quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Os políticos italianos


Já o sabemos. A cultura não evita o pior do ser humano. Poucas regiões e épocas foram tão cultas quanto a Alemanha da rRpública de Weimar e isso não a isentou das falhas da humanidade. É verdade: é ingénuo pensar que a cultura evita a falha humana.

No entanto, e no entanto... Com cultura temos outro mundo. A política italiana não se isenta de humanidade, nem sequer do grotesco da humanidade, da farsa, do ridículo. Mas quando comparamos com outros países (deixo ao leitor o gosto de pensar quais) vemos que existe um nível bem diverso, uma cultura bem mais profunda.

Para simplificar uso a wikipedia. Facilita o acesso e para os efeitos, que não são científicos é por demais bastante.

 

Dando os exemplos (excluo outras que são publicações sobre política, direito e economia) e nem me pronunciando sobre qualidade das obras:

Matteo Renzi, Stil Novo. La rivoluzione della bellezza tra Dante e Twitter, Milano, Rizzoli, 2012 http://it.wikipedia.org/wiki/Matteo_Renzi#Libri

 


  • Avvenimento cristiano e fenomeno rivoluzionario. Lezioni sul marxismo. Testi del seminario condotto presso l'Universita Cattolica di Milano, 22-25 febbraio 1972, Milano, Comunione e liberazione, 1972.
  • I cattolici e la crisi della società italiana, con Augusto Del Noce, s.l., s.n., 1977.
  • Dialettica e nostalgia, Milano, Jaca Book, 1978.
  • La crisi dell'economia marxista. Gli inizi della Scuola di Francoforte, Roma, Studium, 1979.
  • Il pensiero di Karol Wojtyla, Milano, Jaca Book, 1982.
  • L'uomo e il lavoro. Riflessioni sull'enciclica "Laborem Exercens", Bologna, CSEO biblioteca, 1982.
  • Metafisica della conoscenza e politica in S. Tommaso d'Aquino, Bologna, CSEO, 1985.
  • Nuova evangelizzazione e dottrina sociale, Milano, Scuola di dottrina sociale, 1988.
  • Cattolici e politica, con Augusto Del Noce, Milano, Scuola di dottrina sociale, 1988.
  • La famiglia, un soggetto di azione sociale, testo di una lezione tenuta il 7 maggio 1987, in Luigi Giussani, Luigi Negri, Rocco Buttiglione, La famiglia, Milano, Quaderni di Litterae Communionis, n.3 1988
  • Traduzione italiana e saggio introduttivo a Josef Seifert: Essere e persona, Milano, Vita e Pensiero, 1989
  • Augusto Del Noce. Biografia di un pensiero, Casale Monferrato, Piemme, 1991. ISBN 88-384-1582-X
  • La crisi della morale, Roma, Dino, 1991.
  • L'uomo e la famiglia, Roma, Dino, 1991.
  • Il problema politico dei cattolici. Dottrina sociale e modernità, Casale Monferrato, Piemme, 1993. ISBN 88-384-1979-5
  • Giustizia e politica tra prima e seconda Repubblica, con Mario Luzi, Formello, SEAM, 1998. ISBN 88-8179-076-9
  • Il pensiero dell'uomo che divenne Giovanni Paolo II, Milano, Mondadori, 1998. ISBN 88-04-45382-6
  • Meridione. La grande occasione, a cura di e con Giuseppe Nistico e Antonio Marzano, Soveria Mannelli, Rubbettino, 2001. ISBN 88-498-0132-7
  • I cattolici liberali nell'attuale contesto politico, Soveria Mannelli, Rubbettino, 2007. ISBN 978-88-4982-018-8
  • Lo stato della democrazia nel mondo, con Gianfranco Fini e Carlo Galli, Roma, Armando, 2011. ISBN 97888-6081-812-6
  • La sfida. Far politica al tempo della crisi, Soveria Mannelli, Rubbettino, 2012. EAN 9788849833720

 


·         Grandi illusioni. Ragionando di storia d'Italia (con Andrea Graziosi), Bologna, Società editrice il Mulino, 2013

 


·         Piccola storia di Roma. Da Romolo al giubileo del 2000, Milano, Mondadori, 2000. ISBN 88-04-47796-2. vincitore del Premio Cimitile

·         Sotto il segno di Pio IX, Milano, Rizzoli, 2000. ISBN 88-17-86362-9.

·         Un gesuita in Cina, 1552-1610. Matteo Ricci dall'Italia a Pechino, Milano, Rizzoli, 2001. ISBN 88-17-86940-6.

·         La fuga di Pio IX e l'ospitalità dei Borbone, Roma, Benincasa, 2003. ISBN 88-86418-12-4

 

 


·         Un dissidente del Risorgimento. Giuseppe Montanelli, Firenze, Le Monnier, 1962.

·         Carducci e Croce, a cura di, Bologna, Poligrafici il resto del carlino, 1966

·         Il mondo di Giolitti, Firenze, Le Monnier, 1969

·         Il venti settembre nella storia d'Italia, Roma, Nuova Antologia, 1970

·         L'Italia dei laici. Lotta politica e cultura dal 1925 al 1980, Firenze, Le Monnier, 19

·         Fra Carducci e Garibaldi, Firenze, Le Monnier, 1981.

·         Tradizione garibaldina e storia d'Italia, Firenze, Le Monnier, 1982. ISBN 88-00-85594-6

 

 


·         Francesco Cossiga (a cura di), Sir Thomas More, santo e martire. Patrono dei governanti e dei politici. Raccolta documentale, Roma, Colombo, 2001

 

Esta não é análise científica e muitos mais exemplos poderiam ser dados. Mas deixa-nos a reflectir. Não faço a comparação expressa com a classe política portuguesa em qualquer época. Ex silentio já está feita.

 

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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Virtude


De entre as ciências mais elásticas que a Terra já viu encontra-se a da etimologia. Desde o extremo da mais aberrante fantasia (a “pantera” chama-se assim porque é amiga de todos os animais, diziam etimologistas medievais), até ao hipercriticismo germânico do século XIX (grande construtor de sólidos mas secos edifícios), de todos os extremos provou esta actividade.

