sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Força Interior


Estou em crer que o desencontro entre governantes e governados tem por base as personalidades do Primeiro-ministro e do Ministro das Finanças, mais do que as matérias políticas. Se assim não fosse, haveria maior debate sobre as medidas alternativas, sobre montantes a cobrar e a poupar, ou sobre a amplitude do binómio consolidação / crescimento. Todos sabem que o caminho é estreito e a resposta à política orçamental está a ser feita pela revolta e não pela construção de novos rumos.
Mas, como digo, essa revolta é alimentada por um desencontro diferente: Passos Coelho e Carlos Gaspar são homens do Interior. O transmontano e o beirão estão habituados a resistir. Sempre correram distâncias para alcançar as luzes da Cidade. Estão treinados na provação e na resiliência. Por isso Gaspar sabe que não pode descansar antes de chegar à meta. E Passos não compreende, de maneira nenhuma, o comportamento de Paulo Portas.
Onde outros lêem teimosia, eles vêem resistência. Onde outros sentem a dúvida, eles pressentem pieguice. Onde outros identificam uma análise laboratorial do País, eles protagonizam a experiência concreta do Interior de Portugal. Como diria Leonardo Boff, todo o ponto de vista é a vista de um ponto.     

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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Ver ou fazer


Gostamos de milagres. Acreditamos em D. Sebastião, quer ele venha ou não. E preferimos a miragem de uma solução, a enfrentar os problemas de caras, com medo e coragem, como os miúdos que pegam toiros. Por isso inventamos, ciclicamente, palavras mágicas que vão do fomento ao investimento, do empreendedorismo ao desenvolvimento e que servem, sobretudo, para gastar dinheiro em poucos, a muitos iludindo.
O Governo está em contramão em relação a esta lei geral que aqui promulgo. As palavras-chave que evoca para garantir o milagre são: menos despesa e mais impostos, novos créditos a quem trabalha. Detenho-me em alguns exemplos do esforço já alcançado no corte da despesa:
  • 800 milhões nos consumos intermédios;
  • 1200 milhões na despesa com o pessoal;
  • 410 milhões em juros e encargos financeiros;
  • 150 milhões com a extinção de 139 fundações;
  • 180 milhões nas rendas na área da energia;
  • 250 milhões na renegociação dos contratos das PPP;
  • 380 milhões na saúde só com as farmacêuticas em medicamentos, sem prejuízo de cuidados médicos.
É importante expor as contas. Para verificar que o milagre se faz com dor, coragem e unidade. E continuar a pegar de caras, ultrapassando o medo.



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terça-feira, 16 de outubro de 2012

O impulso organizado


Ontem saí da Assembleia da República às dez para as oito da noite. As portas do parque estavam seladas e havia barras de metal vigiadas por alguns polícias com capacetes. A manifestação, marcada para as seis da tarde, mantinha-se residual apesar da convocatória «on-line», noticiada na rádio e na televisão, para milhares de portugueses. Os manifestantes olharam fixamente para o volante para saber quem conduzia. O carro onde seguia era pequeno e está amolgado e, naturalmente, não me conheciam. Amainaram assim o olhar persecutório.
Mais à frente, a passagem estava barrada com um piquete e uma tarja que dizia «Chulos!». Não gostei. Disse que não com a mão. «Se não chulas, vem para já para aqui!!!» gritou uma mulher, sem sair da frente. Abri o vidro e respondi: «Faço o que quiser!». Desviaram-se. Mas, dez minutos depois, às oito em ponto, para o directo da TV, deram início à violência contra a polícia. Resultado: 10 polícias feridos mais 1 manifestante. Título da manhã: «Onze feridos», sem discriminar nas letras gordas que dez eram polícias.
A perícia mobilizadora, intimidatória e de divulgação estão coordenadas. No mesmo registo de instigação à violência - como assinalou o PM no último debate quinzenal - alinha o discurso de quem fala de roubo ou assalto à mão armada, dentro e fora do PCP.
Hoje pensei não trazer o carro para não ter de furar piquetes. Trouxe. Não abro o vidro nem respondo. Ou talvez o faça. Porque não quero ser intimidada na Casa da Liberdade. A tática funciona.

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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Estamos prontos?


Na vida, como na literatura, diz-se que são precisas várias gerações para saber perder ou nunca ter tido nada para aguentar não ganhar.
Mas nem sempre é assim. Uma guerra, um exílio ou outra calamidade ajudam à resiliência sem queixume nem revolta. As Alemanhas reergueram-se da II Guerra Mundial como a Espanha ressurgiu das cinzas da Guerra Civil. O mesmo se diga do Japão, do Vietnam, do Chile, da Irlanda, da Polónia ou da África do Sul. O «impulso negativo» da má memória ajudou os povos na provação. Do mesmo modo, a nível pessoal, um desgosto maior, como a doença ou a morte de um filho, «prepara» e relativiza qualquer desventura.
Em Portugal, estamos ainda vitoriosos com as conquistas de 74 e vivemos um bem-estar fixado pela solidez do euro, pelos fundos europeus e pelas ilusões do crédito das últimas décadas.
Não estamos, por isso, preparados para perder o que quer que seja nem temos uma percepção de calamidade que nos ajude a reagir sem revolta. A cultura do País é a de um novo-riquismo nunca dantes experimentado que não comporta a falta do carro individual, da casa própria ou do restaurante várias vezes ao mês. Estaremos prontos para andar a pé ou de comboio, para arrendar casa e para cozinhar, como sempre? 





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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Para que servem as línguas mortas?

Lembro-me que um conhecido meu, quando se decidiu a fazer o curso de Letras na Universidade Clássica de Lisboa, teve de aprender latim. Estava a fazer filologia românica, ou como se chamará agora, e quem estabeleceu o currículo entendeu, e bem, que não era concebível alguém fazer um curso de Letras sem saber latim.

Até aqui aplaudo o ensejo. O problema é que o método de aprendizagem do latim era o das línguas vivas. Aprendiam latim como se fosse uma língua viva. O resultado é que na terceira declinação não sabiam distinguir as palavras de tema em “i” das de tema em consoante, o que obedece a regras elementares, mas essenciais para não se darem calinadas nos genitivos do plural. “Puella est pulchra”, “pulchra est puella”, “a rapariga é bonita” – e ficava-se por aqui o que ele aprendia.

