quinta-feira, 13 de setembro de 2012

I can't get no satisfation


Em Democracia, a maioria do Povo encanta-se com uma força política, vota nela, desencanta-se, e vota noutra. Tal como numa paixão, aposta tudo na esperança de um líder para depressa se desiludir e dar maioria a outra força. Os mandatos seguram o divórcio por quatro anos mas a verdade é que, mantendo a atitude hedonista, sobretudo em tempo de crise, passado um ano já o eleitor alimenta sondagens de sinal contrário.
Ora um projecto não se testa à la minute, por sondagem, tal como um grande amor não cede a desilusões porque não assenta em ilusões. É preferível acreditar a ser crédulo; construir a fiscalizar; ter rumo a obedecer a um vento, tantas vezes alimentado por ventoínhas com lama. A comparação, reincidente, entre a paixão e o voto prejudica o melhor dos piores sistemas.
Dito isto, nada se sobrepõe à liberdade de poder escolher. Mas escolher não é guinar «ao sabor do último sabor». É fazer caminho esclarecido, valente, generoso com as futuras gerações.

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terça-feira, 11 de setembro de 2012

Poder Maior



A médica do post anterior quer sair de Portugal, para tratar noutros corpos, as mesmas doenças, num lugar distante. Lembra-me as palavras de Adriano Moreira, na passada 6ª feira, segundo as quais há coragem em partir mas é preciso mais coragem para ficar. E Portugal pede-nos hoje essa coragem de fazer aqui aquilo que estamos dispostos a fazer fora.
Os versos de António Pereira (1914-1978), autor de «Notícias do Mar», desfazem o dilema do Velho do Restelo, entre os que partem e os que ficam:

«Aqui,
Nesta aldeia do Algarve onde nasci,
Nesta rua que tem o mar ao fundo,
Onde nasceram meus pais
E nasceram e morreram
Antepassados que eu não conheci,
Aqui
Há um Poder-Maior que pode mais
Que aquela voz que me chama
Da outra banda do mar...
- Que me namora e me chama
Da outra banda do Mundo».

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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Uma fotografia

Fotografia da Net, com a legenda Eleições Legislativas em Timor-Leste.
Fala de quê? Da força de uma Nação; da força de duas, se olharmos as Quinas; da liberdade cívica do voto; da criança que herda a escolha; do azul que promete outro horizonte; do selo de plástico que evoca a fragilidade da democracia.
Hoje, num hospital de Lisboa, cruzo-me com uma médica, breve de palavras e simpatia. Sem propósito, Timor-Leste entra na conversa. Diluem-se resistências. Estaríamos ali horas se o trabalho não nos chamasse. Timor resgata o melhor que há em nós. Talvez Portugal também inspire no mesmo sentido.

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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Partir falsa porcelana

Partir falsa porcelana é a mais poderosa expressão para descrever o clima da opinião que, neste tempo, corre em Portugal. Reli-a hoje no Público, pela pena notável de Pedro Lomba, a propósito do combate de Nuno Crato contra os gurus do ensino superior em Portugal. Na verdade, vertem-se lágrimas de crocodilo sobre o Ensino Superior; a Televisão Pública concessionada a privados; a nova Organização Administrativa; e o corte de alguns Feriados.
Concordo com as lágrimas. Se a todas as reformas acrescentarmos o novo Acordo Ortográfico, assiste-se a uma reviravolta da nossa identidade sem uma revolução - de rua ou de quartéis - que a sustente. Mexer, ao mesmo tempo, na Língua, na pertença ao território, no serviço público da comunicação comum e nas datas simbólicas da nossa História e de relação com o Transcendente constitui uma frente violenta, assustadora.
Será o Governo insensível às ligações identitárias mais fortes do seu Povo? Creio que não. Isso seria autofágico, senão suicidário. Prefiro acreditar que, com ineficaz comunicação, aproveitou a crise para «aggiornar» ou desinstalar falsos símbolos. À excepção da mudança da ortografia - que, a meu ver, mais separa do que une ao Brasil - há muito que o ensino deveria ser mais profissionalizante, que a RTP-1 pouco ou nada tem de serviço público, que a maioria das Freguesia urbanas se deixaram enquistar em clientelas endógenas; e que me parece ilusório valorizar feriados como o 5 de Outubro, o 10 de Junho ou mesmo o 25 de Abril - em vez de consagrar a Independência do País num só dia. Recupere-se a porcelana, mesmo com «cabelo», e não os cacos sagrados dos interesses e ideologias instalados.

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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Preconceito, mente aberta e limitações

Habituados que estamos a repescar pelas esquinas o que a plebe vai cochichando, entendendo que onde mais esquinas há existem hoje em dia universidades, ministérios e centros culturais, e por plebe o que invade o espaço público, podemos ouvir com algum sorriso o que por lá se vai dizendo.

Uma das frases mais ouvidas é a seguinte” eu não tenho preconceitos, tenho mente aberta, procuro ver as coisas sem limitações”.

Como os gregos nos ensinaram, uma das formas de ver lucidamente as coisas é ver os seus fundamentos, a sua forma, os seus efeitos e as suas finalidades. Para o leitor mais atento facilmente se reconhece aqui algo próximo da teoria das quatro causas de Aristóteles.

Vejamos os fundamentos deste dito popularucho. Porque diz a plebe que tem mente aberta? Porque tem memória de as antigas classes dominantes viajarem. Ou os peregrinos. Quem viajava estava rodeado de uma aura especial. Ou era senhor, que partia para a guerra ou para o matrimónio, ou era aventureiro cruzado, peregrino que via o que era mais importante ver: Roma, Jerusalém, Santiago de Compostela. O que viaja viu outras coisas, não é o que fica preso à gleba, ao pedacito de terra em que se instala o servo, o simples agricultor. O fundamento desta frase é medieval e mesmo antigo. Quem diz que tem mente aberta está a dizer que não é servo da gleba, mero sedentário sem alternativa. Diz-se nobre ou peregrino, pronto para a viagem.

Mas qual é a forma que adopta para fazer essa viagem que lhe dá tanta abertura? A do turismo. Quem o afirma é geralmente consumidor passivo de viagens pré-formatadas, com destinos bem seguros. Faz as vacinas impostas por lei quando viaja para países com risco de malária e não larga nunca o guia turístico. A sua abertura está enquadrada por padrões pré-definidos, em que o risco é reduzido ao mínimo. Abre-se ao mundo, mas desde que o mundo seja feito à sua imagem e semelhança. Exagero meu? Entre as pessoas ditas abertas que encontramos? Procuremos entre elas os grandes estudiosos de hieróglifos, de sânscrito, de grego clássico. O vazio. Tentemos ver entre essas pessoas ditas abertas se se abrem à História do cálculo infinitesimal. Nada veremos. Ou as que se abrem ao estudo do Madhyamika... Nem sabem o que isso é. A que se abrem estas pessoas? Ao que já está aberto, disponível. A forma é da abertura própria, mas não alheia. Não abrem tesouros escondidos porque já se consideram um tesouro escondido. Quem se diz aberto é em boa verdade quem se considera um tesouro por explorar. Forma presunçosa da modéstia pública.

Quais são os efeitos desta abertura? A passividade, para começar. Sendo eu aberto, basta-me esperar sentado o vento que passa. Pode ser que este me atire à cara uma banana caída de alguma árvore. Mas numa cabeça totalmente aberta entra todo o disparate. Aberto a tudo, tudo lhe entra, aceita sem critério. Um dos outros riscos de se ser demasiado aberto é que quem o é não retém as ideias. Assim como elas chegam, assim se vão embora. Por isso, o homem dito aberto não tem noção da consistência, da coerência. Defende uma coisa e a sua contrária, mas nem tem consciência de o estar a fazer. É natural. Porque a coerência é sempre o resultado de uma procura e não de uma passividade.

E quais as finalidades desta abertura? É que a pessoa que se diz aberta não tem de se comprometer. Ouve uma parte e a outra, mas termina sempre o seu discurso por um non liquet, uma indecisão. Não sabe. Parece ser assim modesto. Mas impõe aos outros que não saibam. Se ele não sabe, mais ninguém pode saber. Ele é aberto e todos os outros têm de ser abertos... como ele. O homem aberto é antes do mais um pequeno ditador. Sentado numa cadeira do seu alpendre, fica ofendido quando outros lhe dizem que há outras formas de vida, em que se calcorreiam as ruas.

