sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Fragmentação e planura

Se bem atentarmos no espectáculo que o espaço público nos apresenta vemos que duas das suas principais características são a fragmentação e a planura. A que se opõem a fragmentação e a planura? À unidade e à hierarquia. Tomemos fôlego e vejamos o que significa e que implicações tem este quadro.

A fragmentação ocorre por força da especialização. Como os operários de uma linha de montagem clássica, trabalham apenas numa pequena parte do processo produtivo. Vemos um exemplo na música erudita contemporânea. Dividida em mil movimentos diferentes os especialistas de uma corrente pouco sabem sobre a corrente vizinha. Na arte em geral o mesmo se passa. E quando alguém diz que é especialista em arte contemporânea podemos quase ter a certeza de que não aprendeu grego e por isso leu pouco de Platão.

As correntes culturais... Enfim não seria grave. Mas se tivermos em conta que a cultura, não em sentido antropológico onde tudo é cultura, mas em nobre acepção, onde é difícil entrar e mais ainda criar, é o espaço por excelência da experimentação da vida humana e da sua expansão, este estiolamento começa a ser preocupante. É que, quando as experiências se fragmentam pela especialização cada vez mais obsessiva, cessa a comunicação profunda.

Entra aqui em cena a planura. É que não sendo possível a comunicação profunda entre os fragmentos, a comunicação reduz-se à banalidade, ao exótico, ao fenómeno de feira. Eliot, inglês de origem americana, criticava as universidades americanas de excelência, não por não permitirem estudos profundos, mas por não criarem uma cultura comum. Cada universidade, cada professor, tinha um currículo diverso. Como resultado, era impossível criar um espaço de comunicação comum em profundidade.

Quando todos têm uma formação matemática confluente, quando todos leram Homero, quando todos leram Aristóteles e Platão, quando todos acedem aos mesmos conceitos basilares de cultura, podem partir de uma base comum para a discussão no espaço público. Quando umas pessoas estudaram em profundidade – admitamo-lo apenas para efeitos de demonstração – a teologia de Mestre Erckhart, outros a respiração alternativa de uma estirpe de fungos, outros ainda o método de Monte Carlo aplicado à econometria, e nada mais, ou pouco mais, quando isso acontece de forma singela, sem que haja estudo profundo das bases da cultura, todos os desvarios são possíveis, todas as pretensões de originalidade incontroláveis.

Sobretudo, sobretudo, de que podem falar uns com os outros? Do tempo, do futebol, das crises governamentais. Banalidades, mais uma vez.

O espaço público pode ser um espaço de discussões profundas quando existe uma profunda cultura comum. Não se enganava o lavrador antigo sobre as épocas de semear e colher, nem sobre o ritmo da missa. Não se enganava a elite europeia até ao século XIX sobre o pensamento de Horácio ou as lições de Euclides, ou o dogma da santíssima trindade. E muito menos sobre o que fossem as fronteiras da Europa.

Neste espaço de planura tudo se diz impunemente, com ou má fé, com ou sem razão, mas sempre sem fundamento. O controlo é feito não no espaço público, mas nas raras vezes em que pessoas dotadas de conhecimento e sentido crítico chamam de burros aos burros, de desonestos aos desonestos.

Num mundo de especialistas, ou seja, de leigos em quase todas as matérias, o discurso público profundo fenece e vive como uma bacante sem controlo, atirando-se às nossas caras sem freio nem condenação pública.

O que se opõe à fragmentação e à planura? A unidade e a hierarquia. Existe unidade quando flúi pelo espaço público um discurso com sentido, com fundamentação. E a hierarquia impõe critério, em que o dislate é condenado e o burro é repelido. Não são precisas leis que o impeçam de falar, mas é o ridículo que o cobre publicamente. Como não há noção de hierarquia, entre o melhor e o pior, os burros comprazem-se, vivem felizes numa época em que podem ser presidentes da república, primeiros-ministros, dirigentes de empresas ou de grandes organizações. A subida da plebe foi justificada pela meritocracia, que tem mil defeitos, mas qualidades inegáveis. Hoje em dia assistimos à subida da camada mais baixa de todas. A dos destituídos, sejam eles comentadores políticos, sejam políticos, ou líderes de opinião.

O burro foi entronizado, e quanto mais é chamado para opinar, mais satisfeito se encontra por ter voz activa. Invoca a liberdade de expressão como defesa contra a inteligência e usa como arma de assalto contra ela acusações pré-formatadas como a xenofobia, racismo, fascismo, falta de abertura e outras quejandas.

O burro sabe que preenche um vazio, sabe que não será perpetuado pela legitimação. Por isso vive uma vida entrincheirada nos mesmos lugares comuns e usa como muralha o insulto lesto e infundamentado.

Abomina a hierarquia, porque sabe que em qualquer critério estará sempre no seu mais baixo grau e detesta a unidade porque o obriga a fundamentar. Perante um público que conhece minimamente bem os mesmos tópicos argumentativos, não se pode atrever a dizer despautérios, porque sabe que seria imediatamente apanhado. Delicia-se por isso com o espaço dos especialistas, fragmentado, porque apenas se tem de calar numa matéria perante especialistas, mas estando perante outros burros, é livre para falar sobre tudo. Como já não tem medo da prisão, benesse que lhe foi dada por gente inteligente e generosa na História, apenas teme que por uma esquina lhe passe alguém inteligente que o denuncie. É uma vida acossada a dos burros que vivem na planura.

Vida acossada potencialmente, mas hoje em dia triunfante. Sabe que a sua raça enche hoje em dia o espaço público e reza ao deus da fragmentação que lhe deu a bênção da planura onde nada é condenado.

Por isso podemos ouvir burros dizer que a guerra ao Iraque se fez por causa das armas químicas, da ligação ao fundamentalismo, da necessidade de dar democracia, e outros burros que não se deve fazer por amor abstracto à paz. Por isso o burro pode dizer que a Turquia é um grande país europeu, ou que a Europa precisa de um país islâmico (como animal de estimação, pergunta-se) sem que ninguém mande o burro ir estudar para a escola ou mostre que apenas é servidor de interesses americanos.

Uma manada de burros assentes na planura vigiando para que se mantenha a fragmentação que não os confronta, não os julga, não os denuncia. Tudo está fragmentado, tudo se quer fragmentado. Assim temos o espaço público. Onde todas as inanidades podem ser ditas, onde qualquer barbaridade pode ser proferida sem castigo. A Turquia é europeia, a Europa não tem fronteiras, os americanos são nossos amigos, a Europa é multicultural. Vicejando pela impunidade querem arrastar os outros para a mesma monotonia que constitui as suas almas. Terapêuticas? O riso, o desprezo e a publicidade. E sobretudo a condenação pelos povos.


