quinta-feira, 26 de julho de 2012

O patriotismo educa-se?

Somos Nação enquanto tivermos consciência de corpo, de identidade, de passado e futuro comuns. Somos Nação enquanto estivermos dispostos a dar de nós por esta abstracção tão concreta que é querer ser português, amar Portugal.
Dantes era mais fácil: o serviço militar obrigatório era um esforço democrático, porque transversal, que a todos impunha um período de serviço à Pátria, inegociável e pedagógico. As Mulheres não íam à tropa o que parecia injusto, sobretudo desde que começaram a concorrer profissionalmente. Mas a maternidade - ou o facto de poderem dar filhos à Pátria - compensava o compasso de espera que era imposto aos homens.
Era mais fácil: os manuais de história estavam equipados com acontecimentos extraordinários, com heróis e conquistas que nos faziam sentir um orgulho único no nosso País. E não viajávamos tanto. Não gostávamos do que os outros eram - ou tinham - também porque os desconhecíamos.
Hoje temos o peso dos impostos como única contribuição para o bem comum. E os resultados do futebol como rara compensação do orgulho nacional. Isso provoca em todos um sentimento de prejuízo, pela maior importância dada ao dinheiro e pela falta de prática de entrega à Nação. O anterior sentido cívico seria utilíssimo para a dura travessia que vivemos.

(mais)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Cristo passou por aqui?

Há vários anos, foi lançada uma biografia sobre D. Manuel Martins, 1º bispo de Setúbal logo que esta diocese foi destacada do Patriarcado de Lisboa, em 1975. O prelado de Setúbal ficaria conhecido pelo bispo vermelho numa simplificação mediática pela defesa dos pobres da Península Industrial, durante o controlo do FMI, entre 1983 e 1985. «Há fome em Setúbal», denunciou então D. Manuel Martins e o poder e os jornais olharam para o pastor com olhos mais políticos do que evangélicos.
Ironicamente, anos depois, a biografia do bispo vermelho era lançada em Lisboa, no Hotel Meridien, forrado de espelhos, alcatifas e celebridades, capitães de Abril incluídos. Almeida Santos fez a apresentação do livro com elogios ao vermelho que tanto incómodo tinha causado ao Governo do Bloco Central, presidido pelo PS, do qual o orador era nº 2.
Seguiram-se as palavras de Adriano Moreira que disse simplesmente: «Um bispo não é vermelho, nem azul, nem verde, nem amarelo. Um bispo só é bispo quando, depois de deixar a sua cátedra, o Povo pode sentir que Cristo passou por ali». O bispo, antes contente com o epíteto vermelho, logo concordou com Adriano, reconduzindo-se à suprema condição de servo dos servos.
Lembro este episódio a propósito da recente atoarda de D. Januário Torgal Ferreira. Cristo passou por ali?

(mais)

terça-feira, 17 de julho de 2012

O que é o terrorismo?

O terrorismo é uma técnica de guerra. Um país com terrorismo é sempre um país em guerra, por mais fraca intensidade que esta tenha. O que visa o terrorismo? Uns dizem que é impor uma ideia, destronar um sistema, outros apenas vencer frustrações pessoais. No entanto, estas são sempre visões parcelares da realidade. O que o terrorismo visa sempre e em todos os casos é a destruição da vida comum, o fim de certezas implícitas.


Todos nós usamos transportes, comemos em restaurantes, circulamos no espaço público. Circular no espaço público é viver na natureza do homem urbanizado. O terrorista põe em causa a certeza dessa natureza, a sua estabilidade. Lembra que a ida é arriscada, sempre arriscada, mesmo que não seja por nossa iniciativa.


Se depois há frustrações pessoais, civilizacionais, sociais que motivam os terroristas, essa é outra questão.


O terrorista é sempre um nómada, pelo menos ocasional. A civilização é sedentária, carece de imobilidades. O terrorista move-se. Por isso, embora não seja sempre verdade, tendencialmente o terrorista é mais pobre que o aterrorizado. Tem menos a perder, move-se com maior facilidade. O terrorismo põe em causa a própria natureza sedentária do homem civilizado.

O paradigma do terrorista é o huno Átila. Também ele transformou o sedentário em refugiado, o homem da vida estável da urbe romana num timorato, num descrente no mundo que o rodeava.


O que visa o terrorista é a descrença. As nossas verdades absolutas, tanto mais quanto nos julgamos imunes a dogmatismos, são abaladas com o terrorismo. Porque o nosso relativismo é luxo de bem instalados, que acreditam que o que os rodeia é inabalável, seguro, mera dádiva, que nem esforço exigiu, nem tem fragilidades. Quem mais contesta a civilização é em geral quem mais acredita que nada a pode abalar. Viaja de avião para a contestar, usa computadores para a pôr em casa, mas esquece que nem aviões nem computadores seriam possíveis sem essas estruturas que ele não contribuiu em nada para realizar e de que é mero herdeiro pródigo.
Discutem-se muito as motivações dos terroristas mas estas em geral são meros pretextos. Porque o que sustenta o terrorismo são dois factores bem longínquos da motivação: a finalidade e a inércia. A finalidade, a destruição do estável, do sedentário, do comum. A inércia porque mesmo terminada a motivação ele continua. O terrorismo gera uma cultura, alimenta-se a si mesmo como modo de vida.


É essa a diferença entre o terrorista e o resistente, embora ambos possam ser chamados de terrorista em sentido próprio. O resistente francês larga a resistência depois de o fim ter sido atingido. Foi terrorista. Mas não é tanto a causa ser boa ou má que o faz resistente, embora só o ponto de vista de valoração moral possamos discutir isto. É o facto de estar pronto a renunciar, de ser a sua última vontade perder as razões de lutar.


O terrorista cultural, ao contrário do terrorista resistente, é o que não está disposto a renunciar. Pode-se contra-argumentar dizendo: mas se o resistente francês terminou a sua tarefa é porque atingiu o seu objectivo. Quem nos diz que a ETA ou terrorista islâmico se atingirem o seu objectivo não parariam? A distinção parece arbitrária.


Não é verdade. É que tem de ser visto à luz de cada cultura o que é um terrorista e um resistente. Para muitos meios árabes e turcos o terrorista é o resistente, mesmo que a sua finalidade seja a aplicação de um único princípio, o do fundamentalismo islâmico, porque tem um paradigma que cola à tradição das suas civilizações. Um modelo totalitário, mesmo que mais ou menos tolerante consoante as épocas. Na Europa, em que nunca venceu um só princípio, mas sempre foi feita de diálogo entre princípios opostos (região-Estado-império, império – papado, separação entre Estados e igreja e natureza confessional dos Estados, igualdade dos homens e desigualdades sociais, etc.), a diferença entre terrorista e resistente encontra-se na adesão a um só princípio (terrorista), ou na aceitação de uma vida de compromissos (resistente). Na Turquia e nos países árabes os critérios têm de se encontrar nos seus paradigmas de civilização.


Destrinçar o terrorista do não terrorista depende assim de civilização para civilização. Como o terrorista é o que quer destruir ou pelo menos pôr em causa as certezas de uma civilização, terrorista na Europa é sempre o que não admite uma vida de compromissos de valores contrários e está disposto a pôr em causa a vida comum por isso. O terrorista só desistiria se acabasse essa vida de compromissos. Mas a sua desistência seria apenas a supressão da civilização europeia. O resistente renuncia quando verifica a manutenção desta civilização.

Alguém que queira impor a sharia como único princípio da vida comum pode ser terrorista para sociedades que se querem mais europeias do que são na origem. Mas em si mesmo não é um terrorista para essas civilizações. É um resistente e vê-se como um restaurador de uma civilização. E nesse aspecto tem razão. Só choca as civilizações onde actua na medida em que elas recusem essa unicidade de princípio, em que elas queiram participar de outro princípio de civilização. Mas na medida em que elas queiram ser o que eram tradicionalmente é um resistente, cruel sem dúvida, contestado quanto aos meios utilizados, igualmente, mas não um verdadeiro terrorista. Há outras formas de se ser cruel.


Na Europa vimos que os terrorismos visavam todos a destruição. Do capitalismo. Sem mais. Da unidade espanhola, sem concessões. Da presença católica na Irlanda, nada mais, de um território partilhado por católicos e protestantes, só isso.


O terrorista é o que quer destruir ou abalar a certeza na vida comum do homem sedentário civilizado. Assume a forma de resistente se querer repor o princípio da sua civilização, ou de terrorista puro se o querer destruir. Forma de luta em geral dos mais pobres e fracos, embora nem sempre (Átila não era frágil), gera uma cultura que se alimenta a si mesma. Um país com terrorismo é sempre um país em guerra. E Europa está em guerra neste momento.

Como lutar então contra o terrorismo na civilização europeia? Repondo o princípio da mesma por forma a que não sejam necessários resistentes, não se justifique a sua aparição. Afirmando este princípio com convicção e meios contra os que contra nós são terroristas. Como? Não admitindo ataques sistemáticos à nossa identidade. Uma identidade defende-se, cultiva-se e ama-se. Com energia se necessário.


Alexandre Brandão da Veiga



(mais)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Memória futura

Maria José Nogueira Pinto cruzava racionalidade com sensibilidade social; humor caustico com exigência espiritual; gosto pela vida e compromissos cumpridos. Não passou por um lugar sem o fazer. Prosseguia ideais conhecendo o pó dos caminhos para os pôr em prática. Tinha a inteligência dos teóricos e o pragmatismo dos que mexem no mundo das coisas. Já o disse quando morreu, há um ano. O novo hospital da SCML merece o seu nome. Tal como o seu nome merece viver na nossa memória.   

(mais)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Frei Tomás Soares



Mário Soares diz o que lhe apetece. A Democracia permite-o, a idade favorece a mesma liberdade mas o decoro não o recomenda. No início de Maio passado, o ex-Presidente dizia: «poderá ser a própria ‘troika’ que vai ao ar». Esta semana, na RTP, afirmou que «o Governo funciona como se Portugal fosse um Protectorado» e vaticinou: «Qualquer dia os ministros não podem sair à rua», «A População não é tão paciente como se julga», arrematando: «Vamos ver o que vai acontecer!».

O Homem para quem não podia haver ruas proibidas, em 1985, em plena campanha das Presidenciais. O mesmo que, por isso, atravessou a Marinha Grande, contrariando quem lhe dizia que «não podia ir por ali» porque «a população não é tão paciente como se julga». O político que sabe que a ameaça não dobra o carácter de quem serve o País, em Liberdade, ainda hoje refere este episódio como sinal da sua imunidade às afrontas públicas de violência. (deve ao incidente a subida de intenções de voto de 8% até à vitória na segunda volta). Este homem é o último a poder dizer qualquer coisa que possa incitar o Povo a fazer o mesmo.

