quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Justiça e informação


A direcção da RTP demitiu-se por quebra de confiança na sua palavra num circuito confuso entre a Administração e a Redacção. Entendo. A confiança é basilar num órgão de informação e a palavra da direcção da RTP deve ser respeitada.
Outro assunto é a recusa da RTP de cedência de imagens e, por isso, a recusa em colaborar com a Justiça na procura de criminosos que apedrejaram a polícia durante uma hora e meia.
É dever de cidadania colaborar com as autoridades no exercício da Justiça. É dever do jornalista não tomar partido nos acontecimentos de que faz a cobertura. Reter «os brutos» - filmes não editados - não é defender as fontes. A Lei é clara sobre os direitos à imagem no espaço público. Por isso as vedetas têm poucas defesas na devassa da sua vida privada, em relação à imprensa cor-de-rosa.
Parece-me claro que a RTP deve ceder imagens sempre que houver criminosos em fuga. E que, ao recusar-se a fazê-lo, deve ser questionada pelo embuste em que colabora deliberadamente.

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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Estados de alma


«O Senhor Ministro não se sente só?».
A pergunta, feita ao Ministro das Finanças já no final da conferência de imprensa do VI Exame Regular da Troika, deixou Gaspar impávido, como é. A questão era política. Mas podia dar uma resposta pessoal, como aconteceu, sem a intimidade pedida: «Não sou dado a introspecções e não falo de estados de alma».
Nem este é o tempo para o colectivo  «despertar do desejo absurdo de sofrer» de que Cesário Verde falava no Sentimento Ocidental. Também Victor Bento hoje, no meio de uma conferência crua sobre a situação actual, acrescentou: «O meu pessimismo tem abertura para a esperança». Por aí avançamos.

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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O preconceito da ordem

Às vezes, olhamos para a realidade como quem procura um bilhete num contador da Índia: vamos abrindo as gavetas independentes e esquecemos que houve uma mão que as arrumou e que o conteúdo pode ter vindo todo do mesmo lugar. Nesses casos, a separação estanque do móvel é tão artificial como a nossa leitura organizada.
O papel da CGTP, nos confrontos de ontem, no Parlamento beneficia dessa classificação. Higienicamente, a central sindical exerceu o direito à greve e o direito à manifestação. Terá informado as autoridades sobre a iniciativa, como é de lei.  Quando os desacatos começaram, um dos seus homens interrompeu oportunamente uma entrevista porque não queria participar «daquilo».
O coro dos comentadores louvaria a civilidade da CGTP e a colecção de direitos em presença, integrando os «rojos» na Democracia, como em Novembro de 75. Para trás ficavam as palavras incendiárias do líder da CGTP - como lembra Paulo Gaião no Expresso: «Se o governo não ouve bem, ouve a mal»; «O tempo dirá se Portugal imita a violência da Grécia». A maioria dos media veículou a ideia de que a Central até tinha propostas concretas para colaborar com o Governo numa solução melhor para Portugal.
Não há inocentes nesta história. Os estivadores e a CGTP conhecem o clima de incerteza e frustração e exploram a situação a seu favor. Acicatam as hostes sabiamente para - com ar ingénuo e sonso e falso e perigoso - surgirem como arautos dos valores de Abril e da construção de uma democracia melhor.
Já vi este filme. E sei que não é ficção.










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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Alguém me explica?


Visitar a única capital que vive em dois Continentes, (Ásia e Europa); viajar pela cidade senhora de dois longos e imensos impérios (Bizantino e Otomano); sentir o ponto onde a Europa pode não ter fronteira directa com o Irão; medir, na largura do Bósforo, a dependência do contacto da Rússia com o Sul Ocidental - é esperar um pólo de poder com correspondência no desenho urbano.
E nada disso acontece. Bizâncio, Nova Roma, Constantinopla, Istambul - o que se queira chamar - é um mercado de rua interrompido por mesquitas magníficas, cercado por muralhas antigas, que lá escondem um palácio «internista», com harém e outras riquezas duras e brilhantes - como as pedras boas - sem uma única praça imperial onde assistir a um desfile militar ou festejar uma taça de futebol. 
É claro que o sultanato se modernizou no século XIX com algumas avenidas, zonas verdes e lojas de preço fixo. É evidente que a refundação laical de Ataturk reforçou o poder da cidade onde tudo é, e deixa de ser, Ocidental. E até hoje a diplomacia da Porta Sublime transforma a Turquia num ponto que não entra nem sai da agenda de integração europeia e no membro europeu mais insubstituível da NATO.  
Mas, no preconceito de quem só conhecia a História, esperava o desenho de uma cidade imperial. Que não existe.

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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Indignai-vos?




Está na moda a indignação. Uma criatura simpática passeando a sua adorável insuficiência intelectual apresenta-nos um livro do alto da sua autoridade moral, algo fenecida pelos anos, com o título “indignai-vos”. E as pessoas vão nas ruas passeando pela trela a sua indignação.

Estamos já habituados a que os livros não carreiem ideias, mas apenas o que vai andando por tripas das pessoas. Mas existem situações em que a dissimulação esconde que se passaram limites. A insatisfação pode ser legítima, fica no entanto muito aviltada quando sofre enunciação tão pobre. Num espaço onde escasseiam as ideologias racionais, por mais vazias que se tenham tornado, pululam discursos sentimentais de toda a natureza, ou melhor, apenas emotivos. Puxando à emoção.

A injunção, o imperativo, surge na literatura sempre que as pessoas querem criar acção através da palavra. Em si, o facto não é novo, nem pecaminoso. Tanto melhor se alguém quer criar acção. A questão é a de saber qual.

Não me alimento apenas de sabedoria antiga, mas não cometo o erro simétrico de a descurar completamente. As várias gerações de homens que passaram por esta Terra não eram todas estúpidas, bem pelo contrário. E atrevo-me a pensar que em muitos casos eram muito mais inteligentes que, não apenas a maioria das pessoas da nossa época, mas superiores em muitos casos ao melhor que a nossa época produz.

Mas não preciso sequer partir desta premissa. Bastemo-nos com um exemplo. Um autor antigo, do séc. I a.C., chamado Aelius Theon, escreveu um tratado de retórica, muito apreciado ao longo dos séculos. Não tem a completude de um Quintiliano nem a originalidade de um Aristóteles, é certo. É uma espécie de manual escolar. Não é um génio. É o que hoje em dia se chamaria apenas de professor catedrático com assento pedagógico. Mas, por vezes, um simples professor catedrático consegue ter um sucesso secular. É raro que aconteça, mas pode acontecer.

