sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O ismaelismo como experiência de civilização V

 


Sem querer repetir o que já disse antes, o ismaelismo serve de confirmação de algumas das verificações que tenho feito. 

(1) As sociedades multiculturais são de violência cíclica e de dissimulação. Esta apenas se vai dissipando totalmente quando os ismaelitas estão no poder, e mesmo quando são menos oprimidos mantêm-se em reserva. 

(2) O islão não teorizou a tolerância como prática perene nem a executou. A tolerância decorre de interesses políticos, ou para obter informação sobre as comunidades que se pretende oprimir, ou porque assim manda o seu interesse (as relações com os cruzados e com os cristãos autóctones pelos ismaelitas é disso exemplo). A opressão abrange em épocas diversas graus diversos muçulmanos de outras denominações e os cristãos e judeus. Os ditos tolerantes Saladino e o império Mogol não saem imaculados desta descrição. 

(3) O ismaelismo não separa religião e Estado quando tem o poder. Só o vai fazendo gradualmente por influência europeia desde o século XIX. Ainda assim o Agha Khan é ainda hoje líder espiritual e administrativo da sua comunidade. 

(4) O misticismo tem no islão um papel algo diverso do que tem no cristianismo. No cristianismo, apesar dos elementos comuns, o misticismo e o episcopado estão intimamente ligados na ortodoxia (o alto clero é de origem monástica), no catolicismo está tipicamente separado, em casas particulares ou conventos e mosteiros, no protestantismo começa com práticas devocionais e pode acabar em formas próximas do gnosticismo, por ausência de autoridade religiosa reconhecida. No islão o sufismo é um traço de união entre os vários grupos, mas não de unificação. Os traços comuns entre o sufismo e várias formas de xiismo, e nomeadamente o ismaelismo, são disso testemunho. O islão é uma religião sem dogmática desenvolvida (o seu desenvolvimento é mais jurídico, ou jurídico-teológico ou de mera prática, também a mística) e por isso acontece o que era de esperar que aconteceria. A mística é de deo e não ex nihilo com tendências gnósticas e em contradicção com o corão (neste Deus é criador, lembra-se). As tendências gnósticas do sufismo mostram como o islão é um retorno a uma religião pré-irenaica. Santo Irineu de Lião já tinha previsto os efeitos deletérios que tem o gnosticismo em qualquer religião que acredite num Deus pessoal, o islão não tem armas dogmáticas contra esta dissolução. E isto não é um enriquecimento, nem uma forma de pacificação. O facto de muçulmanos de várias designações seguirem o sufismo apenas mostra que se unem em práticas por equívoco, sem clarificação das suas posições. O resultado é que podem ter as mesmas práticas sufis, mas um sunita enquanto tal persegue um ismaelita. Costumam ver-se como pertencentes a grupos bem diversos. Sob o ponto de vista social corresponde ao mesmo efeito quando se vê unificação em quem apenas ouve as mesmas músicas. Podem estar no mesmo concerto num dia, e no dia seguinte matar o vizinho de cadeira. Mortos e assassinos podem ouvir rock ou música clássica em comum.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

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