Seja como for, em que grau se queira usar desta ciência, e com que rigor, sempre tendo algumas cautelas, muito se pode aprender com ela. As palavras que usamos não são inocentes. Para um jurista “fé pública” tem um significado técnico, que não se confunde com as peregrinações de Fátima, e “placebo” para um médico não se trata de uma entrega do seu corpo aos prazeres do doente como o significado latino poderia dar a entender. Só conseguimos falar com as palavras que temos. E qualquer crítica destrutiva da etimologia deveria ter isso em conta quando a desdenha.

Uma das palavras que se encontra cada vez mais relegada para sedimentos mais recuados na nossa linguagem é a virtude. Ainda se manifesta em jargão económico nos “círculos virtuosos”, ainda é admitida na física nas partículas virtuais, mas sempre desventrada do seu conteúdo central. Época pudica que fala sempre ao lado do principal, preocupada com a pureza ritual, a nossa era é lesta em enterrar o essencial, em evitar o decisivo.

Vejamos as etimologias. Virtude parece ter parentesco com “uir”, varão, e “uis”, força. Falo em parentescos porque por vezes não há apenas filiações semânticas, mas igualmente casamentos, associações, contactos. As palavras são seres sociais, adquirem tiques dos vizinhos ou dos seus amantes. A virtude é a qualidade de quem é varonil, de quem tem força. Maquiavel restaurou este uso indo-europeu. O renascimento foi tanto antiquário como renovação. Tenho mesmo dúvidas que se possa ser uma coisa sem a outra.

Em grego “aretê”, palavra tão complexa na sua História que não posso nem sequer enunciar os seus mais simples desenvolvimentos. Consta que etimologicamente terá origem no indo-europeu em palavra que significa o homem livre por excelência, o nobre, o “arya”. O herói também. Tem virtude quem tem força, poder, quem é livre, quem é nobre no fim de contas. Sem poder não há liberdade, é esse o estado do nobre.

O cristianismo veio a dar, como estoicismo, uma coloração bem diversa a esta virtude. Ser livre, o verdadeiro poder, decorre de uma luta consigo mesmo, para atingir a serenidade, a paz, o amor, consoante os casos. Todo o novo vocabulário positivo recebe de uma linguagem aristocrática, viril, guerreira. O herói das virtudes e as virtudes heróicas, o poder sobre as paixões, a luta da alma. A nobreza de carácter, o espírito livre, os livres-pensadores.

Mais uma vez encontramos aqui a fusão entre o cristianismo e o paganismo indo-europeu. É aliás difícil destrinçar nos textos, mesmo de entre os mais fervorosos crentes das épocas mais crentes, o que é realmente cristão e o que é pagão indo-europeu. A mulher deve ter orgulho na sua virtude (pecado de orgulho?), a resignação heróica é muito mais estóica que cristã por vezes (as cartas de Heloísa a Abelardo, por exemplo).

Como prometi que analisaria o que subtende à política preciso por isso de tentar dar uma explicação deste escondimento da virtude. Já sabemos para onde foi. Para o vocabulário técnico, encapotada, mascarada, asseptizada. Como é hábito de uma época de pudibundice como a nossa. Mas porque se esconde a virtude do espaço público? Porque é ridículo hoje em dia um ministro, um jornalista, um empresário, dizer que é virtuoso ou virtuosa?

A primeira razão já foi enunciada. A época é pudibunda. Como é costume, as épocas não reconhecem nunca os seus pontos de pudibundice ou pudor. Mas eles notam-se sempre por um teste simples: se fazem corar. Uns por real pudor, outros por pudibundice. O pudor enriquece, a pudibundice rigidifica. Ora o horror à virtude e à palavra que a representa apenas gera rigidez. Faz corar por rigidez.

Por outro lado, sejamos generosos e concordemos com eles. Não são virtuosos, são destituídos de virtude. As pessoas têm direito de ver satisfeitas as suas reivindicações. Não afirmam terem, em grande medida porque realmente não têm.

Mas porquê este horror à virtude? Porque esta dimensão do ser humano e não outra?

Bom, para começar há que ser justo. A virtude não está sozinha. Igualmente a nobreza, o pudor e outras palavras são afastadas do espaço público. Corresponde a um processo de massa de expulsão de tudo o que respeita ao mais íntimo do ser humano do espaço público. Funcionaliza-o, torna-o de confiança, previsível, como uma máquina. Daí a necessidade de se exigirem – maquinais – manifestações de bons sentimentos pelos homens públicos.

Exige-se que os homens públicos sejam destituídos de intimidade, surjam despidos dela. Isto nada tem a ver com pudor ou contenção. Exige-se que os sentimentos sejam também eles previsíveis e catalogáveis. Não se admite que o homem público tenha maus sentimentos (elitismo, vingança, por exemplo) e os que manifesta têm de pertencer a um catálogo de bons sentimentos. A virtude é coisa demasiado íntima para existir no espaço público, e demasiado ridícula para se admitir no privado.

Mas tem de se reconhecer igualmente que todo o sistema de educação, seja formal, seja familiar, social ou outros, varreu a palavra virtude do seu campo de actuação. Não se instila virtude nas crianças mas apenas comportamentos adequados. Uma conformação exterior, que fez de conta que o interior não tem impulsos negativos. O pensamento meramente funcional, bem mais antigo do que o julgam os modernos, alastrou-se como um cancro para todos os níveis do comportamento, e mais importante, dos sentimentos, na sociedade.

Que políticas gera ou pode gerar o homem sem virtude? Desde logo uma política toda ela virada para o comportamento, para o exterior, para a aparência. O que esteja fora do escrutínio público é apenas alvo do seu capricho. O que modera as suas acções é apenas o efeito público e não o intrínseco desvalor da conduta. Como sabe que apenas o que é publicamente sindicável lhe limita o caminho tentará esconder o mais que pode. É certo que em todas as épocas houve quem tentasse esconder. Mas quem é educado no valor absoluto da virtude, sabe que pode ser julgado por instâncias secretas que perscrutam as suas mais íntimas intenções ou seus mais secretos actos. Demitindo-se este juiz interior o espaço não publicitado é pura arbitrariedade.