Mais: a violência na Marinha Grande deveu-se, sobretudo, à memória fresca que o Povo tinha do Governo do Bloco Central (1983-85) que cumprira com rigor e determinação, todas as exigências impostas pelo FMI, então por cá em socorro das contas portuguesas. Nessa altura, a obediência cega e castigadora do Primeiro-ministro Mário Soares não «tornou Portugal num Protectorado» mas sim num Estado que honra compromissos internacionais e que consegue reerguer-se quando cai.

Nessa altura, o Povo português soube atender às palavras do corajoso Ministro das Finanças do mesmo Soares: «Está em causa, muito cruamente, a própria capacidade de assegurar, em termos de financiamento externo, o funcionamento corrente da actividade económica. E quando um problema se coloca com esta clareza, deixa de haver margem para recorrer a malabarismos contabilísticos com o intuito de disfarçar quanto custa, a cada um de nós, a chamada crise portuguesa»*.

Soares foi salvo pela competência de Ernâni Lopes, pela resistência do Povo, pela possibilidade de desvalorizar a moeda provocando mais inflacção e pelos Fundos Europeus subsequentes que viriam a curar mais depressa as feridas inflectidas pelo Centrão político.

A par da liberdade de verbo, precisávamos da sua experiência de quando conduziu o País no aperto imposto pelo FMI. Um sacrifício para o qual não encontrou brechas na sociedade portuguesa e que, como nos lembramos, provocou fome em Setúbal, como então denunciou o bispo D. Manuel Martins.

Apesar de Soares nada ter a perder e de a opinião ser livre em Portugal, as palavras do fundador do PS, construtor da democracia portuguesa e ex-Chefe de Estado podem desencadear um efeito adverso ao esforço comum que hoje nos é pedido. E são desmerecedoras da coerência a que parecia ter-nos habituado.

*Diário da AR, 26 de Outubro de 1983

(escrevi este texto há quatro dias e deixei-o arrefecer. Mas permanece actual)




(mais)

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Consolo inesperado e consistente


Ele 87 anos. Ela 80. Ele partido nas pernas, agressivamente lúcido. Ela mexida mas esquecida. Juntos na vida, separados pelo mútuo inconformismo. Têm filhos atentos e ocupados. Sozinhos em casa. Vivem em Lisboa e fazem parte do grupo dos 40 mil que seremos todos um dia, se Deus quiser. No dia em que ela sai para um programa de dias com um filho, ele cai e parte um músculo. Fica imobilizado. 
Batem à porta. Rute e Inês apresentam-se. Jovens licenciadas, psicóloga e assistente social, foram contratadas pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa para fazerem o levantamento da situação de todos os lisboetas com mais de 65 anos ao abrigo do Programa Inter-Gerações. Profissionais. Amáveis. Abertas aos desvios da conversa. Focadas no essencial. Não aceitam um chá. Dão ideias e exemplos de casa. Estão numa casa. E também têm Avós. Tomam notas, dão o número gratuito das soluções (808 203 333) que a Santa Casa pensou para estes casos, tão próximos.
Para quem assiste, este programa é um monumento de companhia, compaixão, segurança, esperança. Obrigada. 

(mais)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O mito do humanismo

Quando se discutiu a Constituição Europeia todos se lembraram que a Europa tinha uma herança humanista e que portanto seria essa a fonte da Europa. É evidente que o humanismo é um movimento europeu. Mas já não é verdadeiro que seja a fonte da Europa. O humanismo, tal como tem evoluído nos dois últimos milénios, resulta de confluências várias entre o cristianismo e o paganismo indo-europeu. Esse o pano de fundo em que temos laborado. Para que este pano de fundo seja sólido na sua demonstração, tenho de demonstrar que o humanismo não é fundamento da Europa, mas antes uma sua consequência.

Há desde logo que destrinçar dois sentidos de humanismo. O primeiro é sentimental, o segundo cultural. O facto de ninguém ter feito esta destrinça na discussão sobre os fundamentos da Europa demonstra, seja a incultura, seja a má fé de quem nela participou. Sob o ponto de vista sentimental, o humanismo está ligado à doçura de actos e palavras. Sob o ponto de vista cultural o humanismo associa-se sempre à valorização da cultura da inutilidade directa e, em consequência, do conhecimento teórico por si mesmo.

Humanismo, num e noutro sentido, encontramo-lo em todas as civilizações. O humanismo não é pois em abstracto um fundamento da Europa.

Fala-se em humanismo árabe do beduíno pagão, que ainda hoje deixou rastos, no sentido em que se estabelecem limites contra a violência pelas regras da hospitalidade, da demarcação de territórios, pela delimitação do direito de propriedade em relação a camelos, escravos, esposas e filhos. Estes tipos de humanismo, no sentido de limitação da violência, encontram-se em muitos graus diversos em todas as culturas. Encontramos limitações idênticas nos tupis, nos guaranis, nos chineses ou seja em que povo for. O primado exclusivo da violência é insuportável para qualquer povo. Uma vida colectiva sem limites de violência é insuportável. Por isso até entre os assírios, os hunos e os mongóis na sua fase conquistadora podemos encontrar este tipo de humanismo. Este tipo de humanismo é inevitável, e por isso pouco meritório em si mesmo.

Humanismo no sentido de valorização da cultura teórica igualmente o encontramos na China, na Pérsia, entre os egípcios, tudo dependendo das épocas. Este segundo tipo de humanismo pode ser rico ou simplesmente pudibundice de erudito. É típico de civilizações elaboradas, mas nem sempre criativas. Se o primeiro é destituído de mérito por si mesmo, o segundo pode ser apenas enfadonho e resultado de falta de imaginação.

Ou seja, se se diz que o humanismo é constitutivo da Europa, ou se mente, porque se fala do humanismo em abstracto, ou então está-se a referir a um certo humanismo específico. E qual é ele? Ora bem: exactamente o que tem como fontes... o cristianismo e o paganismo indo-europeu.

Completada a primeira parte da demonstração, vejamos então que características especiais tem este humanismo europeu, que é europeu por o ser, e não por ser humanismo.

A primeira característica é a da adição do humanismo sentimental e cultural ser uma constante na Europa, sobretudo desde o advento do cristianismo. Ser homem das humanidades é igualmente ter o coração no lugar certo, abominar o que gera o sofrimento alheio. Esta ligação não é evidente, e apenas pode ser compreendida à luz do cristianismo, e antes, à luz do estoicismo. Na Europa não se fala do humanismo dos salteadores de estrada, como os europeus se comprazem a falar do humanismo do beduíno. Também sem a dimensão cultural não se fala em humanismo. Não há notícia de se ver a Aldeia de Rebedelas de Baixo referida como uma aldeia de humanistas. Inversamente, não se concebe facilmente humanismo intelectual sem sentimental. Um genocida em massa por mais culto que seja não é em geral chamado de humanista. Muitos oficiais em campos de concentração eram homens de grande cultura, e ninguém se lembra de os chamar de humanistas. Mas já o soldado kamikaze que se atira contra o porta-aviões recitando uma poesia é como tal chamado.

Este espécime particular de humanismo que liga a dimensão sentimental à cultural é tipicamente europeu. Existe noutras culturas, mas só na Europa a ligação é considerada necessária com tanta força.

A segunda característica é a da separação. O humanista separa-se de algum tempo histórico que condena. Ou o presente, por grosseiro, ou o passado recente dos góticos, ou um passado longínquo do Antigo Regime. Algum tempo histórico o irrita. Porque os costumes são violentos, porque a cultura é chã. E tende a associar uma coisa à outra. Mas sobretudo separação da multidão. O humanista sabe-se minoritário no meio de um mundo que é mais grosseiro, mais inculto, menos elaborado que ele. Quem leu as fontes originais sabe que nunca se viu tanta expressão de desprezo quanto nos escritos dos humanistas. Chusma, turba, maralha, canalha, plebe, escória são expressões que se encontram em Erasmo, mas igualmente nos estóicos, ou nos iluministas. O humanista despreza. Quando se diz que a Europa é feita de humanismo reconhece-se que é herança europeia o desprezo de épocas e das maiorias, a separação do tempo e do comum da sociedade. O que é verdade, mas doeria algo a ouvir para quem apenas no humanismo vê uma espécie de comédia delicodoce para crianças, enfeitada de sorrisos e abraços.

A terceira característica, que está obviamente associada à segunda, é a da ligação a um passado mais longínquo, real ou mítico, e a um grupo restrito de pessoas, vivas ou mortas. Separando-se de uns tempos e da maioria, o humanista liga-se a pequenos grupos e a certas épocas. Ou a Idade de Ouro dos poetas clássicos, a época de Saturno dos romanos, ou a Antiguidade Clássica para os da Renascença ou a República Romana para a Revolução Francesa, alguma época é dada como mítica. Uma época sempre longínqua por definição. O grupo restricto é o dos amigos, o dos correspondentes, ou tão simplesmente o dos autores mortos, seja Homero, ou Virgílio, na Antiguidade, seja Horácio ou Juvenal na Renascença. Assumir a Europa como tendo a sua fonte no humanismo é afirmar que a Europa se remete sempre para um tempo longínquo, por vezes mítico, e que só é europeu quem restringe, quem é selecto nos seus contactos. O que é em grande medida verdade, mas mais uma vez chocaria os bem-pensantes, e desta vez nem sempre é justo.

A quarta característica do humanista é a associação a um espaço específico. O humanismo é o que se recolhe no campo, fora da agitação ou pelo contrário é o homem urbano, mas não da cidade das massas, bem pelo contrário, da cidade das elites, de um grupo de escolhidos. O humanista pode ser cosmopolita, mas nunca é de todo o mundo. Ou pertence à república das letras, ou a círculos internacionais fechados. De uma forma ou de outra, seja qual for o espaço que escolher, é sempre um espaço de ócio. Assumir o humanismo como fonte de humanismo é assim reconhecer na Europa um espaço de ócio e sempre rarefeito, o que mais uma vez é apenas parcialmente verdadeiro, desta vez divertido, mas algo injusto como caracterização.

“Querem dizer tá-tá e não lhes chega a língua” dizia uma dama do Norte de Portugal. Perceberam que a democracia, os direitos do homem, a economia de mercado e o acquis communautaire não bastavam e procuram em desespero referências no fundo da sua insignificante bagagem cultural. Acabam por isso por dizer que a Europa é um espaço de desprezo e separação, de ligação ao longínquo e ao ócio e em que o cultivo do sentimento vai de par com o da ideia. Conclusões com as quais alegremente concordo, mas que são apenas uma pequena parcela da verdade. A Europa tem muito mais que isso é muito mais que apenas isso. Ou então pretendem dizer que não há diferença entre a Europa e a terra de tupis e beduínos. Que nenhum problema há se a Europa for apenas um espaço de inevitabilidades e enfadonho. Podem invocar que não sabiam que estavam a dizer isto. Mas sabiam realmente o que estavam a dizer?

