sábado, 28 de junho de 2008

A cidade ideal, o arquitecto, a fotografia e o peão

Madalena,

Decidi trazer para a G60 o nosso diálogo no saisdeprata-e-pixels. Post com post se paga!

A sua posição é a de ver a realidade através da fotografia e, por isso, o olho atrás da lente descodifica uma paixão do real retirado do seu movimento, fazendo do momento algo que permanece como substituição do real. Essa permanência que a fotografia é não é bem uma oposição ao tempo mas uma espécie de “instante” subtraído, algo retirado do movimento, um momento quase sem duração, mas que, enquanto registo, dá à posteridade uma imagem que se aproxima de alguma coisa que, alguma coisa, terá sido. O viajante, aquele que passa, vai registando na sua memória uma sinestesia que agrega num mesmo, num todo, imagens, sons, cheiros e toques (o vento, por exemplo) que na fotografia se procuram invocar apenas através da imagem. A própria sensação da tridimensionalidade do espaço se perde no registo fotográfico. Quantas vezes tiramos fotografias imbuídos de uma sensação que na realidade não se traduz depois na imagem conseguida. Mas esta sensação de ficar aquém do que se pretendeu realizar só a sente, ou só dela realmente se apercebe quem ensaiou esse risco da representação e vê a distância entre o que imaginou e o resultado. A arte, porém, está nos resultados e não na inépcia.

Da arte o que fica, então, independentemente dos desejos dos autores, é uma nova realidade, qual seja essa, que aos olhos e à crítica dos espectadores, se mostra sem aquilo que podia ter sido mas apenas com aquilo que é. Só que essa nova realidade, essa segunda natureza que aí está, adquire uma vida própria, induz novos caminhos que o próprio autor não pôde supor, mas que uma intuição e uma crença o levaram a insistir e a fazer. É disso que o mundo está feito, das tentativas do homem em criar e controlar uma realidade que o excede incessantemente e de que ele é um veículo às vezes consciente, outras vezes imprevisto, mas sempre comprometido. Para a história fica quase sempre aquilo que se diz daquilo que se fez. O poder discursivo nas obras é feito através daqueles que as explicitam quer as compreendam quer não as compreendam. As obras incompreendidas hoje, serão descobertas amanhã. Mas isso aos autores não deve, nem pode, interessar muito. O discurso à volta das obras é sempre o discurso de um ponto de vista, e todos os discursos sobre o que se apresenta têm uma legitimidade embora não coincidam com o ponto de vista de Sirius, aquele ponto de vista que por ser tão distante se tornasse num observador desinteressado, uma espécie de semi-deus cujo comprometimento com o mundo fosse quase nulo. Observador comprometido, o crítico, é como o fotografo, traduz em novos moldes a realidade que se lhe apresenta. E traduzindo-a, também a recria. Hegel afirmava que uma tradução era sempre melhor que um original, porque na tradução estava também o pensamento do tradutor. Mas para aceitar isto é preciso aceitar que o pensamento é movente e não um sistema fechado e estático de que cada um julga possuir uma parte singular e pessoal.

A seu modo a fotografia reflecte uma interpretação da realidade. A partir do modo próprio de registar uma encenação — espontânea ou fabricada — gera uma visão da realidade que não se deve pretender uma cópia porque o simples registo exige uma intencionalidade que a retira da pretensão inócua de ser apenas o que a própria realidade é. A fotografia é, por isso, tão subjectiva na realidade que cria, como a mente de um caminhante que passa pelo mundo ou pelo caos, registando na sua memória pontos de vista e outras sensações que lhe permitem reconstituir uma realidade que, uma vez ausente (depois de passar) é uma realidade imaginada. Apesar do aspecto físico ou mecânico do acto fotográfico, a realidade expressa ou traduzida ou recriada é sempre uma realidade imaginada.

O movimento do caminhante, do passageiro, do transeunte, é isso mesmo, movimento. E move-se entre espaços organizados ou caóticos, naturais ou artificiais, fáceis ou difíceis. Por definição, abusiva certamente, mas permitam-me o abuso, o mundo é a casa. E como o mundo é a organização sobre o caos, a casa opõe-se ao caos. A casa não é só o abrigo. Estar em casa pode ser estar numa cidade, pode ser estar num país, numa cultura, numa civilização, ou apenas num jardim (que saudades!). O espaço organizado é organizado em função de finalidades que realizem esta sensação de estar em casa, isto é, de estar num lugar onde há uma identidade entre o eu e o que está à minha volta. O mundo é um espelho do homem, é feito à sua imagem e semelhança e, por isso, quando o homem procura o que mais lhe convém procura o que é ideal para si. O que é ideal para si é alguma coisa que não estando imediatamente realizada transmite a sensação (pode ser uma imagem como diz a Madalena) ou a ideia dessa presença ideal. Não há fórmulas para criar a Beleza. Há dados objectivos como a importância da arquitectura durar e resistir (firmitas) e atingir alguma utilidade pela adequação às suas finalidades funcionais (utilitas), mas a Beleza (venustas) essa depende da inspiração e do talento que não nos é possível prever ou receitar. Ora, as duas primeiras categorias dependem do estudo, da inteligência e da dedicação, é como quem aprende a tocar um instrumento musical. Se depois com esses conhecimentos é possível compor uma melodia isso já não depende do esforço e da vontade. Depende talvez daquele excesso que referimos atrás como sendo o que trespassa a nossa capacidade de controlar a realidade e a povoa de novas e imprevisíveis direcções.

