domingo, 17 de fevereiro de 2008

Fazer coisas belas a mulheres belas

Li com interesse e gosto as inteligentes (como sempre) considerações do João Luis Ferreira sobre o cinema. Mas não encontrei lá o cinema. Vi que havia uma bem arquitectada teoria que se basta a si própria (Não sei se o João está de acordo, mas há também uma “indústria da teoria”...), sem precisar dos filmes.
Para mim, os filmes são o cinema. Não deixo, ainda assim, de ter uma teoria. Em boa verdade emprestada por Truffaut: “O cinema é fazer coisas belas a mulheres belas.” É esta a teoria.
Enumero algumas provas de indesmentível carácter científico: a trémula e ingénua Lilian Gish do “Lírio Quebrado” de Griffith; o calor torrencial da dança de Rita Hayworth na “Gilda” de Charles Vidor; o amor obsceno e metafísico de Gene Tierney pelo fantasma de Manckiewicz; o obscuro objecto do desejo que Buñuel descobriu em Carole Bouquet; a involuntária sexualidade de Marylin no “Pecado Mora ao Lado” de Billy Wilder; a luz intensa e mágica do olhar de Elizabeth Taylor em “Um Lugar ao Sol”; os lancinantes pedidos de socorro de Natalie Wood em “Esplendor na Relva”; os shorts brancos de Jean Seberg em “Bonjour Tristesse”. A Monica Vitti de Antonioni, a Fanny Ardant de Truffaut, a Karina de Godard, a Liv Ullman de Bergman, a Loren de De Sica, a Nastassia Kinski de "Tess" e "Do Fundo do Coração", a Grace Kelly da "Janela Indiscreta". Todas as estrelas que os produtores amaram. O rosto, o corpo, os seios, as ancas de Ava Gardner, ponto final.

7 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

O Photoshop e a manipulação digital da imagem tornou todos/as belos/as no cinema.

Antigamente, era a fotografia a preto e branco, a melhor amiga da mulher, hoje, podem mostrá-las a cores e com pele porcelânica. Do homem, o melhor amigo era o bigode e o restaurador de cabelo. Pintavam o cabelo e ficavam jovens.

Helena Forjaz disse...

Manel, estou de acordo. E já agora, a propósito da Rita Hayworth ( apenas por ser da sua lista a única ruiva) Cesariny sempre dizia que o mais perigoso eram as mulheres que não sendo inteligentes até pareciam inteligentes... SErá que chega serem belas?????

Miguel Poiares Maduro disse...

Cara Helena,

Às vezes a beleza é tanta que se transforma numa forma de inteligência...
mpm

joshua disse...

Manel, acho que ficaram aí duas situações obrigatoríssimas por elencar na lista. Talvez adivinhes quais, parafraseando a tua mesma teoria emprestada de Truffaut: «O cinema é fazer belas coisas comerciais a belas mulheres comerciáveis.»

Pedro Norton disse...

Ó manuel e a Joan Fontaine de Ophuls? Alguma vez se filmou a paixão de forma mais trágica e arrebatadora? Há coisa mais bela para se fazer a uma mulher bela do que marchar, seráfico, ao encontro de uma morte anunciada para expiar a culpa imensa de não se ter amado em vida? Desde Shakespeare que ninguém se suicidava assim!

Manuel S. Fonseca disse...

Pedro,
a sua veemente carta a uma mulher desconhecida vai ser, tenho a certeza, entregue. Reconheço as limitações do meu "inventário", a que faltava pretensão exaustiva. Ophuls amou, como poucos, a beleza das mulheres.
Ao justo golpe de espada da Helena o Miguel respondeu com com subtil golpe de florete. Recordo que o florete tem lâmina flexível com ponta em forma de flor. Mas fico a dever à Helena um post sobre beleza e inteligência.
Ao Táxi agradeço a informação e com o Joshua não podia discordar mais. Há um género de suspeita que não partilho.

Helena Forjaz disse...

Manel,fico ansiosa pelo dito post.