segunda-feira, 7 de maio de 2007

Auto-Retrato


Detesto lugares-comuns. São uma espécie de “outlets” da inteligência, onde por preços muito mais baratos, se compram imitações do pensamento.

Exemplo 1: “Portugal – País Pequeno e Periférico”. Dou de barato o pequeno, embora por razões que todos suspeitarão, seja adepto fervoroso de que o tamanho não importa. Quanto a periférico…onde fica a cabeceira numa mesa redonda? É o Japão “central”? (ou os EUA, ou a Índia, ou a China). As cidades principais dos EUA não ficam no centro do seu território, antes na “periferia” do mesmo, i.e. na costa Ocidental e Oriental. Que ninguém diga que eu vivo longe, porque, na verdade, estou perto do meu vizinho, e se alguma vez a minha casa se tornar relevante, o centro passará por onde eu moro. Faz-me lembrar um amigo americano, que quando na rua, um estranho o interrogava como ir a determinado local, respondia, circunspecto, com ar de perfeita convicção: “you can´t get there from here!”. Repito: onde fica a cabeceira de uma mesa redonda?

Exemplo 2: “Não há fumo sem fogo”. Este é o lugar comum que mais me indigna. É o princípio da presunção da inocência, substituído pela presunção de culpabilidade. É bom que se diga bem alto: Há, (muitas vezes), fumo sem fogo, sobretudo quando grassa a calunia, a inveja e a mediocridade.

Exemplo 3: “Duas cabeças pensam melhor que uma”. É falso, notoriamente falso. Quando duas cabeças se juntam, há uma que pensa melhor que a outra, (embora, por vezes, se possam complementar). Quando Einstein emigrou para os EUA, foi editado na Alemanha um livro intitulado. “Cem cientistas contra Einstein”. Resposta do visado: porquê cem? Se estou errado, bastava um! ou, como dizia o General Paton ao seu Estado-Maior: “ se nesta sala todos pensam como eu, então, alguém não está a pensar!”. Ah, se a verdade fosse como uma carroça, que mais depressa andasse, quanto mais burros a puxassem…

Depois, há expressões portuguesas que são de um provincianismo confrangedor:

Exemplo 1: `”Lá fora…” (faz-se, diz-se, referindo-se ao estrangeiro). Estamos a ver os ingleses a exclamarem “outside”, ou os franceses “dehors”, quando pretendem referir-se a outros países. Oliveira Salazar, não deves ter sido estranho a estas alfândegas da mente. Bem dizia meu tio, Pedro Almeida Lima, quando respondia: “Lá fora…País que nunca visitei!”.

Exemplo 2: “Vem nos livros…”. Mas quais livros Deus meu! Escritos por quem? Mas será que as pessoas não percebem que a autoridade de um livro é apenas de quem o escreveu, naturalmente uma pessoa que, como qualquer outra, tem os seus “bias”, erros, enviesamentos? (uma variante muito utilizada pelos médicos é:”Eles” dizem). Em oposição, o reitor de Harvard, no discurso de encerramento do curso de Medicina, começou da seguinte forma: “metade do que vos ensinámos é mentira… não sei qual é essa metade!”

Exemplo 3: “Ele(a) tem muita experiência…” lembro-me sempre de meu Pai, que gostava de citar Pascal: “ Experiência não é o que nos acontece, mas o que fazemos com o que nos acontece…” para acrescentar da sua própria lavra: “ olha o burro, toda a vida à volta da nora… pergunte-lhe o que é uma circunferência!”

Exemplo 4: “É o País que temos…” habitualmente acompanhado de um movimento de ombros e sobrancelhas que parece querer dizer: nada a fazer, país de idiotas, incúria de responsáveis. Este é um País de suplentes, em que poucos parecem querer entrar em campo, e os que ficam sentados, não reconhecem que é a sua equipa que está a perder. Como gostaria de ouvir alguém responder: Este é o País que somos!

Exemplo 5: “Da maneira que falaste, perdeste a razão!”. Não, idiotas, não a perdi, (se a tinha), porque se a razão me assiste, bem posso ser malcriado, arrogante, snob, insuportável, desprezível ou colérico, que mantenho como minha, a coerência do argumento, independentemente dos decibéis com que a expresso.

Num jantar, ouvi uma vez esta tirada, bem digna de um certo personagem Queirosiano. “ Portugal, (pausa), é um País que não estimula o raciocínio!”. Como tem razão, meu caro Conselheiro.

