sexta-feira, 14 de março de 2014

Exijo declaração de consciências

Acaba de ser recusada a coadopção por homosexuais. Esta questão civilizacional não estava prevista nos programas da maioria. No entanto, foi admitida para votação com liberdade de voto. O que constitui uma forma apurada de tirania, engano e de falta de virtude democrática. Nenhuma consciência representa a minha, a não ser que esteja mandatada para tal. Se é para cada um decidir por si sobre as questões de consciência não inscritas nos programas eleitorais, antes das eleições, isso obriga os deputados a fazerem uma declaração de interesses para que não estejamos a eleger um programa escondido. Na próxima campanha às Legislativas exigirei conhecer as consciências de quem estou a eleger.

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quinta-feira, 13 de março de 2014

O Bispo e eu

Fiz uma descoberta tardia deste Bispo de Lisboa com quem tantas vezes falei. Parecia apenas racional, inteligente, institucional. Diria que a sua evangelização passava só pelo cérebro. Entrevistei-o várias vezes. Uma delas, longamente, no dia em que o Cardeal Ribeiro morreu. Estava normalíssimo. Mostrava a frieza do pastor que herda um rebanho que conhece, com a naturalidade dos que ficam mais tempo vivos, antes do encontro na Eternidade. Olhava-o como Bispo mas creio que nunca me viu como crente. Não tinha uma interacção pessoal comigo. Nos jornais ou na Câmara de Lisboa, trocámos apenas assuntos, o que, para mim, representava um desencontro. Em absoluto contraste, tinha sentido de humor, fumava, falava sem rodeios, com simplicidade e profundidade.
Procurei o pastor nos seus textos e nas homilias que D. José escrevia primorosamente. Era outra pessoa. Calorosa. Transmissora do Amor de Deus. Conhecedora das fragilidades humanas. Esperançada na resposta de cada um ao desafio da Vida, em Cristo. A última homilia que lhe ouvi, há semanas, na igreja do Colégio do Bom Sucesso, foi um sinal partilhado da intimidade de Deus. Comovente. Senti-me inábil por não o ter descoberto mais cedo. Mas Ele sempre esteve lá. E revelou-Se em tempo útil.       

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terça-feira, 11 de março de 2014

O seu a seu dono

Sempre me disseram que o terreno entre a sede da Polícia Judíciária e o Liceu Camões, em Lisboa, foi doado pela Rainha D. Amélia para a construção de uma Escola Superior de Medicina Veterinária, que o País carecia. Essa escola existiu, formou múltiplas gerações até que alguém, quem?, decidiu demoli-la para ali ampliar as instalações da PJ, hoje inauguradas com pompa.
Não discuto as necessidades logísticas do combate ao crime. Nem vejo como indispensável que se estudem os animais no centro da cidade. Mas o objectivo da doação foi alterado e, pelo contrato, o terreno deve voltar aos seus proprietários.

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segunda-feira, 10 de março de 2014

Grandes Guerras




A morte de um príncipe afectou o orgulho da potência de Viena perante o terrorismo ultranacionalista sérvio. Rússia apoiou o seu satélite, como hoje. A Alemanha veio em ajuda ao aliado austríaco chamando a França a cumprir o Tratado com a Rússia e, por sua vez, a Inglaterra a honrar o compromisso de auxílio ao Governo de Paris. Há 100 anos, como hoje, amontoam-se as cartas. Basta um sopro para fazer cair o castelo da paz europeia.

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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O vegetarianismo


Não me lembro da primeira vez que tive contacto com o vegetarianismo. Vagas recordações de infância, algumas referências esparsas. Talvez o primeiro contacto tenha sido com o irmão mais velho de um amigo meu, que se tinha convertido ao vegetarismo. Conversão era a palavra certa, porque pretendia mudar toda a sua vida, embora não tenha mudado alguma da sua agressividade natural. Talvez fosse mais paliativo que tendência.

Já via argumentos agastados de um lado e de outro da discussão. Talvez por isso seja melhor salientar alguns aspectos. Como em todas as áreas, mais importante que a convicção que cada um tem, é o de saber se é honesta, profunda, se é efectivamente própria, e não algo postiço que se tem para mostrar aos outros. Ao longo da minha vida alguns vegetarianos provocavam a minha repulsa porque eram presunçosos, achavam-se superiores aos outros, proselitistas assanhados. O problema não era o de serem vegetarianos, mas o de tudo o resto que eram. De igual forma, respeito profundamente a coerência dos vegetarianos que, não suportando ver o sofrimento animal, não se alimentam deles. Uma artista francesa há uns tempos atrás dizia com alguma graça que não comia nada «que possa olhar para mim».

Sejamos mais precisos. Nunca fui capaz de caçar, apesar de ter família que caça. Da mesma forma nunca condenei a caça. Nunca tive grande paixão por touradas, mas isso não me impediu de respeitar quem delas gosta. Tolerância não é tolerar o que se gosta, mas o que não se gosta. Respeitar o facto de os outros serem efectivamente diferentes e serem legítimos na vivência dessa diversidade. Em boa verdade respeitei particularmente os forcados, por se atirem mãos nuas a um touro... Mas não desenvolvo esse tema, que mereceria por si mesmo outra atenção.

A questão é que existem muitas motivações para se ser vegetariano. Sejam higiénicas seja éticas. Como disse, respeito-lhes a coerência, mas esta apenas nasce ao custo de novas fragilidades e incoerências.

Em primeiro lugar, somos todos omnívoros. Em todas as culturas e civilizações os homens são omnívoros. Comendo mais carne numa ou mais vegetais noutras, variando a dieta consoante a classe social, não existe cultura em que o ser humano não seja omnívoro. Talvez isso diga algo sobre a nossa condição animal. Não se pode aqui culpar a civilização judaico-cristã, as religiões do livro ou outros lugares comuns dos jornalistas.

Em segundo lugar, é inevitável matar animais. Quando andamos na rua pisamos animais pequenos. Mesmo o simples facto de respirarmos, ou por outra forma atirarmos para dentro do nosso corpo, tem um efeito. O nosso corpo tem este hábito de os matar, eliminar, maltratar. Somos mesmo um microbiotipo onde usamos bactérias para nos ajudar... Muitas vezes matando outras. Pagamos assassinos a soldo igualmente, é um facto. O vegetariano tem de se haver portanto com uma de duas possibilidades: ou assume essa contradição, ou então despreza os animais minúsculos e reinstaura uma nova forma de hierarquia. Os animais macroscópicos são objecto do seu respeito, mas não os microscópicos.