Na política, a sua técnica é a do facto consumado. Aceita-se a Turquia como candidata sem informar previamente o público e muito menos sem lhes pedir a opinião e ainda menos a decisão. Decide-se seguir para a guerra do Iraque sem curar se os soberanos (os cidadãos numa democracia parece-me) estão de acordo ou não.

Na ideia da projecção histórica o seu paradigma é a dos tesouros afundados. Fica por isso no esquecimento da História, porque se alguma substância teria, este homem público deixa-a toda submergida.

Mas sobretudo, sendo destituído de virtude, é destituído de real força interior. A sua vida é uma perpétua obsessão com a protecção da sua fraqueza. A defensiva anima-o, só ela o motiva. Defende-se da grandeza, e tenta espezinhá-la. Por inveja, mas por sensato instinto de inteligência. Sabe que o espaço que ocupa teria sempre muita gente mais qualificada para o preencher. A sua vida é sempre um conjunto de “por exclusão de partes”. Só está onde está, não por ter sido escolhido, mas por os outros terem sido afastados. O deserto, Átila, os seus heróis. Daí que apoie a entrada dos turcos na União Europeia. Gosta de termos de comparação que não o envergonhem.

É este espectáculo que nos é reservado. Pessoas sem virtude, sem força interna, sem nobreza. Foi essa a sua condição de subida, precisam de a manter para sobreviverem. Mas estes pobres coitados são apenas herdeiros das bermas de onde vieram, e onde em boa verdade ainda estão. Culpados, reais culpados, são todos aqueles a quem foi dado o poder de soberania de os pôr onde estão. Numa democracia, sem lugar para dúvidas, todos nós.
 
Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Tinha Jesus irmãos?


Tinha eu lido há uns tempos atrás um livro de um senhor chamado Bernheim (BERNHEIM, Pierre-Antoine, Jacques, Frère de Jésus, Albin Michel, Paris, 2003) que dava como certeza absoluta vários factos :

a)      No contexto da Palestina em língua grega o conceito de irmão era forçosamente de irmão de sangue e não em sentido figurado;

b)      Em consequência, Jesus tinha irmãos de sangue, e não irmãos de sangue apenas de São José; do lado de Maria também.

 

Até aqui não vejo problema. A tese é conhecida, já muitas vezes defendida. O problema da conclusão é que assenta numa premissa algo apressada.

 A vida tem destes acasos. Por coincidência li entretanto um livro de uns senhores chamados Roger S. Bagnall e Raffaella Cribiore, Women's Letters from Ancient Egypt, 300 BC-AD 800, (http://www.amazon.co.uk/Womens-Letters-Ancient-Egypt-BC-AD/dp/0472115065/ref=sr_1_3?s=books&ie=UTF8&qid=1399561358&sr=1-3).

 

Eis que salientam que em várias cartas entre os séculos I a.C. e III d.C. os conceitos de «irmão», e mesmo de «mãe», não significam a relação biológica forçosamente, mas de familiar, íntimo, companheiro, mesmo marido, e no caso de «mãe» pode-se tratar mesmo da escrava que serviu de ama.

Que se coloquem hipóteses históricas, bem vivo com esse facto. Tanto melhor. Venham as mais ousadas. Mas que se dê como certeza absoluta conclusão quando nem a premissa é certa já não me parece honesto.

Tenha-se em conta que:

a)      O Egipto fazia parte do mesmo espaço helenizado, fortemente helenizado, a que pertencia a Judeia.

b)      Sendo bem mais importante culturalmente que a Judeia, seria pouco plausível que os fenómenos culturais e também linguísticos que se passam na Egipto não tivessem algum reflexo na Judeia.

c)      Embora não se possa retirar uma relação necessária entre o que se passa no Egipto e o que se passa na Judeia, e embora os anteriores argumentos já sejam por si mesmo fortes, a verdade é que não se pode afirmar que «irmão» em grego na época e na região é, e sempre, irmão no sentido carnal.

d)     Ainda menos se pode afirmar que significa filho do mesmo Pai e da mesma Mãe.

Este é mais um dos casos em que vemos que, em vez de estudo, temos uma imposição. É-nos imposta a conclusão, contorcidas as fontes, relegadas a segundo plano as provas e a sua problematicidade. O autor, o tal de Bernheim, não gosta de problemas, não gosta que estes sejam colocados. Como quem cauteriza uma ferida, fecha-os, fecha-os de forma que julga definitiva. 

Venham elas a provas, venham elas a discussões. Tanto melhor. Quantas mais melhor. Mas que o sejam. Prefiro estudos a proclamações públicas afixadas nas paredes dos teatros. A ciência não se faz por edital.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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segunda-feira, 7 de julho de 2014

A Inglaterra quer sair da União Europeia?


E lá temos mais uma vez uma birra: a Inglaterra ameaça de novo sair da União Europeia porque não gosta do novo presidente da Comissão. Porquê? Porque este seria demasiado federalista e porque a Inglaterra pretende uma reforma profunda das instituições comunitárias. Já ouvimos esse discurso muitas vezes.

Vejamos o que retirar deste discurso.

Em primeiro lugar, a Inglaterra quer uma União Europeia à sua imagem. Di-lo, pelo menos. Mas tem-na. Nunca as instituições europeias tiveram tanta influência britânica, e, por esta via, americana. A desregulação dos mercados, sobretudo os financeiros, os temas do multiculturalismo, as questões fracturantes, a língua inglesa, a discussão em sede laboral, não dos direitos sociais e económicos dos trabalhadores, mas dos direitos morais, como a protecção das minorias sexuais e étnicas. Que os trabalhadores sejam explorados no seu conjunto não é grave, são as leis do mercado, mas já que se descrimine o travesti que vai de penacho trabalhar numa funerária isso não se pode admitir.