Nuno Lobo Antunes

14 comentários:

Smallbrother disse...

Estás em boa forma. Não digo em "grande" porque é sempre possível fazer melhor.
Mas essa da periferia tem que se lhe diga. No outro dia, fui de carro do Luxemburgo para Bruxelas. Calcula que em apenas 50 Km de auto-estrada, entretido a identificar a matrícula dos "camiões" que ultrapassávamos (porque o passeio é chato e a paisagem algo monótona), anotei registos de "veículos pesados" da Bulgária, Turquia, Holanda, Austria, Itália, Checa, e de mais alguns que agora não me lembro. Mas, no entanto, daqui - LX - até Vila Franca... Talvez alguns espanhóis, com sorte porventura na rede estará algum francês.Claro que podemos sempre fazer melhor, fazer mais, derrubar barreiras e adversidades, mas algumas realidades menos generosas obrigam-nos a fazer 2 vezes mais esforço do que é exigido a outros. E isso tem um preço. Eu, meu caro, sinto-o nas milhas percorridas, já lá vão alguns anos.

Anónimo disse...

“É o País que temos…” Ás vezes é bem mais fácil culpabilizar o país, ou o famoso "sistema" que o sustenta, e, se queres que te diga, este é um dos meus lugares-comuns preferidos.
Hoje, e sobre o caso da menina inglesa desaparecida no Algarve, ouvi algo deveras interessante: alguém dizia que "os portugueses deixam mais pistas", pois se calhar este "é [mesmo] um País que não estimula o raciocínio!”

http://alterneactivo.blogs.sapo.pt/

Zé Ninguém disse...

Curvado,com humildade,dou graças à benção de lhe poder ler verbo tão esclarecido!

No outro dia,fui de carro de Lisboa para Camarate.Calcule que em apenas meia dúzia de km de estrada esburacada, com as inclinações de segurança todas ao contrário e sem drenagem,entretido a identificar a matricula, marca e modelo dos "camiões" que estavam parados (porque estava um grande engarrafamento e isso é monótono)anotei registos de "veículos parados" da Luís Simões, da Luis Simões, da Luis Simões,da Luis Simões,da Luis Simões e, vá lá, um da Transrendufense. Dir-se-a que "Não há mercado" "o país é pequenino" agora periférico? Vou até Sines ver barcos chegar,poucos, à procura de uma linha de comboio de mercadorias de qualidade,qual?, e lá chegado mando dizer se o Oceano que a banha ainda é o Atlântico que "o País está à deriva" ...Com sorte foi para o meio de qualquer coisa que interesse, se eu puder pedir é mandá-lo para o Índico que, para o país se manter "mergulhado numa profunda crise" e "de tanga" que seja em fundo bonito.
Quanto ao País não estimular o raciocínio o problema é a qualidade do raciocínio como se prova com a amostra exposta de comentário, como digo? Estúpido! que aqui deixo.

Gosto muito do vosso programa que me faz muita companhia, cumprimentos para o Jorge, para a menina Sónia e para o senhor Padre, também gosto do Malato e do gordo do Preço Certo.

Sofia Galvão disse...

Certeiro, querido Nuno... E o problema é que a alma de um povo se revela, inteira, nos ditos e máximas que elege como seus e passa, acriticamente (?), de geração em geração. Entre nós, tão significativamente, 'devagar se vai ao longe', 'quem espera sempre alcança', 'grão a grão enche a galinha o papo', 'no meio está a virtude', entre tantos outros exemplos de uma atávica apologia da modéstia, da moderação, da resignação. Afinal, uma visão muito própria da 'aurea mediocritas'... A nossa.

Jorge Buescu disse...

Brilhante, mais uma vez. Permito-me juntar um exemplo pessoal dos "Eles".

Nas cadeiras de que sou regente na Universidade faço avaliação contínua. Forneço 30 páginas de problemas no 1º dia de aulas, que serão os alunos a resolver semanalmente ao longo do semestre. Eu dou as aulas mas não os resolvo. Na 1ª página está escrito o título da cadeira e o autor (eu).

Claro que, como não resolvo os problemas, as dúvidas dos estudantes aplicados são IMENSAS (as dos não aplicados nunca existem, com ou sem problemas). Portanto organizo sessões de dúvidas, informais e muito concorridas.

Início típico de pergunta em sessão de dúvidas: "Professor, ELES aqui no Problema X querem...". Isto apesar de (1) o autor dos problemas ser eu (2) o único docente da cadeira ser eu.

