terça-feira, 11 de novembro de 2008

" Públicas virtudes, vicíos privados"

Anda o mundo entretido e a penar com dois fenómenos que tiveram epicentro nos EUA. A crise do sub-prime e Obama.

Extraordinariamente os americanos conseguiram exportar dois fenómenos de escala planetária. Dir-me-ão, é um problema de escala. Discordo. A questão não é de quantidade, é de qualidade.

A inteligência europeia tem um preconceito anti-americano. Sente-se em relação aos americanos aquele vago embaraço que sentimos em relação ao (Sr. Comendador) Joe Berardo. Desde logo, porque a língua de Camões não escorre, escorreita. Antes a fluência se expressa num misto de português, madeirense,vernáculo e inglês, com pronúncia sul-africana. Ou como dizia, há uns meses José Miguel Júdice, preferia Cavaco Silva para Presidente da República e Manuel Alegre para almoçar.

A inteligência europeia, que ía até aos Urais, já que não havia russo ou polaco bem nascido que não falasse francês, acha que todos os americanos usam meias brancas, sem ser para jogar ténis, não sabem pegar nos talheres, e, claro, não sabem falar francês.

De modo que a esquerda europeia anda eufórica a explicar o sucesso de Obama ( já agora se eu votasse, também teria votado Obama), não percebendo como é que aquele homem chega a Presidente. Sobretudo não percebem como é que um país que dá Obama, também dá a crise do sub-prime.

A leitura que fazem será sempre a leitura de um europeu, "públicas virtudes, vicíos privados", assente nos pilares da cultura judaico-cristá, sendo que à sua luz Obama é a virtude, o bem, por oposição a Wall Sreet, o mal, o vício. A esta luz, Obama será sempre um milagre.

Nada de mais errado, basta viver num país anglo-saxónico para perceber as diferenças.

Obama e Wall Street são uma e a mesma coisa, ou seja são ambos produtos do mesmo regime e do mesmo sistema.

De um sistema que tem uma fé cega na autonomia e força do indivíduo e por conseguinte na autonomia privada. Ali educam-se pessoas fazendo crer que apenas com base no mérito se pode chegar ao sucesso pessoal, profissional e até a uma riqueza sem limites. O risco é admitido e incentivado.

Dizia-se que Portugal estava a salvo de grandes calamidades porque a banca era conservadora e não comprara produtos tóxicos, que era avessa ao risco e era prudente. Dizia-se isso com um sorriso de auto-complacência.

Pode até ser verdade, mas em países assim nunca haverá Obamas. Porque Obama é o triunfo da vontade, do risco, da improbabilidade, da audácia.

Características que em Portugal morrem de morte matada à nascença. É que em Portugal não gostamos de produtos tóxicos.

4 comentários:

Pedro Norton disse...

Sofia: vai acusar-me de plágio quando ler o meu artigo na Visão desta semana. Seja condescendente. Não me processe. É um caso de inspiração a anteriori. Brevemente num blog perto de si.

Anónimo disse...

Eu cá prefiro o J. Miguel Júdice para Presidente e o Berardo para almiçar

Anónimo disse...

Eu só não almoço com o Cavaco. Parece que o homem mastiga de boa aberta, como já o vimos certa vez na TV.

Sofia Rocha disse...

Pedro, o Prof. do mestrado torceu o nariz quando eu escolhi o tema do direito de autor e direitos conexos e tutela civil daquele.
Prova-se que eu tinha razão, espere pela pancada.