Foram às suas lembranças vagas de um liceu mal digerido e de uma duas ou três aulas de História ouvidas com pouca atenção, e lembraram-se que os humanistas eram uns rapazes simpáticos. Reconheçamo-lo: o que pretendem dizer é que a Europa é um conjunto de rapazes simpáticos e que o resto do mundo nos pode amar por isso. Mas dos rapazes simpáticos não reza a História, nem espalham à sua volta o respeito e muito menos são objecto de paixão. É de uma Europa morna, feita à sua imagem, que realmente estão a falar. Fugindo a toda a confrontação, apenas para não os pôr em causa.

Relapsos, ineptos, ignaros, incompetentes, desonestos ou pura e simplesmente pretensiosos que querem fugir ao tema essencial, forçam-se a brincar a um jogo de espelhos em que tudo vale desde que se fuja à verdade. Eis que encontraram um fundamento transcendente para a Europa, esses tanto esfomeados como medrosos do transcendente. E se não captam essa transcendência a explicação é simples. Porque são incapazes de descer à terra e ver que as raízes da Europa estão mais e mais uma vez... no cristianismo e no paganismo indo-europeu.

Alexandre Brandão da Veiga

 

(mais)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Espanha retardada

Espanha está sempre atrasada em relação a Portugal.
Na Reconquista cristã (séc. XIII / XV), na união política do País, (séc. XII / XV) nos Descobrimentos (séc. XIV / XV), na abolição da Pena de Morte (1867/1978) e da escravatura (1869/1888), no final da ditadura do século XX (1974/1976) e mesmo no pedido de adesão à Comunidade Europeia (1977/1980) que viria a ser aceite para o mesmo dia de adesão (01/01/86). Apenas na introdução da Inquisição (1536/1478), e na expulsão dos judeus (1496/1492) a Espanha se antecipou a Portugal.
O que atrasará este País tão maior e mais próximo da Europa? Este Reino que teve um Império onde o Sol nunca se punha?
Salvaguardadas as distâncias, lembrei-me desta «sequência de variável fixa» pelo atraso do pedido de resgate de Espanha à Europa. Parece haver uma resistência na meseta central (unidade de relevo mais antiga da Península Ibérica) no chão árido de Castela, pouco permeável ao que venha de fora a favor do reforço de orgulhos intrínsecos.
Será que nos seguirão no cumprimento do Memorando que estão prestes a assinar?

(mais)

terça-feira, 5 de junho de 2012

A Grécia no desenho europeu

Há três níveis de discurso quando se fala na actual situação da Grécia: o que evoca o nosso berço político e filosófico ao qual tudo devemos, tudo teremos de dar e que se sente resgatado com a ideia de, novamente através da Democracia, ter a esquerda radical de Atenas a condicionar o futuro do Velho Continente. Outro discurso navega nas águas da política e convoca o sonho de Jean Monet que reinventou no pós-guerra a máxima de Dumas, «Um por todos e todos por um». Finalmente, corre um terceiro discurso sobre o caso grego com uma abordagem tecnocrática, mais baseada no conhecimento dos gráficos do que do terreno, das famílias, das pessoas.
Os três discursos sobre o mesmo assunto não se cruzam e estão desajustados. 1) Há 25 séculos que a Grécia não se mantém inspiradora do Ocidente, quatro dos penúltimos esteve sob domínio Otomano. 2) A urgência do Pós-Guerra evoluiu para uma nova hegemonia germânica, desbotando o sonho da Comunidade Europeia. 3) A linguagem economicista não traça rumos de gente. Faz o «damage control» da situação, sem princípios filosóficos nem rumo político desafiante. Exit? Aproveitar a verdade dos gráficos e voltar à pureza da filosofia e da política. Só assim desenhamos e seguimos juntos.

(mais)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Relvas, o fumo e o fogo

O objectivo era ligar Miguel Relvas a Silva Carvalho. Era importante «provar» que, entre maçons e com o apoio sujo das secretas, Nuno Vasconcellos estaria melhor defendido do que Francisco Balsemão, em pleno processo de privatização da RTP. O relacionamento social e/ou profissional entre Relvas e Silva Carvalho não foi transmissível a qualquer decisão do Governo. Não houve mudanças nas secretas, como sugeria o espião, e não foi decidido o processo da RTP.
A guerra Balsemão / Vasconcellos é violenta porque opera na mistura explosiva de rupturas filiais e interesses económicos rivais. Pior: as batalhas travam-se entre o domínio da mensagem dos media ao qual se contrapõe o domínio de informações secretas, colhidas indevidamente.A história tem todos os ingredientes da conjura e, sendo falsa, constitui a armadilha política perfeita. A guerra Balsemão/Vasconcellos, as informações secretas e as pressões do espião sobre o poder não têm origem em Miguel Relvas. Mas têm nele o seu destino. Saberemos distinguir?

(Conheço Miguel Relvas mas não tenho uma relação pessoal com ele. Digo o que penso, antes sequer de o ouvir na Comissão Parlamentar de hoje).

(mais)

terça-feira, 22 de maio de 2012

Quem gosta da inovação?

Mais um dos lugares comuns da nossa época. Quem gosta da inovação? Toda a gente. E como de costume, quando todos aplaudem, é muito possível que estejam a dizer coisas diversas e com diversas intenções.




Há uns anos havia uma série de televisão britânica em que todos os ministros concordavam com a igualdade entre homens e mulheres, salvo no respectivo ministério, que tinha sempre boas razões para não a aplicar. A relação que muita gente tem com a inovação é da mesma natureza.



Vejamos em primeiro lugar o que não é inovação.



Muitas vezes vejo criaturas apresentar um “paper vindo dos Estados Unidos” que mostra a últimas inovações seja em que matéria for, e estão muito entusiasmados com ele. Seja para mera contemplação, seja para o aplicar, quem segue esta via não faz inovação. Apenas segue a inovação dos outros. Se para seguir as melhores práticas, outras práticas, piores ou não, não interessa. Pode ter sentido de melhoria, de aprendizagem, admite-se. Mas o que interessa é que não é um inovador. Apenas segue a inovação dos outros. Inovadores são os outros. Aqueles são apenas seguidores.



Também não é cultivar a inovação fruir das inovações alheias. Usar telemóveis, computadores, o que seja, não é inovar. É apenas fruir da inovação alheia. E quanto mais se integram essas inovações na vida das pessoas menos se caracterizam pela inovação. Apenas se incrustam na trivialidade quotidiana das pessoas. Estes são apenas fruidores.



Fica então por saber o que é gostar da inovação, estar pronto para ela. Significa basicamente três coisas.



Em primeiro lugar aceitar o processo de inovação dentro a sua organização. E esse processo tem um nome simples: estranheza. A inovação dirige-se para o futuro, ou seja, para o vazio, ou para o infinito de possibilidades, o que no caso vem a dar ao mesmo. Querer inovação é aceitar estranheza por uma razão básica. Se os conceitos de base, se o percurso nos forem familiares, não se está a inovar. Nem tudo o que é estranho é inovador, mas tudo o que é inovador começa por ser estranho.



É a velha expressão de Hadamard “pensar ao lado”. Hadamard dizia que as grandes revoluções na ciência eram feitas por pessoas que pensavam ao lado. Se uma organização não está aberta para quem pensa ao lado, não inova. Apenas segue a sua rotina, as práticas mais conhecidas. Vive a sua vidinha.



Em segundo lugar, significa querer transdisciplinaridade. Transdisciplinaridade não é multidisciplinaridade. Esta é a apenas uma conjunção. Transdisciplinaridade significa estar aberto a outras disciplinas, ser capaz de comunicar com elas. As inovações em todas as áreas foram sempre feitas por pessoas que ligaram duas ou mais matérias muito afastadas entre si. Heisenberg verificou-o e os exemplos são múltiplos. Quem dedicou uma vida inteira apenas a estudar direito, ou economia ou gestão não é um inovador.



Nas nanotecnologias inova-se porque se ligam física, matemática, química, engenharias, biologias, virologia. Euler inova porque relaciona na sua célebre equação a trigonometria, a álgebra e os números complexos. Os computadores resultam da confluência da lógica matemática com a física quântica. Toda a inovação é relacionação do distante.



Em terceiro lugar, inovação implica indiferença perante os títulos. Quem distingue administrador de administrativo não inova. Uma boa ideia é boa independentemente de quem a emite. Um país, uma organização, que dêem muita importância aos títulos, nunca serão inovadores. Os títulos são sempre o congelamento de um passado. Mostra o nome do que uma pessoa fez. Nada nos diz sobre o seu futuro.



O maior professor catedrático de física do mundo, Planck, chama um simples funcionário de um escritório de patentes da Suíça. Dá-se o caso de este se chamar Einstein. Os países nórdicos inovam mais que a Europa do sul. Porquê? Precisamente porque são mais indiferentes aos títulos sejam académicos, sejam empresariais, sejam organizacionais. Uma ideia é boa ou má, não é dourada ou o seu contrário.



Por isso, quem diz que gosta de inovação ou que acha muito importante a inovação está a desejar que os outros façam coisas novas, eventualmente estará a fazer mero discurso de rotina, mas não é alguém que esteja disposto a introduzir inovação nas suas esferas de actuação. Já se alguém disser outra coisa, talvez seja realmente alguém aberto à inovação. Essa outra coisa é simples: aceito a estranheza, quero a transdisciplinaridade, sou indiferente aos títulos.









Alexandre Brandão da Veiga



(mais)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Os tecnoideólogos


Na França de meados do século XIX nasce uma figura de homem nova na História, pelo menos com essa consciência. Cansados de lutas ideológicas extremistas, compreendendo a necessidade de utilizar os instrumentos da ciência, da técnica e da economia capitalista, mas compreendendo igualmente que todas elas se têm de compreender de acordo com uma função social, nasce o tecnocrata. O tecnocrata nasce no II Império por influência do Saint-simonismo, segundo se afirma. Mas em boa verdade tanto o saint-simonismo como o movimento tecnocrático têm a mesma base: o cansaço de lutas ideológicas.




O tecnocrata é o homem que suspende a realidade, ou uma boa parte dela. Concentra-se numa especialidade e a ela se dedica em exclusivo. Não elabora teorias sobre Deus, o amor, a vida em geral, porque entende que nada pode dizer sobre elas. Não discute sequer a utilidade das questões. Suspende-as pura e simplesmente. Tem muito que fazer.