Em terceiro lugar, alguma coisa tem de comer. Vegetais, entendamo-nos. Plantas e fungos, mais tibiamente. Mas isso significa que apenas estabelece um outro nível censitário, uma outra forma de aristocracia. Em vez de a linha terminar no homem, como cume da criação, a linha termina entre os animais e as plantas. Os animais, todos eles, fazem parte da aristocracia da natureza, e já as pobres plantas podem ser comidas, usadas para nosso benefício. Ora dá-se o caso de cada vez mais se perceber que as plantas têm vida social, certas sementes reconhecem as suas irmãs, porque o seu comportamento concorrencial é inibido por esse facto, as árvores mães na floresta manterão comunicações com as suas filhas através de filamentos de fungos.

A Universidade de Nantes descobriu que era possível fazer diagnóstico precoce da doença de Parkinson (e pensa-se estender esta metodologia a outras doenças que afectam o sistema nervoso) – fazendo uma biopsia ao aparelho digestivo do doente. Não ao cérebro, mas ao sistema neurovegetativo. Precisamente: neuro... vegetativo. Fechner, o grande criador da psicologia experimental, acreditava que havia uma vida espiritual das plantas. A vida vegetativa, mesmo a mais elementar, talvez não seja tão destituída de propósito próprio quanto se diz, e ainda menos de relevância. As intuições de Teilhard de Chardin, que vê o início da noosfera desde a origem da matéria (a oposição espírito e matéria é das mais temerárias que existe) são apenas mais um elo numa cadeia de intuições, estudos, conclusões, hipóteses, teorias ou verificações seguras que apontam de alguma forma nesse sentido. Nada há de estranho nisto. Toda a biologia nasceu de pressupostos metafísicos, e materialistas como Haeckel e Darwin não escaparam a eles. Nada mais poético que presumir o acaso, tanto quanto presumir a correspondência. Os animismos apenas são pobres porque exclusivos ou apressados.

O vegetarianismo não é a imposição da igualdade na natureza, da igual dignidade de todos os seres vivos. É apenas um alargamento da base censitária da nossa alimentação. Alarga-se a aristocracia, mas existem ainda seres que podemos comer. Mesmo os vegans, que supostamente apenas podem comer plantas já caídas pelo solo, aceitam comer mortos de plantas, mas não animais naturalmente mortos ou a carcaça do seu colega de trabalho recentemente falecido. A tanatofagia estabelece novas hierarquias, de uma forma ou de outra, mesmo que se alimente de inevitáveis mortes.

Não há maior coerência entre os vegetarianos, é verdade. Mas resta ainda um quarto aspecto. E esse sob o ponto de vista civilizacional é preocupante. Talvez o mais deslumbrante teórico da abstinência seja Porfírio, um filósofo do fim do séc. III, início do séc. IV d.C., um pensador com uma influência maior, mas pouco conhecido. Basta dizer que marcou profundamente Santo Agostinho, toda a filosofia medieval assenta em grande medida nele, a ele devemos a edição das obras de Plotino, e foi o único grande pensador anticristão de grande substância. Porfírio tem mesmo um tratado dedicado em especial à abstinência, onde trata da abstinência da carne dos animais.

O vegetarianismo desenvolve-se em épocas de recusa do corpo, como os medioplatónicos e neoplatonismo mostram. Porfírio, na sua grandeza, é um bom exemplo disso. E as épocas de recusa do corpo são menos saudáveis, menos vitais, menos viçosas que as outras. Não fora o cristianismo imperar a partir do século IV d.C., poderíamos ter um percurso do pensamento antigo a caminhar para o desastre da absoluta descorporização. Há um desgosto pela condição natural da vida, pelo sofrimento que implica necessariamente, pelo facto da vida se alimentar inevitavelmente de mortes, seja de animais, seja de plantas. Excluindo os vegetais, tudo o resto para se manter vivo tem de provocar a morte.

A vida tem aspectos muito desagradáveis, reconheço. Mas querer recusá-los é querer fazer recusar a vida. A decisão nesta matéria não é indiferente moralmente. Seria muito estóico falar aqui de indiferentes. Mas a escolha por ou contra o vegetarianismo não dá razão moral a quem escolhe um lado ou outro. E criar restrições na vida não é em si mesmo empobrecedor. Toda a mística, a vida consagrada e a vida contemplativa estão por aí a mostrar-nos isso. Mas também a Mãe que abdica pelo filho, o herói pelo seu povo. Toda a vida é feita de restrições, tudo está em saber o que escolher. Umas escolhas são boas para uns e apenas postiças para outros. Mais uma lição a retirar: não tenhamos orgulho por ter feito uma escolha ou a contrária. Pensemos apenas se ela é autêntica e deixemos os outros em paz nas suas escolhas e tentames. Somos seres destinados ao erro. Não o cumulemos com a presunção.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Educação para o Mar

Em boa hora Nuno Crato resolveu distribuir, por todas as escolas do País, mapas de Portugal com o Mar da futura Zona Económica Exclusiva. Educar com escala, missão e novos horizontes é obrigação estrita de Pais e governantes com a tutela do ensino.  

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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Países Baixos

1.       Foi instituída a eutanásia para crianças na Bélgica. As crianças não podem decidir sobre a hora de dormir, o que comer, que hábitos ter. Mas sabem o que querem da vida. É claro que a Lei, para ser civilizada, vai dispor de alíneas prudenciais que decretem as condições do apuramento da certeza absoluta de que a criança quer morrer. Talvez copiem a exigência na Lei do Aborto.

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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Filhos de Roma e Grécia

Tenho por muitas vezes atacado os avatares da modernidade, uma modernidade algo requentada, é certo, transformada em pós-modernidade, em repetição de si mesma, reactivação de si mesma, mas sempre versão cansada de um movimento que já nasceu do desprezo de si mesmo. Fenómeno estranho na História, a modernidade nasceu pela mão de pessoas que foram os primeiros a desprezá-la, é fruto de desprezo de si mesma. A explicação é mais simples do que parece. Renascida tentativa de ser um novo começo, partir do zero, reactivação do Hapax, imitação em modo menor do cristianismo, a modernidade apenas poderia trabalhar em modo menor, acabando por se esquecer mesmo do que são as suas grandezas.