O seu tratado de retórica era dos mais lidos na antiguidade, embora hoje em dia seja esquecido do público comum. Uma das impressionantes lições que dele retirei – porque ele não é grande criador, mas sintetiza séculos de sabedoria incorporada na retórica – é muito simples: os discursos de indignação são discursos de ódio.

Alguma atenção me tem de criar este aviso: estarão a incitar ao ódio toda uma geração?

Vejamos mais fundo.

Quando se incita à revolta, está a dar-se uma injunção para a acção. A finalidade do mundo futuro pode não estar desenhado, mas a acção pretende ter efeitos, mesmo que sejam negativos. Acabar com um mundo antigo, ou ao menos com partes desse mundo antigo.

Pode-se ar mais um passo em frente, e ter um projecto, mais ou menos messiânico, de um mundo futuro. Nesse caso, a exortação à acção implica destruir algo de antigo e construir algo de novo - os liberalismos e marxismos vários fizeram parte deste complexo de atitudes.

Seja. Mas basta para a análise?

Não. Pode-se exigir uma acção que é meramente interior. A exortação do “Acordai” de José Gomes Ferreira e Lopes Graça tem a sua beleza mas é vazia quanto à acção a seguir, não fora um contexto e chaves de leitura que se dão por adquiridos. Em si mesmo, apenas manda acordar, tomar consciência, não entorpecer. Só isso poderia ser perigoso para um regime, porque seja o que viesse a seguir seria forçosamente negativo para ele. Mas, nesse contexto, embora vazia em si mesmo, a exortação pode ser eficaz como um primeiro passo.

Indignai-vos? Onde se situa esta exortação?

Demos mais um passo.

Quem exorta à indignação está a dizer: merecem mais e melhor. A vossa situação está baixo de vós. Sois dignos e há o que está abaixo de vós é indigno. Daí a palavra de indignação. O que pode ser um bom dito e provavelmente justo. Mas, em boa verdade, exige alguma presunção. Porque quem aceita esse mandamento está a dizer: eu sou melhor que... Melhor que a situação que me rodeia, melhor que outros seres humanos (sejam os capitalistas, os políticos ou quem seja). Sou melhor que o meu actual destino.

Seja, mais uma vez. Pode ser justo. Estamos perante pessoas superiores. Superiores a outros, superiores à sua situação.

Teremos então de saber se o seu restante discurso é consistente com esta noção de hierarquia. E para nossa surpresa dizem em geral que não existem hierarquias que não há lugar a hierarquias. Vejamos... Então existe ou não o melhor e o pior?

O movimento até poderá ter toda a razão. Não discuto isso aqui. Apenas tento perceber qual a sua dinâmica interna. E alguém considerar-se mais digno que outras coisas e outras pessoas, sem ao mesmo tempo aceitar a hierarquia das dignidades, vive pura e simplesmente na contradicção.

Pois que demos outro novo passo.

Indignar-se para fazer o quê?

Aqui mais uma vez a exortação é vazia quanto à acção. Mas não há contexto que torne inequívoca a mensagem. É-se contra várias coisas, por muitas razões diversas, e sem plano quanto ao que seja o futuro. Bem pior ainda, pode-se ser contra, mesmo sem querer destruir o sistema que nos provoca a revolta.

Poderão querer reformas? Sem dúvida. Mas entre as reformas que uns querem, as revoluções que outros pretendem e os remendos que ainda outros desejam há anos luz distância.

Assentemos pois a poeira.

Os antigos tinham razão quando diziam que os discursos de indignação são discursos de ódio. Quando se ficavam pela indignação não estabeleciam, por definição, qualquer medida de acção. Medida, mensuração, proporção. Deixavam aberta qualquer acção. É um discurso de ódio puro, seja a outras pessoas, seja a situações próprias ou alheias. Quem aceita um discurso de indignação apenas diz: Sou mais que... Qualquer coisa. Mereço mais, seja dos outros, seja da situação em que me encontro. É um discurso dirigido a quem tem presunções mas não está disposto a reflectir mais, nem comprometer-se com acções futuras. Nem tem propostas para destruir um mundo antigo e muito menos para construir um novo, por mais que uma e outra presunções sejam destituídas de real significado no final. Não aceita qualquer medida. Abre um espaço, rasga um horizonte que conduz a lugar nenhum, sem direcção. Pressupõe a hierarquia quando a nega ao mesmo tempo. Recusa a alternativa e não sabe o que dizer sobre a acção.

A maior parte das épocas não foram dirigidas por teorias sistemáticas vertidas em formas de catecismos, como aconteceu com os liberalismos e marxismos. Por isso, a nossa época não é em nada especial. É apenas um regresso à trivialidade do quotidiano histórico. Nisso não há problema. A questão é que as épocas dirigidas por uma teorização sistemática da acção percebem com maior acuidade o vazio de um discurso em relação a esta. As restantes, a maioria na História provavelmente, não tem a sensibilidade apurada para os vácuos de acção nos discursos.

Indignai-vos? Compreensível movimento. Há sentimentos insatisfeitos e muito legitimamente. Mas indignar-se é apenas presunção de quem quer odiar livremente sem ter com isso problemas, num mundo sem hierarquias, onde se pode sentir hierarquicamente superior para chegar a acção nenhuma. Apelam ao seu sentimento e ele dá o que tem resguardado: o ódio. E a inacção.





Alexandre Brandão da Veiga







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terça-feira, 30 de outubro de 2012

Pobres medievais

Há circunstâncias nesta vida em que temos de fazer um mea culpa. Sempre gostei de todas as épocas da História europeia, mas não dei a devida apreciação à cultura de cada uma deles. Mais vocacionado para a cultura do mundo antigo e a cultura científica, digamos assim para simplificar, descurei em grande medida o que era específico da cultura medieval.

Muitas vezes ouvimos falar da riqueza e profundidade desta e doutra cultura. Em boa verdade não há programa que refira povos exóticos que se esqueça de nos lembrar como é profunda a sua cultura. Ora, como a cultura se mede pelas obras, uma pessoa de bom senso perguntar-se-á imediatamente onde estão essa obras tão diferentes, tão inesperadas.

Rapidamente somos desiludidos. Vemos umas criaturas a pintar-se, ou pulam, ou gritam. Por vezes há um rasgo de génio. Há povos que têm uma obra digna desse nome, outros que apenas se reduziram a ser o que são, o que deve ser bom para eles, admito, mas que nos deixa indiferentes, ou deveria deixar a quem mantenha alguma sanidade mental.

