quinta-feira, 5 de abril de 2007

De Sexta a Domingo

Quantas pessoas, entre os praticantes e os apenas crentes, se interrogam sobre em que medida contribuíram e contribuem para a sexta-feira da paixão de Cristo?
Quantas consciências despertam para o lado obscuro, difícil e enigmático do cristianismo, talvez aquele que, mais presente, se deveria abrir para as consciências como ponto de partida da razão de ser da própria humanidade?
Fazem-me pensar, sobretudo, aqueles que exibem um excesso de alegria e de confiança na verdade optimista da ressurreição como se essa realidade secundarizasse a estranheza e até o temor que representa a paixão e morte de Cristo, Deus-Filho.
Penso nos que se afirmam cheios de presença divina, cheios de diálogos com Deus, cheios de uma companhia protectora, indiferentemente paternal ou maternal, e, sobretudo, cheios de certezas tão objectivas como se tivessem sido premiados pela experiência mais majestática e solene de uma revelação evidente. Esses, olham da sua fé esclarecida, a restante humanidade mergulhada num desespero e numa desolação a que, resplandecentes, são alheios, excepto nos momentos de bonomia e universal compreensão cristã em que praticam as convencionais boas acções ou se distinguem nas causas convencionais do bom cristão.
Estarão convencidos de que tudo o que há a meditar no cristianismo é a educação da vontade que está na base de uma moral reduzida aos comportamentos sociais?

II

Não censuro, ao contrário do que possa parecer, a moral. Aprecio e comovem-me as almas dedicadas e imbuídas de um espírito comunicante de optimismo e companhia. Mas a moral será sempre resultante do exemplo ético dos santos, dos heróis e dos sábios, da justiça das leis e do amor da educação, e, estando no plano dos efeitos e não das causas primeiras decairá num formalismo sempre que não se renovarem na vida dos povos as experiências que justificam a reflexão de uma ética, a relação de cada indivíduo com os princípios da filosofia. Longe do exemplo, da justiça e do amor toda a moral decairá num formalismo e numa rotina que fecha as portas ao mistério, à verdade e, por isso, à liberdade.

III

O poder secreto do cristianismo é o seu efeito na solidão da vida interior de cada um. Não dispensando o apostolado, hoje como há dois mil anos, o cristianismo dirige-se integralmente ao indivíduo e rejeita qualquer forma de gregarismo abstracto na sua mensagem. O cristianismo significa seguir Cristo, seguir o seu exemplo. A quem se dirige? A cada um de nós enquanto indivíduos e apesar de cada indivíduo ser uma criatura de relação necessária.
O poder do cristianismo é justificar uma razão de ser para cada homem e, com ela, estabelecer uma relação singular entre cada um de nós e Cristo, esse poder é o amor, o amor universal de que cada um é fruto e em que cada um participa individualmente. Fora desta relação pessoal que o amor exige, todo o social surge numa segunda instância, numa dimensão da realidade existencial sem qualquer conteúdo transcendente, sem qualquer tipo de relevância necessária, uma vez que vai reflectir sobre efeitos de causas, ou seja, a sociedade é o que forem as pessoas.

IV

Não obstante o temor devido a Deus, o cristianismo surge aos olhos de muitos cristãos com um cunho positivo, optimista e em que a vitória do bem sobre o mal está assegurada numa certeza quase arquetípica. Diria, com um cunho tão demasiadamente positivo e optimista que, por vezes, não descortinamos o lugar daquele temor devido a Deus. É que o temor a Deus exige de cada um a consciência do pecado, do erro e do mal. Não uma consciência feita de exemplos ou casos distantes, antes uma consciência experienciada pela nossa própria vida. É este esforço da consciência que o cristianismo exige em cada momento. Trata-se, no fim, de reconhecer que, a paixão e a morte de Deus é o dado mais perturbante na vida da humanidade porque é aquele em que Deus mergulhou sem mácula na mesma vida que os homens vivem, o que faz da vida dos homens uma analogia com a vida de Cristo. Da ressurreição, vivemos apenas a esperança, por enquanto.
No excesso de confiança do cristão vela-se, muitas vezes, uma substituição do movimento que é a vida pelo estatismo de uma verdade final já revelada. Valoriza-se a conclusão, à imagem de um desenlace, como se de uma sabedoria prévia se tratasse presumindo-se poder dispensar a racionalidade e, com ela, o pensamento, por ser desnecessário perante tal revelação. Todavia, a morte de Deus realizando-se em Cristo, não é um exercício para simbolizar ou parabolizar uma verdade inexprimível em si mesma, pois, Cristo não é um símbolo mas a própria verdade. Não se apresenta para significar algo que esconde, uma vez que atrás de Cristo, ou Deus, nada mais é concebível. Assim, a morte de Cristo contém um sinal inegável da responsabilidade de que o homem participa no processo universal de redenção: por um lado, confiando na misericórdia infinita de Deus e, por outro, assumindo a mesma morte de Deus, a mesma necessidade e o mesmo risco incalculável de uma viagem sem regresso.

