segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Machado de Assis








Um amigo meu brasileiro, com o qual já contacto desde há cerca de doze anos, teve sempre a generosidade de divulgar a minha obra no Brasil. Durante anos falámos de questões profissionais ou então de política.

Por um desvio ocasional começámos a falar de outros temas e um deles foi a literatura. Eis senão quando ele me começa a falar de Machado de Assis. Eu já o tinha lido na adolescência, mas tinha-me ficado pelos clássicos que existiam em muitas bibliotecas privadas portuguesas. As Memórias Póstumas de Brás Cubas, a Casa Velha.

Sendo ele um entusiasta de Assis, lá me convenceu e li três livros de uma assentada, o que não é muito meu costume. Li (reli seria abusivo, não me lembrava de nada) as Memórias de Brás Cubas, a Casa Velha. E ousei ler o Quincas Borba. Ainda me falta ler muita coisa de Assis, mas enfim, já é um começo.

Não gosto de fazer juízos apressados, e por feitio não sou de paixões instantâneas. Por isso, seria desonesto dizer que nutro uma admiração sem limites por Assis. Para ser franco, passou-se com ele o melhor que se pode passar no primeiro contacto. Fiquei com um ponto de interrogação em cima da cabeça. Aconteceu-me o mesmo quando li Mann a sério pela primeira vez, o que é o melhor elogio que posso fazer a um autor. Porque a paixão por Mann existe há décadas e nunca esmoreceu.

O curioso com esta experiência de Assis (honni soit qui mal y pense, porque não falo de santos) é que me relembrou em geral a experiência de lidar com um novo autor. Faz-nos sempre lembrar alguém. Vamos tacteando nas nossas referências comparando-o. A comparação como central é sinal de que ainda não capturámos plenamente a sua personalidade, o seu lugar especial. Mas à falta do melhor, é o instrumento que temos.

Há alturas em que o seu ritmo faz lembrar Boris Vian (longe de ser os meus favoritos). A sua ironia estabelece-se por contraste com a aristocrática ironia queirosiana. Eça distancia-nos para nos fazer rir. Assis aproxima-se de nós, sussurra-nos ao ouvido como um mexeriqueiro. A sua ironia é mais burguesa. Por isso fez-me perceber a relevância que tinha para Mann ter uma mãe brasileira. A sua dialéctica era completamente alemã. Assumia-se como plenamente burguês. E por isso não se percebia o seu toque de brasileirismo sob a névoa de Goethe. A sua ambição de ser Dichter, poeta, escondia as origens mexeriqueiras de muita da sua obra.

É verdade. Há aspectos da sua ironia que me fazem lembrar Thomas Mann, e talvez o facto de este ter mãe brasileira não seja estranho. A ironia do Eça é distância aristocrática. A de Mann (e Machado de Assis) segreda-nos ao ouvido. A de Mann tem marca alemã porque estar marcada pela figura tutelar de Goethe e a procura de dignidade patrícia teve alguma influência nisso. Assis não tem problemas em fazer mexerico no Brás Cubas. Embora envoltos em contextos diversos, ambos põem a nu as convenções mostrando respeitá-las ao mesmo tempo, o que para mim teve sempre mais picante e subtileza que a violação grosseira das convenções, que é sempre sinal de facilidade.

Digo isto tudo com uma incondicional admiração por Mann. Poucos trabalham a lama e a transformam em ouro (as profundas ligações entre Jung e Mann, que nunca foram íntimos, mereciam um tratado, aliás). Mas um autor explica o outro, e Assis fez-me perceber até que ponto, sob a capa profunda e verdadeira da germanidade, se esconde algum brasileirismo nos textos de Mann.

Há algumas coisas que me impressionaram. Até que ponto o Brasil na época ainda estava próximo de Portugal (ia-se estudar para Coimbra, por exemplo) para o melhor e para o pior (nomeadamente a prevalência de uma cultura retórica que ele bem analisa).


Até ao momento descobri que há duas coisas em que me sinto próximo de Assis: ele dá a palavra aos mortos, por um lado, e por outro, liga as personagens de várias obras entre si. As obras dialogam entre si. Estes são dois aspectos que sempre me marcaram, e talvez isso signifique que também eu tenha uma ponta de brasileirismo (ligações familiares podem impô-lo), ou mais precisamente que o Brasil fez vir ao de cima algo que na maioria dos portugueses está apenas latente.

Porque dar palavra aos mortos e pôr as obras em ligação entre si tem um fundo comum, embora este não seja aparente. Nascem ambos do amor ao diálogo, não à conversa corriqueira da esquina, mas ao diálogo profundo. Ninguém está obrigado ao silêncio, desde que tenha algo para dizer. Pode saltar de uma obra para a outra, pode passar igualmente a fronteira da morte. As fronteiras são essenciais, mas não podem ser limitações. Não tem sentido ficcionar que o morto está vivo, a obra é outra, o europeu é chinês. Seria desonesto e empobrecedor. Mas precisamente por haver consciência da fronteira, esta ajuda a demarcar o diálogo, ou seja, fazê-lo nascer.

Que Quincas Borba fale em duas novelas e, na segunda, com o seu nome fale de duas formas, a de homem e a de cão, nada traz de tonto. Todos nós falamos de muitas formas diferentes. As fronteiras estão lá, apenas para nos lembrar que sem elas não é possível o diálogo.









Alexandre Brandão da Veiga

2 comentários:

Fluzão Eterno disse...

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Táxi Pluvioso disse...

Em vez da escrita, devíamos invejar-lhe as barbas. bfds para todos