Quando Marco Pólo chegou da sua viagem pelo Oriente contou que havia sociedades matriarcais, e outras em que era de boa educação oferecer as mulheres aos visitantes. Foi dado como ridículo e mentiroso. Da mesma forma a pessoa de “mentalidade aberta”, aceita relatos de viagens, mas apenas se a confirmarem na razão. Se dos relatos alheios constar a glória de sociedades mais fechadas, ou conclusões que lhe desagradam, rapidamente vira a cara, ou se ri, ou condena por blasfémia. A criatura sem preconceitos é o herdeiro do transeunte de Veneza, fascinado com o exótico, mas descrente de outras reais possibilidades de vida.

Ortega y Gassett dizia que um homem sem preconceitos era um orangotango. Nenhuma pessoa realmente culta se posta perante o mundo com olhar virginal. E quem o pretende apenas está a querer esconder a sua ignorância sob a capa da abertura. Quando ouço criaturas afirmar que não querer um país asiático na Europa é questão de preconceito temo bem que nos mais altos postos do Estado tenhamos... orangotangos.

Da parte que me toca eu sou muito limitado. Os gregos também o eram e isso não os prejudicou, a avaliar pelos resultados. Antes de me expressar, antes de julgar, rodeio-me de limitações. Sem isso não há justiça possível. Tanto o juiz como o cientista limitam os factos que são relevantes, definem um método, vinculam-se às conclusões. Toda a ciência e a justiça, bem como a melhor filosofia, releva de limitações. Se alguém estabelece o ser como o centro da sua especulação, tem de trabalhar com essa limitação. Quem se atreveu a ler a Crítica da Razão Pura facilmente repara que aquela imensa obra é um contraponto, uma arquitectura de uma ou duas questões dadas como fundamentais, como uma máquina de uma infinita limitação. É evidente que a criatura de mente aberta recusa isto. Porque a sua mente é lassa, não aberta. O esforço de concentração é-lhe penoso, cansa-se com facilidade, e quer impor o seu cansaço como paradigma de todo o julgamento. Como juiz absolveria porque é mais prático, mas estaria igualmente disposto a condenar sumariamente se fosse mais simples. E fácil perante o contexto social.

Mas são assim tão abertos estes espécimes? Fecham os olhos, quando algo lhes afecta a passividade. São passivos e reaccionários. Se além lhes mostra um site de uma embaixada oficial do Estado turco na Dinamarca a fazer propaganda ao Islão como “a mais perfeita das religiões”, fecham os olhos e continuam a dizer que a Turquia é um país laico. São repetitivos, fechados em círculos de que não saem.

Que implicações tem este espécime na política? Como se comporta esta fauna na arena pública? Começam por ser desistentes. O paradigma da sua política é o da desistência e do conformismo. Discutem o que se aceita ser discutido. Os temas, os tópicos argumentativos que aceita, são os que se vão recolhendo na praça pública. Está ansioso por receber Marco Pólo, mas não por viajar. E recebe-o com desconfiança, desprezo e inveja mal disfarçada.

Continuam sendo arbitrários. Sem limites, tudo lhes é permitido. Mas sem preconceitos conscientes nada lhes é sindicado. Não é por acaso que idolatram culturas primitivas, e quanto mais indiferenciadas sob o ponto de vista sentimental, mais enlevados ficam por elas. Aceites pela democracia, necessitando dela para poderem florescer, não contribuem para a mesma, são seu parasitas. Postam-se em alpendres a ver indignidades e tudo pelo facto de ser espectáculo lhes merece o respeito. Só porque se posta à sua frente.

Finalizam sendo tirânicos. A sua mente não é aberta, mas apenas ponto de passagem de correntes de ar. Têm menos preconceitos e por isso mais enquistados e difíceis de extirpar, mais atávicos. São em boa verdade apenas limitados, não tendo por isso que se impor limites. Apenas se impõe limites quem se sabe apto para o infinito, e quem com ele se confronta.

É esta fauna que deixámos invadir o espaço público. Deixámos incautamente abrir as portas da cancela e a maralha tirânica invadiu o espaço da seriedade. Manada desembestada que destrói tudo no seu caminho, fruem de uma liberdade que não conceberam, e que são incapazes de sustentar. Esquecem-se que a liberdade começou no dia em que alguém se conteve, porque sendo mais forte não se impôs. Impôs-se limites, em suma. Tiranetes produzidos pela democracia, idolatram-na por necessidade de sobrevivência. Enquanto vão criando o espaço para toda a espécie de desvios à mesma.



Alexandre Brandão da Veiga


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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O túnel ou o labirinto

Na mitologia grega, a filha de Minos, rei de Creta, ajudou Teseu a sair do labirinto, depois de este ter matado o Minotauro. Desde os clássicos que sair do Labirinto é uma recompensa, uma sabedoria, uma libertação.
Mas António Costa parece apostado em multiplicar o mito por -1, em Lisboa.
Desfazer o nó da Rotunda foi um propósito alcançado por Santana Lopes na construção do Túnel do Marquês que Sá Fernandes tanto combateu e encareceu. Reduzir as faixas de rodagem - encerrando o túnel para fazer a obra atrofiante - é criar o Labirinto no coração de uma capital com uma estrutura radioconcêntrica, não dissolúvel. Está instalado o caos. Venha a filha do Rei de Creta ajudar-nos a sair do Labirinto com sabedoria e merecimento!

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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Razão e paixão

Até ao fim do século XVIII quase unanimemente os pensadores europeus defenderam a razão contra a paixão, ou melhor, as paixões. Desde o romantismo que isso não acontece. E como em boa verdade ainda bebemos, para o bem e para o mal, do romantismo, hoje em dia não se pergunta pela defesa da razão sequer. Onde está a razão então? E porquê tanto afã em defendê-la contra as paixões? Que receios provocava a paixão?


Vejamos a última questão em primeiro lugar. Porquê tanto afã? O lugar comum é o de se dizer que existia uma cultura racionalista, como se isso fosse uma limitação, como se não tivessem percebido – os pobres coitados! - que havia outras coisas para além da razão. Este é evidentemente um modo de ver as coisas muito pobre. Se temiam as paixões é porque tinham muitas, porque estavam em contacto com elas de forma mais directa, mais intensa, que nós. Não nos podemos esquecer que falamos de pessoas que viram a morte ao seu lado, por duelos, por execuções judiciárias, por doença, por guerras. Raros foram os pensadores até ao século XIX que não assistiram a nenhuma guerra, que não viram o que era um corpo humano ser dilacerado pela tortura, os maus-tratos, a fome, ou simplesmente a desconsideração social. A miséria e o sofrimento humano para essa gente era uma lei natural, que existia em toda a parte do mundo, em todas as culturas, em todas as épocas. Não tinham exemplo dessa construção maravilhosa e pesada que é o Estado-Providência. Providência para eles era apenas a divina, que se instilava sobre a forma natural das desigualdades e sofrimentos humanos universais.


Escolher a razão era para eles escolher o contrário do sofrimento, sobretudo do sofrimento infligido pelo homem ao próprio homem.


Com o romantismo estamos perante uma sociedade mais segura dela mesma, talvez a mais segura dela mesma que já existiu na História humana, só tendo paralelo na época dos Antoninos em Roma e de Péricles em Atenas, que seja de nossa memória (esquecemos tonteiras presunçosas que ocorreram em vários impérios asiáticos, mas mais por falta de exigência, como na Turquia, entre os assírios ou na China). Segura exactamente porque viu triunfar mecanismos desenhados pela razão. O direito internacional, as garantias mínimas de liberdade, a possibilidade de promoção social, o início da segurança social. Ao longo do século XIX toda a armadura que hoje constitui a almofada da nossa existência foi formada. Foi a razão que pacificou o homem, que lhe diminuiu o sofrimento, pela ciência, pelas tecnologias, pelo consenso racional.