Quando decidi aprender latim não tinha a expectativa de me encontrar num autocarro com um turista romano a quem tivesse de indicar um hotel. Nem sequer tinha a ilusão que numa reunião internacional me pudesse servir de língua veicular. Bem vistas as coisas, aprendi-o por pura inutilidade. Como dizia a minha antiga professora de latim, quando umas alunas tiveram a triste ideia de lhe perguntar para que servia aprender latim: para nada, não serve para cultivar batatas.

Mas vou tentar responder a esta questão e ver que implicações tem no espaço público europeu.

As línguas mortas têm para mim duas vantagens: estão mortas e são as que são, as que temos disponíveis.

A primeira vantagem parece paradoxal. Que vantagem traz a morte? Os leitores de biografias, género que os franceses e ingleses cultivam melhor que ninguém, mas em Portugal praticamente inexiste, sabem que a biografia de uma personagem morta tem uma imensa vantagem: pode-se saber a vida completa dessa personagem. O problema das autobiografias é que nunca nos contam a história toda. Nas feitas por terceiros, conhecemos o percurso desde o nascimento até à morte. Aquele conjunto faz sentido. É a diferença de tentar apanhar um comboio em andamento ou visitar um comboio parado mas com um longo percurso.

Aprender uma língua morta tem assim a vantagem de podermos fazer balanços, senão definitivos, o que seria sempre temerário, pelo menos mais completos. É sempre uma reflexão sobre a mortalidade.

Em segundo lugar, as línguas mortas que nos são mais disponíveis são o que são. Não me refiro obviamente ao sânscrito ou ao hitita, quase impossível de aprender sem livros alemães, franceses ou ingleses. Por mais apaixonantes que sejam estas línguas, e por mais que com elas se possa aprender, nomeadamente sobre o nosso passado indo-europeu comum.

Refiro-me ao latim e ao grego. Uma durante mais de dois mil anos estruturante da nossa cultura em continuidade, outra estruturante ainda há mais tempo, mas em continuidade sobretudo nos últimos quinhentos anos. Começam por ser a base do nosso vocabulário científico e filosófico. Ninguém pode ter nenhuma noção profunda do que é a nossa cultura sem ter algumas bases nestas línguas. Conheço pessoas que se exercem no cálculo infinitesimal com uma destreza infinitamente maior que a minha (não será difícil) mas que nunca pararam um segundo para pensar que o símbolo de integral é um “S” que vem de “summa” em latim. Ou que o estomatologista mais não é que um cientista da boca.

O exercício da língua é outro aspecto que beneficia dessa aprendizagem. As orações infinitivas quase desapareceram da prática porque não há memória do latim. E o misterioso uso de palavras gregas no português vulgar como “cara” e “cada” não suscita nenhuma curiosidade. As línguas mortas permitem-nos reflectir, ter interrogações sobre o que dizemos. E como comunicamos em geral dizendo, vê-se assim como se estreita o espaço das interrogações, da curiosidade, hoje em dia.

Mas também cultiva a abertura e a elasticidade: o latim e o grego são, em termos muito diversos, línguas simultaneamente muito rigorosas e muito diferentes das nossas. A sua estrutura morfológica e sintáctica obriga-nos a reconhecer a legitimidade de outras realidades, de outras culturas. E o seu estudo aprofundado obriga-nos a uma abertura infinitamente maior à diferença que viagens turísticas a países não europeus como o Burkina-Faso ou a Turquia. A viagem meramente turística obriga-nos apenas a dizer “obrigado” ou “boa tarde”. Em suma “pulcher est puella”. Aprendemos umas banalidades, como vamos a restaurantes exóticos, com comida adaptada a turistas. Aprender latim e grego implica percebermos que povos que pensavam de maneiras muito diversas de nós, se exprimiam de modo bem diverso do nosso, eram capazes de elaborar de forma tão ou mais consistente que a nossa.

Permite igualmente o acesso. Muitas das fontes mais importantes da nossa cultura perdem com a tradução. Mais não são que comida chinesa com tempero adaptado ao gosto europeu. Ver que conceitos, que estruturas frásicas usava Séneca não é indiferente para nele se reconhecer um irmão ou pelo menos um primo do cristianismo. Saborear a Vulgata latina ou a versão grega da Bíblia não é substituído por nenhuma tradução, por mais perfeita que seja. Permite portanto o acesso, mas também o rigor.

De comum a todos os políticos e homens públicos até há 40 anos o facto de todos terem pelo menos um verniz desta cultura clássica. Isso não os impediu de cometer erros, porque eram humanos. Mas permitia-lhes enquadrar num quadro mais vasto a sua perspectiva. Não seriam menos mentirosos, mas sabiam melhor no que mentiam. Confesso que me preocupam mais os que não mentem apenas porque acreditam nas patetices superficiais que constituem a sua pobre cultura.

Que relevância para a política? É fácil de se ver (um supino absoluto, para os cultores do latim, já agora).

Desconhecendo línguas mortas falta-lhes a ideia de um quadro completo, e um instrumento importante para reflectir sobre a mortalidade. Não é de espantar que a imperfeição do que fazem ou o preço mortal que podem fazer pagar não se lhes suscite sequer como problema.

Desconhecendo latim e grego, acreditam piamente em qualquer disparate que lhes venha à cabeça, porque desconhecem o quadro de forças em que se integram. Usam as palavras sem lhes perceber o significado profundo, estão no plano do cavador de enxada que nada sabe de física. Podem ser eficazes no curto prazo, mas são incapazes de inventar maquinaria mais potente. A sua linguagem é pobre, repetitiva, ladainha dos mesmos lugares comuns. Pouco nos dizem. São destituídos de real abertura e de elasticidade. São rígidos. Como desconhecem modos alternativos de se ser, vivem na mesma planura e tomam por montanha qualquer montículo. Social e culturalmente, não estão habituados a ter acesso às coisas. Nem rigor. Aceder a um salão exige sempre rigor. Estão habituados a ficar à porta, a não entrar. Não querem que os outros entrem, em consequência. Sobretudo acreditam em qualquer tontice que lhes passe pela cabeça, ou da cabeça de pessoas em quem tenham confiança. Nunca omitem, porque isso seria sinal que lhes sobra. E se mentem, fazem-no pouco, pelo menos intencionalmente. O espaço público está inundado assim de verdades, ou melhor, de excesso de sinceridades, que vivem apenas da falta de alternativa. Sem mérito, portanto. Se se pusessem a aprender latim e grego, e agora pisco o olho para os dotados de sentido prático, teriam ao menos o mérito de se ocuparem com outras coisas. Para as quais não são igualmente dotados, mas em que produziriam efeitos menos nefastos para os outros.