É verdade. Mas também não queria perder o sentido de justiça. De entre quem não se reclama da modernidade ou pelo menos apenas dela, há muita gente a dizer tontices. Ainda recentemente um eminente catedrático, segundo parece, afirma que: bem sabemos que somos todos filhos do direito romano e da racionalidade grega.

Haveria muito que dizer a propósito, e já o disse bastamente onde melhor cabia. O esquecimento de outros povos indo-europeus que fizeram a Europa, como os germanos e os celtas, que tanto influenciaram a Península Ibérica, como dos eslavos, que marcaram metade da Europa, diz muito sobre a menos que sofrível capacidade de elaboração teórica da academias.

Mas fico-me apenas pela ladainha do direito romano e a racionalidade grega.

Filhos do direito romano? A única coisa que os romanos fizeram teria sido o direito? Quando conquistaram a Península ibérica inundaram Tartesso, os lusitanos e quejandos povos de pareceres jurídicos? Teria sido uma coorte de jurisconsultos que se atirou furiosamente às populações com as suas sentenças? Talvez tenham sido madeiros com a Lei das Doze Tábuas a ser arremessadas sobre as fortificações peninsulares.

Ou então, porque termos de colocar todas as hipóteses, talvez a coisa se tenha passado da seguinte forma. Chegaram os romanos e mostram aos povos peninsulares um arrebatador parecer jurídico. Ao que estes disseram: «ah têm toda a razão, façam favor de entrar e conquistar-nos. Brilhante demonstração jurídica». E entraram os romanos e dominaram...

O direito romano? Será que em Suetónio quando Messalina abre as pernas a metade de Roma criou as situações potestativas? Ou Lucrécia em Tito Lívio quando as fecha cria os bens de mão morta? Não teria sido bem mais a ética romana a ter maior influência sobre nós que o seu direito? Não seria Heloísa bem mais estóica que cristã em muitos dos seus movimentos e não teria sido a moral das elites europeias mais marcada pelos exemplos dos heróis da República romana que pelos ditos de Triboniano ou Paulo?

E a organização política romana, tanta dela prévia ao direito, não nos teria influenciado. Será que Gaio e as suas instituições marcaram mais a Europa que Augusto ou Constantino? Conheço a expressão «augusta presença», «gaia presença» não me parece que tenha acorrido à pena de nenhum escritor.

E será que os romanos não fizeram literatura que influenciou toda a Europa latina até ao Reino Unido? A noção de estilo, da fórmula, da eficácia discursiva, do impacto retórico, do sentido de humor alusivo, com tudo o que tem de bom ou mau, não cobre mais as nossas vidas que a usucapião ou a manumissão?

E quanto à tanto referida racionalidade grega? Cleante faz o lírico hino a Zeus por pura racionalidade? Empédocles filosofa em poesia também com este simples assento? Toda a filosofia grega vive o terror do infinito. Ao contrário do que durante séculos se disse os gregos eram capazes de o conceber. E que que maneira. Ao ponto de os aterrorizar. De Aristóteles, a Plotino, passando pelos atomistas, todos enfrentam o infinito, tentando contê-lo, evitá-lo domesticá-lo, negar o seu valor, ou entregando-se a ele como vencidos resignados. Que tem isso de racionalidade nua?

E não fizeram os gregos arte? A cara de Alexandre em mosaico que nos resta ou a de Lacoonte revela apenas racionalidade?

E a literatura? Não seremos herdeiros dela, bem como da mitologia? Quanto Édipo fura os seus olhos estará a ser puramente racional? Quando Medeia mata os seus filhos, ou Dejanira leva Hércules a vestir peles envenenadas que o levam à morte e o conduzem a deixar-se imolar pelo fogo estarão eles a fazer exercício de racionalidade? E as ménades e os ritos mistéricos? Não é só Jâmblico, mas igualmente Platão que estão bem longe de serem apenas, só, sem mais, exemplos de racionalidade.

O «apolíneo» Apolo lança a peste em Tebas, e é qualificado de «o empalador». Sacrifícios humanos são feitos em Atenas até ao início da Idade Clássica. Racionalidade? Sem mais? Herdámos um produto depurado, pasteurizado, estéril? Ou somos herdeiros da cultura grega, de toda ela, em todas as suas perspectivas?

Estes comentários mostram que, mesmo quando com boas intenções, o fôlego retórico falha, a expressão justa claudica, o conhecimento é escasso. Lamento que no espaço público ainda possam ser ditas tais trivialidades portadoras de injustiça. Injustiça em relação a nós e em relação aos gregos e romanos. Não somos apenas herdeiros, nem principalmente herdeiros do direito romano e da racionalidade grega. Se esses povos apenas nos tivessem deixado tal legado agradeceria muito, mas deixaria o direito para os tribunais e a racionalidade para os mercados. Se não trouxessem consigo coisas bem mais importantes, um fogo criativo, uma imensidade vital, modos de ver o mundo conflituantes entre si, mas por isso mesmo enriquecedores, passaria quitação da herança e passaria a outras aventuras. Graças aos céus a História é bem mais rica que quem nela vive.

Mas vamos mais fundo. Qual é o solo em que assenta este tipo de frases? É evidente que é mera repetição de uma rotina escolar, escoras cómodas e simplistas, que permitem que um pensamento não muito vigoroso descanse. Percursos académicos em que, de tanto se ter de prestar provas do que se sabe, se esquece de saber. É evidente. Mas há algo mais. Esse algo mais é muito simples. Herdámos do passado apenas cascas, estruturas vazias, realidades externas à vida. Os que nos antecederam não tinham linfa, ou pelo menos não nos é possível herdar-lhes a vitalidade. Nomes, na melhor das hipóteses conceitos, é tudo o que podemos herdar. Por detrás destas fórmulas vazias está uma concepção do mundo em que falta algo. O seu nome? Intimidade. Precisamente isso: intimidade. Os antigos não a tinham, não somos capazes de a herdar. Um mundo feito de mortos que nunca viveram, e que nunca foram capazes de nos transmitir a vida.

Habituados à separação entre espaço público e privado, entre racionalidade e irracionalidade, como se o ser humano não fosse uno, entre ciências e letras, entre afectos e pensamento, é um homem amputado que é ensinado nas academias, cortado às fatias, pleno de compartimentos estanques. Nem um homem máquina à moda dos materialistas do século XVIII, mas mais pobre ainda, um homem cómoda, cheia de gavetas.

