segunda-feira, 7 de maio de 2012

Os tecnoideólogos


Na França de meados do século XIX nasce uma figura de homem nova na História, pelo menos com essa consciência. Cansados de lutas ideológicas extremistas, compreendendo a necessidade de utilizar os instrumentos da ciência, da técnica e da economia capitalista, mas compreendendo igualmente que todas elas se têm de compreender de acordo com uma função social, nasce o tecnocrata. O tecnocrata nasce no II Império por influência do Saint-simonismo, segundo se afirma. Mas em boa verdade tanto o saint-simonismo como o movimento tecnocrático têm a mesma base: o cansaço de lutas ideológicas.




O tecnocrata é o homem que suspende a realidade, ou uma boa parte dela. Concentra-se numa especialidade e a ela se dedica em exclusivo. Não elabora teorias sobre Deus, o amor, a vida em geral, porque entende que nada pode dizer sobre elas. Não discute sequer a utilidade das questões. Suspende-as pura e simplesmente. Tem muito que fazer.



A Grã-Bretanha do século XIX criou outro tipo de homem, o utilitário. Comerciante, engenheiro ou mesmo sacerdote vê apenas a realidade na perspectiva do que é útil. Mesmo quando frequenta regularmente a igreja fá-lo porque a considera uma instituição socialmente útil. A marca deste tipo de homem atravessa toda a sociedade. Somerset Maugham, ao falar dos ingleses dos anos 1920 e 1930 dizia que mais facilmente acabavam por falar de sexo que de alma, palavrão supremo, que cobriria de ridículo e vergonha quem usasse tal palavra. O utilitário não suspende, suprime.



A Alemanha cria ainda outra figura, o tecnólogo. Este surge do cruzamento de três movimentos. A forte ligação à ciência, uma concepção de cultura como apolítica, e simultaneamente, paradoxo meramente aparente, uma fidelidade ao projecto de poder do Reich. Não faz política porque para ele fazer política é entrar em discussão. É participante activo da política do II Reich, mas não se considera ele fautor dessa política, mas apenas seu executante. Mais apto a falar de cultura que os anteriores, menos pudico quanto aos grandes temas filosóficos, cala-se no entanto mais na sociedade.



Um suspende, um suprime, outro ainda cala-se. Cada um deles tem os seus momentos de glória e não se pode estar demasiado grato ao que de extraordinário fizeram para o nosso conforto e para a nossa civilização material. Se saliento este tributo que temos de fazer a estes tipos humanos, faço-o com plena consciência. É que é demasiado comum serem degradados, desrespeitados, quando em boa verdade a eles muito devemos. Mas todos eles são executantes de ideias, e não seus criadores, mais uma vez meros usufrutuários de uma cultura e não homens que a renovem.



O problema é que hoje em dia assistimos ao império de um novo tipo de homem, resultado da mestiçagem entre os três: o tecnoideólogo. O tecnoideólogo suspende todos os temas que sejam do âmbito da vida pessoal, da vida em geral. Suprime toda a noção de transcendente e cala tudo o que possa pôr em causa a sua visão do mundo.



Este espécime humano, encontramo-lo hoje em dia entre os chefes das empresas, mas igualmente entre a administração pública. A figura híbrida, teratológica, surgiu, não por culpa sua, mas para preencher um vazio. A natureza tem horror ao vazio. E perante políticos, jornalistas, e um público em geral que se mostra incapaz de enunciar e executar novas ideias políticas, este espaço foi tomado por ele. É ele que sofre a pressão para resolver problemas. Já não tem Napoleão II nem Thiers, nem Bismarck nem Disraeli que lhe dêem o enquadramento político geral.



O tecnoideólogo faz o papel dos bispos durante as invasões bárbaras. A maioria das pessoas esquece que grande parte do poder temporal dos bispos lhes veio das populações. Foram as populações que lhes entregaram o poder temporal porque os principados estavam impotentes. Da mesma forma, os políticos, e em geral os homens públicos, desistiram nos últimos anos de fazer política. O principal problema político da Europa, e em parte do mundo, é a unificação europeia. Da solução que se der a este problema dependem todos os equilíbrios mundiais.



Mas as populações escolheram políticos que suspendem a questão da unificação, suprimem a discussão sobre a entrada da Turquia, e calam sobre as imposições americanas à Europa. Apagada a discussão, convenhamos que já postiça e rotineira entre os blocos ocidental e de Leste, ficaram, em grande parte dos casos, perdidos de referência. A questão europeia é tratada como anedótica, meramente lateral. Porque o tecnoideólogo é incapaz de lidar com grandes realidades.



O tecnoideólogo herdou dos seus antepassados o horror à política como consagração de ideias e valores. O seu pensamento assenta em manuais. Os seus livros de orações são documentos internacionais, hoje em dia de preferência em inglês. Está permanentemente ocupado, ou gosta de se ver assim pelo menos.



Se os bispos tiveram antes de ocupar o poder temporal, tendo sido a religião expulsa do espaço público, e a ideologia varrida da exposição geral, cabe-lhe a ele substituir esse espaço. A culpa não é dele, saliento mais uma vez, mas do vazio deixado pelas populações, políticos e jornalistas. Sem ninguém que o oriente, actua por inércia de movimento. Consulta os textos e age em função deles.



Tem fé no Direito. Acha por isso que a Europa é a democracia, os direitos do homem, a economia de mercado. Com uma total incultura simbólica, acha que o mundo assenta em andares superiores, sem procurar saber de que são feitos os solos em que realmente assenta o edifício. As soluções para a sua vida, encontra-as nos tratados europeus, os nas constituições ou nas declarações universais dos direitos do homem.



Tem fé, não na ciência, que desconhece, não na técnica, de que foi ensinado a desconfiar, não no ambiente, que foi apenas obrigado a valorizar, mas no mecanismo. Desde que encontre um mecanismo sente-se em casa. O mercado, a comunicação social, o sistema burocrático. O “paper”, o documento internacional é a sua máxima expansão.



O problema dos híbridos, no entanto, é que se definem por oposição aos seus antepassados. Nascido de um vazio de poder, apresenta uma face de negação. Já não suspende o juízo porque julga que fala de toda a realidade. Não suprime, mas acrescenta à realidade. Impõe o que a realidade deve ser na sua visão. A Europa é a democracia e a economia de mercado, um “espaço de comunicação de culturas” (seja lá o que for que isso queira dizer). E não se cala, cala os outros. Porque se considera, não neutro em relação aos valores, mas o detentor dos valores essenciais.



Quando está na administração pública tem vergonha de ter poder, exerce-o não com parcimónia, mas com um eterno pedido de desculpas. E tem razão. Tem de pedir desculpa de alguma, de muita coisa. Quando está nas empresas é obcecado com o Estado. Exige o seu apagamento, oficialmente, mas a sua colaboração, nos corredores. Diz que o Estado o atrapalha, nos jornais, mas não vive sem o seu empurrão, nos gabinetes.



Vazia a política, vazia a religião no espaço público, fenecidas as ideologias sistemáticas, o tecnoideólogo pode passar a ser novo sacerdote de uma religião que o instituiu, a do vazio. Odeia a soberania popular, a democracia, e quer passá-la pelo seu crivo. Quando por exemplo Chipre recusou a parte turca por decisão soberana popular, tanto a comissão europeia como o governo britânico (tão próximos que andam nos últimos anos na sua ideologia) afirmaram que a parte grega da ilha ensombrou a sua adesão. Nem admitem que haja referendo, decisão popular sobre a adesão da Turquia, porque são detentores da verdade.



O tecnoideólogo é assim o sucessor do inquisidor. Não foi escolhido pela vontade popular, sente-se imune a ela e mais iluminado que a soberania. Considera que a vida é mera execução e não novação, porque esse é o seu modo de viver. Determina o bem e o mal nominando-os com terminologias pseudo-técnicas. Tendo nascido de um vazio, não pode admitir que existe esse vazio que o legitima. Inculto de simbólica, nega o valor dos símbolos. De recente extracção, é mais um inimigo da História. Sorri perante o futuro e perante as hipóteses tontas, como a adesão da Turquia ou uma Europa como mera zona de encontro de culturas. Porque não sabe destrinçar um aeroporto de um centro cultural, um lupanar da sua casa. Mas tem realmente razões para sorrir? Fora mero tecnocrata, utilitarista ou tecnólogo, estaria servindo o soberano, faria bem o seu papel. Não o sendo, fazendo da vida mera execução, sem soberania, apenas resvala para o futuro, sorrindo, é certo, lançando olhares de censura, também, até se estatelar contra o que o futuro lhe trouxer. Só não é profeta da desgraça porque não é profeta. E nele a desgraça é sempre presente.



Alexandre Brandão da Veiga































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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Edgar Morin e os turcos

Um amigo meu brasileiro colocou-me um desafio. Disse-me que Edgar Morin tinha recentemente afirmado que a Turquia era um grande país europeu porque havia dominado parte da Europa e participado na História europeia.

Não sei se o senhor disse tal despautério e não o quero difamar. Não me interessa a autoria, mas o conteúdo da informação, que é tão corrente entre semi-providos. E, quanto ao conteúdo, apenas prova a inépcia lógica de quem profere, salvo se tais afirmações só se deverem a desonestidade intelectual.

Existem duas demonstrações da falsidade desde argumento. A primeira pela via positiva, e segunda pelo absurdo.

Pela positiva já demonstrei desenvolvidamente alhures que a Europa é a fusão de quatro camadas, os substratos autóctones da Europa, o paganismo indo-europeu, o cristianismo e o mito da queda do império romano. Não repito aqui a demonstração. Apenas lembro que os quatro requisitos são cumulativos. Um país a que falte um deles não é Europa. Ora à Turquia não faltam um, nem dois, nem três requisitos: faltam todos. Não se aproxima sequer da possibilidade de ser cultura próxima da europeia.

Sob o ponto de vista positivo igualmente, não vale o argumento da europeização da cultura. Todo o mundo está europeizado de uma forma ou de outra. Todos os que usam carros, aviões, electricidade estão europeizados. E aprende-se mais cultura europeia no Líbano (ou em tempos no Egipto) que na Turquia. A Turquia tem ciclos históricos muito semelhantes aos da Ásia Central, às restantes áreas turcófonas, tendo sofrido de um triplo movimento de laicização, turquificação e islamização. Tal como o Arzebeijão, o Cazaquistão, ou o Turquemenistão.

Não perco mais tempo com a demonstração positiva. A mais divertida é a demonstração por absurdo. Apesar de tudo continuo a entender que a lógica tem um papel no discurso humano e, parafraseando Poincaré, quem conteste na íntegra a razão e a linguagem humana, apenas se pode reduzir a balbuciar e a emitir gritinhos.

Vejamos pois uma dupla demonstração pelo absurdo.

Em primeiro lugar outras culturas dominaram o espaço europeu em parte.
a) A Pérsia dominou muito antes dos turcos uma parte do espaço grego. De onde as moreias deste mundo deduzirão que a Pérsia é a uma grande cultura europeia, ainda mais antigamente europeia que a Turquia.
b) Os árabes dominaram a Península Ibérica, parte da Itália do Sul e uma franja da França meridional bem como a Sicília, muito antes dos turcos. E no que respeita à Península Ibérica por muito mais tempo que turcos estiveram nos Balcãs. De onde se retiraria que a cultura árabe é uma cultura europeia bem mais antiga a permanente que a turca.
c) Os tártaros dominaram toda a Europa Oriental e boa parte da Europa Central. Domínio bem mais vasto na Europa que o dos turcos. De onde decorre que a cultura tártara é uma cultura europeia bem mais vasta que a turca.

Eis a primeira demonstração por absurdo. Vamos pois à sua inversa, à sua segunda versão.

Portugal dominou durante três séculos o que veio a ser metade da América Latina, o Brasil. Não apenas dominou. Mais: criou. De tal forma a que ainda se fala lá a sua língua e ainda lá permanecem muitos dos seus monumentos e instituições, ao contrário do que se passou com os turcos na Europa.

De onde resulta que Portugal é uma grande cultura latino-americana. O mesmo se diria da Espanha.

O mesmo se diga de África. Durante um século Portugal dominou quase em exclusivo todas as costas da África, mais do que alguma vez algum país africano fez, o que mostra que é mais africano que os países africanos. E durante meio milénio dominou um território que veio a representar cerca de dois milhões de quilómetros quadrados. Bem mais que o espaço turco na Europa. E mais uma vez deixou a sua língua, a sua religião, a sua cultura. Coisa que os turcos não fizeram. De onde se tem de retirar que Portugal é uma grande cultura africana.

