segunda-feira, 18 de março de 2013

A credibilidade conhece resultados que as previsões desconhecem



Victor Gaspar não é astrólogo, como diz Marcelo Rebelo de Sousa. Por isso, não pode «adivinhar as previsões». Como ninguém pode. Ontem mesmo Jorge Jesus dizia depois da vitória do Benfica: «Sou Jesus mas não sou bruxo!».
O vício está nesta ideia, que veio das empresas para a política, de governar para objectivos quantificáveis. O que é difícil, mas possível, numa unidade fabril ou numa nota de encomendas não se verifica num País, integrado numa União Política e Monetária que, por sua vez, opera num mundo global.
Victor Gaspar é um excelente técnico e um político ímpar porque consegue estabelecer um rumo e ter a coragem de o prosseguir, dando sentido aos sacrifícios dos que percorrem esse caminho. Consegue assim - não imediatamente os índices e percentagens que todos desejariam - mas uma realidade igualmente tangível, embora menos visível, que é a credibilidade.
Com ela se baixam as taxas de juro. Com ela se alcançam novos prazos para empréstimos. Com ela se concluem negociações (ao contrário do que acontece na Grécia).
Conclusão: a credibilidade dá mais resultados do que as previsões.



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Entre os bem-amados


Estou feliz com a eleição do Papa Francisco mas incomoda-me o contraste que se procura estabelecer quando o elogiam. Parece que, finalmente, vamos ter um Papa simples, amigo dos pobres, despojado das mordomia terrenas. A mesma alegria com a inovação se fez sentir quando João Paulo II foi eleito, em 1978. Bento XVI fica, assim, numa espécie de sandwish de Papas extraordinários na humildade e contacto com os outros.
Seria Ratzinguer menos simples? Menos líder espiritual? Menos digno de ser o novo Pedro? Não creio.
A sua postura nunca indiciou qualquer sentimento de superioridade, apesar de todos o considerarem muitíssimo inteligente e culto. A sua liderança foi livre e firme, como a do antecessor e como a que promete ser a do sucessor. Atacou os males da Igreja de frente e aprofundou o diálogo inter-religioso de forma consequente. Ainda ontem, um líder muçulmano do Irão fazia juz à batalha de Bento XVI pelos mais oprimidos numa entrevista a Nuno Rogeiro, na Sociedade das Nações (SIC-Notícias). E quanto ao despojamento de mordomias, a única coisa que quis levar consigo para os aposentos papais foi um piano e alguns livros, certamente importantes para as mensagens que nos transmitiu.
Sinto-me privilegiada e responsabilizada por me ter sido dado viver um tempo com Papas desta categoria.

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quinta-feira, 14 de março de 2013

Francisco, o companheiro de Jesus



Nasceu argentino, mas tem sangue italiano, como convém ao bispo de Roma.
É Jesuíta e sabe falar as línguas do mundo, sem nunca deixar de falar a sua;
Quis ser Francisco, simples como o de Assis em pleno fausto e missionário, como o apóstolo em horizontes nunca dantes conhecidos.
Reza o Pai Nosso como Ele nos ensinou. Sem se esquecer de Maria.
Viva o Papa!

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terça-feira, 12 de março de 2013

O inefável Vasco




Ele aí está, resgatando a pureza da esquerda que há em nós, o Manifesto pela Reconstrução de um Regime Democrático. Um conjunto de personalidades assina o referido tigre de papel «para um Executivo que governa sem grandeza, sem ética e sem sentido de Estado, dificultando a participação democrática dos cidadãos e impedindo que o sistema político permita o aparecimento de verdadeiras alternativas".
Os autores, para além de homens livres, são assalariados do Estado, o mesmo que terá perdido «o sentido» no dia em que pingou menos para o bico de cada queixoso deste ninho. E, tal como junto das crias famintas, o barulho promete ser ensurdecedor.

Inefável, do latim ineffabillis, adjectivo
1. Que não se pode exprimir por palavras = indescritível, indizível.
2. [Figurado] Encantador, delicioso, inebriante.







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terça-feira, 5 de março de 2013

O que é a tolerância?

O espírito impositivo, normativo e dictatorial dos bem-pensantes tende a cortar o mundo em metades. De um lado há a tolerância e do outro há tudo o resto. O que seja a tolerância está definido por esses benfeitores da humanidade de singelo pensamento e não pode ser objecto de discussão. A sua concepção do ser humano é hirta, inamovível, pétrea. Por sorte o ser humano é infinitamente mais rico do que querem os ditadores da moda. É que não se pode dizer que de um lado há a tolerância e do outro a intolerância. Há muitas formas e muitos motivos para se tolerar e para não se tolerar. Existem mesmo coisas que são intoleráveis. Veja-se por exemplo a intolerância dos tolerantes oficiais.

Acresce que a tolerância é vista como uma forma de superioridade moral, e por isso tem de ser também analisada segundo esse crivo.

“Tula” em sânscrito é balança, esta palavra é prima de”tollo”, suportar. A tolerância é sempre o reconhecimento de um peso. Os outros pesam-nos, as coisas podem-nos pesar, as ideias de outrem pesam-nos. Christophe de Voogd na sua “História dos Países Baixos”, o país com mais experiência na tolerância, lembra que o neerlandês tem três palavras para a tolerância: Verdaagzaamheid, a verdadeira aceitação do outro, Onverschilligheid, a indiferença e Gedogen, o deixar andar, que vai do sentimento de impotência ao interesse económico.

