sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O referendo inglês I

Anuncia-se portanto o referendo inglês. Compreendem-se as necessidades de curto prazo de natureza eleitoral do governo inglês ao fazer essa promessa – afinal queria ganhar as eleições. «Paris vale uma missa». Seja. Mas qual vai ser o cenário que se segue?

Dizem boas ou más-línguas que o senhor primeiro-ministro britânico vai apoiar o «sim» à permanência na União Europeia, e que em suma apenas faz o referendo para que o povo britânico se possa pronunciar. Seja, igualmente.

Mas como velho aprendiz de feiticeiro do nosso Goethe, talvez esteja a mexer em fenómenos que o ultrapassam. O custo de uma vista curta pode ser um problema longo.

Vejamos então os cenários possíveis: ou ganha o «não», ou ganha o «sim». Em suma, ou a Inglaterra sai da União Europeia, ou não sai.

Se a Inglaterra sair, e então? Não é bom para a União Europeia, é certo. Perde dimensão, fica uma ferida mais a juntar ao problema grego. Nada na vida é só bom ou só mau. Seria ridículo dizer que a saída da Inglaterra seria inócua para a União Europeia. Tem tido um papel muto importante na maior integração europa, nem que seja por contraste. Os países mais eurocépticos, perante o exagero britânico, tendem a afastar-se desse rumo e ficam mais eurófilos. Mas a verdade é que a União Europeia não perde a sua capacidade de expansão. Há ainda países dos Balcãs e eventualmente pode centrar as relações com a Rússia. A vida coloca problemas, mas dá soluções. E o peso que tem a Inglaterra na União Europeia não é comparável com o peso que a União Europeia tem no Reino Unido.

Mas que custo teria o Reino Unido? Em termos internacionais, a aliança privilegiada com os Estados Unidos poderia ficar efectivamente incólume (com todos os seus malentendidos e ressentimentos, é certo), mas um dado duro, frio, objectivo, impor-se-ia: o Reino Unido sozinho não teria peso bastante para ser parceiro significativo dos Estados Unidos. Manter-se-ia como aliado, mas a União Europeia em proporção seria um aliado bem maior, mais estratégico, mais relevante. A vida é dura e cada um tem o tamanho que pode. As relações com a Europa não terminariam, mas o Reino Unido perderia direito de voto na regulação europeia e, sendo muito mais pequeno que a Europa, acabaria por ficar bem mais dependente do que outros decidissem que se estivesse dentro a União Europeia. Para um país que, não entrando no euro, queria ter lugar marcado no directório do euro caso entrasse, seria rude golpe.

Lançando-se numa expansão mais livre na aparência, apenas somaria a uma maior irrelevância do lado esquerdo a uma maior submissão do lado direito.

Internamente tal saída não sairia de graça para o Reino Unido. Os escoceses deixaram bem claro que se querem manter na União Europeia. Tendo a Inglaterra dado o exemplo, um futuro referendo escocês não seria tão certo a favor a manutenção da União britânica, desde que a Europa não colocasse entraves à adesão da Escócia, como antes fez. O País de Gales, mais pobre e mais explorado (não são nunca os mais fracos quem reclama, já o sabemos), poderia começar a ver-se tentado pela solução escocesa. E a longo prazo teríamos uma Inglaterra reduzida ao que é: Inglaterra. O que não é nada mau, mas é pouco no mundo actual.

Mas nas zonas que não fariam secessão o mal-estar aumentaria. O Norte de Inglaterra, mais pobre, poderia começar a levantar problemas, e a insatisfação social e as divisões regionais poderiam acentuar-se.

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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Cédric Villani – Théorème Vivant / Cédric Villani – Teorema Vivo


 

 

Gauss ne montrait pas ses travaux préparatoires. Poincaré en a avoué quelque chose, Hadamard en a un peu théorisé. Villani montre les preuves et les documents de la naissance d’une théorie scientifique. Présentés souvent en cru, ils peuvent épouvanter les non experts. Pourtant, l’essentiel ce n’est pas de  comprendre, en toutes ses dimensions techniques, chacun d’entre eux. Pour comprendre la beauté de la croissance  d’une plante on n’est pas tenu d’être spécialiste en physiologie végétale et chimie organique. Les essais, les paris éduqués, les espoirs, les erreurs, les hésitations, la vie familiale, les relations d’amitié et sociales, les goûts littéraires et artistiques, les préoccupations professionnels, tout ça fait partie de la création scientifique.

Tout ça montre aussi la continuité et la fécondité de la science. On fait entendre souvent que la physique classique, tant «dépassée», est simple limite de nouvelles théories plus robustes et plus étranges. Pourtant, elle continue à nous présenter  des surprises. L’équation de la dynamique des fluides d’Euler, et, surtout centrale dans le parcours de Villani, l’équation de Boltzmann sont encore objet d’étude, elles n’ont pas révélé tous ces secrets, et sont encore fécondes soit du point de vue théorique, soit pratique. Elles aussi révèlent un monde qui est en somme aussi ordonné et aussi étrange que celui de la physique contemporaine.

L’étrangeté, le «contre-intuitif» est finalement un concept historique. Poincaré étonne ses collègues en montrant l’instabilité du système solaire, contre leurs «intuitions». Kolmogorov dans les années de 1950, en face des «intuitions» contraires de ses collègues, démontre que le système solaire est probablement stable. Et dans les années de 1980 Jacques Laskar démontre le contraire. L’amortissement Landau lui aussi est un inattendu phénomène de stabilisation dans un monde qui se croyait instable.

Dans ce livre on montre aussi la fécondité de Boltzmann, un physicien du XIXe siècle, qui montre encore toute son actualité. Pour les littérateurs Duino est le lieu des Elégies de Rilke, pour quelques scientifiques c’est celui où Boltzmann s’est suicidé. Ils ont les deux autant de rigueur que d’artiste. La création  mathématique ne se distingue point des autres créations humaines en son essence. Elle aussi participe de la vie humaine, de ses problèmes, de ses peurs et de son imagination. Ce livre prétend en être témoin. 

Gauss não mostrava os seus trabalhos preparatórios, Poincaré confessou alguma coisa, Hadamard teorizou um pouco sobre isso. Villani mostra as provas e os documentos do nascimento de uma teoria científica. Apresentados muitas vezes a cru, podem assustar os não especialistas. No entanto, o essencial não é perceber, em todas as suas dimensões técnicas, cada um deles. Para se perceber a beleza do crescimento de uma planta não tem de se ser especialista em fisiologia vegetal e química orgânica. As tentativas, os palpites educados, as esperanças, os erros, as hesitações, a vida familiar, as relações de amizade e sociais, os gostos literários e artísticos, as preocupações profissionais, tudo isto faz parte da criação científica.

Mostra igualmente a continuidade e a fecundidade na ciência. Muitas vezes dá-se a entender que a física clássica, tão «ultrapassada», é mero limite de novas teorias mais robustas e mais estranhas. No entanto, afinal ainda continua a revelar surpresas. A equação da dinâmica dos fluidos de Euler, e sobretudo central no percurso de Villani, a equação de Boltzmann, ainda são objecto de estudo, ainda não revelaram todos os seus segredos, e ainda são fecundas seja sob o ponto de vista teórico, seja prático. Também elas revelam um mundo que é em suma tão ordenado e tão estranho quanto o da física contemporânea.

