terça-feira, 24 de abril de 2007

VI. Elites: reconhecimento

Entramos por isso no problema do reconhecimento das elites. O que se pode reconhecer como elite? Esta pergunta é em suma questionar-se sobre quais as hierarquias de valores, mas igualmente qual a imagem do mundo que subjaz a cada sociedade concreta.

Se é assim em geral, pode dizer-nos muito sobre o espírito das actuais democracias.

A primeira prevenção que temos de ter é a de que reconhecimento não significa idolatria. O facto de durante mais de 1400 anos ter havido uma classe aristocrática a dominar a Europa não impediu revoltas, ressentimentos, ódios, desprezos. Em certo sentido é saudável que a população em geral desconfie das elites, que não as aceite acriticamente. Isso gera um duplo desafio: para as populações em geral e para as elites. Mas mesmo que a relação seja negativa existe sempre um prévio reconhecimento das mesmas como elites. É por serem elites, ou por serem estas elites concretas, que geram suspeição.

Em algumas democracias ainda se reservam papéis para as elites de nascimento. Não apenas a nobreza, mas igualmente os filhos de gente famosa. Espera-se deles um exemplo, e mesmo até em partidos de esquerda como os alemães, este papel é reconhecido. Podem ter um papel de mediação, exactamente porque se reconhece que o seu centro de interesses os torna mais equidistantes dos conflitos da modernidade.

Mas em geral a elite que é mais recusada é a do nascimento. Isto mostra o medo que a nossa época tem do simbólico, do irracional, e em suma da carnalidade incontrolada. É bem mais fácil lidar com uma sexualidade rotinada por teorias mais ou menos freudianos, que com um carisma que não é socialmente controlável como o da nobreza.

As elites intelectuais e económicas têm lugares diversos consoante os países.

Certos países tendem a ter mera condescendência em relação aos intelectuais, como os anglo-saxónicos e vêm sempre com desconfiança quando estes se pretendem imiscuir nos assuntos públicos. São pessoas que se reconhecem exactamente por se presumir a sua impotência e se repelem quando ela não é acatada. Noutros são vistos como os arautos do futuro, os vates da modernidade.

As elites económicas são em geral mais mal vistas pelos países latinos, mas igualmente por outros países do continente europeu. Numa os empresários são vistos com desconfiança, noutros países como profetas do futuro.

O que gera consenso nas democracias actuais são apenas as elites vivenciais. Os que pelo seu modo de vida dão um exemplo. Seja o filantropo, o abade que se dedica aos pobres, a Madre Teresa de Calcutá, os heróis das organizações não governamentais. O modo de vida, seja que modalidades ele assuma consoante os países, é o que suscita ainda algum respeito, embora não destituído de ironia. O paradoxo é exactamente que estas elites são respeitadas em grande medida porque destituídas de poder.

Este quadro geral mostra mais uma vez um estreitamento de vida que caracteriza a modernidade.

Este estreitamento mostra-se na perspectiva das elites de duas formas: pelo estreitamento das fontes elitárias e pela recusa da cumulação.

O estreitamento das fontes elitárias vê-se pelo facto de como consenso geral apenas as elites vivenciais sobrarem. As restantes são ou geralmente recusadas, a de nascimento, ou valoradas de modos bem diversos consoante os países (as intelectuais e as económicas): as vivenciais são aceites porque destituídas de poder, dele desligadas.

A recusa de cumulação mostra-se pelo facto de ser mal visto ou mesmo tido por pouco credível sequer que exista uma cumulação de fontes elitárias. Ser aristocrata, rico, culto e exemplo de vida parece uma impossibilidade absoluta. O mundo actual não acredita em São Bernardos nem em São Gregórios Magnos.

A visão do mundo moderna exige que o ser humano seja pobre, ou seja, especializado. Caracteriza-se mais pela falta, recusando a completude, a sobreabundância.

Na perspectiva do pensamento do fenómeno elitário isto tem uma implicação. A elite apenas é admitida na medida em que seja lacunar, em que surja como compensação. Apenas se reconhece uma fonte elitária porque as outras não se acredita que existam e muito menos que se cumulem. O homem completo, a vida afortunada é coisa que não é credível na nossa época.

1 comentários:

Miguel Oliveira disse...

Julgo que o «estreitamento das fontes elitárias» tem ainda outros factores associados ao tempo em que vivemos. Gostaria de referir o individualismo. Este, ao declarar a afirmação e a liberdade do indivíduo face à sua comunidade/sociedade, suprime a necessidade de uma elite dominante. Na verdade, uma elite dificilmente pode representar a singularidade que caracteriza a filosofia individualista, razão pela qual esta se afasta progressivamente de tudo quanto é representativo do poder. O conceito de verdade, bem como a definição de valores morais passa a ser em grande medida determinado pela consciência individual e nessa medida relativiza-se o sentido de uma consciência colectiva geralmente determinado pelas elites. A profusão de blogues representa sobremaneira essa afirmação individual, este individualismo suportado pela personalização da realidade. E as elites, vendo estreitar as suas fontes, apostam elas mesmas na ideia de uma pretensa diversidade para tentarem afirmar-se no profundo vazio e indiferença a que são voltadas.