Não sei se o agradável senhor proferiu esta frase ou semelhante. E espero bem não o estar a difamar, porque sempre tive a esperança de que tivesse sentido lógico. Por isso preferi não acreditar que o tenha dito. Mas a quem quiser usar de tal lógica, que se lembre então que Roma é uma grande cultura asiática, a Grécia clássica em Marselha uma grande cultura gaulesa, e quem diz coisa tão fora do mundo, um grande cultor de extraterrestres idiotices.

Alexandre Brandão da Veiga


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terça-feira, 10 de abril de 2012

O melhor e o pior

Ser como se é pode ser quando muito uma fatalidade mas não um destino. E é melhor ser melhor que pior. Duas verdades que deveriam ser evidentes, sem as quais nenhum juízo é possível, em suma, nenhuma consciência.


E no entanto, vivemos numa época em que são contestados como poucas vezes foram.


Poucas vezes digo eu, porque nada pior que dar precedências ou exclusividades aristocráticas a épocas sobretudo se apenas primam pela mediocridade. No Baixo Império romano a deusa Fortuna, ou, no lado oriental do império, a deusa Tychè (mudem-lhe o nome, mas é sempre a mesma), imperava. Não que o homem tenha deixado de acreditar nos deuses, bem pelo contrário, nunca tantos deuses floresceram, mas feitos à medida. Não que o sentido da transcendência se tivesse perdido, bem pelo contrário, a tendência monopolista dos deuses únicos começava a surgir (Ísis, Mitra, Serápis). Mas a própria multiplicidade de soluções tinha levado os homens a desacreditar na capacidade divina para regular o mundo.


Daí que a deusa Fortuna, ou seja, uma deusa demissionária, arbitrária, caprichosa tivesse de ser incensada como a grande regedora e provedora do mundo.


Na nossa época, afirmar que alguém tem de ser diferente do que é pode ser legítimo, mas apenas nos casos em que se destaca pela excelência, pela acutilância ou pela intervenção. O colectivo é sempre irrepreensível. Todos os defeitos que são inadmissíveis no ser individual passam a ser mais que permitidos, nobres, no colectivo. Degolar animais é acto de crueldade, mas se decorre de tradição étnica é maravilhosa forma de integração no mundo, acto religioso, e portanto, a respeitar. O colectivo é o que é e isso justifica-o.


Mas o individual, se lhe falta individualidade, e precisamente por lhe faltar, por apenas reproduzir o que o colectivo lhe impõe, ou mesmo que use o colectivo como mero pretexto, passa a ser incensado. Matar uma mulher depois de a violar é abominável mas se for um turco a fazê-lo em crime de honra já temos de ter em conta a situação complexiva, palavra que mais não significa que não nos comprometemos com a sua condenação.


O uso de particípios passivos é aliás significativo na nossa época. As classes são desfavorecidas. As sociedades não menos desenvolvidas. As pessoas foram oprimidas. O agente da passiva pode ficar anónimo, mas a construção gramatical é suficientemente explicativa. Ninguém faz nada. Poucos são responsáveis. Preguiçosos inexistem, criminosos quase desapareceram.


A outra desculpa usada é a da evolução. Os medíocres não são avaliados pelos seus resultados finais, mas o simples processo já se torna justificante. Se um país viola os direitos humanos, temos sempre de ter em conta os esforços que fazem para melhorar a sua situação.


Finalmente, o contexto, a perspectiva “holística”, boa desculpa para não se cuidar do pormenor, sem o que a integração do todo é apenas turística. Se o médico erra grosseiramente temos de ter em conta o contexto, a pressão a que está sujeito, e poucos se perguntam sobre se é ele totalmente desadequado para as suas funções. Se a criança é mesmo burrinha (existem, não é um mito), todo o contexto é fraca desculpa para o seu insucesso escolar.


O colectivo, o passivo, a evolução e o todo. Palavras com nobre ascendência, mas de prostituída utilização. Lugares comuns de uma época sem indivíduos, de uma paisagem deserta de agentes, sem estado definido e sem cuidado com o pormenor.


Usa-se hoje nos meios económicos a expressão benchmark, que em bom português se poderia traduzir por bitola, estalão, paradigma. Tudo depende do que escolhemos para paradigma. Se escolhemos o colectivo, o passivo, a evolução e o todo, florescem as desculpas, as justificações, os méritos relativos. E fenece a grandeza. Se curamos da transcendência, ou seja, se usamos como ponto de comparação a dita transcendência, destacamos melhor os defeitos, as insuficiências, as mediocridades.


Mas a nossa época nada quer saber da transcendência. Julgando-se inteligente, obsessão típica de que não o é, ri-se das anteriores que usavam o maior dos estalões, aquele que não admite maior, e congratula-se de tão escassos objectivos, e consequentemente de tão bons resultados em relação a eles. É evidente que se as minhas ambições são curtas as realizações são relativamente exuberantes.


Relembremos o nosso ponto de partida. Ser como se é... Não nos espantemos que vivamos a mais fatalista das épocas, que sob o nome de caos e de complexidade alberga a sua demissão de ser agente de um destino. Os nossos antepassados, para distinguirem a Europa da Turquia, falavam do fatum mahometanum, do fatalismo islâmico. Mesmo que a análise fosse simplista, sabiam distinguir na Europa como elemento distintivo um elemento agente. De Prometeu que rouba os deuses, de Ulisses que volta a casa (agir é sempre voltar a casa e não ficar parado no caminho), do Cristo que actua na História.


Age quem sabe que não está bem, ou, melhor ainda, que poderia estar melhor. Que não lhe basta. A rainha Cristina da Suécia, quando abandonou a sua coroa disse: “Non mi bisogna e non mi basta”. Não me é preciso e não me basta. Agir profundamente, segundo os paradigmas do absoluto, implica abdicar de algo importante. De uma ilha perfeita, de uma calma reencontrada, mesmo de uma coroa. Quem está satisfeito consigo mesmo, em boa verdade por medo da instabilidade das coisas, não age, é mero passivo, fala do todo, mas incensa à deusa Fortuna. Em vez de encontrar na imprevisibilidade uma oferenda (os gregos sabiam que a maldição de Cassandra era ter sido destituída da imprevisibilidade) nela vêem só um ataque às suas posses.

Voltemos ao ponto de partida. É melhor ser melhor... é quase ridículo lembrá-lo. Mas quando se diz que os critérios da Antónia ou da tia Micas têm exactamente o mesmo valor que os de Goethe, ou de Beethoven, e que não há diferença nenhuma entre o tam-tam, o corridinho, ou Bach, tudo é legítimo, como se mesmo que o fosse, a legitimidade fosse critério de excelência, algo vai profundamente mal na consciência europeia.


Porque entramos finalmente no âmago da questão. A consciência começa por ser a consciência do bem e do mal. A árvore do conhecimento é a árvore do bem e do mal. Este arquétipo é tão arreigado, tão arcaico, e tão presente em nós, que ainda hoje em dia dizemos que uma coisa é boa, uma tese o é, tanto quanto poderíamos dizer que uma pessoa é boa. Não há consciência sem noção de bem ou de mal. Como estas se preenchem, é questão que deixo para outras aventuras. O essencial é reter o que seja a raiz da consciência.


Mas não há só dicotomia na consciência. Há hierarquia, por isso se criou o conceito de melhor e o de pior em consequência. A capacidade de reversão é o primeiro sinal de racionalidade. Se pode subir, posso descer. Se posso ver o melhor, posso ver o pior.


Que campanha é esta que diz que não há o melhor e o pior, que diz que não há bem nem mal? Que em suma diz que ser como se é constitui por si mesmo um destino? É uma campanha que visa destruir a consciência, portanto, visa adormecer, entorpecer, parasitar a consciência europeia. É mais fácil dominar pessoas inconscientes que conscientes. E sob a bandeira das liberdades, da abertura, do relativismo, do multiculturalismo, vai obrigando a consciência a aceitar como seu espaço natural tudo o que a invada, que a domine, que a parasite. A deusa Fortuna impera, tudo é válido portanto. Nada há que seja melhor, salvo... salvo a invasão, o parasita e talvez um dia, o torpor absoluto dessa consciência. E eis que a civilização que construiu a consciência e que nela assentou fica entregue às mãos dos selvagens. Uns são primeiros-ministros, outros apenas turcos.


Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 26 de março de 2012

O homem rígido

“Temos de ser flexíveis”. Quantas vezes já ouvimos nós esta frase? Mas ao mesmo tempo vemos pessoas que nunca se arrependem de nada. Vejamos que espécie zoológica é esta que invade o espaço público.


Quem está permanentemente a lembrar que temos de ser flexíveis está a confessar que não o é. A repetição em ladainha de tal imperativo ético apenas enuncia uma lacuna e não uma realização. Ao mesmo tempo, lembro-me de ser criança e de se considerar na altura que das maiores virtudes de que um ser humano se poderia orgulhar era a de ter coluna vertebral. A posição erecta era considerada atributo maior de um ser humano digno desse nome. Hoje em dia a erecção tende a ser apenas diversão assistida terapeuticamente.


Pessoas que de nada se arrependem são pessoas que pressupõem um ser humano rígido, que não é capaz de arrepiar caminho, de mudar.


Que imagem do ser humano existe hoje em dia, por contraste com a nossa tradição europeia? A nossa tradição é de se ter coluna, de se manter por si mesmo uma posição erecta. Mas, sendo o caso, a de poderemos mudar de caminho, modificar-nos. Falamos de um homem sólido mas plástico e, quando necessário, elástico. Uma imagem de ser humano a que a linguagem se adaptava.


Hoje em dia, pelo contrário, a imagem do ser humano que a linguagem carreia é a de um ser sem coluna e por isso impotente de erecção: é flexível. De uma criatura de centro rígido, que nada faz mudar. Elástico como uma bola de pingue-pongue. Para quem estudou algo de topologia é uma figura interessante, mas muito mais uniforme matemática e biologicamente que o ser humano comum. A figura mais próxima que se encontra é a da roda de um carro. Actuando sempre em plano baixo, rasteira, monofuncional.

A frase que melhor o caracteriza é a “eu não me arrependo de nada”. Nada mostra melhor a sua incapacidade de adaptação à mudança. O seu paradigma é o da antena parabólica, aberta, mas mero veículo de comunicação e em suma instalada no solo. Aberto às flutuações no ar é em boa verdade fechado a uma interioridade que não possui e que teme mais que tudo.

O homem rígido detesta a teoria. Quem lhe conhece a etimologia sabe que é cognata à ideia de visão. Ao dizer-se prático apenas está a dizer que detesta quem vê. O seu mundo ideal é o da miopia ou mesmo da cegueira, que não o contesta.


O homem rígido diz que detesta julgar mas fá-lo. A sua frase “quem sou eu para julgar alguém?” releva de um cristianismo mal digerido, em que, mais que mostrar generosidade ou probas intenções, revela o desejo de que ninguém seja julgado, para que ele não o seja. É ditatorial. No fundo não se abstém, mas quer proibir a competência alheia para julgar.


Detesta a História mas usa-a de forma manipulada. A História é a condenação ao movimento, à mudança. O homem rígido detesta a mudança. Julga-se instalado num mundo sem tempo, feito de verdades eternas. A democracia, os direitos do homem, a igualdade entre homens e mulheres, a prosperidade, tudo lhe parecem dados que nada poderá mudar. Daí que ouçamos altos responsáveis europeus afirmar que a União Europeia é uma construção anti-histórica porque a História é guerra. Triplo disparate: nada está isento de História, se a União Europeia é possível é graças à História e a guerra não é realidade finda no mundo. O homem rígido vive de mitos. Antigamente (advérbio sempre mal definido) existia um mundo que ele caricatura como sendo autoritário, desigual, torpe, e finalmente somos hoje em dia esclarecidos, humanos, livres. Mito feito para mentes infantilizadas que acreditam piamente em contos de fadas. O homem rígido diz amar o futuro, estar virado para a novidade, mas apenas se estes forem mera reprodução do que já existe. O futuro é adorável, não por ser futuro, mas porque nada muda. A democracia é eterna, a economia de mercado perene, o acquis communautaire, a Tradição em crescimento.


O homem rígido detesta a História porque detesta os mortos. Acautele-se o leitor, porque o sorriso benevolente que lhe lança acaba de vez caso morra. Vira a cara e passa o sorriso para outro. Tendo horror à mortalidade, odeia o que mais inere a todo o homem: morrer. Odeia o ser humano. O seu amor à humanidade é apenas uma forma de parêntesis, uma condição suspensiva. Apenas dura até se instalar o desprezo definitivo e irrevogável pelos mortos. Apenas conhece uma forma de amor condicional, porque a mais não foi habituado.

