terça-feira, 10 de abril de 2007

O TRIUNFO DA MÁQUINA BIOLÓGICA

Comecei a ler o post do Nuno Lobo Antunes e acabei febril. A cada linha um baque do coração e os joelhos a fraquejar. Primeiro grande susto: a Coca-Cola. Confesso que a minha resposta cerebral à Coca-Cola é muito superior à da Pepsi. Como, adianto já, a minha resposta cerebral à Angelina Jolie é muito superior à da Madonna (o que é irracional porque estou a ver a Madonna bastante mais a jeito e “willing”). Reconheço-me também no tipo extrovertido de que o empregador faz gato sapato instilando-lhe imagens sorridentes no cérebro: é a história da minha vida e agora já sei que contas tenho a ajustar com Francisco Pinto Balsemão. Em suma, senti o aperto das leis físico-químicas imutáveis de que fala o Nuno Lobo Antunes e preparei-me para resistir. Inútil, escreve a cada linha o Nuno, a história de cada um está escrita, por lesões cerebrais discretas, pelos nossos genes, tudo coisas sobre as quais não temos “qualquer controlo”, diz ele, arrasando a minha visão reaccionária do ser humano, eu que, dois posts antes, e disfarçando muito com as obras do Bairro Azul, tinha feito o elogio humanista do “eu”, construído laboriosamente em 21 séculos de filosofia, pintura, poesia, matemática, lógica, religião e ciências.
Caro Nuno, eu gosto, conservadora e despudoradamente, do livre arbítrio. Não me apetece nada, juro, que nesse sentido “o mundo se mova”. O que é que tenho ou posso fazer para contrariar este anunciado triunfo da “máquina biológica”? Seguindo os seus exemplos: se eu que sou o mais foleiro campeão do sentimentalismo “decidir” agora converter-me num exemplo de rarefacção emocional, já estarei a introduzir uma pedrinha na engrenagem? Bom, e se eu – e olhe que bem me custa enunciar a hipótese – “decidir” mudar de orientação sexual as leis físico-químicas levam um grande chimbalau? (Caramba, se nem isto!)
Muito a sério, achei o seu post fascinante e, como vê, perturbador. As máquinas totalitárias procuraram no século XX destruir esse “eu” que durante séculos no Ocidente construímos. Um eu egoísta e mimado, mas também o traço que faz de nós a humanidade que somos. De repente, com uma inabalável firmeza, as neurociências parecem riscar um enorme X sobre essa velha e dramática história. Em que interstícios da teoria é que sobreviverá o humano? O que é que, passe embora a explicação retrospectiva das leis físico-químicas, pode continuar a ser a “escolha” pessoal e única de um “eu”?

3 comentários:

Nuno Lobo Antunes disse...

“There is no hope of finding the sources of free action in the lofty realms of the mind or in the depths of the brain. The idealist approach of the phenomenologists is as hopeless as the positive approach of the naturalists. To discover the sources of free action it is necessary to go outside the limits of the organism, not into the intimate sphere of the mind, but into the objective forms of social life; it is necessary to seek the sources of human consciousness and freedom in the social history of humanity. To find the soul it is necessary to lose it". A.R Luria

Meu caro:
Um amigo meu, sabendo o meu interesse por esta questão do livre arbítrio, enviou-me esta citação como possivel resposta ao determinismo científico. Confesso que é demasiado complexa para a minha mente,mas outros, mais inteligentes do que eu, tirarão daí algum consolo ou esperança, de que na verdade Deus, que nos terá feito à sua imagem e semelhança, não é também apenas um conjunto de átomos de carbono que reflectem sobre si próprios.
Não se preocupe quanto à possivel modificação da orientação sexual, ela está determinada antes dos 5 anos de idade...

NLA

manuel s. fonseca disse...

"Uff!" digo eu, imitando o tonitruante "Uff" que Abrão deve ter soltado ao saber que o velho Jeová lhe poupava o sacrífico de Jacob. O A.R.Luria dá-me esperança. Vou ler!

MSF

Pedro Norton disse...

Faço minhas as palavras do Abrão (que são as mesmas do Manuel). Estava aqui aflito a imaginar que um dia destes algum dos neurocirurgiões do blog se punha a mexer nos meus átomos e eu acordava a torcer pelo sporting.