A estranheza, o «contra-intuitivo» é afinal um conceito histórico. Poincaré espanta os seus colegas ao mostrar a instabilidade do sistema solar, contra as suas «intuições». Kolmogorov nos anos de 1950, perante as «intuições» contrárias dos seus colegas, demonstra que o sistema solar é provavelmente estável. E nos anos de 1980 Jacques Laskar demonstra o contrário. Também o amortecimento de Landau é um inesperado fenómeno de estabilização num mundo que se julgava instável.

Neste livro mostra-se também a fecundidade de Boltzmann, um físico do século XIX, que ainda mostra toda a sua actualidade. Para os literatos Duino é a terra das Elegias de Rilke, para alguns cientistas, é o local onde Boltzmann se suicidou. Têm ambos de rigor e ambos de artista. A criação matemática não se distingue da restante criação humana no seu essencial. Também ela participa da vida humana, dos seus problemas, dos seus medos e da sua imaginação. Este livro pretende ser testemunho disso.
 
Alexandre Brandão da Veiga

 

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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A Síria não é árabe


 

E eis que as grandes migrações começam. Bem sei que não vêm apenas da Síria, mas do Iraque, Afeganistão, Eritreia, da África sub-sahariana.

 

Mas a Síria é significativa em múltiplos sentidos. É um pais árabe, dizem-nos, muçulmano, na maioria, sunita, em maioria relativa. Seria pois de esperar que se dirigissem para um país árabe por excelência, muçulmano por natureza e sunita centralmente. Nada mais, nada menos… que a Arábia Saudita.

 

E eis que nenhum eles pretende ir para a Arábia Saudita.

 

Os célebres e ditos países árabes não o são. São arabizados. Os árabes, os verdadeiros, os da Península Arábica, nunca sentiram os outros como árabes na verdadeira acepção, mas apenas arabizados. Da Síria a Marrocos os que se anunciam como países árabes deveriam reflectir sobre a nula solidariedade da Arábia Saudita. Largam dinheiro a salafitas, financiam terroristas, despejam fortunas em propaganda, mas não acolhem, e muito menos patrocinam o acolhimento de supostos árabes.

 

Os verdadeiros árabes, os da Península Arábica, nunca consideraram os outros como verdadeiros árabes, mas meras imitações. No que respeita à Síria e ao Líbano e ao Egipto, os três países mais cultos de entre os muçulmanos, os árabes verdadeiros desprezam-nos por serem pobres e mera imitação, invejam-lhes uma História muito mais antiga e mais profunda cultura.

 

Podemos perceber que os sírios não queiram ir para o Egipto ou para Marrocos. Não são países ricos. Mas porque não a Arábia Saudita? É rica, bem o sabemos.

 

É pelo clima árido que nem pensam emigrar para lá? E quem desconhece a dureza do Inverno alemão e sueco?

 

Os sírios muçulmanos preferem a Alemanha à Arábia Saudita. Quando dobram a espinha inclinam a cabeça para Meca, mas quando pretendem viver como homens viram-lhe o traseiro. Praticam a apostasia com os seus pés, abjuram com a sua decisão. Dizem: Só os cristãos sabem fazer sociedades onde os homens podem viver como homens. O islão não é capaz de o fazer. Apostasiam com os pés e não com o coração. Esse o seu problema e futuramente o nosso.

 

Mas a vida tem ainda mais paradoxos. O suposto moderno, aberto, rico de ideias, generoso governo grego mostra-se indiferente à sorte dos migrantes. Afinal, é fresco ter um governo com um partido protofascista, como o da independência grega. E os dois símbolos de acolhimento e abertura nesta crise são os símbolos retrógrados por excelência: Merkel e o Papa.

 

A Alemanha é rica, precisa de migrantes, tem um problema demográfico? Mas não é isso que dizem de toda a Europa? E, no entanto, nem todos os países têm manifestações à chegada dos comboios a receber os migrantes e a dizer que são amados. Tanto Merkel como o Papa invocam os valores cristãos do acolhimento. E vemos os bem pensantes bramir discursos, mas fazer bem pouca coisa.

 

A comédia humana continua, sempre com máscara da tragédia. A Europa não quer muçulmanos que apostasiaram com os pés sem o saber, os países árabes por excelência mostram aos arabizados que não o são, mas mera imitações, os arabizados não percebem o desprezo dos países da Península Arábica, são as figuras da reacção a promover o acolhimento em nome dos valores cristãos.

 

Delicioso Outono do humor, prenúncio de novas tragédias. Os fracos conceitos teóricos da ciência política comum esfarelam-se sobre os nossos olhos e ninguém os tenta reformar. Qualquer ciência humana que não dê lugar à tragédia e à comédia não é escolar, seria elogio no caso. É apenas pobre, pobre, pobre. Que não se deixe de olhar para o mundo quando se olha para os livros. Que os arabizados reflictam porque pensam ir para a Europa para se sentir humanos e não para Medina. E que os europeus pensem se lhes basta a civilização para serem humanos quando a palavra de acolhimento recorre sempre à mesma Pessoa.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O caso grego III


Falemos então de eficácia.

 

E também nesta matéria vejo alguns argumentos que me deixam perplexo.

«Vê-se que esta política não funciona, veja-se o estado da Grécia». Admito. Mas como argumento é incompleto e pouco rigoroso. Existe uma coisa em economia chamada mecanismos de transmissão. Quais são e quanto tempo duram a actuar no caso grego? Com que medida teriam de ser complementados caso fossem as medidas adequadas? Não posso dizer sem mais: este doente, desde que está fazer quimioterapia, está cada vez pior, sente-se cada vez mais mal disposto, logo, a quimioterapia não está a funcionar. Seria tão fácil dizer que sim, quanto é fácil dizer que não. Fundamentar é sempre mais difícil que aderir ou recusar.

Outro argumento é o do suposto keynesianismo. Pobre Keynes, para o que é usado. O problema é que este suposto keynesianismo viola os dois postulados keynesianos: o défice não é cíclico, compensado por superávites, mas o défice é constante; e desconheço como pode haver multiplicador numa economia aberta. Numa economia aberta apenas há dissipação. Que me lembre, o próprio Keynes terminou mercantilista, favorecendo a preferência imperial. Como todos, teve de fazer uma escolha. Para manter o multiplicador teve de sacrificar o livre comércio, como Einstein para preservar as belíssimas equações de Maxwell teve de sacrificar os referenciais absolutos no espaço-tempo. Nenhum dos dois era tonto e ambos sabiam que sempre que queremos preservar algo temos de fazer sacrifícios. Que majestoso «a contrario»…

Entendamo-nos. A situação da Grécia leva-a a carecer de ajuda europeia. A ajuda externa não se nega à partida, mas não se concede incondicionalmente. Mas se estivermos a falar entre adultos teremos de ver o que é essencial sob o ponto de vista de eficácia. E condição necessária, seja qual for o cenário (Aristóteles era grego afinal) é que os gregos façam por eles o que os outros não podem fazer.

A reforma das instituições é necessária. Em boa verdade, dizem outros, é preciso nuns casos reconstruir, noutros mesmo construir pela base as instituições. Concordo plenamente. Instituições públicas, mas também privadas, mudar leis, reconstruir organismos. Sem dúvida.

