sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Os sonhos erram? II

Encaremos pois a pergunta: os sonhos erram?

Para a respondermos temos de deixar qualquer uma das respostas estreitas. A partir do momento em que sonhamos, é actividade pertinente. Seria a mesma coisa que ignorar a fala, a sexualidade ou a respiração. Se está na realidade pode e deve ser objecto da nossa curiosidade. Não podemos aceitar que exista apenas uma porta para essa realidade. Mas não devemos dar aos sonhos, sem questionar, um papel oracular, tanto quanto não o devemos fazer em relação à fala, ao sexo ou à respiração.

O problema dos sonhos é que neles são uma e a mesma coisa a linguagem e o seu objecto. Quando eu falo, de uma forma ou de outra tento dirigir-me a outras realidades, mesmo que essas realidades sejam a linguagem. Quando o discurso fala directamente sobre si mesmo entra no paradoxo. Os gregos já o sabiam quando criaram o paradoxo do mentiroso. Quando sonhamos, o sonho refere-se sempre a outra coisa que o sonho, mas é o sonho enquanto tal que é o nosso objecto. Não falamos em sonhos sobre os sonhos, e se o fazemos é isso sonho de novo.

Que os sonhos errem parece-me evidente. O sonho é algo trapalhão a comunicar. Usa do que pode e do que sabe. Tem mais sabedoria que nós, até porque usa os nossos desperdícios. Tem menos que nós, porque lhe falta a nossa forma de dialogar. Tem as suas próprias. Mas vê-lo como oracular, sempre oracular, é fazer do sonho porta de entrada dos deuses, sempre e apenas isso. E mais uma vez temos a porta do merceeiro, a única porta de entrada para o mundo a actuar. No fundo, os que têm uma visão exclusivamente oracular do sonho são apenas mais uma modalidade do merceeiro com porta aberta e apenas uma.

Nisto, e não apenas nisto, Freud participava do mesmo preconceito de merceeiro do que os acusam. Quando instigou insistentemente Jung para "tomar conta do sexo", como se de coisa frágil se tratasse e em vias de evaporação, mostrava que a sua era apenas uma ânsia e não lucidez. Quando impõe ao sonho a metáfora do mecanismo, a analogia do relojoeiro, em que o mundo do inconsciente tem uma estrutura estratificada, concatenada, hierarquizada, quis construir uma hierarquia celeste para substituir a que pretendeu destruir. O seu modelo é a estante do merceeiro bem arranjada, um inconsciente bem ordenado com uma chave única que se compreende de fora. O sexo tem para Freud o papel da etiqueta com o preço, o livro de inventário. Ordena tudo e ficamos descansados. Não lhe nego os méritos, apenas lhe saliento os imensos limites. Todos sabem que quando o diagnóstico terminava no sexo Freud aliviava a sua angústia. Tanto melhor para ele. Popper dizia que a teoria de Freud era o epítome da teoria irrefutável. E sabe Deus como para ele esse era o maior insulto.

Os sonhos erram. Não erram apenas, mas também erram. E por isso podemos inverter a frase de Santo Agostinho. Os sonhos também dizem: “graças a Deus não sou responsável pelo meu sonhador”. No que como Santo Agostinho, têm uma parte, só parte, mas uma grande parte, de razão.







Alexandre Brandão da Veiga



6 comentários:

Anónimo disse...

A Bíblia condena muito claramente a sdivinhação por sonhos e este tipo de ´artes´ praticadas pelo paganismo.


Sobre uma ´outra leitura mais indepedente e objectiva´ sobre os sonhos e o camarada Freud ( e o seu importantíssimo sobrinho, considerado o pai da publicidade e marketing americano) aconselho um excelente artigo publicado no Der Spiegel há cerca de 2 anos, intitulado ´Freud: Genie oder Charlatan´.

Melhores cpts.,
CCI

miguel vaz serra....... disse...

Os sonhos NUNCA erram simplesmente porque nós não os sabemos interpretar. São isso mesmo. Sonhos.
Errar é coisa do consciente...e mesmo quando sonhamos acordados, não é o mesmo a raciocinar.

ODEUSQUERI disse...

para começar o sonho é efémero na memória ninguém descreve um sonho
descreve a parte do sonho de que se lembra os episódios mais marcantes

por vezes ao descrever o sonho o ex-sonhador colmata falhas na sua memória

ODEUSQUERI disse...

com ficções-remendos criados no momento
estatísticamente as interpretações tanto "psicológicas" como "místicas" que se revelam acuradas são raras mas existem

Táxi Pluvioso disse...

Sonhos de uma noite de Inverno, é que fazem os portugueses, e não se queixam. boa semana

designer handbags disse...

O idealismo deve existir declarado, através da conquista do poder como uma batalha nada prosaica.
Penso que a vantagem de votos Obama se deu pela recolha de idealismos patentes e latentes.
Mas nestas coisas lembro-me sempre do livro sobre o estado social português, compilado por António Barreto, segundo o qual Filomena Mónica dizia, no seu capítulo, que nos anos 60 a ambição deixou de ser um pecado. Será que voltou a sê-lo?