Alexandre Brandão da Veiga







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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Gargalhada oficial

Garanto que não queria gozar o prato até ao fim. Por decoro. Por ter a noção de que «o Diabo está nos detalhes». Por simpatia. Porque não gosto de bater em quem se estampou.
Mas, em visita ao site da CML http://www.cm-lisboa.pt/, no veja a reportagem dou de caras com os três patrocínios oficiais da cerimónia.
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Primeira Casa Bandeiras
Mapa Da Cidade
Escapadinhas de Outono

A Primeira Casa das Bandeiras, que recomenda Bandeiras, Estandartes, Pendões, Hastes, Galhardetes e Guiões, seguramente invertidos; o Mapa da Cidade, para decifrar o labirinto do Vereador Nunes da Silva até ao Pátio da Galé; e as Escapadinhas de Outono, a seguradora que não evita riscos nem responde pelo próprio nome.

Para cúmulo, a equipa de António Costa escreve o texto solene:
by Câmara Municipal de Lisboa PLUS 2 days ago
As cerimónias oficiais das Comemorações 102º Aniversário da Implantação da República decorreram, no dia 5 de Outubro, na Praça do Município, com o solene hastear da Bandeira Nacional na varanda dos Paços do Concelho, e no Pátio da Galé, onde os presidentes da República, Aníbal Cavaco Silva, e da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, proferiram importantes discursos.
A propóstito de importantes: o lapso foi do funcionário do protocolo tutelado por António Costa. Mas o erro grave foi dos Presidentes que não tiveram presença de espírito para o corrigir em directo preferindo não estragar a coreografia da cerimónia a fazer o que está certo. Nada mais burguês. Nada menos patriótico. Nada menos presidencial.

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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Tudo ou nada

Morreu Margarida Marante.
Nos anos 80 era a mais gira,  a mais nova, a mais esperta e a mais influente jornalista da única televisão portuguesa.
Nos anos 90, acrescentou poder ao sucesso anterior. Foi a figura central da informação da primeira televisão privada. A mais vista e a mais assertiva. Com Emídio Rangel, Margarida Marante formava uma dupla respeitada ou temida no País. Nas suas mãos cairam ministros e coligações políticas. Na sua antena revelaram-se candidatos e entenderam-se bastidores. Na sua expressão encontrava-se parte das respostas que ficavam por dar.
Nem sempre concordava com o seu protagonismo mas sempre suspeitei que podia haver aí alguma pena de o não ter. Lembro-me ainda do dia em que ela procurou chegar perto de João Paulo II, na Universidade Católica, em 1982, e foi afastada por um segurança que disse: «No, no, no, no!». O Papa viu e respondeu: «Si, si, si!» deixando-a profundamente comovida.
Muito depois, a vida mudou. E o País não permitiu que a estrela perdesse momentaneamente o brilho. Somos severos com os importantes.
Há vários anos que encontrava Margarida Marante no supermercado ou na rua. Quero crer que não nos conheciamos o suficiente para lhe dizer que as pessoas não dependem do reconhecimento público. Mas não disse.
Margarida deixa três filhos e a memória justa de quem nos tentou dizer mais do que sabíamos na construção de uma democracia imperfeita.

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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

5 de Outubro, Nunca Mais!


Festeje-se de véspera, com a maior pompa e alegria, o fim do feriado mais divisionista de Portugal! Talvez o único que separa radicalmente os portugueses.
O 5 de Outubro representa a legitimidade do golpe violento (gerado no assassinato do Chefe de Estado e do seu Filho); simboliza a hegemonia das sociedades secretas; a instalação do terror; o domínio das perseguições; o controlo da imprensa; e o regime de partido único que, sob várias formas, dominou o País nos 66 anos seguintes.
Sem apoio popular, o golpe substituiu pela força, um regime constitucional, multipartidário, com imprensa livre e deputados de todas as facções no Parlamento, por uma série de ditaduras da qual só nos livrámos no final de 1975. Em rigor, só por esquisofrenia se podia celebrar a democracia em Abril e, seis meses depois, o seu contrário.  
Sabemos que cada feriado identifica qualquer coisa que não requer unanimismo. Mas o 5 de Outubro era, por excelência, o símbolo dos valores que qualquer sociedade democrática não defende para o seu País.
Viva Portugal!

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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Não servir a quem morra


Hoje é dia de S. Francisco de Borja - Duque de Gandia. Aquele que, ao reconhecer o cadáver de Isabel de Portugal, a mais bonita Rainha da Cristandade, mudou de vida.
Inspirou Sophia. E hoje pode dar-nos uma luz sobre o que nos entretem.

Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

Sofia de Mello Breyner Andersen

(Cortesia do site Povo)

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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Direito à greve ou capricho dos deuses ?


O calendário das greves paralisa o Porto de Lisboa por cerca de um mês, sem perdas para cada categoria profissional envolvida. Os pilotos param dois dias; os transportadores desses pilotos param outros dois, impedindo a actividade dos primeiros; seguem-se os estivadores; e não faltam à greve os trabalhadores da administração. Todos concertados para a inactividade.
Resultado: o pequeno ou médio produtor de pêra rocha do Oeste perde a mercadoria por falta de escoamento e perde o mercado de destino pela insegurança na entrega.
Diga-se que os instigadores da greve - entre pilotos e estivadores - ganham mais do que o Presidente da República. Simplesmente, como dominam as portas do País, tudo podem, tudo paralisam, tudo conquistam exclusivamente para a sua abastança.
O Povo não se revolta porque há anos que a opinião mediática decreta que os portos não são lugares de trabalho, mas sim de recreio; que roubam as cidades aos rios e ao mar; que os contentores são feios e os navios de cruzeiro bonitos, e por aí fora.
Portugal está na mão de poucos que operam na ignorância de muitos e na falência dos que querem trabalhar.
  

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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O silêncio dos decentes

Cada um tem os seus gostos, mas tenho de abrir com uma confissão. Sempre tive sentimentos francamente mistos em relação a Cícero. Cícero é uma das personagens mais dificilmente qualificáveis da História. Homem de acção e de pensamento, rico na primeira mas pouco frutuoso, menos rico no segundo, e porém muito mais eficaz. O que desejou na acção, a república, perdeu. Mas no pensamento, se não pode ser considerado um imenso pensador, foi dos que mais contribuiu para a nossa linguagem filosófica, científica, erudita. Qualquer pensador europeu é em certa medida um ciceroniano, nem que seja pelos conceitos que usa.