Mudar instituições é também mudar os casos clássicos de privilégios fiscais. Sem dúvida. Embora aqui tenhamos de pensar duas vezes. Os privilégios dos armadores, se forem na íntegra destruídos, podem levar a deslocalização da actividade económica. Uma taxa liberatória ou um sistema semelhante poderia ser pensado. Quanto aos privilégios da igreja ortodoxa temos de perceber que a História grega não é igual à do resto da Europa. No século XVI a Europa do Norte, no início do século XIX a Europa católica, destruíram o poder temporal da igreja, reduziram o seu património. A Áustria pós napoleónica poude ser mais josefina que José II. Napoleão deu-lhe essa possibilidade. Já a igreja ortodoxa grega tem um significado bem diverso para os gregos. Em quatrocentos anos de dominação turca foi a única instituição que tratou os gregos como seres humanos. Os gregos têm todas as razões para se sentirem gratos em relação a ela. E isso só mostra a sua dignidade. Mas têm de ser consequentes. Acho nobre que não queiram a fazer a igreja pagar. Mas então que paguem eles. Tiradas de nobreza com facturas mandadas a terceiros perdem algum do seu brilho, convenhamos. É uma escolha grega, em suma, não uma obrigação. Quando às forças armadas, haverá que distinguir o que são privilégios dos militares, do que é substancial esforço de defesa da Europa, apesar de tudo.

Mas a maior reforma a fazer na Grécia é de mentalidade. Séculos de falta de independência e de maus exemplos de governação (turca, mais uma vez) não deram à Grécia bons modelos de governação.

Resumamos tudo a uma só palavra. Complacência. Esse o pecado grego e o do Sul da Europa. Mais especificamente as cinco complacências mortais:

a)       Complacência em relação à corrupção;

b)      Complacência em relação à evasão fiscal;

c)      Complacência em relação ao tráfego de influências;

d)     Complacência em relação à mentira contabilística e organizacional;

e)      Complacência em relação à má qualidade de gestão, pública e privada.

O problema grego, como em geral o do Sul da Europa, é o da falta de exigência. Para consigo e para com outros. Não acuso todos os gregos, nem todos os europeus do sul disto. Sou do sul e não me considero culpado disto. Mas colectivamente os povos do sul, em graus diversos, vivem bem com estas pestes, estas maleitas públicas.

Tendo os povos do sul resolvido esta peste da complacência, muito mudaria nas suas condições económicas. Mas este é em primeiro lugar trabalho deles. Carecem de ajuda? Sem dúvida. Mereceram-na, será útil? Talvez nem tanto, enquanto não houver a certeza de que farão o trabalho de casa.

Significativo, sobretudo para quem tem o olhar de etólogo que vê os animais a comportar-se em conjunto, é a distância entre o discurso e a realidade. O discurso é tribunício, dos que choram com a humilhação de Grécia e a tratam como mera vítima. Vítima do mundo, das finanças, das elites, dos seus governos democraticamente eleitos, dos governos democraticamente eleitos de terceiros povos, dos turcos. O discurso de indignação é um discurso de ódio, já dizia a velha retórica clássica. Por isso bem se percebe que para quem discursa sobre a Grécia, a Grécia é um mero pretexto. Não é a Grécia que os preocupa, mas antes a demonização de terceiros. Os que dizem defender a Grécia usam-na apenas. Agradecem que esteja mal, que não resolva os seus problemas. Preferem aliás que não os resolva. O seu sofrimento serve-lhes de tópico argumentativo, não de preocupação. É odiar que os ocupa, a Grécia apenas rastilho desse ódio. Os que antes acusavam os gregos de serem contra os turcos, de terem uma igreja presente demais na sua vida política e social, de serem seguidores submissos da União Europeia, pretendem atirá-la como cão raivoso e ingrato aos seus vizinhos. Lacrimejam pelo que sempre desprezaram, invocando o que de mais falso existe quando exposto: os bons sentimentos. É o ódio que celebram, do ódio vivem. Se com isso a Grécia se queimar, não há para eles problema.

Significativo igualmente para quem se reclama de Nietzsche, sempre que quer ter brasões de pensamento, não perceber que representa o pensamento do escravo, do criado. A invocação do estatuto de vítima é tudo o que Nietzsche desprezava, e com alguma razão. Desprezou as vítimas, sempre. É a voz da copa que se ergue, entre os argumentos das capelistas e as empregadas de tabacaria que se pretendem deputadas. Em linguagem mais popular: sejam homenzinhos e não façam birra como crianças. Entre adultos ajudamo-nos. Perante a birra da criança, ignoramo-la.

A nossa época exige que se termine com uma declaração de simpatia. Não cumpro a exigência, apenas lembro alguma verdade. Os que se lembram de simpatizar agora com a Grécia, que estudem os Cídon, os Cabasilas, os Calecas, os Gregórios Palamas, os Andrónico Paleólogo, o Digenes Akritis, Miguel Psellos e tantos outros, como de há muitos anos faço. Que tenham tido alegria com a libertação grega, como a Alemanha do início do XIX fez, entre as jogadas estratégicas da Áustria, da Inglaterra e da França. Só depois se façam amigos dos gregos. Úteis como armas de arremesso, não é dos gregos que cuidam. Querem carne para canhão, e mais uma vez usam os gregos para essa tarefa. A diferença é que hoje em dia mudou o sítio que faz uso dos gregos como peão estratégico. Antes eram chancelarias, hoje são copas.

 
Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 4 de agosto de 2015

O caso grego II


A mais usual é a instância da legitimidade. A maior discussão centra-se na legitimidade que têm os gregos para exigiram novos perdões, são vítimas da finança internacional, das humilhações alemãs. Enfim, uma longa História de martírio e vitimização.

 

Que a discussão se centre na legitimidade explica-se por razões antropológicas. Se bem repararmos, a fauna que discute está banhada pela modernidade presente (há muitas modernidades). E esta modernidade caracteriza-se pela imensamente pobre teoria dos valores, pelo excesso de direito e pelo paradigma do adolescente vítima. Tudo é vítima, até os povos e os governos democraticamente eleitos.

A questão é que os gregos não têm qualquer legitimidade.

Em primeiro lugar, que me lembre, a dívida que fizeram foi criada por governos democraticamente eleitos. Não me lembro do dia em que os gregos, como aliás os restantes povos do Sul da Europa, tivessem recebido uma ameaça para fazerem mais dívida. Admitir que a sua dívida é ilegítima é afirmar que governos democraticamente eleitos são ilegítimos.

Em segundo lugar, o argumento é o de que os gregos foram vítimas da finança internacional, dos malandros dos bancos e das suas maldosas propostas de créditos. Este argumento em relação a simples particulares já merece algumas subtis distinções. Mas quando estamos a falar de Estados, que têm profissionais especializados a negociar dívida pública, parece-me que caem pela base. Se os bancos engaram os pobres funcionários gregos isso apenas quer dizer que mesmo as instituições de elite gregas são formadas por incompetentes que se deixam enganar na área da sua especialidade, a finança. Esse argumento apenas implicaria que o Estado grego precisaria de uma limpeza fortíssima. Se mesmo as suas elites são constituídas por incompetentes, carece de um saneamento enérgico. É o velho mito de que o soberano, no caso o povo, foi vítima de maus conselheiros. Mito da gleba, é bom de se ver.

Em terceiro lugar, teriam sido as elites as culpadas e não o povo grego. Mais uma vez, o que se pretende afirmar é que o povo grego votava, mas o poder político era uma brincadeira. A verdade é que o povo grego – e mais uma vez saliento, como a maioria dos povos do sul da Europa -, sufragou promessas eleitorais demagógicas, irrealistas, lesivas dos seus interesse de logo prazo. Um povo numa democracia é soberano, não é vítima.