Alexandre Brandão da Veiga















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A esquina do tempo

Não se devem humilhar os vencidos. Mas o estrago que os estivadores fizeram com a greve de 102 dias justifica que se lhes dê um empurrão até ao último degrau da escada. Foi uma batalha civilizacional. Entre os que querem trabalhar e os que exploram essa necessidade de sobrevivência. Entre os que nada podem e os que tudo pensam poder. Entre quem sabe que a solução está no cumprimento das obrigações e os que operam na reivindicação unilateral de direitos exclusivos.
Vergonhosamente, os jornais pouco destaque dão ao final deste braço de ferro que custou ao País mais de 400 milhões de euros por mês. O Diário de Notícias chega mesmo ao eufemismo: «Estivadores suspendem greve para abrir espaço ao diálogo». Se houvesse curiosidade, saberíam que o País mudou ao ponto de o PS estar disponível para mudar a lei da greve. Se houvesse investigação, apuraríam que PCP e BE retiraram o apoio a esta forma de luta para não comprometerem a lei. Se houvesse decência, daríam boa nota ao Minístro da Economia e ao Secretário de Estado dos Transportes pela firmeza que souberam manter, meses a fio, deixando os estivadores com uma mão cheia de nada.
Esta greve é simbólica. Faz lembrar a greve dos mineiros, nos Anos 80, que não dobrou Margareth Thatcher mas sim uma esquina na História do Reino Unido. Também aqui, nada será como dantes.

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Agora e sempre

http://www.youtube.com/watch?v=gWI1gs0dJYk                            

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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A dupla promissora

Não esqueço o debate entre Hollande e Sarkosy, no final da campanha para as Presidenciais francesas deste ano. Um confronto ganho nitidamente por Nicolas Sarkosy que, portant, seria destronado em seguida pela maioria dos comentadores e jornalistas.
Sarkosy calmo, realista, coloca-nos a questão de saber se é promissor quem promete ou quem fala verdade? Hollande, agitado, reivindicativo, com propostas idílicas, devolve-nos a pergunta: é promissor quem vende sonhos ou quem nos aponta caminhos com pedras? 
Conhecendo o valor da oportunidade, António José Seguro seguiu a sombra do francês. Marcou presença na campanha e citou abundantemente a cartilha hollandesca acreditando nos poderes salvíficos da esquerda sobre a depressão. Hollande ganhou e Seguro jubilou. Hollande reduziu a idade da reforma e Seguro rejubilou. Hollande caiu na realidade, travestindo as promessas em austeridade, e Seguro fez silêncio. Hollande caíu nas sondagens e Seguro, ouvindo o galo cantar, negou defesa ao anterior compagnon de route.
Há virtudes na condução política de Hollande, sobretudo na construção do Pacto para o Crescimento no Conselho Europeu. Mas hoje Seguro teme qualquer colagem ao flop francês e mantém-se orgulhosamente silenciado. Nem por isso passa de oportunista a oportuno.  

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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Quando mostrar que se finge é ainda mais fingido


A versão do Anna Karenina, que há dias chegou a Portugal, mostra a produção do sonho mais do que os sentimentos dos personagens de Tolstoi.
Aligeira o drama e as questões existenciais do russo com a representação da representação. Desventra os bastidores de um teatro transformando uma boa história numa engenharia de teia, cenários, luzes e outros artifícios. Não nos deixa embarcar. Está sempre a lembrar-nos que tudo foi combinado com o realizador. É um mata fantasia. Um desmancha prazeres. Um desencanto de movimentos que existem para a câmara e não para os nossos olhos.
Dito isto, é um filme optimo, se desligado do livro de Tolstoi. Bem realizado, bem representado, bem vestido. Bonito. Original.
Se lhe chamarem Ana Catarina, gostei muito.

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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Quem não erra, não melhora

Entrevistado ontem na SIC, José Manuel Durão Barroso voltou a sair seco da tempestade. Quando José António Teixeira lhe perguntou se, tal como António Guterres, se considerava relativamente responsável pelo estado a que o País chegou, Durão simulou uma humildade genérica para, logo depois, se afirmar como primeiro combatente da consolidação orçamental. Compreende-se.
Mas o final da resposta acende todas as campaínhas sobre o percurso deste político. Durão destacou apenas os anos de 2002 e 2003 a 3% e sublinhou que, sobre 2004, não era responsável. Fica-lhe mal empurrar essa lama para um sucessor que fez o favor de herdar os seus compromissos com o Povo português. Qualquer arquivo nega coerência à sua memória. Quando, no final do 1º semestre de 2004, abandonou o País para seguir outro sonho de poder, o défice estava em 6,8%, ou mais, segundo o Governador do Banco de Portugal, Victor Constâncio. E lá ficaria, nesse despiste, se não fossem as medidas tomadas pelo XVI Governo Constitucional.
Guterres terá sido castigado politicamente pela honestidade da sua resposta. Mas será menos imperfeito no futuro, quando ambos se perfilarem para a liderança da ONU ou para a Presidência da República, em Portugal. 

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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Em fim, o Império


Vimos descer a bandeira nacional nas frentes de guerra e nos afro-arquipélagos, em 75. A entrega desses Povos à Guerra Fria não nos deixa olhar devagar para essa pressa.
Assistimos depois, em Macau, em 1999, à correcção protocolar de Vasco Rocha Vieira. Hino, bandeira bem dobrada, autoridades reconhecidas, uma herança feita com amostras de calçada, Universidade, língua, catolicismo e garantias mínimas de Direitos Humanos. Menos mal.
No dia 20 de Maio de 2002, veio a Independência de Timor-Leste depois de um silêncio sangrento de mais de 25 anos, interrompido pelo ombro da Igreja e pela voz esclarecida do Duque de Bragança.
Nesse dia, estávamos todos felizes. Timorenses, portugueses, Xanana, Ramos Horta, os bispos de Dili e Baucau, os manos Carrascalão, o PR português, Durão, Guterres, Clinton,  Kofi Annan, até Megawati Sukarnoputri, a Presidente da Indonésia, reconhecida na capitulação.
O Referendo proclamara a vontade do Povo e ali se viveu um festival da cultura lusófona, como expressão da Independência de um novo País, na metade mais curta de uma ilha entre a Ásia e a Austrália.
Houve mais caminho percorrido, com sangue e incerteza. Em todas as intempéries, a Guarda Nacional Republicana foi presença de tolerância e espírito firmes. Não queríamos abandonar, de novo, os povos comuns à nossa História.
Assisti a esse trabalho discreto e reparador, para ambas as partes.
Timor-Leste é Independente há 10 anos. Mas só agora o Império pode adormecer em Paz. Agradeço, reconhecida, à GNR.




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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Pós e pobreza II

O que dizem os cultores do pós-cristianismo? Que a Europa deixou de ser cristã. E passou a ser o quê? Nesta matéria têm mais dificuldade em afirmar seja o que for. Por isso, convocam a abertura de possibilidades, mas acabam na ideologia do supermercado de religiões, em que se vai buscar um pedaço a cada uma em função a nossa vontade. A necessidade de coerência, em suma, de responsabilidade do discurso, desaparece totalmente. O passado é caricaturado, mostrando-se que antigamente era uniforme. Era cristão. Coitados, eram o que podiam ser... Será assim?