Mas como todos os garantidos, os enfardados, os europeus ficaram meninos estragados com mimos. O espaço criado pela razão torna-se “natureza”, é natural” termos a almofada de existência que temos, e isso enfada. Começámos por isso a brincar com o fogo, pudemos dar-nos a esse luxo. O inconsciente, o mito, a irrazão, a experiência sem limites, tudo poude ser experimentado, vivido. Se o poude, apenas o poude ser porque a razão tinha construído um espaço em que não era perigoso experimentar. Atear um fogo em ambiente controlado, que é o que em suma fazem os cultores da irrazão, não releva afinal de uma grande coragem. Exigem bombeiros de toda a espécie que podem apagá-lo – julgamos nós.


Mas para onde foi habitar esta razão que maltratamos tanto na nossa cultura? Onde se abriga ela?


Mais uma vez, no Direito para começar. Cultivamos, incensamos a irracionalidade, mas exigimos que o espaço das relações internacionais, da conformação social interna, sejam regidos pelo Direito, ou seja, pela razão que se auto-controla. Queremos tribunais para julgar os homens, os políticos, a História igualmente. O que antes recebia condenação por razões religiosas é agora assepticamente relegado para os tribunais que aplicam um Direito supostamente universal. O problema é que nos esquecemos que levámos séculos a estabelecer consensos que são europeus, só europeus, que exportámos para as culturas neo-europeias como as Américas, a Oceânia, alguns países africanos. E queremos converter o mundo inteiro a consensos que para ele não fazem sentido, por ignorância, limitação, mas também por falta de identificação histórica.


Para a ciência, igualmente. Queremos inutilmente que a ciência cure já e desde logo todas as ciências, que os nossos percursos pela irracionalidade nos deixem incólumes. Queremos brincar com o fogo, mas não aceitamos que nos possamos queimar, sobretudo de forma incontrolável.


Para a política e a economia, finalmente. Queremos que as políticas sejam eficazes, que nos inventem emprego, riqueza, novas formas de vida. Que a política se faça de paradigmas bem polidos e lógicos, sem contradições. Nunca época houve em que as contradições nos políticos fossem objecto de tanto escárnio e no entanto, poucas houve que deram tão poucas alternativas a essa incongruência.


A razão deixou de ser motivo de amor, de cuidado. Compreende-se. Por um lado, porque estamos instalados nela. Os gregos podam amá-la porque ela era fresca, novidade, alargamento da consciência. Onde estavam instalados, como Dodds bem demonstrou, era um espaço de irracionalidade. Na nossa Idade Média (todos os países europeus a tiveram, quem não a teve não é europeu, digo-o sem medo de ser temerário nas minhas afirmações) homens cobertos de paixões eram-no também de sentido religioso e amavam a razão por isso mesmo. E aqui vemos a outra causa da perda do amor à razão: a falta de religiosidade. A razão é planta que carece de cuidados, ao contrário da irrazão que cresce como planta selvagem. Gente descuidada é por definição irreligiosa. E tem em horror a razão.


O problema dos amantes da razão é sempre o da incompletude do discurso, mas porque a outra metade de que falam é-lhes suficientemente vívida. Têm vidas mais completas que o seu discurso. Os cultores da irrazão têm com frequência o problema contrário: o seu discurso é mais rico que a sua vida. Vão beber à razão para a contestar, assentam confortavelmente nela para a maltratar. Os cultores da razão, pelo contrário, sabem que assentam em terreno mais movediço, a vida na verdade, e por isso cultivam um jardim que carece de cuidados para não morrer. São provedores, não fruidores.


É evidente que os cultores da razão podem ter taras. Têm-nas quando perdem a religião. O laicismo francês, e o utilitarismo inglês, o materialismo alemão e russo, formas de gloriosa mas em geral triste obscenidade na cultura europeia pecaram por julgarem que a razão em que assentavam não tinha História, não era movediça, e que correspondia ao mundo todo. Nesse caso o discurso podia ser erudito, mas era tão pobre quanto a sua vida.

Dois episódios são significativos deste fenómeno. Estaline não queria a física quântica porque lhe retirava a certeza absoluta positivista do marxismo-leninismo (muitas contradições nesta expressão de que não posso curar agora). E o teorema de Goedel mostra que a razão se rebela quando dela queremos extrair mais do que ela algum dia nos prometeu. O problema não está nos limites da razão, mas no facto de nós lhe querermos (irracionalmente) impor que não tenha limites.


Convenhamos portanto, que é difícil estar presente no espaço público hoje em dia. Tem de se fazer uma política racional, uma economia que se anuncia como tal, aceitar reger-se por um Direito cada vez mais tentacular como espaço de crescimento teratológico da razão. Mas convenhamos igualmente que quem ocupa esse espaço público é produto adaptado a ela. Não se trata de cultores da razão sofrendo com o seu mau uso. São na sua maioria incapazes da razão, usando-a apenas no Direito, na economia, na política, ou julgando-a usar, porque vivem da ilusão de que esses são os espaços privilegiados da sua actuação.


Criaturas meramente adaptadas ao espaço público, segregadas por ele como hormonas meramente reactivas, crescidas para o viver sem crítica nem oposição verdadeira, padecem apenas. Padecem do mal do século: não cultivam a razão, porque ela lhes é fraca, porque acreditam piamente na sua imensa força para aguentar os embates dos seus dislates e trágicos erros e por em última análise serem criaturas sem paixões. Estes aqueles que incarnam o espírito da época: amorfos e amputados.


Alexandre Brandão da Veiga

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quinta-feira, 26 de julho de 2012

O patriotismo educa-se?

Somos Nação enquanto tivermos consciência de corpo, de identidade, de passado e futuro comuns. Somos Nação enquanto estivermos dispostos a dar de nós por esta abstracção tão concreta que é querer ser português, amar Portugal.
Dantes era mais fácil: o serviço militar obrigatório era um esforço democrático, porque transversal, que a todos impunha um período de serviço à Pátria, inegociável e pedagógico. As Mulheres não íam à tropa o que parecia injusto, sobretudo desde que começaram a concorrer profissionalmente. Mas a maternidade - ou o facto de poderem dar filhos à Pátria - compensava o compasso de espera que era imposto aos homens.
Era mais fácil: os manuais de história estavam equipados com acontecimentos extraordinários, com heróis e conquistas que nos faziam sentir um orgulho único no nosso País. E não viajávamos tanto. Não gostávamos do que os outros eram - ou tinham - também porque os desconhecíamos.
Hoje temos o peso dos impostos como única contribuição para o bem comum. E os resultados do futebol como rara compensação do orgulho nacional. Isso provoca em todos um sentimento de prejuízo, pela maior importância dada ao dinheiro e pela falta de prática de entrega à Nação. O anterior sentido cívico seria utilíssimo para a dura travessia que vivemos.

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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Cristo passou por aqui?

Há vários anos, foi lançada uma biografia sobre D. Manuel Martins, 1º bispo de Setúbal logo que esta diocese foi destacada do Patriarcado de Lisboa, em 1975. O prelado de Setúbal ficaria conhecido pelo bispo vermelho numa simplificação mediática pela defesa dos pobres da Península Industrial, durante o controlo do FMI, entre 1983 e 1985. «Há fome em Setúbal», denunciou então D. Manuel Martins e o poder e os jornais olharam para o pastor com olhos mais políticos do que evangélicos.
Ironicamente, anos depois, a biografia do bispo vermelho era lançada em Lisboa, no Hotel Meridien, forrado de espelhos, alcatifas e celebridades, capitães de Abril incluídos. Almeida Santos fez a apresentação do livro com elogios ao vermelho que tanto incómodo tinha causado ao Governo do Bloco Central, presidido pelo PS, do qual o orador era nº 2.
Seguiram-se as palavras de Adriano Moreira que disse simplesmente: «Um bispo não é vermelho, nem azul, nem verde, nem amarelo. Um bispo só é bispo quando, depois de deixar a sua cátedra, o Povo pode sentir que Cristo passou por ali». O bispo, antes contente com o epíteto vermelho, logo concordou com Adriano, reconduzindo-se à suprema condição de servo dos servos.
Lembro este episódio a propósito da recente atoarda de D. Januário Torgal Ferreira. Cristo passou por ali?

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terça-feira, 17 de julho de 2012

O que é o terrorismo?

O terrorismo é uma técnica de guerra. Um país com terrorismo é sempre um país em guerra, por mais fraca intensidade que esta tenha. O que visa o terrorismo? Uns dizem que é impor uma ideia, destronar um sistema, outros apenas vencer frustrações pessoais. No entanto, estas são sempre visões parcelares da realidade. O que o terrorismo visa sempre e em todos os casos é a destruição da vida comum, o fim de certezas implícitas.


