que «graves consequências se refere»?

Paulo C. Rangel disse...

Caro Gonçalo: duas discretas observações.
Primeira. Lidas as três peças e os três comentários, nem há unanimidade, nem acordo entre eles. Há, isso sim, pontos de acordo e linhas de conexão. Designadamente sobre o modelo de universidade e a missão do ensino universitário.
Segunda. Ninguém falou em soluções fáceis, ninguém as propugnou. Creio até que qualquer um dos "posts" - muito dissonantes nos caminhos de remédio - aponta, quando aponta, para saídas difíceis.
Fica o encanto e o estímulo da sua prosa.
PS- Quanto ao "outsourcing" da universidade, um dia que tenha tempo, escreverei qualquer coisa.

Miguel Poiares Maduro disse...

Caro Gonçalo,

Uma vez aque acha que "a verdade é una e individida" a unanimidade não o devia surpreender... No entanto, tal como Paulo também eu entendo que existiam convergências mas não unanimidade. Em qualquer caso, em si mesmo a divergência ou o consenso não são positivos ou negativos. É a forma como lá se chega que é importante pois determina se se trata de um consenso genuino que não seja artificial nem imposto. O mesmo se passa com a verdade e a procura do saber "uno" a que se refere. Para mim não é importante saber se existe apenas uma verdade. O importante é reconhecer que a compreensão da verdade é humana e social e, como tal, contextual e susceptível de falsificação e que podemos discordar sobre a forma de lá chegar.
Felicito o Gonçalo por, aparentemente, já ter conhecimento da verdade. Eu limito-me a exprimir uma opinião com a esperança de convencer outros da mesma.
um abraço
Miguel

Anónimo disse...

"A estatização do ensino é, entre nós, uma constante desde a fundação da universidade pombalina nos finais do Séc.XVIII, quase contemporânea portanto da fundação da actual ordem da sociedade pelo primeiro plutocrata. O caso insólito do aparecimento de universidades privadas, há dois séculos rigidamente proíbidas pelo Estado, no momento em que a revolução socialista de 74 estatizava violentamente as instituições, as grandes empresas financeiras e até as propriedades fundiárias, seria o desmentido desse controlo se não acontecesse terem sido as universidades privadas condicionadas, na formação dos seus corpos docentes e nos seus programas escolares, de tal modo que não passam de extensões administrativas das universidades do Estado. O caso insólito da sua fundação reduziu-se, afinal, a um recurso da corporação universitária para pôr ao abrigo de algum excesso revolucionário os seus professores. Como, depois, os graus inferiores do ensino, em especial o secundário, sempre tratados com humilhante desdém, estão limitados pelo Miniatério da Educação a transmitir os conhecimentos ministrados na universidade, fica controlada a totalidade do ensino escolar."

Ernesto Palma em "O PLutocrata" - 1996

Anónimo disse...

"A divulgação da ideologia pelo ensino conduz sempre à instauração do sistema político correspondente. A Universidade do Estado é a Universidade pombalina. Foi criada com uma ideologia, a do iluminismo, da qual resultou o falso liberalismo do século passado. Ao iluminismo sucedeu o positivismo, comandado por Teófilo Braga, que deu origem ao liberalismo ignorante, corrupto, anti-clerical e ainti-sindicalista da 1.ª República. O positivismo - como mostra H. Marcuse no livro 'Razão e Revolução' - prepara mentalmente o marxismo. Com efeito, a nossa Universidade substituiu, nos anos quarenta, o positivismo pelo marxismo e o resultado foi a instauração do actual socialismo".

De uma sessão de Orlando Vitorino com estudantes, na Faculdade de Direito de Lisboa por ocasião da sua candidatura às Presidenciais de 1986.

Em "O processo das Presidenciais 86" - 1986

Gonçalo Magalhães Collaço disse...

Onde o Paulo Rangel vê distinção eu vejo essencial convergência em dois pontos cruciais: numa mesma primordial e exclusiva preocupação pela interligação entre Universidade e Emprego, atribuindo-lhe como finalidade primeira a preparação das pessoas para o mercado de trabalho; convergência ainda numa mesma recusa em pensar a Universidade como verdadeira Universidade, confundindo o que a Formação Universitária deveria ser com simples Formação Profissional. Duas convergências suficientes para criarem uma irredutível divergência e distância entre tudo quanto penso sobre a Universidade, uma verdadeira Universidade, e os supracitados textos de exaltação à crónica publicado por tal de Rui Tavares no Público de ontem.

Todavia, independentemente disso, no caso concreto do texto do Paulo rangel, quanto me chocou foi a estranha abertura à uma eventual possibilidade de «outsourcing» da Universidade Portuguesa. Noutro âmbito, i.e., no estrito âmbito da Formação Profissional, até poderia compreender algumas eventuais razões de tão arrevesado propósito mas nunca em relação à Universidade.

Não obstante, depois de toda esta divergência, fico em verdadeira expectativa para ler a defesa de tal proposta de «outsourcing», com a sincera esperança que o destino lhe conceda, breve, o tempo necessário à realização de quanto considero, desde já promessa. Mesmo que seja, uma vez mais para, salutarmente, divergirmos.

O Pedro Norton, por outro lado, afirma não ter eu dito nada além de considerar, ou sugerir, constituir a defesa de «uma cultura de meritocracia» uma atitude politicamente correcta, tudo antecedendo de uma muito elegante expressão retórica como a do «permita-me a provocação». Pois não houvera eu, liberal assumido, de permitir todas as provocações que o Pedro Norton entenda dever formular? Desde que me conceda equivalente liberdade de as deixar passar em branco sempre que não se me afigurarem suficientemente interessantes para dar resposta, não vislumbro razão suficiente para o impedir de tal satisfação.