Na perspectiva da imagem a Inglaterra nunca teve uma imagem tão forte, nunca a sua presença simbólica foi tão forte. Blair apagou Jospin, Schroeder. Os países da Europa central e do leste que entraram de novo foram endoutrinados pelo padrão anglo-americano. Os próprios ingleses tinham noção de que os anos 90 foram uma «janela de oportunidade» como agora se diz, que tinha de ser aproveitada.

Os presidentes da Comissão foram escolhidos pela Inglaterra que, desde que apareceu um Delors (anormalidade num cargo que deveria ser de um alto funcionário), que se assustaram com a possibilidade de um presidente da comissão forte, e por isso escolheram progressivamente o mais medíocre e fraco que puderam.

Mas este quadro inglês tem muitas fissuras.

Em primeiro lugar, é precisamente este conjunto de instituições europeias que mais suscitam o desprezo inglês. Nunca as instituições europeias estiveram tão próximas do modelo que pretendiam e nunca foram tão vilipendiadas. Antes não eram amadas, mas temidas. Hoje em dia, basta para isso ler os jornais ingleses, são desprezadas. É precisamente uma comissão fraca, com chefia fraca, que é objecto de desprezo pelos ingleses. O que antes os irritava suscita agora apenas condescendência.

Em segundo lugar, uma Europa à imagem da Inglaterra já existiu e foi por ela feita. Chama-se EFTA, criaram-na em 1959 e três anos depois já estavam a bater à porta da CEE, de tal forma era boa a Europa feita à sua imagem. Como Atena que deu à luz um monstro, a ideia britânica para a Europa é afinal muito pouco empírica. É uma ideia que têm na cabeça e não percebem que é ela mesmo um monstro quando concebido e saído à luz do dia. Aceitemo-lo: os países europeus não gostam da Europa à imagem da Inglaterra e nem a Inglaterra gosta da Europa cada vez mais à sua imagem.

Em terceiro lugar, o poder, junto dos países da Europa central e de leste, da Inglaterra já se enfraquece cada vez mais de dia para dia. É bom de se perceber as razões. Se a mais-valia que trazem é a relação com os Estados Unidos, estes países não precisam da mediação britânica. A Inglaterra torna-se inútil. Além disso, como a Inglaterra é muito amiga mas está preocupada antes do mais com o seu cheque e a devolução da sua contribuição, os países da Europa central e leste perceberam que dela pouco teriam a receber. Pressionaram a Suíça e a Noruega a dar mais dinheiro, e sabem que contam na hora da verdade mais com a Alemanha e a Áustria que algum dia contarão com a Inglaterra.

Em quarto lugar, o mito Blair começa a esfumaçar. A dita terceira via, que se traduzia em ter uma política apenas com uns laivos socializantes e muito discurso de preocupações sociais sem grande acção mostra-se no seu vazio filosófico como puro marketing.

Eis que as potências da Europa continental conseguem colocar no centro do conselho europeu um homem do centro e agora na comissão europeia se anuncia o mesmo. No fundo, restabelece-se um equilíbrio. É a mesma Inglaterra que tanto se vangloria da sua soberania nacional que se quer impor às outras soberanias. E começa a deixar de o conseguir fazer.

Da parte que me toca teria muito a dizer sobre esta personagem que pretendem colocar na comissão europeia. Nem tudo bom, nem tudo mau. Mas um facto não pode ser esquecido. Numa relação, quem está sempre a ameaçar que sai é infantil e malcriado. A Inglaterra merece mais, merece-se mais. Um divórcio não se ameaça: anuncia-se e executa-se. É de bom-tom, é adulto e bem-educado. Quando muito invoca-se a possibilidade para resolver de vez o problema: ou mantendo o casamento e nunca mais falar dele, ou acabando de vez com o matrimónio.

O que a Inglaterra não percebe é que de tanto ameaçar que se vai embora as pessoas vão-se habituando à ideia. Não a executando, perde credibilidade. Executando-o, perde impacto. Parcimónia, como tão bem lembrou um pensador inglês tão esquecido dos ingleses, Ockham. Parcimónia é sinal de bom gosto, e bom senso.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

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sexta-feira, 20 de junho de 2014

Precisamos da democracia?


 

Um conjunto de selvagens reúne-se para decidir se hão-de comer um prisioneiro. A maioria vota a favor. Como há dois que se opõem veementemente são mortos. E para festejar a decisão espancam as mulheres.

Este pequeno cenário mostra que estamos a falar de uma democracia, e de uma democracia directa em cúmulo. Etimologicamente é o poder do povo quem determina a vida em colectividade.

Mas isto basta-nos? Não. Porquê então achamos que esta democracia é insuficiente?

É que o que designamos por democracia recolhe muitas experiências históricas diversas.

Em primeiro lugar, o próprio poder do povo, mas por via do nexo de representação. Uma ideia sobretudo grega.

Em segundo lugar, a ideia de Estado de Direito, estóica e romana na origem. Esta nada tem a ver com a democracia. Mas atravessou toda a História da Europa. O poder obedece a regras, está limitado por elas. Quem pode, quando pode, como pode. E no entanto, não concebemos democracia sem Estado de Direito, mesmo que a sua origem seja bem diversa. O império, os príncipes europeus, o papado, não concebiam a vida sem a legitimação e a limitação jurídica. E nós igualmente. Este é um traço que a democracia herdou, não criou.

Em terceiro lugar, a proibição de divinização do homem. Não concebemos prostrar-nos perante ministros ou chefes de Estado, como o grego se recusava a fazer. Era bárbaro. Sempre que existem regras de prosternação na Europa elas surgem por influência oriental. O homem europeu pode fazer reverência, mas não se prosterna. Não adora o poder, os homens do poder. A democracia recebe esta ideia e não a cria igualmente.

Em quarto lugar, a dialéctica. Mas esta ideia surge do anti-democrata Platão e não com a democracia. A democracia ateniense praticou-a, mas o seu desenvolvimento teórico deve-se a anti-democratas. Mais uma coisa que a democracia herda e não criou.