Todos nós usamos transportes, comemos em restaurantes, circulamos no espaço público. Circular no espaço público é viver na natureza do homem urbanizado. O terrorista põe em causa a certeza dessa natureza, a sua estabilidade. Lembra que a ida é arriscada, sempre arriscada, mesmo que não seja por nossa iniciativa.


Se depois há frustrações pessoais, civilizacionais, sociais que motivam os terroristas, essa é outra questão.


O terrorista é sempre um nómada, pelo menos ocasional. A civilização é sedentária, carece de imobilidades. O terrorista move-se. Por isso, embora não seja sempre verdade, tendencialmente o terrorista é mais pobre que o aterrorizado. Tem menos a perder, move-se com maior facilidade. O terrorismo põe em causa a própria natureza sedentária do homem civilizado.

O paradigma do terrorista é o huno Átila. Também ele transformou o sedentário em refugiado, o homem da vida estável da urbe romana num timorato, num descrente no mundo que o rodeava.


O que visa o terrorista é a descrença. As nossas verdades absolutas, tanto mais quanto nos julgamos imunes a dogmatismos, são abaladas com o terrorismo. Porque o nosso relativismo é luxo de bem instalados, que acreditam que o que os rodeia é inabalável, seguro, mera dádiva, que nem esforço exigiu, nem tem fragilidades. Quem mais contesta a civilização é em geral quem mais acredita que nada a pode abalar. Viaja de avião para a contestar, usa computadores para a pôr em casa, mas esquece que nem aviões nem computadores seriam possíveis sem essas estruturas que ele não contribuiu em nada para realizar e de que é mero herdeiro pródigo.
Discutem-se muito as motivações dos terroristas mas estas em geral são meros pretextos. Porque o que sustenta o terrorismo são dois factores bem longínquos da motivação: a finalidade e a inércia. A finalidade, a destruição do estável, do sedentário, do comum. A inércia porque mesmo terminada a motivação ele continua. O terrorismo gera uma cultura, alimenta-se a si mesmo como modo de vida.


É essa a diferença entre o terrorista e o resistente, embora ambos possam ser chamados de terrorista em sentido próprio. O resistente francês larga a resistência depois de o fim ter sido atingido. Foi terrorista. Mas não é tanto a causa ser boa ou má que o faz resistente, embora só o ponto de vista de valoração moral possamos discutir isto. É o facto de estar pronto a renunciar, de ser a sua última vontade perder as razões de lutar.


O terrorista cultural, ao contrário do terrorista resistente, é o que não está disposto a renunciar. Pode-se contra-argumentar dizendo: mas se o resistente francês terminou a sua tarefa é porque atingiu o seu objectivo. Quem nos diz que a ETA ou terrorista islâmico se atingirem o seu objectivo não parariam? A distinção parece arbitrária.


Não é verdade. É que tem de ser visto à luz de cada cultura o que é um terrorista e um resistente. Para muitos meios árabes e turcos o terrorista é o resistente, mesmo que a sua finalidade seja a aplicação de um único princípio, o do fundamentalismo islâmico, porque tem um paradigma que cola à tradição das suas civilizações. Um modelo totalitário, mesmo que mais ou menos tolerante consoante as épocas. Na Europa, em que nunca venceu um só princípio, mas sempre foi feita de diálogo entre princípios opostos (região-Estado-império, império – papado, separação entre Estados e igreja e natureza confessional dos Estados, igualdade dos homens e desigualdades sociais, etc.), a diferença entre terrorista e resistente encontra-se na adesão a um só princípio (terrorista), ou na aceitação de uma vida de compromissos (resistente). Na Turquia e nos países árabes os critérios têm de se encontrar nos seus paradigmas de civilização.


Destrinçar o terrorista do não terrorista depende assim de civilização para civilização. Como o terrorista é o que quer destruir ou pelo menos pôr em causa as certezas de uma civilização, terrorista na Europa é sempre o que não admite uma vida de compromissos de valores contrários e está disposto a pôr em causa a vida comum por isso. O terrorista só desistiria se acabasse essa vida de compromissos. Mas a sua desistência seria apenas a supressão da civilização europeia. O resistente renuncia quando verifica a manutenção desta civilização.

Alguém que queira impor a sharia como único princípio da vida comum pode ser terrorista para sociedades que se querem mais europeias do que são na origem. Mas em si mesmo não é um terrorista para essas civilizações. É um resistente e vê-se como um restaurador de uma civilização. E nesse aspecto tem razão. Só choca as civilizações onde actua na medida em que elas recusem essa unicidade de princípio, em que elas queiram participar de outro princípio de civilização. Mas na medida em que elas queiram ser o que eram tradicionalmente é um resistente, cruel sem dúvida, contestado quanto aos meios utilizados, igualmente, mas não um verdadeiro terrorista. Há outras formas de se ser cruel.


Na Europa vimos que os terrorismos visavam todos a destruição. Do capitalismo. Sem mais. Da unidade espanhola, sem concessões. Da presença católica na Irlanda, nada mais, de um território partilhado por católicos e protestantes, só isso.


O terrorista é o que quer destruir ou abalar a certeza na vida comum do homem sedentário civilizado. Assume a forma de resistente se querer repor o princípio da sua civilização, ou de terrorista puro se o querer destruir. Forma de luta em geral dos mais pobres e fracos, embora nem sempre (Átila não era frágil), gera uma cultura que se alimenta a si mesma. Um país com terrorismo é sempre um país em guerra. E Europa está em guerra neste momento.

Como lutar então contra o terrorismo na civilização europeia? Repondo o princípio da mesma por forma a que não sejam necessários resistentes, não se justifique a sua aparição. Afirmando este princípio com convicção e meios contra os que contra nós são terroristas. Como? Não admitindo ataques sistemáticos à nossa identidade. Uma identidade defende-se, cultiva-se e ama-se. Com energia se necessário.


Alexandre Brandão da Veiga



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quinta-feira, 12 de julho de 2012

Memória futura

Maria José Nogueira Pinto cruzava racionalidade com sensibilidade social; humor caustico com exigência espiritual; gosto pela vida e compromissos cumpridos. Não passou por um lugar sem o fazer. Prosseguia ideais conhecendo o pó dos caminhos para os pôr em prática. Tinha a inteligência dos teóricos e o pragmatismo dos que mexem no mundo das coisas. Já o disse quando morreu, há um ano. O novo hospital da SCML merece o seu nome. Tal como o seu nome merece viver na nossa memória.   

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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Frei Tomás Soares



Mário Soares diz o que lhe apetece. A Democracia permite-o, a idade favorece a mesma liberdade mas o decoro não o recomenda. No início de Maio passado, o ex-Presidente dizia: «poderá ser a própria ‘troika’ que vai ao ar». Esta semana, na RTP, afirmou que «o Governo funciona como se Portugal fosse um Protectorado» e vaticinou: «Qualquer dia os ministros não podem sair à rua», «A População não é tão paciente como se julga», arrematando: «Vamos ver o que vai acontecer!».

O Homem para quem não podia haver ruas proibidas, em 1985, em plena campanha das Presidenciais. O mesmo que, por isso, atravessou a Marinha Grande, contrariando quem lhe dizia que «não podia ir por ali» porque «a população não é tão paciente como se julga». O político que sabe que a ameaça não dobra o carácter de quem serve o País, em Liberdade, ainda hoje refere este episódio como sinal da sua imunidade às afrontas públicas de violência. (deve ao incidente a subida de intenções de voto de 8% até à vitória na segunda volta). Este homem é o último a poder dizer qualquer coisa que possa incitar o Povo a fazer o mesmo.

Mais: a violência na Marinha Grande deveu-se, sobretudo, à memória fresca que o Povo tinha do Governo do Bloco Central (1983-85) que cumprira com rigor e determinação, todas as exigências impostas pelo FMI, então por cá em socorro das contas portuguesas. Nessa altura, a obediência cega e castigadora do Primeiro-ministro Mário Soares não «tornou Portugal num Protectorado» mas sim num Estado que honra compromissos internacionais e que consegue reerguer-se quando cai.

