quinta-feira, 8 de maio de 2008

Pentimento: "Ventos de Guerra"

Há malucos para tudo. Eu, quando estou de férias, gosto de ver séries de tv longuíssimas, uma versão pobre e tardia do interesse ancestral dos adolescentes pelas múltiplas cores das coisas, quando liam enormes romances de aventuras sobre o mundo trágico e picaresco que talvez existisse para além da janela do seu quarto. Há quem se dedique à caça, à culinária ou ao wind-surf. Prefiro a terrível dúvida de escolher a melhor posição no sofá, e a luta titânica com o comando universal - é como viajar sem sair do sítio, a preguiça encartada que Asimov e Philip K. Dick (este sempre com consequência alucinogénicas) anteciparam. Na penúltima vez foi o esplendorosamente medíocre "Ventos de Guerra".

É uma "mini-série" de 14 horas (estes americanos são loucos) que devia ser exibida a todos os aspirantes a produtores de televisão: anos antes da sofisticação de canais pagos por cabo como a Showtime ou a HBO, a estação de sinal aberto e cobertura nacional ABC co-produziu com a Paramount um mamute de 80 milhões de dólares, com 1785 cenas e 267 décors exteriores, rodado em 6 países e 2 continentes, uma saga familiar que cruza o empenho e sofrimento privados com o gigantesco quadro público da 2ª Grande Guerra, na glória analógica que precedeu "A Lista de Schindler", "O Resgate do Soldado Ryan" ou "Irmãos de Armas". Apesar das personagens de papel maché (o autor e argumentista, Herman Wouk, revela-se especialmente incapaz de dar uma para a caixa com as personagens femininas), de sequências de acção mais longas do que o Nilo e de sub-plots enfiados a martelo pneumático, há um encanto pré-digital, uma bravura na direcção artística, um rigor no retrato de um mundo em vias de extinção que é, por vezes irresistível. As audiências, aquando da emissão em 1983, foram colossais, e cinco anos depois surgiu a sequela ("Ventos de Guerra" cobre "apenas" o período entre o início das hostilidades em 1939 e o ataque japonês a Pearl Harbor), mais 14 horas de ficção, "War and Remembrance" , que levou meia década a produzir - tem 358 papéis dialogados... -, retratando o período de 1942 à libertação em 45 (a conta ficou-se agora pelos 110 milhões de dólares).
Seguindo o percurso privado e bélico do comandante de mar-e-guerra Victor "Pug" Henry - interpretado com a costumeira expressividade esfíngica por um Robert Mitchum - esta segunda série concentra-se na guerra na Europa e, sobretudo, na odisseia da nora de Henry - interpretada com a costumeira sensualidade de boudoir por Jane Seymour - que, ao longo de um total de 28 horas de série, decide pelo menos 14 vezes ficar no Velho Continente depois de saber que o seu destino pode ser um campo de concentração nazi.
Nesta deliciosa forma de masoquismo, o tempo passa devagar para o espectador, e os esforços de encenação das grandes batalhas, com recurso a mais figurantes do que um Benfica-Sporting dos anos 70 e a efeitos ópticos de primeira grandeza, são quase entusiasmantes.
Mas o melhor momento dos 1693 minutos de história - é outro passatempo deste que vos escreve, acumular números inúteis - é quando a amante de "Pug" Henry (uma relação sentimental que demora uns três anos a concretizar-se, mantendo o registo hipnótico do conjunto), interpretada pela falsamente púdica e crocante Victoria Tennant, umas cinco décadas mais nova do que o geriátrico Mitchum, se reúne com este na antecâmara da frente russa, em luta contra o avanço nazi rumo a Leninegrado. Os soldados soviéticos estão exaustos, o ânimo não é o melhor e, de repente, a realização sempre funcional esquece-se das audiências e avança, numa íntima elegância, pelo armazém onde os militares repousam e capta Victoria (nome apropriado) a cantar, na sua própria voz, frágil, sob a muda atenção de todos, um tema querido da época, antes de regressar a tempestade, o célebre "The White Cliffs of Dover", de Burton/Kent:

"There' ll be bluebirds over/
the white cliffs of Dover/
tomorrow just you wait and see

There'll be love and laughter/
and peace ever after/
tomorrow when the world is free


É só um minuto, mas vale uma série inteira.

2 comentários:

Anónimo disse...

Desde os meus 14 anos, quando andavamos à chuva, que gosto de te ler. Continua.

Gabriela CR

Pedro Marta disse...

Obrigado, Gabriela. Gostei de voltar a ouvir-te.