Em quinto lugar, a ideia de legitimação pelo bem comum. Ideia sobretudo helenística e cristã. Mais uma vez a democracia herdeira e não criadora.

Em sexto lugar, a tradição liberal. A protecção das liberdades de acção, expressão, reunião, associação. A tradição liberal foi quase sempre antidemocrática, e no entanto só concebemos democracia de acordo com essa tradição. Herdeira, herdeira mais uma vez, não criadora a democracia.

Em sétimo lugar, a dignidade humana. Ideia cristã, muito anterior a qualquer democracia moderna. Ainda mais uma vez herdeira.

Em oitavo lugar, a igualdade da mulher, ideia sobretudo aristocrática e régia, profundamente anti-burguesa, anti-republicana (segundo o padrão do civismo republicano).

Em nono lugar, a economia de mercado, que pode ser adjuvante da democracia, mas é igualmente um enorme problema para ela, na medida em que distribui o poder de forma anti-democrática.

Em décimo lugar, uma determinada concepção da mulher, da criança, do velho, do homem adulto e das relações entre eles que se formou com a matrona romana, o cristianismo, e igualmente a senhora medieval.

A democracia constrói-se sobre muitas tradições que apenas recolheu e que em grande parte surgiram de pessoas que a ela se opuseram. Ao contrário do que se julga não foi a democracia que as criou, quando muito é a que a melhor tem garantido nas últimas décadas.

Porque é de décadas que tratamos, ou seja, de um espaço cronológico muito apertado.

Todos nós somos sobretudo herdeiros de anti-democratas, e de não-democratas ou de pessoas que só não eram contra porque nem sequer concebiam a sua possibilidade. A Europa encontra a democracia como uma solução histórica para um tempo determinado que se dá o caso de ser o nosso. Mas da mesma forma que o império ou o feudalismo ou do domínio dos príncipes pareceram realidades eternas durante séculos, temos de aceitar que a democracia poderá não ser o esteio final das nossas sociedades no futuro.

A Europa sempre foi Europa, e no entanto só de há muito pouco foi democrática. Meio século para os mais velhotes, uma década para os mais recentes. Historicamente é uma camada muito fina, muito frágil e muito menos determinante que as outras.

Sejamos claros. Habituados que estamos a considerar a democracia como o nec plus ultra da existência humana olhamos para os nossos antepassados com algum desdém porque eles, coitados, não viviam em democracia. Tenhamos então algum bom senso e reponhamos as coisas nos devidos lugares.

Na nossa época histórica a democracia tem sido o sistema que melhor tem garantido essa herança, esse património. Para um teórico político do século XVII o principado era o mundo natural, não obstante exemplos exóticos como os Países Baixos ou a Suíça, e em parte Veneza e a Polónia. E não era imbecil por assim achar. Tinha mais solo histórico sobre que assentar que nós quando falamos de democracia. Um pouco de humildade ficaria bem aos beatos da modernidade (com ou sem “pós” é a mesma coisa, porque quem apenas sabe conceber a sua vida como após uma anterior mostra que não a superou).

Mas isso não quer dizer que é o sistema definitivo na História. Muito do óbvio deixa de o ser. E quando queremos procurar o que pode estar em perigo, não é nos slogans dos bem pensantes que se encontra, mas no que consensualmente todos dão por certo.

Sobretudo, como a democracia não é fundamento último, mas escora-se ela mesma em fundamentos que a precedem, fundamentos bem mais profundos que ela mesma, tudo querer assentar na democracia leva a uma sobrecarga da mesma. O fim da democracia aproxima-se na altura em que sobre esta tudo se quer assentar.

Quando se quer definir a Europa pela democracia, esquecendo que esta é uma condição e não um fundamento, e daí se retira como conclusão que todo o bárbaro pode ser europeu, aliás, que quanto mais bárbaro, mais europeu pode ser (“mas porém a que cuidados?” e com que interesses?) os pilares quebram para deixar vir ao de cima o que é realmente fundamental.

Vivemos milhares de anos sem ser democratas, mas sendo europeus. Mesmo sem democracia não deixámos de ser franceses, portugueses, polacos, russos. E não produzimos por isso medíocre cultura, salvo se Goethe e Gauss devessem ser deitados ao lixo. Vivemos há milhares de anos desta confluência entre cristianismo e paganismo indo-europeu. Quando nos dizem que somos democracia, só democracia e economia de mercado, o confronto com outras culturas que de comum só têm connosco isso partirá o próprio sustento dessa democracia.

É certo que os cultores do curto prazo não se importam de assentar mais andares num prédio. E vão acrescentando mais e mais. No seu tempo de vida julgam que não pagarão preço nenhum. Mas quando o cidadão comum vir que se vai a votos para a antropofagia, ou para qualquer outro costume mais ou menos janízaro, e que no dia a dia se degolam carneiros nas escadas do seu prédio, ou que a criança, a mulher, o homem respiram muito diferente ar, veremos o que sobra. Se o húmus fértil em que nos gostamos de instalar e a que chamamos de democracia, ou se a rocha ou o magma sobre o qual assenta. Nessa altura é evidente, os sacerdotes da deusa única democracia já a estarão a incensar alhures. Aceitaram a destruição do templo para apenas manter o altar. Mas ao relento a tempestade levá-lo-á. E as suas fundações permanecem. Precisamos da democracia? Sim. Como protecção e conclusão (até haver outra) de um processo. Mas sem ilusões de que o tecto substitua as fundações.
 