Ao contrário do fotógrafo, o arquitecto, não pode arquitectar a fotografia. O campo de actuação do arquitecto, se bem que resulte também, no seu processo de concepção, de uma linha crítica, não parte de uma representação do real, ou seja, não é uma tradução do real, mas parte de uma representação do ideal e, por isso, como dizia Óscar Wilde (Intentions) a Arquitectura, como a Música, são as únicas artes verdadeiramente abstractas. Ora, a abstracção é não só feita de formas que não se traduzem em evidências naturais mas na invisível constituição de tudo o que tem um organon. A abstracção é o que se extrai do concreto não sendo nenhum dos concretos lhes subjaz como sistema de relações matriciais. A esse sistema de relações se chama, na sua materialização gráfica e volumétrica, desenho. O desenho que se esconde é o sistema de relações que identificou as figuras e os corpos que pela sua notabilidade e correlatividade com os números abriram as portas do mundo inteligível, do mundo das harmonias que criaram a arquitectura e a música, mas que também se esconde na métrica da poesia, no equilíbrio da escultura ou na tensão da pintura. Enquanto arte a arquitectura não tem um mundo para traduzir tem um ideal para representar. Esse ideal não se realiza em formas orgânicas naturais mas sim em formas inteligíveis compostas de modo a realizar um equilíbrio e a exprimir relações entre si proporcionais. A ideia de proporção é talvez aquela que anda mais arredia do desenho contemporâneo, e a sua secundarização é o sinal que denuncia os propósitos exclusivamente funcionais e utilitários que muitos não gostamos de ver na arquitectura por serem um sinal da sua degradação. A ausência de proporção na composição torna o “objecto” arquitectónico indeterminado e essa indeterminação não é inteligível. A inteligibilidade está na proporção. O que não tem proporção não é pensável. Na música isso é ainda mais evidente, porque pela audição somos menos traídos do que pelas imagens.

A régua e o esquadro, se servem para organizar as figuras e os volumes de que os edifícios são compostos, não são como a câmara fotográfica uma máquina. Não limitam as possibilidades e opções, enquanto instrumentos, do desenho. Também já vimos que se a régua e o esquadro fossem limitadores do desenho dos edifícios ou do desenho das cidades seria porque aos arquitectos preocuparia não a representação do ideal, mas fazer vingar alguma tese que coisificasse o homem nalgum ismo que não resiste à passagem de dois lustres. Vimos, também, que a arquitectura é estática e não dinâmica, sofre mudanças com a luz, mas permanece imóvel por mais que os arquitectos tentem exprima-la como movimento. Vimos ainda que a arquitectura e o urbanismo são a casa do homem e o seu espelho pelo que não é lícito partir o espelho ou fazê-lo espelhar apenas um aspecto do que o homem é porque ele nunca é só um aspecto. Daí que a arquitectura espelhe uma totalidade e que cada um ao passar por ela possa reter isto ou aquilo sem nunca fazer dela isto ou aquilo. E, ao arquitecto, chamado a responder perante a cidade e perante a história, a sua resposta deverá ser o mais possível despojada de uma tendência crítica do real , o qual está presente nos problemas que lhe são postos pelo lugar, pela localização, pelo programa, pela construção, pela economia ou pela legislação e encontrar a proporção, o equilíbrio e a coerência que a vocação, a intuição e a razão de uma visão do ideal lhe permitir conceber. À arquitectura não podem ser exigidas as mesmas categorias da fotografia. A arquitectura e o urbanismo são presenças totais como ideia e como experiência. Noutras artes e na fotografia não predomina o estar mas um ponto de vista. Não pode o arquitecto, embora isso até seja, ingenuamente, o seu discurso actual, fazer a arquitectura a partir de uma ideia de promenade. A promenade é a liberdade de cada um de olhar o mundo e interpretar os seus caminhos a partir das suas experiências físicas e psicológicas. O arquitecto, quer queira quer não queira procede como um visionário que faz o mundo dos humanos e lhes constrói a base das suas memórias. Se não gostamos do mundo que criámos é outro problema e tem outras razões que não o da essência da arquitectura. O que não se pode pretender é que o arquitecto colija as infindáveis perspectivas pessoais para responder a todas elas e assim obter o que seria um consenso. Não se pode esperar isso da arquitectura. Sobretudo não esperemos que a arquitectura não seja um espelho do que é o mundo, um espelho dos homens. O que a faz uma arte tão inquietante é ser reflexo e materialização do somos e os nossos enganos e ilusões ficarem tão evidentemente expressos.

3 comentários:

totodasbersas disse...

