sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Blue Memories


Em 1982, no Parque Palmela no Estoril, assisti ao meu primeiro concerto de jazz. Não recordo o “line-up” (tinha 13 ou 14 anos e penso que ouvia menos jazz e mais Ramones) mas recordo bem a excitação do momento, a música de uma linha decididamente não linear e o facto de os músicos serem todos negros. O ambiente em 82 era seguramente diferente daquele de forte contestação que caracterizara o Cascais Jazz nos anos 70. Pelas densas nuvens de fumo que recordo no ar, o publico parecia mais interessado na qualidade da marijuana e menos em levantar o punho para protestar contra as garras da opressão (e’ famoso o episodio em que o baixista Charlie Haden teria sido preso pela PIDE-DGS depois de dedicar um dos seus temas ao movimento de independência de Angola durante a edição de 1971 do dito festival).

Uns anos mais tarde, em 87, recordo um notável concerto de Jan Garbarek com Nana de Vasconcelos e Eberhard Weber no auditório ao ar livre da Gulbenkian, num muito quente mês de Agosto. Recordo os frios ecos nórdicos do sax alto de Garbarek fundirem-se nos ritmos mirabolantes de Nana de Vasconcelos, tudo temperado pelo grave e celestial violoncelo de Weber (um grande elfo, vestido e iluminado de branco). Um pormenor: Ao longo do concerto, Nana de Vasconcelos foi combinando com intenção e humor o som dos seus vários instrumentos de percussão com o ruído do passar dos aviões sobre a Praça de Espanha (saudando estes últimos possivelmente em rota para o Brasil).

Em 91 fui ver, ouvir e prestar vassalagem ao grande Miles Davis no velho Coliseu dos Recreios poucos meses antes de este ultimo grande maestro se retirar definitivamente para “Birdheaven” (e um dos últimos concertos que vi em Portugal). Recordo a surdina penetrante e expressiva de Miles acompanhado por uma jovem secção rítmica absolutamente estonteante. Recordo o recorte luminoso do seu vulto, vestindo um colete lilás “glam” a tocar curvado e de costas para o público. Recordo também que não proferiu mais de duas ou três palavras durante as duas horas de concerto, apresentando os músicos levantando ele mesmo cartazes com os seus nomes escritos. Recordo que saiu sem agradecer.

Tudo isto para poder assinalar que em Marco do próximo ano, “Kind of Blue” comemora meio século de idade. Gravado numa igreja desconsagrada de Nova Iorque por um Miles em plena fase de metamorfose, e na companhia de uma extraordinária banda composta por músicos como Coltrane, Cannonball Adderley, Bill Evans (o único branco da banda que Miles ironicamente apelidava de Rosto Pálido), Paul Chamber, Billy Cobb e Wynton Kelly, “Kind of Blue” e’ hoje, para além do mais vendido disco de Jazz (10 milhões de copias), talvez o mais importante e determinante jamais feito. Abandonando a ja’ por si radical característica modal do Jazz clássico, em “Kind of Blue”, Miles e Coltrane abrem definitivamente as portas para a livre improvisação e para o despoletar daquilo que viria a ser uma nova ordem musical, infinitamente rica, livre e primitiva. Para celebrar o aniversario, a Columbia Legacy publica um cofre com um cd duplo, um dvd, um poster e um livro de 60 páginas com um texto sobre a história do disco e da sua gravação. Recomenda-se seguramente.

PS: Este fim-de-semana estou em Nova Iorque e tentarei passar no “Smalls”, tão famoso como minúsculo antro de Jazz onde músicos anónimos (ou não) se encontram e improvisam na tradição dos grandes mitos de “Kind of Blue”.

2 comentários:

Sofia Rocha disse...

Guardei durante muitos anos, todos, todos, os bilhetes de tudo o que via ( os de cinema devidamente anotados com realizador, actores e apreciação crítica). Pensava que estava sozinha neste delírio, a julgar por esta foto, há por aí outros coleccionadores...

Festivais de jazz, recomendo o do Funchal, noites quentes, no meio de magnólias, a escassas dezenas de metros do Atlântico quente.

"Cabaret" "small", hoje também terei o meu, à noite, no teatro Maria Matos.

Have fun!

Pedro disse...

Recordo-me bem deste concerto, bem como de outro que também assistimos no coliseu com o Omar Hakin, Wayne Shorter, Herbie Hanckock e o Stanley Clarke. Uns "animais", sendo o que me chamou mais a atenção foi a forma elegante do Omar tocar bateria.
um abraço,
Pedro Biu