A Europa nunca foi cristã. Nunca o foi puramente. Sem as outras camadas, sobretudo sem o paganismo indo-europeu, não se percebe. Os nossos citérios de gostos, a nossa estruturação social, o modo como moldámos desde sempre as nossas vivências estiveram sempre longe de ser puramente cristãos. Não há memória que Cristo ou os apóstolos tenham feito a apologia da aristocracia em quanto tal, e no entanto durante quase dois mil anos foi essa a classe que governou a Europa. Não há memória que Cristo se tivesse preocupado com os modos à mesa ou o gosto vestimentário e no entanto gastámos energias imensas nessas áreas. Não há memória que tivesse patrocinado guerras e no entanto houve, e muitas. Por outro lado, basta atravessar as páginas da filosofia dita medieval para verificar a raras vezes que a palavra Cristo aparece nelas. E as múltiplas vezes que se assentou a distinção entre verdade de razão e verdade de revelação. A caricatura do passado é dupla: é acusado de não ter sido cristão, sob o ponto de vista moral. O de apenas o ter sido, sob o ponto de vista intelectual. Ambas falsidades. A ideologia “pós” vive aqui mais uma vez da falsificação.

O pós-modernismo, o que diz? Tenta dar mais um passo. Os modernistas criticaram o mundo que diziam ser cristão. Os pós-modernos no fim de contas sofrem de um complexo edipiano em que atacam os próprios pais que os viram nascer. A obsessão de um Hapax renovado leva-os a sacrificar os progenitores que lhes deram direito ao nascimento. A mecânica quântica faz surgir um movimento popular que se revolta contra uma ciência dogmática, que nunca foi criação de cristãos, mas que se queria profundamente anti-cristã. O positivismo, nas suas múltiplas vertentes, afirma certezas religiosas na ciência que nunca se encontraram nas filosofias anteriores. Os totalitarismos modernos são criticados por não terem contrapesos, quando a ideia de contrapeso ineria a toda teoria política cristã. Insurgem-se contra uma moral burguesa, a dos seus pais, que é profundamente anti-cristã em muitos dos seus aspectos.

Em tempos ouvi um pensador brasileiro que lembrava, e com alguma razão que Naphta, o judeu convertido na Montanha Mágica de Thomas Mann, não era o reaccionário empedernido, contra o moderno Settembrini. Também Naphta é um filho da modernidade, enquanto jesuíta. A modernidade tem muitas faces, muitas faces contraditórias entre si. Ser pós-moderno é no fundo ser filho do moderno, na sua diversidade, mas também nas suas contradições. Mas ser moderno é por definição ser incompleto, e o pós-moderno é em certo sentido apenas a compleição do modernismo. Seja, mas o que é este modernismo a que se põem os pós-modernos? Filhos de uma potência fragmentadora, arvoram a fragmentação, que era defeito, em qualidade. Essa é a sua novidade. Felizes por terem sido fragmentados, nada querem remendar. O problema deixa de ser problema, para ser local de instalação de vida, ou seja, mero factor de comodismo. Os pós-modernos vivem assim do sistema instalado, que não pretendem mudar em profundidade. São conformistas por natureza.

E o pós-industrialismo? Que coisa será? É apenas mais um dos desenvolvimentos, mais um entre muitos, desta obsessão do “pós”. Assentámos a nossas riquezas na indústria? Que se dane a indústria! Que se destrua. Faremos uma sociedade desmaterializada, que não produz coisas, mas apenas serviços. Abandonámos a agricultura, as pescas, mas também a mineração. De um equilíbrio dos sectores devemos passar para uma visão unilateral da economia, oposta às coisas, baseadas em serviços.

Mas o pós-industrialismo mostra os seus pontos fracos. Profundamente anti-empírico, esquece que os países que mais enriquecem não são pós-industriais, mas assentes na indústria ou no sector primário. Por outro lado, mostra o seu profundo horror à matéria. A sociedade, o mundo deve ser desmaterializado. O valor está na desmaterialização. Mas, como o valor das coisas imateriais depende de uma teoria, estabelece teorias sobre o valor. Este assenta na marca, na boa vontade, na criação de valores partilhados. O discurso gestionário aproxima-se da terapêutica, dos misticismos, da teologia. Baseados em cada vez mais inefáveis assentos, elevam-se até às nuvens da motivação, da satisfação, do sonho. Era bom de se ver: num mundo sem coisas, todas as coisas podem fazer um mundo.

Condenar sem mais quaisquer destes movimentos não tem sentido. Se eles existem, algo nos dizem sobre as falhas dos sistemas anteriores, não forçosamente falhas intrínsecas, mas na forma como foram vividos. São válidos como sintomas, embora não como terapêuticas. Não quero desmerecê-los. Todo o existente terá a sua razão de ser e mesmo que o existente não tenha mérito, ao menos que tenha o de nos fazer pensar na sua origem.

Ouvimos falar muito de cada um deles, mas talvez sejam audíveis apenas porque berram. É o grito a sua forma de expansão, a repetição a sua forma de permanência. Que seja, mais uma vez. Ficamos ao menos a saber que tomam por força o que mais não é que um estertor.





Alexandre Brandão da Veiga





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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Pós e pobreza I


Pós-cristãos, pós-modernos e pós-industriais. Três ladainhas que ouvimos desgarradas pelos recantos. E, mais uma vez, três discursos que aparentemente nada têm a ver uns com os outros, excretados em círculos diversos, e que por isso nos deixam vislumbrar o que têm de comum, muito mais que o que os diferencia. Em cada campo em que actuam, na análise das civilizações, na filosofia e nas ciências ditas humanas, na economia dão um ar científico, crítico, lúcido ao discurso. Mas, se vistos em conjunto, torna-se mais óbvio de que fragilidades padecem.

Que existe em comum de mais evidente? A expressão “pós”. Não é questão meramente nominal. Une-os o dizerem que vêm depois de qualquer coisa. E isso significa desde logo quatro coisas.

Em primeiro lugar, consideram-se todos uma superação, por isso mesmo um desenvolvimento, uma ultrapassagem. Está-se além de uma época anterior, forçosamente mais primitiva, mais indigente. Estão além.

Em segundo lugar, o seu privilégio é temporal. Vieram depois e consideram isso como uma vitória, uma forma radical de terem razão. O que veio depois vale mais que o que está antes, porque o que está antes está caduco.

Em terceiro lugar, em nenhum dos casos se define qual o conceito central que unifica o novo movimento. Liberalismo, idealismo, modernismo, poderíamos multiplicar os exemplos até ao infinito. Em todos estes casos, com razão ou sem ela, alguém coloca à nossa frente a sua proposta. É actividade arriscada, porque em qualquer caso se sofre por isso o risco de ser acusado de reducionismo, de visão unilateral das coisas, com maior ou menor fundamento, não interessa.

Em quarto lugar, o que está antes dissolve-se por via da caricatura. Para que se retire a validade do que existe antes usa-se uma estratégia velha como a História da cultura, a caricatura. Antes era assim, e o assim que era é pobre, limitado, inferior. O cristianismo era provincianismo, o modernismo rígido, o industrialismo explorava as pessoas. Nada mais há que reflectir sobre a matéria.