A complexidade da tolerância, que no caso europeu em acréscimo assume teorização imensa durante e depois das guerras de religião (desde Erasmo pelo menos), exige que tenhamos alguma ordem, por forma a ver que coisa é esta que parece dar tanta superioridade moral e civilização a outras culturas que não a europeia.

Para isso temos de distinguir quem tolera, o que tolera, como tolera e porque tolera.

Quem tolera? Só se é tolerante se se tem um referencial absoluto. Referencial através do qual o que está fora dele é mau, ou pelo menos não tão bom. Um relativista puro não pode ser tolerante. Cabe-lhe melhor a indiferença. Quem defende o relativismo das civilizações não defende nenhuma tolerância, mas apenas a indiferença, ou escondido sob o olhar tartufo, o ódio à sua. Por isso quando alguém afirma que é relativista e tolerante ao mesmo tempo, apenas está a praticar desporto de empilhamento de auto-elogios, mas nada fez em coerência de discurso.

O que se tolera? Só se pode ser tolerante com o que não se gosta. Quem se converte ao nazismo não é tolerante com é ele. É simplesmente nazi. Quem admira o Islão não é tolerante, gosta dele. O politeísmo não é tolerante: é apenas absorvente. Quando o romano fala dos deuses celtas dando-lhe nomes romanos faz apenas obra de transposição. Não é tolerante. Quando Alexandre Severo coloca Cristo no seu santuário junto de outros deuses não é tolerante, é apenas sincrético. Quando o muçulmano diz que venera Jesus e Maria porque o alcorão lhe diz para o fazer não está a ser tolerante, mas apenas a obedecer a um comando da sua religião. O espaço possível da tolerância é tanto maior quanto menos gostamos das coisas ou das pessoas. Por isso quando mais se diz que uma cultura tolera muito, mais significa que é vasto o campo de coisas de que não gosta. Quem muito tolera, muito detesta. Se tem razão nisso é outra questão. Mas deve-nos suscitar alguma reserva tanta tolerância.

Como se tolera? O como é sempre um abaixamento do nível de violência possível, na medida em que haja tolerância. Mas não o fim da violência. O como da tolerância exige sempre uma medida e uma comparação – com o que existe noutras culturas ou noutras épocas. A estrela de David amarela imposta aos judeus, criação muçulmana, é considerado símbolo de tolerância quando se passa no mundo islâmico do séc. X, mas de intolerância na Inglaterra medieval do século XII e símbolo máximo de intolerância no século XX. Mesmo que os critérios sejam pouco honestos, a verdade é que o princípio está correcto. O fuzilamento é símbolo de maior tolerância que a morte por empalamento ou pela roda. O problema é que menor violência é conceito relativo. É muito difícil medir até que ponto uma humilhação permanente é menos dolorosa que a tortura física pontual. O indígena africano cujo animismo era tolerado pode ter sido mais humilhado que o que foi morto em combate. Da mesma forma quando a república turca dita laica impõe impostos especiais aos não muçulmanos nos anos 40 do século XX estará a ser mais tolerante que na época do genocídio dos arménios e assírios. A verdade é que a tolerância é sempre uma medida de violência. Por isso é sempre expressão de agressividade, mesmo que minorada.

Porque razão se tolera? Aqui os paradigmas podem ser múltiplos e misturados entre si. Pode haver interesses económicos nisso. Pode-se pura a simplesmente ganhar dinheiro com a tolerância. A praça de Londres recebe católicos e mais tarde muçulmanos apenas por dar dinheiro. Ou então tolera-se o insignificante. Os mazdeístas são tolerados no fundamentalista Irão porque são poucos. Porque se considera insignificante do que não se gosta. Reduzidos a 50 mil os cristãos da Turquia são considerados inofensivos, apesar de ainda estarem longe de serem realmente tolerados. Como se em Portugal houvesse 7200 muçulmanos ou em França 40 mil muçulmanos em vez de cerca de 5 milhões. Nem se daria por eles. Pode tolerar igualmente porque se quer pacificação social. Exactamente pela razão inversa da anterior. Porque geraria conflito não tolerar. A Turquia mal ou bem tolera uma minoria alevi porque corresponde a 25% da sua população. Da mesma forma a maioria hindu tolera a minoria muçulmana porque corresponde a mais de 10% da sua população.

Pode-se tolerar igualmente por necessidade estratégica. Na Arábia Saudita é proibido entrar com um crucifixo ao peito, mesmo que escondido. No entanto, nas bases americanas há capelas. Do que não se gosta é evidente, porque se não goste também, a motivação por que se tolera está longe de ser nobre. Pode-se tolerar por esperança de conversão. A região europeia de mais longa e constante tolerância do judaísmo é Roma, em grande parte porque o papado tinha esperança de conversão dos judeus. Mas hoje em dia muitos toleram o Islão dentro de Europa porque esperam a sua conversão à democracia, à economia de mercado, ao irenismo mole e outras constelações religiosas mais ou menos superficiais em que se baseiam.