Detesta os mortos porque detesta os vivos. Quer forçar a existência a ser um eterno presente, que é o único que sabe permitir a sua existência. Depois sabe que será apagado. Sabe que será morto, apenas morto, e não lembrado. Detesta os mortos e os vivos porque se sabe condenado e merecedor de esquecimento.


Odeia a complexidade e ao que está fora dos lugares comuns. O Islão é rico (onde o aprendeu?), todas as culturas são iguais (é natural, desconhece-as por igual), só a paz gera cultura (logo, a Grécia foi terreno de medíocres e os bosquímanes são génios naturais), etc. Odeia a oposição e a destrinça. Cultiva a igualdade como forma de justificação, porque só pode ser belo na neblina. O tempo fosco convém-lhe porque nada se distinguir.


O homem rígido diz amar as fracturas. Toma este conceito por inovação, renovação. Mas é curioso que use um conceito que apenas se aplica a corpos rígidos. A sua linguagem trai-o. Fracturas... quando alguém diz que gosta de fracturas dá-me o impulso de generosidade de lhe oferecer algumas. Deveria ser um dever social temos de ser uns para os outros e não podemos deixar de lhes fazer do que eles gostam.


Que o homem rígido seja um poço de contradições releva apenas do seu estatuto de homem. Que estas sejam particularmente fortes releva apenas do seu dilaceramento. Mas que odeie a contradicção mostra o seu horror à própria vida. Se insiste na ideia de que temos de ser flexíveis, é apenas porque tal qualidade efectivamente lhe falta.


Quais são as consequências das decisões políticas do homem rígido? É um reaccionário, que odeia a mudança, e quer manter a História num eterno presente. Isolado da sua História e do seu espaço quer fazer da política uma perpétua emigração, e transformar todos os cidadãos em exilados no seu próprio país. Agarra-se a princípios que considera eternos como a democracia, a economia de mercado e o acquis communautaire e obriga a que a vida dos outros seja destituída de real coloração. Orienta a política para uma vida meramente técnica, estatística, sem sabor. Nado-morto, odeia tanto só mortos como os vivos, querendo fazer da política acto de mera suspensão. Parasita e meramente condicional impõe uma vida condicionada aos seus concidadãos.


O homem rígido, por ter como paradigma o espantalho, espetado no campo e obrigado a escolher entre a eficácia da repulsa que provoca aos outros ou o ridículo ou indiferença que lhes suscita, vê o mundo à sua volta como um misto de repulsa, ridículo ou indiferença. É sobre esse paradigma que quer fazer política, é sobre esse solo que quer assentar o discurso público. Um discurso hirto que fala da flexibilidade sem arrependimento, uma repetição de uma mesma ladainha morna, em que da boca saem palavras como respeito por outras culturas (salvo a própria), apelos à prudência, à contenção sem disciplina nem finalidade sustentada.


O homem rígido é o revolucionário institucional ou o arauto da modernidade cantante, seja ela a do mercado, seja da amizade dos povos, da abertura de todas as fronteiras do mundo, dos altermundalismos, do capitalismo selvagem. Enquistado num mesmo discurso, sem opinião em estado identificado, seja sólida seja vaporosa, vive no que os químicos chamam de transição de fase. No caos. Um caos em que o medo o separa seja da ordem passada seja de alguma vindoura. Por isso rigidifica. Porque sendo um triste é igualmente um desesperado. Não apenas não compreende o mundo, como o assusta a simples hipótese de não o compreender.


No seu discurso a palavra liberdade junta-se a mercado, ou fronteiras, ou sexo, porque ignora que a liberdade não se junta nunca a coisa nenhuma, apenas está presente ou ausente. A liberdade banha, não se cola. Destituído da arte do banho, as suas rezas apenas mostram a sujidade do seu pensamento e da sua situação.


O homem rígido é um dos paradigmas do homem público actual. Oficiante de minarete em dias errados, lança o grito de uma mesma cantilena por todos sabida e que julga a todos apaziguar, mas que apenas visam a sua pacificação. É uma triste figura, mas a anestesia do hábito levou-nos a já não sentir repulsa por esta desgraça de vida. Quando o leitor se deparar com um destes espécimes aconselho-o a dar do que ele diz gostar: um futuro sempre igual, e uma fractura ou mais, dado que ele diz delas gostar.


Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 9 de março de 2012

Paradoxos da igualdade

Cada época tem os seus mitos e as suas contradições. Quando hoje em dia o suburbano sorri condescendentemente para problemas levados a sério pelo homem antigo ou medieval apenas demonstra a sua menoridade. Não significa espírito crítico, ao contrário do que julga, mas tão simplesmente que está integrado num mito diverso e dele é incapaz de se desligar. A condescendência, ao contrário do desprezo, só é legítima quando é acto de generosidade, o que não é o caso.


Heródoto conta num episódio célebre como os gregos se escandalizam com os corpos abandonados às aves, perante escândalo igual de mazdeístas perante corpos queimados em piras funerárias, hábito dos gregos. Os gregos cedo se habituaram a essas diferenças e, não tanto ao relativismo dos hábitos e desejos humanos (senão seriam todos convencionalistas como os sofistas), mas à sua diversidade.


O mito do suburbano é o de uma igualdade invasiva, que tudo atinge. Assim como o espaço natural de um homem do século XVII era o direito divino do soberano, espaço natural, mas não necessário, porque bem conheciam a república de Veneza, outras repúblicas italianas, cidades livres do Norte da Europa e o caso suíço, o espaço natural do suburbano europeu é o da igualdade. A igualdade é vista como natureza, como o contexto evidente de inserção do ser humano.


Mas se bem pensarmos, esta igualdade tem tudo menos de lógico e evidente.

Vejamos em primeiro lugar sob o ponto de vista lógico. A igualdade apresenta dois imensos paradoxos, um espacial, e outro temporal.


Espacialmente imagine-se a seguinte frase: a cultura americana tem igual valor em relação à europeia. Se assim for, a cultura alemã é inferior à americana, porque é apenas uma parte da cultura europeia, e a parte tem sempre menor potência que o todo. Mas aí os cultores da igualdade levantam-se e dizem: horror dos horrores, não se pode dizer que uma cultura é inferior às outras. Logo, a cultura alemã é igual à americana. Mas se assim é, a cultura bávara é inferior à alemã, porque a parte vale menos que o todo. Levanta-se de novo tumulto contra esta desigualdade, e a bávara tem de ser igual à alemã. Numa perspectiva lógica, levada às últimas consequências, esta ladainha faz com que a cultura americana tenha o mesmo valor que a cultura de um remoto bairro, ou de um casebre isolado da Saxónia.

Temporalmente tenhamos em conta o seguinte argumento: temos A e B, duas pessoas exactamente iguais sob todas as perspectivas num primeiro momento. Com o tempo, A cultiva-se, dedica-se aos outros, cresce e fica uma beleza deslumbrante, adquire todas as qualidades. B, pelo seu lado, mantém-se como era no momento primeiro. Encontram-se passados 20 anos. A aperfeiçoou-se em tudo o que era possível ao ser humano fazer, e B nada fez. Logo, se continuam iguais, apenas há que retirar uma consequência: fazer ou nada fazer para se melhorar é inútil, o aperfeiçoamento é impossível, tudo o que o ser humano faça irreleva porque faça o que fizer estará sempre postado no magma da igualdade.


Estes paradoxos apenas têm duas soluções possíveis. A primeira é matemática. O único caso em que conheço em que as partes têm a potência do todo é o do transfinito, ou em linguagem mais simples, a do infinito. Isso significa que o valor de cada ser humano, de cada cultura, de cada dado que respeita ao homem, é infinito. Se assim for, pode-se fazer tudo, porque tudo terá o mesmo valor. Qualquer hierarquia entre o melhor e o pior fica anulada, tudo tem valor infinito, desde o cantar no duche a uma cantata de Bach. A outra solução é física. Pressupõe que cada acrescento de potência num sistema leva, por contradição de forças, a anular o acréscimo ao sistema como um todo. O problema é que esta solução pressupõe definir quais são as fronteiras de cada sistema (Europa VS Estados Unidos, ou casebre da Saxónia VS Alemanha?) e carece de demonstração. Nesta perspectiva o acréscimo ao sistema anula potência às partes do sistema, o que significa, contra toda a visão empírica, que uma França sem a Itália, ou uma Inglaterra sem a França teria exactamente o mesmo valor.


Avancemos um pouco mais e vejamos que a coisa viola não só a lógica, mas igualmente o sentimento das pessoas. Sob o ponto de vista sentimental verifique o leitor se se sente exactamente igual ao seu vizinho. Se não se lhe sente superior em certas coisas ou inferior noutras e se não faz um balanço total dessa comparação que lhe é favorável ou desfavorável? Pense se os sentimentos de que é provido não tem graus e se a morte de um desconhecido de Antalya o afecta menos que a de um familiar amado.


A igualdade impõe-se como uma realidade jurídica na nossa época, mas sai das suas fronteiras quando se intromete no sentimento, na arte, na cultura, na vida profissional, na competência técnica. Sendo sobretudo jurídica, a igualdade é uma imposição, uma contrariedade imposta por coacção. É uma escolha de uma época, mas uma escolha que, com todos os seus méritos, tem uma capacidade opressiva, fomentadora de injustiça, e serve facilmente de esconderijo para ressentimentos e frustrações.


Piaget mostrou relativamente bem, usando a teoria dos grupos, que a ideia de identidade na criança surge com a ideia de reversibilidade. Porque a primeira noção é sempre a da irreversibilidade (o papel caiu no chão e não sobe de novo, o cão morre e não volta a nascer) a ideia de igualdade é sempre esforço de imaginação e consequência de uma recusa, e mesmo de revolta.


A procura de igualdades gera sempre uma compressão. Dizer que uma soma é igual a um resultado é uma fundamental conquista da matemática, mas obscurece o facto de uma coisa ser uma soma e outra ser um resultado. Serei a ultima pessoa a negar a grandeza à matemática e bem pelo contrário sou dos que mais deplora a incultura neste campo. Mas da mesma forma que não usaria pautas musicais para estabelecer uma linha de produção, por mais que goste de música e de produção, não aceitaria nunca que o que é meramente algébrico seja a visão total da realidade.


A igualdade, quando sai do seu campo, ou seja o campo da redução, da compressão e da imposição não é apenas tirânica. É mito. Uma das histórias infantis que se contam no espaço público é exactamente o da que antigamente (advérbio indefinido por excelência) não havia igualdade mas hoje em dia há. Um taxista francês afirma que é contra a reforma da lei laboral porque isso viola as conquistas da Revolução Francesa. Como se a Revolução Francesa tivesse sido muito positiva para a situação dos trabalhadores. O grave é que o homem público não apresenta um grau de diferenciação maior que o taxista francês. A igualdade é uma espécie de fada madrinha num conto infantil que lança com a sua varinha de condão encantos por sobre toda a realidade. Os cultores da igualdade são assim uns aspergidos com pós mágicos em cuja eficácia acreditam, mas que em boa lucidez bem sabemos que não lhes retira o estatuto de abóboras.


Da próxima vez que ouvir alguém dizer que todas as culturas são iguais e que todos os homens são iguais melhor perceberá o leitor que afinal está a criatura a afirmar que tem medo da morte e se sente revoltado pela mudança e pela diversidade do mundo. Não profere juízo de facto, mas impõe um diktat. Tem alma de ditador instalado, que impõe aos outros o que apenas devia estar nas leis e em algum comportamento social. Visa instalar no coração alheio os seus medos e as suas revoltas. Está falando da sua fada madrinha, o que é comovente, mas que deve deixar as mentes adultas preocupadas com tanta falta de lucidez. E apenas quer impor o império do seu ressentimento. Olhando para ele, temos de lhe dar razão. Tem boas razões para o sentir.


Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Exigência e admiração

Visconti encontrou-se um dia com Thomas Mann. Ia falar-lhe do seu projecto de encenação de “Mário e o Mágico”, peça baseada na obra do segundo. Estava nervoso, irrequieto. Depois de lhe explicar o que pretendia fazer, Thomas Mann apenas lhe respondeu: “pensei muito profundamente sobre que tipo de encenação a obra mereceria e concordo plenamente consigo. Sobretudo não deve ser expressionista”. De lívido Visconti passou a aliviado. Os seus inimigos adoram este episódio porque mostra que o orgulhoso, arrogante e aristocrático Visconti afinal também pode tremer como varas verdes. Os amigos apenas ficam perplexos com este episódio. No que me respeita, esta anedota nada tem de inesperado. A aparente arrogância de Visconti está na medida do seu imenso desejo de admirar, de admirar profundamente. Tendo-se encontrado com alguém que profundamente admirava tinha encontrado finalmente alguém que valia a pena ver. Não passou de arrogante a timorato. Foi sempre o mesmo princípio que dominou as suas atitudes. Não desperdiçava admiração com o que não o merecia.