Tradutor rico e infatigável de conceitos gregos, deu-nos para o bem e para o mal um tesouro conceptual com o qual ainda nos debatemos hoje em dia. Em todas as áreas da existência. É evidente que a moral e a política não escapou a este pensador, algo menos moldado para áreas mais especulativas ou científicas.

Uma das suas contribuições é a do conceito de decência. Derivou-o de “decet”, “o que é conveniente”, “o que vem com”. Verbo ligado a “dignus”, que traduzimos ainda hoje por digno. Fê-lo para tentar traduzir o grego “euprepeia” de um verbo “prepo” (perdoem-me por transliterações simplificadoras os eruditos). “Prepo” significa aparecer distintamente, convir, parecer-se com. Está ligado a “preptos”, distinto, famoso.

As palavras não são irrelevantes e muito menos o que elas nos trazem. Os usos alargam-se, casam-se e estreitam-se de forma algo elástica ao longo dos tempos. Mas o que é espantoso é que restem quase sempre resíduos dos seus sentidos originais.

O pequeno burguês, o apertadinho, entendeu sempre a decência numa perspectiva de contenção sexual, de gestos, de palavra. A única forma de ser digno, decente, era a de conter a sua natureza. Essa uma diferença de marca que o separa dos que são dotados de grandeza. A sua marca de decência é a de se expandirem. Quando o pequenino, o remediado, se começa a querer libertar da sua forma possível de decência liberta-se igualmente do seu estado possível de decência. Acha que a libertação sexual, de costumes, de gestos passou a ser indecente e para ele a indecência excita-o, é a sua forma de liberdade. Como todos os que são pequenos fez da sua menoridade uma lei universal e sente-se liberto, mas quer obrigar os outros a “libertar-se” pelas mesmas vias.

O problema é que o homem de grandeza já é livre dos seus gestos e atitudes e faz dessa liberdade a sua forma de decência. A indecência para ele não é picante, excitante, porque para ele a decência é o seu estado natural de liberdade.

O decente é por definição o que tem uma presença distinta, evidente. Ele é o que é. O indecente é o que aparece difuso, sempre de presença incerta, de existência questionável. O indecente é assim o desconexo, o desarticulado. Aquele em que os movimentos e os eventos se cruzam por mero acaso, ou pelo menos segundo regras distorcidas, geralmente porque mero sintoma da sua monotonia.

Quando no espaço público navegam as contradicções podemos ver algo de bom ou de mau nisso. Se as contradicções se encontram só em relação ao oponente, faz parte da lógica das coisas, é uma tensão saudável numa sociedade, sobretudo se ela é democrática. Quando a contradição é interna aí é que podem surgir problemas. Durante décadas tivemos de assistir à técnica da obnubilação. Os apoiantes do capitalismo escondiam os crimes que cometiam ao impor ditaduras, destruindo economias emergentes, favorecendo a corrupção, invocando para os outros o livre comércio e para si o proteccionismo. Os comunistas obnubilavam a total ausência de liberdade, as ditaduras, os crimes cometidos em nome de nobres ideologias. O jogo da obnubilação convence quem quer; mostrar alguma indecência, alguma desarticulação, mas nem que seja pelo efeito de habituação, gerou-nos alguma anestesia. Se não é uma sua atenuante é pelo menos um paliativo.

Questão diversa nos aparece quando a desarticulação é bandeira. Quando se quer uma coisa e a sua contrária abertamente e se defendem as duas cegamente em público. Este um fenómeno que na sua gravidade é relativamente recente. No mesmo discurso se defendem os altermundialimos, a democracia, os direitos do homem e da mulher e culturas confrangedoras na sua capacidade de repressão. No mesmo discurso se diz que a cultura muçulmana é deplorável e depois se defende o acesso de países muçulmanos à Europa. No mesmo discurso se diz defender os direitos do homem e se financiam terroristas islâmicos turcófonos. No mesmo discurso se diz que é de armas de destruição em massa no Iraque que se trata para de seguida falar em democracia e direitos humanos. Não há países santos, nem governos santos, nem partidos santos neste aspecto hoje em dia. Uns mais que outros, mas todos colaboram nesta glorificação do desarticulado.

O espaço público que é configurado pelos indecentes apresenta a marca da sua triste identidade.

É um espaço público nebuloso, onde se atira permanentemente poeira para os olhos dos auditores, onde impera a manipulação da verdade. O decente sabe-se paradigma, o indecente apenas se toma teimosamente por tal. O primeiro impõe-se por si mesmo, o segundo vive de se impor aos outros. O espaço público não é protagonizado por quem se apresenta distintamente, fulgurantemente, perante os seus concidadãos, mas por intrusos que irrompem, sem pertinência nem mérito, na ágora. Espécime intratável, a sua norma é a indignidade tanto quanto se referem ao seu contrário. Não convêm para coisa nenhuma, não se parecem com nada que valha a pena. Desarticulados por natureza, arvoram a desarticulação em lei universal. O inculto, o plebeu, o enfático, o repetitivo são os seus atributos maiores.

Os indecentes tomam por estúpidos os povos. Vêm o paradigma nas respectivas famílias. Eivados do espírito de irmandade, julgam que ser fraternos implica achar que todas as famílias são como as suas. Grosseiras, pouco inteligentes, em suma, indecentes.

Quando os analfabetos opinam, os cultos calam-se. Seria necessário devastar todo um mundo para contra-argumentar. Vício da preguiça, desprezo aristocrático, sensação de impotência? Talvez de tudo um pouco se explique este silêncio. Mas quem cala não consente, apenas se ausenta. Falando com os pés quem nem isso merece, vota com os pés quem mereceria outra coisa. O êxodo, a emigração profunda é a dos esclarecidos, que, ou escorraçados ou auto-exilados, se refugiam cada vez mais nas suas casas. Que estímulo existe a participar na discussão dita democrática se esta assumiu a forma da feira e da conversa das três vias romanas, do trivial? Quando entrar na discussão significa fazer parte do confrangedor espectáculo dos vendedores de frangos podemos realmente condenar quem se afasta com repulsa? Quando o solecismo se faz estilo e a inépcia estandarte de heráldica podemos culpar quem não se presta à mistura?

O problema é que de tanta justa decisão individual o espaço público fica deserto, não fora o grasnar dos incultos e dos grosseiros. A participação no espaço público pelos decentes tem assim de ser vista, não como um gozo, mas como um sacrifício, mesmo que daí se possam retirar prazeres múltiplos. São os heróis da vida contemporânea, os que largando a paz da sua decência aceitam entrar na liça, mesmo que precisem de tomar um forte banho de seguida.

