domingo, 1 de julho de 2007

Um sonho africano

Hoje, que a Europa se instala em nós e nós somos a capital da Europa, a África, a minha ideia de África e as minhas memórias de África vêm, como uma espécie de náusea feliz e dionisíaca, matizar o apolíneo cortejo de pompa e circunstância com que os “media” nos brindam. A nostalgia (na sua preguiçosa forma tropical) mordeu-me e eu deixei. Não resisti e, em conformidade, mudei mesmo o meu perfil no blogger.
Lembro-me de que cheguei a 29 de Junho de 1959. Dia de S. Pedro. Do belo convés do Vera Cruz, e ainda antes de ver o meu pai, a primeira coisa que me fascinou foram as barrocas vermelhas, tão selvagens como Monument Valley, erguendo-se contra o mar, desafiando a baía. Nunca mais hei-de ser duma cidade como fui da cidade de São Paulo da Assumpção de Loanda.
Lembro-me de que a vida era doce e quente, tão genuína como o espectáculo da projecção de filmes no cinema dos padres capuchinhos, em que os espectadores tentavam alterar o curso dos westerns atirando sapatos aos “bandidos” para salvar o “rapaz” ou gritavam e assobiavam em desvairada apoteose sempre que um beijo em grande plano enchia o écran.
Lembro-me da música tão física e lembro-me – eu que construí laboriosamente a lenda de que os N’Gola Ritmos ensaiavam na minha rua – de uma noite ter bebido copos até o sol nascer num grupo em que estava o Elias Diá Kimuezo.
E lembro-me, no Liceu Nacional Salvador Correia, de beber livremente Coca-Cola pelas garrafas que depois imortalizariam Andy Warhol e de ter lido dezenas de livros proibidos porque o pai de um dos meus melhores amigos era inspector da Pide e dava a ler ao filho, e ele a mim, os livros que proibia aos outros.
Prezo tanto mais estas memórias quanto elas não têm já qualquer substância. São Paulo da Assumpção de Loanda é hoje outra cidade e aquela África outra África. Como nas ficções labirínticas de Borges, quem sabe se essa África não foi apenas um sonho e nele eu, como milhares de outros, coisa sonhada.

3 comentários:

Pedro Norton disse...

Manel:
Hoje, de facto, a África é outra. Nem de propósito dei com este interessante artigo sobre São Tomé publicado hoje no NYT: http://www.nytimes.com/2007/07/02/world/africa/02oil.html

Anónimo disse...

Pois'é Kaluanda, isso era "naqueles tempo" . Agora é diferente. Já não dá para subir às gajageiras, comer maçãs e figos da índia, roubar pitangas no vizinho, fugar à escola para jogar à bola. Pelo que oiço ( nunca mais voltei) essas "cuesas" já não existem e são da pré-historia.
Que saudades, que saudades de S.Paulo de Assunção de Luanda.

Manuel S. Fonseca disse...

Caro Pedro,
o artigo é esclarecedor. E prova que, como tragédia, a históriá está sempre pronta a repetir-se.
Caro Anónimo
é engraçado, eu saudades não tenho muitas. Reconheço um tempo que me fez muito bem, mas que hoje, se me voltassem a oferecê-lo, da mesma maneira e nas mesmas condições, já não me interessaria. E a minha árvore preferida foi sempre a mangueira. Fácil de subir e boa para se ler lá em cima.