Os romanos, povo muito mais sábio do que os ignorantes das suas obras possam alvitrar, tinham por regra retórica a admiração do inimigo. Repare-se que a natureza retórica da regra não abala em nada a sua sinceridade. Aníbal é celebrado, tanto quanto o Vercingetórix de César, os germanos de Tácito, ou António por Augusto. A lógica era simples e em boa verdade muito coerente: vencer um inimigo desprezível não tem glória nenhuma. Daí que fizesse todo o sentido enaltecer o inimigo, reconhecer-lhe as qualidades em toda a sua extensão.



Goethe, distribuidor de desprezo por excelência, admirava três homens que pouco tinham a ver com ele: Schiller, Byron e Napoleão. Esteticamente, ideologicamente, politicamente, em pouco coincidiam com a sua posição na vida. Mas Goethe fazia ponto de honra em os admirar.


Os exemplos na nossa História europeia podiam multiplicar-se até ao infinito. Grande parte da nossa História, na sua dimensão sentimental, é um cortejo de admirações, de homens que admiram, que umas vezes tremem, outras rejubilam por essa admiração. E que bem conhecem o seu contraponto, o desprezo.



Crasso, Lépido, Schindler, Catilina, entre tantos outros, com maior ou menor justiça, são exemplos de desprezados, por apenas gostarem do dinheiro, por quererem parasitar a glória alheia, por se terem atrevido pisar na sombra de grandes figuras.



Nesta matéria não há que optar pelo meio termo, entre a admiração e o desprezo, só porque o meio termo seria a virtude. Mas dá-se o caso de o admirável e o desprezível, embora em graus diversos consoante as épocas e as culturas, obedecer com frequência a uma distribuição normal, o que significa que o que é sumamente admirável é pelo menos tão raro quanto o que é baixamente desprezível. A maior parte das coisas, só pelo que elas são e não pelo facto de serem, merecem apenas a nossa indiferença, ou quando muito um mero respeito jurídico.


A verdade é que no espaço público não é esse o discurso que ouvimos. A oposição diz que o governo é desprezível. Assim sendo que mérito tem ser melhor que ele quando passa ao poder? O governo tenta demonstrar que a oposição é incompetente. Que desafio tem ele então? Os jornalistas, as empresas, mas igualmente o homem da rua, tentam demonstrar como o trabalho dos colegas é desprezível.



Esta é uma situação curiosa em que se tem razão tendo ou não. Porque ou, havendo tantos desprezadores sem razão, o simples facto de haver tantos sem razão é já de si desprezível, ou então têm razão simplesmente, mas é bem provável que o sentimento que espalham lhes seja aplicável.



Para quem queira ver exagero nesta análise basta ver o que sobra para a admiração inequívoca. Tente o leitor descobrir uma pessoa, uma instituição, que não tenha sido objecto de crítica ou desprezo. Os ridículos e os defeitos dos grandes homens de todas as épocas eram conhecidos e referidos. Os excessos de Alexandre, os desvarios de César e António, a duplicidade dos dois Frederico II (de Hohenstaufen e da Prússia), a ninfomania de Catarina a Grande, a avidez de Luís XIV. E no entanto, a sua grandeza nunca foi posta em causa.



Hoje em dia escolhem-se à pressa intocáveis, mas acabam por ser efémeros sempre. Os jornalistas, grandes heróis impolutos há uns anos, por oposição aos políticos, perderam a credibilidade. Os beneméritos, os actores das organizações não governamentais são desacreditados por várias vias. Desvio de fundos umas vezes, outras por se descobrir que são pacifistas financiados por países da Cortina de Ferro, ecologistas que se associam a partidos comunistas, os menos ecológicos de todos, extrema esquerda aparentemente generosa, mas tudo menos democrática.



Hoje em dia o vulgo compraze-se em ver o desprezível em tudo exactamente porque este quase saiu da boca do mundo. Mais uma vez, a procura de povoar o espaço público apenas de bons sentimentos gera um forte preço a pagar. Sempre que o “mau” sentimento sai da boca esconde-se no coração. Embora a linguagem oficial recuse o desprezo – sobretudo estamos proibidos, em nome do respeito por todos as culturas, de desprezar oficialmente o que mais o merece – e em parte por isso mesmo, as entrelinhas estão dele cheias.



A origem da palavra é algo polémica. Uns ligam-se a raízes indo-europeias que significam sorriso, embora seja mais certo ligá-la a palavras que significam espanto, surpresa, contemplação. Admirar significa ir algures para ver. Merece o nosso esforço ir ver. Admirar significa estar disponível para fazer um esforço. Por isso as supostas admirações turísticas que hoje em dia vemos, que se reduzem a declarações genéricas de admiração por culturas ou personagens que nunca se estudaram, nem se fez um mínimo esforço de conhecer, nada valem. São meras afirmações enfáticas, pacificadoras, auto-defensivas.



A questão é a de saber que peregrinações a nossa época está disposta a fazer. Para onde pretendem os europeus fazer um esforço para poderem ver, contemplar, espantar-se, admirar-se? Uma das vias, ainda e mais uma vez meramente turística, é a dos exotismos de pacotilha. Procuram em culturas exóticas, em religiões exóticas, a redenção. Budismos e Islão, Turquia e China. Outra via, clandestina, sorrateira, mas cada vez mais forte, é a do agastamento dos movimentos identitários. Ora nacionais, ora regionais, ora no plano europeu. Esta a força que mais intensamente cresce nos nossos anos. Exactamente porque tem o sabor da clandestinidade, do perigo, portanto, da sinceridade.



Mas em bom rigor, a nossa época oficialmente abomina a peregrinação. Dedica-se mais, como herdeira de um cristianismo liofilizado e pronto a consumir, a converter outros povos à democracia e à Europa. Os tontos mais ou menos bem intencionados, mas que postos a nu mostram a sua profunda irritação e ressabiamento, dedicam-se a converter a Turquia à Europa, ou Marrocos. Um dia o Kazakistão, ou o Uzbequistão.



Uma época que não peregrina, ou seja, não tem força suficiente da sua identidade para se fazer estrangeira a si mesma, que não faz esforço para sair de si e pôr-se em caminho para admirar é apenas uma época pouco exigente. Porque exímia a perdoar, apenas para não ser condenada, feliz em conciliar, apenas porque impotente para o confronto, transforma a vida num exercício de auto-justificação permanente. Não exige de si mesma, é provinciana, timorata. Se não admira é porque é pouco exigente, se despreza é porque se satisfaz com pouco. O desprezo, salutar exercício de juízo, passa a ser álibi rotineiro que apenas procura a absolvição.



São pouco exigentes consigo os que sabem ter pouco para dar. Tornam-se pouco exigentes com os outros porque têm medo que lhes seja pedido em troca. E se não admiram é porque apenas encontram paz pensando que os outros são tão irrelevantes quanto eles.






Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Apenas o sucesso

Cavaco Silva construiu o seu cv político explicando ao Povo que estava apenas programado para o sucesso. Do armazém de figos, para as boas notas do liceu de Faro; do curso superior em Lisboa, para o doutoramento em Inglaterra; de ministro das finanças de um Governo efémero, para Primeiro Ministro de um Governo íman de riquezas europeias. Contou-nos a sua história como se fosse a de uma escadinha em que a derrota das Presidenciais de 1995 foi o patamar para um novo lance. O Povo acreditou e deu-lhe a confiança do voto sentindo-se, assim, co-vitorioso de sucessivas eleições.
Nem tudo foi virtuoso. Fiel ao guião triunfador, em 1981 Cavaco recusou-se a participar no Governo Balsemão quando o PSD ficou órfão de Sá Carneiro; apressou a queda de Mota Pinto na difícil gestão do Bloco Central com o FMI, em 1985; falhou ao delfim, Fernando Nogueira, em 1995; e recusou-se a dar a cara num cartaz das Legislativas de 2005 depois de ter escrito sobre a boa e a má moeda, a propósito de um PM, também social-democrata. Assim conquistaria a Presidência, sem mais patamares. Já PR, calaria a anterior exigência, no tempo de Sócrates, para ganhar o segundo mandato em Belém. E afastaria o estorvo quando a crise se tornou legenda do Governo socialista, surgindo, de novo, como o salvador da Pátria. Ou de si próprio.

Os méritos académicos não encontraram correspondência na lisura dos comportamentos políticos. O casal Cavaco Silva foi somando pontos que, ligados entre si, formaram um desenho pouco edificante. A lamúria do Chefe de Estado sobre os seus parcos recursos perante um País na penúria; as declarações de Maria Cavaco Silva, numa visita oficial à Turquia prolongada, com os nossos impostos, para uma ida à Capadócia, «onde o meu marido sempre me prometeu trazer» e, agora, a fuga indecorosa de uma escola secundária para que a imagem imaculada do bem sucedido se confirmasse, fizeram cair o pano.

O Rei D. Carlos morreu a 1 de Fevereiro de 1908 porque se recusou a um carro e um percurso que o poupasse, afastando-o do Povo. Em 1986, Mário Soares foi de propósito à Marinha Grande provar que não há ruas proibidas para nenhum português e, ainda menos, para quem se candidata a representar a Chefia do Estado. Também Francisco Assis não deixou de se expor ao perigo de insultos e empurrões, numa acção política no Norte. Já não falo dos cercados do Palácio de Cristal, da Assembleia Constituinte ou do Patriarcado em 1975, resistentes ao que desse e viesse pela convicção e pela coragem. Em todos estes casos, a integridade física estava em causa. Não o incómodo de um apupo para o impecável corredor dos cem metros barreiras.

Cavaco não estava preparado para o seu próprio insucesso. E, como o pássaro a quem a raposa gabou o canto, perdeu o queijo.







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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Indeterminações na ciência

Os Antigos discutiam da necessidade, com Descartes começamos a discutir da certeza. Estamos a falar de planos bem diversos. A necessidade é objectiva, está no mundo. A certeza estará no sujeito se tiver de estar algures.


Mesmo com a célebre afirmação de Laplace, de que se soubesse das condições iniciais de um sistema saber-se-ia todo o destino futuro do mesmo, o mesmo Laplace reconhecia que não podemos ter a certeza absoluta por razões cognitivas. Nunca saberíamos até ao infinito todas as condições iniciais desse sistema. E muito antes dele, Leibniz dizia que a certeza dada pela ciência era bem diferente da certeza lógica, era uma certeza moral. Não se trata de uma afirmação passageira, mas de uma insistência, de uma posição bem consciente em Leibniz.

Estes elementos mostram-nos que não é preciso ir aos cépticos da Antiguidade para descobrimos indeterminações na ciência. Mesmo nos grandes cultores do, chamemos-lhe assim à falta de melhor, dogmatismo científico, os limites deste dogmatismo eram bem conhecidos.


Se bem virmos na base de todas estas considerações está a consciência de um facto muito simples: o homem não é divino (pelo menos exclusivamente divino), é por isso destituído de uma ciência perfeita ou sequer infusa.


Curioso o facto de os maiores triunfalistas da ciência, certos positivistas, serem hoje todos vistos como modernos politicamente. Destronaram a religião, desprezaram os antigos, aspiraram ao laicismo, deram um pontapé na metafísica. Politicamente estão mais próximos dos que hoje em dia atacam a certeza na ciência. O que só mostra que é de uma revolta edipiana que se trata. Quando os relativistas da ciência (com nomes para todos os gostos) atacam o dogmatismo, é do dogmatismo dos seus pais espirituais e políticos e não dos cientistas cristãos (ou religiosos em geral) que tratam. O seu alvo é Berthelot e não Planck, Comte e não Heisenberg. É de uma luta de família que se trata, de uma despudorada luta contra os próprios pais. Nunca um cientista cristão diria que o homem poderia ter certezas de tudo e, por maioria de razão, nunca disse que a ciência tudo resolveria de forma certa.