Este espaço aberto, que mais não é que o vazio da proposta tem também as suas consequências. Se apenas me afirmo como o que vem depois de algo, isto significa igualmente várias coisas.

Em primeiro lugar, que não me pretendo arriscar. Não coloco desde logo à frente uma proposta. O espaço está completamente aberto e por isso basicamente não quero sofrer qualquer risco. São ideologias de timoratos.

Em segundo lugar, esse espaço vazio pode ser preenchido de várias formas consoante seja objecto de crítica ou ataque. Este tipo de ideologias apresenta-se por isso como sumamente oportunista.

Em terceiro lugar, mostra o vazio de ideias. Evitando o conceito, não me congregando à volta de um conceito, não estou obrigado a qualquer espécie de racionalidade ou crítica, trabalho num plano de mera sobrevivência da minha doutrina, plástica o suficiente para ser muitas coisas e coisa nenhuma. São ideologias de sobrevivência, mas apenas dos seus ideólogos.

Mas este espaço vazio não é neutro. A própria ideia de ser “pós” significa de um só golpe querer ser mais que o que nos antecedeu. E por isso é sempre um sinal de vitória. Esconde-se por isso que essa vitória tem prazo de validade, porque outros são “pós” a nós mesmos e esses poderão, pelo simples facto de nos sucederem no tempo, considerar-se melhores que nós, mais válidos nos seus pensamentos. É uma ideologia que traz consigo a semente da sua própria derrota.

E como a natureza tem horror ao vazio, este espaço acaba por ser preenchido por critérios bem mais rígidos que os das ideologias anteriores. Não são ideologias dogmáticas. Bem pior. São ideologias obcecadas com o dogma. E, de tanto o quererem expulsar, acabam por criar dogmas implícitos, mais uma vez os mais difíceis de sindicar. Os pós não gostam de crítica à sua posição.

Vejamos cada um deles.

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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Justiça e informação


A direcção da RTP demitiu-se por quebra de confiança na sua palavra num circuito confuso entre a Administração e a Redacção. Entendo. A confiança é basilar num órgão de informação e a palavra da direcção da RTP deve ser respeitada.
Outro assunto é a recusa da RTP de cedência de imagens e, por isso, a recusa em colaborar com a Justiça na procura de criminosos que apedrejaram a polícia durante uma hora e meia.
É dever de cidadania colaborar com as autoridades no exercício da Justiça. É dever do jornalista não tomar partido nos acontecimentos de que faz a cobertura. Reter «os brutos» - filmes não editados - não é defender as fontes. A Lei é clara sobre os direitos à imagem no espaço público. Por isso as vedetas têm poucas defesas na devassa da sua vida privada, em relação à imprensa cor-de-rosa.
Parece-me claro que a RTP deve ceder imagens sempre que houver criminosos em fuga. E que, ao recusar-se a fazê-lo, deve ser questionada pelo embuste em que colabora deliberadamente.

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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Estados de alma


«O Senhor Ministro não se sente só?».
A pergunta, feita ao Ministro das Finanças já no final da conferência de imprensa do VI Exame Regular da Troika, deixou Gaspar impávido, como é. A questão era política. Mas podia dar uma resposta pessoal, como aconteceu, sem a intimidade pedida: «Não sou dado a introspecções e não falo de estados de alma».
Nem este é o tempo para o colectivo  «despertar do desejo absurdo de sofrer» de que Cesário Verde falava no Sentimento Ocidental. Também Victor Bento hoje, no meio de uma conferência crua sobre a situação actual, acrescentou: «O meu pessimismo tem abertura para a esperança». Por aí avançamos.

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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O preconceito da ordem

Às vezes, olhamos para a realidade como quem procura um bilhete num contador da Índia: vamos abrindo as gavetas independentes e esquecemos que houve uma mão que as arrumou e que o conteúdo pode ter vindo todo do mesmo lugar. Nesses casos, a separação estanque do móvel é tão artificial como a nossa leitura organizada.
O papel da CGTP, nos confrontos de ontem, no Parlamento beneficia dessa classificação. Higienicamente, a central sindical exerceu o direito à greve e o direito à manifestação. Terá informado as autoridades sobre a iniciativa, como é de lei.  Quando os desacatos começaram, um dos seus homens interrompeu oportunamente uma entrevista porque não queria participar «daquilo».
O coro dos comentadores louvaria a civilidade da CGTP e a colecção de direitos em presença, integrando os «rojos» na Democracia, como em Novembro de 75. Para trás ficavam as palavras incendiárias do líder da CGTP - como lembra Paulo Gaião no Expresso: «Se o governo não ouve bem, ouve a mal»; «O tempo dirá se Portugal imita a violência da Grécia». A maioria dos media veículou a ideia de que a Central até tinha propostas concretas para colaborar com o Governo numa solução melhor para Portugal.
Não há inocentes nesta história. Os estivadores e a CGTP conhecem o clima de incerteza e frustração e exploram a situação a seu favor. Acicatam as hostes sabiamente para - com ar ingénuo e sonso e falso e perigoso - surgirem como arautos dos valores de Abril e da construção de uma democracia melhor.
Já vi este filme. E sei que não é ficção.










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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Alguém me explica?


Visitar a única capital que vive em dois Continentes, (Ásia e Europa); viajar pela cidade senhora de dois longos e imensos impérios (Bizantino e Otomano); sentir o ponto onde a Europa pode não ter fronteira directa com o Irão; medir, na largura do Bósforo, a dependência do contacto da Rússia com o Sul Ocidental - é esperar um pólo de poder com correspondência no desenho urbano.
E nada disso acontece. Bizâncio, Nova Roma, Constantinopla, Istambul - o que se queira chamar - é um mercado de rua interrompido por mesquitas magníficas, cercado por muralhas antigas, que lá escondem um palácio «internista», com harém e outras riquezas duras e brilhantes - como as pedras boas - sem uma única praça imperial onde assistir a um desfile militar ou festejar uma taça de futebol. 
É claro que o sultanato se modernizou no século XIX com algumas avenidas, zonas verdes e lojas de preço fixo. É evidente que a refundação laical de Ataturk reforçou o poder da cidade onde tudo é, e deixa de ser, Ocidental. E até hoje a diplomacia da Porta Sublime transforma a Turquia num ponto que não entra nem sai da agenda de integração europeia e no membro europeu mais insubstituível da NATO.  
Mas, no preconceito de quem só conhecia a História, esperava o desenho de uma cidade imperial. Que não existe.

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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Indignai-vos?




Está na moda a indignação. Uma criatura simpática passeando a sua adorável insuficiência intelectual apresenta-nos um livro do alto da sua autoridade moral, algo fenecida pelos anos, com o título “indignai-vos”. E as pessoas vão nas ruas passeando pela trela a sua indignação.

Estamos já habituados a que os livros não carreiem ideias, mas apenas o que vai andando por tripas das pessoas. Mas existem situações em que a dissimulação esconde que se passaram limites. A insatisfação pode ser legítima, fica no entanto muito aviltada quando sofre enunciação tão pobre. Num espaço onde escasseiam as ideologias racionais, por mais vazias que se tenham tornado, pululam discursos sentimentais de toda a natureza, ou melhor, apenas emotivos. Puxando à emoção.