Observei com a mesma postura a dado momento a cultura medieval. Tanto quanto nunca acreditei nos que a chamam de subdesenvolvida em comparação com a sofisticação árabe, chinesa, persa, enfim qualquer cultura não europeia, de igual modo nunca levei muito a sério os que se extasiavam com algumas obras francamente primárias da poesia medieval, ou a igualmente recorrente referência às maravilhas da filosofia da Idade Média.

Muitos destes panegíricos pareciam mera rotina académica. Se alguém estuda um povo, uma época, tende com frequência a demonstrar como são extraordinários, como têm ou tinham o que nós já não temos ou nunca fomos capazes de ter. O “nós” aqui, é evidente, são os europeus. Como toda a gente sabe o pior povo e cultura do mundo. Pelo menos é o que corre. Por isso os elogios à cultura medieval pareciam-me a mim algo forçados.

E a verdade, pensa o cidadão comum, é que eles não tomavam banho todos os dias, não usavam telemóveis, não andavam de avião. Uns atrasados, pobres deles. O facto de estas verdades serem aplicáveis a quase todos os povos da época não comove os admiradores de exotismo. Compreende-se. É que perceberam que os critérios da cultura europeia são tão exigentes que nunca os poderão preencher e portanto refugiam-se em culturas que não estão em posição de os julgar.

Da parte que me toca não julgo obras antigas com indulgência. Parece-me um insulto aos mortos. Devo-lhes suficiente respeito para os analisar pelo crivo mais exigente que me é possível. Só assim posso perceber a eventual perenidade do seu valor.

Poderia pegar num ou noutro exemplo. Seriam imensos. Mas tomarei como lição a obra de Duns Scoto. Filósofo contemporâneo de São Tomás de Aquino, nele encontramos aspectos que são completamente descurados na nossa época. Qual o grande tema de preocupação? A prova da existência de Deus. Tema ridículo, fora de moda. Mas, como dizia o seu grande estudioso, Etienne Gilson, só despreza esta questão quem nega à partida qualquer espécie de demonstração racional da Sua existência. Ora dá-se o caso, conjecturo eu, de que as pessoas que hoje em dia recusam o tema, não o fazem por terem percebido a impotência da razão para o tratar, mas por a sua razão não ser potente o bastante para sequer compreender o problema. O sorriso de desprezo é o do gladiador que olha o filósofo. Esquecemos o primeiro, e incensamos o segundo.

O que faz Duns Scoto? Ao contrário de São Tomás de Aquino, que dá uma grande importância a provas físicas, como a do primeiro motor, Duns Scoto demonstra segundo provas metafísicas, pela infinitude do ser. A capacidade de discernimento lógico que isto pressupõe é imensa, maior que a dos nossos contemporâneos. Mas, para além disto, e bem mais que isto no que nos interessa, é que sabe destrinçar muito bem as competências da razão das da revelação. O ser infinito, laborando com conceitos de metafísica, é acessível à razão humana. Não o da Incarnação que a transcendente.

Problema “meramente” metafísico, que fará sorri os gladiadores e os limpadores de arena que povoam o actual espaço público. Mas se bem atentarmos, desenvolve-se aqui algo que julgamos privilégio da nossa época. O pensamento funcional, operacional, que distingue instâncias de legitimidade. Certas coisas podem ser ditas em certos planos lógicos, mas não podem ser provadas ou são mesmo destituídas de sentido noutros. O que fez a ciência moderna foi apenas direccionar esta capacidade de pensar funcionalmente. O que faz o Direito que separa o que compete ao Direito do que compete à religião e a outras ordens sociais, mais não faz que glosar este tipo de pensamento.

Não me compete aqui analisar o pensamento de Duns Scoto. Porque desenvolvimentos semelhantes poderiam ser feitos em relação a Pedro Abelardo, a São Tomás de Aquino, ou a Henrique de Gand. Porque não é este o lugar para analisar a filosofia medieval. No que me interessa agora o que importa salientar é o que releva deste pensamento para o actual espaço público.

Os modernos (conceito criado na Idade Média, e pelos escolásticos, nunca é demais salientar) acham que vivem num mundo cheio de novidades, que superou todos os resquícios medievais do negrume, do obscurantismo, dos horrores dessa época infame em que só se cometeram crimes, como as cruzadas e a inquisição. Os lugares comuns mais torpes se desenvolvem na matéria. Mas como todos os ignorantes de História, para além de virem a ser ignorados por ela, cobrem-se de ridículo.

Com efeito, é a mesma técnica que cria o laicismo, o pensamento funcional, que é herança da escolástica medieval. É o mesmo pensamento funcional que sustenta o discurso nas ciências, e de modo mais insistente ainda, nas ciências sociais. Os laicos, os obcecados coma ciência, herdaram não só conceitos medievais (subjectivo e objectivo, inércia, por exemplo), como sobretudo são devedores deste pensamento medieval.

Herdaram do pensamento medieval a separação entre o principado e o sacerdócio, entre o Estado e a Igreja, tendência que se encontra no longo prazo na História europeia, embora de forma muito menos uniforme do que certas esperanças acalentam.

Herdaram desta Idade Média não apenas grande parte do seu vocabulário filosófico, erudito, científico, como critérios científicos ainda hoje em dia fundantes (a navalha de Occam, por exemplo), mas também o Direito, a maneira de pensar o mundo. Seja qual for a religião ou falta dela de um europeu actual, se quiser falar uma língua europeia e não um dialecto menor, não tem outro remédio e não ir buscar ao vocabulário destes pensadores cristãos medievais.

O que começou por ser uma operação acaba por ser um esquecimento, e não vejo nenhum mérito em pura e simplesmente esquecer. Esquecer é sempre uma falência fisiológica, mesmo que seja útil como defesa do organismo. Começou-se por tentar depurar estes conceitos medievais da sua conotação cristã e pagã para dar ilusão de um mundo novo. Mas as palavras têm a sua própria força, a sua própria lógica, não podem ser arbitrariamente usadas. Se eu disser que um ministro é um rabanete será difícil que as pessoas acreditem que estou a fazer uma classificação meramente biológica credível.

O que pretendo com isto dizer é que sofremos de um duplo movimento. Não superámos, apenas depurámos o que vinha da Idade Média. Não fomos para além em muitos aspectos, apenas esquecemos. Depuração e esquecimento são duas ordens, uma meramente instrumental e outra de falência fisiológica. É esta a época que nos cobre. Uma época meramente instrumental em falência fisiológica, exactamente porque o instrumento, poderoso, é usado para fins que o são cada vez menos. Em que a defesa do esquecimento, de eficaz passa a mera falência de metabolismo.