De seguida vem um rol de inépcias da parte dos anti-europeístas, que de repente se lembram da grandeza e do sofrimento da Grécia. Cada um destes argumentos centrados na legitimidade cai pela sua inépcia.

Devemos aos gregos a democracia, uma imensa cultura… este argumento apresenta tantos vícios que se torna difícil desfiar todos eles. Estamos a falar dos mesmos gregos que os de há 2500 anos? Mesmo que estejamos, por que razão para os povos continua a valer um princípio aristocrático que foi recusado para as pessoas singulares? Que pensamento pervertido é este que recusa que eu lembre a grandeza dos meus antepassados por isso ser considerado presunção, mas já considera perfeitamente legítimo que um povo fale dos seus «egrégios avós», quando é duvidoso que a maioria dos avós o sejam? Não percebem as pessoas que a comparação com os meus antepassados reais apenas mostraria a decadência a que cheguei, porque tenho de trabalhar para viver, assim como comparação entre a Afrodite lavadeira e a deusa apenas sublinha que nada vai a favor da primeira. E quanto ao que devemos aos antigos gregos, lembremos que o aprendemos em senhores como Voss, von Willamowitz-Moellendorf, Polhenz, Jaeger, Erwin Rohde, Usener… alguém mais atento há-de reparar que refiro nomes alemães.

Também se lembra agora alguma fauna do imenso sofrimento que tiveram os gregos durante a dominação turca. Não deixa de ser curioso que os mesmos que lutaram pela adesão turca porque querem uma Europa em desagregação, e que por isso sempre insistiram na maravilha europeia da cultura turca, agora se lembrem que a Turquia humilhou e explorou de forma cruel durante 400 anos os gregos. Para esquecer este argumento da próxima vez que defenderem adesão turca…

 

Mas as eleições foram democráticas, e por isso os gregos têm o direito de exigir a renegociação da dívida. Bom argumento este. Na minha casa com a minha família decido democraticamente, aliás por unanimidade, que o meu vizinho nos tem de sustentar. Anunciamos-lho com amorosa alegria e celebração democrática que decidimos que ele nos sustentasse. E não e que o fascista do vizinho não quer respeitar a vontade democrática da minha família e não me quer sustentar? Admita-lo: os vizinhos podem ser por vezes muito desrespeitadores da vontade e da desgraça dos outros.

 

Mas o argumento de legitimidade mostra que este só é possível numa época pouco exigente intelectualmente. Vejamos: quem são os culpados? Não o povo grego, mas as suas elites, os ricos e os políticos. Mas estes foram por suas vezes vítimas. De quem? Das finanças internacionais e dos credores. Mas quem faz parte destes credores? Países democráticos em que os povos se identificam com os seus governantes, como os países nórdicos, e do centro e leste europeus. Ou seja, um povo que diz que foi enganado pelos seus políticos, em quem não confia, culpa em último grau governos que são objecto da confiança do povo. O pecado alemão no fim de contas é o de ter um povo colaboracionista, em acordo com o seu governo, por não se sentir traído por ele, mas por ele representado. Não era suposto ser isto a democracia? De todo. Na imagem do mundo que subjaz aos que defendem as veleidades gregas, democrata é o «maquisard», o salteador de estrada que rouba os ricos, mesmo que não eleito. Se tirarmos a pele de cordeiro destes novos democratas, percebemos afinal a sua genealogia: revolucionário que não arrisca o sangue, a sua concepção de democracia nada tem a ver com eleições, mas com emboscadas.

 

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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O caso grego I


 
Muitos berros, muitas paixões. Era bom de se ver que o caso grego haveria de as suscitar. Mas como diz o velho adágio, é sempre melhor dividir os problemas para não os confundir. E neste caso temo bem que estejamos a confundir três níveis bem diversos da discussão: o poder, a legitimidade e a eficácia.

 

Na perspectiva do poder, a história que se conta é a da Alemanha estar contra a Grécia. Bem vistas as coisas, gritaria pouco credível. Se bem notarmos, é a Grécia contra todos, não contra a Alemanha. Ouvíssemos mais atentamente os finlandeses, os holandeses, os letões, os eslovacos, veríamos que não existe muita afinidade com a atitude grega. Há boas razões para isso. Quando os países da Europa Central e de Leste entraram na União Europeia, os gregos não foram muito solidários com eles, não querendo abdicar de muitos dos seus benefícios. Daí que muitos deles tivessem tentado obter junto da Noruega e da Suíça o que não podiam obter na União Europeia, porque a Grécia carecia de subsídios.

Na perspectiva do poder, a aposta da dita esquerda pós revolucionária criou-lhe um imenso risco. Quando Haider tentou fazer parte do governo na Áustria, mesmo com minoria, todos se levantaram contra o facto. Agora é precisamente a mais extrema-esquerda que não vê problema num partido protofascista no governo de coligação grego. Abriu um cheque para o futuro. Foi a esquerda europeia que deu legitimidade à participação, pelo menos de partidos como o Front Nacional francês. O partido da independência grego é contra o multiculturalismo, contra a imigração e a favor do papel da igreja ortodoxa na vida grega. A esquerda abriu a porta a Pegida, Vlamsbelang, a todos os partidos de extrema-direita na Europa. Não abriu a caixa de Pandora. Já estava aberta. Mas quebrou de vez as suas chaves; é a esquerda europeia que validou a extrema-direita, que a legitimou de vez.

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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Temos de ser abertos e flexíveis?

Ouçamos com ouvido atento, mesmo que ferido por tão dissonantes melopeias, o que diz o transeunte. Como os homens públicos são hoje em dia os filhos das compoteiras, transeuntes relapsos, ouçamos o que nos dizem mais uma vez. “Temos de ser abertos, temos de ser flexíveis”. São duas versões de uma mesma cantiga, a primeira mais de uso na cultura, a segunda mais na gestão pública e privada, ambas na política.

A primeira pergunta que se nos oferece é a seguinte: quem disse isso? Quem se atreveu a impor tal imperativo moral? Quem lançou tal boato?

A segunda questão que se nos deve colocar é a do paradigma que subjaz a estas ideias. A ideia de abertura, por mais que custe a quem me ouve, tem o seu assento na metafísica, a da flexibilidade na biologia. Mais uma prova de que o homem público recolhe vindo não sabe de onde conceitos que na sua boca mais não são que rumores, porque rumor é tudo de onde não se sabe a origem.

Existe um ditame que afirma que perante uma garrafa uns dizem que está meio cheia, outros meio vazia. Imagem impressiva, mas em última análise grosseira, porque se esquece que a melhor visão é a de que vê que metade terá dado prazer e a outra metade ainda poderá dar satisfação. São os cultores da abertura quem mais o cita, o que mostra a rigidez da sua visão.

A abertura ganha relevância intelectual sobretudo com Heidegger. Antes dele ninguém se atreveria a dizer com ar solene que temos de ser abertos, sob pena de os interlocutores acharem que o autor de tais palavras pretendia ser objecto de cirurgia ou teria desejos mais ou menos inconfessáveis. Não querendo comparar os medíocres imitadores com o genial persuasor, a verdade é que no pensamento actual a abertura recolhe todas as pudicícias do pensamento de Heidegger. Ao ver a existência como abertura, na mesma esteira em que dizia que nunca poderemos atingir o centro da clareira (pois não, é uma inevitabilidade estarmos nele), o católico Heidegger, católico arrependido, pudibundo em relação à sua matriz, lançou uma semente de infantilismo que o mundo seguiu com alegria.