A Grã-Bretanha do século XIX criou outro tipo de homem, o utilitário. Comerciante, engenheiro ou mesmo sacerdote vê apenas a realidade na perspectiva do que é útil. Mesmo quando frequenta regularmente a igreja fá-lo porque a considera uma instituição socialmente útil. A marca deste tipo de homem atravessa toda a sociedade. Somerset Maugham, ao falar dos ingleses dos anos 1920 e 1930 dizia que mais facilmente acabavam por falar de sexo que de alma, palavrão supremo, que cobriria de ridículo e vergonha quem usasse tal palavra. O utilitário não suspende, suprime.



A Alemanha cria ainda outra figura, o tecnólogo. Este surge do cruzamento de três movimentos. A forte ligação à ciência, uma concepção de cultura como apolítica, e simultaneamente, paradoxo meramente aparente, uma fidelidade ao projecto de poder do Reich. Não faz política porque para ele fazer política é entrar em discussão. É participante activo da política do II Reich, mas não se considera ele fautor dessa política, mas apenas seu executante. Mais apto a falar de cultura que os anteriores, menos pudico quanto aos grandes temas filosóficos, cala-se no entanto mais na sociedade.



Um suspende, um suprime, outro ainda cala-se. Cada um deles tem os seus momentos de glória e não se pode estar demasiado grato ao que de extraordinário fizeram para o nosso conforto e para a nossa civilização material. Se saliento este tributo que temos de fazer a estes tipos humanos, faço-o com plena consciência. É que é demasiado comum serem degradados, desrespeitados, quando em boa verdade a eles muito devemos. Mas todos eles são executantes de ideias, e não seus criadores, mais uma vez meros usufrutuários de uma cultura e não homens que a renovem.



O problema é que hoje em dia assistimos ao império de um novo tipo de homem, resultado da mestiçagem entre os três: o tecnoideólogo. O tecnoideólogo suspende todos os temas que sejam do âmbito da vida pessoal, da vida em geral. Suprime toda a noção de transcendente e cala tudo o que possa pôr em causa a sua visão do mundo.



Este espécime humano, encontramo-lo hoje em dia entre os chefes das empresas, mas igualmente entre a administração pública. A figura híbrida, teratológica, surgiu, não por culpa sua, mas para preencher um vazio. A natureza tem horror ao vazio. E perante políticos, jornalistas, e um público em geral que se mostra incapaz de enunciar e executar novas ideias políticas, este espaço foi tomado por ele. É ele que sofre a pressão para resolver problemas. Já não tem Napoleão II nem Thiers, nem Bismarck nem Disraeli que lhe dêem o enquadramento político geral.



O tecnoideólogo faz o papel dos bispos durante as invasões bárbaras. A maioria das pessoas esquece que grande parte do poder temporal dos bispos lhes veio das populações. Foram as populações que lhes entregaram o poder temporal porque os principados estavam impotentes. Da mesma forma, os políticos, e em geral os homens públicos, desistiram nos últimos anos de fazer política. O principal problema político da Europa, e em parte do mundo, é a unificação europeia. Da solução que se der a este problema dependem todos os equilíbrios mundiais.



Mas as populações escolheram políticos que suspendem a questão da unificação, suprimem a discussão sobre a entrada da Turquia, e calam sobre as imposições americanas à Europa. Apagada a discussão, convenhamos que já postiça e rotineira entre os blocos ocidental e de Leste, ficaram, em grande parte dos casos, perdidos de referência. A questão europeia é tratada como anedótica, meramente lateral. Porque o tecnoideólogo é incapaz de lidar com grandes realidades.



O tecnoideólogo herdou dos seus antepassados o horror à política como consagração de ideias e valores. O seu pensamento assenta em manuais. Os seus livros de orações são documentos internacionais, hoje em dia de preferência em inglês. Está permanentemente ocupado, ou gosta de se ver assim pelo menos.



Se os bispos tiveram antes de ocupar o poder temporal, tendo sido a religião expulsa do espaço público, e a ideologia varrida da exposição geral, cabe-lhe a ele substituir esse espaço. A culpa não é dele, saliento mais uma vez, mas do vazio deixado pelas populações, políticos e jornalistas. Sem ninguém que o oriente, actua por inércia de movimento. Consulta os textos e age em função deles.



Tem fé no Direito. Acha por isso que a Europa é a democracia, os direitos do homem, a economia de mercado. Com uma total incultura simbólica, acha que o mundo assenta em andares superiores, sem procurar saber de que são feitos os solos em que realmente assenta o edifício. As soluções para a sua vida, encontra-as nos tratados europeus, os nas constituições ou nas declarações universais dos direitos do homem.



Tem fé, não na ciência, que desconhece, não na técnica, de que foi ensinado a desconfiar, não no ambiente, que foi apenas obrigado a valorizar, mas no mecanismo. Desde que encontre um mecanismo sente-se em casa. O mercado, a comunicação social, o sistema burocrático. O “paper”, o documento internacional é a sua máxima expansão.



O problema dos híbridos, no entanto, é que se definem por oposição aos seus antepassados. Nascido de um vazio de poder, apresenta uma face de negação. Já não suspende o juízo porque julga que fala de toda a realidade. Não suprime, mas acrescenta à realidade. Impõe o que a realidade deve ser na sua visão. A Europa é a democracia e a economia de mercado, um “espaço de comunicação de culturas” (seja lá o que for que isso queira dizer). E não se cala, cala os outros. Porque se considera, não neutro em relação aos valores, mas o detentor dos valores essenciais.



Quando está na administração pública tem vergonha de ter poder, exerce-o não com parcimónia, mas com um eterno pedido de desculpas. E tem razão. Tem de pedir desculpa de alguma, de muita coisa. Quando está nas empresas é obcecado com o Estado. Exige o seu apagamento, oficialmente, mas a sua colaboração, nos corredores. Diz que o Estado o atrapalha, nos jornais, mas não vive sem o seu empurrão, nos gabinetes.



Vazia a política, vazia a religião no espaço público, fenecidas as ideologias sistemáticas, o tecnoideólogo pode passar a ser novo sacerdote de uma religião que o instituiu, a do vazio. Odeia a soberania popular, a democracia, e quer passá-la pelo seu crivo. Quando por exemplo Chipre recusou a parte turca por decisão soberana popular, tanto a comissão europeia como o governo britânico (tão próximos que andam nos últimos anos na sua ideologia) afirmaram que a parte grega da ilha ensombrou a sua adesão. Nem admitem que haja referendo, decisão popular sobre a adesão da Turquia, porque são detentores da verdade.



O tecnoideólogo é assim o sucessor do inquisidor. Não foi escolhido pela vontade popular, sente-se imune a ela e mais iluminado que a soberania. Considera que a vida é mera execução e não novação, porque esse é o seu modo de viver. Determina o bem e o mal nominando-os com terminologias pseudo-técnicas. Tendo nascido de um vazio, não pode admitir que existe esse vazio que o legitima. Inculto de simbólica, nega o valor dos símbolos. De recente extracção, é mais um inimigo da História. Sorri perante o futuro e perante as hipóteses tontas, como a adesão da Turquia ou uma Europa como mera zona de encontro de culturas. Porque não sabe destrinçar um aeroporto de um centro cultural, um lupanar da sua casa. Mas tem realmente razões para sorrir? Fora mero tecnocrata, utilitarista ou tecnólogo, estaria servindo o soberano, faria bem o seu papel. Não o sendo, fazendo da vida mera execução, sem soberania, apenas resvala para o futuro, sorrindo, é certo, lançando olhares de censura, também, até se estatelar contra o que o futuro lhe trouxer. Só não é profeta da desgraça porque não é profeta. E nele a desgraça é sempre presente.



Alexandre Brandão da Veiga































(mais)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Edgar Morin e os turcos

Um amigo meu brasileiro colocou-me um desafio. Disse-me que Edgar Morin tinha recentemente afirmado que a Turquia era um grande país europeu porque havia dominado parte da Europa e participado na História europeia.

Não sei se o senhor disse tal despautério e não o quero difamar. Não me interessa a autoria, mas o conteúdo da informação, que é tão corrente entre semi-providos. E, quanto ao conteúdo, apenas prova a inépcia lógica de quem profere, salvo se tais afirmações só se deverem a desonestidade intelectual.

Existem duas demonstrações da falsidade desde argumento. A primeira pela via positiva, e segunda pelo absurdo.

Pela positiva já demonstrei desenvolvidamente alhures que a Europa é a fusão de quatro camadas, os substratos autóctones da Europa, o paganismo indo-europeu, o cristianismo e o mito da queda do império romano. Não repito aqui a demonstração. Apenas lembro que os quatro requisitos são cumulativos. Um país a que falte um deles não é Europa. Ora à Turquia não faltam um, nem dois, nem três requisitos: faltam todos. Não se aproxima sequer da possibilidade de ser cultura próxima da europeia.

Sob o ponto de vista positivo igualmente, não vale o argumento da europeização da cultura. Todo o mundo está europeizado de uma forma ou de outra. Todos os que usam carros, aviões, electricidade estão europeizados. E aprende-se mais cultura europeia no Líbano (ou em tempos no Egipto) que na Turquia. A Turquia tem ciclos históricos muito semelhantes aos da Ásia Central, às restantes áreas turcófonas, tendo sofrido de um triplo movimento de laicização, turquificação e islamização. Tal como o Arzebeijão, o Cazaquistão, ou o Turquemenistão.

Não perco mais tempo com a demonstração positiva. A mais divertida é a demonstração por absurdo. Apesar de tudo continuo a entender que a lógica tem um papel no discurso humano e, parafraseando Poincaré, quem conteste na íntegra a razão e a linguagem humana, apenas se pode reduzir a balbuciar e a emitir gritinhos.

Vejamos pois uma dupla demonstração pelo absurdo.

Em primeiro lugar outras culturas dominaram o espaço europeu em parte.
a) A Pérsia dominou muito antes dos turcos uma parte do espaço grego. De onde as moreias deste mundo deduzirão que a Pérsia é a uma grande cultura europeia, ainda mais antigamente europeia que a Turquia.
b) Os árabes dominaram a Península Ibérica, parte da Itália do Sul e uma franja da França meridional bem como a Sicília, muito antes dos turcos. E no que respeita à Península Ibérica por muito mais tempo que turcos estiveram nos Balcãs. De onde se retiraria que a cultura árabe é uma cultura europeia bem mais antiga a permanente que a turca.
c) Os tártaros dominaram toda a Europa Oriental e boa parte da Europa Central. Domínio bem mais vasto na Europa que o dos turcos. De onde decorre que a cultura tártara é uma cultura europeia bem mais vasta que a turca.

Eis a primeira demonstração por absurdo. Vamos pois à sua inversa, à sua segunda versão.

Portugal dominou durante três séculos o que veio a ser metade da América Latina, o Brasil. Não apenas dominou. Mais: criou. De tal forma a que ainda se fala lá a sua língua e ainda lá permanecem muitos dos seus monumentos e instituições, ao contrário do que se passou com os turcos na Europa.