Não refiro nomes de indecentes, não identifico criaturas, não fora eu correr o risco de imortalizar medíocres. Mas para a tristeza infinda dos indecentes, existem seres humanos que não o são, e é a estes últimos que cabe mostrar a humanidade na glória da sua existência. O destino talvez seja injusto, mas se o for, é-o bem menos que os indecentes.

Quando os decentes apenas entram a contragosto na pública arena é sinal de que a mesma se encontra em degradação, que se anuncia alguma queda. Fiquemo-nos com esta lição, a de que demos espaço aos desarticulados e assim andamos desarticulando o mundo. E mais outra: a de que respeitar esses heróis é uma oportunidade a não perder. Se a última, cada um julgue por si.



Alexandre Brandão da Veiga




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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O que move Marcelo Rebelo de Sousa ?

Tenho uma teoria sobre Marcelo Rebelo de Sousa que foi talvez confirmada ontem na TVI: acredito que Marcelo é tanto mais responsável quanto maiores responsabilidades tem. E que, se deixado de lado, no campo da observação, se torna diletante, traiçoeiro, injusto, perigoso, unilateral. E, o que é pior, quase sempre com graça.
A teoria prova-se na sua respeitabilidade como Professor de Direito. Perante a educação milhares de juristas, o mestre cumpre. A mesma «categoria em missão» se observa nos livros que publica, no ritmo e qualidade de trabalho e, até, no apoio que dá a causas fora do círculo mediático.
Prova-se ainda na forma como liderou a Oposição e o PSD nos idos anos 90. Provocou os Referendos ao Aborto e à Regionalização e ganhou. Bateu-se contra o Totonegócio e ganhou. Por duas vezes, exigiu dois terços dos votos nos Congressos do PSD e ganhou. Do mesmo modo, saíu imediatamente quando se sentiu abalado pelo parceiro, Paulo Portas, numa entrevista a Margarida Marante. Não foi a eleições, nem perdeu a face. Assumiu a Oposição em Lisboa melhorando as opções de Sampaio, o que não terá sido difícil, e tem tido uma relação modelar com o poder local na terra dos seus antepassados, Celorico de Basto.
Neste sentido, comparem-se as duas últimas intervenções de Marcelo na TVI e descubram-se as diferenças. Bastou a gravitas de ter participado entretanto num longo Conselho de Estado, para transformar a quezília, num sentido crítico útil, clarividente, patriótico.
Pode ser que pese, nas suas fases da «pirataria», o amor à liberdade de falar sem vínculos a nada e a ninguém. Ou ainda o facto de saber que a imprivisibilidade lhe dá mais poder. Entendo isso como jornalista. Mas tem de haver sempre mais verdade do que cálculo.

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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Contradições

Os tempos estão confusos e andamos ao ritmo de equívocos.
Dou três exemplos que me surgem sem esforço:
  1. Manuela Ferreira Leite propõe uma insurreição do Grupo Parlamentar do PSD apelando à consciência política individual de cada Deputado. Lembro o dia em que sugeriu a suspensão da Democracia em Portugal, por seis meses, para se poderem concretizar medidas difíceis. E lembro também o empenho que a líder do PSD pôs na aprovação do PEC I socialista, obrigando os Deputados do PSD a uma disciplina férrea. Até o amigo Pacheco Pereira se contorceu em público, mas obedeceu.
  2. A este propósito, Marcelo Rebelo de Sousa critica o apelo à insurreição de MFL e diz que não fica nada bem, do ponto de vista institucional, a uma ex-líder do partido ser tão agreste com a actual liderança do partido. O maior critico de sempre das várias direcções do PSD esquece-se, talvez, que ele próprio também foi Presidente do PSD e que raras vezes fala com a postura que recomenda.
  3. Por falar em postura institucional, Paulo Portas justificou a intervenção do passado Domingo por ser um «institucionalista». Terá sido por respeito institucional que veio a público, depois de uma espera de seis dias, dizer o que não quis dizer em privado ao parceiro de coligação? Terá sido por isso que exibiu os louros do congelamento das pensões mais baixas entregues a um Ministro da sua cor num Governo que é uno? Terá sido por ser institucionalista que disse, em público, que não concordava com o seu Primeiro-ministro?

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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

I can't get no satisfation


Em Democracia, a maioria do Povo encanta-se com uma força política, vota nela, desencanta-se, e vota noutra. Tal como numa paixão, aposta tudo na esperança de um líder para depressa se desiludir e dar maioria a outra força. Os mandatos seguram o divórcio por quatro anos mas a verdade é que, mantendo a atitude hedonista, sobretudo em tempo de crise, passado um ano já o eleitor alimenta sondagens de sinal contrário.
Ora um projecto não se testa à la minute, por sondagem, tal como um grande amor não cede a desilusões porque não assenta em ilusões. É preferível acreditar a ser crédulo; construir a fiscalizar; ter rumo a obedecer a um vento, tantas vezes alimentado por ventoínhas com lama. A comparação, reincidente, entre a paixão e o voto prejudica o melhor dos piores sistemas.
Dito isto, nada se sobrepõe à liberdade de poder escolher. Mas escolher não é guinar «ao sabor do último sabor». É fazer caminho esclarecido, valente, generoso com as futuras gerações.

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terça-feira, 11 de setembro de 2012

Poder Maior



A médica do post anterior quer sair de Portugal, para tratar noutros corpos, as mesmas doenças, num lugar distante. Lembra-me as palavras de Adriano Moreira, na passada 6ª feira, segundo as quais há coragem em partir mas é preciso mais coragem para ficar. E Portugal pede-nos hoje essa coragem de fazer aqui aquilo que estamos dispostos a fazer fora.
Os versos de António Pereira (1914-1978), autor de «Notícias do Mar», desfazem o dilema do Velho do Restelo, entre os que partem e os que ficam:

«Aqui,
Nesta aldeia do Algarve onde nasci,
Nesta rua que tem o mar ao fundo,
Onde nasceram meus pais
E nasceram e morreram
Antepassados que eu não conheci,
Aqui
Há um Poder-Maior que pode mais
Que aquela voz que me chama
Da outra banda do mar...
- Que me namora e me chama
Da outra banda do Mundo».