A injunção, o imperativo, surge na literatura sempre que as pessoas querem criar acção através da palavra. Em si, o facto não é novo, nem pecaminoso. Tanto melhor se alguém quer criar acção. A questão é a de saber qual.

Não me alimento apenas de sabedoria antiga, mas não cometo o erro simétrico de a descurar completamente. As várias gerações de homens que passaram por esta Terra não eram todas estúpidas, bem pelo contrário. E atrevo-me a pensar que em muitos casos eram muito mais inteligentes que, não apenas a maioria das pessoas da nossa época, mas superiores em muitos casos ao melhor que a nossa época produz.

Mas não preciso sequer partir desta premissa. Bastemo-nos com um exemplo. Um autor antigo, do séc. I a.C., chamado Aelius Theon, escreveu um tratado de retórica, muito apreciado ao longo dos séculos. Não tem a completude de um Quintiliano nem a originalidade de um Aristóteles, é certo. É uma espécie de manual escolar. Não é um génio. É o que hoje em dia se chamaria apenas de professor catedrático com assento pedagógico. Mas, por vezes, um simples professor catedrático consegue ter um sucesso secular. É raro que aconteça, mas pode acontecer.

O seu tratado de retórica era dos mais lidos na antiguidade, embora hoje em dia seja esquecido do público comum. Uma das impressionantes lições que dele retirei – porque ele não é grande criador, mas sintetiza séculos de sabedoria incorporada na retórica – é muito simples: os discursos de indignação são discursos de ódio.

Alguma atenção me tem de criar este aviso: estarão a incitar ao ódio toda uma geração?

Vejamos mais fundo.

Quando se incita à revolta, está a dar-se uma injunção para a acção. A finalidade do mundo futuro pode não estar desenhado, mas a acção pretende ter efeitos, mesmo que sejam negativos. Acabar com um mundo antigo, ou ao menos com partes desse mundo antigo.

Pode-se ar mais um passo em frente, e ter um projecto, mais ou menos messiânico, de um mundo futuro. Nesse caso, a exortação à acção implica destruir algo de antigo e construir algo de novo - os liberalismos e marxismos vários fizeram parte deste complexo de atitudes.

Seja. Mas basta para a análise?

Não. Pode-se exigir uma acção que é meramente interior. A exortação do “Acordai” de José Gomes Ferreira e Lopes Graça tem a sua beleza mas é vazia quanto à acção a seguir, não fora um contexto e chaves de leitura que se dão por adquiridos. Em si mesmo, apenas manda acordar, tomar consciência, não entorpecer. Só isso poderia ser perigoso para um regime, porque seja o que viesse a seguir seria forçosamente negativo para ele. Mas, nesse contexto, embora vazia em si mesmo, a exortação pode ser eficaz como um primeiro passo.

Indignai-vos? Onde se situa esta exortação?

Demos mais um passo.

Quem exorta à indignação está a dizer: merecem mais e melhor. A vossa situação está baixo de vós. Sois dignos e há o que está abaixo de vós é indigno. Daí a palavra de indignação. O que pode ser um bom dito e provavelmente justo. Mas, em boa verdade, exige alguma presunção. Porque quem aceita esse mandamento está a dizer: eu sou melhor que... Melhor que a situação que me rodeia, melhor que outros seres humanos (sejam os capitalistas, os políticos ou quem seja). Sou melhor que o meu actual destino.

Seja, mais uma vez. Pode ser justo. Estamos perante pessoas superiores. Superiores a outros, superiores à sua situação.

Teremos então de saber se o seu restante discurso é consistente com esta noção de hierarquia. E para nossa surpresa dizem em geral que não existem hierarquias que não há lugar a hierarquias. Vejamos... Então existe ou não o melhor e o pior?

O movimento até poderá ter toda a razão. Não discuto isso aqui. Apenas tento perceber qual a sua dinâmica interna. E alguém considerar-se mais digno que outras coisas e outras pessoas, sem ao mesmo tempo aceitar a hierarquia das dignidades, vive pura e simplesmente na contradicção.

Pois que demos outro novo passo.

Indignar-se para fazer o quê?

Aqui mais uma vez a exortação é vazia quanto à acção. Mas não há contexto que torne inequívoca a mensagem. É-se contra várias coisas, por muitas razões diversas, e sem plano quanto ao que seja o futuro. Bem pior ainda, pode-se ser contra, mesmo sem querer destruir o sistema que nos provoca a revolta.

Poderão querer reformas? Sem dúvida. Mas entre as reformas que uns querem, as revoluções que outros pretendem e os remendos que ainda outros desejam há anos luz distância.

Assentemos pois a poeira.

Os antigos tinham razão quando diziam que os discursos de indignação são discursos de ódio. Quando se ficavam pela indignação não estabeleciam, por definição, qualquer medida de acção. Medida, mensuração, proporção. Deixavam aberta qualquer acção. É um discurso de ódio puro, seja a outras pessoas, seja a situações próprias ou alheias. Quem aceita um discurso de indignação apenas diz: Sou mais que... Qualquer coisa. Mereço mais, seja dos outros, seja da situação em que me encontro. É um discurso dirigido a quem tem presunções mas não está disposto a reflectir mais, nem comprometer-se com acções futuras. Nem tem propostas para destruir um mundo antigo e muito menos para construir um novo, por mais que uma e outra presunções sejam destituídas de real significado no final. Não aceita qualquer medida. Abre um espaço, rasga um horizonte que conduz a lugar nenhum, sem direcção. Pressupõe a hierarquia quando a nega ao mesmo tempo. Recusa a alternativa e não sabe o que dizer sobre a acção.

A maior parte das épocas não foram dirigidas por teorias sistemáticas vertidas em formas de catecismos, como aconteceu com os liberalismos e marxismos. Por isso, a nossa época não é em nada especial. É apenas um regresso à trivialidade do quotidiano histórico. Nisso não há problema. A questão é que as épocas dirigidas por uma teorização sistemática da acção percebem com maior acuidade o vazio de um discurso em relação a esta. As restantes, a maioria na História provavelmente, não tem a sensibilidade apurada para os vácuos de acção nos discursos.

Indignai-vos? Compreensível movimento. Há sentimentos insatisfeitos e muito legitimamente. Mas indignar-se é apenas presunção de quem quer odiar livremente sem ter com isso problemas, num mundo sem hierarquias, onde se pode sentir hierarquicamente superior para chegar a acção nenhuma. Apelam ao seu sentimento e ele dá o que tem resguardado: o ódio. E a inacção.





Alexandre Brandão da Veiga







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terça-feira, 30 de outubro de 2012

Pobres medievais

Há circunstâncias nesta vida em que temos de fazer um mea culpa. Sempre gostei de todas as épocas da História europeia, mas não dei a devida apreciação à cultura de cada uma deles. Mais vocacionado para a cultura do mundo antigo e a cultura científica, digamos assim para simplificar, descurei em grande medida o que era específico da cultura medieval.

