quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

IV. Proclo, Teologia Platonica. Testo greco a fronte, Bompiani, 2004

Os neoplatónicos, e Proclo não escapa a essa regra, mostram alguma da ironia da nossa época. As pessoas andam buscando filosofias ditas orientais, que supostamente conciliam as necessidades espirituais com um discurso mais racional. Paradoxo a múltiplos títulos, porque são em geral pessoas muito pouco racionais (e apenas desejando curar a tensão quotidiana) que se colam a essas filosofias. A busca do budismo é um dos exemplos desta moda. Devo salientar que é exactamente por respeitar profundamente o budismo que me fazem impressão (a mim e aos budistas) as tontices de quem o procura turisticamente. Proclo, quando enuncia a lei de Adrasteia, mostra que a tradição europeia nunca perdeu (para quem a conhece, obviamente) a noção de espiritualidade associada ao racional, numa formulação próxima do budismo. A lei (em causa “thésmos” e não “nómos”, ou seja lei mais que divina e inquebrantável, ao contrário da mera regra) de Adrasteia, a herança de Platão do Fedro, reza: "Esta é a lei de Adrasteia: toda a alma que viu alguma das entidades verdadeiras está imune ao penar" (p. 525). Não é possível em tão poucas palavras definir tão bem o budismo. E afinal trata-se de uma veia também europeia. O que só prova que quem em geral procura o budismo apenas carece de folclore e não tem imaginação suficiente que se active sem farpela de monge colorida que a excite.

Imagino a objecção, mais que gasta. Em que o que eu digo pode relevar para a discussão da Europa? Já várias vezes avisei que não me fico pelo espírito burocrático que domina a classe política, os jornalistas, os politólogos, os comentadores políticos. Prefiro falar na Europa, não em questão laterais. Mexo directamente na massa da questão. Se parece estranho o que faço é porque a Europa é estranha para a imensa maioria dos seus habitantes na perspectiva da profundidade, maldição banal de todas as culturas superiores. Que não falo da Europa? Mas se é dela que sempre falo. Do que falam outros não sei. Apenas me consola que eles também não.

O problema de Proclo foi o de ter sido lógico, no sentido forte a que os gregos lhe dão. Sob este ponto de vista lógico é bem mais universal que o cristianismo. Mas que tem ele para oferecer? Um Uno que é indeterminável, incognoscível, sob pena de se desgraduar e que é incomensurável com os restantes passos da processão dos entes. Deuses gregos que são descarnados ao ponto de não terem história, isentos de qualquer narrativa ou de oscilação. Uma distância infinita entre o Uno e qualquer das suas manifestações.

Já o cristianismo tinha para oferecer um conjunto de ousadas presenças, quase obscena sob o ponto de vista lógico. Deus está carregado de determinação, Deus compreende-se pelo Ser. Deus é amor, Deus é Vida, Deus é Logos, Deus é Pai, Deus é Filho, Deus é Bom, Deus é Espírito Santo. Deus faz-se homem e conversa connosco. Deus entra na História e padece dela. Deus partilha plenamente da nossa natureza quando feito Cristo. Deus fala-nos. Deus actualiza-se em Presença Real na hóstia (embora a formulação final do dogma da transubstanciação seja mais tardia, esta encontra-se bastamente enunciada pelo Padres da Igreja).

O cristianismo, embora tenha sofrido a influência intelectual de Platão, influência de que nunca se separou nem negou, acaba por ser aliado natural de Aristóteles. A primazia do Ser não é inócua de efeitos. O Deus que os cristãos anunciam ao mundo é um Deus que vem ao nosso encontro, que é feito de presença permanente e intensa, que se faz nosso irmão, sendo nosso Pai. Que participa da mesma carne e do mesmo mundo que é o nosso.
A tragédia de Proclo não é tanto a de ter sido um epílogo, mas o de apenas nos ter para oferecer uma poética e sublime despedida. O Deus dos cristãos oferece uma nova vida, e uma permanente presença. É natural que a Europa o tomasse por companheiro e por Senhor. Só Ele poderia ser motivo de novas aventuras.


Alexandre Brandão da Veiga

1 comentários:

flavitah disse...

muito interessante este blog!!
gostei!
eu sou católica desde que nasci e nunca tinha lido nada sobre este tema mas tens razão!! :)