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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Uma fotografia

Fotografia da Net, com a legenda Eleições Legislativas em Timor-Leste.
Fala de quê? Da força de uma Nação; da força de duas, se olharmos as Quinas; da liberdade cívica do voto; da criança que herda a escolha; do azul que promete outro horizonte; do selo de plástico que evoca a fragilidade da democracia.
Hoje, num hospital de Lisboa, cruzo-me com uma médica, breve de palavras e simpatia. Sem propósito, Timor-Leste entra na conversa. Diluem-se resistências. Estaríamos ali horas se o trabalho não nos chamasse. Timor resgata o melhor que há em nós. Talvez Portugal também inspire no mesmo sentido.

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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Partir falsa porcelana

Partir falsa porcelana é a mais poderosa expressão para descrever o clima da opinião que, neste tempo, corre em Portugal. Reli-a hoje no Público, pela pena notável de Pedro Lomba, a propósito do combate de Nuno Crato contra os gurus do ensino superior em Portugal. Na verdade, vertem-se lágrimas de crocodilo sobre o Ensino Superior; a Televisão Pública concessionada a privados; a nova Organização Administrativa; e o corte de alguns Feriados.
Concordo com as lágrimas. Se a todas as reformas acrescentarmos o novo Acordo Ortográfico, assiste-se a uma reviravolta da nossa identidade sem uma revolução - de rua ou de quartéis - que a sustente. Mexer, ao mesmo tempo, na Língua, na pertença ao território, no serviço público da comunicação comum e nas datas simbólicas da nossa História e de relação com o Transcendente constitui uma frente violenta, assustadora.
Será o Governo insensível às ligações identitárias mais fortes do seu Povo? Creio que não. Isso seria autofágico, senão suicidário. Prefiro acreditar que, com ineficaz comunicação, aproveitou a crise para «aggiornar» ou desinstalar falsos símbolos. À excepção da mudança da ortografia - que, a meu ver, mais separa do que une ao Brasil - há muito que o ensino deveria ser mais profissionalizante, que a RTP-1 pouco ou nada tem de serviço público, que a maioria das Freguesia urbanas se deixaram enquistar em clientelas endógenas; e que me parece ilusório valorizar feriados como o 5 de Outubro, o 10 de Junho ou mesmo o 25 de Abril - em vez de consagrar a Independência do País num só dia. Recupere-se a porcelana, mesmo com «cabelo», e não os cacos sagrados dos interesses e ideologias instalados.

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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Preconceito, mente aberta e limitações

Habituados que estamos a repescar pelas esquinas o que a plebe vai cochichando, entendendo que onde mais esquinas há existem hoje em dia universidades, ministérios e centros culturais, e por plebe o que invade o espaço público, podemos ouvir com algum sorriso o que por lá se vai dizendo.

Uma das frases mais ouvidas é a seguinte” eu não tenho preconceitos, tenho mente aberta, procuro ver as coisas sem limitações”.

Como os gregos nos ensinaram, uma das formas de ver lucidamente as coisas é ver os seus fundamentos, a sua forma, os seus efeitos e as suas finalidades. Para o leitor mais atento facilmente se reconhece aqui algo próximo da teoria das quatro causas de Aristóteles.

Vejamos os fundamentos deste dito popularucho. Porque diz a plebe que tem mente aberta? Porque tem memória de as antigas classes dominantes viajarem. Ou os peregrinos. Quem viajava estava rodeado de uma aura especial. Ou era senhor, que partia para a guerra ou para o matrimónio, ou era aventureiro cruzado, peregrino que via o que era mais importante ver: Roma, Jerusalém, Santiago de Compostela. O que viaja viu outras coisas, não é o que fica preso à gleba, ao pedacito de terra em que se instala o servo, o simples agricultor. O fundamento desta frase é medieval e mesmo antigo. Quem diz que tem mente aberta está a dizer que não é servo da gleba, mero sedentário sem alternativa. Diz-se nobre ou peregrino, pronto para a viagem.

Mas qual é a forma que adopta para fazer essa viagem que lhe dá tanta abertura? A do turismo. Quem o afirma é geralmente consumidor passivo de viagens pré-formatadas, com destinos bem seguros. Faz as vacinas impostas por lei quando viaja para países com risco de malária e não larga nunca o guia turístico. A sua abertura está enquadrada por padrões pré-definidos, em que o risco é reduzido ao mínimo. Abre-se ao mundo, mas desde que o mundo seja feito à sua imagem e semelhança. Exagero meu? Entre as pessoas ditas abertas que encontramos? Procuremos entre elas os grandes estudiosos de hieróglifos, de sânscrito, de grego clássico. O vazio. Tentemos ver entre essas pessoas ditas abertas se se abrem à História do cálculo infinitesimal. Nada veremos. Ou as que se abrem ao estudo do Madhyamika... Nem sabem o que isso é. A que se abrem estas pessoas? Ao que já está aberto, disponível. A forma é da abertura própria, mas não alheia. Não abrem tesouros escondidos porque já se consideram um tesouro escondido. Quem se diz aberto é em boa verdade quem se considera um tesouro por explorar. Forma presunçosa da modéstia pública.

Quais são os efeitos desta abertura? A passividade, para começar. Sendo eu aberto, basta-me esperar sentado o vento que passa. Pode ser que este me atire à cara uma banana caída de alguma árvore. Mas numa cabeça totalmente aberta entra todo o disparate. Aberto a tudo, tudo lhe entra, aceita sem critério. Um dos outros riscos de se ser demasiado aberto é que quem o é não retém as ideias. Assim como elas chegam, assim se vão embora. Por isso, o homem dito aberto não tem noção da consistência, da coerência. Defende uma coisa e a sua contrária, mas nem tem consciência de o estar a fazer. É natural. Porque a coerência é sempre o resultado de uma procura e não de uma passividade.

E quais as finalidades desta abertura? É que a pessoa que se diz aberta não tem de se comprometer. Ouve uma parte e a outra, mas termina sempre o seu discurso por um non liquet, uma indecisão. Não sabe. Parece ser assim modesto. Mas impõe aos outros que não saibam. Se ele não sabe, mais ninguém pode saber. Ele é aberto e todos os outros têm de ser abertos... como ele. O homem aberto é antes do mais um pequeno ditador. Sentado numa cadeira do seu alpendre, fica ofendido quando outros lhe dizem que há outras formas de vida, em que se calcorreiam as ruas.

Quando Marco Pólo chegou da sua viagem pelo Oriente contou que havia sociedades matriarcais, e outras em que era de boa educação oferecer as mulheres aos visitantes. Foi dado como ridículo e mentiroso. Da mesma forma a pessoa de “mentalidade aberta”, aceita relatos de viagens, mas apenas se a confirmarem na razão. Se dos relatos alheios constar a glória de sociedades mais fechadas, ou conclusões que lhe desagradam, rapidamente vira a cara, ou se ri, ou condena por blasfémia. A criatura sem preconceitos é o herdeiro do transeunte de Veneza, fascinado com o exótico, mas descrente de outras reais possibilidades de vida.