Muitas vezes ouvimos falar da riqueza e profundidade desta e doutra cultura. Em boa verdade não há programa que refira povos exóticos que se esqueça de nos lembrar como é profunda a sua cultura. Ora, como a cultura se mede pelas obras, uma pessoa de bom senso perguntar-se-á imediatamente onde estão essa obras tão diferentes, tão inesperadas.

Rapidamente somos desiludidos. Vemos umas criaturas a pintar-se, ou pulam, ou gritam. Por vezes há um rasgo de génio. Há povos que têm uma obra digna desse nome, outros que apenas se reduziram a ser o que são, o que deve ser bom para eles, admito, mas que nos deixa indiferentes, ou deveria deixar a quem mantenha alguma sanidade mental.

Observei com a mesma postura a dado momento a cultura medieval. Tanto quanto nunca acreditei nos que a chamam de subdesenvolvida em comparação com a sofisticação árabe, chinesa, persa, enfim qualquer cultura não europeia, de igual modo nunca levei muito a sério os que se extasiavam com algumas obras francamente primárias da poesia medieval, ou a igualmente recorrente referência às maravilhas da filosofia da Idade Média.

Muitos destes panegíricos pareciam mera rotina académica. Se alguém estuda um povo, uma época, tende com frequência a demonstrar como são extraordinários, como têm ou tinham o que nós já não temos ou nunca fomos capazes de ter. O “nós” aqui, é evidente, são os europeus. Como toda a gente sabe o pior povo e cultura do mundo. Pelo menos é o que corre. Por isso os elogios à cultura medieval pareciam-me a mim algo forçados.

E a verdade, pensa o cidadão comum, é que eles não tomavam banho todos os dias, não usavam telemóveis, não andavam de avião. Uns atrasados, pobres deles. O facto de estas verdades serem aplicáveis a quase todos os povos da época não comove os admiradores de exotismo. Compreende-se. É que perceberam que os critérios da cultura europeia são tão exigentes que nunca os poderão preencher e portanto refugiam-se em culturas que não estão em posição de os julgar.

Da parte que me toca não julgo obras antigas com indulgência. Parece-me um insulto aos mortos. Devo-lhes suficiente respeito para os analisar pelo crivo mais exigente que me é possível. Só assim posso perceber a eventual perenidade do seu valor.

Poderia pegar num ou noutro exemplo. Seriam imensos. Mas tomarei como lição a obra de Duns Scoto. Filósofo contemporâneo de São Tomás de Aquino, nele encontramos aspectos que são completamente descurados na nossa época. Qual o grande tema de preocupação? A prova da existência de Deus. Tema ridículo, fora de moda. Mas, como dizia o seu grande estudioso, Etienne Gilson, só despreza esta questão quem nega à partida qualquer espécie de demonstração racional da Sua existência. Ora dá-se o caso, conjecturo eu, de que as pessoas que hoje em dia recusam o tema, não o fazem por terem percebido a impotência da razão para o tratar, mas por a sua razão não ser potente o bastante para sequer compreender o problema. O sorriso de desprezo é o do gladiador que olha o filósofo. Esquecemos o primeiro, e incensamos o segundo.

O que faz Duns Scoto? Ao contrário de São Tomás de Aquino, que dá uma grande importância a provas físicas, como a do primeiro motor, Duns Scoto demonstra segundo provas metafísicas, pela infinitude do ser. A capacidade de discernimento lógico que isto pressupõe é imensa, maior que a dos nossos contemporâneos. Mas, para além disto, e bem mais que isto no que nos interessa, é que sabe destrinçar muito bem as competências da razão das da revelação. O ser infinito, laborando com conceitos de metafísica, é acessível à razão humana. Não o da Incarnação que a transcendente.

Problema “meramente” metafísico, que fará sorri os gladiadores e os limpadores de arena que povoam o actual espaço público. Mas se bem atentarmos, desenvolve-se aqui algo que julgamos privilégio da nossa época. O pensamento funcional, operacional, que distingue instâncias de legitimidade. Certas coisas podem ser ditas em certos planos lógicos, mas não podem ser provadas ou são mesmo destituídas de sentido noutros. O que fez a ciência moderna foi apenas direccionar esta capacidade de pensar funcionalmente. O que faz o Direito que separa o que compete ao Direito do que compete à religião e a outras ordens sociais, mais não faz que glosar este tipo de pensamento.

Não me compete aqui analisar o pensamento de Duns Scoto. Porque desenvolvimentos semelhantes poderiam ser feitos em relação a Pedro Abelardo, a São Tomás de Aquino, ou a Henrique de Gand. Porque não é este o lugar para analisar a filosofia medieval. No que me interessa agora o que importa salientar é o que releva deste pensamento para o actual espaço público.

Os modernos (conceito criado na Idade Média, e pelos escolásticos, nunca é demais salientar) acham que vivem num mundo cheio de novidades, que superou todos os resquícios medievais do negrume, do obscurantismo, dos horrores dessa época infame em que só se cometeram crimes, como as cruzadas e a inquisição. Os lugares comuns mais torpes se desenvolvem na matéria. Mas como todos os ignorantes de História, para além de virem a ser ignorados por ela, cobrem-se de ridículo.

Com efeito, é a mesma técnica que cria o laicismo, o pensamento funcional, que é herança da escolástica medieval. É o mesmo pensamento funcional que sustenta o discurso nas ciências, e de modo mais insistente ainda, nas ciências sociais. Os laicos, os obcecados coma ciência, herdaram não só conceitos medievais (subjectivo e objectivo, inércia, por exemplo), como sobretudo são devedores deste pensamento medieval.

Herdaram do pensamento medieval a separação entre o principado e o sacerdócio, entre o Estado e a Igreja, tendência que se encontra no longo prazo na História europeia, embora de forma muito menos uniforme do que certas esperanças acalentam.

Herdaram desta Idade Média não apenas grande parte do seu vocabulário filosófico, erudito, científico, como critérios científicos ainda hoje em dia fundantes (a navalha de Occam, por exemplo), mas também o Direito, a maneira de pensar o mundo. Seja qual for a religião ou falta dela de um europeu actual, se quiser falar uma língua europeia e não um dialecto menor, não tem outro remédio e não ir buscar ao vocabulário destes pensadores cristãos medievais.

O que começou por ser uma operação acaba por ser um esquecimento, e não vejo nenhum mérito em pura e simplesmente esquecer. Esquecer é sempre uma falência fisiológica, mesmo que seja útil como defesa do organismo. Começou-se por tentar depurar estes conceitos medievais da sua conotação cristã e pagã para dar ilusão de um mundo novo. Mas as palavras têm a sua própria força, a sua própria lógica, não podem ser arbitrariamente usadas. Se eu disser que um ministro é um rabanete será difícil que as pessoas acreditem que estou a fazer uma classificação meramente biológica credível.

