segunda-feira, 16 de abril de 2007

Mais e melhor, precisa-se...

De manhã, ao acordar, há um momento de verdade que nos faz o dia. É então que emergem a alegria ou a mágoa, o entusiasmo ou o quebranto, a felicidade ou a decepção. Queiramos ou não, gostemos ou não, de manhã a vida é o que é, sem disfarces nem contemplações.
Ora, confesso-vos que tenho acordado muito pouco exuberante. Não gosto do que vejo e oiço, não gosto do estado a que chegou a coisa pública, não gosto da lucidez com que percebo a medida em que há muito se anunciou a inevitabilidade de tudo.
Em Portugal, não é o pequeno que incomoda. Mas o pouco. A avassaladora falta de nível da nossa agenda colectiva. A mediocridade dos protagonismos. A irrelevância das discussões. E, claro, a absoluta ausência de projecto.
Portugal mergulhou num ciclo de perda consistente, que não consegue romper. Investe em propagandas fátuas, proclama voluntarismos bacocos, mas não arranca, não empreende, não desenvolve.
Num país de matriz autoritária, as elites nunca tiveram um papel politicamente relevante fora do jogo formal do poder, no Estado e nos partidos. Aliás, os actores institucionais sempre preferiram uma sociedade civil incipiente e fragmentada, incapaz de criar dinâmicas susceptíveis de funcionar de fora para dentro do sistema.
Portanto, a nossa noção de elite política reduziu-se à sua expressão mais estrita. Infelizmente, em tudo coincidindo com a mais pobre e a mais triste. A elite política confunde-se com aqueles que, em cada momento, são os actores da política formal. Pior, esgota-se neles.
Mas, lamentavelmente, a mais evidente implicação de tal estatuto parece escapar aos espíritos destes privilegiados. A responsabilidade – a sua responsabilidade específica – é um conceito etéreo, porventura lido em algum livro (ou recensão, que o ar do tempo vai mais para aí…), mas totalmente insusceptível de densificação prática. Nem um vislumbre de preocupação com a referência que deveriam ser, com o exemplo que teriam de consubstanciar.
Daí que se permitam tudo. Daí que tudo se vá tolerando. Episódios impensáveis há vinte anos são matéria de degustação quotidiana no nosso actual espaço público. Políticos, comunicação social e eleitores anónimos encontram-se neste fórum da modernidade, em que o calor da discussão se inflama em proporção directa com o esquecimento do país.
Infelizmente, poucos se deterão na circunstância de nada disto acontecer por acaso ou de repente. São muitos anos de demissão e de consentimento, num processo paulatino que não pode deixar sossegada a consciência de nenhum de nós.
E, quando digo nós, quero dizer isso mesmo. Nós que, de fora, nos insurgimos, mas não fazemos da nossa indignação um princípio de acção. Nós que não assumimos a responsabilidade de fundar a esperança numa diferença que urge.
Manhã após manhã, nessa incontornável hora de verdade, vou-me perguntando: será que ninguém sente o imperativo de permitir mais e melhor aos milhares de portugueses normais, que trabalham e pagam impostos, que gostam do seu país e que, por isso, querem e precisam de acreditar no futuro?

2 comentários:

Pedro Norton disse...

O tema do da participação pública das elites fora do espaço claustrofóbico dos aparelhos partidários é algo que, desde há muito, também me obceca. Mas para que ainda não encontrei uma resposta minimamente satisfatória...

Miguel Poiares Maduro disse...

Há também um problema de escala. Portugal é pequeno e com uma elite ainda mais pequena. Uns estão envolvidos directamente nos partidos (e ainda bem que há quem, com qualidade, também faça isso). Outros são independentes próximos dos partidos que, sendo nós um país de gente educada e em que nos conhecemos todos, não estão à vontade para criticar os que estão nos partidos… Depois sobram os ainda mais independentes que, por essa razão, são frequentemente chamados a compor comissões independentes e técnicas (de que frequentemente, no caso dos académicos, dependem para sobreviver!) e, logo, por genuínas razões de lealdade institucional, deixam de poder intervir no discurso político. Acabam por sobrar poucos para realmente intervir fora da política partidaria… Isto tem mais de constatação do que de crítica. Ou melhor, a crítica é a seguinte: um país que trata mal as suas elites (porque não gosta da meritocracia, como se manifesta em inúmeras formas) não se pode queixar de não ter elites ou ter apenas más elites.