É este o espaço público, em que os conceitos e os métodos são meramente fruídos e não vividos, e por isso mesmo não enriquecidos, exactamente porque a sua genealogia foi olvidada. As criaturas que o povoam são seres meramente instrumentais e em falência fisiológica. Daí que não nos devamos espantar que à expressão tenha sucedido o esgar e ao discurso o balbuciamento. Anestesiados que estamos pelo hábito, já entendemos como natural esta linguagem e esta postura. Mas se bem virmos, estas criaturas mais não são que meros portadores das suas inevitabilidades, das suas tristes sinas e de uma Idade Média em versão apodrecida, sem viço, de onde se alimentam e para onde cospem. É essa mistela de que se alimentam. Não é de estranhar que a sua digestão seja dolorosa, e o seu aspecto seja repugnante para alguém com critério.


Alexandre Brandão da Veiga

 










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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Força Interior


Estou em crer que o desencontro entre governantes e governados tem por base as personalidades do Primeiro-ministro e do Ministro das Finanças, mais do que as matérias políticas. Se assim não fosse, haveria maior debate sobre as medidas alternativas, sobre montantes a cobrar e a poupar, ou sobre a amplitude do binómio consolidação / crescimento. Todos sabem que o caminho é estreito e a resposta à política orçamental está a ser feita pela revolta e não pela construção de novos rumos.
Mas, como digo, essa revolta é alimentada por um desencontro diferente: Passos Coelho e Carlos Gaspar são homens do Interior. O transmontano e o beirão estão habituados a resistir. Sempre correram distâncias para alcançar as luzes da Cidade. Estão treinados na provação e na resiliência. Por isso Gaspar sabe que não pode descansar antes de chegar à meta. E Passos não compreende, de maneira nenhuma, o comportamento de Paulo Portas.
Onde outros lêem teimosia, eles vêem resistência. Onde outros sentem a dúvida, eles pressentem pieguice. Onde outros identificam uma análise laboratorial do País, eles protagonizam a experiência concreta do Interior de Portugal. Como diria Leonardo Boff, todo o ponto de vista é a vista de um ponto.     

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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Ver ou fazer


Gostamos de milagres. Acreditamos em D. Sebastião, quer ele venha ou não. E preferimos a miragem de uma solução, a enfrentar os problemas de caras, com medo e coragem, como os miúdos que pegam toiros. Por isso inventamos, ciclicamente, palavras mágicas que vão do fomento ao investimento, do empreendedorismo ao desenvolvimento e que servem, sobretudo, para gastar dinheiro em poucos, a muitos iludindo.
O Governo está em contramão em relação a esta lei geral que aqui promulgo. As palavras-chave que evoca para garantir o milagre são: menos despesa e mais impostos, novos créditos a quem trabalha. Detenho-me em alguns exemplos do esforço já alcançado no corte da despesa:
  • 800 milhões nos consumos intermédios;
  • 1200 milhões na despesa com o pessoal;
  • 410 milhões em juros e encargos financeiros;
  • 150 milhões com a extinção de 139 fundações;
  • 180 milhões nas rendas na área da energia;
  • 250 milhões na renegociação dos contratos das PPP;
  • 380 milhões na saúde só com as farmacêuticas em medicamentos, sem prejuízo de cuidados médicos.
É importante expor as contas. Para verificar que o milagre se faz com dor, coragem e unidade. E continuar a pegar de caras, ultrapassando o medo.



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terça-feira, 16 de outubro de 2012

O impulso organizado


Ontem saí da Assembleia da República às dez para as oito da noite. As portas do parque estavam seladas e havia barras de metal vigiadas por alguns polícias com capacetes. A manifestação, marcada para as seis da tarde, mantinha-se residual apesar da convocatória «on-line», noticiada na rádio e na televisão, para milhares de portugueses. Os manifestantes olharam fixamente para o volante para saber quem conduzia. O carro onde seguia era pequeno e está amolgado e, naturalmente, não me conheciam. Amainaram assim o olhar persecutório.
Mais à frente, a passagem estava barrada com um piquete e uma tarja que dizia «Chulos!». Não gostei. Disse que não com a mão. «Se não chulas, vem para já para aqui!!!» gritou uma mulher, sem sair da frente. Abri o vidro e respondi: «Faço o que quiser!». Desviaram-se. Mas, dez minutos depois, às oito em ponto, para o directo da TV, deram início à violência contra a polícia. Resultado: 10 polícias feridos mais 1 manifestante. Título da manhã: «Onze feridos», sem discriminar nas letras gordas que dez eram polícias.
A perícia mobilizadora, intimidatória e de divulgação estão coordenadas. No mesmo registo de instigação à violência - como assinalou o PM no último debate quinzenal - alinha o discurso de quem fala de roubo ou assalto à mão armada, dentro e fora do PCP.
Hoje pensei não trazer o carro para não ter de furar piquetes. Trouxe. Não abro o vidro nem respondo. Ou talvez o faça. Porque não quero ser intimidada na Casa da Liberdade. A tática funciona.

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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Estamos prontos?


Na vida, como na literatura, diz-se que são precisas várias gerações para saber perder ou nunca ter tido nada para aguentar não ganhar.
Mas nem sempre é assim. Uma guerra, um exílio ou outra calamidade ajudam à resiliência sem queixume nem revolta. As Alemanhas reergueram-se da II Guerra Mundial como a Espanha ressurgiu das cinzas da Guerra Civil. O mesmo se diga do Japão, do Vietnam, do Chile, da Irlanda, da Polónia ou da África do Sul. O «impulso negativo» da má memória ajudou os povos na provação. Do mesmo modo, a nível pessoal, um desgosto maior, como a doença ou a morte de um filho, «prepara» e relativiza qualquer desventura.
Em Portugal, estamos ainda vitoriosos com as conquistas de 74 e vivemos um bem-estar fixado pela solidez do euro, pelos fundos europeus e pelas ilusões do crédito das últimas décadas.
Não estamos, por isso, preparados para perder o que quer que seja nem temos uma percepção de calamidade que nos ajude a reagir sem revolta. A cultura do País é a de um novo-riquismo nunca dantes experimentado que não comporta a falta do carro individual, da casa própria ou do restaurante várias vezes ao mês. Estaremos prontos para andar a pé ou de comboio, para arrendar casa e para cozinhar, como sempre? 





