quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Sede de Liberdade

O relatório da Sedes não trás nada de muito novo. Nada que na plural Geração de 60 não tenha já sido dito e repetido. A sucessão de diagnósticos acaba por se tornar tão viciante como paralisante. É preciso apontar caminhos, é preciso avançar, é preciso correr riscos.

Em primeiro lugar há que reconhecer os erros. Os erros não são específicos deste governo ou desta oposição em particular. Os erros manifestam as crenças ocas do nosso tempo e têm como resultado a revolta, a impaciência, a descrença, o tédio e a violência. E o erro principal é o de se atribuir o primado da vontade sobre o pensamento a toda a acção humana. Não se espera de um governante nem de um empresário que pense, mas sim que decida, que manifeste a sua vontade e escolha um qualquer caminho leve ele aonde levar. A suspeita de que o pensamento que se exerce individualmente é para se consumir individualmente em vez de se comungar publicamente, é uma das expressões do pessimismo moderno. E é o que temos: todos a discutirem sem se ouvirem uns aos outros e decisores autistas a fazer só o que lhes dá na cabeça.
Depois, uma sociedade sem valores comuns ou afins entre os seus membros também não permite que haja um autêntico sentimento de partilha e de identidade entre cada um. A sociedade espartilha-se num sentimento individual baseado no interesse e expectativa pessoal de cada um relativamente a si mesmo e em que os outros são meros instrumentos para uma realização pessoal. Degradado o pensamento na vontade e o sentimento num solipsismo, entra-se numa depressão de que dificilmente se pode recuperar.
A Sedes não fala só de Portugal. A Europa está no mesmo beco sem saída. Ao contrário da América, a Europa, tem passado na sua história por rupturas e revoluções que têm dado origem a regimes sucessivos: várias dinastias, várias repúblicas, alternâncias de totalitarismos e democracias, separatismos e independências. A Europa gera revoluções quando a saturação do status quo se torna insuportável. Não se dão logo que dessa saturação se tem notícia. Preparam-se longamente até que um dia eclodem imparáveis. A Sedes quer regenerar o sistema com paliativos. Acredita que há apenas um desvirtuamento pela persistência de nepotismos e compadrios, por perpetuação de uma mesma classe política que não se regenera e não se abre. O perigo são os populismos que estas águas paradas podem incentivar. Lugar comum: o populismo é o principal inimigo da democracia! Depreende-se que em democracia não há populismo. E no fundo, na democracia que já não o é, o perigo não é ela já não o ser, mas o populismo que pode eclodir do seu vazio. Mas o que é o populismo senão a demagogia em que a democracia degradada se torna?
Portugal só tem a sua oportunidade se tiver a sua autonomia. Não falo de autonomia como quem fala de isolamento, falo de autonomia como quem tendo consciência de si pode determinar a partir dos seus objectivos o seu caminho. Não é preciso ser grande, nem estar num centro territorial, nem ter tudo e em maior quantidade que os outros. É preciso promover o saber: educar para a liberdade. Enquanto não houver uma escola livre, nem o direito de ensinar, continuaremos de insucesso em insucesso. Continuaremos a ter homens submissos a um hierarquia voluntarista e egoísta, homens assustados com a injustiça que lhes pode desabar em cima, homens tristes sem esperança.
O preço que pagamos pela organização e omnipresença do Estado, não é só o dos impostos imparáveis, é, sobretudo, o da negação da nossa liberdade individual. O perigo, é já nem termos como Povo noção do que seja isso da liberdade, e, por isso, julgarmos que nos podemos arrastar nesta impotência recorrente como se nada fosse.
Estarão os diagnósticos realmente bem feitos? Que impede então a reacção? Como mudar a democracia quando ela está ocupada por uma oligarquia prepotente e demagógica? Como fazer para que se deixem de passar atestados de menoridade aos portugueses?

2 comentários:

João Maurício disse...

Caro João Luís,
Mais um excelente texto!
De facto, nunca vamos ao cerne das questões, andamos a enganar-nos uns aos outros. É o que torna este "sistema" tão enjoativo : não permite o crescimento. Parece que estamos num quarto fechado,
intoxicados pelo ar viciado, e onde quem sugere simplesmente abrir uma janela é olhado com desconfiança e posto lá mais para o fundo ...
João W.

Manuel Rocha disse...

Gostei! Bom texto!

Atestados de menoridade aos portugueses ?Não ! E tão pouco atestados de inocência! Os portugueses são parte, e sabem que são parte, do que se critica. São adultos inebriados pela possibilidade infantil de se viver numa variante permanente do "american dream". Querem mais de tudo. O bem social que idealizam só pode decorrer do sumatório das prosperidades individuais. São estas as baias transversais do nosso pensamento, do qual nem o papel da SEDES é tb ele exemplo pq não consegue identificar linhas de ruptura.