 
Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

 

 

 

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terça-feira, 3 de junho de 2014

Pensar fora da caixa

 
O partido Comunista era conhecido por ter a célebre «cassete». De tanto ser criticado por isso, hoje em dia aprendeu, e é dos partidos com menos «cassete». A questão é que há outros muito menos sindicados no seu discurso. Um dos exemplos é o dos gestores. Os seus lugares comuns, os seus tiques, surgem impunes no espaço público.
Dedico-me hoje a um: temos de pensar «fora da caixa», «out of the box», de acordo com a expressão americana original. Cacemos mais este lugar-comum, sobre o qual apenas há três coisas a dizer.
Em primeiro lugar, não deixa de ser curioso que mais uma vez esta, que se diz uma ciência, careça de um enunciado normativo. Devemos pensar fora da caixa. Devemos? Em nome de quem? Que lógica modal no-lo impõe? Que ciência é esta da qual não saem asserções escoradas, mas apenas preceitos?
Em segundo lugar, todos temos de pensar fora da caixa. Todos? Que vontade de uniformização, que espírito de manada... Todos, todos sem excepções temos de pensar fora da dita, ou pelo menos de achar que essa é a forma de pensar por excelência.
Em terceiro lugar, que metáfora é esta a de pensar fora da caixa? Que visão do homem carreia? Vejamos: quem diz que é preciso pensar fora da caixa é porque vive nela. Para ele, pensar fora da caixa é exercício titânico, contradição com a sua própria natureza. Colocado em bicos dos pés, espreita por fora da caixa e sente nisso acto heróico. No fundo, no fundo, admitamo-lo: É que vive na caixa, sempre viveu nela.
Fruto de uma ciência que o não é, regida pela tradução literal, uniformizadora da vida humana e destinada a pessoas que se vêem presas a uma jaula, o preceito é simpático, por vezes mesmo bem-intencionado. Quem vive numa caixa que o cumpra.
 
Alexandre Brandão da Veiga
 
 

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terça-feira, 20 de maio de 2014

Józef Maria Bocheński


 
Na História da lógica que me lembre tive dois conjuntos de mestres: o casal Kneale e Bocheński. Confesso que sempre achei misterioso o que leva apesar de tudo tanta gente a estudar lógica. Poucas actividades dão tão pouco prestígio, realizações práticas imediatas ou visões mais ou menos directas do mundo. Um físico, mal ou bem, pode aspirar a um grau de notoriedade muito maior, maior respeito público, e pode arrogar-se de descrever mais ou menos bem a realidade.

Um lógico hoje em dia está destituído da ideia de que estabelece as leis do pensamento (a própria lógica reusou a tarefa e as neurociências ocupam-se dela com gosto), o que descreve parece ser coisa nenhuma, e ao mesmo tempo passa pelo exemplo máximo do inútil. É evidente que bem sabemos que não é assim. Se posso estar a escrever à frente de um computador é graças à formalização de linguagens que começou na lógica. Mais útil não pode ser.

Mas como o argumento da utilidade só é essencial numa época de caixeiros-viajantes que não conhece mais nada, não me parece, nem o mais importante, nem o mais decisivo. A lógica é uma actividade de uma imensa beleza, em que se atingem algumas das mais potentes capacidades de concentração e pensamento humanos. Para quem não tem preconceitos contra a metafisica, como é o meu caso, é importante salientar que não tem igualmente preconceitos contra a lógica. Uma não vive sem a outra e vice-versa.


Entre as duas Guerras havia dois lugares onde estar para quem queria fazer lógica. Ou a Áustria, ou a Polónia. Na Áustria Carnap, Schlick, Gödel, Neurath. Na Polonia Kazimierz Twardowski, Tadeusz Kotarbiński, Kazimierz Ajdukiewicz, Jan Łukasiewicz e o não menos relevante Alfred Tarski a quem se deve grande parte dos estudos americanos na lógica, por ter formado a escola de Berkeley. Se os Estados Unidos têm estudos de lógica, isso deve-se a estas duas nacionalidades, expulsas pelo suicídio europeu da II Guerra.

Dois países aparentemente pequenos, mas que podem ser os mais adiantados do mundo, não no que hoje em dia se chama nicho de mercado, mas antes ninho fecundante de toda a cultura, ciência e tecnologia dos anos futuros.

Por isso é um prazer ouvir Bocheński. Além de me trazer memórias da juventude, é das raras pessoas que deixa adivinhar a sua (por vezes trágica) experiência, que filtra com uma alegre racionalidade. Uma sólida razão que sorri. Que variante em relação a mal dispostos, profissionais da indignação como sucedânea das ideias.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

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quinta-feira, 8 de maio de 2014

O «editing»


Está agora na moda uma figura bárbara entre os editores: o «editing». O simples facto de não haver uma palavra portuguesa que se lhe adeqúe diz mais do que parece. A sua tradução poderia ser «melhoramento» (em nome de que critérios?), ou «censura prévia».

O «editing» é de origem anglo-americana e não lhe fica mal que o seja. O problema é que mais uma vez em Portugal se importa por metade. Como nos livros de gestão são lidos os capítulos em que se pretende aumentar a eficiência e a produtividade dos trabalhadores, esquecendo-se a parte em que estes têm de ser efectivamente motivados, respeitados, da mesma forma se importou esta prática esquecendo o contexto em que faz sentido.

Nos seus países de origem, o «editing» tem a ver com a concepção do mercado livreiro como um mercado - nem mais nem menos - e o livro como um produto. É em muitos aspectos empobrecedor, mas ao menos tem uma coerência sistemática. É que, ao lado do «editing», está uma perspectiva clara de mercado, e verdadeiros mecanismos de promoção dos autores. Ao lado do «editor» existe um «agent», alguém que representa o autor e o faz comunicar com os centros de produção e distribuição livreiros.

O livro como produto é pensado de montante a jusante como um bem a escoar num mercado. Em parte triste visão, mas ao menos coerente. Mas, quando vemos a ineficácia da edição portuguesa na escolha de livros, autores e traduções, e as tentativas por vezes bem intencionadas, mas raramente eficientes elas mesmas, de os divulgar, percebemos que o «editing» em Portugal tem uma função bem diversa. Não é o «aperfeiçoamento» de um produto realizado na cadeia que vai do autor passando pelo agente, o «editor» e o «publisher», mas algo inorgânico, metido no meio da engrenagem, sem função bem definida.

O «editing» fica pois reduzido a ser um mero exercício de poder. O autor, já esmagado pelo pagamento de percentagens autorais ridículas (sendo o único autor da obra seria de esperar que a maioria do preço do livro lhe fosse dirigido, mas na prática é absorvido pela distribuição), vê-se assim nas mãos de uma criatura que corta, manda acrescentar, modificar, polir.