Os triunfalistas da ciência em bom rigor nunca foram cientistas, nem em geral bons filósofos. Foram bons sociólogos (Comte) ou geniais lógicos (o neopositivismo lógico vienense). Mas de entre eles não se encontra um grande físico, poucos matemáticos, apenas muitos químicos e biólogos. Uma doença de ciências em nascimento e com vontade de autonomia, uma crise de crescimento em suma.


A questão coloca-se hoje em dia porque surgem como grande novidade movimentos que salientam que tudo pode ser ciência, que os rituais da ciência são arbitrários, nada mais válidos que os de quaisquer tribos.


Vejamos. Que a ciência é feita por homens ninguém nega. Daí que tenha as falhas dos homens e das obras humanas. Daí que obedeça a uma História, e seja historicamente compreensível. Daí que igualmente, e na medida em que foi sobretudo criação individual, muito da sua produção não se possa explicar historicamente em exclusivo. Sem a riqueza e a prosperidade da Europa do século XVII, sem os seus meios de comunicação e correspondência, não se pode compreender a criação do cálculo infinitesimal. Mas não há teoria histórica que explique como é um jurista como Leibniz a criá-la. Nem pode estabelecer determinações entre os seus teoremas fundamentais e os seus algoritmos e a sociedade da época. Há sempre relações, mas nunca vínculos absolutos.


Que uma ciência esteja culturalmente determinada é evidente. Não se compreende a matemática europeia sem o cristianismo, o seu pensamento do infinito por exemplo. Nem a física sem se compreender a polémica das forças vivas. Leibniz chega à equação da força com argumentos teológicos, e de teodiceia, os mesmos que Voltaire, que nunca deu um só contributo para a física, tanto ridicularizou. Ainda hoje em dia na física as teológicas metodologias de Mauperthuis (óptimo, menor esforço, etc.) são usadas na física. O conceito de prova está marcado pela ideia de experimento crucial ou seja, o experimentum crucis, a prova por excelência, a prova da cruz. Não fazemos ciência como os indianos ou os chineses.


Curioso é que os mesmos que insistem na determinação cultural da ciência são precisamente os mesmos que contestam o papel do cristianismo na definição da Europa. O alimento da ciência é sempre em última análise espiritual e é reconhecido pelos maiores cientistas que existe uma ética científica, independentemente de se aceitar ou não uma ética social do cientista.


Mas uma coisa são as fontes, outra os resultados. Nos seus resultados, a ciência chega a resultados que são válidos independentemente da cultura em que se está. Quem quiser construir um avião na China tem de usar a mesma física que se usa na Europa e que esta criou. A demonstração de um teorema na Turquia tem de ser feita da mesma maneira que se faz na Europa. Isto não é tão evidente quanto possa parecer. É que em todo o mundo se reconhece que essa ciência é melhor. Não que as outras sejam todas lixo, ou mesmo que não tenham alguns aspectos que possam ser aproveitados. A medicina tradicional chinesa e indiana traz aspectos importantes para a medicina ocidental. Mas a avaliar pelos resultados, também os chineses e indianos melhoraram a sua longevidade, não com as suas medicinas tradicionais, mas com a europeia.


Uma árvore conhece-se pelos seus frutos, diz a Bíblia. E parece que o mundo inteiro aceita este refrão. Porque quando os persas ou turcos dizem que precisam de medicamentos não se estão a referir a medicamentos da sua medicina tradicional. Nem voam em aviões baseados nas suas ciências.


Por isso, a quem insiste na total indeterminação da ciência, na sua relatividade cultural, e que afirma que o método científico é apenas um rito como qualquer outro aconselho-o a andar num avião baseado em ciência turca, a tomar medicamentos contra o cancro da medicina chinesa e a, caso lhe rebente em casa um esquentador, receber uma resposta da companhia de gás no sentido em que a ciência é arbitrária e por isso não lhe é devida nenhuma indemnização.

Curioso igualmente que quem opine neste sentido em geral seja totalmente destituído de conhecimentos matemáticos ou físicos. Porque se alguma coisa soubesse destas ciências (porque também o são, e não apenas as antropologias e as teorias da literatura, por mais lhes espante esse facto - que não são paradigmas para a restante ciência aliás), saberia que há formulações, resoluções e colocações de problemas que estão... erradas. Erradas mesmo, sem apelo nem agravo.


Em última análise temo bem que habituados ao erro, comprazendo-se nele, apenas o queiram legitimar sobre a capa da indeterminação. Acusadores e julgadores ao mesmo tempo, impositores de regras processuais que eles mesmo criaram, pretendem-se os únicos sacerdotes da grande deusa da Indeterminação, perante a qual todos os outros deuses seriam falsos. Legitimando o erro legitimam-se em suma. O trabalho medíocre confina sempre na autobiografia.


Alexandre Brandão da Veiga




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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O desprezo na cultura europeia

Todas as grandes civilizações desprezam. Este facto é esquecido. Mas o que tem de específico a cultura europeia é isso contradizer a divindade de amor do cristianismo. O turco e o árabe desprezavam o europeu, mesmo muito depois de este ser mais civilizado que ele. Os gregos e romanos desprezavam o bárbaro, tanto quanto eram capazes de o admirar (Heródoto e os egípcios, César e os gauleses, Tácito e os germanos).


O que torna específica uma cultura é saber quem ela despreza e o quê.

Não é hoje muito bem pensante falar no desprezo como constitutivo de uma civilização, mas isso diz mais sobre a nossa época e a sua falta de lucidez que sobre a civilização enquanto tal.


Na Europa despreza-se o grão-vizir turco porque, por mais rico e poderoso que seja, é um escravo. A hereditariedade é um valor tradicional europeu e ainda hoje em dia não vi ninguém chorar de desgosto por ter grandes antepassados, mesmo que nem sempre isso lhe encha a vida. Pelo contrário vejo pessoas que douram o passado familiar.


O grande despreza em geral o pequeno: “Odeio a multidão profana e mantenho-a longe de mim “, diz Petrónio no Satiricon. Chateaubriand dizia que deveríamos ser parcos no desprezo tendo em conta a grande quantidade de pessoas que o merecem. “O ladrar dos cães que se ouve debaixo de nós apenas significa que estamos a cavalo”, dizia Goethe. “O governo da maioria é a ditadura da canalha”, dizia Voltaire. “Tudo o que brote da mera indigência é desprezível”, afirmava Schiller. As citações poder-se-iam multiplicar até ao infinito.

O nobre despreza o plebeu, o burguês o proletário, o rico o pobre, o liberal o revolucionário (e vice-versa), o democrata o monárquico, os países desenvolvidos os menos desenvolvidos, os organizados os ineficientes.


O desprezo é inevitável em qualquer civilização. Toda a cultura tem algum grau de autoconsciência. Mas se é uma civilização esta autoconsciência é sempre composta em maior ou menor grau de desprezo.


O que tem de específico o europeu? Despreza o ignóbil, ou seja o não nobre. Ou seja, o homem sem passado.


Despreza o não livre, ou seja o turco, o oriental em geral. O grego não se prosterna perante o rei (um sobrinho de Aristóteles pagou com a vida por não o ter feito perante Alexandre Magno). O romano não quer um rei (o nome de imperator, de princeps surge como sucedâneo da realeza). O cristão vive uma religião de libertação e não de submissão.


Despreza o uniforme, a platitude do Oriente. Mesmo que tenha sido por vezes injusto, encontra nas outras culturas a prevalência incontestada de um princípio. Guizot bem descreveu a Europa ao afirmar que nela nenhum princípio imperou inequivocamente sobre o outro, papado sobre império, nação sobre Europa ou feudo, linhagem sobre riqueza, monarquia sobre nobreza. Mesmo que a paisagem seja variada, os costumes diversos, as cores folclóricas e diversificadas, o europeu encontra no turco, no árabe, no chinês, o uniforme. Aquele em que um princípio venceu sobre o outro, em que a religião, a sociedade, as classes dominantes são dominadas pelo poder político.


Escusado será dizer que muitos destes princípios podem sofrer uma crítica cerrada, mais ou menos precisamente científica. A questão não é tanto de se ver a justiça da visão de uns ou de outros, mas verificar que existiu e os seus efeitos. Se os seus efeitos são Dante e Camões (“terras viciosas de África e Ásia” ou o “o Turco oriental”), Bach e Racine, Fourier e Gauss não estamos tão mal quanto isso.


O desprezo não afasta a sede de conhecimento. Poucos povos desprezaram mais os outros que os gregos e inventaram a geografia humana com Heródoto. Não afasta a reflexão sobre a diferença. O chinês e o japonês ignoram o mundo exterior, mas o grego descobre-o e o romano gere-o, e o europeu faz uma e outra coisa. Não afasta sequer a admiração. O grego despreza o bárbaro e admira o egípcio, o romano despreza o grego politicamente e idolatra-o culturalmente, o europeu despreza o turco, mas fica fascinado com o indiano ou o chinês. O europeu sabe ser superior a sua cultura e por isso inventa a antropologia cultural. Muitos povos ainda hoje em dia têm de vir à Europa para conhecerem a sua História. E um egípcio nada pode estudar do seu passado sem Champollion ou Maspero.


O europeu tem no entanto, uma especificidade. A sua religião não é apenas de irmandade, em que todos são filhos de Deus. Porque pode haver filhos preferidos, por serem detentores da primeira mensagem (judeus) ou da última (muçulmanos). É uma religião de amor. O que tem de específico a cultura europeia não é ter desprezo (todas têm), mas a contradição entre o seu princípio (cristianismo) e o seu funcionamento (desprezo). Ironia da História é precisamente esta contradição que vem ao de cima quando a Europa está no auge do seu poder.

A decadência da Europa é um duplo suicídio: guerras fratricidas (as guerras mundiais) e auto-culpabilização. As teorias contra a Europa são forjadas na própria Europa. No império turco nada vemos disto. No fim dos impérios árabes nada vemos disto igualmente. É o princípio cristão, degenerado, mal interpretado, a gerar o auto-martírio da Europa.


O desprezo está lá, mas vira-se contra a própria civilização. A Europa é colonialista, imperialista, tem “responsabilidades históricas”. Nenhum império em encerramento fez tal passo. Os turcos sentem-se vítimas do sultanato e têm orgulho do seu passado. Os europeus sentem-se culpados das suas glórias.


Que se retira de relevante para a política actual? É que mais uma vez, cristianismo e paganismo indo-europeu moldam a Europa, de uma forma de ou de outra, ainda hoje em dia, como desde há dois mil anos. O princípio cristão vence parcialmente, na forma da culpa em relação aos outros e na sua perpétua justificação (“não julgues (os outros) para não seres julgado”). O princípio pagão vence pela admiração da grandeza (alheia, mesmo que ficcionada) e pelo desprezo (próprio).


Jogando sempre com as mesmas peças a Europa reproduz-se a si mesma, manipula sempre os mesmos símbolos. A questão é que o faz hoje em dia de forma perigosa. Nunca se mete a faca à boca, nem se vira o garfo contra si mesmo. Porque a sanidade mental exige o “como te amas a ti mesmo”... E um salutar desprezo, sobretudo pelo que é desprezável em nós e nos outros. Se se amam os outros apenas porque nos desprezamos nós mesmos o amor pelos outros está inquinado deste desprezo, é o desprezo e não o amor a sua causa. Justiça, em suma.


Alexandre Brandão da Veiga




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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Arrependimento e exame de consciência

“Nunca me arrependo do que faço”. Quantas vezes ouvimos esta frase. Da mesma maneira que é de bom tom dizer-se que se tem dúvidas, ao mesmo tempo é mau manifestar arrependimento pessoal. Alguns têm de pedir desculpa, mas estes são bem seleccionados. São os culpados oficiais do século. As igrejas cristãs e sobretudo os católicos, a Alemanha e em geral a Europa.

Quanto aos restantes, se disseram que se arrependem, sobretudo a título pessoal, suscitam o constrangimento, ainda mais que a condenação.


Quando saem ministros porque acusados de baixas movimentações e afirmam que têm a consciência tranquila, como se a sua consciência fosse estalão para seja quem for, quando saem governos do poder e nem um mea culpa aparece na praça pública, começamos a verificar paradigmas que mudaram de forma, mais que evidente, despudorada.

Como é possível um ser humano nunca se arrepender? E ter sempre a consciência tranquila? Só vejo uma explicação simples para isto: é que não se arrepende porque as dúvidas públicas são apenas um bom alibi para desresponsabilização. Em bom rigor não tem dúvidas, mas ignorância, nem humildade, mas sede de se escusar à responsabilidade. E uma consciência só é plenamente tranquila na perfeita santidade, o que sem medo de acusações de difamação posso afirmar ser impossível na maioria dos homens públicos. Ou caso seja absolutamente inepta.