Porque se respeita o ser humano apesar de se odiar as suas ideias. Ou porque se admite que a verdade tem uma dimensão dialéctica. É difícil destrinçar a motivações. Pode-se tolerar por fundamentos dialécticos. Se a motivação é dialéctica pode ser de mero jogo, sem nenhuma seriedade, a paisagem humana é mero espectáculo lúdico. Os outros seres humanos são meros instrumentos do seu prazer. Se a motivação é o ódio a certas ideias, mas o profundo respeito pelos seres humanos, talvez a tolerância seja um belo conceito, mas talvez só aqui.

Em suma, a tolerância nasce sempre de um amor ferido, sustentado por um absoluto que aceita viver com o que não gosta diminuindo a sua violência contra ele pelas mais diversas razões. É o vazio da admiração e raras vezes convive com a simpatia e o respeito e apenas abunda onde o relativismo está ausente.

Michael Soubbotnik, um estudioso do pensamento político da Europa Central em arguta observação lembra as profundas afinidades que existe entre a tolerância e a resistência à tirania, porque em ambos os casos as ideias nasceram do apelo à consciência individual perante Deus. Um regime que não admite o direito de rebelião contra si é intolerante por definição. É o que acontece com o actual modelo de democracia que se quer impor na Europa. Entre guerras tolerámos ideologias que queriam destruir a própria democracia, como o comunismo. Hoje em dia contestar uma Europa baseada apenas em critérios moles e meramente técnicos como a democracia, economia de mercado direitos do homem e instrumentalidades quejandas é visto como blasfémia. O príncipe da Idade Média e Moderna admitia a teorização contra o tirano. O actual príncipe suporta-a muito menos. Sinal de aumento da intolerância, e de que apenas o intolerável começa a ter direito de cidade.

Entre a grandeza de um São Bernardo de Clairvaux ou de Santo Ambrósio e a tolerância mole e desistente de alguns dos monges seus vizinhos que não deixaram nada para a História a escolha é simples de fazer. Tolerar o huno às nossas portas muitas vezes mais não é mais que sinal de desistência ou mesmo traição. Não tolerar o indigno, como fez Antígona pode ser sinal da maior coragem. Não tolerar a submissão como fez o príncipe Eugénio de Sabóia pode ser sinal de maior humanidade. Denunciar, recusar o intolerável não é afinal passagem para a irrelevância histórica.


Alexandre Brandão da Veiga



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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O Céu vai cair?


D. Carlos Azevedo é alvo de notícias indecorosas denunciadas por um padre.
A Diocese de Lisboa mais confirma do que desmente.
D. Januário Torgal Ferreira diz que já suspeitava.
A propósito, um padre diz que ser homosexual não é pecado (e não é).
O bispo afirma que o querem destruir.
O Papa resignou.

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Vidas

Ontem visitei cerca de nove centros para a integração de pessoas portadoras de deficiência. Entre nós, há quem viva deitado num puff, mudando de posição durante o dia, para não fazer escaras. São pessoas tratadas com respeito e com estima. O ambiente em que vivem, imóveis, agarrados ao chão, sem esperança nem domínio, dá que pensar. Quem deles cuida tem a cara lavada de frivolidades e queixumes. É gente amável e rija. Nestas doenças, os menos quietos, por vezes, são agressivos. E lá está quem entenda que a vida é assim. Quem sabe que responder é melhor do que perguntar ou do que reivindicar.
Quem disse que era fácil viver? Que bastava abrir a porta do frigorífico para comer. Entrar num carro para ter depósito cheio. Ter braços e pernas para poder andar?
Se nada disto é adquirido, tudo se deve ao nosso trabalho e, para os crentes, à Graça de Deus. Trabalhemos pois, e louvemos, os que podem.



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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Inigma da floresta negra


É à volta do grande lago Mediterrâneo - onde a água é um bem precioso - que nascem as três religiões do Livro: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. A peregrinação, o jejum, a travessia do deserto e todos os ritos ligados à água são comuns a outros credos mas assumem aqui uma naturalidade geográfica favorecida pela coincidência. Às vezes pergunto-me como é que um alemão - com chuva miúda no ano inteiro - se sente pertença de um mundo estranho que lhe é apresentado com encontros junto a poços ou tentações que se experimentam no deserto.
Os portugueses têm a facilidade de entender o Livro no seu elemento Mediterrânico. Começámos há dias a travessia anual do deserto que precede a Páscoa. Será que entendemos o Papa alemão?

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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Quando a violência não é um espectáculo


Não quero saber se Tarantino tem qualidade, humor ou nomeações para os óscares em cinco categorias. Django é quase todo bom mas tem momentos péssimos, que me azedam o filme. O combate dos escravos e, sobretudo, a cena do combatente preto entregue aos cães são apontamentos de aposta na humanidade pelo - 1. Mas o contraste não colhe.
Esforcei-me por retirar estas cenas da delícia destravada de Quentin Tarantino. Os excessos de lama, sangue, humor, romantismo e racismo são um colosso admirável que, como o da Babilónia, cede à primeira cheia nos pés de barro exactamente das cenas em que a violência deixa de ser um espectáculo.

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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Perdidimus Papam

Bento XVI abdicou.