Ortega y Gassett dizia que um homem sem preconceitos era um orangotango. Nenhuma pessoa realmente culta se posta perante o mundo com olhar virginal. E quem o pretende apenas está a querer esconder a sua ignorância sob a capa da abertura. Quando ouço criaturas afirmar que não querer um país asiático na Europa é questão de preconceito temo bem que nos mais altos postos do Estado tenhamos... orangotangos.

Da parte que me toca eu sou muito limitado. Os gregos também o eram e isso não os prejudicou, a avaliar pelos resultados. Antes de me expressar, antes de julgar, rodeio-me de limitações. Sem isso não há justiça possível. Tanto o juiz como o cientista limitam os factos que são relevantes, definem um método, vinculam-se às conclusões. Toda a ciência e a justiça, bem como a melhor filosofia, releva de limitações. Se alguém estabelece o ser como o centro da sua especulação, tem de trabalhar com essa limitação. Quem se atreveu a ler a Crítica da Razão Pura facilmente repara que aquela imensa obra é um contraponto, uma arquitectura de uma ou duas questões dadas como fundamentais, como uma máquina de uma infinita limitação. É evidente que a criatura de mente aberta recusa isto. Porque a sua mente é lassa, não aberta. O esforço de concentração é-lhe penoso, cansa-se com facilidade, e quer impor o seu cansaço como paradigma de todo o julgamento. Como juiz absolveria porque é mais prático, mas estaria igualmente disposto a condenar sumariamente se fosse mais simples. E fácil perante o contexto social.

Mas são assim tão abertos estes espécimes? Fecham os olhos, quando algo lhes afecta a passividade. São passivos e reaccionários. Se além lhes mostra um site de uma embaixada oficial do Estado turco na Dinamarca a fazer propaganda ao Islão como “a mais perfeita das religiões”, fecham os olhos e continuam a dizer que a Turquia é um país laico. São repetitivos, fechados em círculos de que não saem.

Que implicações tem este espécime na política? Como se comporta esta fauna na arena pública? Começam por ser desistentes. O paradigma da sua política é o da desistência e do conformismo. Discutem o que se aceita ser discutido. Os temas, os tópicos argumentativos que aceita, são os que se vão recolhendo na praça pública. Está ansioso por receber Marco Pólo, mas não por viajar. E recebe-o com desconfiança, desprezo e inveja mal disfarçada.

Continuam sendo arbitrários. Sem limites, tudo lhes é permitido. Mas sem preconceitos conscientes nada lhes é sindicado. Não é por acaso que idolatram culturas primitivas, e quanto mais indiferenciadas sob o ponto de vista sentimental, mais enlevados ficam por elas. Aceites pela democracia, necessitando dela para poderem florescer, não contribuem para a mesma, são seu parasitas. Postam-se em alpendres a ver indignidades e tudo pelo facto de ser espectáculo lhes merece o respeito. Só porque se posta à sua frente.

Finalizam sendo tirânicos. A sua mente não é aberta, mas apenas ponto de passagem de correntes de ar. Têm menos preconceitos e por isso mais enquistados e difíceis de extirpar, mais atávicos. São em boa verdade apenas limitados, não tendo por isso que se impor limites. Apenas se impõe limites quem se sabe apto para o infinito, e quem com ele se confronta.

É esta fauna que deixámos invadir o espaço público. Deixámos incautamente abrir as portas da cancela e a maralha tirânica invadiu o espaço da seriedade. Manada desembestada que destrói tudo no seu caminho, fruem de uma liberdade que não conceberam, e que são incapazes de sustentar. Esquecem-se que a liberdade começou no dia em que alguém se conteve, porque sendo mais forte não se impôs. Impôs-se limites, em suma. Tiranetes produzidos pela democracia, idolatram-na por necessidade de sobrevivência. Enquanto vão criando o espaço para toda a espécie de desvios à mesma.



Alexandre Brandão da Veiga


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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O túnel ou o labirinto

Na mitologia grega, a filha de Minos, rei de Creta, ajudou Teseu a sair do labirinto, depois de este ter matado o Minotauro. Desde os clássicos que sair do Labirinto é uma recompensa, uma sabedoria, uma libertação.
Mas António Costa parece apostado em multiplicar o mito por -1, em Lisboa.
Desfazer o nó da Rotunda foi um propósito alcançado por Santana Lopes na construção do Túnel do Marquês que Sá Fernandes tanto combateu e encareceu. Reduzir as faixas de rodagem - encerrando o túnel para fazer a obra atrofiante - é criar o Labirinto no coração de uma capital com uma estrutura radioconcêntrica, não dissolúvel. Está instalado o caos. Venha a filha do Rei de Creta ajudar-nos a sair do Labirinto com sabedoria e merecimento!

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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Razão e paixão

Até ao fim do século XVIII quase unanimemente os pensadores europeus defenderam a razão contra a paixão, ou melhor, as paixões. Desde o romantismo que isso não acontece. E como em boa verdade ainda bebemos, para o bem e para o mal, do romantismo, hoje em dia não se pergunta pela defesa da razão sequer. Onde está a razão então? E porquê tanto afã em defendê-la contra as paixões? Que receios provocava a paixão?


Vejamos a última questão em primeiro lugar. Porquê tanto afã? O lugar comum é o de se dizer que existia uma cultura racionalista, como se isso fosse uma limitação, como se não tivessem percebido – os pobres coitados! - que havia outras coisas para além da razão. Este é evidentemente um modo de ver as coisas muito pobre. Se temiam as paixões é porque tinham muitas, porque estavam em contacto com elas de forma mais directa, mais intensa, que nós. Não nos podemos esquecer que falamos de pessoas que viram a morte ao seu lado, por duelos, por execuções judiciárias, por doença, por guerras. Raros foram os pensadores até ao século XIX que não assistiram a nenhuma guerra, que não viram o que era um corpo humano ser dilacerado pela tortura, os maus-tratos, a fome, ou simplesmente a desconsideração social. A miséria e o sofrimento humano para essa gente era uma lei natural, que existia em toda a parte do mundo, em todas as culturas, em todas as épocas. Não tinham exemplo dessa construção maravilhosa e pesada que é o Estado-Providência. Providência para eles era apenas a divina, que se instilava sobre a forma natural das desigualdades e sofrimentos humanos universais.