Triste, triste forma de pensamento, requebrado em alguma rocha exposta aos ventos e sonhando com uma vida que nunca teve. Por isso, este tipo de sínteses me parece inoperante, vazia, sem seiva. Não somos herdeiros do direito romano e da racionalidade grega, porque, caso fossemos apenas disso, sê-lo-íamos de bem pouca coisa, de meras cinzas. Somos herdeiros de toda a vida dessas duas culturas, dessas pessoas que as cultivaram, além de muitas outras. Mas, sobretudo, somos herdeiros de vidas que nos enriqueceram. De gregos e romanos sim, mas não de tão pouco vindo deles.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

As polémicas de Dawkins


O conhecido biólogo Richard Dawkins tem-se especializado na polémica nos últimos anos. Escusado será dizer que lhe assiste alguma parte de razão. Depara-se com fundamentalistas cristãos folclóricos que fazem os dinossauros conviver com os humanos, que defendem e forma acrítica a ideia de desígnio inteligente, que procuram na Bíblia ou no Corão a verdade científica. A sua irritação é compreensível em muitos aspectos, porque as insuficiências filosóficas dos seus oponentes são evidentes.

Aquilo de que não se apercebe o próprio Dawkins é que as suas insuficiências filosóficas não são menores. Em vez de clarificar conceitos enlameia-se em equívocos e insuficiências críticas. De um lado e do outro, o debate é pouco original, enfadonho, e repete a mais de um século de distância o que já se tinha visto no século XIX. Que um lado e outro repitam a polémica apenas mostra que a arrogância em relação aos nossos antepassados, que nos leva a ter a presunção de que os ultrapassámos deixa muito a desejar.

Vejamos cada uma destas limitações de Dawkins por sua vez.

O seu ateísmo militante. Que uma pessoa seja ateia militante é de seu direito, não o vou negar. Mas o ateísmo sofre de uma insuficiência lógica de que nem ateus nem crentes nem agnósticos se apercebem. O que diz um ateu? Deus não existe. Para que esta asserção seja verdadeira é necessário que se esteja a dizer «eu vi toda a realidade e não estava lá Deus». Logicamente. Admitir que se viu toda a realidade futura e presente e fora do tempo se a houver, saber precisamente o que não existe, é no mínimo temerário. Um ateu entende que pode ignorar a existência de um verme, mas a existência de Deus não ignora. Sabe tudo sobre ela. Que não existe.

O agnosticismo pode ser uma espécie de snobismo e não com mais base lógica, é certo. Vittorio Messori lembrava que na sua juventude a moda em Itália era a de se ser agnóstico, e ser ateu era visto com maus olhos, como uma forma de intranscendência ingénua. Neste caso, embora o agnosticismo não padeça do vício lógico do ateísmo, tem ainda menos fundamento, porque é pura pretensão social.

Dawkins tem ao menos a frescura de, numa época que faz renascer espiritualidades desencontradas ter um projecto, um evangelho cheio de certezas: Deus não existe, a ciência é a base do diálogo humano.

Ora é precisamente por misturar estas duas ideias que Dawkins mostra mais uma inconsistência lógica. A ausência de Deus e a ciência não se implicam mutuamente. E mais outra: que a ciência seja a base do diálogo humano é inverter a ordem das prioridades. 

Vejamos mais uma vez como Dawkins mistura conceitos. A ciência nada diz sobre Deus. Os seus ensinamentos tanto podem ser usados a seu favor como a seu desfavor. O mecanismo é simples. Em desfavor os que se quedam pelo que a ciência diz. É evidente que não fala directamente de Deus, senão não seria ciência. Seria difícil pensar que Deus é inversamente proporcional ao quadrado de seja o que for. Em favor, os que salientam para onde a ciência parece apontar, para as suas últimas motivações.

Entra aqui outro vício de Dawkins. Não apenas se deixa absorver pela simples polémica, sempre com o mesmo inimigo, o fundamentalismo religioso – o que pode ser sensato em certas épocas, nem digo se na nossa, mas é sempre limitado – como mostra ignorância filosófica e falta de sentido crítico.

Luta contra o desígnio inteligente como cavalo de batalha do fundamentalismo religioso. O problema (dele e dos fundamentalistas) é que esta tese é pagã e não cristã. Está a atacar o que julga ser cristão quando não o é, e outros a definir o que julgam ser cristão e não o é também. O desígnio inteligente encontra-se em Aristóteles e Galeno, bem antes de ser teorizado pelos cristãos. Nesse sentido, Dawkins está no mesmo plano crítico que os fundamentalistas. Ambos acreditam na mesma premissa... falsa.

O desígnio inteligente, ou melhor a ideia de finalidade, não é por outro lado, exclusivo de crentes ou pagãos. Mach reconhecia nem que fosse um resíduo de teleologia na biologia. Da mesma forma o princípio da acção mínima na física configura um pressuposto finalístico. Dawkins socorre-se de uma certa forma de ver a biologia, e não a única, nem de ver a biologia e muito menos a ciência.

Por outro lado, de tanto se sentir na necessidade de defender Darwin caba por se transformar num exegeta de uma nova Bíblia, «A Origem das Espécies». É bem sabido que a obsessão com o inimigo nos torna similares a ele e Dawkins começa a tornar-se uma espécie de tele-evangelista do Middwest americano no seu tipo de argumentação (embora com mais bela pronúncia).

Outro vício em que cai é do é o de que, por ser detentor de uma ciência, se julgar detentor da ciência como um todo. O conceito de biologia é romântico, o impulso da teoria da evolução é em grande medida cristão, como resultante do Hapax, e romântico (como Gusdorf mostrou) e Dawkins, como desconhece a origem da própria ciência que cultiva, esquece-se disso. Como Bergson repetia os românticos sem o saber, também Dawkins o faz. Mas, ignorando outras ciências como a física e a matemática, não se apercebe até que ponto nestas últimas os problemas teológicos se encontram na fronteira dos próprios problemas científicos. Cantor e Heisenberg são bons exemplos deste encontro. Dawkins julga falar em nome da ciência, mas fala apenas em nome de uma ciência. A biologia. Das outras pouco mostra saber, e por isso não percebe que o seu argumento é limitado.

Em acréscimo, esquece-se que a necessidade positivista surge sobretudo em ciências recentes e mais inseguras. Houve grandes biólogos e químicos positivistas, mas não se podem encontrar muitos exemplares de grandes matemáticos e físicos positivistas. Kronecker e Kelvin poderiam ser dados como exemplos talvez, mas se foram competentes, e esse mérito ninguém lhos retira, estão longe de ser os maiores representantes nas respectivas ciências. Kronecker teria atirado a teoria dos conjuntos e a álgebra dos transfinitos ao lixo, Kelvin decretou como menores as origens da teoria da relatividade e a física quântica. Dawkins fala como biólogo, como um sociólogo, ou certas escolas históricas ou antropológicas o poderiam fazer. Não como um matemático ou físico falaria.