Por muitas vezes e de várias formas mostrei a sua importância. Em muitos campos, mas sobretudo dois. A relação entre a Igreja e o pensamento e a relação daquela com a ortodoxia oriental. Dois temas pouco excitantes para o vulgo, mas essenciais para o futuro da Igreja.

Poucos papas concitaram como este o respeito dos pensadores, dos criadores. Foi um trabalho lento, mas cujos efeitos se vão vendo aos poucos. Ainda menos conseguiram suscitar tal respeito, admiração, e mesmo amor entre os ortodoxos. O que não impediu que entre os protestantes a sua visão cristocêntrica também despertasse interesse.

A importância destes dois aspectos já a referi por muitas vezes, precisamente por em geral estarem escondidos em cantos escuros da actividade da Igreja.

Mas os jornalistas não gostaram. O povo não gostou. Queria mais espectáculo, mais festa. Ao cansaço seguiu-se o desânimo por um ónus que nunca foi desejado e vivido mais como um martírio que um prazer.

Não gostaram de Mozart e da sua disciplina? A sua doçura é demasiado delicada para o vosso gosto? Não terão pois Mozart, mas Michael Jackson, um papa mais colorido a todos os títulos, mas que vos fará dançar noite adentro, que vos divertirá muito mais... Apenas para vos mostrar como se cansam depressa as vossas pernas e que movimento na cabeça não significa abaná-la.

A abdicação diz mais sobre o cansaço de uma época que de um papa. O que virá a seguir será tão menos dotado de doçura quando parecer ter ligeireza.

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Luto por um Papa vivo


O Papa recusa-se a continuar a ser Pedro depois das oito da noite de dia 28 de Fevereiro de 2013. É tão esquisita a notícia que leva tempo a digerir. Sobretudo depois de termos assistido ao pontificado sofrido, agonizante, de João Paulo II. Nessa altura, houve coragem, abnegação e generosidade para permanecer. Agora consigo ver outra forma de coragem, de abnegação e de generosidade.
Era fácil amar João Paulo II, «o bonitão do ski», como lhe chamava o meu Pai. Terá sido mais lenta a aproximação ao tímido, alemão, intelectual Bento XVI. Mas chegou cá.
Foi o Papa que escreveu sobre o Amor; que recuperou a centralidade de Cristo na Igreja; implacável e transparente com os casos de Pedofilia; o Papa que elegeu Portugal como destino pastoral, no curto tempo de que dispôs.
A mim, fez-me sentir a força e a ternura do Evangelho quando, por segundos, comunguei o seu olhar, em Roma. E sei que a sua visita a Lisboa foi decisiva para a estima de muitos portugueses. Para os crentes, a eleição do novo Papa será iluminada pelo Espírito Santo. Como foi a anterior. Estaremos de luto? 

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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Costa's dilemma

António Costa estava quieto, desconfortável mas impoluto na estrada que o podia conduzir à liderança do PS. O Governo PSD-CDS era contestado e falhava o défice 4,5%. Seguro mantinha-se na liderança socialista, desgastante, mas sem grande margem para perder o lugar para Costa. O Congresso do PS seria marcado antes das autárquicas confirmando Seguro que, por sua vez, seria reforçado com a vitória dessas eleições, um pouco por todo o País. Em Lisboa, Costa teria uma mera continuação (habitualmente permitida pelo descontentamento do voto urbano com o poder central) e não uma grande vitória como em 2007 ou 2009. Aos olhos de Seguro, bastava o Governo cair pela falta de acesso aos mercados em Setembro de 2013 para tudo se precipitar a favor da maré cor-de-rosa.
Deu-se o flic-flac.
Seguro, de si, cantou vitórias antes da hora. Disse que o PS seria chamado às urnas nacionais mais cedo do que o previsto. Assustou os pós-socráticos que quiseram marcar a disputa interna a tempo de se perfilarem para o País. Inesperadamente, o Governo voltou aos mercados, oito meses antes do previsto, deu sentido aos sacrifícios e o mandato voltou a ter quatro anos. Mas a gritaria socialista estava instalada sem que ninguém pudesse dizer que não tinha querido clarificar, isto é, questionar Seguro.
Costa - de quieto e impoluto - passou para uma situação ainda mais desconfortável. Não foi ele quem avançou mas sim os ainda maculados de Sócrates. Não foi Seguro que propôs o Congresso mas vai marcá-lo juntando a máquina do partido à vitimização pela traição dos barões. E, assim, uma das melhores reservas do PS para governar o País no dia seguinte será engolida por se calar ou por reagir. Sem poder agir. 