Não se arrepende quem não assume responsabilidades, assenta na tranquilidade o de consciência inepta. O que dizem então tais pessoas? Estão a afirmar: “eu fujo às responsabilidades e a minha consciência é inepta”. Num rasgo de generosidade dou-lhes toda a razão, mas é esta razão que lhes tenho de dar que me preocupa.


Tentemos ir um pouco mais fundo. Que falta a estas pessoas? Que lacuna lhes define a vida?

Só há arrependimento havendo exame de consciência. Nós entendemos estes conceitos como fazendo parte da nossa paisagem natural, ao ponto de os querermos por vezes recusar do espaço público. A sua recusa tornou-se mesmo em doutrina oficial dos bem-pensantes. No entanto, estes conceitos levaram milénios a ser elaborados.


Ulisses não faz ainda exames de consciência autónomos. Precisa da deusa Atena para os fazer. É a primeira pessoa na História, porque percebe pela primeira vez que em certos momentos está sozinho para fazer esses exames de consciência. Ao contrário de Job, que pergunta a Deus para depois aceitar, Ulisses discute com o divino. Em ambos os casos a consciência constrói-se sempre por referência a uma entidade externa, pelo menos simbolicamente externa.


Com os estóicos este exame de consciência ganha outra acuidade e perfeição. Em Séneca já se encontra profundamente elaborado. Em certo sentido o exame da consciência é para a alma o que é a água canalizada para a saúde física. Pode-se viver sem ela, mas o preço pago em mortes prematuras é muito grande. O exame de consciência é o primo do aqueduto romano.

Com o cristianismo o exame de consciência assume a sua máxima dimensão. As exigências morais do cristianismo são as maiores que jamais se viram na História. “Amar o inimigo” como prova da moral estabelece uma bitola de moral acima das possibilidades humanas comuns. “Vós sois como deuses”, lembra o Apocalipse. E eis que por via do exame de consciência, também dele, se exige que o homem se divinize (os ortodoxos orientais têm estes conceitos mais vívidos que nós).


O exame de consciência não implica apenas uma especial relação com Deus. Muitos agnósticos e ateus receberam esta herança antiga e cristã. Carreia antes do mais uma determinada visão do homem. Uma visão em que a sua alma, a sua atitude, os seus sentimentos, os seus actos, são maleáveis, dependem em parte pelo menos do seu poder. Em que o ser humano é agente. O homem que faz exame de consciência não é apenas um homem com capacidades de conhecimento que se desenvolvem. É um homem que sabe poder agir sobre si mesmo, que tem poder de se modificar, que não é um mero balão ao vento.


Daí que se arrependa. Arrepender-se é travar caminho, mudar de direcção. Diz o clássico princípio da inércia que um corpo se mantém na sua situação de repouso ou movimento se não for perturbado por nenhum força externa. O arrependimento é o que em física se chama impulso. Não se vê aí logo a mudança de direcção, mas é o primeiro requisito para que ela exista. Quem é incapaz de arrependimento vive uma antropologia rígida, pouco livre, em que nada do que é é passível de ser moldado. É um hirto, nada mais.


Que conclusões retiramos? Que os homens públicos apenas querem fugir às responsabilidades, têm consciências ineptas, são passivos e inertes, incapazes de mudança de direcção e consequentemente de melhoria. É o que nos dizem, pelo menos.


Ao contrário do que se pensa nunca há em absoluto excesso de exame de consciência nem excesso de arrependimento. Tudo depende das forças de cada qual. Em muitos casos há excesso de leitura, porque a leitura em vez de enriquecer apenas confunde. Noutros há excesso de reflexão que apenas esgota sem permitir conclusões. Mas se de excesso se trata apenas se refere às capacidades de quem exerce a actividade. Uns lêem gozosamente tratados sobre cálculo tensorial, outros embatem contra uma simples conta de somar. Uns fascinam-se com a beleza da Odisseia lida no original, outros têm dificuldade em perceber de quem é prima certa personagem da vida social.


Mas se o excesso não se mede em absoluto, mas apenas relativamente às capacidades de cada qual, se afirmarmos e insistirmos nessa afirmação que há excesso de arrependimento e de exame de consciência, que este excesso rapidamente se atinge, apenas estamos a dizer que quem exerce é destituído, nada mais.


É evidente que quem pronuncia tal tipo de afirmações não o faz inocentemente. Pretende afirmar que é moderno, descontraído e, usando linguagem pouco em moda, puro como um cordeiro. Ser moderno ou descontraído nunca foi para mim qualidade ou defeito. É um estado que em nada é meritório se apenas resulta de falta de alternativa e mesmo condenável se apenas é fruto de preguiça ou má fé. É mais fácil ser como a maioria quer que sejamos que de outra forma. E quanto a ser puro como um cordeiro não deixa de ser curioso como quer os resultados mais arcaicos quem recusa os meios mais antigos.


É que em verdade do que tratamos é de gente sem sofisticação. Perdeu uma técnica porque já não se lembra onde pôs a alma. Habituados a falar para a arena pública sem ter público que os ouça, é o vazio que contemplam e assim acham que vai o mundo e a sua alma.


Que não vejamos actos de contrição por parte dos homens públicos é significativo. Que a sua consciência tenha andado sempre tranquila igualmente o é. São regressões, a períodos pré-cristãos e pré-antigos. Sem querer insultar os trogloditas, a sua relação com a própria alma a eles regrediu. E se alguém toma decisões ou emite opiniões que influenciam a minha vida não se arrepende, tenho boas razões para andar em preocupação. Não vão mudar de direcção, senão houver uma força externa a que isso os obrigue. Aí é o vento que os domina, e afinal é ele quem nos governa.

Alexandre Brandão da Veiga


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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Ineptos e anti-heróis

Para as pessoas que passaram pelo sistema de ensino depois do fim dos anos de 1960 a figura do anti-herói é sobejamente conhecida. Foi-nos inculcado o culto do anti-herói. O herói era um enfado, plano, demasiado liso, preferia-se a complexidade do anti-herói, que reunia o fascínio do herói com uma frescura que este não tinha.



É evidente que este culto não é neutro sob o ponto de vista ideológico nem nos seus efeitos. Criou gerações que se empenhavam a fazer mal para emularem os anti-heróis, ou que se compraziam com o facto de fazer mal as coisas porque tinham exemplos ilustres que os justificavam.



O problema desta mitologia é que esquece muitos aspectos da realidade. Vejamos quais.



Em primeiro lugar o herói. Etimologicamente é palavra que se parece ligar ao de arete grega, de virtude. O herói é o nobre, o melhor. O destino do herói raras vezes é feliz e é sempre trágico. Mesmo que acabe em apoteose como Hércules, ou em destino cósmico, como os Dióscuros Castor e Pólux, o seu destino é atravessado de imensas feridas, trabalhos ou decisões. A destruição do herói é correlato da destruição de todos os paradigmas de nobreza, da ideia do melhor. Muitas vezes o herói falha, perde. Antígona é desses. O que caracteriza o herói não é o sucesso, mas a grandeza, a ânsia pelo melhor e a plena disposição de se sacrificar pelo melhor.


Em segundo lugar os ineptos. A Historia está cheia de personagens ineptas. Esta são trazidas mais pela literatura que pela mitologia. É certo que a mitologia tem alguns exemplos. Cidipe que pede o melhor para os seus filhos e faz com que estes morram em plena flor da juventude porque é esse o melhor destino, como conta Sólon ao rei da Pérsia. Igualmente o amante de Aurora para o qual esta pede a imortalidade sem pedir a eterna juventude, pelo que este envelhece sem parar, inexoravelmente, mas também sem nunca morrer. Tchekov é o grande descritor dos ineptos. Nos seus contos Cervantes cria o paradigma do inepto com Don Quixote. Os ineptos são as figuras mais diversificadas que há, talvez as mais próximas da humanidade comum. Daí que não tenham sido centro de interesse da mitologia. Uns têm a exigência dos heróis como Don Quixote, mas estão condenados pelo riso, porque a sua inadequação é mais saliente que a sua auto-exigência. Outros são apenas pessoas comuns, medíocres, que são apenas ineptas, mesmo que não exijam muito da vida. Cómicos, trágicos, um pouco de tudo, são condenados pela disparidade entre o seu projecto de vida e o projecto que a vida para eles tem.


E só em terceiro lugar os anti-heróis. O que caracteriza o anti-herói é a adequação consigo mesmo e com o seu destino. Por isso para mim Don Quixote não é um anti-herói. O anti-herói é sempre bem sucedido, ou tende a sê-lo pelo menos. Atravessa a vida de forma mais ou menos tortuosa, mas por mais aventuras que viva, por mais dificuldades que atravesse, a vida é-lhe amena, é-lhe pelo menos favorável. A vida sorri-lhe. O maior exemplo de anti-herói na cultura popular dos últimos anos é a Gabriela de Jorge Amado. “Eu nasci assim, vou ser sempre assim” podia ser dado como lema da cultura da segunda metade do século XX: os heróis picarescos que são dados como seus antepassados são mau exemplo. Porque na maioria dos casos os heróis picarescos são mal sucedidos, são apenas ineptos. O facto de a nossa época querer arvorar ineptos em anti-heróis é aliás significativo. Tudo é válido, desde que tenha por efeito recusar os heróis.



Passemos à História. Épocas houve em que a gratidão da Europa em relação a Dom João de Áustria e ao príncipe Eugénio de Sabóia, sobretudo o último exemplo de moderação e sentimentos nobres, a quem devemos a libertação de Viena contra os turcos, ou Jan Sobieski, grande herói polaco da mesma época, ou o culto dos heróis nacionais era motivo evidente, tópico corrente da nossa cultura. O mesmo se passa com cientistas, políticos, escritores, religiosos, que foram heróis da cultura europeia, ou das suas culturas nacionais. É evidente que tudo sofre o risco de cair na sua caricatura. Os heróis do trabalho soviético, a dedicação pia a heróis nacionais cujo papel obnubila outras personagens, estes e outros exemplos explicam-nos que o culto dos heróis não é isento de riscos. Mas que banalidade. Nada do que é vivo o é.



Parecendo flutuar para além destes paradigmas está o super-homem de Nietzsche. Nada tendo a ver com o cruzamento de malabarismo, eficácia tecnológica a instituição de caridade que é o personagem da banda desenhada, o super-homem de Nietzsche é o homem que se supera, em nome da vida, e para além da vida. Mas se bem virmos a Nietzsche segue-se um mundo de equívocos. É apropriado por nazis, por marxistas mas sobretudo por uma mentalidade delicodoce dos pequenos-burgueses que se querem ver isentos de uma moral tradicional porque isso lhes facilita a vida. Mas o super-homem de Nietzsche nada tem de fácil, é trágico, é apenas mais uma das formas do herói.



Entremos no espaço público sem receio de sujarmos os pés. Não sendo por enquanto mesquita podemos ir calçados dos nossos altos coturnos e observar ao longe os escombros que esta paisagem nos mostra. Obviamente que apenas veremos versões reduzidas destes paradigmas.


O discurso do político médio está longe destes paradigmas. O discurso expresso entenda-se. Tirando os extremos à esquerda cultivando os anti-heróis de pacotilha e à direita os heróis de fancaria, o discurso político quer-se razoável, anti-mitológico, ponderado.



Mas uma coisa são as modulação das palavras, outra o que estas dizem e outra ainda as acções. Quando encontram oposição são vítimas de cabalas, como Antígonas defendendo o que é direito contra tudo e contra todos. Quando atacam vestem a armadura guerreira do conquistador ousado como Hércules a caminhar par a apoteose. Perante a guerra fazem-se de heróis.



Perante a prova por excesso, o processo judicial, fazem-se de ineptos quando o papel de heróis, vítima ou conquistador já não lhes quadra. Ignoravam – dizem – que essas seriam as consequências, que nada sabiam sobre a corrupção.



Mas estes são apenas papéis sabiamente doseados ou não. Em boa verdade o seu comportamento é do anti-herói. Uns mais eficazes, outros menos eficazes, fazem atravessar o espaço público da sua auto-satisfação. Adequam-se a um destino de permanente desadequação. Estão muito acima do que imaginaram algum dia, não foram formados para a alta esfera, mas apenas para a oblonga baixeza, Mas passeiam-se no passeio público sendo simplesmente o que são. “Sapato não, seu Nacib”, parecemos ouvi-los dizer.