Na sequência aparece outro vício de Dawkins. Julgando que a ciência instaura vidas (a atitude mais anticientífica que possa existir) resvala em todos os vícios associados a esta falácia. Espero bem que não tenha feito cientificamente amor com a respectiva mulher, porque duvido que ela daí tenha retirado algum prazer. Mas, mais importante para nós, que não fazemos amor com ele, mostra uma ingenuidade histórica confrangedora quando afirma que é por via da atitude científica e da ciência que se chegam a soluções razoáveis na sociedade. São duas coisas diversas. Que a segunda, a ciência e os seus conteúdos tenham permitido uma regulação mais razoável da sociedade, o século XX desmente rotundamente. Mas será que o método científico, usado na sociedade, gera mais razoabilidade, senão mesmo justiça social? De novo Dawkins está limitado pelos seus parcos conhecimentos de outras ciências. Se a biologia teve momentos de grande polémica, como a História, a posição proba, razoável, sensata, é sempre vista com melhores olhos num biólogo, como num historiador. Mas já um matemático ou físico não tem de ser sensato. A lista de físicos bem mais sensatos que Dirac é imensa, e todavia ele supera-os como físico. Da mesma forma, muito superior à sensatez que Galois tinha não é difícil encontrar, mas nem todos lhes chegam aos calcanhares como matemático. Não sei se a sanha persecutória de Newton faria com que Dawkins deixasse de o considerar bom cientista, mas estaria errado se o fizesse. As invejas, os conflitos, as mesquinhezes existem no meio científico tanto quanto nos outros.

Mas a limitação de Dawkins é igualmente filosófica, como se vê. A sua visão monolítica da ciência, limitada a sua perspectiva temporal da mesma, leva-o a defender como ciência, a única ciência, o que está longe de o ser, e a dar um papel à ciência que não lhe cabe se se quiser que ela permaneça ciência e não evangelho.

Entendamo-nos: Dawkins tem um papel muito positivo na nossa época em que franjas muito largas da população entre os americanos, mas e em menor medida entre os europeus, e em maior grau ainda entre os muçulmanos são absolutamente surdas à ciência e às suas implicações. Luta contra estupidez, e nisso há mérito. Apenas não luta com os argumentos mais inteligentes. Se tivesse de escolher entre os múltiplos fundamentalistas e Dawkins sentava-me ao lado de Dawkins, não teria qualquer dúvida em o fazer. Mas depois de vencidos os fundamentalistas, seria a Dawkins que me dirigiria.

Para lhe dizer várias coisas. Que o seu ateísmo se funda numa insuficiência lógica, que usa a ciência para negar Deus quando ela não O afirma nem O desmente, que luta contra moinhos de vento tão grandes quanto os seus oponentes quando ataca o desígnio inteligente, que pretende substituir um evangelho mal lido por um outro mal usado, que não pode falar em nome de toda a ciência, porque a desconhece no seu todo, que por isso pretende que ela instaure vidas, quando isso é impossível e não é sua função. E que, no fim de contas, embora útil, é apenas mais um reflexo da incultura da nossa época, em que se pode ser cientista numa área estreita sem se ter cuidado de estudar as outras. Dawkins mais que remédio é sintoma. Nisso a sua parca relevância.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Conflito de fidelidades

É com sentimentos contraditórios que assisto à homenagem de Durão Barroso em Cáceres. Congratulo-me, sendo o reconhecimento internacional a um Português por funções prestadas a tantos Povos europeus. Mas não esqueço que o preço dessa função foi o abandono da condução dos destinos do Governo português, na condição de não haver eleições que legitimassem o seu sucessor. Resultado: mandato e meio de deriva socialista  sob uma liderança que não evitou o restage financeiro depois da crise de 2008. Também não me agrada o nome do prémio - Carlos V - dado a um Português. Sabemos que este Imperador, casado com Isabel de Portugal, preparou cautelosamente a anexação do nosso Império ao seu, onde o sol nunca se punha. Hoje, tal como há quase cinco séculos, devemos saber se esta contribuição nacional para a Europa prejudicou ou beneficiou Portugal.

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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Acredito em Sócrates

Acredito na descrição de José Sócrates sobre o jogo de Portugal com a Coreia em 1966, agora alvo de chacota em todo o País. Foi num Sábado, sim, e em Julho, durante as férias grandes. E então? Os meus cinco irmãos sempre foram para os campos de futebol e para a mata do colégio dos Maristas ao fim de semana e durante as férias para jogarem à bola e brincarem na pequena floresta que ali estava disponível, maior do que o quarto dos brinquedos. Não havia televisão lá em casa e o ar puro era melhor do que uma casa sem jardim. Ironicamente, as crianças tinham mais liberdade nessa época e não estranho, de maneira nenhuma, que José Sócrates, em plena Covilhã, continuasse a encontrar-se com os amigos no recreio da escola em vez de ficar fechado em casa. Era Julho, sim. Mas, provavelmente, os seus Pais tirariam férias em Agosto e, até lá, havia que matar o tempo numa cidade sem os pavilhões gimnodesportivos e os campos de férias de hoje. A memória de um miúdo de oito ou nove anos sobre o jogo da Coreia não engana. E os que de nós duvidamos, falamos mais de nós do que disso.

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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Simbolismo confuso

O site da CML descreve como uma «cerimónia, simples, carregada de simbolismo» a «homenagem de uma cidade» a Eusébio da Silva Ferreira. O carro parou à porta da CML, foi aberta a bagageira, assim ficou numa confusão de vereadores e bombeiros perfilados a par das pantufadas de assessoras aos fotógrafos que faziam o seu trabalho. O caixão ali estava, nem dentro nem fora do carro, porta aberta, nem dentro nem fora da Câmara. Durante longos minutos embaraçosos, sem decoro protocolar nem simplicidade, batiam-se palmas, paravam, voltavam a bater até que a trapalhice se tornou incómoda. Ninguém percebia o guião. A voz off da TV queimava os minutos daquele vazio chamado «cerimónia carregada de simbolismo». Fechada a mala, o carro seguiu, finalmente entregue à cidade.
Lembrei-me da bandeira nacional mal hasteada no dia 5 de Outubro.
Para quando uma «reforma litúrgica» na CML?

