terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O Prémio Pessoa 2007

O mercado dos livros em Portugal está em grande transformação, sobretudo nos últimos cinco anos. As mudanças traduzem-se na consolidação de grupos de editoras, distribuidoras e livrarias, e em investimentos avultados de grupos financeiros dinâmicos. E são bem visíveis no crescimento das livrarias e do público. Só as estatísticas não mostram isso porque as instituições públicas em torno do negócio (INE, associações de editores, institutos do livro, etc.) continuam num confrangedor atraso.

Este movimento de expansão tem um outro lado. Trata-se da grande procura de autores por parte das editoras. Há um campo onde essa busca tem sido muito profícua: o dos livros de História. Lembro-me de três editoras mais dinâmicas neste campo. São elas o Círculo de Leitores/ Temas e Debates, a Esfera dos Livros e, em menor escala, a Alêtheia. O Círculo de Leitores teve um enorme êxito há cerca de 15 anos com os oito volumes da História de Portugal organizados por José Mattoso e desde então promove a publicação de colecções e títulos isolados de História. A Esfera dos Livros tem conseguido chamar a si a produção de livros a partir de dissertações de doutoramento, entre outros livros de encomenda, centrando-se nos temas mais candentes da história nacional, sobretudo do período do Estado Novo. A Alêtheia tem tido menos sucesso mas está claramente por trás dos livros recentemente produzidos, também visivelmente por encomenda, de Vasco Pulido Valente e Filomena Mónica.

Eu não sei muito bem como é que os responsáveis destas editoras trabalham. Todavia, se eu fosse um deles seguramente que, hoje, candidatava os “meus” autores aos prémios em ciências sociais, como é o caso do Prémio Pessoa. E deve ser isso precisamente que é feito. O que podemos presumir que acontece é que todos os anos as editoras mais organizadas enviam candidaturas àquele prestigiado prémio, e a outros seguramente, até que um dia o Prémio Pessoa é mesmo concedido. Isso não tem nada de mal, claro. Todavia, é preciso que todas as editoras façam o mesmo, para que não cheguem às mãos do júri apenas os livros feitos pelas grandes editoras, pois esse não deve ser de modo algum um critério de pré-selecção.

Isto que acabo de dizer é baseado em 1/3 de factos e 2/3 de conjecturas e por isso pode estar tudo errado. Todavia, foi a única maneira de encontrar nas poucas meias-horas que tenho para pensar nestes assuntos uma explicação para a paradoxal atribuição do Prémio Pessoa de 2007. Tratam-se de primeiras obras e de alguém com mérito. Todavia, há muitos outros autores nessas condições que não ganharam o prémio e precisei de perceber porquê. A razão terá sido porque não foram publicados por grandes casas editoras, nomeadamente o Círculo de Leitores e a Esfera dos Livros.

Devo dizer que, a ser verdade esta ideia, acordei para ela tarde. Entre 2004 e 2007, fui responsável pela Imprensa de Ciências Sociais e agora penso que deveria ter mandado pelo menos uma candidatura ao Prémio Pessoa, a de Bruno Cardoso Reis, autor do livro Salazar e o Vaticano, publicado em 2006(1). Um outro livro muito importante, publicado neste ano de 2007, neste caso uma segunda obra de um jovem professor de História, é o livro de Pedro Aires de Oliveira, Os Desafios da Aliança. A Grã-Bretanha e a Questão Colonial Portuguesa, 1945-1975, da também pequena editora Tinta da China(2).

Espera-se que o Prémio Pessoa de 2007 seja um alerta para que haja mais concorrentes no futuro. Aliás não se justifica que um prémio tão importante tenha apenas 29 candidaturas.

Nada disto desmerece evidentemente a vencedora deste ano, Irene Flunster Pimentel, a quem deixo aqui os meus parabéns.

(1) http://www.ics.ul.pt/imprensa/det.asp?pesq=cardoso&pesq_escolha=autor&id_publica=182
(2) http://www.tintadachina.pt/book.php?code=03b104025a685cea8f3aa17f44706274&tcsid=37ffe448d6380fec12ca3e7a9c774d6a

2 comentários:

Pedro Lains disse...

Há uma pequena falácia neste meu post: é que não sei se as pessoas que nomeei se candidataram ou não. Peço desculpas, esperando todavia não me enganar.

Marina Costa disse...

A posteriori poderá se racionalizar a escolha do juri desta forma. O Prémio Pessoa ao atribuir o prémio a Irene Pimentel de facto sinaliza a todas as editoras que essa é a sua natureza a partir de 2007.
Resta no entanto dizer que o Prémio Pessoa não tinha sido até aqui um Prémio para A Novidade (de Qualidade ) Literária do Ano.