Perguntemo-nos: com que autoridade? Um «editor», se sabe tanto como fazer livros, porque não os faz ele mesmo? Especialista do mercado, podemos admitir, só se legitimará caso seja um eficiente profissional de mercado, que consegue fazer chegar o livro ao mesmo. Mas, ainda assim, há que perguntar: Se o livro for tratado como um mero produto comercial, no fim de contas ganharemos todos?

Não sejamos lamechas. Grande parte dos livros serão na melhor das hipóteses produtos comerciais. O melhor que podem almejar é vender bem. Nada mais. E não é pecaminoso. Nos países do continente europeu existe por vezes uma pudibundice exagerada em relação à sacralidade do livro e da leitura que se manifesta como mais um aspecto de uma religião sucedânea. A sacralidade da cultura esconde frequentemente uma mera desculpa para se esquecer de pensar o sagrado. Que haja livros que sejam bons produtos comerciais não me parece de escandalizar. É positivo que assim seja. Dão prazer às pessoas. E antes um livro que dê prazer às pessoas que o que apenas as enjoa sem lhes dar nada em troca.

Da mesma forma a sacralização da leitura, tendo em conta que a maioria são maus livros, esquece que a leitura tende a estragar o bom senso a quem não tem capacidade de a digerir. São demasiadas as vezes que vemos pessoas com o juízo fragmentado por informação que não são capazes de processar, e atirando-se como náufragos a conceitos que se lhes escapam das mãos. Da mesma forma, respeitar um livro só porque o é apenas mostra que não se tem critério.

Dito isto, também não faz sentido cair no extremo oposto. A produção e distribuição livreira escondem várias realidades, da mesma forma que um restaurante pode ser uma mera cadeia industrial ou centro de genuína criação gastronómica. Do mesmo modo, tratar o livro apenas como um produto comercial, sempre e apenas, tem como efeito pernicioso serem escolhidos os medianos, os nem tão maus que sejam expulsos, nem os tão bons que sejam incompreendidos.

Sob a palavra «mercado» escondem-se muitas realidades diversas, é certo. Os mecanismos do luxo são bem diversos do mercado do pão para os pobres. Mas, de uma forma ou de outra, as suas regras comuns exigem alguma uniformização para que o produto seja facilmente compreendido pelos potenciais clientes.

Da mesma forma, haver uma criatura supostamente especialista do mercado, que «conhece» o que o mercado «quer» pressupõe que o que o mercado «quer» é bem conhecido, e que o mercado pode querer além do que conhece ou pode congeminar.

Mas estes são vícios gerais da figura do «editing» nos mercados onde ao menos tem coerência e se integra numa efectiva cadeia de produção. Já seriam vícios bastantes. Bem mais grave são as suas desvantagens quando se aplicam num contexto em que esse mercado não é tão evidente. Nesse caso, o «editing» torna-se um mero exercício de poder, um apagamento de autoria. Apenas nos dá vontade de dizer: «queres melhorar? Faz tu o livro se fores capaz». Nem legitimado como o crítico competente, nem dotado como o autor, o «editor» vive de imperar sobre obra alheia e, não tendo o poder de fazer própria, fazer da sua impotência lugar do seu poder. Parasita da obra alheia resta-lhe apenas um poder nu, a capacidade de meter a mão em seara alheia, que o faz sentir criador, precisamente – de segunda mão. A mão invisível do mercado revela mais uma vez que o seu segredo é de pouca monta. De adjuvante passa a carteirista da obra alheia.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Que modelo de homem gera a urbe?

Quando as crianças aprendem algo sobre a urbanização, e se falo de crianças é porque é esse o estalão cultural do actual homem público, aprendem coisas muito simples. Antes o homem vivia no campo e depois passou a viver na cidade. Ficou mais culto, largou o campo e assim acabou a História. Como neste momento pretendo falar entre adultos, temo bem que tenhamos de pôr alguma complexidade na coisa.

O homem que faz a cidade, e não apenas o que nela vive, é sempre um homem duplamente ancorado. Na cidade e na terra. E liga-se à terra de uma dupla ou mesmo tripla forma: na cidade pelo jardim, nos seus limites pela horta limítrofe, longe dela pelo campo, seja ele o latifundium, a propriedade na Ática, o solar, o feudo ou a quinta. Este aspecto é fundamental para se perceber o que é o homem urbanizado no seu sentido nobre. É o que acrescentou algo à sua vida e não apenas substituiu. A sua vida enriqueceu-se por uma dupla experiência, não resulta de uma mera translação.

Este homem duplamente ancorado conhece os ciclos da natureza e as variações da cidade, a dureza do campo bem como as suas delícias, e a agressão da cidade bem como os seus prazeres. Tende a ser realista, maduro, curioso, capaz do confronto, da comparação. É adulto em suma. A lista é infinda destes seres duplamente ancorados. De Séneca a Montaigne, de Madame de Sévignée a Bismarck, de Churchill a de Gaulle, de Plínio a Henri IV.

O que hoje em dia constitui o homem da cidade, de onde se vão recrutar os homens públicos, é de uma espécie bem diversa. É um transmigrado. Nem criador da cidade, que apenas herdou para seu usufruto, nem ligado ao campo, porque os seus antepassados foram dele escorraçados sobretudo por razões económicas. É deste homem que decide em política hoje em dia que temos de curar.

Em primeiro lugar é um homem que vive num mundo mágico, quando se julga racional. Aliás a racionalidade é apenas mais um dos seus mitos. Quantos deles conhecem os princípios de funcionamento de um telemóvel, de um computador, de um carro? Quantos deles conhecem os mecanismos patológicos ou a teoria das áreas monetárias óptimas? Fruem de um mundo cuja complexidade não apenas ignoram mas da qual nem sequer desconfiam.