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sábado, 4 de janeiro de 2014

Quem é esta Dona Vatanca?

Navegando pela Internet cheguei há muito tempo a este site: http://www.findagrave.com/cgi-bin/fg.cgi?page=gr&GRid=8034779.
 
Nele aparece-me uma tal «Dona Vatanca», dama de honor da rainha Santa Isabel, sepultada na Sé Velha de Coimbra. Nada de extraordinário nisso, caso não se tratasse de uma princesa bizantina.
 
Que faria no século XIV uma princesa bizantina em Portugal? É verdade que a rainha Santa Isabel era aragonesa. O seu avô Jaime, o conquistador, rei de Aragão, era filho de Marie de Montpellier. Que por sua vez era bisneta de João I Comneno imperador de Bizâncio. O seu pai Pedro II, o Grande, era filho de uma princesa húngara, Yolande Arpad, neta de Pierre de Courtenay, imperador latino de Constantinopla. E Aragão manteve muito mais intensas relações com do Mediterrâneo que Portugal algum dia teve.
 
Mas que princesa era esta? Seria realmente princesa? E Vatanca? Não conheço nenhuma família nobre bizantina com este nome. A minha hipótese, meramente especulativa, é que se trataria de uma Vatatzes.
 
O imperador João III Doukas Vatatzes casou-se com Constança de Hohenstaufen, filha ilegítima de Frederico II de Hohenstaufen e da sua amante Bianca Lancia, mas este casamento não gerou filhos. De qualquer forma, Frederico II de Hohenstaufen quem era? Nada mais nada menos que o avô da Mãe da rainha Santa Isabel. Ou seja, uma tia-avó sua tinha-se casado com um Vatatzes.
 
Pode haver aqui uma objecção linguística. Como Vatatzes pode dar uma Vatanca? Em grego «C» aparece frequentemente como sinal de sigma maiúsculo. Além do mais, é comum no Leste da Europa, sobretudo entre as línguas eslavas o «c» representar o som «ts». De onde Vatanca não deveria ser lido Vatanka, mas Vatantsa.
 
Que uma bizantina esteja sepultada em templo católico também não espantaria. Desde o império latino de Constantinopla vários elementos da nobreza se aproximaram da cultura ocidental, havendo mesmo um movimento diríamos hoje em dia pró-ocidental, o dos latinofrones, cultora da cultura latina, e admiradores da escolástica. E depois, mesmo que assim não fosse, não iria ser recusada sepultura a uma ortodoxa oriental, suponho eu.

Este parece um excurso de curiosidades. Talvez. Mas não me deixa de impressionar que uma princesa bizantina se encontre enterrada em Portugal sem que ninguém lhe dê pela falta.
 
Temos também a honra duvidosa de ter em Lisboa a sepultura de Fielding, o autor de «Tom Jones». Duvidosa não pelo senhor, mas pelo preço que damos à sua memória. Segundo um cronista português, o rei Ladislau Jagellon ter-se-ia refugiado em Portugal depois da sua derrota pelos turcos em 1444. A avaliar pela experiência dos reis Carlos Alberto no século XIX e Humberto no XX, ou do imperador Karl e a imperatriz Zita, Portugal parece um refúgio digno de reis e príncipes. Mas pergunto-me se não será por eles saberem que aqui serão esquecidos.
 
Não sei quem seja esta Vatanca, nem posso asseverar que seja uma Vatatzes. De uma coisa tenho a certeza. Da pouca curiosidade portuguesa em perceber das ramificações da sua História. Os cultores da glória pátria preferem um assento estreitinho a vistas largas. E nós vamo-nos esquecendo de fazer perguntas.
 
Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Para que serve a tradição?

Como de costume apanho no espaço público frases que dizem muito mais que algum dia o seu locutor poderia imaginar. Uma adorável criatura com perfil de maçaneta, deputada nas suas horas, afirma: «Não gosto de tradições». Do que ela não gosta serve-lhe de critério para a vida, mas julga – temerário da sua parte – que tem de ser critério para a dos outros.
 
No que me respeita, nunca respeitei uma tradição apenas por o ser. Há tradições repugnantes, selváticas, medíocres. Nada na vida humana é destituído de grandeza, nada de degradação.
 
O que a pobre criatura, que em tempos defendeu que os chouriços pendurados eram uma tradição, tal como os crucifixos (o que ela associa a pendurezas diz algo das suas carências), não percebeu é que a tradição é algo de inelutável e, mesmo, para nosso contragosto, de positivo.
 
Vejamos.
 
«Fgtghhdjlan gdfdf ghhts nmmf». Ficou confortado o leitor com tal frase? Porque não? Talvez não a perceba? Pensemos porquê... Exactamente. Porque não se encontra na nossa tradição comum. Criei uma linguagem só minha e por isso nada do que digo é percebido pelo meu interlocutor. Sem tradição comum não é possível comunicação. Afinal, um infante português que fosse atirado para a China seria um fluente falante de chinês e nada saberia de português. Que mudou? Foi imerso numa tradição diversa.
 
Primeira conclusão, portanto: sem tradição não é possível comunicação.
 
Mas vamos mais longe. A pobre coitada usa telemóvel, computadores, vai à televisão (bem sei, o nível de acessos não é muito exigente). Não gosta de tradições? Então que não use nenhum destes meios técnicos, porque estes resultam de uma tradição milenar europeia de matemática, física, engenharia... Use o seu corpinho sempre que quiser transmitir uma mensagem e gargareje. Ande a pé, não use transportes, abdique de todos os meios técnicos, deixe de viver numa casa, e passe a viver nua (longe de nós para não sofremos do horror).
 
Segunda conclusão: a deputada em causa tem de usar as suas pernas e andar em pelota – para nosso horror.
 
Mas a verdade que que os conceitos que usa, mesmo que em modo menor, resultam de milhares de anos de pensamento, filosofia e teologia europeus. A ideia de contradição, de antecedentes, de causa e efeito, de congruência, de conceito, de conclusão... Nenhuma das ideias é tão óbvia quanto nos aparece. Muitas delas levaram milénios a estabelecer-se. Quando vemos a forma de pensar de Homero (e bem sabemos que o senhor – ou senhores – estava bem longe de ser burro) bem vemos como, mais que os seus valores, a sua forma de discursar sobre o mundo é muito distante da nossa. A sua tradução existe desdobramentos e contorções do discurso para que pelo menos algo do que ele disse nos seja perceptível.
 