De onde resulta que Portugal é uma grande cultura latino-americana. O mesmo se diria da Espanha.

O mesmo se diga de África. Durante um século Portugal dominou quase em exclusivo todas as costas da África, mais do que alguma vez algum país africano fez, o que mostra que é mais africano que os países africanos. E durante meio milénio dominou um território que veio a representar cerca de dois milhões de quilómetros quadrados. Bem mais que o espaço turco na Europa. E mais uma vez deixou a sua língua, a sua religião, a sua cultura. Coisa que os turcos não fizeram. De onde se tem de retirar que Portugal é uma grande cultura africana.

Não sei se o agradável senhor proferiu esta frase ou semelhante. E espero bem não o estar a difamar, porque sempre tive a esperança de que tivesse sentido lógico. Por isso preferi não acreditar que o tenha dito. Mas a quem quiser usar de tal lógica, que se lembre então que Roma é uma grande cultura asiática, a Grécia clássica em Marselha uma grande cultura gaulesa, e quem diz coisa tão fora do mundo, um grande cultor de extraterrestres idiotices.

Alexandre Brandão da Veiga


(mais)

terça-feira, 10 de abril de 2012

O melhor e o pior

Ser como se é pode ser quando muito uma fatalidade mas não um destino. E é melhor ser melhor que pior. Duas verdades que deveriam ser evidentes, sem as quais nenhum juízo é possível, em suma, nenhuma consciência.


E no entanto, vivemos numa época em que são contestados como poucas vezes foram.


Poucas vezes digo eu, porque nada pior que dar precedências ou exclusividades aristocráticas a épocas sobretudo se apenas primam pela mediocridade. No Baixo Império romano a deusa Fortuna, ou, no lado oriental do império, a deusa Tychè (mudem-lhe o nome, mas é sempre a mesma), imperava. Não que o homem tenha deixado de acreditar nos deuses, bem pelo contrário, nunca tantos deuses floresceram, mas feitos à medida. Não que o sentido da transcendência se tivesse perdido, bem pelo contrário, a tendência monopolista dos deuses únicos começava a surgir (Ísis, Mitra, Serápis). Mas a própria multiplicidade de soluções tinha levado os homens a desacreditar na capacidade divina para regular o mundo.


Daí que a deusa Fortuna, ou seja, uma deusa demissionária, arbitrária, caprichosa tivesse de ser incensada como a grande regedora e provedora do mundo.


Na nossa época, afirmar que alguém tem de ser diferente do que é pode ser legítimo, mas apenas nos casos em que se destaca pela excelência, pela acutilância ou pela intervenção. O colectivo é sempre irrepreensível. Todos os defeitos que são inadmissíveis no ser individual passam a ser mais que permitidos, nobres, no colectivo. Degolar animais é acto de crueldade, mas se decorre de tradição étnica é maravilhosa forma de integração no mundo, acto religioso, e portanto, a respeitar. O colectivo é o que é e isso justifica-o.


Mas o individual, se lhe falta individualidade, e precisamente por lhe faltar, por apenas reproduzir o que o colectivo lhe impõe, ou mesmo que use o colectivo como mero pretexto, passa a ser incensado. Matar uma mulher depois de a violar é abominável mas se for um turco a fazê-lo em crime de honra já temos de ter em conta a situação complexiva, palavra que mais não significa que não nos comprometemos com a sua condenação.


O uso de particípios passivos é aliás significativo na nossa época. As classes são desfavorecidas. As sociedades não menos desenvolvidas. As pessoas foram oprimidas. O agente da passiva pode ficar anónimo, mas a construção gramatical é suficientemente explicativa. Ninguém faz nada. Poucos são responsáveis. Preguiçosos inexistem, criminosos quase desapareceram.


A outra desculpa usada é a da evolução. Os medíocres não são avaliados pelos seus resultados finais, mas o simples processo já se torna justificante. Se um país viola os direitos humanos, temos sempre de ter em conta os esforços que fazem para melhorar a sua situação.


Finalmente, o contexto, a perspectiva “holística”, boa desculpa para não se cuidar do pormenor, sem o que a integração do todo é apenas turística. Se o médico erra grosseiramente temos de ter em conta o contexto, a pressão a que está sujeito, e poucos se perguntam sobre se é ele totalmente desadequado para as suas funções. Se a criança é mesmo burrinha (existem, não é um mito), todo o contexto é fraca desculpa para o seu insucesso escolar.


O colectivo, o passivo, a evolução e o todo. Palavras com nobre ascendência, mas de prostituída utilização. Lugares comuns de uma época sem indivíduos, de uma paisagem deserta de agentes, sem estado definido e sem cuidado com o pormenor.


Usa-se hoje nos meios económicos a expressão benchmark, que em bom português se poderia traduzir por bitola, estalão, paradigma. Tudo depende do que escolhemos para paradigma. Se escolhemos o colectivo, o passivo, a evolução e o todo, florescem as desculpas, as justificações, os méritos relativos. E fenece a grandeza. Se curamos da transcendência, ou seja, se usamos como ponto de comparação a dita transcendência, destacamos melhor os defeitos, as insuficiências, as mediocridades.


Mas a nossa época nada quer saber da transcendência. Julgando-se inteligente, obsessão típica de que não o é, ri-se das anteriores que usavam o maior dos estalões, aquele que não admite maior, e congratula-se de tão escassos objectivos, e consequentemente de tão bons resultados em relação a eles. É evidente que se as minhas ambições são curtas as realizações são relativamente exuberantes.


Relembremos o nosso ponto de partida. Ser como se é... Não nos espantemos que vivamos a mais fatalista das épocas, que sob o nome de caos e de complexidade alberga a sua demissão de ser agente de um destino. Os nossos antepassados, para distinguirem a Europa da Turquia, falavam do fatum mahometanum, do fatalismo islâmico. Mesmo que a análise fosse simplista, sabiam distinguir na Europa como elemento distintivo um elemento agente. De Prometeu que rouba os deuses, de Ulisses que volta a casa (agir é sempre voltar a casa e não ficar parado no caminho), do Cristo que actua na História.


Age quem sabe que não está bem, ou, melhor ainda, que poderia estar melhor. Que não lhe basta. A rainha Cristina da Suécia, quando abandonou a sua coroa disse: “Non mi bisogna e non mi basta”. Não me é preciso e não me basta. Agir profundamente, segundo os paradigmas do absoluto, implica abdicar de algo importante. De uma ilha perfeita, de uma calma reencontrada, mesmo de uma coroa. Quem está satisfeito consigo mesmo, em boa verdade por medo da instabilidade das coisas, não age, é mero passivo, fala do todo, mas incensa à deusa Fortuna. Em vez de encontrar na imprevisibilidade uma oferenda (os gregos sabiam que a maldição de Cassandra era ter sido destituída da imprevisibilidade) nela vêem só um ataque às suas posses.

Voltemos ao ponto de partida. É melhor ser melhor... é quase ridículo lembrá-lo. Mas quando se diz que os critérios da Antónia ou da tia Micas têm exactamente o mesmo valor que os de Goethe, ou de Beethoven, e que não há diferença nenhuma entre o tam-tam, o corridinho, ou Bach, tudo é legítimo, como se mesmo que o fosse, a legitimidade fosse critério de excelência, algo vai profundamente mal na consciência europeia.


Porque entramos finalmente no âmago da questão. A consciência começa por ser a consciência do bem e do mal. A árvore do conhecimento é a árvore do bem e do mal. Este arquétipo é tão arreigado, tão arcaico, e tão presente em nós, que ainda hoje em dia dizemos que uma coisa é boa, uma tese o é, tanto quanto poderíamos dizer que uma pessoa é boa. Não há consciência sem noção de bem ou de mal. Como estas se preenchem, é questão que deixo para outras aventuras. O essencial é reter o que seja a raiz da consciência.


Mas não há só dicotomia na consciência. Há hierarquia, por isso se criou o conceito de melhor e o de pior em consequência. A capacidade de reversão é o primeiro sinal de racionalidade. Se pode subir, posso descer. Se posso ver o melhor, posso ver o pior.


Que campanha é esta que diz que não há o melhor e o pior, que diz que não há bem nem mal? Que em suma diz que ser como se é constitui por si mesmo um destino? É uma campanha que visa destruir a consciência, portanto, visa adormecer, entorpecer, parasitar a consciência europeia. É mais fácil dominar pessoas inconscientes que conscientes. E sob a bandeira das liberdades, da abertura, do relativismo, do multiculturalismo, vai obrigando a consciência a aceitar como seu espaço natural tudo o que a invada, que a domine, que a parasite. A deusa Fortuna impera, tudo é válido portanto. Nada há que seja melhor, salvo... salvo a invasão, o parasita e talvez um dia, o torpor absoluto dessa consciência. E eis que a civilização que construiu a consciência e que nela assentou fica entregue às mãos dos selvagens. Uns são primeiros-ministros, outros apenas turcos.


Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

segunda-feira, 26 de março de 2012

O homem rígido

“Temos de ser flexíveis”. Quantas vezes já ouvimos nós esta frase? Mas ao mesmo tempo vemos pessoas que nunca se arrependem de nada. Vejamos que espécie zoológica é esta que invade o espaço público.


Quem está permanentemente a lembrar que temos de ser flexíveis está a confessar que não o é. A repetição em ladainha de tal imperativo ético apenas enuncia uma lacuna e não uma realização. Ao mesmo tempo, lembro-me de ser criança e de se considerar na altura que das maiores virtudes de que um ser humano se poderia orgulhar era a de ter coluna vertebral. A posição erecta era considerada atributo maior de um ser humano digno desse nome. Hoje em dia a erecção tende a ser apenas diversão assistida terapeuticamente.


Pessoas que de nada se arrependem são pessoas que pressupõem um ser humano rígido, que não é capaz de arrepiar caminho, de mudar.


Que imagem do ser humano existe hoje em dia, por contraste com a nossa tradição europeia? A nossa tradição é de se ter coluna, de se manter por si mesmo uma posição erecta. Mas, sendo o caso, a de poderemos mudar de caminho, modificar-nos. Falamos de um homem sólido mas plástico e, quando necessário, elástico. Uma imagem de ser humano a que a linguagem se adaptava.


Hoje em dia, pelo contrário, a imagem do ser humano que a linguagem carreia é a de um ser sem coluna e por isso impotente de erecção: é flexível. De uma criatura de centro rígido, que nada faz mudar. Elástico como uma bola de pingue-pongue. Para quem estudou algo de topologia é uma figura interessante, mas muito mais uniforme matemática e biologicamente que o ser humano comum. A figura mais próxima que se encontra é a da roda de um carro. Actuando sempre em plano baixo, rasteira, monofuncional.