Costumo interropmer, não sem algum sarcasmo (mas aos 18 anos há encaixe para isto e muito mais): "Oiça, isto não é o "X-Files". Não há nenhuma conspiração universal. Não há "ELES". Há só EU, que sou o seu professor e escrevi esses problemas, e VOCÊ, que os tem de resolver. "ELES" não existem. Agora, qual é a sua pergunta?".

Ao fim da 3ª vez, pelo menos, quem já assistiu ri-se com gosto.

Isabel Fernandes disse...

Por acaso acho o texto banalizto, muito lugar comum, eu diria.

Mas é normal que se elogiem todos uns aos outros. Faz parte.

Inez Dentinho disse...

Um dos dicionários portugueses define lugar comum como «qualquer fonte donde se podem tirar provas aplicáveis a todos os assuntos». Estão certos, por isso, os que vão à fonte. Não reportam a Sócrates, à Bília nem aos poetas. Antes a máximas sem margem para erro, génio ou amor à verdade. Mata-nos o tédio. Faça-nos viver o antídoto.

Jorge Buescu disse...

Cara Isabel Fernandes: acho delicioso o lugar-comum com que decidiu aumentar a já extensa lista. Mas nunca o compreendi bem. "Faz parte" significa o quê exactamente? Quais são os sujeito, verbo e complementos directo e indirecto?

Anónimo disse...

Ouvir "overseas" é relativamente comum nos EUA e tem, aproximadamente, o mesmo significado do nosso "lá fora". ;)

António Eça de Queiroz disse...

Na minha imodesta opinião, acho que essas generalizações lusas têm réplicas um pouco por todo o mundo - nuns sítios mais do que noutros, bem entendido. O facto é que o nosso expressionismo é bisonho e pequenino - mas também acho que sei porquê: sendo que tais chavões têm origem (ou continuidade...)em pessoas com a vida atrapalhada (por múltiplas razões, onde sobressai a capacidade inacreditável que este povo tem para se atrapalhar a si próprio), eles reflectem a incapacidade dum qualquer refém em conseguir deixar de o ser. Ora a grande maioria dos Portugueses de Portugal é refém, seja dos políticos e da sua falta de lisura, das leis e seus juizes, do ensino e de quem o engendra, dos burocratas e do seu caruncho, da usura bancária que em tempos foi crime ou da enorme habilidade que alguns (poucos!) de nós possuem para escapar a isso tudo deixando todo o resto para trás numa esteira de fuligem, lixo e calotes. E é por isso que muitos Portugueses saem de Portugal. Não sei se é o país que temos ou o país que somos - mas o resultado parece-me o mesmo. Provavelmente vou dizer algo de horrível, mas estou convencido que o maior erro de Salazar foi ter-nos deixado de fora da II Guerra Mundial - esse verdadeiro berço da investigação operacional, que tanta falta nos faz.
Mas é claro que tais frases estão esfoladas pelo uso!... E como tal irritam.
Já agora: a Ota é central ou periférica?

MiguelT disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
MiguelT disse...

Há dois aspectos que me sugerem algumas reflexões: em primeiro lugar, os comentários sobre a "natureza nacional", os comentários a esses comentários, e os comentários aos comentários aos comentários perpetuam uma cadeia de "onanismo umbiguista" (para a qual admito também estar a contribuir) que é uma das imagens de marca da nossa náusea colectiva.

Mas indo para as questões substantivas, penso que o próprio Eça de Queirós, ou quem correcta ou incorrectamente o cita, estavam errados num ponto: não são os "burocratas", os "políticos", os "comendadores", etc., que conspiram contra nós. Somos nós próprios que o fazemos. Passo explicar: num país democrático, os funcionários, a classe política, os burocratas não são mais do que o reflexo da população nas suas qualidades e defeitos médios. Assim, embora o cidadão comum evidentemente não possa ser directamente responsabilizado pelo que os políticos ou burocratas fazem, verifica-se que POTENCIALMENTE, ele frequentemente faria o mesmo se lhe dessem essa oportunidade, e/ou inveja os privilégios e prerrogativas dessas classes, em vez de pretender mudá-los.
Mais do que culpar "os outros", ou mesmo alguém em particular exterior a nós, necessitamos antes de mais de analisar os nossos próprios princípios e atitudes. Por exemplo, de cada vez que nos desresponsabilizamos ou tentamos desresponsabilizar como cidadãos, atirando a responsabilidade para cima do "governo", dos "funcionários", etc., nós estamos efectivamente a portar-nos (ao nível que nos é permitido) como aqueles a quem atribuimos a causa do nosso pretenso "atraso civilizacional".