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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Para que servem as línguas mortas?

Lembro-me que um conhecido meu, quando se decidiu a fazer o curso de Letras na Universidade Clássica de Lisboa, teve de aprender latim. Estava a fazer filologia românica, ou como se chamará agora, e quem estabeleceu o currículo entendeu, e bem, que não era concebível alguém fazer um curso de Letras sem saber latim.

Até aqui aplaudo o ensejo. O problema é que o método de aprendizagem do latim era o das línguas vivas. Aprendiam latim como se fosse uma língua viva. O resultado é que na terceira declinação não sabiam distinguir as palavras de tema em “i” das de tema em consoante, o que obedece a regras elementares, mas essenciais para não se darem calinadas nos genitivos do plural. “Puella est pulchra”, “pulchra est puella”, “a rapariga é bonita” – e ficava-se por aqui o que ele aprendia.

Quando decidi aprender latim não tinha a expectativa de me encontrar num autocarro com um turista romano a quem tivesse de indicar um hotel. Nem sequer tinha a ilusão que numa reunião internacional me pudesse servir de língua veicular. Bem vistas as coisas, aprendi-o por pura inutilidade. Como dizia a minha antiga professora de latim, quando umas alunas tiveram a triste ideia de lhe perguntar para que servia aprender latim: para nada, não serve para cultivar batatas.

Mas vou tentar responder a esta questão e ver que implicações tem no espaço público europeu.

As línguas mortas têm para mim duas vantagens: estão mortas e são as que são, as que temos disponíveis.

A primeira vantagem parece paradoxal. Que vantagem traz a morte? Os leitores de biografias, género que os franceses e ingleses cultivam melhor que ninguém, mas em Portugal praticamente inexiste, sabem que a biografia de uma personagem morta tem uma imensa vantagem: pode-se saber a vida completa dessa personagem. O problema das autobiografias é que nunca nos contam a história toda. Nas feitas por terceiros, conhecemos o percurso desde o nascimento até à morte. Aquele conjunto faz sentido. É a diferença de tentar apanhar um comboio em andamento ou visitar um comboio parado mas com um longo percurso.

Aprender uma língua morta tem assim a vantagem de podermos fazer balanços, senão definitivos, o que seria sempre temerário, pelo menos mais completos. É sempre uma reflexão sobre a mortalidade.

Em segundo lugar, as línguas mortas que nos são mais disponíveis são o que são. Não me refiro obviamente ao sânscrito ou ao hitita, quase impossível de aprender sem livros alemães, franceses ou ingleses. Por mais apaixonantes que sejam estas línguas, e por mais que com elas se possa aprender, nomeadamente sobre o nosso passado indo-europeu comum.

Refiro-me ao latim e ao grego. Uma durante mais de dois mil anos estruturante da nossa cultura em continuidade, outra estruturante ainda há mais tempo, mas em continuidade sobretudo nos últimos quinhentos anos. Começam por ser a base do nosso vocabulário científico e filosófico. Ninguém pode ter nenhuma noção profunda do que é a nossa cultura sem ter algumas bases nestas línguas. Conheço pessoas que se exercem no cálculo infinitesimal com uma destreza infinitamente maior que a minha (não será difícil) mas que nunca pararam um segundo para pensar que o símbolo de integral é um “S” que vem de “summa” em latim. Ou que o estomatologista mais não é que um cientista da boca.

O exercício da língua é outro aspecto que beneficia dessa aprendizagem. As orações infinitivas quase desapareceram da prática porque não há memória do latim. E o misterioso uso de palavras gregas no português vulgar como “cara” e “cada” não suscita nenhuma curiosidade. As línguas mortas permitem-nos reflectir, ter interrogações sobre o que dizemos. E como comunicamos em geral dizendo, vê-se assim como se estreita o espaço das interrogações, da curiosidade, hoje em dia.

Mas também cultiva a abertura e a elasticidade: o latim e o grego são, em termos muito diversos, línguas simultaneamente muito rigorosas e muito diferentes das nossas. A sua estrutura morfológica e sintáctica obriga-nos a reconhecer a legitimidade de outras realidades, de outras culturas. E o seu estudo aprofundado obriga-nos a uma abertura infinitamente maior à diferença que viagens turísticas a países não europeus como o Burkina-Faso ou a Turquia. A viagem meramente turística obriga-nos apenas a dizer “obrigado” ou “boa tarde”. Em suma “pulcher est puella”. Aprendemos umas banalidades, como vamos a restaurantes exóticos, com comida adaptada a turistas. Aprender latim e grego implica percebermos que povos que pensavam de maneiras muito diversas de nós, se exprimiam de modo bem diverso do nosso, eram capazes de elaborar de forma tão ou mais consistente que a nossa.

Permite igualmente o acesso. Muitas das fontes mais importantes da nossa cultura perdem com a tradução. Mais não são que comida chinesa com tempero adaptado ao gosto europeu. Ver que conceitos, que estruturas frásicas usava Séneca não é indiferente para nele se reconhecer um irmão ou pelo menos um primo do cristianismo. Saborear a Vulgata latina ou a versão grega da Bíblia não é substituído por nenhuma tradução, por mais perfeita que seja. Permite portanto o acesso, mas também o rigor.

De comum a todos os políticos e homens públicos até há 40 anos o facto de todos terem pelo menos um verniz desta cultura clássica. Isso não os impediu de cometer erros, porque eram humanos. Mas permitia-lhes enquadrar num quadro mais vasto a sua perspectiva. Não seriam menos mentirosos, mas sabiam melhor no que mentiam. Confesso que me preocupam mais os que não mentem apenas porque acreditam nas patetices superficiais que constituem a sua pobre cultura.

Que relevância para a política? É fácil de se ver (um supino absoluto, para os cultores do latim, já agora).

Desconhecendo línguas mortas falta-lhes a ideia de um quadro completo, e um instrumento importante para reflectir sobre a mortalidade. Não é de espantar que a imperfeição do que fazem ou o preço mortal que podem fazer pagar não se lhes suscite sequer como problema.