O problema é que se o anti-herói sem poder pode ser comovente, como a tonta da Gabriela, quando o tem torna-se grotesco e perigoso. O anti-herói não vive, sobrevive, e escora a sua concepção da política na sobrevivência. Para ele o cruzado morto em batalha é um perdedor, um falhado e não alguém que se cobriu de glória. Para ele Aquiles é um exagerado, um pateta, Ulisses um mero turista. Se reza a Cristo é para lhe pedir ajuda, mas não para o acompanhar na sua Paixão, que considera desajustada e pouco razoável.



Ensinados para serem anti-heróis, ou seja nunca aceitando esse título, os mesmos no espaço público mostram ser bons alunos, bem endoutrinados pelo sistema educativo que tão carinhosamente os formou. Se mandam apagar dos programas escolares os paradigmas clássicos não é por terem horror a paradigmas, mas por adorarem com profunda devoção (na medida das suas forças, entenda-se) altares de onde constam Ti Maneis, Ti Jaquinas e agora Bernados e Marias do Mar. É a esse altar que incensam e nos imolam. “Adaptem-se” é a sua palavra de ordem, “sejam conformes”. Se forem de esquerda façam happenings, se de direita procissões, em ambos os casos vigílias contra injustiças que nunca existiram. Tudo desde que desprezem os heróis, e tendo na melhor das hipóteses condescendência em relação aos ineptos.



Deixaram de ser comoventes, estes espécimes que encontramos na savana pública. Os seus paradigmas são o chacal e a hiena, para os que sabem voar o abutre. Se virem esta fauna nos meios de comunicação social podem reconhecê-los facilmente. O seu riso é de hiena, voam para procurar carne caçada por outrem. O seu espaço natural são os despojos. E tudo o que encontram vivo – é superior às suas forças – transformam-no em despojos. Quanto à Europa esta chusma já a dilacera na esperança de a transformar em carcaça. Apoiantes ou opositores oficiais da Europa confundem-se neste festim. Uns por a quererem encher de parasitas, outros por lhe querem tirar a seiva. Não há reais diferenças entres eles, porque só num mundo feito despojo se sentem em casa.


Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A aristocracia é necessária?

Por vezes há alguma tendência a condenar os lugares comuns só por o serem. Ora o que condena um lugar não é a sua natureza comum, mas a sua injustiça. Se são com frequência condenáveis é porque a injustiça é com frequência muito comum. Mas existem lugares comuns cuja valia se percebe melhor quando desaparecem, quando o deixam de ser.

Era lugar comum citar a tese de Políbio quando este afirmava que a origem da excelência e do poder do sistema romano se encontrava no facto de conciliar democracia, aristocracia e monarquia. Todos os sistemas equilibrados, se bem repararmos, distribuem de forma equitativa o poder entre todos, alguns e um só. O poder do presidente da república não é igual ao do merceeiro da esquina, o poder da massa da população não é igual ao dos que vivem nos vários círculos de decisão. É assim em todas as comunidades, a questão é a de saber em que graus e com que justiça se distribuem esses poderes.


A aristocracia não é apenas um conceito de poder. Nem um conceito quantitativo. É qualitativo. É o poder dos melhores. Não vou discutir a questão de saber se tem de haver a formação de novas aristocracias. Nem sequer directamente o papel das tradicionais aristocracias hereditárias. Aquilo que quero salientar é a própria importância da ideia de aristocracia numa sociedade, que papel pode desempenhar.


Uma sociedade não vive apenas quatro ou cinco anos. Uma das técnicas de limitação do poder é a sua limitação temporal. Mandatos limitados no tempo, prescrições, toda a técnica do Direito Público desemboca de uma forma ou de outra nas limitações temporais do poder. Facto positivo. Mas nada na vida é só positivo. O perigo deste sistema é o da impermanência. O do império da impermanência. Nada existe que não influencie de uma forma ou de outra o longo prazo. E o mais importante só nele se instala. Quando se fala em reformas estruturais e da incapacidade de muitas democracias de as fazerem é desta incompatibilidade entre mandato (poder) e tempo (serviço) que se fala. Entre o melhor e o mais eficaz a curto prazo opta-se pelo segundo.


Os economistas têm vindo a analisar a influência dos ciclos eleitorais na gestão da economia. Mas os ciclos eleitorais têm influências muito mais vastas. Na educação, na saúde, na justiça social, existe sempre a tentação de sacrificar ao curto prazo o que deveria ser feito no longo.


Aristocracia não é só governo dos melhores, mas governo pelo melhor. E o melhor é por definição um projecto inatingível na modalidade e no tempo. O aristocrata projecta-se assim sempre no infinito e na eternidade. O que faz é com frequência absurdo para a sua vida, para o pequeno espaço de tempo. Porque a sua meta não obedece a ciclos de poder.


Damos como evidente associar aristocracia a hereditariedade. Esse é mais um dos aspectos que demonstra o nosso etnocentrismo e a dimensão pagã da civilização europeia. Não se encontra no cristianismo nada que justifique uma aristocracia hereditária. E no entanto, a Europa foi governada mais de 1400 anos por esse sistema. É evidente que em todos os sistemas há tendência à reprodução das desigualdades sociais, tendência maior ou menor. O filho do burguês tem sempre mais hipóteses de vencer que o do proletário. Mas a hereditariedade como factor de posição social é típica do paganismo, sobretudo o indo-europeu. Platão era nobre porque descendente de Codro, rei de Atenas, Heraclito era “rei”, Júlio César porque descendente de Iulus, filho de Vénus, os sistemas de poder germânicos e celtas, embora não baseados na primogenitura, eram baseados na descendência.


Em países não europeus, como a Turquia e a China, nada disto se passa. Um escravo passa a grão-vizir, o mandarim pode ser filho do pobre. Mais uma vez saliento: a tendência para a reprodução de desigualdades sociais existe sempre. Mas a hereditariedade como fundamento não existe. Na China eram nobilitados os ascendentes quando o era alguém, não forçosamente os descendentes. Ao contrário do que se pensa, a hereditariedade contribuiu para a atenuação de desigualdades sociais e não o contrário. Nunca como nos regimes orientais foi tão escandalosa a má distribuição de riqueza. Nunca como no capitalismo.


A perenidade no tempo pode ser incarnada por uma ideia transmitida de múltiplas formas. Assim fizeram as repúblicas. Mas a verdade é que os mitos de continuidade que criaram foram sempre frágeis a longo prazo sem aristocracias. A república romana vive da sua aristocracia, mesmo que absorvendo novos membros. A democracia ateniense tem como patronos aristocratas (Sólon, Clístenes, Péricles) a república francesa mais longeva nasce da aceitação de padrões aristocráticos. Portugal, república durante 90 anos, ainda tem horror ao verde e encarnado como de mau gosto, apesar de ser de bom tom em Itália.


Os aristocratas não são melhores que os outros a fazer coisas, nem mais inteligentes, nem mais estúpidos. Mas foram sempre melhores a escolher coisas. Escolheram Mozart e Beethoven, e mesmo Strawinski. Projectando-se no eterno, não têm de fazer escolhas para agradar no curto prazo. Podem-se dar ao luxo de proteger Molière contra a vontade dos pudibundos.

E são melhores nos modos. Quem apenas luta para sobreviver ou para subir tem menos tempo para o modo. Se a opção é entre comer ou não comer apenas se discute do sim e do não. Quem carece de subir na sociedade usa o modo como instrumento, mas não como postura.


Infinitivos, modos, optativos. Categorias gramaticais que se esvaem na nossa época. Categorias gramaticais que mostram a riqueza de perspectivas de vida que a aristocracia nos trouxe. As nossas línguas indo-europeias, tanto quanto a erudição o pode retraçar, são línguas aristocráticas, enriquecidas pela aristocracia.


O que se perde com a perda da aristocracia? Não a comida, que abunda. Não a saúde, que é medicalizada. Nem forçosamente a ligação à vida, porque o povo também a tem. O que se perde é tão simplesmente a possibilidade de viver a vida em civilização. Civilização e vida opõem-se sem aristocracia. É quando esta perde o poder que se percebe a sua oposição. Antes uma era consequência de outra.


Daí que o perigo na política seja o de se ter de optar hoje em dia entre uma ou outra. Na melhor das hipóteses. Porque se corre o risco de perder ambas. Os homens públicos já são destituídos de civilização, e muito menos a incarnam. A sua ligação à vida é mediatizada e não serve de paradigma. O grave ainda está para vir. É que se identificam com o mundo que os rodeia, porque esse mundo está cada vez mais como eles. Sem seiva, sem infinitivo, nem modo, sem optativos. Apenas um indicativo, um presente fugaz, um pequeno futuro, um pretérito estreito. A redução gramatical está na medida da redução da vida possível. Ou seja, não vai além do simplesmente indicativo. Ignora a possibilidade, a alternativa e a escolha. Sem civilização pode florescer o selvagem. Nela, sem aristocracia, impera o mendigo da vida. É esse que nos aparece nas televisões.


Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Islão civilizador

Neste modo de pseudo-exotismo que invade a Europa ouve-se falar com frequência no papel civilizador do Islão. Talvez seja bom ter um quadro mais adequado da coisa. E perdoem-me aqueles que se queixam que falo mais de História que de política, mas tenho pena que sejam aqueles que falam de política que mais se aventuram num terreno em que são ignorantes, o da História.


O islão é criação de sarracenos. O sul da Arábia, a Arabia Felix, era na altura zona de civilização sofisticada (o mesmo se poderia dizer dos árabes da grande Síria na época helenística e império romano, como os nabateus e iturianos, por exemplo). Não um grande centro de criação de civilização, mas zona que sofreu as múltiplas influências do Egipto, do Império Romano e mais tarde bizantino e das correntes do tráfego do Oceano Índico. O sul da Arábia, embora não centro de expansão da civilização, era região efectivamente civilizada no século VII d. C., quando surge o islão.


No entanto, o corpo central da península arábica, onde nasce o islão, é zona desprezada pelo sul da Arábia, que a considera bárbara, e pelos grandes impérios circundantes, o persa e o bizantino. É a zona dos sarracenos, povos nómadas ou semi-nómadas, de fraca criação cultural.


Ao contrário do que se diz, o islão não civilizou o espaço cristão, mas foi o inverso que se passou. O cristianismo é seis séculos mais antigo que o Islão. Maomé é influenciado pelo cristianismo, crê-se que de tipo nestoriano, e pelo judaísmo. Na sua base religiosa, na sua matriz cultural de base, o Islão deve ao cristianismo e não a inversa.


Continuemos, com o risco de chocar os bem-pensantes. Quando o islão se torna conquistador, muito prematuramente, não partiu para conquistar hordas bárbaras. Conquista dois impérios de brilhante civilização, muito superior à sua: o império bizantino cristão e o império persa mazdeísta e com uma forte minoria cristã nestoriana, nomeadamente. Quando o islão conquista este espaço não tinha estruturas nem administrativas, nem culturais, nem políticas preparadas para governar tão vasto império. Vai beber ao império cristão e ao persa o seu desenvolvimento civilizacional. Não é por acaso que São João Damasceno, santo ortodoxo para o Oriente e para os Latinos, foi grão-vizir. Os sarracenos não tinham outra alternativa.

O mérito do primeiro império muçulmano foi fazer uma síntese de duas grandes civilizações, o império cristão bizantino e o persa. Entrou em zona mais civilizada que a deles, a eles deve a sua civilização.


O mesmo se passa com o segundo grande movimento de expansão do Islão, o turco-mongol (esqueço agora o islão relativamente marginal, como o dos curdos, e afegãos). Quais são os seus pontos de invasão? A Índia, zona mais civilizada que as hordas turco-mongóis. Ou a Europa e Bizâncio, zonas que civilizaram, em conjugação com a civilização árabe, os turcos. Mais uma vez, a força de conquista islâmica não se abateu sobre povos primitivos, mas sobre povos ainda mais civilizados. Foram os conquistados que civilizaram o Islão e não o inverso.


Vejamos um terceiro ponto de actuação do Islão. Na África norte ocidental e em geral da África negra. O Islão trouxe alguns paradigmas de civilização novos para esses povos, sem dúvida. Mas eram povos marginais às grandes correntes históricas e não o deixaram de ser. Mouros e núbios já tinham sofrido a influência de impérios egípcio, púnico, romano, pagãos, cristãos. De marginais que eram, marginais ficaram.


E um quarto ponto, a Europa. O domínio tártaro, turco-mongol, em suma, da Rússia. O tempo do governo da Horda de Ouro não é tempo de expansão cultural na Rússia. O domínio turco nos Balcãs fez dos Balcãs a zona mais pobre e subdesenvolvida da Europa. A Hungria divida entre turcos, Habsburgos e o principado da Transilvânia, tem a sua zona mais pobre na dominada pelos turcos. E o principado só se desenvolve quando sai do protectorado turco para passar a mãos austríacas.