Aberto por excelência é o recém-nascido. Mais nenhuma idade da vida tem tantas possibilidades abertas. Porque a abertura é flutuar nas possibilidades, e não persistir nas realizações. Um recém-nascido pode ser das coisas mais ternurentas do mundo, mas é um incapaz, tenhamos a coragem de o reconhecer. Não se pode contar com ele para nos proteger, para nos sustentar, para ser um esteio da nossa vida. É evidente que seria demais exigir tal coisa de um recém-nascido. Mas quando adultos vivem só na abertura, abertos para o mundo, atiram-se a possibilidades apenas como forma de não terem de responder pelas suas realizações. Basta-lhes dizer que são abertos para se sentirem imediatamente no direito de serem absolvidos pela falta de qualquer obra.

Em termos militares é o que se chama uma diversão. Desvia-se a atenção dos outros para a nossa nulidade presente e passada mostrando o infinito de possibilidades que está à nossa frente.

A prova da imensa má fé deste tipo de atitude é que realmente acabam por ser abertos. Mas, destituídos, ainda e sempre de critério, acabam por estar abertos para o que de mais medíocre, indigno, trivial, tem a existência humana. Como o excelente carece de escolha dura, é-lhe mais fácil manter uma atitude de abertura. Sem mais. Mas quem está nesta atitude está parado, não deixa lastro, é mero destinatário da sua própria inércia.

Abertos sempre a outras culturas para as quais esperam que ninguém tenha competência para os julgar, abertos para outros modos de vida que não se dão ao trabalho de estudar. O homem pura e simplesmente aberto é o herdeiro tonto do cristianismo. Não recebe os publicanos e as prostitutas porque recusa uma pureza meramente ritual, ou como acto de amor. Recebe geralmente só publicanos e prostitutas porque em boa parte sabe que eles não o podem julgar, porque isso lhe dá um sentimento de superioridade.

Porque o adulto é sempre alguém que fechou possibilidades. Escolheu uma profissão e não outra, um parceiro e não outro, uma aprendizagem e não outra. Se for equilibrado, e sobretudo se for completo, manterá sempre o maior grau de abertura compatível com a realização de obra. Mas quem faz uma casa não pode ao mesmo tempo estar a jogar xadrez.

A flexibilidade tem o seu paradigma na biologia. No entanto, os animais superiores são-no exactamente porque têm zonas de flexibilidade e outras de dureza. Se os ossos fossem apenas flexíveis não nos moveríamos: arrastávamo-nos, ou melhor, esparramávamo-nos.

Não deixa de ser curioso que as pessoas que mais invocam este argumento sejam pessoas sem grande coluna, sem grande postura moral. Invocam como imperativo categórico o que nelas é uma inevitabilidade, o que mais não podem ser. Dão-se o mérito de uma naturalidade de invertebrados, quando essa naturalidade é apenas sinal de impossibilidade de escolha de melhor.

Desçamos um pouco à terra, ou melhor, falemos agora na linguagem chã do homem público para que ele perceba alguma coisa.

Quando se fala de uma Europa aberta, de uma Europa que deve ser aberta, sou o primeiro a concordar. Mas na medida em que seja aberta mas concentrada nas suas realizações, ou seja, fechada igualmente. Adulta, portanto. Uma Europa aberta não significa abrir-se ao ponto de receber os países deserdados da História só porque o são, só porque conseguiram o ódio ou o desprezo dos vizinhos como único legado histórico e quando muito a piedade da Europa. Quando se diz que temos de receber toda a miséria do mundo quando os Estados Unidos, a Austrália e o Canadá escolhem criteriosamente quem para eles emigra. Quando temos de estar abertos a qualquer indignidade desde que coberta por tradições mais ou menos vetustas, que o são apenas por falta de imaginação dos povos que as consagraram. Quando ao mesmo tempo estes que se dizem abertos, abrem-se ao sofrimento dos animais e a outras culturas que lhes provocam o sofrimento e vivem assim nessa abstrusa contradicção. Quando se diz que temos de ser flexíveis e aceitar entorses às leis, desvios em relação a planos equitativos e bem planeados, apenas porque nos temos de adaptar à realidade. Como se a realidade não fosse também qualquer coisa que tivéssemos o poder de adaptar às nossas exigências.

Quando se diz tudo isto em nome da abertura e da flexibilidade, e no espaço público vemos invocar tamanhos dislates, podemos perceber qual a alma e a anatomia dos defensores de tais despautérios. Infantilizados mimando recém-nascidos, merecendo-nos a mesma confiança que temos nos bebés, e menor ternura, esparramados na sua própria inércia, os flexíveis e abertos são apenas criaturas que fogem às suas responsabilidades, que traficam com influências porque para eles a vida é apenas tráfico.

Entre os grandes não vemos nem essa abertura nem essa flexibilidade. Vemos antes teimosos, obstinados. Carlos Magno, Alexandre, César, Henrique IV, De Gaulle, Churchill negociaram com a realidade, adaptaram-se a ela, mas antes do mais forçaram-na, recusaram ser abertos ou flexíveis. Perante inércias ou iniquidades, jogos de interesses instalados e livres expressões de outras culturas, impuseram um paradigma, porque o julgaram, porque o sabiam melhor. Serôdios herdeiros de um cristianismo mal digerido, instalado em almas pouco preparadas para criticar a sua má aplicação, os abertos e flexíveis apenas sabem construir obra à sua imagem: mole, irrelevante, fugaz. O seu paradigma é Pasqualis que se opôs a Carlos Magno. Quem se lembra dele? Apenas os mesmos que se lembrarão de Carlos Magno em estudo minucioso. Por comparação entre o grande que exista ou venha a surgir, o mero contraponto da mediocridade sorridente.
 
Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

 

 

 

 

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terça-feira, 7 de abril de 2015

Não quero ir para o Panteão

Pessoalmente prefiro ser incinerado e as minhas cinzas espalhadas algures num jardim ou num campo em Itália. Mas são gostos.

As formas de lidar com os mortos dariam por si só muito que dizer. Vivemos uma bifurcação semelhante à que se assistiu em Roma entre os séculos I e II d.C., em que a cremação e a inumação viviam em concorrência.

Um tal estado de hesitação funerária anuncia sempre uma profunda, muito profunda, crise espiritual cujos resultados se vão manifestando. Como configurar as modalidades que os problemas e as soluções terão no futuro, deixo para outra reflexão.

Mas neste mundo hesitante há algo que começa a ganhar força em Portugal, um fenómeno estranho tendo em conta o seu passado. O panteão era coisa de que ninguém se lembrava. O Estado criou-o, o Estado atirou para lá os mortos que bem entendeu, e não se falava mais nisso.

Neste momento - sintoma espiritual não tenhamos ilusões – cada vez que morre mais um, lá aparecem pessoas a dizer: «Atiremo-lo ao panteão», como séculos antes se diria: «Atirem-no aos leões».

A ideia de panteão tal como a conhecemos é francesa. Antes era a abadia de Saint-Denis, local de descanso dos Capetos. Com a Revolução Francesa era preciso mudar tudo. Dessacraliza-se uma igreja e faz-se algo de novo. Imitando os antigos. A igreja de Sainte-Geneviève é dessacralizada e passa a ser um panteão. O nome é romano. A ideia de mausoléu colectivo continuação da monarquia dos Capetos.

São assim as revoluções. Originais ao ponto de ir buscar às origens o que lhes falta em imaginação.