Escolher a razão era para eles escolher o contrário do sofrimento, sobretudo do sofrimento infligido pelo homem ao próprio homem.


Com o romantismo estamos perante uma sociedade mais segura dela mesma, talvez a mais segura dela mesma que já existiu na História humana, só tendo paralelo na época dos Antoninos em Roma e de Péricles em Atenas, que seja de nossa memória (esquecemos tonteiras presunçosas que ocorreram em vários impérios asiáticos, mas mais por falta de exigência, como na Turquia, entre os assírios ou na China). Segura exactamente porque viu triunfar mecanismos desenhados pela razão. O direito internacional, as garantias mínimas de liberdade, a possibilidade de promoção social, o início da segurança social. Ao longo do século XIX toda a armadura que hoje constitui a almofada da nossa existência foi formada. Foi a razão que pacificou o homem, que lhe diminuiu o sofrimento, pela ciência, pelas tecnologias, pelo consenso racional.


Mas como todos os garantidos, os enfardados, os europeus ficaram meninos estragados com mimos. O espaço criado pela razão torna-se “natureza”, é natural” termos a almofada de existência que temos, e isso enfada. Começámos por isso a brincar com o fogo, pudemos dar-nos a esse luxo. O inconsciente, o mito, a irrazão, a experiência sem limites, tudo poude ser experimentado, vivido. Se o poude, apenas o poude ser porque a razão tinha construído um espaço em que não era perigoso experimentar. Atear um fogo em ambiente controlado, que é o que em suma fazem os cultores da irrazão, não releva afinal de uma grande coragem. Exigem bombeiros de toda a espécie que podem apagá-lo – julgamos nós.


Mas para onde foi habitar esta razão que maltratamos tanto na nossa cultura? Onde se abriga ela?


Mais uma vez, no Direito para começar. Cultivamos, incensamos a irracionalidade, mas exigimos que o espaço das relações internacionais, da conformação social interna, sejam regidos pelo Direito, ou seja, pela razão que se auto-controla. Queremos tribunais para julgar os homens, os políticos, a História igualmente. O que antes recebia condenação por razões religiosas é agora assepticamente relegado para os tribunais que aplicam um Direito supostamente universal. O problema é que nos esquecemos que levámos séculos a estabelecer consensos que são europeus, só europeus, que exportámos para as culturas neo-europeias como as Américas, a Oceânia, alguns países africanos. E queremos converter o mundo inteiro a consensos que para ele não fazem sentido, por ignorância, limitação, mas também por falta de identificação histórica.


Para a ciência, igualmente. Queremos inutilmente que a ciência cure já e desde logo todas as ciências, que os nossos percursos pela irracionalidade nos deixem incólumes. Queremos brincar com o fogo, mas não aceitamos que nos possamos queimar, sobretudo de forma incontrolável.


Para a política e a economia, finalmente. Queremos que as políticas sejam eficazes, que nos inventem emprego, riqueza, novas formas de vida. Que a política se faça de paradigmas bem polidos e lógicos, sem contradições. Nunca época houve em que as contradições nos políticos fossem objecto de tanto escárnio e no entanto, poucas houve que deram tão poucas alternativas a essa incongruência.


A razão deixou de ser motivo de amor, de cuidado. Compreende-se. Por um lado, porque estamos instalados nela. Os gregos podam amá-la porque ela era fresca, novidade, alargamento da consciência. Onde estavam instalados, como Dodds bem demonstrou, era um espaço de irracionalidade. Na nossa Idade Média (todos os países europeus a tiveram, quem não a teve não é europeu, digo-o sem medo de ser temerário nas minhas afirmações) homens cobertos de paixões eram-no também de sentido religioso e amavam a razão por isso mesmo. E aqui vemos a outra causa da perda do amor à razão: a falta de religiosidade. A razão é planta que carece de cuidados, ao contrário da irrazão que cresce como planta selvagem. Gente descuidada é por definição irreligiosa. E tem em horror a razão.


O problema dos amantes da razão é sempre o da incompletude do discurso, mas porque a outra metade de que falam é-lhes suficientemente vívida. Têm vidas mais completas que o seu discurso. Os cultores da irrazão têm com frequência o problema contrário: o seu discurso é mais rico que a sua vida. Vão beber à razão para a contestar, assentam confortavelmente nela para a maltratar. Os cultores da razão, pelo contrário, sabem que assentam em terreno mais movediço, a vida na verdade, e por isso cultivam um jardim que carece de cuidados para não morrer. São provedores, não fruidores.


É evidente que os cultores da razão podem ter taras. Têm-nas quando perdem a religião. O laicismo francês, e o utilitarismo inglês, o materialismo alemão e russo, formas de gloriosa mas em geral triste obscenidade na cultura europeia pecaram por julgarem que a razão em que assentavam não tinha História, não era movediça, e que correspondia ao mundo todo. Nesse caso o discurso podia ser erudito, mas era tão pobre quanto a sua vida.

Dois episódios são significativos deste fenómeno. Estaline não queria a física quântica porque lhe retirava a certeza absoluta positivista do marxismo-leninismo (muitas contradições nesta expressão de que não posso curar agora). E o teorema de Goedel mostra que a razão se rebela quando dela queremos extrair mais do que ela algum dia nos prometeu. O problema não está nos limites da razão, mas no facto de nós lhe querermos (irracionalmente) impor que não tenha limites.


Convenhamos portanto, que é difícil estar presente no espaço público hoje em dia. Tem de se fazer uma política racional, uma economia que se anuncia como tal, aceitar reger-se por um Direito cada vez mais tentacular como espaço de crescimento teratológico da razão. Mas convenhamos igualmente que quem ocupa esse espaço público é produto adaptado a ela. Não se trata de cultores da razão sofrendo com o seu mau uso. São na sua maioria incapazes da razão, usando-a apenas no Direito, na economia, na política, ou julgando-a usar, porque vivem da ilusão de que esses são os espaços privilegiados da sua actuação.


Criaturas meramente adaptadas ao espaço público, segregadas por ele como hormonas meramente reactivas, crescidas para o viver sem crítica nem oposição verdadeira, padecem apenas. Padecem do mal do século: não cultivam a razão, porque ela lhes é fraca, porque acreditam piamente na sua imensa força para aguentar os embates dos seus dislates e trágicos erros e por em última análise serem criaturas sem paixões. Estes aqueles que incarnam o espírito da época: amorfos e amputados.


Alexandre Brandão da Veiga

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