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O herói

Na memória directa e imatura que tive dos militares em tempo revolucionário, surgiam Spínola, Salgueiro Maia e Pinheiro de Azevedo como os bons protagonistas. Não considerava Otelo, logo estragado pelo COPCON, ou Vasco Lourenço, demasiado falador. Pensava o pior de Rosa Coutinho. Melo Antunes e Costa Gomes pareciam ser carne e peixe, conforme os momentos. Galvão de Melo prometia e, de Madrid, vinham notícias de um grupo em torno de Alpoim Galvão e Kaulza de Arriaga que nos havia de salvar do comunismo.
À parte disto, grosso modo, havia a maralha barbuda do MFA e as Assembleias selvagens que logo se arrepiavam  perante o confronto directo, como registou Adelino Gomes, no 11 de Março. Em África, cedia-se o passo ao Império Soviético e Timor parecia uma Nova Goa, de onde saímos sem honra nem gloria. 
Nessa memória juvenil sobre a galáxia militar do País, Jaime Neves surgia como um caso àparte. Era uma esperança que viria do Norte (já não sei porquê e agora não quis actualizar a memória no google). Incorruptível. Valente. Granjeador dos melhores, que o seguiam. Na verdíssima intuição, foi nele em quem confiei, como valor seguro na luta armada contra o jugo do Leste, por injusto que isso possa ser para Eanes, para o grupo dos Nove, também com Melo Antunes ou Victor Alves. (E é injusto, como qualquer investigação sustenta. Mas tento recuperar o olhar de então, sem os filtros do conhecimento posterior).
Mas Jaime Neves tinha a toda a colecção dos méritos, pessoais e militares. Gosto de quem arrisca para fazer o que é preciso, pelos outros e pelo País, sem dividendos. E continua com um ar normal.

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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O bolo, a cereja e o apetite

Défice de 2012 abaixo de 5% do PIB.
Interesse dos mercados em Portugal 10 vezes maior do que o pedido.
Juros do empréstimo abaixo dos 5%.
MNE agradece aos portugueses. O PS diz que o mérito é do BCE.
Tózé devolve perguntas, na ausência de resposta. Dentro e fora do PS.
Costa divide-se entre a sua hora e a das autárquicas.
Francisco Assis estava no carro com a condutora 2,4.
A cereja e o bolo são um só.


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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Quem são as minorias?

No uso corrente “minoria” parece ser usado num sentido quantitativo. Uma minoria é sempre algo que está em menor número. Será assim? É que, quando se referem as mulheres como uma minoria mostra-se que não é de número que se trata. Não se quer falar dos fracos, porque esse conceito lembraria demasiado uma linguagem cristã, e por isso se invoca o conceito de minoria.

Mas é realmente dos fracos que se fala? Uma minoria estatística pode deter o poder. E aí já não se fala em protecção das minorias. Maioria ou minoria estatística, a coisa não releva. Não é de números que se fala.

O conceito de minoria, tal como é usado, não se refere a uma realidade estatística, mas a um desequilíbrio de poder, aos fracos. A nossa época, pudibunda e com pretensões de legitimação “científica” usa um conceito que traz alusões à dimensão quantitativa para falar de problemas de valores. Falar dos fracos seria falar de pessoas concretas, e de uma situação sentimentalmente carregada. O conceito de “minoria” dá um estatuto aparentemente “objectivo”, “científico”, ao discurso. Afasta a memória cristã e sossega as consciências por parecer ser um conceito universal, neutro religiosamente.

Esta pudibunda limpeza da linguagem ocorre em França e é exportada para o resto do mundo. A caridade cristã, conceito bem mais complicado que o que é suportável pelos analfabetos (a “caritas” daria um tratado para ser analisada), é em primeiro lugar afastada pelo conceito de fraternidade. Mas, sendo a fraternidade ainda demasiado cristã, a linguagem tecnocrática, saint-simoniana, de meados do século XIX criou o conceito de solidariedade para depurar as almas.

As “minorias” surgem no mesmo movimento em que, se por um lado se desvaloriza a ciência europeia, ao mesmo tempo se aproveitam os escombros do seu prestígio para legitimar um discurso.

Parece que a minoria se identifica a fraqueza. Mas não é assim. Porque o espírito de solidariedade é selectivo. Fariseus cumpridores de rituais, obcecados com a pureza ritual, os defensores das minorias não pretendem proteger todo o tipo de fraqueza. Há fracos oficialmente atestados. Burocráticos carimbadores da vida humana, os defensores das minorias apenas aceitam como tais as que recebem um certificado de qualidade de acordo com critérios mais ou menos definidos.

É que os defensores das minorias praticam habilmente a exclusão (uma realidade que condenam, mas praticam). Senão vejamos.

A nobreza foi sempre uma minoria estatística, embora forte durante milénios. E no entanto hoje em dia é fraca. Representa uma cultura que formou a Europa, que conforma ainda hoje em dia o nosso gosto, o nosso modo de viver. Tem uma subcultura própria e em acréscimo está em vias de extinção. Minoria estatística, enfraquecida, em vias de extinção. Teria tudo para receber o carimbo dos defensores de minorias. E no entanto, não apenas é ignorada por eles, mas é mesmo objecto da sua chacota.

Da mesma maneira as pessoas profundamente inteligentes e criativas são uma minoria, hoje em dia afastadas dos círculos públicos, destituídas de real poder, sem organização própria, e francamente, cada vez mais clandestina. O público em geral cada vez conhece menos os criadores, os investigadores. Berthelot era uma glória em França, Pasteur um mito no século XIX. Os seus descendentes intelectuais são quando muito personagens mediáticas, por vezes objecto de simpatia, mas não de devoção e ainda menos de idolatria. E no entanto os defensores de minorias não pretendem proteger esta minoria estatística, enfraquecida, e cada vez mais objecto de exclusão.

As minorias cristãs em alguns países muçulmanos, nomeadamente na Turquia, no Sudão, na Palestina, não o preocupam. E no entanto são minorias estatísticas, fracas, oprimidas e expulsas.

