domingo, 5 de agosto de 2007

Ensino

Quando em férias, há uns dias, li de relance um debate neste blog em que a certa altura o Nuno Lobo Antunes dava a sua concordância com a frase, tornada ditado popular, que diz que “quem sabe faz, quem não sabe ensina”. Na altura não tive tempo para reagir e agora apetecia-me discordar dessa ideia.

Ensinar é obviamente uma ocupação importantíssima e muito do que cada um de nós é decorre da aprendizagem ao longo dos vários ciclos de ensino. Dou o meu exemplo: porque tive um óptimo professor de Matemática no Liceu, consegui fazer um curso de Economia com maior facilidade pois essa disciplina nunca foi para mim um bicho-de-sete-cabeças. Porque não tive praticamente educação musical (ninguém a teve na altura) e tive professores péssimos de desenho, sou um zero-à-esquerda nessas matérias. Talvez com uma análise aprofundada mudasse de ideias sobre isto, mas por agora é essa a minha impressão. E consigo ver outras formas de a confirmar. Mais um exemplo: os poucos alunos de mestrado que me passam pelas mãos distinguem-se claramente por duas coisas: pelas médias de licenciatura que trazem com eles (o que mostra que as avaliações nas universidades portuguesas tendem a ser fiáveis); e pelas faculdades de origem (o que prova que há formas diferentes de ensinar, com resultados também diferentes).

A prova que o Nuno às tantas dá, de que nos EUA se pergunta onde treinaste mas não onde aprendeste, pode ser uma verdade apenas parcial. Porquê? – Porque o sítio onde se aprende pode ser crucial para se ir parar a um bom sitio para o treino. Aliás, de outro modo não se entenderia que houvesse quem investisse 50 mil dólares ou mais para tirar um curso de medicina numa Universidade da Ivy League.

Falta muita prática ao ensino feito em Portugal e isso deve ser apontado como um enorme defeito – mas também aqui se deve recordar que isso na maior parte das vezes acontece por falta de meios e não por questões de princípio. Comparar Portugal com a Ivy League é necessariamente injusto e é preciso recordar que nos EUA há muitas universidades muito fracotas.

Ao reler este texto, pareceu-me que estava a defender a Universidade portuguesa. Não: ela é péssima e tem de mudar muito. Mas convém fazer diagnósticos acertados para encontrar as curas certas.

13 comentários:

Nuno Lobo Antunes disse...

Interessante que o debate não se tenha esgotado, o que significa que possivelmente toquei uma corda sensivel. Os comentários à volta do meu Post também me dizem que fui confuso na forma, que não nas intenções.
Ponto 1: Ensinei estudantes de Medicina de duas Ivy League,nomeadamente Columbia e Cornnel. Os alunos do terceiro e quarto ano tinham responsabilidades clínicas bem superiores à dos internos de especialidade portugueses nos primeiros anos de especialidade, ou seja, mesmo enquanto estudantes, aprendem Medicina praticando-a.
2 - Discordo em absoluto e com veemencia que o problema (principal)em Portugal é falta de meios. Não, não é, trata-se de um problema "cultural" mais vasto, e alguns exemplos já foram neste espaço apresentados
3 - A comparação entre as universidades portuguesas e americanas de qualidade é justa, na medida em que com ela podemos aprender alguma coisa, nomeadamente qual a raíz da diferença. Como muito bem diz, convem fazer o diagnóstico certo para encontrar o remédio adequado. Garanto-lhe que o diagnóstico principal não é falta de meios, e que o tratamento não é mais dinheiro. Como dizia no meu Post, a terapeutica do Ensino, começa pela Educação, ou seja: premiar quem tem mérito, punir quem o merece, oferecer exemplos de quem seguir.
4- Evidentemente que a ironia do "quem sabe faz...", é isso mesmo, uma ironia, mas quantas vezes me tenho lembrado dela, ao assistir a discursos de sapiência sobre assuntos de que o palestrante não tem qualquer experiência...

Gonçalo Magalhães Collaço disse...

Qaundo a Universidade, na pessoa de alguns dos seus mais distintos representantes se perde em discussões como a presente, com todo o ar da mais profunda seriedade, sem interrogação, pelo mais breve momento sequer, do mais fundo e verdadeiro significado da palavra educar e menos ainda a mais alta finalidade de toda a educação, não faltando o sempre sacrossanto elogio e hossanas ao prémio do mérito e do castigo dnão se sabe bem do quê, na mais plena inconsciência da sua missão, tudo está dito.

Ah!, pobres gerações a quem dada foi esta triste Universidade.

Nuno Lobo Antunes disse...

