quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Tormenta sobre a Zarzuela

Uma semana no País Basco dá-me o pulso, a cada minuto, da maior crise institucional que a Espanha vive desde a morte de Franco em 75, passando pelo golpe militar de 23 de Janeiro de 1981.
A queima de fotografias dos Reis, em Girona, por meia dúzia de jovens radicais nacionalistas da Catalunha, a alguns metros de um acto oficial presidido por Juan Carlos, foi o rastilho para uma guerra de palavras e iniciativas de sinal contrário que, 32 anos depois, transforma a discussão do Regime na primeira e mais abundante discussão na rua, nas antenas e nos jornais do País.
A recusa de um voto de repúdio pelo Parlamento catalão transportou a questão da rus de Girona, do plano criminal para o plano político. Em uníssuno, os bascos elevaram-se na rua e no Parlamento com a convocatória de um novo referendo sobre um plano de soberania para «o seu País».
Tudo se questiona: porque estava o Rei de férias enquanto ardiam as Canárias? Porque não disse uma palavra sobre a entrada na guerra do Iraque? Deve o Comando Supremo das Forças Armadas estar entregue a alguém por hereditariedade? Será sufiente referendar a Constituição que devolveu a democracia a Espanha sem referendar directamente o Regime?
A oficial TVE desdobra o assunto em peças sobre os gastos a Família Real por mês e por membro (bem menos do que o orçamento da Presidência francesa para 2008: 8,2 milhões de euros contra os 31,78 milhões gauleses); sobre a propriedade dos palácios (Património do Estado) e discute se o Rei pode aceitar como presente de um amigo estrangeiro o iate, sem comprometer o País?
Os veteranos do Exército expressam publicamente lealdade ao Rei como se estivesse iminente um golpe de Estado. E a alcaideza de Pamplona, Estella y Lizarza, é tratada como uma heroína na primeira página do jornal «La Razon» pelo simples facto de se ter atrevido a cumprir a Lei - rompendo a tradição - hasteando pela primeira vez a bandeira espanhola na sede do Ayuntamento. Outra publicação destaca um dossier sobre «o que é ser nobre no século XXI - retrato da «variopinta» aristocracia espanhola» - um tema inóquo, há meses, hoje carregado de sentido pólítico.
Não deixa de ser irónico este surto de notícias logo quando a Família Real estreava a renovação da sua imagem com o lançamento de site em que explica em detalhe a nomeação de Juan Carlos; a forma como sucedeu na Chefia do Estado (em 1969 e 1975); os impostos pagos pela Família Real etc. Para contrariar a opacidade, o próprio Rei introduzira voluntariamente o cargo de «interventor» ou auditor das suas contas, sobre as quais não está obrigado a responder.
Juan Tarda, deputado da esquerda republicana da Catalunha, admite que a estratégia do seu partido é pôr o debate da Monarquia na rua. Mas será politicamente eficaz fazê-lo. Será politicamente responsável abrir uma porta que ninguém sabe como fechar?
Os amigos de Tarda parecem repetir o perigoso lema dos revolucionários da I República (1873) «Paz aos Homens, guerra às instituições» que tanto sangue fez derramar em Espanha. Mais tarde, nos anos 30 do século XX, a violentíssima separação cromática entre vermelhos e nacionalistas seria mais circunstancial do que a separação regional que predura em Espanha.
Hoje, os alarmistas, ou os lúcidos, ou os de boa memória crêem que se está a reeditar o ambiente que precedeu o brutal disparate da Guerra Civil oitocentista. Os burgueses, ou os lúcidos ou os de fraca memória acreditam que tudo se resume a mais um beliscão dos nacionalismos na meseta centralizadora de Castela. As maiorias que a democracia gera favorecem o segundo grupo. Mas nada será como dantes no imaculado respeito pela família real espanhola, que será agora ainda mais profissional, mais política, mais sofrida. Ou não será.

2 comentários:

cci disse...

Ora, mas ao transformarem aquela queima de fotos em tema de discussão nacional, era precisamente o que aqueles rapazolas supostamente "nacionalistas" queriam.
E contra mim falo, como português, pois a desunião ( e o Rei é o maior factor de união) dos espanhois é o que mais nos convém...

Inez Dentinho disse...

Concordo consigo CCI, mas falava na perspectiva dos espanhóis sobre o seu País. A queima das fotografias é injusta para estes Reis.
Mas, como portuguesa da raia, também dividiria a Espanha para melhor poder reinar na Panínsula. Aproveito para lembrar o que as Mães de Badajoz diziam aos filhos que não queriam comer a sopa: «Mira que vienem los portugueses!».