Repare-se que não digo que têm de ser objecto de protecção especial a nobreza ou os criadores, ou mesmo os cristãos orientais. Não é isso que agora importa. De certa forma é um alívio saber que se não é protegido por este tipo de pessoas. O relevante é perceber que a retórica dos defensores das minorias apoia-se em bordões que não correspondem às suas reais ideias. Nem a minoria estatística, nem a fraqueza, nem o perigo de extinção, nem a exclusão como tais os preocupam. Não são esses os critérios como vimos.

Quais são então?

Para começar, uma aparência. Uma aparência de menoridade estatística, ou de fraqueza. Recolhem habilmente, entre os sentimentos generalizados, as imagens do que é minoria, ou pretendem formar essas imagens. O defensor de minorias trabalha com aparências.

Em segundo lugar, joga pelo seguro. Não se atreveria nunca a defender a aristocracia ou os criadores, porque tem medo do ridículo. Como em geral é recrutado de pequena burguesia vive de aparência é certo, mas também do medo do risco. Herdou dos seus antepassados o medo de perder uma posição de superioridade relativa muito frágil. O pequeno burguês é o que vive sempre em risco de se proletarizar. Não pretende proletarizar a pouca superioridade moral que atingiu pela defesa das minorias e por isso não arrisca muito.

Em terceiro lugar é pudibundo. O objecto de protecção tem de ser ritualmente puro nesse aspecto. Sendo de extracto familiar de pequenos burocratas está habitado ao cheiro da tinta de carimbo, ao processo cosido, ao guichet bem enquadrado. Verifica se o fraco não tem certas ideias perigosas (liberal, por exemplo), ou vem de certas instituições consabidamente “conspurcadas” (igrejas cristãs), ou se não tem um passado de glória europeia (nobreza). Um exemplo típico é o de Carl von Ossietsky. Primeira vítima do nazismo, tinha o desagradável estigma de ser liberal e aristocrata e por isso não se encontra celebrado pelos defensores de minorias.

Em quarto lugar, como é um cultor inconfessado da legitimidade científica, tenta abstrair de todo o sentimento. Minorias que se distingam pela sua bondade, pela sua entrega ao serviço dos outros são muito menos atraentes que minorias cujas culturas violem a ordem moral estabelecida. Nada melhor para uma minoria de circuncidar mulheres ou as lapidar, ou praticar o homicídio passional das mesmas. Os factos são veementemente condenados, mas as culturas são inversamente enaltecidas. De preferência, a minoria deve ser destituída de diferenciação sentimental. Mau leitor de Nietzsche, ou melhor das suas versões Vulgata, gosta de se sentir um experimentador científico de valores. Nos seus genes estão poucas viagens e por isso procura dourá-los com uma aparência de elasticidade que não possui.

Em quinto lugar é um perseguidor da diversidade. A diversidade é incontrolável. Pressupõe um paradigma comum, mas uma ramificação dos seus desenvolvimentos que pode gerar resultados contraditórios. Ora o defensor das minorias detesta paradigmas comuns, porque nunca foi capaz de absorver nenhum em profundidade. E morre de medo da imprevisibilidade. Pequeno burguês de alma, prefere a calma burocrática do seu escritório em que carimba como minoria o que o conforta ser tal.

Em suma, o defensor das minorias nessa qualidade é um reaccionário. Quer impor aos outros uma ordem social multicultural... porque ele assim o decidiu. Quer uma ordem previsível, colorida, mas previsível como as cores de um arco-íris. Detesta as infinitas diferenças entre os seres humanos e por isso quer tipificá-las. É um cultor de heróis, precisa de mitos, e por isso inventa-os nas minorias. Escritor de hagiografias, doura as Histórias das que qualifica como minorias.

Pequeno burguês de alma e origem prefere viver num mundo previsível. Como o mundo real não o é, inventa um à sua maneira burocrática, cheio de cores, mas todas elas ordenadinhas como dossiers numa repartição. Tenhamos dó dele. Reproduz padrões aprendidos em casa quando julga estar a inovar. E a sua casa tradicionalmente tem divisões curtas. E fica em bairros pouco frequentáveis.

Alexandre Brandão da Veiga













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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Abaixo de Pilatos


A pontaria de Cavaco Silva está focada no rendimento máximo garantido para o seu próprio percurso. Por isso, o farol de uma Nação em crise se indigna com a insuficiência da sua pensão. Por isso, faz de cada silêncio, de cada ritmo, e de cada palavra, um pequeno alicerce para a solidez do pedestal alcançado.
Por isso se escuda no absurdo salomónico da divisão que o Rei usou para testar a insensatez da falsa Mãe e não para serrar a criança ao meio. Assim, discordo de Pedro Lomba hoje, no Público, quando diz que «Salomão resolvia à força o problema do julgador incapaz de julgar». Ora o sábio Rei  não quis resolver o seu problema mas sim provocar a melhor escolha. E não se exclui dela.
Pelo contrário, Cavaco serra. Divide. E atribui a decisão política ao corpo estranho judicial que é o Tribunal Constitucional. Há duas horas que cada partido no Parlamento se entretém a capturar a parte da argumentação de Cavaco que lhe serve.
O Chefe de Estado tem uma legitimidade directa gizada pela Constituição de 1976 para ser contrapoder, na memória mal arrefecida do poder unipessoal da Longa Noite. Podemos discutir se o semi-presidencialismo é útil ou perverso para a Democracia. Mas Cavaco nem sequer o usa como contrapoder. Não tem essa generosidade nem corre esse risco. Usa-o como manutenção do seu próprio poder. Não serve o País. Procura a coreografia que o sirva a si próprio.
Promulgar o Orçamento no último dia é forjar uma inquietude exterior que o confirme como fiel da balança. Enviar o documento para o TC é lavar as mãos sobre uma decisão que lhe deveria pertencer politicamente, certamente não isenta de estragos pessoais. Falar simultaneamente da espiral recessiva e da imperiosa obediência ao Memorando é dizer tudo, e o seu contrário.
Salomão escolheu. Cavaco lavou as mãos. E a consciência. Viva o Rei!