V

A situação existencial do homem não tem o seu equivalente na felicidade prometida pelo cristianismo mas no processo da morte e da ressurreição. A ressurreição abrirá as portas dessa felicidade prometida, mas, entretanto, é na razão de ser da morte de Cristo que o homem pode encontrar a razão de ser do seu existir e do seu existir naquela actividade que lhe é exclusiva: pensar. Ser homem é pensar. O pensamento no homem é, então, o caminho da consciência, o caminho da experiência difícil e humílima de reflectir para libertar, para se libertar. E se o pensamento é para libertar ou para se libertar, então, ele é a própria liberdade.
Ora o erro está em opor pensamento e sentimento dado referirem-se a ordens gnoseológicas diferentes: o sentimento é do domínio do particular e por isso afecta ou radica na intimidade de cada um sem transmissibilidade e o pensamento é do domínio do universal pois, permite o convívio e a comunicação entre os homens. Ainda que sinta não é por sentir que o homem é homem. O homem é homem porque pensa segundo a razão.
Contrapõe-se, na dialéctica moderna do pensar e do sentir, que o sentir radicado no coração e reflectido na piedade e na caridade para com o próximo é a única via para a redenção menosprezando-se, assim, a racionalidade da alma. No lance subtil, fazem corresponder via interior a provação exterior, ou até a demonstração, denunciando, desse modo, uma crença mais fenomenológica do que autenticamente espiritual. Decaem, por fim, num moralismo justificando-se em exemplos que os podem fortificar e enfraquecer.

VI

O pensamento humano é o movimento que coincide com a evolução espiritual do homem. Nesse movimento, evolui, também, o sentir. O sentir e o sentimento humanos são um reflexo do pensar. E se o sentir tem esse reflexo do pensar, então, todo o sentimento humano que inclui os valores civilizacionais serão um reflexo da razão universal que conduz a civilização. Não será pois estranho que esse sentimento educado, por vezes, guie a espiritualidade humana. O que é perigoso é que a luta contra o esquecimento, o sono e a morte não seja travada com risco de vida na própria experiência de cada homem.
O mundo é uma incessante criação pois não está criado de uma vez por todas. Ora a civilização, quer dizer, a vida vivida segundo os valores em que se realiza a razão de ser do homem é a própria continuação da criação.
Continuação implica tradição, tradição implica a fonte e a transmissão desses valores e dessa actividade, o que faz com que, em cada momento, o pensamento proceda numa relação interrogante entre princípios e realidade. Ora, o caminho dessa interrogação incessante é a filosofia. Não a história da filosofia como repositório monográfico das ideias, da cultura e dos costumes. A filosofia é a própria actividade do espírito pelo que não pode ser enclausurada no passado ou no futuro, nem pode ser fixada numa forma definitiva. A filosofia tem a sua própria justificação no fluir do pensamento como actividade do espírito, e se o espírito não cessou a sua actividade, então, a filosofia carece de se renovar a cada instante.
Assim, se compreende que não haja oposição entre filosofia e religião, pois, enquanto a verdade filosófica é uma expressão do pensamento e da racionalidade que justificam a própria humanidade, a verdade religiosa é supra-humana e constitui-se como uma promessa de realização absoluta numa vida nova.
A filosofia coincide com a situação actual do homem sendo, por isso, uma actividade eminentemente humana, a religião anuncia uma libertação que se realizará numa transcendência da vida actual mas depende do que o homem fizer para a alcançar.
Em vez de oposição, o que há é a culminância da filosofia em religião pois nem a filosofia se pode exercer sem verdade nem a verdade se dá sem a liberdade que a razão humana procura.

VII

Quantas pessoas, entre os praticantes e os apenas crentes, se interrogam sobre em que medida contribuíram e contribuem para a sexta-feira da paixão de Cristo? Diremos, agora, quantas pessoas mantêm a religião fora do sentimento para que no final do caminho entre o nascer e o morrer resplandeça a verdade prometida pelo cristianismo?

1 comentários:

João Maurício disse...

Li e gostei.
É o assunto fundamental das nossas vidas, tão esquecido e aqui tão bem referido, com as devidas profundidade e inquietação. Parabéns!