Desconhecendo latim e grego, acreditam piamente em qualquer disparate que lhes venha à cabeça, porque desconhecem o quadro de forças em que se integram. Usam as palavras sem lhes perceber o significado profundo, estão no plano do cavador de enxada que nada sabe de física. Podem ser eficazes no curto prazo, mas são incapazes de inventar maquinaria mais potente. A sua linguagem é pobre, repetitiva, ladainha dos mesmos lugares comuns. Pouco nos dizem. São destituídos de real abertura e de elasticidade. São rígidos. Como desconhecem modos alternativos de se ser, vivem na mesma planura e tomam por montanha qualquer montículo. Social e culturalmente, não estão habituados a ter acesso às coisas. Nem rigor. Aceder a um salão exige sempre rigor. Estão habituados a ficar à porta, a não entrar. Não querem que os outros entrem, em consequência. Sobretudo acreditam em qualquer tontice que lhes passe pela cabeça, ou da cabeça de pessoas em quem tenham confiança. Nunca omitem, porque isso seria sinal que lhes sobra. E se mentem, fazem-no pouco, pelo menos intencionalmente. O espaço público está inundado assim de verdades, ou melhor, de excesso de sinceridades, que vivem apenas da falta de alternativa. Sem mérito, portanto. Se se pusessem a aprender latim e grego, e agora pisco o olho para os dotados de sentido prático, teriam ao menos o mérito de se ocuparem com outras coisas. Para as quais não são igualmente dotados, mas em que produziriam efeitos menos nefastos para os outros.


Alexandre Brandão da Veiga







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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Gargalhada oficial

Garanto que não queria gozar o prato até ao fim. Por decoro. Por ter a noção de que «o Diabo está nos detalhes». Por simpatia. Porque não gosto de bater em quem se estampou.
Mas, em visita ao site da CML http://www.cm-lisboa.pt/, no veja a reportagem dou de caras com os três patrocínios oficiais da cerimónia.
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Primeira Casa Bandeiras
Mapa Da Cidade
Escapadinhas de Outono

A Primeira Casa das Bandeiras, que recomenda Bandeiras, Estandartes, Pendões, Hastes, Galhardetes e Guiões, seguramente invertidos; o Mapa da Cidade, para decifrar o labirinto do Vereador Nunes da Silva até ao Pátio da Galé; e as Escapadinhas de Outono, a seguradora que não evita riscos nem responde pelo próprio nome.

Para cúmulo, a equipa de António Costa escreve o texto solene:
by Câmara Municipal de Lisboa PLUS 2 days ago
As cerimónias oficiais das Comemorações 102º Aniversário da Implantação da República decorreram, no dia 5 de Outubro, na Praça do Município, com o solene hastear da Bandeira Nacional na varanda dos Paços do Concelho, e no Pátio da Galé, onde os presidentes da República, Aníbal Cavaco Silva, e da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, proferiram importantes discursos.
A propóstito de importantes: o lapso foi do funcionário do protocolo tutelado por António Costa. Mas o erro grave foi dos Presidentes que não tiveram presença de espírito para o corrigir em directo preferindo não estragar a coreografia da cerimónia a fazer o que está certo. Nada mais burguês. Nada menos patriótico. Nada menos presidencial.

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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Tudo ou nada

Morreu Margarida Marante.
Nos anos 80 era a mais gira,  a mais nova, a mais esperta e a mais influente jornalista da única televisão portuguesa.
Nos anos 90, acrescentou poder ao sucesso anterior. Foi a figura central da informação da primeira televisão privada. A mais vista e a mais assertiva. Com Emídio Rangel, Margarida Marante formava uma dupla respeitada ou temida no País. Nas suas mãos cairam ministros e coligações políticas. Na sua antena revelaram-se candidatos e entenderam-se bastidores. Na sua expressão encontrava-se parte das respostas que ficavam por dar.
Nem sempre concordava com o seu protagonismo mas sempre suspeitei que podia haver aí alguma pena de o não ter. Lembro-me ainda do dia em que ela procurou chegar perto de João Paulo II, na Universidade Católica, em 1982, e foi afastada por um segurança que disse: «No, no, no, no!». O Papa viu e respondeu: «Si, si, si!» deixando-a profundamente comovida.
Muito depois, a vida mudou. E o País não permitiu que a estrela perdesse momentaneamente o brilho. Somos severos com os importantes.
Há vários anos que encontrava Margarida Marante no supermercado ou na rua. Quero crer que não nos conheciamos o suficiente para lhe dizer que as pessoas não dependem do reconhecimento público. Mas não disse.
Margarida deixa três filhos e a memória justa de quem nos tentou dizer mais do que sabíamos na construção de uma democracia imperfeita.

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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

5 de Outubro, Nunca Mais!


Festeje-se de véspera, com a maior pompa e alegria, o fim do feriado mais divisionista de Portugal! Talvez o único que separa radicalmente os portugueses.
O 5 de Outubro representa a legitimidade do golpe violento (gerado no assassinato do Chefe de Estado e do seu Filho); simboliza a hegemonia das sociedades secretas; a instalação do terror; o domínio das perseguições; o controlo da imprensa; e o regime de partido único que, sob várias formas, dominou o País nos 66 anos seguintes.
Sem apoio popular, o golpe substituiu pela força, um regime constitucional, multipartidário, com imprensa livre e deputados de todas as facções no Parlamento, por uma série de ditaduras da qual só nos livrámos no final de 1975. Em rigor, só por esquisofrenia se podia celebrar a democracia em Abril e, seis meses depois, o seu contrário.  
Sabemos que cada feriado identifica qualquer coisa que não requer unanimismo. Mas o 5 de Outubro era, por excelência, o símbolo dos valores que qualquer sociedade democrática não defende para o seu País.
Viva Portugal!

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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Não servir a quem morra


Hoje é dia de S. Francisco de Borja - Duque de Gandia. Aquele que, ao reconhecer o cadáver de Isabel de Portugal, a mais bonita Rainha da Cristandade, mudou de vida.
Inspirou Sophia. E hoje pode dar-nos uma luz sobre o que nos entretem.

Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

Sofia de Mello Breyner Andersen

(Cortesia do site Povo)

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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Direito à greve ou capricho dos deuses ?


O calendário das greves paralisa o Porto de Lisboa por cerca de um mês, sem perdas para cada categoria profissional envolvida. Os pilotos param dois dias; os transportadores desses pilotos param outros dois, impedindo a actividade dos primeiros; seguem-se os estivadores; e não faltam à greve os trabalhadores da administração. Todos concertados para a inactividade.
Resultado: o pequeno ou médio produtor de pêra rocha do Oeste perde a mercadoria por falta de escoamento e perde o mercado de destino pela insegurança na entrega.
Diga-se que os instigadores da greve - entre pilotos e estivadores - ganham mais do que o Presidente da República. Simplesmente, como dominam as portas do País, tudo podem, tudo paralisam, tudo conquistam exclusivamente para a sua abastança.
O Povo não se revolta porque há anos que a opinião mediática decreta que os portos não são lugares de trabalho, mas sim de recreio; que roubam as cidades aos rios e ao mar; que os contentores são feios e os navios de cruzeiro bonitos, e por aí fora.
Portugal está na mão de poucos que operam na ignorância de muitos e na falência dos que querem trabalhar.
  

