sábado, 28 de junho de 2008

Onde está a nossa manhã de quatro patas?


Passei esta semana alguns dias de férias – sem rede, nem computador, mas com saudades iguais às da Sofia Rocha. Um dia, a caminho da praia, como que acordando da meditação em que se embrenhara ao percorrer a longa ponte de madeira que nos levava até à praia, uma das minhas filhas, que tem 6 anos, perguntou-me:
– Pai: como é que nos mexemos?
Espantado, sob um sol escaldante e debaixo de uns quantos sacos, tentava ensaiar o princípio de uma resposta, quando ela me explicou a sua pergunta:
– Como é que as nossas pernas se mexem e andam? E os braços e a cabeça?
Definitivamente: não estava à espera. Comecei a pensar como responder-lhe. Lembrei-me que Descartes tinha dito umas coisas sobre o assunto. Mas nenhuma resposta me parecia capaz de satisfazer a sua pergunta. Seja: distinguir a alma e o corpo pareceu-me uma boa maneira para começar. Fiz-lhe uma ou duas perguntas que a pudessem levar a dar-se conta desse ânimo primordial que nos atravessa o corpo. Respondeu-me qualquer coisa também sem importância e continuou a andar e a pensar.
Chegados à praia perguntou-me:
– Ó pai, mas porque é que nós existimos? Porque é que há vida?
Enfiei os dois pés na areia e comecei a calcular a melhor forma de adequar as minhas fracas respostas à sua inteligência de criança. Rindo, repetiu:
– Sim, pai, porque é que há vida?
E saiu a correr com os outros em direcção ao mar, no qual, feliz, já se aventura sem braçadeiras.
Lembrei-me então da grega esfinge, que, em Tebas, à entrada da cidade, colocava aos homens o seu terrível enigma: «o que é o homem?» E de como o monstro com cabeça de mulher e corpo de leão alado matava os homens, quando não lhe respondiam, e se matava, quando o faziam. Percebi, uma vez mais, que o destino do homem é viver caminhando entre a identidade e a diferença, entre a pergunta e a resposta, sem nunca ter – como mais tarde nos foi dito – onde reclinar a cabeça.
O difícil, porém, está em abraçar este destino com o encanto próprio das crianças: fazer como Penélope, que tecia o mundo de dia para o desfazer de noite, mas fazê-lo como uma criança, que depois de questionar, espantada, o seu misterioso estar no mundo, logo se entrega, rindo, ao alegre desafio das ondas.

1 comentários:

Sofia Rocha disse...

Bom, Gonçalo, parece-me então que temos outra coisa em comum: um filho inquisitivo de quase seis anos ( mãe, como é onde acaba o mar, mas onde acaba mesmo), que se começa a despir mal chega ao areal e que já está dentro de água antes de nós pousarmos os sacos e que faz questão de madrugar cada dia como se o mundo fosse acabar e ainda houvesse um milhão de ondas para cavalgar. E nessas alturas sinto uma dor muito fininha por eu já não acordar a sentir essa urgência e felicidade.