O ismaelismo como experiência de civilização V
Sem querer repetir o que já disse antes, o ismaelismo serve de confirmação de algumas das verificações que tenho feito.
(1) As sociedades multiculturais são de violência cíclica e de dissimulação. Esta apenas se vai dissipando totalmente quando os ismaelitas estão no poder, e mesmo quando são menos oprimidos mantêm-se em reserva.
(2) O islão não teorizou a tolerância como prática perene nem a executou. A tolerância decorre de interesses políticos, ou para obter informação sobre as comunidades que se pretende oprimir, ou porque assim manda o seu interesse (as relações com os cruzados e com os cristãos autóctones pelos ismaelitas é disso exemplo). A opressão abrange em épocas diversas graus diversos muçulmanos de outras denominações e os cristãos e judeus. Os ditos tolerantes Saladino e o império Mogol não saem imaculados desta descrição.
(3) O ismaelismo não separa religião e Estado quando tem o poder. Só o vai fazendo gradualmente por influência europeia desde o século XIX. Ainda assim o Agha Khan é ainda hoje líder espiritual e administrativo da sua comunidade.
(4) O misticismo
tem no islão um papel algo diverso do que tem no cristianismo. No cristianismo,
apesar dos elementos comuns, o misticismo e o episcopado estão intimamente
ligados na ortodoxia (o alto clero é de origem monástica), no catolicismo está
tipicamente separado, em casas particulares ou conventos e mosteiros, no
protestantismo começa com práticas devocionais e pode acabar em formas próximas
do gnosticismo, por ausência de autoridade religiosa reconhecida. No islão o
sufismo é um traço de união entre os vários grupos, mas não de unificação. Os
traços comuns entre o sufismo e várias formas de xiismo, e nomeadamente o
ismaelismo, são disso testemunho. O islão é uma religião sem dogmática desenvolvida
(o seu desenvolvimento é mais jurídico, ou jurídico-teológico ou de mera
prática, também a mística) e por isso acontece o que era de esperar que
aconteceria. A mística é de deo e não ex nihilo com tendências
gnósticas e em contradicção com o corão (neste Deus é criador, lembra-se). As
tendências gnósticas do sufismo mostram como o islão é um retorno a uma
religião pré-irenaica. Santo Irineu de Lião já tinha previsto os efeitos
deletérios que tem o gnosticismo em qualquer religião que acredite num Deus
pessoal, o islão não tem armas dogmáticas contra esta dissolução. E isto não é
um enriquecimento, nem uma forma de pacificação. O facto de muçulmanos de
várias designações seguirem o sufismo apenas mostra que se unem em práticas por
equívoco, sem clarificação das suas posições. O resultado é que podem ter as
mesmas práticas sufis, mas um sunita enquanto tal persegue um ismaelita.
Costumam ver-se como pertencentes a grupos bem diversos. Sob o ponto de vista
social corresponde ao mesmo efeito quando se vê unificação em quem apenas ouve
as mesmas músicas. Podem estar no mesmo concerto num dia, e no dia seguinte
matar o vizinho de cadeira. Mortos e assassinos podem ouvir rock ou
música clássica em comum.
Alexandre
Brandão da Veiga

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