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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Fragmentação e planura

Se bem atentarmos no espectáculo que o espaço público nos apresenta vemos que duas das suas principais características são a fragmentação e a planura. A que se opõem a fragmentação e a planura? À unidade e à hierarquia. Tomemos fôlego e vejamos o que significa e que implicações tem este quadro.

A fragmentação ocorre por força da especialização. Como os operários de uma linha de montagem clássica, trabalham apenas numa pequena parte do processo produtivo. Vemos um exemplo na música erudita contemporânea. Dividida em mil movimentos diferentes os especialistas de uma corrente pouco sabem sobre a corrente vizinha. Na arte em geral o mesmo se passa. E quando alguém diz que é especialista em arte contemporânea podemos quase ter a certeza de que não aprendeu grego e por isso leu pouco de Platão.

As correntes culturais... Enfim não seria grave. Mas se tivermos em conta que a cultura, não em sentido antropológico onde tudo é cultura, mas em nobre acepção, onde é difícil entrar e mais ainda criar, é o espaço por excelência da experimentação da vida humana e da sua expansão, este estiolamento começa a ser preocupante. É que, quando as experiências se fragmentam pela especialização cada vez mais obsessiva, cessa a comunicação profunda.

Entra aqui em cena a planura. É que não sendo possível a comunicação profunda entre os fragmentos, a comunicação reduz-se à banalidade, ao exótico, ao fenómeno de feira. Eliot, inglês de origem americana, criticava as universidades americanas de excelência, não por não permitirem estudos profundos, mas por não criarem uma cultura comum. Cada universidade, cada professor, tinha um currículo diverso. Como resultado, era impossível criar um espaço de comunicação comum em profundidade.

Quando todos têm uma formação matemática confluente, quando todos leram Homero, quando todos leram Aristóteles e Platão, quando todos acedem aos mesmos conceitos basilares de cultura, podem partir de uma base comum para a discussão no espaço público. Quando umas pessoas estudaram em profundidade – admitamo-lo apenas para efeitos de demonstração – a teologia de Mestre Erckhart, outros a respiração alternativa de uma estirpe de fungos, outros ainda o método de Monte Carlo aplicado à econometria, e nada mais, ou pouco mais, quando isso acontece de forma singela, sem que haja estudo profundo das bases da cultura, todos os desvarios são possíveis, todas as pretensões de originalidade incontroláveis.

Sobretudo, sobretudo, de que podem falar uns com os outros? Do tempo, do futebol, das crises governamentais. Banalidades, mais uma vez.

O espaço público pode ser um espaço de discussões profundas quando existe uma profunda cultura comum. Não se enganava o lavrador antigo sobre as épocas de semear e colher, nem sobre o ritmo da missa. Não se enganava a elite europeia até ao século XIX sobre o pensamento de Horácio ou as lições de Euclides, ou o dogma da santíssima trindade. E muito menos sobre o que fossem as fronteiras da Europa.

Neste espaço de planura tudo se diz impunemente, com ou má fé, com ou sem razão, mas sempre sem fundamento. O controlo é feito não no espaço público, mas nas raras vezes em que pessoas dotadas de conhecimento e sentido crítico chamam de burros aos burros, de desonestos aos desonestos.

Num mundo de especialistas, ou seja, de leigos em quase todas as matérias, o discurso público profundo fenece e vive como uma bacante sem controlo, atirando-se às nossas caras sem freio nem condenação pública.

O que se opõe à fragmentação e à planura? A unidade e a hierarquia. Existe unidade quando flúi pelo espaço público um discurso com sentido, com fundamentação. E a hierarquia impõe critério, em que o dislate é condenado e o burro é repelido. Não são precisas leis que o impeçam de falar, mas é o ridículo que o cobre publicamente. Como não há noção de hierarquia, entre o melhor e o pior, os burros comprazem-se, vivem felizes numa época em que podem ser presidentes da república, primeiros-ministros, dirigentes de empresas ou de grandes organizações. A subida da plebe foi justificada pela meritocracia, que tem mil defeitos, mas qualidades inegáveis. Hoje em dia assistimos à subida da camada mais baixa de todas. A dos destituídos, sejam eles comentadores políticos, sejam políticos, ou líderes de opinião.

O burro foi entronizado, e quanto mais é chamado para opinar, mais satisfeito se encontra por ter voz activa. Invoca a liberdade de expressão como defesa contra a inteligência e usa como arma de assalto contra ela acusações pré-formatadas como a xenofobia, racismo, fascismo, falta de abertura e outras quejandas.

