terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O ismaelismo como experiência de civilização III

 

O islão em todas as suas formas é intensamente etnocêntrico, mesmo em relação aos outros muçulmanos:

1)    Há desinteresse (grau maior de etnocentrismo, saliento) dos autores sunitas em procurar informação rigorosa sobre as desavenças do xiismo (p. 9). A imagem dos ismaelitas resulta das distorções dos cruzados, mas também dos polemistas sunitas (p. 30). Os escritores sunitas não conseguiam perceber as diferenças entre os movimentos ismaelitas (p. 152). A imagem dos xiitas que os orientalistas europeus tinham foi distorcida pelo que deles diziam os polemistas sunitas (p. 101). Ora bem, ou os europeus desconsideram as fontes sunitas (e é falta de respeito por outra cultura, o islão sunita) ou as seguem (e é falta de respeito por outra cultura - o islão xiita). Quem tem uma visão moral da História está sempre a cometer pecados, tanto mais quanto diz que eles não existem. Acolher o etnocentrismo alheio é uma forma particularmente triste de etnocentrismo. São os textos sunitas que se referem aos Nizaris como «assassinos» (p. 10) e os cruzados apenas recolheram este sentido depreciativo, não foram eles a criá-lo (p. 11).

2)    A verdade é que os europeus tentaram com sucesso variável desde a Idade Média compreender os muçulmanos (p. 11). O inverso existe? Há desde a Idade Média estudos muçulmanos sobre os cristãos? Um místico chamado Nasir morto no fim do século XI, como é visto positivamente pelos sunitas, é por estes considerado sunita, apesar de não o ser (p. 207). Autores fatímidas, quando dividem o mundo, apenas consideram os eslavos, não referindo povos da Europa Ocidental (p. 217). Os historiadores persas apenas falaram do Estado Nizari na Pérsia, nada dizendo sobre os Nizaris da Síria (p. 308). Os autores sunitas do século XIII são em geral hostis ao ismaelismo (pp. 309-310).

O ismaelismo, e em geral as místicas muçulmanas, são regressos sob o ponto de vista teológico:

3)    Sob o ponto de vista teológico, como em geral na mística muçulmana, há uma tendência gnóstica (pp. 64, 70, 92, 94, 129, 131, 135, 222, 269, 272, 273, 420, 421, 428), com tentações antropomórficas, e uma ideia de incarnação ou infusão, sobretudo em certos imãs (p. 64), o conceito de transmigração das almas e a negação da ressurreição (p. 65) aparece ao mesmo tempo que alguma desmundização, que impõe uma vida puramente espiritual (pp. 360, 364). No pensamento de al-Kirmani há uma doutrina soteriológica em que se pretende atingir a salvação através de um conhecimento espiritual (p. 234). Há uma concepção de Deus como um homem de luz, próxima do mandeísmo (p. 69). A relação entre as letras de nome de Deus que derivam do Maior Nome de Deus é ideia de Marco, o Gnóstico (p. 69), do gnosticismo valentiniano e do maniqueísmo (p. 93), da seita gnóstica cristã de Bardesanes (p. 102). A tendência para a interpretação alegórica do corão, mas também numerológica (pp. 85, 86), como com a Cabala (a tendência cabalista é aliás referida a pp. 134, 421). As tendências sincréticas e inspiradas de evangelhos apócrifos de Jesus (p. 93). Mas também a prática da dissimulação leva a crenças sincréticas (p. 450) ou a uma efectiva conversão ao xiismo duodecimano (p. 435). A interpretação alegórica do corão (p. 70), mostra mais uma vez a sua consistência com o gnosticismo e uma teologia projectiva. O ismaelismo assenta da destrinça entre o «zahir» (o público) e o «batin» (o significado secreto) (pp. 10, 441) e isto desde muito cedo (p. 129). O conhecimento esotérico secreto é consagrado (pp. 83, 267, 269, 339, 360, 444). O termo «walaya», que significa devoção aos imãs, pode ser traduzido grosseiramente por iniciação (p. 83). O Homem que aparece no fim da criação está longe da sua origem e do seu criador (p. 135), ideia típica de uma antropologia «de deo». No século X foi introduzida uma espécie de filosofia neoplatónica no pensamento ismaelita (pp. 154-155, 166). Al-Shuri faz uma interpretação esotérica da ressurreição (p. 208), a finalidade é a libertação da vida mundana, a salvação é vista em termos apenas espirituais e com uma noção cíclica da História (p. 231). A doutrina é emanacionista e neoplatónica (pp. 229, 231, 270), mostrando mais uma vez a sua colisão com a doutrina da criação. Há cosmologia com elementos míticos (pp. 265, 269). Deve-se fazer uma interpretação alegórica das escrituras, o que já vem do xiismo (p. 130). É significativo que seja de todas as escrituras e sem destrinça, ao contrário do que acontece com o cristianismo. A interpretação cíclica do tempo (p. 131) mostra a negação do hapax. Durante o governo fatímida o ensino esotérico era promovido (p. 214), com um ensino dirigido apenas aos iniciados (p. 215). Entre os Qarmatis do Bahrein é elaborada uma cosmologia emanentista (p. 235). A doutrina dos Nizaris impõe a categorização das pessoas em três classes (p. 382), ou seja criando a distinção entre iniciados e não iniciados. Os opositores ao imã são excluídos (p. 365). Mesmo após a queda de Alamut se distinguem os iniciados dos outros (p. 441). A obediência ao imã é transferida ao seu substituto (p. 275). A referência a pleroma e um papel do anjo, como o de Christos Angelos, é próximo das doutrinas maniqueias e gnósticas como Corbin mostrou (p. 270; o pleroma também a p. 270). A recapitulação (p. 272) é uma figura que mostra influência cristã, mas torna-se caricatura de si mesma por haver vários ciclos de ressurreições (p. 272). É criada uma mito-história, em ciclos de «aions» (p. 273). A ressurreição é meramente espiritual e não corporal (p. 274).

4)    O xiismo recebeu influência dos judeus, cristãos, mandeus, mazdeístas (p. 56, também p. 131). A ideia de Mahdi pode ter vindo de origem mazdeísta com a figura de Saoshyant ou cristã com a figura de Jesus (p. 60). No xiismo é dada importância ao esoterismo e à gnose (pp. 84, 85). Da divina pêntade (Maomé, Ali, Fatima, al-Hassan e al-Husayn) apenas a personagem de Maomé é divina (p. 94), outro movimento diviniza em seu lugar Ali (p. 94). Doutrina-se a «parousia» do Qa’im (p. 223).

5)    Um imã diz que a morte de Ismail foi mera aparência (p. 89), mostrando que o docetismo reaparece também dentro do ismaelismo.

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