Beijos que se perdem

E chegado aqui, rectifico. O anti-consumismo é uma má desculpa. O que acontece é que prevejo em cada presente uma ameaça cruel e primária. Nos que recebo e nos que ofereço. Temo não gostar e tenho medo de que não gostem.
Em cada presente, em cada embrulho, no colar que escolhi a pensar no aveludado decote, no alarido da gravata que me dão, há uma escolha e há um gosto que pedem aprovação. Quando se desatam os laços, se rasga o papel natalício e os livros, os cds, os dvds irrompem com desconsideração na euforia da meia-noite, aflige-me pensar que os recebam mãos desiludidas e que no rosto amado surja um esgar de inconfidente rejeição. Muito pior, temo que sejam minhas essas mãos, esse esgar.
Inclino-me a pensar que os chineses, nesta matéria, demonstram uma enorme superioridade civilizacional: só abrem os presentes depois de se retirar quem os ofereceu. Não fora os beijos sem fim que perdem...
2 comentários:
A consciência do tempo finito, quando o tempo foi feliz, cala-me outras preocupações, como o encontro com o agrado do outro. Concordo que esse é o Espírito: o encontro com o próximo (também na lotaria dos presentes). Mas cego com os limites da eternidade terrena dos meus. Como se não soubéssemos que a vida acaba. Esta vida acaba.
Eu, confesso, no Natal abandono a filosofia. Junto o profano ao sagrado, adiro a todas as causas, estou pronto a comprar todas as coisas e se pudesse satisfazia todos os desejos. Talvez seja porque, para parafrasear a Inês, sejam os dias em que nos esquecemos que que a vida acaba.
E confesso, igualmente, Manuel e Inês que eu não sentiria só a falta dos beijos...
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