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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O silêncio dos decentes

Cada um tem os seus gostos, mas tenho de abrir com uma confissão. Sempre tive sentimentos francamente mistos em relação a Cícero. Cícero é uma das personagens mais dificilmente qualificáveis da História. Homem de acção e de pensamento, rico na primeira mas pouco frutuoso, menos rico no segundo, e porém muito mais eficaz. O que desejou na acção, a república, perdeu. Mas no pensamento, se não pode ser considerado um imenso pensador, foi dos que mais contribuiu para a nossa linguagem filosófica, científica, erudita. Qualquer pensador europeu é em certa medida um ciceroniano, nem que seja pelos conceitos que usa.

Tradutor rico e infatigável de conceitos gregos, deu-nos para o bem e para o mal um tesouro conceptual com o qual ainda nos debatemos hoje em dia. Em todas as áreas da existência. É evidente que a moral e a política não escapou a este pensador, algo menos moldado para áreas mais especulativas ou científicas.

Uma das suas contribuições é a do conceito de decência. Derivou-o de “decet”, “o que é conveniente”, “o que vem com”. Verbo ligado a “dignus”, que traduzimos ainda hoje por digno. Fê-lo para tentar traduzir o grego “euprepeia” de um verbo “prepo” (perdoem-me por transliterações simplificadoras os eruditos). “Prepo” significa aparecer distintamente, convir, parecer-se com. Está ligado a “preptos”, distinto, famoso.

As palavras não são irrelevantes e muito menos o que elas nos trazem. Os usos alargam-se, casam-se e estreitam-se de forma algo elástica ao longo dos tempos. Mas o que é espantoso é que restem quase sempre resíduos dos seus sentidos originais.

O pequeno burguês, o apertadinho, entendeu sempre a decência numa perspectiva de contenção sexual, de gestos, de palavra. A única forma de ser digno, decente, era a de conter a sua natureza. Essa uma diferença de marca que o separa dos que são dotados de grandeza. A sua marca de decência é a de se expandirem. Quando o pequenino, o remediado, se começa a querer libertar da sua forma possível de decência liberta-se igualmente do seu estado possível de decência. Acha que a libertação sexual, de costumes, de gestos passou a ser indecente e para ele a indecência excita-o, é a sua forma de liberdade. Como todos os que são pequenos fez da sua menoridade uma lei universal e sente-se liberto, mas quer obrigar os outros a “libertar-se” pelas mesmas vias.

O problema é que o homem de grandeza já é livre dos seus gestos e atitudes e faz dessa liberdade a sua forma de decência. A indecência para ele não é picante, excitante, porque para ele a decência é o seu estado natural de liberdade.

O decente é por definição o que tem uma presença distinta, evidente. Ele é o que é. O indecente é o que aparece difuso, sempre de presença incerta, de existência questionável. O indecente é assim o desconexo, o desarticulado. Aquele em que os movimentos e os eventos se cruzam por mero acaso, ou pelo menos segundo regras distorcidas, geralmente porque mero sintoma da sua monotonia.

Quando no espaço público navegam as contradicções podemos ver algo de bom ou de mau nisso. Se as contradicções se encontram só em relação ao oponente, faz parte da lógica das coisas, é uma tensão saudável numa sociedade, sobretudo se ela é democrática. Quando a contradição é interna aí é que podem surgir problemas. Durante décadas tivemos de assistir à técnica da obnubilação. Os apoiantes do capitalismo escondiam os crimes que cometiam ao impor ditaduras, destruindo economias emergentes, favorecendo a corrupção, invocando para os outros o livre comércio e para si o proteccionismo. Os comunistas obnubilavam a total ausência de liberdade, as ditaduras, os crimes cometidos em nome de nobres ideologias. O jogo da obnubilação convence quem quer; mostrar alguma indecência, alguma desarticulação, mas nem que seja pelo efeito de habituação, gerou-nos alguma anestesia. Se não é uma sua atenuante é pelo menos um paliativo.

Questão diversa nos aparece quando a desarticulação é bandeira. Quando se quer uma coisa e a sua contrária abertamente e se defendem as duas cegamente em público. Este um fenómeno que na sua gravidade é relativamente recente. No mesmo discurso se defendem os altermundialimos, a democracia, os direitos do homem e da mulher e culturas confrangedoras na sua capacidade de repressão. No mesmo discurso se diz que a cultura muçulmana é deplorável e depois se defende o acesso de países muçulmanos à Europa. No mesmo discurso se diz defender os direitos do homem e se financiam terroristas islâmicos turcófonos. No mesmo discurso se diz que é de armas de destruição em massa no Iraque que se trata para de seguida falar em democracia e direitos humanos. Não há países santos, nem governos santos, nem partidos santos neste aspecto hoje em dia. Uns mais que outros, mas todos colaboram nesta glorificação do desarticulado.

O espaço público que é configurado pelos indecentes apresenta a marca da sua triste identidade.

É um espaço público nebuloso, onde se atira permanentemente poeira para os olhos dos auditores, onde impera a manipulação da verdade. O decente sabe-se paradigma, o indecente apenas se toma teimosamente por tal. O primeiro impõe-se por si mesmo, o segundo vive de se impor aos outros. O espaço público não é protagonizado por quem se apresenta distintamente, fulgurantemente, perante os seus concidadãos, mas por intrusos que irrompem, sem pertinência nem mérito, na ágora. Espécime intratável, a sua norma é a indignidade tanto quanto se referem ao seu contrário. Não convêm para coisa nenhuma, não se parecem com nada que valha a pena. Desarticulados por natureza, arvoram a desarticulação em lei universal. O inculto, o plebeu, o enfático, o repetitivo são os seus atributos maiores.

Os indecentes tomam por estúpidos os povos. Vêm o paradigma nas respectivas famílias. Eivados do espírito de irmandade, julgam que ser fraternos implica achar que todas as famílias são como as suas. Grosseiras, pouco inteligentes, em suma, indecentes.