Não havendo reis para lá colocar, colocam-se os grandes homens da pátria. Só homens, porque se mantém a tradição sálica. Revolucionários, mas decentes. Nada de mulheres de direito próprio. Até chegar uma polaca, Marie Curie. Depois de morta.

No caso português, o Panteão é ainda pior. É uma imitação do modelo francês. O original já é pobre, a cópia ridícula.

Não sei se o leitor algum dia teve o cuidado de ir ao panteão. Só verá um vazio, um triste vazio. Retirou-se Deus do espaço, colocam-se corpos em substituição. A ironia é que originalmente panteão é o local onde se adoram todos os deuses (não se vá esquecer algum desconhecido) mas passa a ser o local vazio de deuses… e de homens.

Apenas calhaus e ossadas. Nada mais.

Compreende-se. O Estado não governa mortos, não tem poder sobre eles. O pressuposto de um Estado laico é precisamente o de estender o seu reino apenas aos vivos. Os mortos não têm lugar nele. São as suas premissas, e não as pode ultrapassar. Por isso, quando homenageia, nada tem para homenagear. Não conhece o conceito de mortos, apenas pode honrar cadáveres.

O que existe no panteão é pois apenas isso: pedras e cadáveres. Nada mais. Nem mais um sinal deles. Nem mortos, nem almas. Apenas a pedra fria e corpos a apodrecer.

Com boa intenção as pessoas querem atirar cadáveres para esse panteão vazio. As intenções são boas mas com elas se calça o inferno. Uma fúria atiradiça apoderou-se de Portugal. Hoje em dia a população quer atirar para o panteão as ossadas dos mais amados.

Quem visitar o panteão nacional – refiro-me ao português, mas poderia dizer algo semelhante do francês em grau diverso - pode verificar que está muito mal frequentado. Criaturas estranhas entre si, que em vida provavelmente se odiaram, juntam-se na putrefacção a outros estranhos. Os Capetos nunca foram exemplo de unidade familiar, bem o sabemos. Ao menos eram da mesma família, representavam uma mesma ideia de base. Em Saint-Denis sabia-se com o que contar.

A marquesa de Pompadour era plebeia, não é novidade para ninguém. O seu nome real era Poisson, em bom português, era a senhora Peixe. Por isso, quando morreu, Luís XV conseguiu colocá-la no mausoléu dos nobilíssimos Montmorency, mas com um custo. Na época dizia-se que «lá foram as espinhas da Peixe juntar-se aos ossos dos Montmorency».

A intenção é boa, mas tendo em conta a péssima frequência do local, o seu vazio, sempre que se afirma que se quer mandar alguém para o panteão, temo pela minha vida, ou melhor pela minha morte, que um dia haverá um maduro qualquer que me queira atirar para tal local de desgraça. O panteão não é um local de celebração, mas um espinheiro, um depósito inerte. Para onde se atiram restos em putrefacção de pessoas que nada tem a ver umas com as outras, que nunca se amaram entre si e são obrigadas a um perene convívio mortal com estranhos, que nunca são venerados em tal monte de calhaus.

Estando na moda fazer o testamento vital, aconselho o leitor que não queira ter a mesma triste sorte que junte, em anexo à disposição dos seus órgãos e dos seus restos mortais, a expressa menção do que pretende quanto à sua panteanização – até a palavra é bárbara. No que me respeita, declaro-o desde já: eu não quero ir para o panteão. Antes na boa companhia de flores que crescem, que rodeado de cadáveres, uns com espinhas, e outros que em boa verdade é duvidoso que possamos dizer sequer que algum dia as tiveram.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

 

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terça-feira, 17 de março de 2015

O cristianismo reprime o «eros»?



Existe uma e só uma religião do amor: o cristianismo. Em mais nenhuma Deus é amor. Este axioma, equivalente a muitos outros do cristianismo, não é partilhado por mais nenhuma outra religião. A tentativa que hoje em dia existe de encontrar o amor universal noutras religiões resulta apenas de um etnocentrismo, de um provincianismo arreigado da parte de quem o enuncia.

Não é essa demonstração a fazer por agora. É outra. Que realidade nos dá este amor? A questão é que ser religião do amor está bem longe de planos delicodoces e bem compostinhos, ao contrário do que se possa pensar.

Existe uma tese simétrica à primeira: a de que ser religião de amor é uma pudibundice, porque mais não significa que o cristianismo oprimiu o «eros», o amor sensual, tão grego, tão puro, tão rico. A tese simétrica é uma espécie de birra. «Ai sim? És a única religião de amor? Serás então religião de um amor repressivo, o tal que esquece o “eros”».

Nem vou ter em conta o conceito de amor em hebraico e aramaico. Não tenho nenhuma competência nessas línguas.

A questão é que basta pensar no latim e no grego e encontro pelo menos seis palavras para designar o amor. Basta dar um passeio rápido por cada uma delas para se perceber que a tese simétrica cai pela base.

Comecemos pelo latim: «amor», «caritas», «diligentia».

«Amor» não é uma palavra indo-europeia sequer. Segundo Ortega y Gassett era de origem etrusca. A raiz indo-europeia «*leubh», refere-se ao desejo sexual, ao impulso vital numa direcção, ao querer ter para nós algo. É dela que vem «Liebe», «love», mas também «libido» em latim. É facto significativo que os romanos tenham tido de importar a palavra «amor». Os nossos antepassados viveram bem sem uma concepção expressa do amor. A ser assim o «amor» é uma realidade estranha ao nosso ambiente, importada como conceito. Conseguimos aguentar durante milénios sociedades sem precisar de o enunciar, tal como os gregos, apesar de terem e usarem um corpo, não tinham em Homero palavra para ele. «Soma» era inicialmente o cadáver, não o corpo.

«Caritas» é mais fácil de deslindar. Primo de «charis», dádiva, dom. Como o carisma, dom que é recebido. «Caritas» é semanticamente parente do «bagha» sânscrito, dádiva e deus ao mesmo tempo. O divino é o que dá sem se empobrecer, como Numénio, um filósofo pagão do Baixo Império dizia. Quando Bento XVI diz que «Deus caritas est» salienta este aspecto da divindade que dá, e que se dá.

A «diligentia», encontro-a recorrentemente em Santo Agostinho, sobretudo na forma verbal de «diligo». Parente de «dilecto» como em expressões «filho dilecto». Como «religio», parece que está ligada à raiz «leg», também «diligo» parece estar. «Leg» vem a dar «ler» mas na base é colher, e escolher. A «diligentia» é o que dá fruto, e o que se escolhe.

Vejamos agora o grego: «philia», «eros», «agape». Aqui a análise é difícil ser muito original. Mas infelizmente a escolha de palavras pelo cristianismo não é geralmente fundamentada, raramente se fala no assunto. Porque escolher «agape» para o amor e não «philia» ou «eros»? É que, se em latim as três anteriores palavras aparecem como amor em contexto religioso, em grego prevalece inequivocamente «agape». Será que a dita cuja tese simétrica tem razão?

Porquê «agape» e não «philia» ou «eros»?

Quanto a «philia», foi o bom do Benveniste quem me deu a explicação sem o saber. Mostra que «philia» é um sentimento que se pode ter mesmo por um inimigo, que se mantém como tal, apenas se suspende a inimizade. Há «philia» entre dois guerreiros inimigos quando fazem tréguas, quando estabelecem condições para a paz. «Philia» pode ser uma relação de interesse, como mostra Aristóteles. «Philia», assim, levanta vários problemas: é uma forma de «amor» que pode ser temporária, condicional e basear-se no interesse. Não serve para o amor divino, o amor que Deus tem por nós, e nós por ele. Nem pode servir para o amor entre irmãos.