De qualquer modo, vamos ao que interessa. A defesa de «uma cultura de meritocracia» é uma afirmação tão politicamente correcta que, hoje, do Presidente da República ao Primeiro-Ministro, do Primeiro-Ministro à Ministra da Educação e ao Ministro da Ciência e Tecnologia, a acabar, eventualmente, até num Obama ou num tal de Rui Tavares, não há quem não defenda uma «cultura de meritocracia» sem necessariamente saberem quanto estão a defender. Se isso não constitui uma afirmação «politicamente correcta» não sei o que uma afirmação politicamente correcta possa ser.

Todavia, para além da questão do «politicamente correcto», o Pedro Norton tem a habilidade de me passar o ónus de demonstração da tese segundo a qual, de uma «cultura de meritocracia», resultam sempre graves e perniciosas consequências. Sendo o Pedro Norton uma pessoa séria e reflectindo seriamente no que afirma, e citando eu Hayek, cumpre-lhe a si demonstrar as razões da sua discordância, antes de mais no que respeita a Hayek, tanto mais quanto se afirma também um liberal e conhecedor profundo da obra do grande autor do extraordinário, «O Caminho da Servidão». Então, sim, terei oportunidade de rebater, ou não, de acordo com o meu engenho ou as suas irrefutáveis capacidades argumentativas, tal tese sobre as muitas virtudes de uma «cultura de meritocracia». A habilidade de transpor para mim tal ónus é transformar-me numa espécie de Mestre-Escola, figura e papel que se me enquadram mal e que, para ser franco, não tenho o mais mínimo interesse, vontade ou sequer paciência para representar.

Quanto ao comentário do Miguel Poiares maduro, é tão infeliz que me custa, inclusive, a ele regressar. Fosse eu rude, muito rude, e diria ser o espelho do que o povo designa como «arrogante autosuficiência da ignorância atrevida», mas sendo mais polido, fico-me pelo epíteto de «texto muito infeliz».

Miguel Poiares Maduro, na ânsia de contradizer, confunde tudo. Confunde «verdade una e indivisa» com unanimidade; confunde o conceito de uno, transcendente, com a pluralidade, imanente, do mundo; confunde verdade com opinião, opinião com conhecimento, conhecimento com saber. Confunde tudo. Confunde tudo quanto distinto ficou já desde os Gregos. Confunde, inclusive, valor com método e, mais do que isso, Filosofia com Sociologia.

Uma frase como, «O importante é reconhecer que a compreensão da verdade é humana e social e, como tal, contextual e susceptível de falsificação e que podemos discordar sobre a forma de lá chegar», poderia ser subscrita por um muito douto e excelente Dr. Manuel Maria Carrilho, na esteira de um Rortry, mas pouco mais valor terá do que isso mesmo, poder ser subscrita e aplaudida por um Manuel Maria Carrilho, na esteira de um Rortry. A afirmação, em rigor, sob o ponto de vista filosófico, da verdadeira e perene filosofia, não deixará de ser sempre um disparate, subscrita e aplaudida ou não por um Manuel Maria Carrilho. E não me venha agora também o Miguel Poiares Maduro pedir para explicar tudo isto que um qualquer mediano aluno do antigo 7º Ano dos Liceus tinha já por obrigação saber _ como já referi no comentário anterior, ao Pedro Norton, não tenho feitio e, com a idade, cada vez menos paciência também, para armar em Mestre-Escola.

Infeliz, por fim, o texto do Miguel Poiares Maduro, quando não consegue fugir sequer à infantilidade do enfeite da pseudo-ironia do «felicito o Gonçalo por, aparentemente, já ter conhecimento da verdade», para logo contrastar com a falsa humildade do «eu limito-me a exprimir uma opinião com a esperança de convencer outros da mesma». Francamente. O Miguel Poiares Maduro é um Jurista reputado, Jurista do Tribunal Europeu de Justiça, se não erro na designação, citado pelo «The Economist», não lhe fica bem deixar-se levar por tais, tão funestos e infelizes ânimos. É triste, muito triste.

Gonçalo Magalhães Collaço disse...

Ele sempre há «anónimos» muito pertinentes. Quem diria...

Pedro Norton disse...

Caro Gonçalo,
Pedir-lhe que esclareça um ponto (para mim) obscuro da sua tese dificilmente pode ser considerado uma inversão do ónus da prova. Afinal de contas a tese é sua e antes de me pedir que a rebata conviria que eu pudesse entendê-la. Até porque pode bem acontecer que nada haja para rebater. Seja como for, não me resta senão respeitar a sua «falta de paciência».

Anónimo disse...

Realmente esta ideia do "outsourcing" da universidade portuguesa é do mais original - e do mais estrangeirado -que já li.
Não me admira minimamente, vem na senda de outras ideias do "sucesso" e da "convergência real e nominal" defendidas eplos ilustres e competentes políticos desta III Républica, muitos dos quais "nunca se enganam e raramente têm dúvidas", como sabemos, pese embora, quando visitaram empresas por eles então apelidadas de "promissoras e exemplares", como foi caso da herdade alentejana do Snr. Onassis, que faliu passados poucos e deixou um rasto de miséria na região.

Com os melhores cumprimentos,
CCInez

Anónimo disse...

Adenda e errata:

"...como foi o caso da herdade alentejana do Snr. Thierry Onassis, que faliu passados poucos anos, deixando um rasto de miséria e dívidas na região..."


Com os melhores cumpts.,
Carlos C. Inez