Já agora, não quererá o Gonçalo elucidar os pobres mentecaptos que se perdem em discussões vãs, qual "o verdadeiro significado da palavra educar", qual a "alta finalidade de toda a educação", e talvez "demonstrar a plena consciência da sua missão", de forma a demonstrar que na sua pobre geração, ainda existe uma luz ao fundo do tunel: O Gonçalo Magalhâes Collaço!

Pedro Lains disse...

Caro Nuno,
Acho que estamos essencialmente de acordo, excepto num ponto. Eu não acho que seja a "cultura", pois essa é para mim a última explicação (se a culpa é a cultura, quais as origens das diferenças de cultura?). Eu acho que são os meios que fazem a diferença mas isso não quer dizer que ache que mais meios trariam alterações imediatas ou a breve trecho. Não iriam. Assim, para sintetizar, diria que o que nos distingue das boas universidades é o tempo, o passar das décadas e dos séculos. Não será?

Nuno Lobo Antunes disse...

Caro Pedro:
Não, ou se fosse teríamos das melhores Universidades do mundo, ou não seria assim?
Claro que os meios são importantissimos, mas necessitam de estar ao serviço de uma ideia de Universidade.

Pedro Lains disse...

É um problema: como sociedade, vivemos na miragem de que alguma vez fomos ricos e poderosos. Mas eu vivo sob a impressão de que sempre fomos pobres e periféricos, mesmo nos séculos XV e XVI. Um dia ainda farei umas contas para "provar" isso. Os EUA são uma potential mundial do Top 5 há mais de 100 anos. Fora isso, concordo com tudo o resto que disse.

Gonçalo Magalhães Collaço disse...

As ironias do destino _ quando tanto aqui se discute e enaltece a importância, significado e valor da atitude crítica, eis que um brevíssimo comentário crítico logo é visto como se terrível ataque ad hominem fora. É comum, tradicional e, infelizmente, muito português. É pena mas não justifica dramatizarmos excessivamente porque, numa época de sobrevalorização do sentimento, das emoções e dos afectos, esperado é que assim suceda.

Educar, pelo próprio étimo, ex-ducare, significa «pôr para fora». Para todos quantos passámos pelo antigo 7º ano dos Liceus, quando havia ainda a disciplina de Filosofia, rememorando os diálogos de Platão, compreendemos o que isto possa significar, da reminiscência à maiêutica, até ao diálogo intitulado Ménon onde Sócrates procura provar saber o escravo, do mesmo nome, muito mais do que ele próprio alguma vez consciência teve.

Se aceitarmos o significado proposto para o termo educação, com facilidade se aceitará a compreenderá que «a mais alta finalidade da educação» não pode deixar de ser senão a formação de homens livres, i.e., dotá-los daquela verdadeira capacidade que lhes permita uma plena afirmação da sua vocação.

Tudo o mais vem por acréscimo. Basta pensar _ ou saber pensar.

Seja como for, não é, não deve ser, missão da Universidade preparar futuros funcionários públicos, constituir-se como «escola profissional», numa espécie qualquer de patética agência de empregos ou de simples funcionários da vida, tal como sucede, assim creio, embora longe me encontre de tais meios, ainda hoje.

Pedro Lains disse...

Caro Gonçalo,
Era apenas ironia, pelo que percebi. Mas também percebi o problema levantado pelo Nuno: não é fácil debater quando se questionam definições básicas. Se vamos discutir o que é educar, acabamos por nos perdermos em outras águas. E porque não discutir, então, o que é discutir, por exemplo?
Mas o essencial é que parece haver alguma concordância entre várias pessoas deste blog (Maduro, Rangel, Lobo Antunes, você, eu e porventura outros) sobre ao papel da Universidade (nos 3 anos de licenciatura à la Bolonha), que não deve ser o de educar técnicos, mas sim o de dar uma educação geral, universal. Se assim for, isso é um avanço em relação a muito que se diz por aí neste país sobre o papel das universidades.

Anónimo disse...

Pedro Lains assume uma visão muito semelhante à apresentada por Maria Filomena Mónica e à sua visão do seu Portugal (reporto-me a um programa divulgado na RTP onde esta investigadora do ICS dissertava sobre a necessária revolução liberal a que este nosso país se deve comprometer). Na opinião desta visão corrente em alguns meios académicos, Portugal não tem, neste momento, qualquer possibilidade de discutir e de internacionalizar a sua universidade numa perspectiva competitiva. O problema, como realça Pedro Lains, é um problema temporal. Sempre fomos pobres, só no futuro seremos ricos. Sempre fomos pouco desenvolvidos academicamente, só no futuro o seremos. No meio terá que existir uma revolução liberal que permita criar riqueza e combater os problemas institucionais. O problema é institucional/económico/de pobreza e todos os que dizem que o problema é "cultural" estão errados.

