domingo, 4 de maio de 2008

Vargas Llosa e Los cuadenos de don Rigoberto



Quando o conheci comecei por tentar ler “tudo” o que tinha escrito. Descobri o Palomino Molero, diverti-me com o Pantaleão e as Visitadoras, fascinei-me com a Guerra do Fim do Mundo, segui as histórias dentro da história da Tia Júlia e o Escrevedor (com atenção e muito riso) e ouvi falar o Falador.

Depois, vá-se lá saber porquê, fui-me esquecendo do Vargas Llosa. Não li, por exemplo, a Festa do Chibo (que o meu Pai tanto me recomendou) o que foi (e continua a ser) um erro crasso.

Há dias atrás, (também) para treinar o meu espanhol, comprei a versão original de Los cuadernos de don Rigoberto. Lembrei-me, na altura, de um Reader’s Guide to Conteporary Authors, da Penguin, em que estes cuadernos aparecem numa categoria de Smart and Sexy (ao lado do fabuloso Portnoy’s Complaint de Philip Roth). E com toda a razão.

O gozo não está apenas na história em si, nem nas personagens que nela habitam, mas no que vou lendo (e relendo) a cada página que passa.

Alguns exemplos:

Debaixo do extraordinário titulo La rebelión de los Clítoris e sobre (algum) feminismo:

“Entiendo, señora, que la variante feminista que usted representa há declarado la guerra de los sexos y que la filosofia de su movimiento se sustenta en la convicción de que el clítoris es moral, física, cultural y eroticamente superior al pene, y, los ovários, de más noble idiosincrasia que los testículos”.

Sobre o desporto e o prazer:

“Antes, debo decirle que los únicos deportes a los que exonero la picota son los de mesa (excluído el ping pong) e la cama (incluída, por supuesto, la masturbación)”.

Sobre o associativismo largo espectro (e na mesma lógica de um dos irmãos Marx – Groucho? - que dizia nunca querer fazer parte de um clube que o quisesse aceitar):

“Tranquilízate: no pertenezco ni perteneceré a ninguno de esos clubs o asociaciones ni a nada que pudiera parecérseles (los Boy Scouts, los ex-alumnos Jesuítas, la masoneria, el Opus De, etcétera.). Mi hostilidade al género asociativo es tan radical que hasta he desistido de ser miembro del Touring Automóvil Club, y no se diga de esos llamados clubs sociales que miden la categoria étnica y el património económico de los limeños. Desde mis años ya lejanos en la Acción Católica y a causa de ella – pues fue ésa la ilusión de toda utopia social y me catapulto a la defensa del hedonismo y el individuo -, he contraído una repugnância moral, psicológica e ideológica, contra toda forma de servindumbre gregária, al punto que – no es broma – incluso la cola del cine me hace sentirme atropellado y disminuido de mi libertad, retrocedido a la condición de hombre-masa”.

E sobre o mesmo tema (numa obrigatória Carta al Rotario):

“Un rebaño, como se sabe, está compuesto de gente despalabrada y esfinter más o menos débil. Es un hecho comprobado, además, que, en tiempos de confusión, el rebaño prefiere la servindumbre al desorden. De ahi que quienes actuam como cabras no tengan líderes sino cabrones”.

Poder-se-á não concordar com tudo mas que tem (muita) graça, tem. Pelo menos para mim (e as boas notícias são que ainda vou a meio).

2 comentários:

Manuel S. Fonseca disse...

Uma delícia. Há tradução portuguesa (de J. Teixeira de Aguilar)da Dom Quixote. Llosa pinta o homem só (mesmo quando muito bem acompanhado), hedónico e socialmente céptico como ninguém. O personagem de Bogart em Casablanca havia de gostar. E as referências à pintura de Egon Schiele e de Klimt são uma espécie de iguaria erótica que nos faz sentir leitores mimados.

sofia rocha disse...

Continuo a pensar que Conversa na Catedral de 1969, é um dos mais preciosos romances da literatura do séc. XX. Sobretudo, porque tratou o tempo de forma brilhante. Quanto à pintura, li o livro recente sobre Gauguin. Embora goste do tema, não gostei particularmente do livro. Lembro-me ainda muito bem dos discursos inflamados e "engajados" das eleições de 1990 quando LLosa parecia acreditar muito no seu Perú. Tinha ainda o cabelo negro.