O Islão teve como efeito a miscisgenação de culturas já por si desenvolvidas e teve o mérito de criar grandes espaços de circulação de culturas. Comunicação e miscisgenação são as suas palavras-chave. Mas nunca elevação.


Vejamos o contra-teste. O cristianismo parasita uma grande civilização como a romana. É natural. Qualquer religião começa por parasitar um espaço já circundante. Mas quando se expande para zonas primitivas, ou mais primitivas, cria o grande cristianismo irlandês, do séc. VI, a conquista da Germânia pagã, das regiões eslavas e magiares faz surgir países com uma imensa cultura. Não viveríamos na mesma cultura sem os nomes de Leibniz, Gauss, Alberto Magno, Dürer, Bach, Tolstoï, Liszt, Brahms, Cantor, Kant... A lista é sem fim. O cristianismo entra nas Américas e um continente com civilizações de desenvolvimento irregular, desde o mais primitivo ao civilizado, passa a fazer parte de um mesmo padrão civilizacional. Tirando um período que vai do séc. VIII até ao XI a superioridade civilizacional do Islão em relação a certas zonas do cristianismo (não em relação a Bizâncio) inexiste. Ou seja, apenas durante quatro séculos. O cristianismo teve seis séculos em que teve o papel de comunicação e miscisgenação seguidos de mais de mil anos de elevação civilizacional e dos quais mais de seis séculos de notória superioridade civilizacional.


A rede de comunicações mais vasta do mundo foi criação europeia, cristã, as maiores fontes de miscisgenação foram europeias cristãs, e as maiores fontes de elevação civilizacional foram europeias, cristãs. Mais nenhuma cultura transformou o descendente de camponês alemão em Mozart e Bach, ou o nobre caçador russo em Turgueneev ou Tolstoï.

Adivinho uma objecção do leitor. O islão elevou turcos, mongóis e tártaros. A resposta é bem algo mais complexa. O judaísmo e o cristianismo, bem como o hinduísmo e as religiões chinesas tiveram semelhante papel. Mas os turco-mongóis pertencem ao imenso buraco negro que é a Ásia Central, constituído por povos simpáticos quando não tem poder, mas que deixaram na História não pensamento nem glória, mas apenas impérios guerreiros e destruição das quatro grandes fontes de cultura da humanidade: a Europa, o Levante, a Índia e a China. Se o leitor pretender viajar de acordo com a física turca que use um burro e esqueça o avião, se pretender fazer cálculos de acordo com a matemática mongol que use os dedos e não um computador. E a cozinha huna é bem simples. Coloque o leitor carne crua entre as pernas durante um dia até a amolecer enquanto cavalga e depois delicie-se com esse petisco. Convenhamos: elevar turcos e hunos não é tarefa difícil.


Se invoco esta questão, tenho de o lembrar mais uma vez, não é por prazer em escavar o passado. É que os indigentes da História passam a vida a invocar farrapos da mesma, mal pintados, de falsa textura e mau fabrico, falsificações e conclusões forjadas, apenas para assentar a sua prática de um irenismo desrespeitoso da Europa. Que se desrespeite a Europa não os preocupa. Estão habituados a viver no desrespeito. No que me toca eu não me habituarei nunca a isso.


A História não é qualquer coisa que já se passou. É o que se está a passar. E quem tem uma visão esfarrapada da História apenas pode ser uma vivência do dia a dia indigente. O discurso político que visa adocicar minorias sub-proletárias na Europa lembrando-lhes gloriosos passados faz-me lembrar o fidalgote mal instalado e pouco provido que é lisonjeado pelos seus avoengos. Sem mérito neles, e convenhamos, com avoengos não tão gloriosos quanto isso. Se insisto nesta ideia é porque semi-alfabetizados, incapazes de fazer grandes viagens no tempo ou no espaço, insistem do alto dos seus púlpitos na grandeza civilizadora do islão como forma de manipulação da acção e da decisão políticas. Se alguma consolação podemos ter é que destes farrapos a História não reza e não temos por isso de rezar por eles.



Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Descrença e ignorância

Aposta-se, professa-se, insiste-se na descrença. A nossa época seria uma época de descrença. E em que a descrença cresce. Vistas as estatísticas, a coisa não é assim tão linear. A grande maioria dos europeus declara-se cristã, apesar de todas as cruzadas ideológicas contra o cristianismo. Algo semelhante se passou com a visibilidade dos extremismos de esquerda que nunca levaram no entanto a que a maioria da população votasse em partidos desse calibre.


Uma coisa é o discurso, a forma como uma sociedade fala sobre ela mesma, uma outra é o que essa sociedade sente, quer e entende como justo e adequado para ela. Não nos devemos pois deixar enganar pelos discursos que a Europa faz sobre ela mesma. Nas alturas de crise, nomeadamente da segunda guerra mundial, mas também em crises de fome ou alojamento mais recentes por toda a Europa, vimos que as instituições religiosas cristãs tiveram e têm um papel pouco visível mas muito mais presente que o que o discurso oficial admite.


Por outro lado, temos de ter sempre cuidado com o discurso sobre a intimidade. As distorções e os jogos de espelhos são moeda comum nesta matéria. Por vontade, por incapacidade de expressão, por inércias ideológicas, o discurso pode estar muito distorcido em relação à realidade que representa. A verdade é que na Europa as pessoas têm vergonha de se proclamarem cristãs. Por um lado, porque isso significa expor uma religião que se pretende eminentemente íntima. Em segundo lugar, porque são logo perseguidas por lugares comuns que conformam a sua imagem. Um cristão é beato, tem uma vida sexual pouco rica (pecado dos pecados!), é bem comportadinho, sem capacidade de aventura ou de imaginação. É o que a plebe intelectualizada gosta de dar a entender, pelo menos.


Se observarmos com mais atenção, o que verificamos não é tanto um fenómeno de descrença, mas, associada à vergonha, uma profunda ignorância. O problema da nossa época não é a descrença, mas a ignorância. Não é por alguém ter estudado em profundidade a teologia da Santíssima Trindade ou os vícios do monotelismo que tendeu para uma visão antitrinitária da divindade ou recusou pura e simplesmente o cristianismo. Convenhamos: para o comum estes problemas são puro chinês. As pessoas não são descrentes, mas ignorantes.


Vejamos exemplos. Ponhamos o cidadão comum, refiro-me ao doutorado, obviamente, perante uma igreja, perante um quadro, um requiem, ou uma obra-prima da literatura europeia. Reconhece ele um kantismo mal digerido em certas passagens da Anna Karenina? Percebe ele o que significam as conchas nas catedrais? Sabe ele porventura a importância capital do pomo da discórdia? Por vezes usa estes conceitos, esses símbolos, apenas porque está neles embebido. Sem mais. É a sua paisagem natural. Como o selvagem conhece a floresta, o europeu contemporâneo passeia-se sobre conceitos e símbolos que nunca será capaz de dominar. Diz recusar a cultura, mas apenas sabe comer dos seus frutos. Quantas pessoas recusaram a possibilidade da demonstração racional da existência de Deus depois de entenderem profundamente a filosofia medieval? Como a maioria nem sabe o que dizia esta riquíssima filosofia apenas recusa esta possibilidade por preguiça ou incapacidade. Incapaz de ler latim, ou sequer de seguir em vernáculo uma demonstração. Seja qual for, cérebro congenitamente cansado, não pode dar-se ao luxo de admitir a sua pequenez e por isso torna inexistente o que o ultrapassa, apenas porque o ultrapassa.


Recusar a metafísica é já uma atitude metafísica. Dizer que não existe metafísica é algo de estranhamente confuso. Não é verdadeiro se se recusa existência de uma História da metafísica. Ela existiu, ela existe. Se recusa a possibilidade de pensar metafisicamente ou a sua utilidade apenas se pode escorar em raciocínios metafísicos ou na pobreza dos seus próprios.


Uma das manifestações do espírito eminentemente metafísico da nossa época é a noção de eternidade de alma que tem. É sabido que muitas das pessoas não acreditam na imortalidade da alma nas sociedades desenvolvidas. Só que a maioria das pessoas é incapaz de pensar em termos estritamente pessoais. Atira-nos à cara uma metafísica imperiosa. Não regem apenas a sua vida. Não pensam: a minha alma não é imortal, aliás nem ela existe. Pensam: a alma é mortal, ou a alma não existe. Podem mesmo respeitar profundamente as convicções dos outros, mas são incapazes, mais que alguns outros, de sair de um pensamento igualitário, substancialista. Nunca se colocam a seguinte hipótese: A minha alma não é imortal, a minha alma não existe, mas nada posso afirmar sobre a existência ou a imortalidade das outras. A boa notícia é que se pensarem assim poderão ter a boa surpresa de terem razão quanto à sua, e não se enganarem redondamente sobre as outras. Muitas sabedorias antigas eram bem mais avisadas, porque reconheciam que tanto a existência como a imortalidade da mesma se conquistam. A custo. E sem haver acesso gratuito e universal a todos da mesma. Os que negam a imortalidade e a existência da alma são assim incapazes de se passear em paisagens diversas do cristianismo. Estão por ele tanto mais marcados que o recusam, a ele em primeiro lugar. Confortados pelo amor universal de um Deus que confere imortalidade a toda a alma humana, sentem-se com o privilégio de poder recusar esse abraço universal. Se soubessem trabalhar fora do cristianismo, realmente fora dele, poderiam colocar a hipótese de serem apenas pretensiosos, porque estão recusar um privilégio que nunca lhes fora conferido. Recusam o que nunca lhes foi dado, e pode-se dar o caso de a divindade apenas se rir da sua presunção.


A prova que este é um dos testes que demonstra que o vulgar apenas sabe trabalhar com conceitos cristãos é o de associar a ideia de imortalidade da alma a Deus. Esta associação é natural para um cristão, mas absurda para um jinaísta ou para um budista.


Pôr em suspenso, entre parêntesis. Este o exercício típico da nossa época. Corte com a realidade que começa por ser método científico gloriosamente frutuoso, mas para quem persegue uma ideia. Corte que leva a resultados de uma imensa pobreza, embora inteligente, quando se trata da fenomenologia de Husserl. Mas mero facto de preguiça quando é realizado pelo vulgar. Suspender o juízo pode ser acto de economia de pensamento, de avareza ou mais comummente de pura pobreza. Eu nunca abdiquei de comprar os maiores bancos do mundo. Pura e simplesmente não os posso comprar.


Desçamos então ao espaço público (infelizmente, trata-se geralmente mesmo de descer) e vejamos quais os efeitos desta ignorância que se disfarça em descrença. Esta postura permite ao homem público nunca se declarar ignorante, mas apenas descrente. A descrença aparece como uma forma particularmente avisada de prudência, quando apenas o é de má fé. Não se acredita na Europa, nem em grandes projectos. O homem que usa a etiqueta da descrença para esconder a sua ignorância é o homem da vidinha, que é legítima no vulgar, mas confrangedora no homem público. É o homem das soluçõezinhas, das politiquinhas, das pequenas alianças.


A descrença pública não é um acto de coragem, mas antes de uma imensa cobardia. Incapaz de defender uma posição de grandeza vive de ridicularizar quem a tem. Poucas personagens podem ser mais ridículas que um De Gaulle sem exército, sem legitimação eleitoral, sem dinheiro, sem meios. Mas foi esse “ridículo” que convolou uma França derrotada numa França vitoriosa do pós-guerra. O homem público descrente sabe que a sua alma, e a sua memória não são imortais. Trabalha portanto exclusivamente para si. Como o seu espaço temporal é limitado, apenas sabe trabalhar no aperto e gosta de dar vidas apertadas, bem balizadas, aos outros.

É esse o homem que nos governa. Metafísico sem o saber, ignorante esgotado com o trabalho de dissimulação, escondendo-se em tocas sempre que quer ser íntimo e saindo à luz do dia com a sua cartola de descrenças. Julgando suspender o juízo, suspende apenas a vida, a sua e a dos outros. Sendo curto o seu espaço de respiração, obriga os outros a conter a sua. Pequeno, assustam-no as infinitas possibilidades do mundo. Abomina toda a possibilidade e toda a abertura. Tendo nascido no meio do ridículo apenas sabe reagir perante a profunda intimidade com um sorriso de escárnio. Bendito seja. Terminará como começou.



Alexandre Brandão da Veiga

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