O que pretendo com isto dizer é que sofremos de um duplo movimento. Não superámos, apenas depurámos o que vinha da Idade Média. Não fomos para além em muitos aspectos, apenas esquecemos. Depuração e esquecimento são duas ordens, uma meramente instrumental e outra de falência fisiológica. É esta a época que nos cobre. Uma época meramente instrumental em falência fisiológica, exactamente porque o instrumento, poderoso, é usado para fins que o são cada vez menos. Em que a defesa do esquecimento, de eficaz passa a mera falência de metabolismo.

É este o espaço público, em que os conceitos e os métodos são meramente fruídos e não vividos, e por isso mesmo não enriquecidos, exactamente porque a sua genealogia foi olvidada. As criaturas que o povoam são seres meramente instrumentais e em falência fisiológica. Daí que não nos devamos espantar que à expressão tenha sucedido o esgar e ao discurso o balbuciamento. Anestesiados que estamos pelo hábito, já entendemos como natural esta linguagem e esta postura. Mas se bem virmos, estas criaturas mais não são que meros portadores das suas inevitabilidades, das suas tristes sinas e de uma Idade Média em versão apodrecida, sem viço, de onde se alimentam e para onde cospem. É essa mistela de que se alimentam. Não é de estranhar que a sua digestão seja dolorosa, e o seu aspecto seja repugnante para alguém com critério.


Alexandre Brandão da Veiga

 










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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Força Interior


Estou em crer que o desencontro entre governantes e governados tem por base as personalidades do Primeiro-ministro e do Ministro das Finanças, mais do que as matérias políticas. Se assim não fosse, haveria maior debate sobre as medidas alternativas, sobre montantes a cobrar e a poupar, ou sobre a amplitude do binómio consolidação / crescimento. Todos sabem que o caminho é estreito e a resposta à política orçamental está a ser feita pela revolta e não pela construção de novos rumos.
Mas, como digo, essa revolta é alimentada por um desencontro diferente: Passos Coelho e Carlos Gaspar são homens do Interior. O transmontano e o beirão estão habituados a resistir. Sempre correram distâncias para alcançar as luzes da Cidade. Estão treinados na provação e na resiliência. Por isso Gaspar sabe que não pode descansar antes de chegar à meta. E Passos não compreende, de maneira nenhuma, o comportamento de Paulo Portas.
Onde outros lêem teimosia, eles vêem resistência. Onde outros sentem a dúvida, eles pressentem pieguice. Onde outros identificam uma análise laboratorial do País, eles protagonizam a experiência concreta do Interior de Portugal. Como diria Leonardo Boff, todo o ponto de vista é a vista de um ponto.     

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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Ver ou fazer


Gostamos de milagres. Acreditamos em D. Sebastião, quer ele venha ou não. E preferimos a miragem de uma solução, a enfrentar os problemas de caras, com medo e coragem, como os miúdos que pegam toiros. Por isso inventamos, ciclicamente, palavras mágicas que vão do fomento ao investimento, do empreendedorismo ao desenvolvimento e que servem, sobretudo, para gastar dinheiro em poucos, a muitos iludindo.
O Governo está em contramão em relação a esta lei geral que aqui promulgo. As palavras-chave que evoca para garantir o milagre são: menos despesa e mais impostos, novos créditos a quem trabalha. Detenho-me em alguns exemplos do esforço já alcançado no corte da despesa:
  • 800 milhões nos consumos intermédios;
  • 1200 milhões na despesa com o pessoal;
  • 410 milhões em juros e encargos financeiros;
  • 150 milhões com a extinção de 139 fundações;
  • 180 milhões nas rendas na área da energia;
  • 250 milhões na renegociação dos contratos das PPP;
  • 380 milhões na saúde só com as farmacêuticas em medicamentos, sem prejuízo de cuidados médicos.
É importante expor as contas. Para verificar que o milagre se faz com dor, coragem e unidade. E continuar a pegar de caras, ultrapassando o medo.



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terça-feira, 16 de outubro de 2012

O impulso organizado


Ontem saí da Assembleia da República às dez para as oito da noite. As portas do parque estavam seladas e havia barras de metal vigiadas por alguns polícias com capacetes. A manifestação, marcada para as seis da tarde, mantinha-se residual apesar da convocatória «on-line», noticiada na rádio e na televisão, para milhares de portugueses. Os manifestantes olharam fixamente para o volante para saber quem conduzia. O carro onde seguia era pequeno e está amolgado e, naturalmente, não me conheciam. Amainaram assim o olhar persecutório.
Mais à frente, a passagem estava barrada com um piquete e uma tarja que dizia «Chulos!». Não gostei. Disse que não com a mão. «Se não chulas, vem para já para aqui!!!» gritou uma mulher, sem sair da frente. Abri o vidro e respondi: «Faço o que quiser!». Desviaram-se. Mas, dez minutos depois, às oito em ponto, para o directo da TV, deram início à violência contra a polícia. Resultado: 10 polícias feridos mais 1 manifestante. Título da manhã: «Onze feridos», sem discriminar nas letras gordas que dez eram polícias.
A perícia mobilizadora, intimidatória e de divulgação estão coordenadas. No mesmo registo de instigação à violência - como assinalou o PM no último debate quinzenal - alinha o discurso de quem fala de roubo ou assalto à mão armada, dentro e fora do PCP.
Hoje pensei não trazer o carro para não ter de furar piquetes. Trouxe. Não abro o vidro nem respondo. Ou talvez o faça. Porque não quero ser intimidada na Casa da Liberdade. A tática funciona.

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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Estamos prontos?


Na vida, como na literatura, diz-se que são precisas várias gerações para saber perder ou nunca ter tido nada para aguentar não ganhar.
Mas nem sempre é assim. Uma guerra, um exílio ou outra calamidade ajudam à resiliência sem queixume nem revolta. As Alemanhas reergueram-se da II Guerra Mundial como a Espanha ressurgiu das cinzas da Guerra Civil. O mesmo se diga do Japão, do Vietnam, do Chile, da Irlanda, da Polónia ou da África do Sul. O «impulso negativo» da má memória ajudou os povos na provação. Do mesmo modo, a nível pessoal, um desgosto maior, como a doença ou a morte de um filho, «prepara» e relativiza qualquer desventura.
Em Portugal, estamos ainda vitoriosos com as conquistas de 74 e vivemos um bem-estar fixado pela solidez do euro, pelos fundos europeus e pelas ilusões do crédito das últimas décadas.
Não estamos, por isso, preparados para perder o que quer que seja nem temos uma percepção de calamidade que nos ajude a reagir sem revolta. A cultura do País é a de um novo-riquismo nunca dantes experimentado que não comporta a falta do carro individual, da casa própria ou do restaurante várias vezes ao mês. Estaremos prontos para andar a pé ou de comboio, para arrendar casa e para cozinhar, como sempre? 





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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Para que servem as línguas mortas?

Lembro-me que um conhecido meu, quando se decidiu a fazer o curso de Letras na Universidade Clássica de Lisboa, teve de aprender latim. Estava a fazer filologia românica, ou como se chamará agora, e quem estabeleceu o currículo entendeu, e bem, que não era concebível alguém fazer um curso de Letras sem saber latim.