Já quanto a «eros», o tão mal afamado e supostamente reprimido «eros», foi Festugière quem me mostrou o problema. Pode-se ter «eros» em relação Deus, uma relação apaixonada, erótica, de ânsia, nostalgia, languidez, «longing», em relação a Deus, como mostram os místicos. Mas seria algo suspeito ter «eros» em relação a um irmão, reconheçamo-lo. Ter anseio por ele, desejá-lo, ficar arrebatado com a sua presença, lânguido na sua ausência. Em suma, estar apaixonado.

Ora, entramos aqui nas razões profundas que levam a escolher «ágape». É significativo que em latim a tradição tenha aceitado três palavras diversas: «amor», «caritas», «diligentia». E que em grego faça prevalecer uma: «agape». Não é birra nem capricho. E nada tem a ver com a repressão do erotismo.

Fundante do cristianismo é que o sentimento (embora o amor seja mais que um sentimento) que se tem por Deus e pelos homens seja da mesma natureza entre si, bem como o sentimento que Deus tem pelos homens (e por si, já agora, por via da Santíssima Trindade) seja da mesma natureza. Do homem para Deus, de Deus para os homens, nos homens entre si, o sentimento é o mesmo. Fundante no cristianismo é que Deus e os homens estão unidos pelo mesmo sentimento, da mesma natureza. É essa a palavra de Cristo, quando lhe perguntam sobre qual é o maior mandamento.

Como se vê, o cristianismo não tem afã em cortar palavras. Três são aceites no latim, mesmo que uma só prevaleça em grego. Não visa reprimir o erotismo, que é admitido em relação a Deus, mas não pode ser sentido em geral em relação aos homens. O que visa é apenas espalhar a boa nova: o que Deus sente por nós estamos livres para o sentir por Ele e pelos outros homens, precisamente o mesmo, o mesmo sentimento. É uma escolha de liberdade. Aí a temos, a escolha: diligentia.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Cristianismo e paganismo indo-europeu

 

 
Se não for muito esforço obrigar o leitor a ter algum distanciamento, convido-o a elevar-se um pouco da cadeira onde vê televisão e lê os seus jornais. Ao ver este improvável continente chamado Europa, península feita de penínsulas, descobre dois aspectos aparentemente contraditórios. Uma diversidade criativa como a História nunca viu e ao mesmo tempo uma unidade que não existe em mais nenhum continente.

A diversidade de criação encontra-se em todos os campos em que a Europa revolucionou o mundo, nas artes, todas, nas ciências quase todas sua criação, na filosofia. A unidade nas instituições de base, nos problemas fundamentais, nas fontes comuns.

Se nos elevarmos acima do anedótico vemos que este continente sempre falou consigo mesmo, mais numas épocas, menos noutras. Que é maior a ligação entre Lisboa e Moscovo, sendo que em Lisboa se lê Tolstoï, que entre a Turquia e a China, apesar de estes dois serem países asiáticos.

Se nos elevarmos do anedótico vemos que sobre um substrato autóctone se instalam duas forças maiores, o paganismo indo-europeu e o cristianismo. Quem conhece as fontes directamente sabe que mais não fazemos desde há milénios senão colocar e recolocar problemas que têm a mesma filiação, a mesma origem e semelhantes tonalidades de soluções.

Uma lei muito conhecida nos estudos indo-europeus é a da alternância vocálica segundo a qual o significado de uma raiz se define pelas suas consoantes e sonantes. A alternância de vogais não afecta o seu significado. Lei descoberta e discutida desde o século XIX, descrita por mim de uma forma que merecerá reparos graves pelos especialistas, é no entanto metáfora adequada para o que sempre foi a Europa. Quem a conhece a fundo percebe alternâncias que são vocálicas, mas que não alteram o significado profundo das suas raízes.

A questão é a de saber se vale a pena manter a estabilidade das raízes, ou seja, e enfrentando o problema: vale a pena manter um espaço de diversidade, ou é melhor transformá-lo no seu contrário, num espaço multicultural em que asiáticos, como os turcos e no futuro a Ásia central participarão?

Sou o primeiro a reconhecer que um modelo que falha deve ser substituído. A questão é a de saber se falha e, a ser substituído, qual a melhor substituição. Vale a pena continuarmos a ser Europa, em suma?

Vejamos primeiro se o modelo está a falhar.

O modelo falha sob o ponto de vista demográfico, falha pela sua grande rigidez em resolver problemas novos: a unificação mais urgente da Europa, a criação de uma defesa comum, a adaptação de sistemas de protecção social a um mundo em que a Europa já não está a anos-luz de distância tecnológica dos restantes continentes, à criação de novos movimentos culturais.

Mas o modelo não falha no que diz respeito ao bem-estar geral das populações, à riqueza criada, ao património cultural adquirido, preservado, e de certa forma desenvolvido. Não falha igualmente em relação aos novos modelos, como o da integração europeia, que mostra ser a Europa o continente mais desenvolvido sob o ponto de vista político. Modelo com muitos defeitos, mas onde todos querem entrar, asiáticos e africanos incluídos.

Vejamos então por que modelos querem substituir o actual. São três, e ambos frequentemente aliados entre si, apesar de oficialmente inimigos.

O primeiro o do multiculturalismo. Estéril sob o ponto de vista cultural. Nunca nenhuma grande revolução científica, filosófica ou artística veio desses sistemas. Nem a Turquia nem o império medo-persa deram contributos que deixassem marcas de relevo na cultura mundial.

O segundo o nacionalismo. Proposta simpática para pequenos comerciantes, mas irrealista e óptimo factor de dissolução do poder europeu.

O terceiro é o cosmopolitismo, seja ele capitalista ou ecológico, ou terceiro-mundista. O projecto é dissolver a Europa num mundo, mundo esse que no seu conjunto nunca produziu, nessa qualidade, nenhum fado relevante. Os grandes criadores, e as grandes criações que influenciam a nossa vida nunca foram facto mundial pela sua fonte, mas apenas pelas suas consequências.

O modelo tem inércias e falhas, e não está num dos seus maiores momentos de glória, sem dúvida. Mas encontrou dentro de si mesmo uma forma de renovação, a integração europeia. As alternativas são pobres, ou já gastas ou sem resultados positivos.

Vale a pena manter, sobre este substrato autóctone dissolvido sob o peso da invasão indo-europeia e cristã as forças que sempre o compuseram? A resposta para mim é inequívoca: sim.

Vale a pena pelo que faz ainda. A zona mais rica do mundo, com maior património económico, cultural, social e político do mundo, que cria os maiores pensadores do mundo ainda hoje em dia. A zona do mundo com maior equilíbrio entre prosperidade e distribuição de riqueza.

Vale a pena pelo que já está a fazer. Integrando-se a Europa já tem um real peso na diplomacia económica, ecológica, social. É seguida como exemplo em todo o mundo. Todos os modelos de integração económica seguiram o paradigma europeu, incompletamente, mas inequivocamente.

Vale a pena pelo que pode ainda fazer. Porque ao longo da História houve momentos de pausa, de tomada de fôlego. Estes momentos podem ser de decadência ou de impulso. A França foi mais de uma vez o país mais poderoso da Europa e mais de uma vez fraca. O sacro império, a Inglaterra, Portugal, a Rússia, todos eles tiveram altos e baixos. Não se pode dizer que há uma época de ouro e a partir daí é a decadência. É uma visão demasiado europeia das coisas, demasiado marcada pelo trauma da queda do império romano.