A frase que melhor o caracteriza é a “eu não me arrependo de nada”. Nada mostra melhor a sua incapacidade de adaptação à mudança. O seu paradigma é o da antena parabólica, aberta, mas mero veículo de comunicação e em suma instalada no solo. Aberto às flutuações no ar é em boa verdade fechado a uma interioridade que não possui e que teme mais que tudo.

O homem rígido detesta a teoria. Quem lhe conhece a etimologia sabe que é cognata à ideia de visão. Ao dizer-se prático apenas está a dizer que detesta quem vê. O seu mundo ideal é o da miopia ou mesmo da cegueira, que não o contesta.


O homem rígido diz que detesta julgar mas fá-lo. A sua frase “quem sou eu para julgar alguém?” releva de um cristianismo mal digerido, em que, mais que mostrar generosidade ou probas intenções, revela o desejo de que ninguém seja julgado, para que ele não o seja. É ditatorial. No fundo não se abstém, mas quer proibir a competência alheia para julgar.


Detesta a História mas usa-a de forma manipulada. A História é a condenação ao movimento, à mudança. O homem rígido detesta a mudança. Julga-se instalado num mundo sem tempo, feito de verdades eternas. A democracia, os direitos do homem, a igualdade entre homens e mulheres, a prosperidade, tudo lhe parecem dados que nada poderá mudar. Daí que ouçamos altos responsáveis europeus afirmar que a União Europeia é uma construção anti-histórica porque a História é guerra. Triplo disparate: nada está isento de História, se a União Europeia é possível é graças à História e a guerra não é realidade finda no mundo. O homem rígido vive de mitos. Antigamente (advérbio sempre mal definido) existia um mundo que ele caricatura como sendo autoritário, desigual, torpe, e finalmente somos hoje em dia esclarecidos, humanos, livres. Mito feito para mentes infantilizadas que acreditam piamente em contos de fadas. O homem rígido diz amar o futuro, estar virado para a novidade, mas apenas se estes forem mera reprodução do que já existe. O futuro é adorável, não por ser futuro, mas porque nada muda. A democracia é eterna, a economia de mercado perene, o acquis communautaire, a Tradição em crescimento.


O homem rígido detesta a História porque detesta os mortos. Acautele-se o leitor, porque o sorriso benevolente que lhe lança acaba de vez caso morra. Vira a cara e passa o sorriso para outro. Tendo horror à mortalidade, odeia o que mais inere a todo o homem: morrer. Odeia o ser humano. O seu amor à humanidade é apenas uma forma de parêntesis, uma condição suspensiva. Apenas dura até se instalar o desprezo definitivo e irrevogável pelos mortos. Apenas conhece uma forma de amor condicional, porque a mais não foi habituado.

Detesta os mortos porque detesta os vivos. Quer forçar a existência a ser um eterno presente, que é o único que sabe permitir a sua existência. Depois sabe que será apagado. Sabe que será morto, apenas morto, e não lembrado. Detesta os mortos e os vivos porque se sabe condenado e merecedor de esquecimento.


Odeia a complexidade e ao que está fora dos lugares comuns. O Islão é rico (onde o aprendeu?), todas as culturas são iguais (é natural, desconhece-as por igual), só a paz gera cultura (logo, a Grécia foi terreno de medíocres e os bosquímanes são génios naturais), etc. Odeia a oposição e a destrinça. Cultiva a igualdade como forma de justificação, porque só pode ser belo na neblina. O tempo fosco convém-lhe porque nada se distinguir.


O homem rígido diz amar as fracturas. Toma este conceito por inovação, renovação. Mas é curioso que use um conceito que apenas se aplica a corpos rígidos. A sua linguagem trai-o. Fracturas... quando alguém diz que gosta de fracturas dá-me o impulso de generosidade de lhe oferecer algumas. Deveria ser um dever social temos de ser uns para os outros e não podemos deixar de lhes fazer do que eles gostam.


Que o homem rígido seja um poço de contradições releva apenas do seu estatuto de homem. Que estas sejam particularmente fortes releva apenas do seu dilaceramento. Mas que odeie a contradicção mostra o seu horror à própria vida. Se insiste na ideia de que temos de ser flexíveis, é apenas porque tal qualidade efectivamente lhe falta.


Quais são as consequências das decisões políticas do homem rígido? É um reaccionário, que odeia a mudança, e quer manter a História num eterno presente. Isolado da sua História e do seu espaço quer fazer da política uma perpétua emigração, e transformar todos os cidadãos em exilados no seu próprio país. Agarra-se a princípios que considera eternos como a democracia, a economia de mercado e o acquis communautaire e obriga a que a vida dos outros seja destituída de real coloração. Orienta a política para uma vida meramente técnica, estatística, sem sabor. Nado-morto, odeia tanto só mortos como os vivos, querendo fazer da política acto de mera suspensão. Parasita e meramente condicional impõe uma vida condicionada aos seus concidadãos.


O homem rígido, por ter como paradigma o espantalho, espetado no campo e obrigado a escolher entre a eficácia da repulsa que provoca aos outros ou o ridículo ou indiferença que lhes suscita, vê o mundo à sua volta como um misto de repulsa, ridículo ou indiferença. É sobre esse paradigma que quer fazer política, é sobre esse solo que quer assentar o discurso público. Um discurso hirto que fala da flexibilidade sem arrependimento, uma repetição de uma mesma ladainha morna, em que da boca saem palavras como respeito por outras culturas (salvo a própria), apelos à prudência, à contenção sem disciplina nem finalidade sustentada.


O homem rígido é o revolucionário institucional ou o arauto da modernidade cantante, seja ela a do mercado, seja da amizade dos povos, da abertura de todas as fronteiras do mundo, dos altermundalismos, do capitalismo selvagem. Enquistado num mesmo discurso, sem opinião em estado identificado, seja sólida seja vaporosa, vive no que os químicos chamam de transição de fase. No caos. Um caos em que o medo o separa seja da ordem passada seja de alguma vindoura. Por isso rigidifica. Porque sendo um triste é igualmente um desesperado. Não apenas não compreende o mundo, como o assusta a simples hipótese de não o compreender.


No seu discurso a palavra liberdade junta-se a mercado, ou fronteiras, ou sexo, porque ignora que a liberdade não se junta nunca a coisa nenhuma, apenas está presente ou ausente. A liberdade banha, não se cola. Destituído da arte do banho, as suas rezas apenas mostram a sujidade do seu pensamento e da sua situação.


O homem rígido é um dos paradigmas do homem público actual. Oficiante de minarete em dias errados, lança o grito de uma mesma cantilena por todos sabida e que julga a todos apaziguar, mas que apenas visam a sua pacificação. É uma triste figura, mas a anestesia do hábito levou-nos a já não sentir repulsa por esta desgraça de vida. Quando o leitor se deparar com um destes espécimes aconselho-o a dar do que ele diz gostar: um futuro sempre igual, e uma fractura ou mais, dado que ele diz delas gostar.


Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

sexta-feira, 9 de março de 2012

Paradoxos da igualdade

Cada época tem os seus mitos e as suas contradições. Quando hoje em dia o suburbano sorri condescendentemente para problemas levados a sério pelo homem antigo ou medieval apenas demonstra a sua menoridade. Não significa espírito crítico, ao contrário do que julga, mas tão simplesmente que está integrado num mito diverso e dele é incapaz de se desligar. A condescendência, ao contrário do desprezo, só é legítima quando é acto de generosidade, o que não é o caso.


Heródoto conta num episódio célebre como os gregos se escandalizam com os corpos abandonados às aves, perante escândalo igual de mazdeístas perante corpos queimados em piras funerárias, hábito dos gregos. Os gregos cedo se habituaram a essas diferenças e, não tanto ao relativismo dos hábitos e desejos humanos (senão seriam todos convencionalistas como os sofistas), mas à sua diversidade.


O mito do suburbano é o de uma igualdade invasiva, que tudo atinge. Assim como o espaço natural de um homem do século XVII era o direito divino do soberano, espaço natural, mas não necessário, porque bem conheciam a república de Veneza, outras repúblicas italianas, cidades livres do Norte da Europa e o caso suíço, o espaço natural do suburbano europeu é o da igualdade. A igualdade é vista como natureza, como o contexto evidente de inserção do ser humano.


Mas se bem pensarmos, esta igualdade tem tudo menos de lógico e evidente.

Vejamos em primeiro lugar sob o ponto de vista lógico. A igualdade apresenta dois imensos paradoxos, um espacial, e outro temporal.


Espacialmente imagine-se a seguinte frase: a cultura americana tem igual valor em relação à europeia. Se assim for, a cultura alemã é inferior à americana, porque é apenas uma parte da cultura europeia, e a parte tem sempre menor potência que o todo. Mas aí os cultores da igualdade levantam-se e dizem: horror dos horrores, não se pode dizer que uma cultura é inferior às outras. Logo, a cultura alemã é igual à americana. Mas se assim é, a cultura bávara é inferior à alemã, porque a parte vale menos que o todo. Levanta-se de novo tumulto contra esta desigualdade, e a bávara tem de ser igual à alemã. Numa perspectiva lógica, levada às últimas consequências, esta ladainha faz com que a cultura americana tenha o mesmo valor que a cultura de um remoto bairro, ou de um casebre isolado da Saxónia.

Temporalmente tenhamos em conta o seguinte argumento: temos A e B, duas pessoas exactamente iguais sob todas as perspectivas num primeiro momento. Com o tempo, A cultiva-se, dedica-se aos outros, cresce e fica uma beleza deslumbrante, adquire todas as qualidades. B, pelo seu lado, mantém-se como era no momento primeiro. Encontram-se passados 20 anos. A aperfeiçoou-se em tudo o que era possível ao ser humano fazer, e B nada fez. Logo, se continuam iguais, apenas há que retirar uma consequência: fazer ou nada fazer para se melhorar é inútil, o aperfeiçoamento é impossível, tudo o que o ser humano faça irreleva porque faça o que fizer estará sempre postado no magma da igualdade.


Estes paradoxos apenas têm duas soluções possíveis. A primeira é matemática. O único caso em que conheço em que as partes têm a potência do todo é o do transfinito, ou em linguagem mais simples, a do infinito. Isso significa que o valor de cada ser humano, de cada cultura, de cada dado que respeita ao homem, é infinito. Se assim for, pode-se fazer tudo, porque tudo terá o mesmo valor. Qualquer hierarquia entre o melhor e o pior fica anulada, tudo tem valor infinito, desde o cantar no duche a uma cantata de Bach. A outra solução é física. Pressupõe que cada acrescento de potência num sistema leva, por contradição de forças, a anular o acréscimo ao sistema como um todo. O problema é que esta solução pressupõe definir quais são as fronteiras de cada sistema (Europa VS Estados Unidos, ou casebre da Saxónia VS Alemanha?) e carece de demonstração. Nesta perspectiva o acréscimo ao sistema anula potência às partes do sistema, o que significa, contra toda a visão empírica, que uma França sem a Itália, ou uma Inglaterra sem a França teria exactamente o mesmo valor.