Terceira conclusão. A nossa deputada que não gosta de tradições nada quer a ver com um discurso coerente e estruturado transmitindo um significado.
 
Lembro mais uma vez. Se há pessoa que se agasta com tradições só porque o são sou eu. Talvez por as conhecer melhor que a senhora deputada, bem sei dos seus podres (dos das tradições e dos da deputada, feliz anfibologia). Mas por isso mesmo sei como são inevitáveis indispensáveis e o que lhes devo.
 
A senhora deputada mostra em suma – sejamos conclusivos – que não quer comunicar, que apenas usa as suas pernas e se nos apresenta em pelota e que nada do que diz tem significado. Nova Eva primordial, teria sido destino bem diverso o da humanidade fora ela a original. Adão não a teria tocado, e teríamos um futuro sem pecado original, mas também sem humanidade.
 
Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A insignificância de um gesto tardio

Voltei a Cuba 22 anos depois. Tinha lá estado durante três semanas numa reportagem sobre a oposição a Fidel, dentro da ilha. Levara uma mala cheia de literatura anti-castro e uma lista de cubanos bravos e teimosos que não desistiam da democracia improvável.


Nesse tempo, secavam as verbas da União Soviética e o embargo dos Estados Unidos apertava a níveis que pareciam insustentáveis. O Regime racionava comida e combustível. E defendia as bandeiras da educação, da saúde e da independência como cantil para a travessia no deserto a que chamava «período especial». A Igreja passava a ser tolerada pela obra social e abria-se o caminho para o turismo. Mas sem infecções capitalistas para o Povo.

À saída do avião, fui recebida por um bafo de ar quente e um soldado forrado de armamento. Fiquei no Havana Livre, o quartel de Fidel na Revolução de 1959 e andei pelas casas dos cubanos mais ilustres e desfavorecidos. A reportagem foi capa e conteúdo de toda a revista de O Independente. Estávamos em 1991 e, a par da falência do sistema comunista, havia combate político.

Agora o tempo estava mais ameno e quem me esperava à saída do avião era um grupo de funcionários solícito que apenas quis ver o passaporte, sem carimbar. O Havana Livre foi remodelado e, do tempo da revolução, sobra apenas uma parede com imagens dos soldados sentados no chão com um desenho dos anos 50, entretanto apagado. Um desconsolo.

Há itinerários e praças de Havana recuperados mas a mancha do Património Mundial permanece em pré-ruína. Nos resorts toca-se agora, sem pudor, a música/hino dos dissidentes de Miami: «Quando sali de Cuba, dejé mi vida, dejé mi amor; quando sali de Cuba dejé enterado mi coraçón». Com a mesma indiferença, o homem do táxi leva no rectrovisor um tira-cheiros com a bandeira dos EUA. «Não faz mal?», pergunto. «Ninguém liga», responde. As ruas enchem-se de canadianos, russos e chineses. O Floridita já não é intransponível pelo preço. Nem o dólar e o consumo, para os da terra. Estão autorizados restaurantes privados que usam palácios a cair como cenário de luxo. Há mais carros novos e as velhas «banheiras», que então tinham 30 anos, parecem funcionar melhor com 50, como se fossem mulheres bem recauchutadas. O Turismo massificado mina a politização do Povo. Torna a ditadura e o embargo numa brincadeira dolorosa de gigantes agastados. E faz de Cuba apenas uma peça de leilão na geo-competição do turismo.

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sábado, 7 de dezembro de 2013

MANDELA 1992


Foi há 21 anos. Mandela tinha sido libertado mas não eleito. No terreno, travava-se uma nova batalha: entre pretos do Inkata, do ANC e outros. A Mulher de Mandela estava acusada de instigar à violência, de raptar e espancar adolescentes desavindos com a sua causa. Também falei com ela. Triunfalista. Sem fixar o olhar. O seu coração já não estava com Mandela.Tirando um punhado de Boers, que treinava a autodefesa num deserto perto da Namíbia, os brancos opressores passavam agora por ser o seguro de vida para uma gente que não tinha condições para se entender. Afinal, a África do Sul sempre foi uma colecção de tribos guerreiras que ali coincidiu. Afinal, para que servia a libertação de Mandela? Nem a anterior decisão de recusar a libertação condicionalmente exigiu tanto de um líder como este período do início da década de 90. E aqui só Mandela pôde valer. Como? Impôs perdão na vingança; verdade, na reconciliação e determinação numa agenda contaminada por violência de origem difusa. Uniu com o voto, o desporto e o exemplo do seu sorriso. Bem haja. 

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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Camões e a gratidão

Não sou um camonista. Nunca o fui. A minha erudição sobre Camões está bem longe de ser recomendável e digo-o sem orgulho. Com pena minha, muita da erudição nacional que se fez a propósito dele é tão enfadonha, tão empoada, que me faleceu a vontade de o estudar.
 
Não menos mau que isto, o tipo de elogios que vejo fazerem-se a Camões pelos seus seguidores nacionais é frouxo – ou enfático, o que vem a dar no mesmo.
 
Camões, o maior poeta português... Quantas vezes vimos em dissertações escolares esta frase temerária dita por quem não conhece todos os outros poetas e por isso se atreve a fazer juízos comparativos sem conhecer os comparandos? Português? Porquê essa limitação? Desde Schlegel a Audrey Bell e Winckelmann muitos terão celebrado a imensidão de Camões, a sua natureza única de poeta verdadeiramente épico da modernidade. Para não esquecer a lírica, que esmaga de longe a de Shakespeare e Ronsard.
 
O epíteto de português diminui-o, não por ser insultuoso, mas porque limita a sua grandeza. Camões é grande em qualquer parte do mundo...
 
Não sendo camonista, apenas posso falar como amador. Só há pouco tempo acabei de ler a obra de Wilhelm Storck feita no fim do século XIX sobre a vida de Camões. Nela se conta a história de um fidalgo alemão que, ao ver o abandono do poeta pelos portugueses, se prestou a levar os seus restos para a Alemanha, onde seria mais reverenciado.
 
Não era raro noutras épocas ver este tipo de galanteria. Mais que galanteria, de profundo respeito e horror pelo abandono da grandeza por povos ingratos. Um Malatesta, ao ver que os turcos dominavam a costa grega em que estava sepultado Plethon, fez uma expedição para resgatar o seu corpo e levá-lo para a Itália, onde seria mais venerado.
 