Nessa altura, o Povo português soube atender às palavras do corajoso Ministro das Finanças do mesmo Soares: «Está em causa, muito cruamente, a própria capacidade de assegurar, em termos de financiamento externo, o funcionamento corrente da actividade económica. E quando um problema se coloca com esta clareza, deixa de haver margem para recorrer a malabarismos contabilísticos com o intuito de disfarçar quanto custa, a cada um de nós, a chamada crise portuguesa»*.

Soares foi salvo pela competência de Ernâni Lopes, pela resistência do Povo, pela possibilidade de desvalorizar a moeda provocando mais inflacção e pelos Fundos Europeus subsequentes que viriam a curar mais depressa as feridas inflectidas pelo Centrão político.

A par da liberdade de verbo, precisávamos da sua experiência de quando conduziu o País no aperto imposto pelo FMI. Um sacrifício para o qual não encontrou brechas na sociedade portuguesa e que, como nos lembramos, provocou fome em Setúbal, como então denunciou o bispo D. Manuel Martins.

Apesar de Soares nada ter a perder e de a opinião ser livre em Portugal, as palavras do fundador do PS, construtor da democracia portuguesa e ex-Chefe de Estado podem desencadear um efeito adverso ao esforço comum que hoje nos é pedido. E são desmerecedoras da coerência a que parecia ter-nos habituado.

*Diário da AR, 26 de Outubro de 1983

(escrevi este texto há quatro dias e deixei-o arrefecer. Mas permanece actual)




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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Consolo inesperado e consistente


Ele 87 anos. Ela 80. Ele partido nas pernas, agressivamente lúcido. Ela mexida mas esquecida. Juntos na vida, separados pelo mútuo inconformismo. Têm filhos atentos e ocupados. Sozinhos em casa. Vivem em Lisboa e fazem parte do grupo dos 40 mil que seremos todos um dia, se Deus quiser. No dia em que ela sai para um programa de dias com um filho, ele cai e parte um músculo. Fica imobilizado. 
Batem à porta. Rute e Inês apresentam-se. Jovens licenciadas, psicóloga e assistente social, foram contratadas pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa para fazerem o levantamento da situação de todos os lisboetas com mais de 65 anos ao abrigo do Programa Inter-Gerações. Profissionais. Amáveis. Abertas aos desvios da conversa. Focadas no essencial. Não aceitam um chá. Dão ideias e exemplos de casa. Estão numa casa. E também têm Avós. Tomam notas, dão o número gratuito das soluções (808 203 333) que a Santa Casa pensou para estes casos, tão próximos.
Para quem assiste, este programa é um monumento de companhia, compaixão, segurança, esperança. Obrigada. 

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quarta-feira, 20 de junho de 2012

O mito do humanismo

Quando se discutiu a Constituição Europeia todos se lembraram que a Europa tinha uma herança humanista e que portanto seria essa a fonte da Europa. É evidente que o humanismo é um movimento europeu. Mas já não é verdadeiro que seja a fonte da Europa. O humanismo, tal como tem evoluído nos dois últimos milénios, resulta de confluências várias entre o cristianismo e o paganismo indo-europeu. Esse o pano de fundo em que temos laborado. Para que este pano de fundo seja sólido na sua demonstração, tenho de demonstrar que o humanismo não é fundamento da Europa, mas antes uma sua consequência.

Há desde logo que destrinçar dois sentidos de humanismo. O primeiro é sentimental, o segundo cultural. O facto de ninguém ter feito esta destrinça na discussão sobre os fundamentos da Europa demonstra, seja a incultura, seja a má fé de quem nela participou. Sob o ponto de vista sentimental, o humanismo está ligado à doçura de actos e palavras. Sob o ponto de vista cultural o humanismo associa-se sempre à valorização da cultura da inutilidade directa e, em consequência, do conhecimento teórico por si mesmo.

Humanismo, num e noutro sentido, encontramo-lo em todas as civilizações. O humanismo não é pois em abstracto um fundamento da Europa.

Fala-se em humanismo árabe do beduíno pagão, que ainda hoje deixou rastos, no sentido em que se estabelecem limites contra a violência pelas regras da hospitalidade, da demarcação de territórios, pela delimitação do direito de propriedade em relação a camelos, escravos, esposas e filhos. Estes tipos de humanismo, no sentido de limitação da violência, encontram-se em muitos graus diversos em todas as culturas. Encontramos limitações idênticas nos tupis, nos guaranis, nos chineses ou seja em que povo for. O primado exclusivo da violência é insuportável para qualquer povo. Uma vida colectiva sem limites de violência é insuportável. Por isso até entre os assírios, os hunos e os mongóis na sua fase conquistadora podemos encontrar este tipo de humanismo. Este tipo de humanismo é inevitável, e por isso pouco meritório em si mesmo.

Humanismo no sentido de valorização da cultura teórica igualmente o encontramos na China, na Pérsia, entre os egípcios, tudo dependendo das épocas. Este segundo tipo de humanismo pode ser rico ou simplesmente pudibundice de erudito. É típico de civilizações elaboradas, mas nem sempre criativas. Se o primeiro é destituído de mérito por si mesmo, o segundo pode ser apenas enfadonho e resultado de falta de imaginação.

Ou seja, se se diz que o humanismo é constitutivo da Europa, ou se mente, porque se fala do humanismo em abstracto, ou então está-se a referir a um certo humanismo específico. E qual é ele? Ora bem: exactamente o que tem como fontes... o cristianismo e o paganismo indo-europeu.

Completada a primeira parte da demonstração, vejamos então que características especiais tem este humanismo europeu, que é europeu por o ser, e não por ser humanismo.

A primeira característica é a da adição do humanismo sentimental e cultural ser uma constante na Europa, sobretudo desde o advento do cristianismo. Ser homem das humanidades é igualmente ter o coração no lugar certo, abominar o que gera o sofrimento alheio. Esta ligação não é evidente, e apenas pode ser compreendida à luz do cristianismo, e antes, à luz do estoicismo. Na Europa não se fala do humanismo dos salteadores de estrada, como os europeus se comprazem a falar do humanismo do beduíno. Também sem a dimensão cultural não se fala em humanismo. Não há notícia de se ver a Aldeia de Rebedelas de Baixo referida como uma aldeia de humanistas. Inversamente, não se concebe facilmente humanismo intelectual sem sentimental. Um genocida em massa por mais culto que seja não é em geral chamado de humanista. Muitos oficiais em campos de concentração eram homens de grande cultura, e ninguém se lembra de os chamar de humanistas. Mas já o soldado kamikaze que se atira contra o porta-aviões recitando uma poesia é como tal chamado.

Este espécime particular de humanismo que liga a dimensão sentimental à cultural é tipicamente europeu. Existe noutras culturas, mas só na Europa a ligação é considerada necessária com tanta força.

A segunda característica é a da separação. O humanista separa-se de algum tempo histórico que condena. Ou o presente, por grosseiro, ou o passado recente dos góticos, ou um passado longínquo do Antigo Regime. Algum tempo histórico o irrita. Porque os costumes são violentos, porque a cultura é chã. E tende a associar uma coisa à outra. Mas sobretudo separação da multidão. O humanista sabe-se minoritário no meio de um mundo que é mais grosseiro, mais inculto, menos elaborado que ele. Quem leu as fontes originais sabe que nunca se viu tanta expressão de desprezo quanto nos escritos dos humanistas. Chusma, turba, maralha, canalha, plebe, escória são expressões que se encontram em Erasmo, mas igualmente nos estóicos, ou nos iluministas. O humanista despreza. Quando se diz que a Europa é feita de humanismo reconhece-se que é herança europeia o desprezo de épocas e das maiorias, a separação do tempo e do comum da sociedade. O que é verdade, mas doeria algo a ouvir para quem apenas no humanismo vê uma espécie de comédia delicodoce para crianças, enfeitada de sorrisos e abraços.