Eu, no entanto, coloco-me do lado dos que dizem que o problema é cultural. Pensar a universidade e a ciência não pode ser feito apenas ligando a indícies e variáveis económicas ou baseando-nos numa filosofia política. Uma (sub-)disciplina que deveria estar ao alcance de qualquer responsável universitário neste nosso país pela importância que tem nestas questões é a sociologia da ciência. Esta (sub-)disciplina explica ou interpreta o desenvolvimento das comunidades científicas, seus erros e demais influências no seu funcionamento.

Em suma, o problema da universidade não é resolvido por uma filosofia política ou uma teoria económica e infelizmente é assim que muitos dos nossos professores ainda abordam estas questões. Existem àreas (sub-)disciplinares que se dedicam ao estudo e investigação da ciência e da universidade (enquanto instituição científica) a que todos nós deviamos dar atenção. O problema do Portugal de Filomena Mónica (Pulido Valente? Esteves CArdoso?...etc.) é analisarem todo este portugal há luz de uma filosofia política. Mas há mais luz e mais luzes do que a filosofia política. E é uma pena que estas regras do que é e de como deve funcionar uma boa universidade (enquanto instituição de ciência) não sejam aprendidas por todos os que se dedicam a praticá-la. No Reino Unido, por experiência própria (indirecta), sei que a primeira coisa que os novos investigadores são dados a conhecer é um conjunto de directivas de como se devem reger perante os alunos e perante a instituição universitária.

Será que o problema não é de cultura? Acho que sim...

Nuno Lobo Antunes disse...

Amen.

Anónimo disse...

A título meramente utilitário será necessário realçar uma contradição existente mais do que realçar a comunhão de ideias. Para pessoas como Nuno Lobo Antunes ou Miguel Poiares Maduro mais do que problemas institucionais/estruturais/nacionais, o fraco desempenho da universidade Portuguesa deve-se à "cultura" vigente. Pedro Lains e grande parte da comunidade intelectual portuguesa que trabalha em ciencia realçam os problemas "estruturais".

A palavra cultura nunca foi bem desenvolvida mas, a tírulo meramente pessoal, penso que pode incluir dois elementos: por um lado o investigador mais do que culpar o meio ambiente/o país/o modelo económico vigente deve perceber que o insucesso académico se fica a dever a ele próprio, à sua falta de mérito pessoal. Hoje em dia, como realçou Nuno Lobo Antunes, não há problemas económicos que nos impeçam de competir pelo acesso à informação. Em segundo lugar penso que um elemento fundamental nestas questões culturais tem haver com as próprias estratégias de investigação. Mais do que uma estratégia de "self-reliance" caracterizada por uma ideia de ciência particularmente portuguesa descontextualizada internacionalmente, ou de uma estratégia "imperial" caracterizada por adopção de um tipo de literatura internacional ao "caso português", uma terceira estratégia de investigação caracteriza-se por entrar no debate internacional e mover-nos inteiramente pela sua "racionalidade". Isto não impede que não demos respostas a todos os que apontam o caminho da "self-reliance" (o trabalho é perceber o que preocupa estas pessoas mas contextualizar as suas preocupações nacionais com uma linguagem internacional e devidamente contextualizada disciplinarmente) ou mesmo os que adoptam uma estratégia "imperial" (promovendo uma estratégia que aplique o "caso português" a uma mais valia qualquer no debate internacional desejado), mas o primordial é que as diferentes academias portuguesas funcionem segundo a lógica do mercado de ideias internacional sempre.

O estado das ciências sociais em Portugal não é famoso. Há que tentar perceber porquê. A solução de pessoas como Maria Filomena Mónica ... etc. não traz a solução. O que esta visão contribui é precisamente para continuarmos a perpectuar problemas que vêm do tempo do Estado Novo como a primazia do papel do intelectual no nosso país sobre a "populaça" ou o funcionamento de comunidades científicas segundo uma lógica de "orgulhosamente sós".

A educação desempenha um papel fundamental para uma qualquer sociedade neste nosso século e para um qualquer modelo de desenvolvimento de uma sociedade. É sem dúvida importante discutir o que vai de errado nela em Portugal. Mas discutir a sério sem pausas de boa-vontade e de susceptibilidades. A desunião esteve claramente presente nestes posts aqui publicados ...

Pedro Lains disse...

Apesar do post ser anónimo, aqui vai uma resposta distraída. Portugal não só gasta pouco em R&D público e privado, em percentagem do PIB, como tem um stock de capital científico acumulado muito baixo. Onde se vê esse baixo stock de capital, nas ciências sociais? – Numa visita a uma qualquer biblioteca de uma das principais universidades americanas. Ou mesmo já em Espanha… Mas o problema do baixo stock acumulado não se resolve com injecções massivas de dinheiro, porque a capacidade de absorção por parte das instituições e das pessoas é limitada. Por isso, é preciso dar tempo à paciência. A explicação do que se passa tem de passar por coisas destas, sendo a alternativa pressupor que há culturas superiores a outras, um pensamento Weberiano há muito descartado.