Avancemos um pouco mais e vejamos que a coisa viola não só a lógica, mas igualmente o sentimento das pessoas. Sob o ponto de vista sentimental verifique o leitor se se sente exactamente igual ao seu vizinho. Se não se lhe sente superior em certas coisas ou inferior noutras e se não faz um balanço total dessa comparação que lhe é favorável ou desfavorável? Pense se os sentimentos de que é provido não tem graus e se a morte de um desconhecido de Antalya o afecta menos que a de um familiar amado.


A igualdade impõe-se como uma realidade jurídica na nossa época, mas sai das suas fronteiras quando se intromete no sentimento, na arte, na cultura, na vida profissional, na competência técnica. Sendo sobretudo jurídica, a igualdade é uma imposição, uma contrariedade imposta por coacção. É uma escolha de uma época, mas uma escolha que, com todos os seus méritos, tem uma capacidade opressiva, fomentadora de injustiça, e serve facilmente de esconderijo para ressentimentos e frustrações.


Piaget mostrou relativamente bem, usando a teoria dos grupos, que a ideia de identidade na criança surge com a ideia de reversibilidade. Porque a primeira noção é sempre a da irreversibilidade (o papel caiu no chão e não sobe de novo, o cão morre e não volta a nascer) a ideia de igualdade é sempre esforço de imaginação e consequência de uma recusa, e mesmo de revolta.


A procura de igualdades gera sempre uma compressão. Dizer que uma soma é igual a um resultado é uma fundamental conquista da matemática, mas obscurece o facto de uma coisa ser uma soma e outra ser um resultado. Serei a ultima pessoa a negar a grandeza à matemática e bem pelo contrário sou dos que mais deplora a incultura neste campo. Mas da mesma forma que não usaria pautas musicais para estabelecer uma linha de produção, por mais que goste de música e de produção, não aceitaria nunca que o que é meramente algébrico seja a visão total da realidade.


A igualdade, quando sai do seu campo, ou seja o campo da redução, da compressão e da imposição não é apenas tirânica. É mito. Uma das histórias infantis que se contam no espaço público é exactamente o da que antigamente (advérbio indefinido por excelência) não havia igualdade mas hoje em dia há. Um taxista francês afirma que é contra a reforma da lei laboral porque isso viola as conquistas da Revolução Francesa. Como se a Revolução Francesa tivesse sido muito positiva para a situação dos trabalhadores. O grave é que o homem público não apresenta um grau de diferenciação maior que o taxista francês. A igualdade é uma espécie de fada madrinha num conto infantil que lança com a sua varinha de condão encantos por sobre toda a realidade. Os cultores da igualdade são assim uns aspergidos com pós mágicos em cuja eficácia acreditam, mas que em boa lucidez bem sabemos que não lhes retira o estatuto de abóboras.


Da próxima vez que ouvir alguém dizer que todas as culturas são iguais e que todos os homens são iguais melhor perceberá o leitor que afinal está a criatura a afirmar que tem medo da morte e se sente revoltado pela mudança e pela diversidade do mundo. Não profere juízo de facto, mas impõe um diktat. Tem alma de ditador instalado, que impõe aos outros o que apenas devia estar nas leis e em algum comportamento social. Visa instalar no coração alheio os seus medos e as suas revoltas. Está falando da sua fada madrinha, o que é comovente, mas que deve deixar as mentes adultas preocupadas com tanta falta de lucidez. E apenas quer impor o império do seu ressentimento. Olhando para ele, temos de lhe dar razão. Tem boas razões para o sentir.


Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Exigência e admiração

Visconti encontrou-se um dia com Thomas Mann. Ia falar-lhe do seu projecto de encenação de “Mário e o Mágico”, peça baseada na obra do segundo. Estava nervoso, irrequieto. Depois de lhe explicar o que pretendia fazer, Thomas Mann apenas lhe respondeu: “pensei muito profundamente sobre que tipo de encenação a obra mereceria e concordo plenamente consigo. Sobretudo não deve ser expressionista”. De lívido Visconti passou a aliviado. Os seus inimigos adoram este episódio porque mostra que o orgulhoso, arrogante e aristocrático Visconti afinal também pode tremer como varas verdes. Os amigos apenas ficam perplexos com este episódio. No que me respeita, esta anedota nada tem de inesperado. A aparente arrogância de Visconti está na medida do seu imenso desejo de admirar, de admirar profundamente. Tendo-se encontrado com alguém que profundamente admirava tinha encontrado finalmente alguém que valia a pena ver. Não passou de arrogante a timorato. Foi sempre o mesmo princípio que dominou as suas atitudes. Não desperdiçava admiração com o que não o merecia.



Os romanos, povo muito mais sábio do que os ignorantes das suas obras possam alvitrar, tinham por regra retórica a admiração do inimigo. Repare-se que a natureza retórica da regra não abala em nada a sua sinceridade. Aníbal é celebrado, tanto quanto o Vercingetórix de César, os germanos de Tácito, ou António por Augusto. A lógica era simples e em boa verdade muito coerente: vencer um inimigo desprezível não tem glória nenhuma. Daí que fizesse todo o sentido enaltecer o inimigo, reconhecer-lhe as qualidades em toda a sua extensão.



Goethe, distribuidor de desprezo por excelência, admirava três homens que pouco tinham a ver com ele: Schiller, Byron e Napoleão. Esteticamente, ideologicamente, politicamente, em pouco coincidiam com a sua posição na vida. Mas Goethe fazia ponto de honra em os admirar.


Os exemplos na nossa História europeia podiam multiplicar-se até ao infinito. Grande parte da nossa História, na sua dimensão sentimental, é um cortejo de admirações, de homens que admiram, que umas vezes tremem, outras rejubilam por essa admiração. E que bem conhecem o seu contraponto, o desprezo.



Crasso, Lépido, Schindler, Catilina, entre tantos outros, com maior ou menor justiça, são exemplos de desprezados, por apenas gostarem do dinheiro, por quererem parasitar a glória alheia, por se terem atrevido pisar na sombra de grandes figuras.



Nesta matéria não há que optar pelo meio termo, entre a admiração e o desprezo, só porque o meio termo seria a virtude. Mas dá-se o caso de o admirável e o desprezível, embora em graus diversos consoante as épocas e as culturas, obedecer com frequência a uma distribuição normal, o que significa que o que é sumamente admirável é pelo menos tão raro quanto o que é baixamente desprezível. A maior parte das coisas, só pelo que elas são e não pelo facto de serem, merecem apenas a nossa indiferença, ou quando muito um mero respeito jurídico.


A verdade é que no espaço público não é esse o discurso que ouvimos. A oposição diz que o governo é desprezível. Assim sendo que mérito tem ser melhor que ele quando passa ao poder? O governo tenta demonstrar que a oposição é incompetente. Que desafio tem ele então? Os jornalistas, as empresas, mas igualmente o homem da rua, tentam demonstrar como o trabalho dos colegas é desprezível.



Esta é uma situação curiosa em que se tem razão tendo ou não. Porque ou, havendo tantos desprezadores sem razão, o simples facto de haver tantos sem razão é já de si desprezível, ou então têm razão simplesmente, mas é bem provável que o sentimento que espalham lhes seja aplicável.



Para quem queira ver exagero nesta análise basta ver o que sobra para a admiração inequívoca. Tente o leitor descobrir uma pessoa, uma instituição, que não tenha sido objecto de crítica ou desprezo. Os ridículos e os defeitos dos grandes homens de todas as épocas eram conhecidos e referidos. Os excessos de Alexandre, os desvarios de César e António, a duplicidade dos dois Frederico II (de Hohenstaufen e da Prússia), a ninfomania de Catarina a Grande, a avidez de Luís XIV. E no entanto, a sua grandeza nunca foi posta em causa.



Hoje em dia escolhem-se à pressa intocáveis, mas acabam por ser efémeros sempre. Os jornalistas, grandes heróis impolutos há uns anos, por oposição aos políticos, perderam a credibilidade. Os beneméritos, os actores das organizações não governamentais são desacreditados por várias vias. Desvio de fundos umas vezes, outras por se descobrir que são pacifistas financiados por países da Cortina de Ferro, ecologistas que se associam a partidos comunistas, os menos ecológicos de todos, extrema esquerda aparentemente generosa, mas tudo menos democrática.



Hoje em dia o vulgo compraze-se em ver o desprezível em tudo exactamente porque este quase saiu da boca do mundo. Mais uma vez, a procura de povoar o espaço público apenas de bons sentimentos gera um forte preço a pagar. Sempre que o “mau” sentimento sai da boca esconde-se no coração. Embora a linguagem oficial recuse o desprezo – sobretudo estamos proibidos, em nome do respeito por todos as culturas, de desprezar oficialmente o que mais o merece – e em parte por isso mesmo, as entrelinhas estão dele cheias.



A origem da palavra é algo polémica. Uns ligam-se a raízes indo-europeias que significam sorriso, embora seja mais certo ligá-la a palavras que significam espanto, surpresa, contemplação. Admirar significa ir algures para ver. Merece o nosso esforço ir ver. Admirar significa estar disponível para fazer um esforço. Por isso as supostas admirações turísticas que hoje em dia vemos, que se reduzem a declarações genéricas de admiração por culturas ou personagens que nunca se estudaram, nem se fez um mínimo esforço de conhecer, nada valem. São meras afirmações enfáticas, pacificadoras, auto-defensivas.



A questão é a de saber que peregrinações a nossa época está disposta a fazer. Para onde pretendem os europeus fazer um esforço para poderem ver, contemplar, espantar-se, admirar-se? Uma das vias, ainda e mais uma vez meramente turística, é a dos exotismos de pacotilha. Procuram em culturas exóticas, em religiões exóticas, a redenção. Budismos e Islão, Turquia e China. Outra via, clandestina, sorrateira, mas cada vez mais forte, é a do agastamento dos movimentos identitários. Ora nacionais, ora regionais, ora no plano europeu. Esta a força que mais intensamente cresce nos nossos anos. Exactamente porque tem o sabor da clandestinidade, do perigo, portanto, da sinceridade.



Mas em bom rigor, a nossa época oficialmente abomina a peregrinação. Dedica-se mais, como herdeira de um cristianismo liofilizado e pronto a consumir, a converter outros povos à democracia e à Europa. Os tontos mais ou menos bem intencionados, mas que postos a nu mostram a sua profunda irritação e ressabiamento, dedicam-se a converter a Turquia à Europa, ou Marrocos. Um dia o Kazakistão, ou o Uzbequistão.



