quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

II. Diane de Poitiers, Ivan Cloulas, Fayard, 1997

Afinal, todos têm um pouco de razão. Diane não é um símbolo de libertação feminina. Não mudou de forma majestosa o curso da História, não é essencial conhecê-la para sermos felizes. É evidente.

Mas a perda de Diane não deixa de ser significativa do mundo em que vivemos. Uma sociedade que admira uma Diane é uma sociedade que é capaz de admirar. Só por isso deve ser objecto de admiração. E duradouramente. Só por isso merece a nossa duradoura admiração. E admirar a beleza, o que convenhamos é dos melhores motivos que conheço para suscitar a admiração. É uma sociedade lúcida, não puritana, amante da vida e da extraordinária riqueza que a vida nos pode oferecer.

Porque, convenhamos, a beleza é sempre um superávite. Um estafermo pode ser saudável, perfeitamente funcional, procriar (é certo que outros estafermos), dar felicidade. Mas que a natureza, para além da funcionalidade, ainda nos ofereça o espectáculo da sobreabundância da sua energia criativa, é palco sob o qual nos temos de sentar para admirar a generosa dádiva que nos dá. Que algo tão inútil como a beleza se instale no mundo, e sobretudo numa pessoa concreta, demonstrando que o ser humano pode ser portador de um benfazejo capricho divino, é algo que apenas nos deve provocar o espanto e a adoração.

Essa beleza serviu de pouca coisa, mas foi bastante para em hábil política de matrimónios, acabar por transmitir o seu sangue a um rei de França, Luís XV, e através dele, de todas as casas reais europeias. Não sei se a beleza transforme a História do mundo, mas transforma de certeza a História de muita gente.

Faz-nos reflectir além do mais sobre o lugar comum que afirma que vivemos numa época de imagem, com o culto da beleza. Tenho as minhas dúvidas. O que se admira hoje em dia é o produto de aparência saudável, ginasticado, o paralelo dos alimentos saudáveis. O mundo em que vivemos é muito mais mágico, timorato, que estético. Quando vemos as modelos raramente vemos beleza. Vemos produtos meramente instrumentais em relação a um fim. Seja ele a venda de um produto, de uma forma de vida, de uma marca. A beleza é exactamente o contrário do instrumental. Está aí. Apenas para ser admirada. Sem outra função que a de demonstrar que o mundo é capaz de a produzir.


Alexandre Brandão da Veiga


http://www3.fnac.com/item/author.do?category=book&id=41644
http://www.librarything.com/author/cloulasivan
http://www.clio.fr/espace_culturel/ivan_cloulas.asp
http://en.wikipedia.org/wiki/Diane_de_Poitiers
http://www.publius-historicus.com/diane.htm
http://www.dianedepoitiers.sharibeck.com/index.html

2 comentários:

Duarte Duval disse...

bom blogue.

Anónimo disse...

É uma pena que Diane (ou Diana) de Poitiers seja, em muitos casos, apenas lembrada como a amante de Henrique II da França.
Se analisarmos a sua história, esse é o fato que menos importa. Diane de Poitiers, além de bela, como bem registrado no blog, foi um espírito à frente do seu tempo, que contribuiu, e muito, pela libertação feminina e que desempenhou importante papel (influenciando o seu rei) na boa administração da França do Século XVI.