Anónimo disse...

Antes de mais não foi minha intenção questionar a qualidade académica de Pedro Lains cujo trabalho devo confessar que não conheço (porque sei pouco de Economia e de História embora possa perceber a base filosófica que leva ao trabalho em História Económica) mas cuja consistência não me parece estar em questão. O esforço foi duplo, por um lado generalizar sobre o modo de produção de ciência em Portugal – particularmente sobre ciências sociais –, por outro, reflectir sobre a abordagem que grande parte das nossas elites universitárias possuem sobre ciência. Este esforço esteve sujeito a uma linguagem blogosférica necessariamente redutora e abrangente que vou continuar a manter.

O diagnóstico que faço do desenvolvimento de muitas ciências em Portugal é um que aponta para um tipo de desenvolvimento que privilegia modelos nacionais de desenvolvimento que, no meu entender, devem ser abandonados enquanto modo principal de investigação nacional. A ciência deve ser produzida não por uma lógica de “self-reliance” (que faz com que as diferentes disciplinas sejam proliferadas por modelos de desenvolvimento tipicamente Portugueses que privilegiam abordagens empírico-descritivas) nem por uma lógica de modelos de “relações imperiais centro-periferia” (que leva a adopção de uma literatura internacional que é aplicada ao caso Português) mas mais por uma lógica que nos leve a caminhar para um “império transnacional”. Nesta perspectiva existe um centro de poder disciplinar/académico (que normalmente se encontra no eixo anglo-saxónico) mas existem sistemas de ciências nacionais que se desenvolvem independentemente desse centro e criando mais-valias nesse mesmo mercado internacional de ideias. O esforço, neste sentido, é converter as ideias que preocupam os que trabalham na lógica da “self-reliance” numa abordagem devidamente contextualizada disciplinarmente dessas mesmas ideias, e, por outro lado, trabalhar no “caso Português” mas através dele promover mais-valias no debate internacional (que é, embora não conheça em detalhe, o trabalho que Pedro Lains desenvolve). Finalmente, o esforço é deixar o “caso Português” e trabalhar constantemente na literatura internacional.
O importante é, deste modo, não nos deixarmos levar pelo tempo. O importante é que nas diversas academias disciplinares em Portugal se proceda a uma crítica não só dos modelos “teóricos” de “self-reliance” mas também de modelos “imperiais”. Em última análise devemos criar novas revistas ou outros assentos institucionais que dêem voz a abordagens consistentes e devidamente disciplinares de cada actividade científica de modo a separar o trigo do joio. A separação do trigo do joio é o que faz falta. Os nossos estudantes são directamente influenciados pelo meio mais directo em que se propagam as ideias. É assim que a ciência funciona. Se eles não souberem o que é bom e o que é mau o problema arrasta-se. O problema da ciência em Portugal é um problema de consistência disciplinar. É um problema de se perceber bem as bases epistemológicas/ontológicas de cada actividade científica, perceber consistentemente como podemos ter metodologias de investigação científica e perceber a distinguir consistentemente os diferentes objectos de estudo que alimentam individualmente cada disciplina. O modo certo de se promover este tipo de desenvolvimento é trabalharmos sempre no mercado de ideias internacional procurando criar mais-valias nele e que todos os nossos estudantes sejam socializados nesta lógica de investigação. Para além disso os estudantes devem perceber claramente o que é bom e o que é mau. Em muito lado essa crítica intelectual ainda está por fazer. Não é uma questão de tempo. É uma questão de aqui e agora.

A consistência teórica de uma tal abordagem pouco tem haver com Weber e mais tem haver com a terceira geração de estudos em sociologia da ciência (especificamente o trabalho de Peter Wagner, Randall Collins e mais importante para o tema em questão o trabalho de Richard Whitley).

Em suma, os valores e variáveis económicas apontados por Pedro Lains ou as abordagens baseadas numa teoria política apontadas por Filomena Mónica, Vasco Pulido Valente, e outros (diria que a maior parte dos que pensam nestas questões em Portugal), são o resultado de uma má conduta para com a ciência que é promovida no nosso País. Por outras palavras, olhar para indicies económicos/teoria política está dependente de uma abordagem séria do que é e de como funciona a ciência em primeiro lugar. Esses índices económicos seriam alterados se as posturas perante a ciência fossem alteradas. Só percebendo o que é e como funciona é que podemos corrigir os erros que estão na base do seu funcionamento.


Paulo Rigueira