terça-feira, 24 de julho de 2007

A fusão PSD / CDS

A ideia de fundir o PSD com o CDS/PP é uma enormidade no plano ideológico e um verdadeiro «tiro no pé» no plano táctico. Dispenso-me de comentar a questão ideológica. Não é preciso ter-se grande cultura política para se perceber que, no plano dos princípios, existe um abismo entre um partido de pendor reformista que se reclama herdeiro da social-democracia e um partido democrata-cristão e profundamente conservador como é o CDS. Arrisco-me a dizer que, nesse mesmo plano dos princípios, mais sentido faria fundir o PSD com um PS rendido à «terceira via», como é hoje indubitavelmente o PS de Sócrates.
No plano táctico a fusão seria absolutamente suicidária. Desde logo porque um PSD com vocação de poder só tem a ganhar com um posicionamento «ao centro» que só pode ser-lhe garantido pela existência de um projecto político à sua direita. Depois porque, não tenhamos medo das palavras, o CDS representa muito daquilo que a direita portuguesa tem de pior: um conservadorismo a roçar o reaccionário, um populismo «virtuoso» absolutamente exaltado e uma indisfarçável falta de apego pelos valores liberais.
Bem vistas as coisas a fusão só pode ter um beneficiário: um Paulo Portas cuja ambição é obviamente incompatível com a dimensão do táxi que dirige. Porquê alimentar esta quimera?

3 comentários:

Anónimo disse...

Ainda tenho esperança de ver o taxi do Paulo Portas transformado numa trotinete

J. Pinto Correia disse...

Se procurarmos entre os exemplos que na Europa mais se aproximam da actual "perspectiva" de abordagem política,económica e social do PS em Portugal, não podemos deixar de pensar - tal como, aliás, o faz o nosso primeiro-ministro - no exemplo do trabalhismo inglês com Blair. Só que me parece que aí não existe um "centro tout court" mas representações de esquerda e direita efectivas - trabalhistas e conservadores. Os liberais serão aí, provavelmente, uma mistura incaracterística que exprime tão só pequenos nichos eleitorais flutuantes. Ora, em Portugal, o PS de hoje ocupa muito do espaço tradicional social-democrata e reformador do "nosso" PSD. Por isso mesmo, este tem uma actual crise de proposta política, oscilando em pequenas nuances na diferença relativamente ao Governo. E o CDS também apenas representa um espaço cada vez mais restrito de extremidade, fundada em pequenas heresias políticas e sociológicas.
Parece, assim, que o espectro da mal denominada "direita" em Portugal tem de reorientar a sua proposta política apostando numa visão mais liberal, sem escamotear o social - se quizermos social-liberal ou liberal-social - , e enaltecendo um modelo diferente de Estado, com ênfase mais marcante nas " grandes áreas da educação e da economia". As linhas de orientação nestas matérias deveriam possibilitar a visibilidade das rupturas de modelo com o nosso PS, o qual nestas matérias (e noutras) ainda está muito afastado das práticas políticas de semelhantes formações partidárias na Europa (v.g. Suécia e Reino Unido). Só desse modo o PSD criaria eventualmente e "a pulso" o espaço de afirmação que lhe permitiria ocupar de novo uma possível maioria de poder.

Pedro Norton disse...

Caro j. pinto correia,
Estou, no essencial, de acordo com a sua análise. Obrigado pelo seu comentário.