O que a Europa pode ser depende do que se fizer dela. Problemas tem muitos, mas potencialidades tem-nas todas. Desde que não se fie em soluções tontas, como as de integrar a Turquia, o Azerbeijão, Israel ou Marrocos, ou um dia toda a Ásia Central. Desde que saiba ter personalidade suficiente para não ter de ser anti-americana, mas também para que o seu aliado principal não sejam os Estados Unidos. Desde que tenha um projecto que use dessa tensão entre paganismo e cristianismo que sempre a moveu e fez do pensamento teológico a origem da física e da matemática, da irrequietude filosófica, motor de tecnologia.

É evidente que esta visão é larga demais para quem viveu uma vida alimentando-se apenas das notícias do dia. É evidente que é assustadora para quem se educou com sebentas, com circulares de organismos internacionais ou com instruções de concelhias ou distritais de partidos.

Mas só se faz grande política que percebemos que existe um mundo fora de nós, antes de nós, depois de nós. A grande política é para gente de vistas largas, não para pessoas que se satisfazem com comunicados técnicos da Comissão Europeia ou da Casa Branca.

Vale a pena continuar o nosso paradigma? Digo que sim e direi mil vezes. A alternativa apenas abre as portas a um sub-proletariado externo, vindo de culturas decadentes, de quem não são sequer os melhores representantes. E mesmo que fossem, ser o melhor de mundos poucos férteis não é credencial de qualidade. O melhor dos oásis não vale a florescência dos campos europeus.
 
 
Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Fundamento e encontro III


O que lhe falta então? A natureza do problema ajuda-nos a perceber a natureza da resposta. Dizia eu que os fundamentos da matemática conduzem a paradoxos. Sempre se soube isso. Esperanças de Hilbert só alguns momentos de imprudência as puderam alimentar. Na física, a natureza da constituição fundamental da matéria remete para a metafísica, de uma forma ou de outra. Os mesmos padrões teológicos se repetem nos fundamentos da física. Cantor dizia que preferia a matemática à física, porque a primeira e mais livre de fundamentos metafísicos. Não era destituído de bom senso quando o dizia. Na biologia, quando se pergunta sobre a origem da vida, falar em origem extraterrestre apenas evacua o problema para essa região do mundo, falar em origem bioquímica da vida remete para a química mas também para a explicação de como o inanimado pode comungar com animado e no entanto ser tão diferente. Como a criança que pode estar a evacuar a questão atirando mais e mais porquês, também podemos estar apenas a evacuar o problema colocando a questão. Mas, não a colocando não apagamos o problema, apenas o escondemos da nossa vista.

Quando Pilatos coloca a questão rotineira na sua época e decorrente de uma versão vulgata da filosofia, «o que é a verdade?» recusa o fundamento, o tema, a comunicação. Não percebeu que sempre que se coloca a questão do fundamento surgem jogos de espelhos, labirintos, reflexos de reflexos. O seu instinto diz-lhe que é disso que se trata. A sua incapacidade fala, não o seu pensamento. É a sua impotência que coloca em cima da mesa. Que a dialéctica seja um caminho da solução, percebe-se. A palavra está gasta e perde por vezes do seu fulgor inicial. Mas que coisa afinal se refere quando se usa a palavra? Alguns antigos perceberam que o fundamento se descobre num encontro, numa efectiva comunicação, em tornar comum. Esse encontro tem de ser realizado com alguém que nos seja comum. Em suma: uma pessoa. Ma os dialogo é apenas a face externa do mais importante. O fundamento é um encontro. O diálogo apenas a sua faze visível.

Perguntar pela verdade e perguntar pelo fundamento. Não se trata de pieguice invocar o encontro com uma pessoa. Uma coisa são os desistentes que param algures, muito cedo, e sem perceberem que a paragem em nada legitima o seu discurso, outra coisa são os herdeiros, que, ao contrário das crianças, perguntam e tentam dar respostas. Na lógica e na matemática, encontram paradoxos, na pintura depuram até quase nada sobrar, na arte em geral tentam encontram fundamento e acabam no conceito longe dos sentidos, pudibundo e solitário, ou num primitivo arrevesado que mais não é que retorno à casa de partida num jogo viciado. Na filosofia idolatram Unos, Seres, a Totalidade, a Dialéctica... As palavras são necessárias, mas acabam por ser empecilhos, meros ícones adorados que não deixa ver o que precisamente deveriam representar. Ir à procura do fundamento acaba muitas vezes por ser ir para a lugar nenhum, a boa da clareira que nos persegue por onde vamos, e não nos deixa entrar na floresta. Despojados, acabamos barrocos, técnicos, acabamos infantilizados, palavrosos, acabamos no silêncio. Por que via lá tentemos chegar, uma e a mesma paisagem nos espera, quando confiamos apenas nas próprias forças: o paradoxo, o jogo de espelhos, a miragem, o ícone impeditivo. São apenas diversos nomes para um mesmo lodaçal.

É preciso parar para que haja demonstração, lembrava sabiamente o velho Aristóteles. Não era por medo que o dizia, mas porque sabia que o uso de uma razão debatida com ela mesma e assente nela mesma exige que se assente num ponto de partida a partir do qual nada mais podemos afirmar. Apenas refutar. Medos tinha ele do infinito enquanto tal e com boas razões. Mas não de reconhecer que ele estava ali à nossa porta sempre que não nos contínhamos.

Quem pretende tapar os olhos, ou usar a pergunta como mera forma de ênfase, ou impedir que se faça a pergunta, quem como a criança atira a pergunta apenas para exercer um poder mágico sobre o interlocutor, atirando-lhe o ónus de uma impossibilidade, e coloca a pergunta: «mas o que é...?» a verdade, e a Europa, a felicidade, o amor, pretende acabar com o encontro, torna-lo nulo, e por isso mesmo impedir que surja na sua glória o fundamento. E que este seja um encontro, e consequentemente, não o fim, mas o início do verdadeiro diálogo.

 

Schelling dizia «Person sucht Person». Pessoa procura pessoa. Não é pieguice. Sou o primeiro a saborear a beleza das paisagens depuradas e abstractas que nos oferece a matemática, a lógica, a ascese de linguagem e vivências. Quem chegou ao Uno só se pode maravilhar. Mas bem sabemos que o caminho de volta é trôpego. Plotino tem um percurso lógico até ao Uno. Nada ou quase nada se pode apontar ao seu rigor logico quando sobre. Mas quando desce, que tombos. É ele mesmo a espantara-se como se «atreveu» o Uno a dividir-se, emanar, sair fora de si, permitir ao menos que haja algo fora de si. O diálogo é apenas a forma exterior de um verdadeiro encontro. Por isso a ideia de um deus pessoal que parece infantil e meramente consoladora para almas limitadas, é afinal a única solução para o paradoxo: a de ser vivo o paradoxo ele mesmo.

Não sei se a generalidade do que afirma poderá afastar olhares, ou se será antes a sua incarnação. Que seja. Ambas as atitudes são infantis. Se somos dotados de ambas capacidades, a de viver concretamente e a de congeminar na abstracção, algum sinal isso nos dá do nosso destino. O fundamento é um encontro. Com uma pessoa. É simples. Só quem nunca se deparou com ele pode dizer o contrário.

 

Alexandre Brandão da Veiga

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