Uma época que não peregrina, ou seja, não tem força suficiente da sua identidade para se fazer estrangeira a si mesma, que não faz esforço para sair de si e pôr-se em caminho para admirar é apenas uma época pouco exigente. Porque exímia a perdoar, apenas para não ser condenada, feliz em conciliar, apenas porque impotente para o confronto, transforma a vida num exercício de auto-justificação permanente. Não exige de si mesma, é provinciana, timorata. Se não admira é porque é pouco exigente, se despreza é porque se satisfaz com pouco. O desprezo, salutar exercício de juízo, passa a ser álibi rotineiro que apenas procura a absolvição.



São pouco exigentes consigo os que sabem ter pouco para dar. Tornam-se pouco exigentes com os outros porque têm medo que lhes seja pedido em troca. E se não admiram é porque apenas encontram paz pensando que os outros são tão irrelevantes quanto eles.






Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Apenas o sucesso

Cavaco Silva construiu o seu cv político explicando ao Povo que estava apenas programado para o sucesso. Do armazém de figos, para as boas notas do liceu de Faro; do curso superior em Lisboa, para o doutoramento em Inglaterra; de ministro das finanças de um Governo efémero, para Primeiro Ministro de um Governo íman de riquezas europeias. Contou-nos a sua história como se fosse a de uma escadinha em que a derrota das Presidenciais de 1995 foi o patamar para um novo lance. O Povo acreditou e deu-lhe a confiança do voto sentindo-se, assim, co-vitorioso de sucessivas eleições.
Nem tudo foi virtuoso. Fiel ao guião triunfador, em 1981 Cavaco recusou-se a participar no Governo Balsemão quando o PSD ficou órfão de Sá Carneiro; apressou a queda de Mota Pinto na difícil gestão do Bloco Central com o FMI, em 1985; falhou ao delfim, Fernando Nogueira, em 1995; e recusou-se a dar a cara num cartaz das Legislativas de 2005 depois de ter escrito sobre a boa e a má moeda, a propósito de um PM, também social-democrata. Assim conquistaria a Presidência, sem mais patamares. Já PR, calaria a anterior exigência, no tempo de Sócrates, para ganhar o segundo mandato em Belém. E afastaria o estorvo quando a crise se tornou legenda do Governo socialista, surgindo, de novo, como o salvador da Pátria. Ou de si próprio.

Os méritos académicos não encontraram correspondência na lisura dos comportamentos políticos. O casal Cavaco Silva foi somando pontos que, ligados entre si, formaram um desenho pouco edificante. A lamúria do Chefe de Estado sobre os seus parcos recursos perante um País na penúria; as declarações de Maria Cavaco Silva, numa visita oficial à Turquia prolongada, com os nossos impostos, para uma ida à Capadócia, «onde o meu marido sempre me prometeu trazer» e, agora, a fuga indecorosa de uma escola secundária para que a imagem imaculada do bem sucedido se confirmasse, fizeram cair o pano.

O Rei D. Carlos morreu a 1 de Fevereiro de 1908 porque se recusou a um carro e um percurso que o poupasse, afastando-o do Povo. Em 1986, Mário Soares foi de propósito à Marinha Grande provar que não há ruas proibidas para nenhum português e, ainda menos, para quem se candidata a representar a Chefia do Estado. Também Francisco Assis não deixou de se expor ao perigo de insultos e empurrões, numa acção política no Norte. Já não falo dos cercados do Palácio de Cristal, da Assembleia Constituinte ou do Patriarcado em 1975, resistentes ao que desse e viesse pela convicção e pela coragem. Em todos estes casos, a integridade física estava em causa. Não o incómodo de um apupo para o impecável corredor dos cem metros barreiras.

Cavaco não estava preparado para o seu próprio insucesso. E, como o pássaro a quem a raposa gabou o canto, perdeu o queijo.







(mais)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Indeterminações na ciência

Os Antigos discutiam da necessidade, com Descartes começamos a discutir da certeza. Estamos a falar de planos bem diversos. A necessidade é objectiva, está no mundo. A certeza estará no sujeito se tiver de estar algures.


Mesmo com a célebre afirmação de Laplace, de que se soubesse das condições iniciais de um sistema saber-se-ia todo o destino futuro do mesmo, o mesmo Laplace reconhecia que não podemos ter a certeza absoluta por razões cognitivas. Nunca saberíamos até ao infinito todas as condições iniciais desse sistema. E muito antes dele, Leibniz dizia que a certeza dada pela ciência era bem diferente da certeza lógica, era uma certeza moral. Não se trata de uma afirmação passageira, mas de uma insistência, de uma posição bem consciente em Leibniz.

Estes elementos mostram-nos que não é preciso ir aos cépticos da Antiguidade para descobrimos indeterminações na ciência. Mesmo nos grandes cultores do, chamemos-lhe assim à falta de melhor, dogmatismo científico, os limites deste dogmatismo eram bem conhecidos.


Se bem virmos na base de todas estas considerações está a consciência de um facto muito simples: o homem não é divino (pelo menos exclusivamente divino), é por isso destituído de uma ciência perfeita ou sequer infusa.


Curioso o facto de os maiores triunfalistas da ciência, certos positivistas, serem hoje todos vistos como modernos politicamente. Destronaram a religião, desprezaram os antigos, aspiraram ao laicismo, deram um pontapé na metafísica. Politicamente estão mais próximos dos que hoje em dia atacam a certeza na ciência. O que só mostra que é de uma revolta edipiana que se trata. Quando os relativistas da ciência (com nomes para todos os gostos) atacam o dogmatismo, é do dogmatismo dos seus pais espirituais e políticos e não dos cientistas cristãos (ou religiosos em geral) que tratam. O seu alvo é Berthelot e não Planck, Comte e não Heisenberg. É de uma luta de família que se trata, de uma despudorada luta contra os próprios pais. Nunca um cientista cristão diria que o homem poderia ter certezas de tudo e, por maioria de razão, nunca disse que a ciência tudo resolveria de forma certa.


Os triunfalistas da ciência em bom rigor nunca foram cientistas, nem em geral bons filósofos. Foram bons sociólogos (Comte) ou geniais lógicos (o neopositivismo lógico vienense). Mas de entre eles não se encontra um grande físico, poucos matemáticos, apenas muitos químicos e biólogos. Uma doença de ciências em nascimento e com vontade de autonomia, uma crise de crescimento em suma.


A questão coloca-se hoje em dia porque surgem como grande novidade movimentos que salientam que tudo pode ser ciência, que os rituais da ciência são arbitrários, nada mais válidos que os de quaisquer tribos.


Vejamos. Que a ciência é feita por homens ninguém nega. Daí que tenha as falhas dos homens e das obras humanas. Daí que obedeça a uma História, e seja historicamente compreensível. Daí que igualmente, e na medida em que foi sobretudo criação individual, muito da sua produção não se possa explicar historicamente em exclusivo. Sem a riqueza e a prosperidade da Europa do século XVII, sem os seus meios de comunicação e correspondência, não se pode compreender a criação do cálculo infinitesimal. Mas não há teoria histórica que explique como é um jurista como Leibniz a criá-la. Nem pode estabelecer determinações entre os seus teoremas fundamentais e os seus algoritmos e a sociedade da época. Há sempre relações, mas nunca vínculos absolutos.


Que uma ciência esteja culturalmente determinada é evidente. Não se compreende a matemática europeia sem o cristianismo, o seu pensamento do infinito por exemplo. Nem a física sem se compreender a polémica das forças vivas. Leibniz chega à equação da força com argumentos teológicos, e de teodiceia, os mesmos que Voltaire, que nunca deu um só contributo para a física, tanto ridicularizou. Ainda hoje em dia na física as teológicas metodologias de Mauperthuis (óptimo, menor esforço, etc.) são usadas na física. O conceito de prova está marcado pela ideia de experimento crucial ou seja, o experimentum crucis, a prova por excelência, a prova da cruz. Não fazemos ciência como os indianos ou os chineses.


Curioso é que os mesmos que insistem na determinação cultural da ciência são precisamente os mesmos que contestam o papel do cristianismo na definição da Europa. O alimento da ciência é sempre em última análise espiritual e é reconhecido pelos maiores cientistas que existe uma ética científica, independentemente de se aceitar ou não uma ética social do cientista.


Mas uma coisa são as fontes, outra os resultados. Nos seus resultados, a ciência chega a resultados que são válidos independentemente da cultura em que se está. Quem quiser construir um avião na China tem de usar a mesma física que se usa na Europa e que esta criou. A demonstração de um teorema na Turquia tem de ser feita da mesma maneira que se faz na Europa. Isto não é tão evidente quanto possa parecer. É que em todo o mundo se reconhece que essa ciência é melhor. Não que as outras sejam todas lixo, ou mesmo que não tenham alguns aspectos que possam ser aproveitados. A medicina tradicional chinesa e indiana traz aspectos importantes para a medicina ocidental. Mas a avaliar pelos resultados, também os chineses e indianos melhoraram a sua longevidade, não com as suas medicinas tradicionais, mas com a europeia.


Uma árvore conhece-se pelos seus frutos, diz a Bíblia. E parece que o mundo inteiro aceita este refrão. Porque quando os persas ou turcos dizem que precisam de medicamentos não se estão a referir a medicamentos da sua medicina tradicional. Nem voam em aviões baseados nas suas ciências.


Por isso, a quem insiste na total indeterminação da ciência, na sua relatividade cultural, e que afirma que o método científico é apenas um rito como qualquer outro aconselho-o a andar num avião baseado em ciência turca, a tomar medicamentos contra o cancro da medicina chinesa e a, caso lhe rebente em casa um esquentador, receber uma resposta da companhia de gás no sentido em que a ciência é arbitrária e por isso não lhe é devida nenhuma indemnização.

Curioso igualmente que quem opine neste sentido em geral seja totalmente destituído de conhecimentos matemáticos ou físicos. Porque se alguma coisa soubesse destas ciências (porque também o são, e não apenas as antropologias e as teorias da literatura, por mais lhes espante esse facto - que não são paradigmas para a restante ciência aliás), saberia que há formulações, resoluções e colocações de problemas que estão... erradas. Erradas mesmo, sem apelo nem agravo.


Em última análise temo bem que habituados ao erro, comprazendo-se nele, apenas o queiram legitimar sobre a capa da indeterminação. Acusadores e julgadores ao mesmo tempo, impositores de regras processuais que eles mesmo criaram, pretendem-se os únicos sacerdotes da grande deusa da Indeterminação, perante a qual todos os outros deuses seriam falsos. Legitimando o erro legitimam-se em suma. O trabalho medíocre confina sempre na autobiografia.


Alexandre Brandão da Veiga




(mais)