Em segundo lugar, vive numa total dependência do colectivo quando se julga individualista. Outro dos seus mitos. “Nós hoje sabemos... antes não se sabia”. Esse o seu moto. É que compensa a sua total ignorância do mundo que o rodeia com o facto de o mundo que colectivamente o rodeia já o saber. É um homem demitido, que se demite da sua função de conhecer porque alguém o faz por ele. Dependente pelo conhecimento, é-o igualmente para a sua sobrevivência. Para que possa viver em agregados cada vez maiores, imensas torres de Babel cujo funcionamento global já ninguém pode perceber, depende de estruturas sanitárias, de comunicação, de alimentação, de circulação de bens que lhe escapam totalmente. Mais uma vez o espírito mágico, primitivo entra pela sua vida. O frango aparece já preparado no supermercado, o medicamento em drageias, o serviço bancário na Internet. O mundo não é algo que lhe aparece, é algo que lhe cai em cima. Deixou de ser um caído para passar a ser alvo de quedas.

Vive no medo quando se julga feliz. Desconhecendo e sendo dependente de um colectivo, flutuando em mediações cujos mecanismos desconhece, acaba por ter medo de tudo. Do SIDA, da gripe das aves, da mudança climática, dos terrorismos. Todos esses problemas comungam de uma mesma natureza. São interrupções de uma vida permanentemente bem regulada. Deixando a vida de ser assumida como problema e como tragédia no seu todo, qualquer irrupção da vida no seu quotidiano é considerado como problema e como tragédia. O problema deixa de ser vida para ser apenas interrupção. Nisso os terroristas, que desprezam os europeus, bem perceberam sem serem teóricos, a fragilidade das sociedades europeias. E como estas não se podem no estado actual arvorar-se em paradigmas. Instilam o medo, porque sabem que o medo surge facilmente. Basta pôr em causa o quotidiano. Se bem se reparar é nessa base que trabalha o terrorismo. Na contestação do quotidiano. Andar de avião, de metro, de comboio passa a ser aventura, a poder ser tragédia. Tem medo da velhice, da morte, da decadência, de engordar, de ser infeliz no amor. Sentindo falsamente que a sobrevivência está garantida, dissipa-se no luxo, enfada-se. E enfada os outros.

É um homem infantilizado. Acha que acabar com o SIDA e apenas uma questão de pôr mais dinheiro para a investigação, porque ignora quais os mecanismos da investigação. Não estudou nada sobre investigação científica, a palavra topologia cheira-lhe a uma marca de design, mas tem tudo a dizer sobre a inutilidade de experiências sobre os animais. Olha com condescendência os seus antepassados camponeses, mas acredita na força mítica do Direito Internacional, na vontade de paz dos povos e em que, caso todos os povos tenham o seu paradigma de vida, tudo ficará bem no mundo. No fundo nem lhe passa pela cabeça que assim como é invejado pelo seu nível de vida é desprezado pela sua falta de noção de aventura, ou seja de vida.

É um idólatra do desconhecido. Sendo acima de tudo desconhecedor, é idólatra de quase tudo. Das outras culturas, porque presume conhecer a sua, o que está longe de ser verdade. Da natureza, porque foi dela desenraizado e esquece que o SIDA, as epidemias, as tempestades, os furacões, são igualmente natureza. Como todos os idólatras, julga que a melhor forma de se entregar ao ídolo é amando-o, mesmo que este lhe faça mal.

O verdadeiro homem urbano é o homem duplamente ancorado: no campo e na cidade. O actual homem urbanizado só por generosidade pode ser assim chamado. Em boa verdade não é de urbanização geral que falamos. O que caracteriza a nossa época é uma suburbanização geral. À roda do mundo não se estão a gerar grandes cidades, geradoras de acção política específica, de criação cultural profunda e de actuação sentimental inovatória. O que se está a criar no mundo é um imenso enxame de subúrbios, cidades que são em si mesmo subúrbios, mais que sem centro físico, sem centro espiritual. Do homem duplamente ancorado passamos aos poucos para o homem sem âncora. De duplamente achado, para duplamente perdido. Sem ligação ao campo e sem real ligação à cidade.

Que consequências traz este fenómeno para o espaço público? Em que interessa esta análise para a compreensão da política, e do discurso político actuais? É que o paradigma do suburbano é o comentador desportivo. A criticar tem visibilidade, não por ser marcante como pessoa, mas porque é popular o objecto sobre que se debruça, e porque os rituais consagram a sua viabilidade. É um homem ancorado apenas à sua existência visível. Dedica-se a temas cuja compreensão é elementar e deles faz aparato de arcana sabedoria. Mas o paradigma é o do comentador desportivo também porque na sua maioria discursa sobre um objecto para o qual lhe falta configuração atlética para agir. Muita da classe política hoje em dia sendo barriguda, diz-se desportista. Julgando-se homens de acção, reduzem-se a ser espectadores e a comentar, como se fosse seu papel dissertar, e como se a sua verve claudicante fosse o estalão do próprio agir.

O homem da suburbe não possui conhecendo mas comprando. Compra bilhetes de avião, mesmo que não tenha ouvido falar de Bernoulli. Porque voa o avião irreleva-lhes, quando deveria saber que a pergunta sobre as causas é o que lhe permite andar de avião. Sendo a sua forma de posse a mera compra, em pura magia de contacto, acha que atirar dinheiro resolve os problemas do mundo. Julga que pode comprar a paz. O bárbaro não tem de ser disciplinado, mas apenas comprado. O seu instrumento é o contrato e não a ordem, mesmo que o contrato tenha de ser indigno e a negociação aviltante.

A decisão política fica assim vertida em mero comentário de banalidades. O político faz de conta que declara, quando deveria ser sua função determinar. Abre-se ao diálogo e pede desculpa por decidir. A decisão é amolecida por uma retórica de doçura, de tolerância, que é apenas defesa para a sua falta de escoramento. Quem não tem de onde venha não tem para onde ir. O homem urbano tem mais de um ponto de vista. O suburbano na política, está apenas de passagem. Não tem pontos de vista: apenas vê de relance.


Alexandre Brandão da Veiga
 

 

 

 

 

 

 

 

 

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