quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Deus

Se há assunto que exige elevação e solenidade é a Ideia de Deus. Não adianta perder tempo exibindo paradoxos que verdadeiramente não se entendem, nem desenvolvendo teorias por interpostas pessoas. Nada se ganha em profundidade diminuindo a questão em conversas pseudo-eruditas ou, simplesmente, atrevidas.

Presume-se, erradamente, que por ter havido muita literatura de ideias, muita arte, muita religião e muito contraditório, a questão esteja resolvida ou, por outro lado, seja irresolúvel e, por isso, se ponha a jeito como assunto para alienados ou como repasto para brincalhões.
Sem querer entrar na discussão da morte de Deus queria apenas deixar dois contributos.
O primeiro é: Deus, ou a Ideia de Deus, é um campo filosoficamente aberto não há demonstração da sua existência mas à garantia de que tudo o que a ele se reduzir (redução num sentido de sistematização) é a própria garantia da Liberdade.
O segundo é: por mais voltas que se dêem, Deus que é uma realidade transcendente à condição dos homens, mas a todos comum, só pode ser verdadeiramente compreendido na mais extrema experiência de humildade e despojamento interiores.
Não se espere, pois, que a razão o venha mostrar; nem se espere, também, que sem a razão alguém o possa ver.

3 comentários:

Sofia Galvão disse...

Não é claro, para mim, se o João Luís escreve sobre o Deus dos filósofos ou o Deus da fé...
E a questão interessa dada a relação entre Um e Outro, no quadro da fé cristã.
Como ensina Ratzinger, esta escolheu o caminho do 'logos' e a verdade, recusando o mito e o hábito. Partiu, pois, de uma opção radical pelo Deus dos filósofos. No entanto, fundada na mensagem do Evangelho, a fé cristã veio a operar uma transformação profunda ao conceber um Deus determinado pela categoria da relação, um Deus que é pensamento sob a forma de amor.
Desta tensão íntima, resultou, afinal, que «o Deus dos filósofos é totalmente diferente do que pensaram d'Ele os filósofos, sem deixar de ser, no entanto, aquilo que eles constataram a respeito d'Ele, e que esse Deus só é realmente conhecido quando se compreende que Ele, a verdade por excelência e o fundamento de todo o ser, é também indistintamente o Deus da fé e o Deus dos homens» (Joseph Ratzinger, Introdução ao Cristianismo, Principia 2005, p. 104).
Ou não, João Luís?

João J. disse...

Sendo certo que Deus é dificilmente, pela dimensão transcendente, verbalizável, não deixa de ser curioso e contraditório ver que se critique alguém por escrever posts sobre Deus, com esse argumento, e depois dedicar um post inteiro com dezenas de palvras, sobre Deus.
Em que é que ficamos, afinal?

João Luís Ferreira disse...

joão j.: não critiquei ninguém por escrever posts sobre Deus. Referi-me ao modo como se fala. Por fim limitei-me a dar uma perspectiva para pensar Deus fora de polémicas, como via para a Liberdade.
sofia: se pensamos é porque cumulativamente sabemos e ignoramos. Pensamos porque ignoramos e pensamos para não ignorar. Ora a ideia de Deus só existe para quem pensa em qualquer dos diferentes graus em que o pensamento se exerce desde as formas mais ingénuas às mais especulativas, quer dizer só existe no Homem. Ora filosofia e fé não têm qualquer forma de antagonismo que implicasse uma separação no discurso. O que se reconhece, nomeadamente na filosofia portuguesa, é que nem a razão é autosuficiente porque não é mecânica, nem a fé é uma ficção desligada da nossa racionalidade.