A outra questão que também foi aflorada num comentário foi a seguinte: os portugueses supostamente "pensam pequenino", "não têm visão", e esse é um dos pretextos para a nossa eterna auto-flagelação como povo. O problema, do meu ponto de vista, é que o conceito de "pensar em grande" é entendido por uma grande parte das pessoas de forma totalmente prevertida. Assim, julgam muitos que "pensar em grande" é construir infra-estruturas gastando rios de dinheiro sem olhar a poupanças (o que seria considerado "mesquinho"), ter projectos megalómanos, construir palácios para uso pessoal e ter um BMW ou um Audi. É apenas nesta perspectiva, consumista, e sem atender ao que é mais profundo, que se olha com admiração para países como os EUA.
Mas a verdade é que: 1. É perfeitamente possível levar a cabo projectos muito importantes com pouquíssimos recursos (esses projectos são muitas vezes desdenhados na nossa cultura como "pouco motivantes"). 2. É absolutamente essencial uma gestão rigorosa (alguns diriam mesmo forreta) dos recursos económicos. Tanto nações como a Holanda (onde a poupança e a parcimónia são virtudes elogiadas), como as biografias de muitos magnatas mundiais provam que assim é.
3. Nesse sentido, não me parece que virtudes como a modéstia, a moderação, sejam de forma alguma perniciosas para o desenvolvimento de projectos grandiosos no verdadeiro sentido do termo. Muitos matemáticos, físicos, músicos e filósofos famosos, cujos legados constituem presentemente o cerne da cultura ocidental, tiveram uma vida de miséria económica e falta de reconhecimento. Não foram essas condições adversas que os impediram de dar contributos importantíssimos, por vezes mesmo geniais, para a ciência e cultura.
Por conseguinte, quando vejo excessivas queixas contra a "falta de condições", "falta de visão", "pensar em pequeno", etc., fico sempre desconfiado, pois esses argumentos parecem-me desculpas de mau pagador de quem não está genuinamente motivado para levar a cabo os projectos com que proclama sonhar. A meu ver, a motivação tem SEMPRE que partir do indivíduo, independentemente de tudo o que se passe à sua volta, e não importa quantos entraves tenha que enfrentar. É esta força de vontade individual, que se parece desvalorizar na nossa cultura, que move nações inteiras, se generalizada a uma massa crítica suficientemente grande de cidadãos.
Por outras palavras, o individualismo não é estarmo-nos a lixar para o nosso semelhante (como por vezes se julga), é demonstrarmos iniciativa no sentido construtivo, independentemente das dificuldades que possam surgir.

Nuno Lobo Antunes disse...

Creio ter sido isso mesmo que pretendi dizer: ou seja, que o País pequeno e periférico é uma desculpa, e que transformar o País que temos em o País que somos, envolve e responsabiliza todos. Confesso que partilho da opinião que não devíamos ter ficado de fora da II Guerra Mundial, embora reconheça que é fácil dizê-lo, quando não conhecemos na carne a dor e o horror da guerra.

Zé Ninguém disse...

Também acho bem que se assuma o "onanimismo umbiguista" embora se trate de método já muito pouco usado por não dar garantias, pessoalmente prefiro a pura parvoíce ou o "é a loucura" muito mais geração de 60, muito a propósito concordo com a ideia de que a participação na II Guerra teria trazido alguma valia de ordem cientifica, civilizacional e industrial além da bendita economia de Guerra e, já agora, o respectivo baby-boom a menos que se praticasse o "onanimismo" mesmo que o umbigal, embora hajam alternativas mais estimulantes, além disso talvez tivesse obrigado a uma maior sujeição ao Plano Marshall, com sorte o problema das colónias era resolvido em regime Commonwealth e a Bandeira Vermeha do Pós 25 de Abril tinha ficado espetada,anos antes, à latitude do Reichstag muito a propósito as autonomias espanholas e sua arqui-rivalidade parecem resultar da medida das suas diferenças mas também dos seus ódios pós guerra civil e da exacerbação da competição entre sí potenciada pelo Plano Marshall II, leia-se Fundos de Coesão e pela vontade de ser melhor que o do lado! A aguardar coisas melhores dos de cima.Interrompo este rol de disparates soltos qual Onã,da geraçao de 70, inseguro, atrevido mas sequioso de vos ler a douta análise.