A terceira característica, que está obviamente associada à segunda, é a da ligação a um passado mais longínquo, real ou mítico, e a um grupo restrito de pessoas, vivas ou mortas. Separando-se de uns tempos e da maioria, o humanista liga-se a pequenos grupos e a certas épocas. Ou a Idade de Ouro dos poetas clássicos, a época de Saturno dos romanos, ou a Antiguidade Clássica para os da Renascença ou a República Romana para a Revolução Francesa, alguma época é dada como mítica. Uma época sempre longínqua por definição. O grupo restricto é o dos amigos, o dos correspondentes, ou tão simplesmente o dos autores mortos, seja Homero, ou Virgílio, na Antiguidade, seja Horácio ou Juvenal na Renascença. Assumir a Europa como tendo a sua fonte no humanismo é afirmar que a Europa se remete sempre para um tempo longínquo, por vezes mítico, e que só é europeu quem restringe, quem é selecto nos seus contactos. O que é em grande medida verdade, mas mais uma vez chocaria os bem-pensantes, e desta vez nem sempre é justo.

A quarta característica do humanista é a associação a um espaço específico. O humanismo é o que se recolhe no campo, fora da agitação ou pelo contrário é o homem urbano, mas não da cidade das massas, bem pelo contrário, da cidade das elites, de um grupo de escolhidos. O humanista pode ser cosmopolita, mas nunca é de todo o mundo. Ou pertence à república das letras, ou a círculos internacionais fechados. De uma forma ou de outra, seja qual for o espaço que escolher, é sempre um espaço de ócio. Assumir o humanismo como fonte de humanismo é assim reconhecer na Europa um espaço de ócio e sempre rarefeito, o que mais uma vez é apenas parcialmente verdadeiro, desta vez divertido, mas algo injusto como caracterização.

“Querem dizer tá-tá e não lhes chega a língua” dizia uma dama do Norte de Portugal. Perceberam que a democracia, os direitos do homem, a economia de mercado e o acquis communautaire não bastavam e procuram em desespero referências no fundo da sua insignificante bagagem cultural. Acabam por isso por dizer que a Europa é um espaço de desprezo e separação, de ligação ao longínquo e ao ócio e em que o cultivo do sentimento vai de par com o da ideia. Conclusões com as quais alegremente concordo, mas que são apenas uma pequena parcela da verdade. A Europa tem muito mais que isso é muito mais que apenas isso. Ou então pretendem dizer que não há diferença entre a Europa e a terra de tupis e beduínos. Que nenhum problema há se a Europa for apenas um espaço de inevitabilidades e enfadonho. Podem invocar que não sabiam que estavam a dizer isto. Mas sabiam realmente o que estavam a dizer?

Foram às suas lembranças vagas de um liceu mal digerido e de uma duas ou três aulas de História ouvidas com pouca atenção, e lembraram-se que os humanistas eram uns rapazes simpáticos. Reconheçamo-lo: o que pretendem dizer é que a Europa é um conjunto de rapazes simpáticos e que o resto do mundo nos pode amar por isso. Mas dos rapazes simpáticos não reza a História, nem espalham à sua volta o respeito e muito menos são objecto de paixão. É de uma Europa morna, feita à sua imagem, que realmente estão a falar. Fugindo a toda a confrontação, apenas para não os pôr em causa.

Relapsos, ineptos, ignaros, incompetentes, desonestos ou pura e simplesmente pretensiosos que querem fugir ao tema essencial, forçam-se a brincar a um jogo de espelhos em que tudo vale desde que se fuja à verdade. Eis que encontraram um fundamento transcendente para a Europa, esses tanto esfomeados como medrosos do transcendente. E se não captam essa transcendência a explicação é simples. Porque são incapazes de descer à terra e ver que as raízes da Europa estão mais e mais uma vez... no cristianismo e no paganismo indo-europeu.

Alexandre Brandão da Veiga

 

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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Espanha retardada

Espanha está sempre atrasada em relação a Portugal.
Na Reconquista cristã (séc. XIII / XV), na união política do País, (séc. XII / XV) nos Descobrimentos (séc. XIV / XV), na abolição da Pena de Morte (1867/1978) e da escravatura (1869/1888), no final da ditadura do século XX (1974/1976) e mesmo no pedido de adesão à Comunidade Europeia (1977/1980) que viria a ser aceite para o mesmo dia de adesão (01/01/86). Apenas na introdução da Inquisição (1536/1478), e na expulsão dos judeus (1496/1492) a Espanha se antecipou a Portugal.
O que atrasará este País tão maior e mais próximo da Europa? Este Reino que teve um Império onde o Sol nunca se punha?
Salvaguardadas as distâncias, lembrei-me desta «sequência de variável fixa» pelo atraso do pedido de resgate de Espanha à Europa. Parece haver uma resistência na meseta central (unidade de relevo mais antiga da Península Ibérica) no chão árido de Castela, pouco permeável ao que venha de fora a favor do reforço de orgulhos intrínsecos.
Será que nos seguirão no cumprimento do Memorando que estão prestes a assinar?

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terça-feira, 5 de junho de 2012

A Grécia no desenho europeu

Há três níveis de discurso quando se fala na actual situação da Grécia: o que evoca o nosso berço político e filosófico ao qual tudo devemos, tudo teremos de dar e que se sente resgatado com a ideia de, novamente através da Democracia, ter a esquerda radical de Atenas a condicionar o futuro do Velho Continente. Outro discurso navega nas águas da política e convoca o sonho de Jean Monet que reinventou no pós-guerra a máxima de Dumas, «Um por todos e todos por um». Finalmente, corre um terceiro discurso sobre o caso grego com uma abordagem tecnocrática, mais baseada no conhecimento dos gráficos do que do terreno, das famílias, das pessoas.
Os três discursos sobre o mesmo assunto não se cruzam e estão desajustados. 1) Há 25 séculos que a Grécia não se mantém inspiradora do Ocidente, quatro dos penúltimos esteve sob domínio Otomano. 2) A urgência do Pós-Guerra evoluiu para uma nova hegemonia germânica, desbotando o sonho da Comunidade Europeia. 3) A linguagem economicista não traça rumos de gente. Faz o «damage control» da situação, sem princípios filosóficos nem rumo político desafiante. Exit? Aproveitar a verdade dos gráficos e voltar à pureza da filosofia e da política. Só assim desenhamos e seguimos juntos.

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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Relvas, o fumo e o fogo

O objectivo era ligar Miguel Relvas a Silva Carvalho. Era importante «provar» que, entre maçons e com o apoio sujo das secretas, Nuno Vasconcellos estaria melhor defendido do que Francisco Balsemão, em pleno processo de privatização da RTP. O relacionamento social e/ou profissional entre Relvas e Silva Carvalho não foi transmissível a qualquer decisão do Governo. Não houve mudanças nas secretas, como sugeria o espião, e não foi decidido o processo da RTP.
A guerra Balsemão / Vasconcellos é violenta porque opera na mistura explosiva de rupturas filiais e interesses económicos rivais. Pior: as batalhas travam-se entre o domínio da mensagem dos media ao qual se contrapõe o domínio de informações secretas, colhidas indevidamente.A história tem todos os ingredientes da conjura e, sendo falsa, constitui a armadilha política perfeita. A guerra Balsemão/Vasconcellos, as informações secretas e as pressões do espião sobre o poder não têm origem em Miguel Relvas. Mas têm nele o seu destino. Saberemos distinguir?

(Conheço Miguel Relvas mas não tenho uma relação pessoal com ele. Digo o que penso, antes sequer de o ouvir na Comissão Parlamentar de hoje).

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terça-feira, 22 de maio de 2012

Quem gosta da inovação?

Mais um dos lugares comuns da nossa época. Quem gosta da inovação? Toda a gente. E como de costume, quando todos aplaudem, é muito possível que estejam a dizer coisas diversas e com diversas intenções.




Há uns anos havia uma série de televisão britânica em que todos os ministros concordavam com a igualdade entre homens e mulheres, salvo no respectivo ministério, que tinha sempre boas razões para não a aplicar. A relação que muita gente tem com a inovação é da mesma natureza.



Vejamos em primeiro lugar o que não é inovação.



Muitas vezes vejo criaturas apresentar um “paper vindo dos Estados Unidos” que mostra a últimas inovações seja em que matéria for, e estão muito entusiasmados com ele. Seja para mera contemplação, seja para o aplicar, quem segue esta via não faz inovação. Apenas segue a inovação dos outros. Se para seguir as melhores práticas, outras práticas, piores ou não, não interessa. Pode ter sentido de melhoria, de aprendizagem, admite-se. Mas o que interessa é que não é um inovador. Apenas segue a inovação dos outros. Inovadores são os outros. Aqueles são apenas seguidores.