O tal fidalgo alemão devia ter sentido que os portugueses eram como os turcos. Não merecedores de ter o corpo de Camões por o terem esquecido, abandonado, não lhe darem a veneração devida. E tinha razão. Arrisquemos ofender as almas sensíveis, mas em boa verdade até ao século XIX o corpo de Camões foi deixado ao esquecimento, sem honras merecidas.
 
Talvez se julgue que estou a falar do passado, que hoje em dia somos mais respeitadores. Não. Basta pensar num cemitério próximo da Estrela em Lisboa onde está sepultado Fielding, um dos grandes escritores ingleses, que fez um dos maiores sucessos do século XVIII, o bom do «Tom Jones». Por azar dele, morto em Portugal e ninguém se lembra de que ficou em Portugal uma glória das letras inglesas. Se nem Camões foi bem recebido, que poderia esperar o pobre britânico?
 
Storck, a propósito de Camões, lembra que D. Sebastião não teria sido assim tão forreta, e que a tença que recebeu era bastante substancial. Não era mercê de miséria ao contrário do que se disse. Seja; não tenho meios para contestar tal coisa e posso mesmo acreditar. D. Sebastião dizimou vários dos meus antepassados, pode ser muito criticado, mas essa crítica não lha farei.
 
A questão é a de saber a importância que o povo lhe dava. Percebe-se que uma pequeníssima minoria de portugueses lhe reconheciam o verdadeiro valor. Pequeníssima. Que a glória internacional lhe veio próximo da morte, ou pouco depois dela, com Cervantes a chamar os Lusíadas de «o tesouro do luso» e quejandos.
 
Falo de povo? Estou a ser injusto. A maioria do povo, ontem como hoje, embora em graus diversos, está preocupada com a sua sobrevivência, e faz muito bem. Não têm os artistas e pensadores o direito de o criticar se não lhe melhoram a vida. O povo pensa primeiro em alimentar-se e aos seus filhos e faz senão bem. Tivera eu fome também faria o mesmo. O discurso lamechas que dá um valor metafisico à arte perante quem tem fome é geralmente inspirado pela musa pedinchona e egotista.
 
Não, talvez devesse falar das elites oficiais. Na época (falo só dessa época?) Camões morreu ignorado da imensa maioria da elite portuguesa. Os bons dos lentes de Coimbra andavam preocupados com as suas publicações, que de públicas o esquecimento fez secretas, com as suas grandes elucubrações, tão grandes que se lhe perdeu o rasto. Em vez de teses faziam um imenso rol de lavandaria. É natural que a lavadeira seja esquecida depois de entregue a roupa. A corte andava com outras preocupações, políticas estas. Não interessa muito saber as razões. Mas tiveram dado valor a Camões assim poderiam tê-lo acolhido, festejado, celebrado, admirado. Não foi o que aconteceu. Em suma, Camões não tinha importância para quem hoje em dia não a tem nenhuma.
 
Se D. Sebastião foi ingrato e avaro na sua tença? Dizem que não. Acredito. O conforto que teria merecido não o recebeu. Seria um esbanjador? Talvez. Sabemos como Wagner era insaciável, embora duvide que Camões tivesse fome de luxo no mesmo grau. Talvez fosse apenas inepto com a gestão da sua vida.
 
Os maiores elogios que vejo em relação a Camões vêm de bocas estrangeiras. Já o salientei. Os elogios portugueses são apequenados, circunstanciais, enfáticos, no fundo auto-elogios, porque pretendem fazer verter sobre toda a nação portuguesa a glória que é só dele.
 
Dizem que devemos ter orgulho de Camões. Não o diria. Diria antes que deveríamos ter vergonha. Não dele, mas do que lhe fizemos, e do que fazemos todos os dias. Esquecemo-nos que é graças a ele que pertencemos a uma das quatro línguas que se podem orgulhar de ter epopeias em sentido próprio. O grego com a Ilíada e a Odisseia, o latim com a Eneida, o sânscrito, com os Mahabharata. E a única língua viva que se pode orgulhar de ser uma língua épica, plenamente épica. É uma dívida que não se pode nunca pagar. E uma lírica que faz empalidecer muita da imensa lírica feita por outros povos.
 
Camões não envelhece. Por isso não gosto de dizer que Camões é um grande poeta português. É um grande, um imenso poeta: ponto final. Redimirmo-nos em relação a ele não é reparar o irreparável – nada mais podemos fazer por ele, embora muito possamos fazer pela sua memória – mas prevenir o dano futuro.
 
Estaremos atentos para o talento? Para o reconhecer? Para o respeitar? Para o recompensar? Para nos sentirmos privilegiados por lhe sermos contemporâneos? Se respondermos positivamente a estas questões não reparámos Camões, mas ao menos evitamos mais um dano em relação à grandeza que surja. Não limpamos cadastro, mas ao menos evitamos a reincidência. Mas, para ser franco, não vejo nada que me mostre que os portugueses seguem nesse caminho. País de lentes, peritos, e comités de sábios, tornam as honras académicas todas elas fúteis porque banhando sempre figuras menores. Camões não foi por elas tocado, também não foram elas pelo poeta benzidas.
 
A conclusão talvez seja melancólica ou desalentada. Que importa? Sobra apenas uma questão. Estaremos preparados para reconhecer, verdadeiramente reconhecer o génio? Se a resposta for negativa isso apenas diz sobre como a pobreza nos domina ainda e sempre. E até os ossos de Camões são superiores ao nosso quotidiano. Entre uma literatura nada-morta, espasmódica e esguichante e Camões estou mais próximo de Petrarca que falava com os seus mortinhos e a quem eles falavam. Mais vivo Camões mil vezes morto que vivos os apenas adiados na morte.
 
 
Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 12 de novembro de 2013

Abertura ou ambiguidade?


António Guterres convidou o Grão Mestre da Maçonaria e o Padre Victor Melícias para apresentarem amanhã a sua biografia. Como bom crente, faz o pleno: não tem aversão aos homens do avental e mantém-se católico. Politicamente, a escolha também apresenta uma aritmética adequada a um cristão socialista. Mas não se trata aqui de abraçar a humanidade sem exclusões sectoriais. Que católico quer um Presidente que escolhe o líder de uma sociedade secreta hostil para o apresentar? O que é que isso quer dizer? E que maçon confia num discípulo de Cristo que, na hora H, pode invocar objecção de uma consciência que lhe é adversa? Os poderes do Presidente da República no nosso sistema constitucional não comportam mais ambiguidades.

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