Ó Miguel, essa ideia da Geração de 60 até que é uma belíssima ideia só que...desta forma é demasiado 70 já que vens do final da década. Ora, tu sabes que sou um pouco mais velho que tu, mas as notícias de 60, nestes moldes não são notícia alguma! sebes que eu nunca fui lá muito com essa coisa de fazer algo com algo dos outros; isso de andar a atar pontas para aumentar a nossa grande corda é de uma solidês muito frágil, pois quando um se desata lá se vai ou a mior parte ou parte dela.
A geração de 60 é algo muito próprio dessa geração e não uma coisa qualquer. Quando ouvi falar do teu blog, acelerei e zás...estampei-me!!! Pois é, não há aqui o tal Espírito, a Alma de 60; quase não ha nada. No máximo parce que sempre foste um "Betinho", que viu um frango vivo pela 1ª vez quando já tinhas berbas e eu sei que não é assim? Então onde param esses 60?
É claro que neste momento já sabes quem eu sou, por isso aqui vai outro blog de um grande Colega nosso, embora tu, com todos os teus afazeres já nem telembres mais dele; quando vires as "brincadeiras" do seu blog brincalhão vais cair de cú, hehehee...

Visita o
http://totodasversas@blogspot.com

1 grnd abrç caro amigo e cuida-te, que andas um bocado desleixado. Não basta tomar banho 4 ou 5 vezes ao dia e andar com o fato alinhadinho para o parecer!
E, já agora estou curioso para ler o teu comentário nesse tal "totodasversas"; Já lá tenho alguns meus, e até já lá falei sobre os teus dotes, hem?!...Maroto!

totodasbersas disse...

Esqueci-me do principal no post anterior; desculpa lá, mas tem a ver com uma descoberta que podes expor na estranja:
Com a juda do Zé socrates verás que o problema estará resolvido. Aí vais:


Banha da Cobra
Depois dos óleos e da banha de porco, Eulálio Mortiço inventa motor que põe carro a andar a banha da cobra. Como sempre, este nosso incompreendido conterrâneo e Cientista livra-se das dificuldades da mesma forma com que desenvolveu o inacreditável motor; com muita lata. “ Cheguei à conclusão, depois de muitos testes, que a lata se adequava à leveza necessária para que o carro do futuro até flutuasse sem qualquer combustível e como a banha da cobra podia ser extraída da lábia caseira e mesmo de outras lábias com aditivos políticos, aquilo foi um ver se te avias que lá vai mais um”. A ciência, está provado, não cria modelos concretos que se ajustem à transmissão do pensamento em vez da correia de transmissão que não consegue impor um movimento rotativo tão elevado da cambota para o veio de ressaltos . Há quem afirme origens de actividades com pés e cabeça mas na verdade é a filosofia da vida sem sentido que leva um carro a mover-se num sentido qualquer logo que esteja com o depósito cheiinho da tal banha dos ofídios. “Há uns anos ainda tentei extrair energia do conto do vigário mas nem com a adição de essência de tramas e calote obtive grande coisa, pelo que decidi debruçar-me sobre outras formas energéticas de preferência renováveis” contou Eulálio Mortiço realçando o valor dos produtores de banha da cobra, os políticos,que dão camiões-cisterna de banhadas ao agradecido povo que aproveita para se ensaboar com sabonete do mesmo produto renovável e altamente inflamável (quando destapado ou descoberto) em qualquer feira, esquina ou comício. As grandes jazidas de Banha da Cobra, os Astrólogos, são fontes inesgotáveis de uma diversidade de derivados ao alcance de um potencial cliente candidato ao tal carrinho (ou carrão) revestido da melhor lata e com o venerado motor acondicionado numa simples cova de um dente molar. E aqui é que reside (5100, código postal) parte importante do segredo pela proximidade promíscua entre o dente e a língua promovendo um mecanismo de incessante matraquear pelos sete cotovelos que conjuga na perfeição o verbo banhar com o caiu-como-um-patinho, dando início a partir desse momento à abertura e fecho das válvulas de metano em perfeita sincronia com os pistons de ar.
A Associação Portuguesa de Homeopatia já comprou a patente a Eulálio Mortiço e garante estar em condições de divulgar uma data incerta para a comercialização destes motores aproveitando a medicina energética usando remédios que não provocam alergias, não causam efeitos secundários, não criam habituação nem curam a boa saúde, assegurando ainda que o motor estará sempre pronto para consumir outro tipo de energia sem que para isso seja preciso qualquer adaptador para derivados. “Qualquer verdade é inimiga destes motores pelo que a sua utilização equivale ao colapso com consequências nefastas para o motor” alertou o cientista Mortiço aconselhando as promessas de Sócrates para um desempenho perfeito, embora o preço seja de queimar as banhas e apertar a cinta do tanque de combustível devido à alta pureza e concentração de octanas, com uma octanagem superior a 200% em alguns casos.

totodasbersas disse...

Olha vai ao http://totodasversas.blogspot.com, vê a postagem do Eulálio Preguiça para acabar com a fome no mundo, clica 2 vezes na imagem correspondente, no caso de seres meio(a) vesgo(a) e verás o que é captar um momento. Só não me rio porque o assunto não é para rir, hehehehe....