Também não é cultivar a inovação fruir das inovações alheias. Usar telemóveis, computadores, o que seja, não é inovar. É apenas fruir da inovação alheia. E quanto mais se integram essas inovações na vida das pessoas menos se caracterizam pela inovação. Apenas se incrustam na trivialidade quotidiana das pessoas. Estes são apenas fruidores.



Fica então por saber o que é gostar da inovação, estar pronto para ela. Significa basicamente três coisas.



Em primeiro lugar aceitar o processo de inovação dentro a sua organização. E esse processo tem um nome simples: estranheza. A inovação dirige-se para o futuro, ou seja, para o vazio, ou para o infinito de possibilidades, o que no caso vem a dar ao mesmo. Querer inovação é aceitar estranheza por uma razão básica. Se os conceitos de base, se o percurso nos forem familiares, não se está a inovar. Nem tudo o que é estranho é inovador, mas tudo o que é inovador começa por ser estranho.



É a velha expressão de Hadamard “pensar ao lado”. Hadamard dizia que as grandes revoluções na ciência eram feitas por pessoas que pensavam ao lado. Se uma organização não está aberta para quem pensa ao lado, não inova. Apenas segue a sua rotina, as práticas mais conhecidas. Vive a sua vidinha.



Em segundo lugar, significa querer transdisciplinaridade. Transdisciplinaridade não é multidisciplinaridade. Esta é a apenas uma conjunção. Transdisciplinaridade significa estar aberto a outras disciplinas, ser capaz de comunicar com elas. As inovações em todas as áreas foram sempre feitas por pessoas que ligaram duas ou mais matérias muito afastadas entre si. Heisenberg verificou-o e os exemplos são múltiplos. Quem dedicou uma vida inteira apenas a estudar direito, ou economia ou gestão não é um inovador.



Nas nanotecnologias inova-se porque se ligam física, matemática, química, engenharias, biologias, virologia. Euler inova porque relaciona na sua célebre equação a trigonometria, a álgebra e os números complexos. Os computadores resultam da confluência da lógica matemática com a física quântica. Toda a inovação é relacionação do distante.



Em terceiro lugar, inovação implica indiferença perante os títulos. Quem distingue administrador de administrativo não inova. Uma boa ideia é boa independentemente de quem a emite. Um país, uma organização, que dêem muita importância aos títulos, nunca serão inovadores. Os títulos são sempre o congelamento de um passado. Mostra o nome do que uma pessoa fez. Nada nos diz sobre o seu futuro.



O maior professor catedrático de física do mundo, Planck, chama um simples funcionário de um escritório de patentes da Suíça. Dá-se o caso de este se chamar Einstein. Os países nórdicos inovam mais que a Europa do sul. Porquê? Precisamente porque são mais indiferentes aos títulos sejam académicos, sejam empresariais, sejam organizacionais. Uma ideia é boa ou má, não é dourada ou o seu contrário.



Por isso, quem diz que gosta de inovação ou que acha muito importante a inovação está a desejar que os outros façam coisas novas, eventualmente estará a fazer mero discurso de rotina, mas não é alguém que esteja disposto a introduzir inovação nas suas esferas de actuação. Já se alguém disser outra coisa, talvez seja realmente alguém aberto à inovação. Essa outra coisa é simples: aceito a estranheza, quero a transdisciplinaridade, sou indiferente aos títulos.









Alexandre Brandão da Veiga



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segunda-feira, 7 de maio de 2012

Os tecnoideólogos


Na França de meados do século XIX nasce uma figura de homem nova na História, pelo menos com essa consciência. Cansados de lutas ideológicas extremistas, compreendendo a necessidade de utilizar os instrumentos da ciência, da técnica e da economia capitalista, mas compreendendo igualmente que todas elas se têm de compreender de acordo com uma função social, nasce o tecnocrata. O tecnocrata nasce no II Império por influência do Saint-simonismo, segundo se afirma. Mas em boa verdade tanto o saint-simonismo como o movimento tecnocrático têm a mesma base: o cansaço de lutas ideológicas.




O tecnocrata é o homem que suspende a realidade, ou uma boa parte dela. Concentra-se numa especialidade e a ela se dedica em exclusivo. Não elabora teorias sobre Deus, o amor, a vida em geral, porque entende que nada pode dizer sobre elas. Não discute sequer a utilidade das questões. Suspende-as pura e simplesmente. Tem muito que fazer.



A Grã-Bretanha do século XIX criou outro tipo de homem, o utilitário. Comerciante, engenheiro ou mesmo sacerdote vê apenas a realidade na perspectiva do que é útil. Mesmo quando frequenta regularmente a igreja fá-lo porque a considera uma instituição socialmente útil. A marca deste tipo de homem atravessa toda a sociedade. Somerset Maugham, ao falar dos ingleses dos anos 1920 e 1930 dizia que mais facilmente acabavam por falar de sexo que de alma, palavrão supremo, que cobriria de ridículo e vergonha quem usasse tal palavra. O utilitário não suspende, suprime.



A Alemanha cria ainda outra figura, o tecnólogo. Este surge do cruzamento de três movimentos. A forte ligação à ciência, uma concepção de cultura como apolítica, e simultaneamente, paradoxo meramente aparente, uma fidelidade ao projecto de poder do Reich. Não faz política porque para ele fazer política é entrar em discussão. É participante activo da política do II Reich, mas não se considera ele fautor dessa política, mas apenas seu executante. Mais apto a falar de cultura que os anteriores, menos pudico quanto aos grandes temas filosóficos, cala-se no entanto mais na sociedade.



Um suspende, um suprime, outro ainda cala-se. Cada um deles tem os seus momentos de glória e não se pode estar demasiado grato ao que de extraordinário fizeram para o nosso conforto e para a nossa civilização material. Se saliento este tributo que temos de fazer a estes tipos humanos, faço-o com plena consciência. É que é demasiado comum serem degradados, desrespeitados, quando em boa verdade a eles muito devemos. Mas todos eles são executantes de ideias, e não seus criadores, mais uma vez meros usufrutuários de uma cultura e não homens que a renovem.



O problema é que hoje em dia assistimos ao império de um novo tipo de homem, resultado da mestiçagem entre os três: o tecnoideólogo. O tecnoideólogo suspende todos os temas que sejam do âmbito da vida pessoal, da vida em geral. Suprime toda a noção de transcendente e cala tudo o que possa pôr em causa a sua visão do mundo.



Este espécime humano, encontramo-lo hoje em dia entre os chefes das empresas, mas igualmente entre a administração pública. A figura híbrida, teratológica, surgiu, não por culpa sua, mas para preencher um vazio. A natureza tem horror ao vazio. E perante políticos, jornalistas, e um público em geral que se mostra incapaz de enunciar e executar novas ideias políticas, este espaço foi tomado por ele. É ele que sofre a pressão para resolver problemas. Já não tem Napoleão II nem Thiers, nem Bismarck nem Disraeli que lhe dêem o enquadramento político geral.



O tecnoideólogo faz o papel dos bispos durante as invasões bárbaras. A maioria das pessoas esquece que grande parte do poder temporal dos bispos lhes veio das populações. Foram as populações que lhes entregaram o poder temporal porque os principados estavam impotentes. Da mesma forma, os políticos, e em geral os homens públicos, desistiram nos últimos anos de fazer política. O principal problema político da Europa, e em parte do mundo, é a unificação europeia. Da solução que se der a este problema dependem todos os equilíbrios mundiais.



Mas as populações escolheram políticos que suspendem a questão da unificação, suprimem a discussão sobre a entrada da Turquia, e calam sobre as imposições americanas à Europa. Apagada a discussão, convenhamos que já postiça e rotineira entre os blocos ocidental e de Leste, ficaram, em grande parte dos casos, perdidos de referência. A questão europeia é tratada como anedótica, meramente lateral. Porque o tecnoideólogo é incapaz de lidar com grandes realidades.



O tecnoideólogo herdou dos seus antepassados o horror à política como consagração de ideias e valores. O seu pensamento assenta em manuais. Os seus livros de orações são documentos internacionais, hoje em dia de preferência em inglês. Está permanentemente ocupado, ou gosta de se ver assim pelo menos.