O burro sabe que preenche um vazio, sabe que não será perpetuado pela legitimação. Por isso vive uma vida entrincheirada nos mesmos lugares comuns e usa como muralha o insulto lesto e infundamentado.

Abomina a hierarquia, porque sabe que em qualquer critério estará sempre no seu mais baixo grau e detesta a unidade porque o obriga a fundamentar. Perante um público que conhece minimamente bem os mesmos tópicos argumentativos, não se pode atrever a dizer despautérios, porque sabe que seria imediatamente apanhado. Delicia-se por isso com o espaço dos especialistas, fragmentado, porque apenas se tem de calar numa matéria perante especialistas, mas estando perante outros burros, é livre para falar sobre tudo. Como já não tem medo da prisão, benesse que lhe foi dada por gente inteligente e generosa na História, apenas teme que por uma esquina lhe passe alguém inteligente que o denuncie. É uma vida acossada a dos burros que vivem na planura.

Vida acossada potencialmente, mas hoje em dia triunfante. Sabe que a sua raça enche hoje em dia o espaço público e reza ao deus da fragmentação que lhe deu a bênção da planura onde nada é condenado.

Por isso podemos ouvir burros dizer que a guerra ao Iraque se fez por causa das armas químicas, da ligação ao fundamentalismo, da necessidade de dar democracia, e outros burros que não se deve fazer por amor abstracto à paz. Por isso o burro pode dizer que a Turquia é um grande país europeu, ou que a Europa precisa de um país islâmico (como animal de estimação, pergunta-se) sem que ninguém mande o burro ir estudar para a escola ou mostre que apenas é servidor de interesses americanos.

Uma manada de burros assentes na planura vigiando para que se mantenha a fragmentação que não os confronta, não os julga, não os denuncia. Tudo está fragmentado, tudo se quer fragmentado. Assim temos o espaço público. Onde todas as inanidades podem ser ditas, onde qualquer barbaridade pode ser proferida sem castigo. A Turquia é europeia, a Europa não tem fronteiras, os americanos são nossos amigos, a Europa é multicultural. Vicejando pela impunidade querem arrastar os outros para a mesma monotonia que constitui as suas almas. Terapêuticas? O riso, o desprezo e a publicidade. E sobretudo a condenação pelos povos.


Alexandre Brandão da Veiga















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A esquina do tempo

Não se devem humilhar os vencidos. Mas o estrago que os estivadores fizeram com a greve de 102 dias justifica que se lhes dê um empurrão até ao último degrau da escada. Foi uma batalha civilizacional. Entre os que querem trabalhar e os que exploram essa necessidade de sobrevivência. Entre os que nada podem e os que tudo pensam poder. Entre quem sabe que a solução está no cumprimento das obrigações e os que operam na reivindicação unilateral de direitos exclusivos.
Vergonhosamente, os jornais pouco destaque dão ao final deste braço de ferro que custou ao País mais de 400 milhões de euros por mês. O Diário de Notícias chega mesmo ao eufemismo: «Estivadores suspendem greve para abrir espaço ao diálogo». Se houvesse curiosidade, saberíam que o País mudou ao ponto de o PS estar disponível para mudar a lei da greve. Se houvesse investigação, apuraríam que PCP e BE retiraram o apoio a esta forma de luta para não comprometerem a lei. Se houvesse decência, daríam boa nota ao Minístro da Economia e ao Secretário de Estado dos Transportes pela firmeza que souberam manter, meses a fio, deixando os estivadores com uma mão cheia de nada.
Esta greve é simbólica. Faz lembrar a greve dos mineiros, nos Anos 80, que não dobrou Margareth Thatcher mas sim uma esquina na História do Reino Unido. Também aqui, nada será como dantes.

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Agora e sempre

http://www.youtube.com/watch?v=gWI1gs0dJYk                            

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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A dupla promissora

Não esqueço o debate entre Hollande e Sarkosy, no final da campanha para as Presidenciais francesas deste ano. Um confronto ganho nitidamente por Nicolas Sarkosy que, portant, seria destronado em seguida pela maioria dos comentadores e jornalistas.
Sarkosy calmo, realista, coloca-nos a questão de saber se é promissor quem promete ou quem fala verdade? Hollande, agitado, reivindicativo, com propostas idílicas, devolve-nos a pergunta: é promissor quem vende sonhos ou quem nos aponta caminhos com pedras? 
Conhecendo o valor da oportunidade, António José Seguro seguiu a sombra do francês. Marcou presença na campanha e citou abundantemente a cartilha hollandesca acreditando nos poderes salvíficos da esquerda sobre a depressão. Hollande ganhou e Seguro jubilou. Hollande reduziu a idade da reforma e Seguro rejubilou. Hollande caiu na realidade, travestindo as promessas em austeridade, e Seguro fez silêncio. Hollande caíu nas sondagens e Seguro, ouvindo o galo cantar, negou defesa ao anterior compagnon de route.
Há virtudes na condução política de Hollande, sobretudo na construção do Pacto para o Crescimento no Conselho Europeu. Mas hoje Seguro teme qualquer colagem ao flop francês e mantém-se orgulhosamente silenciado. Nem por isso passa de oportunista a oportuno.  

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