Quando os analfabetos opinam, os cultos calam-se. Seria necessário devastar todo um mundo para contra-argumentar. Vício da preguiça, desprezo aristocrático, sensação de impotência? Talvez de tudo um pouco se explique este silêncio. Mas quem cala não consente, apenas se ausenta. Falando com os pés quem nem isso merece, vota com os pés quem mereceria outra coisa. O êxodo, a emigração profunda é a dos esclarecidos, que, ou escorraçados ou auto-exilados, se refugiam cada vez mais nas suas casas. Que estímulo existe a participar na discussão dita democrática se esta assumiu a forma da feira e da conversa das três vias romanas, do trivial? Quando entrar na discussão significa fazer parte do confrangedor espectáculo dos vendedores de frangos podemos realmente condenar quem se afasta com repulsa? Quando o solecismo se faz estilo e a inépcia estandarte de heráldica podemos culpar quem não se presta à mistura?

O problema é que de tanta justa decisão individual o espaço público fica deserto, não fora o grasnar dos incultos e dos grosseiros. A participação no espaço público pelos decentes tem assim de ser vista, não como um gozo, mas como um sacrifício, mesmo que daí se possam retirar prazeres múltiplos. São os heróis da vida contemporânea, os que largando a paz da sua decência aceitam entrar na liça, mesmo que precisem de tomar um forte banho de seguida.

Não refiro nomes de indecentes, não identifico criaturas, não fora eu correr o risco de imortalizar medíocres. Mas para a tristeza infinda dos indecentes, existem seres humanos que não o são, e é a estes últimos que cabe mostrar a humanidade na glória da sua existência. O destino talvez seja injusto, mas se o for, é-o bem menos que os indecentes.

Quando os decentes apenas entram a contragosto na pública arena é sinal de que a mesma se encontra em degradação, que se anuncia alguma queda. Fiquemo-nos com esta lição, a de que demos espaço aos desarticulados e assim andamos desarticulando o mundo. E mais outra: a de que respeitar esses heróis é uma oportunidade a não perder. Se a última, cada um julgue por si.



Alexandre Brandão da Veiga




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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O que move Marcelo Rebelo de Sousa ?

Tenho uma teoria sobre Marcelo Rebelo de Sousa que foi talvez confirmada ontem na TVI: acredito que Marcelo é tanto mais responsável quanto maiores responsabilidades tem. E que, se deixado de lado, no campo da observação, se torna diletante, traiçoeiro, injusto, perigoso, unilateral. E, o que é pior, quase sempre com graça.
A teoria prova-se na sua respeitabilidade como Professor de Direito. Perante a educação milhares de juristas, o mestre cumpre. A mesma «categoria em missão» se observa nos livros que publica, no ritmo e qualidade de trabalho e, até, no apoio que dá a causas fora do círculo mediático.
Prova-se ainda na forma como liderou a Oposição e o PSD nos idos anos 90. Provocou os Referendos ao Aborto e à Regionalização e ganhou. Bateu-se contra o Totonegócio e ganhou. Por duas vezes, exigiu dois terços dos votos nos Congressos do PSD e ganhou. Do mesmo modo, saíu imediatamente quando se sentiu abalado pelo parceiro, Paulo Portas, numa entrevista a Margarida Marante. Não foi a eleições, nem perdeu a face. Assumiu a Oposição em Lisboa melhorando as opções de Sampaio, o que não terá sido difícil, e tem tido uma relação modelar com o poder local na terra dos seus antepassados, Celorico de Basto.
Neste sentido, comparem-se as duas últimas intervenções de Marcelo na TVI e descubram-se as diferenças. Bastou a gravitas de ter participado entretanto num longo Conselho de Estado, para transformar a quezília, num sentido crítico útil, clarividente, patriótico.
Pode ser que pese, nas suas fases da «pirataria», o amor à liberdade de falar sem vínculos a nada e a ninguém. Ou ainda o facto de saber que a imprivisibilidade lhe dá mais poder. Entendo isso como jornalista. Mas tem de haver sempre mais verdade do que cálculo.

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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Contradições

Os tempos estão confusos e andamos ao ritmo de equívocos.
Dou três exemplos que me surgem sem esforço:
  1. Manuela Ferreira Leite propõe uma insurreição do Grupo Parlamentar do PSD apelando à consciência política individual de cada Deputado. Lembro o dia em que sugeriu a suspensão da Democracia em Portugal, por seis meses, para se poderem concretizar medidas difíceis. E lembro também o empenho que a líder do PSD pôs na aprovação do PEC I socialista, obrigando os Deputados do PSD a uma disciplina férrea. Até o amigo Pacheco Pereira se contorceu em público, mas obedeceu.
  2. A este propósito, Marcelo Rebelo de Sousa critica o apelo à insurreição de MFL e diz que não fica nada bem, do ponto de vista institucional, a uma ex-líder do partido ser tão agreste com a actual liderança do partido. O maior critico de sempre das várias direcções do PSD esquece-se, talvez, que ele próprio também foi Presidente do PSD e que raras vezes fala com a postura que recomenda.
  3. Por falar em postura institucional, Paulo Portas justificou a intervenção do passado Domingo por ser um «institucionalista». Terá sido por respeito institucional que veio a público, depois de uma espera de seis dias, dizer o que não quis dizer em privado ao parceiro de coligação? Terá sido por isso que exibiu os louros do congelamento das pensões mais baixas entregues a um Ministro da sua cor num Governo que é uno? Terá sido por ser institucionalista que disse, em público, que não concordava com o seu Primeiro-ministro?

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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

I can't get no satisfation


Em Democracia, a maioria do Povo encanta-se com uma força política, vota nela, desencanta-se, e vota noutra. Tal como numa paixão, aposta tudo na esperança de um líder para depressa se desiludir e dar maioria a outra força. Os mandatos seguram o divórcio por quatro anos mas a verdade é que, mantendo a atitude hedonista, sobretudo em tempo de crise, passado um ano já o eleitor alimenta sondagens de sinal contrário.
Ora um projecto não se testa à la minute, por sondagem, tal como um grande amor não cede a desilusões porque não assenta em ilusões. É preferível acreditar a ser crédulo; construir a fiscalizar; ter rumo a obedecer a um vento, tantas vezes alimentado por ventoínhas com lama. A comparação, reincidente, entre a paixão e o voto prejudica o melhor dos piores sistemas.
Dito isto, nada se sobrepõe à liberdade de poder escolher. Mas escolher não é guinar «ao sabor do último sabor». É fazer caminho esclarecido, valente, generoso com as futuras gerações.

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