Se os bispos tiveram antes de ocupar o poder temporal, tendo sido a religião expulsa do espaço público, e a ideologia varrida da exposição geral, cabe-lhe a ele substituir esse espaço. A culpa não é dele, saliento mais uma vez, mas do vazio deixado pelas populações, políticos e jornalistas. Sem ninguém que o oriente, actua por inércia de movimento. Consulta os textos e age em função deles.



Tem fé no Direito. Acha por isso que a Europa é a democracia, os direitos do homem, a economia de mercado. Com uma total incultura simbólica, acha que o mundo assenta em andares superiores, sem procurar saber de que são feitos os solos em que realmente assenta o edifício. As soluções para a sua vida, encontra-as nos tratados europeus, os nas constituições ou nas declarações universais dos direitos do homem.



Tem fé, não na ciência, que desconhece, não na técnica, de que foi ensinado a desconfiar, não no ambiente, que foi apenas obrigado a valorizar, mas no mecanismo. Desde que encontre um mecanismo sente-se em casa. O mercado, a comunicação social, o sistema burocrático. O “paper”, o documento internacional é a sua máxima expansão.



O problema dos híbridos, no entanto, é que se definem por oposição aos seus antepassados. Nascido de um vazio de poder, apresenta uma face de negação. Já não suspende o juízo porque julga que fala de toda a realidade. Não suprime, mas acrescenta à realidade. Impõe o que a realidade deve ser na sua visão. A Europa é a democracia e a economia de mercado, um “espaço de comunicação de culturas” (seja lá o que for que isso queira dizer). E não se cala, cala os outros. Porque se considera, não neutro em relação aos valores, mas o detentor dos valores essenciais.



Quando está na administração pública tem vergonha de ter poder, exerce-o não com parcimónia, mas com um eterno pedido de desculpas. E tem razão. Tem de pedir desculpa de alguma, de muita coisa. Quando está nas empresas é obcecado com o Estado. Exige o seu apagamento, oficialmente, mas a sua colaboração, nos corredores. Diz que o Estado o atrapalha, nos jornais, mas não vive sem o seu empurrão, nos gabinetes.



Vazia a política, vazia a religião no espaço público, fenecidas as ideologias sistemáticas, o tecnoideólogo pode passar a ser novo sacerdote de uma religião que o instituiu, a do vazio. Odeia a soberania popular, a democracia, e quer passá-la pelo seu crivo. Quando por exemplo Chipre recusou a parte turca por decisão soberana popular, tanto a comissão europeia como o governo britânico (tão próximos que andam nos últimos anos na sua ideologia) afirmaram que a parte grega da ilha ensombrou a sua adesão. Nem admitem que haja referendo, decisão popular sobre a adesão da Turquia, porque são detentores da verdade.



O tecnoideólogo é assim o sucessor do inquisidor. Não foi escolhido pela vontade popular, sente-se imune a ela e mais iluminado que a soberania. Considera que a vida é mera execução e não novação, porque esse é o seu modo de viver. Determina o bem e o mal nominando-os com terminologias pseudo-técnicas. Tendo nascido de um vazio, não pode admitir que existe esse vazio que o legitima. Inculto de simbólica, nega o valor dos símbolos. De recente extracção, é mais um inimigo da História. Sorri perante o futuro e perante as hipóteses tontas, como a adesão da Turquia ou uma Europa como mera zona de encontro de culturas. Porque não sabe destrinçar um aeroporto de um centro cultural, um lupanar da sua casa. Mas tem realmente razões para sorrir? Fora mero tecnocrata, utilitarista ou tecnólogo, estaria servindo o soberano, faria bem o seu papel. Não o sendo, fazendo da vida mera execução, sem soberania, apenas resvala para o futuro, sorrindo, é certo, lançando olhares de censura, também, até se estatelar contra o que o futuro lhe trouxer. Só não é profeta da desgraça porque não é profeta. E nele a desgraça é sempre presente.



Alexandre Brandão da Veiga































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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Edgar Morin e os turcos

Um amigo meu brasileiro colocou-me um desafio. Disse-me que Edgar Morin tinha recentemente afirmado que a Turquia era um grande país europeu porque havia dominado parte da Europa e participado na História europeia.

Não sei se o senhor disse tal despautério e não o quero difamar. Não me interessa a autoria, mas o conteúdo da informação, que é tão corrente entre semi-providos. E, quanto ao conteúdo, apenas prova a inépcia lógica de quem profere, salvo se tais afirmações só se deverem a desonestidade intelectual.

Existem duas demonstrações da falsidade desde argumento. A primeira pela via positiva, e segunda pelo absurdo.

Pela positiva já demonstrei desenvolvidamente alhures que a Europa é a fusão de quatro camadas, os substratos autóctones da Europa, o paganismo indo-europeu, o cristianismo e o mito da queda do império romano. Não repito aqui a demonstração. Apenas lembro que os quatro requisitos são cumulativos. Um país a que falte um deles não é Europa. Ora à Turquia não faltam um, nem dois, nem três requisitos: faltam todos. Não se aproxima sequer da possibilidade de ser cultura próxima da europeia.

Sob o ponto de vista positivo igualmente, não vale o argumento da europeização da cultura. Todo o mundo está europeizado de uma forma ou de outra. Todos os que usam carros, aviões, electricidade estão europeizados. E aprende-se mais cultura europeia no Líbano (ou em tempos no Egipto) que na Turquia. A Turquia tem ciclos históricos muito semelhantes aos da Ásia Central, às restantes áreas turcófonas, tendo sofrido de um triplo movimento de laicização, turquificação e islamização. Tal como o Arzebeijão, o Cazaquistão, ou o Turquemenistão.

Não perco mais tempo com a demonstração positiva. A mais divertida é a demonstração por absurdo. Apesar de tudo continuo a entender que a lógica tem um papel no discurso humano e, parafraseando Poincaré, quem conteste na íntegra a razão e a linguagem humana, apenas se pode reduzir a balbuciar e a emitir gritinhos.

Vejamos pois uma dupla demonstração pelo absurdo.

Em primeiro lugar outras culturas dominaram o espaço europeu em parte.
a) A Pérsia dominou muito antes dos turcos uma parte do espaço grego. De onde as moreias deste mundo deduzirão que a Pérsia é a uma grande cultura europeia, ainda mais antigamente europeia que a Turquia.
b) Os árabes dominaram a Península Ibérica, parte da Itália do Sul e uma franja da França meridional bem como a Sicília, muito antes dos turcos. E no que respeita à Península Ibérica por muito mais tempo que turcos estiveram nos Balcãs. De onde se retiraria que a cultura árabe é uma cultura europeia bem mais antiga a permanente que a turca.
c) Os tártaros dominaram toda a Europa Oriental e boa parte da Europa Central. Domínio bem mais vasto na Europa que o dos turcos. De onde decorre que a cultura tártara é uma cultura europeia bem mais vasta que a turca.

Eis a primeira demonstração por absurdo. Vamos pois à sua inversa, à sua segunda versão.

Portugal dominou durante três séculos o que veio a ser metade da América Latina, o Brasil. Não apenas dominou. Mais: criou. De tal forma a que ainda se fala lá a sua língua e ainda lá permanecem muitos dos seus monumentos e instituições, ao contrário do que se passou com os turcos na Europa.

De onde resulta que Portugal é uma grande cultura latino-americana. O mesmo se diria da Espanha.

O mesmo se diga de África. Durante um século Portugal dominou quase em exclusivo todas as costas da África, mais do que alguma vez algum país africano fez, o que mostra que é mais africano que os países africanos. E durante meio milénio dominou um território que veio a representar cerca de dois milhões de quilómetros quadrados. Bem mais que o espaço turco na Europa. E mais uma vez deixou a sua língua, a sua religião, a sua cultura. Coisa que os turcos não fizeram. De onde se tem de retirar que Portugal é uma grande cultura africana.

Não sei se o agradável senhor proferiu esta frase ou semelhante. E espero bem não o estar a difamar, porque sempre tive a esperança de que tivesse sentido lógico. Por isso preferi não acreditar que o tenha dito. Mas a quem quiser usar de tal lógica, que se lembre então que Roma é uma grande cultura asiática, a Grécia clássica em Marselha uma grande cultura gaulesa, e quem diz coisa tão fora do mundo, um grande cultor de extraterrestres idiotices.

Alexandre Brandão da Veiga


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