Até aqui aplaudo o ensejo. O problema é que o método de aprendizagem do latim era o das línguas vivas. Aprendiam latim como se fosse uma língua viva. O resultado é que na terceira declinação não sabiam distinguir as palavras de tema em “i” das de tema em consoante, o que obedece a regras elementares, mas essenciais para não se darem calinadas nos genitivos do plural. “Puella est pulchra”, “pulchra est puella”, “a rapariga é bonita” – e ficava-se por aqui o que ele aprendia.

Quando decidi aprender latim não tinha a expectativa de me encontrar num autocarro com um turista romano a quem tivesse de indicar um hotel. Nem sequer tinha a ilusão que numa reunião internacional me pudesse servir de língua veicular. Bem vistas as coisas, aprendi-o por pura inutilidade. Como dizia a minha antiga professora de latim, quando umas alunas tiveram a triste ideia de lhe perguntar para que servia aprender latim: para nada, não serve para cultivar batatas.

Mas vou tentar responder a esta questão e ver que implicações tem no espaço público europeu.

As línguas mortas têm para mim duas vantagens: estão mortas e são as que são, as que temos disponíveis.

A primeira vantagem parece paradoxal. Que vantagem traz a morte? Os leitores de biografias, género que os franceses e ingleses cultivam melhor que ninguém, mas em Portugal praticamente inexiste, sabem que a biografia de uma personagem morta tem uma imensa vantagem: pode-se saber a vida completa dessa personagem. O problema das autobiografias é que nunca nos contam a história toda. Nas feitas por terceiros, conhecemos o percurso desde o nascimento até à morte. Aquele conjunto faz sentido. É a diferença de tentar apanhar um comboio em andamento ou visitar um comboio parado mas com um longo percurso.

Aprender uma língua morta tem assim a vantagem de podermos fazer balanços, senão definitivos, o que seria sempre temerário, pelo menos mais completos. É sempre uma reflexão sobre a mortalidade.

Em segundo lugar, as línguas mortas que nos são mais disponíveis são o que são. Não me refiro obviamente ao sânscrito ou ao hitita, quase impossível de aprender sem livros alemães, franceses ou ingleses. Por mais apaixonantes que sejam estas línguas, e por mais que com elas se possa aprender, nomeadamente sobre o nosso passado indo-europeu comum.

Refiro-me ao latim e ao grego. Uma durante mais de dois mil anos estruturante da nossa cultura em continuidade, outra estruturante ainda há mais tempo, mas em continuidade sobretudo nos últimos quinhentos anos. Começam por ser a base do nosso vocabulário científico e filosófico. Ninguém pode ter nenhuma noção profunda do que é a nossa cultura sem ter algumas bases nestas línguas. Conheço pessoas que se exercem no cálculo infinitesimal com uma destreza infinitamente maior que a minha (não será difícil) mas que nunca pararam um segundo para pensar que o símbolo de integral é um “S” que vem de “summa” em latim. Ou que o estomatologista mais não é que um cientista da boca.

O exercício da língua é outro aspecto que beneficia dessa aprendizagem. As orações infinitivas quase desapareceram da prática porque não há memória do latim. E o misterioso uso de palavras gregas no português vulgar como “cara” e “cada” não suscita nenhuma curiosidade. As línguas mortas permitem-nos reflectir, ter interrogações sobre o que dizemos. E como comunicamos em geral dizendo, vê-se assim como se estreita o espaço das interrogações, da curiosidade, hoje em dia.

Mas também cultiva a abertura e a elasticidade: o latim e o grego são, em termos muito diversos, línguas simultaneamente muito rigorosas e muito diferentes das nossas. A sua estrutura morfológica e sintáctica obriga-nos a reconhecer a legitimidade de outras realidades, de outras culturas. E o seu estudo aprofundado obriga-nos a uma abertura infinitamente maior à diferença que viagens turísticas a países não europeus como o Burkina-Faso ou a Turquia. A viagem meramente turística obriga-nos apenas a dizer “obrigado” ou “boa tarde”. Em suma “pulcher est puella”. Aprendemos umas banalidades, como vamos a restaurantes exóticos, com comida adaptada a turistas. Aprender latim e grego implica percebermos que povos que pensavam de maneiras muito diversas de nós, se exprimiam de modo bem diverso do nosso, eram capazes de elaborar de forma tão ou mais consistente que a nossa.

Permite igualmente o acesso. Muitas das fontes mais importantes da nossa cultura perdem com a tradução. Mais não são que comida chinesa com tempero adaptado ao gosto europeu. Ver que conceitos, que estruturas frásicas usava Séneca não é indiferente para nele se reconhecer um irmão ou pelo menos um primo do cristianismo. Saborear a Vulgata latina ou a versão grega da Bíblia não é substituído por nenhuma tradução, por mais perfeita que seja. Permite portanto o acesso, mas também o rigor.

De comum a todos os políticos e homens públicos até há 40 anos o facto de todos terem pelo menos um verniz desta cultura clássica. Isso não os impediu de cometer erros, porque eram humanos. Mas permitia-lhes enquadrar num quadro mais vasto a sua perspectiva. Não seriam menos mentirosos, mas sabiam melhor no que mentiam. Confesso que me preocupam mais os que não mentem apenas porque acreditam nas patetices superficiais que constituem a sua pobre cultura.

Que relevância para a política? É fácil de se ver (um supino absoluto, para os cultores do latim, já agora).

Desconhecendo línguas mortas falta-lhes a ideia de um quadro completo, e um instrumento importante para reflectir sobre a mortalidade. Não é de espantar que a imperfeição do que fazem ou o preço mortal que podem fazer pagar não se lhes suscite sequer como problema.

Desconhecendo latim e grego, acreditam piamente em qualquer disparate que lhes venha à cabeça, porque desconhecem o quadro de forças em que se integram. Usam as palavras sem lhes perceber o significado profundo, estão no plano do cavador de enxada que nada sabe de física. Podem ser eficazes no curto prazo, mas são incapazes de inventar maquinaria mais potente. A sua linguagem é pobre, repetitiva, ladainha dos mesmos lugares comuns. Pouco nos dizem. São destituídos de real abertura e de elasticidade. São rígidos. Como desconhecem modos alternativos de se ser, vivem na mesma planura e tomam por montanha qualquer montículo. Social e culturalmente, não estão habituados a ter acesso às coisas. Nem rigor. Aceder a um salão exige sempre rigor. Estão habituados a ficar à porta, a não entrar. Não querem que os outros entrem, em consequência. Sobretudo acreditam em qualquer tontice que lhes passe pela cabeça, ou da cabeça de pessoas em quem tenham confiança. Nunca omitem, porque isso seria sinal que lhes sobra. E se mentem, fazem-no pouco, pelo menos intencionalmente. O espaço público está inundado assim de verdades, ou melhor, de excesso de sinceridades, que vivem apenas da falta de alternativa. Sem mérito, portanto. Se se pusessem a aprender latim e grego, e agora pisco o olho para os dotados de sentido prático, teriam ao menos o mérito de se ocuparem com outras coisas. Para as quais não são igualmente dotados, mas em que produziriam efeitos menos nefastos para os outros.


Alexandre Brandão da Veiga







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