Paradoxos da igualdade
Heródoto conta num episódio célebre como os gregos se escandalizam com os corpos abandonados às aves, perante escândalo igual de mazdeístas perante corpos queimados em piras funerárias, hábito dos gregos. Os gregos cedo se habituaram a essas diferenças e, não tanto ao relativismo dos hábitos e desejos humanos (senão seriam todos convencionalistas como os sofistas), mas à sua diversidade.
O mito do suburbano é o de uma igualdade invasiva, que tudo atinge. Assim como o espaço natural de um homem do século XVII era o direito divino do soberano, espaço natural, mas não necessário, porque bem conheciam a república de Veneza, outras repúblicas italianas, cidades livres do Norte da Europa e o caso suíço, o espaço natural do suburbano europeu é o da igualdade. A igualdade é vista como natureza, como o contexto evidente de inserção do ser humano.
Mas se bem pensarmos, esta igualdade tem tudo menos de lógico e evidente.
Espacialmente imagine-se a seguinte frase: a cultura americana tem igual valor em relação à europeia. Se assim for, a cultura alemã é inferior à americana, porque é apenas uma parte da cultura europeia, e a parte tem sempre menor potência que o todo. Mas aí os cultores da igualdade levantam-se e dizem: horror dos horrores, não se pode dizer que uma cultura é inferior às outras. Logo, a cultura alemã é igual à americana. Mas se assim é, a cultura bávara é inferior à alemã, porque a parte vale menos que o todo. Levanta-se de novo tumulto contra esta desigualdade, e a bávara tem de ser igual à alemã. Numa perspectiva lógica, levada às últimas consequências, esta ladainha faz com que a cultura americana tenha o mesmo valor que a cultura de um remoto bairro, ou de um casebre isolado da Saxónia.
Estes paradoxos apenas têm duas soluções possíveis. A primeira é matemática. O único caso em que conheço em que as partes têm a potência do todo é o do transfinito, ou em linguagem mais simples, a do infinito. Isso significa que o valor de cada ser humano, de cada cultura, de cada dado que respeita ao homem, é infinito. Se assim for, pode-se fazer tudo, porque tudo terá o mesmo valor. Qualquer hierarquia entre o melhor e o pior fica anulada, tudo tem valor infinito, desde o cantar no duche a uma cantata de Bach. A outra solução é física. Pressupõe que cada acrescento de potência num sistema leva, por contradição de forças, a anular o acréscimo ao sistema como um todo. O problema é que esta solução pressupõe definir quais são as fronteiras de cada sistema (Europa VS Estados Unidos, ou casebre da Saxónia VS Alemanha?) e carece de demonstração. Nesta perspectiva o acréscimo ao sistema anula potência às partes do sistema, o que significa, contra toda a visão empírica, que uma França sem a Itália, ou uma Inglaterra sem a França teria exactamente o mesmo valor.
Avancemos um pouco mais e vejamos que a coisa viola não só a lógica, mas igualmente o sentimento das pessoas. Sob o ponto de vista sentimental verifique o leitor se se sente exactamente igual ao seu vizinho. Se não se lhe sente superior em certas coisas ou inferior noutras e se não faz um balanço total dessa comparação que lhe é favorável ou desfavorável? Pense se os sentimentos de que é provido não tem graus e se a morte de um desconhecido de Antalya o afecta menos que a de um familiar amado.
A igualdade impõe-se como uma realidade jurídica na nossa época, mas sai das suas fronteiras quando se intromete no sentimento, na arte, na cultura, na vida profissional, na competência técnica. Sendo sobretudo jurídica, a igualdade é uma imposição, uma contrariedade imposta por coacção. É uma escolha de uma época, mas uma escolha que, com todos os seus méritos, tem uma capacidade opressiva, fomentadora de injustiça, e serve facilmente de esconderijo para ressentimentos e frustrações.
Piaget mostrou relativamente bem, usando a teoria dos grupos, que a ideia de identidade na criança surge com a ideia de reversibilidade. Porque a primeira noção é sempre a da irreversibilidade (o papel caiu no chão e não sobe de novo, o cão morre e não volta a nascer) a ideia de igualdade é sempre esforço de imaginação e consequência de uma recusa, e mesmo de revolta.
A procura de igualdades gera sempre uma compressão. Dizer que uma soma é igual a um resultado é uma fundamental conquista da matemática, mas obscurece o facto de uma coisa ser uma soma e outra ser um resultado. Serei a ultima pessoa a negar a grandeza à matemática e bem pelo contrário sou dos que mais deplora a incultura neste campo. Mas da mesma forma que não usaria pautas musicais para estabelecer uma linha de produção, por mais que goste de música e de produção, não aceitaria nunca que o que é meramente algébrico seja a visão total da realidade.
A igualdade, quando sai do seu campo, ou seja o campo da redução, da compressão e da imposição não é apenas tirânica. É mito. Uma das histórias infantis que se contam no espaço público é exactamente o da que antigamente (advérbio indefinido por excelência) não havia igualdade mas hoje em dia há. Um taxista francês afirma que é contra a reforma da lei laboral porque isso viola as conquistas da Revolução Francesa. Como se a Revolução Francesa tivesse sido muito positiva para a situação dos trabalhadores. O grave é que o homem público não apresenta um grau de diferenciação maior que o taxista francês. A igualdade é uma espécie de fada madrinha num conto infantil que lança com a sua varinha de condão encantos por sobre toda a realidade. Os cultores da igualdade são assim uns aspergidos com pós mágicos em cuja eficácia acreditam, mas que em boa lucidez bem sabemos que não lhes retira o estatuto de abóboras.
Da próxima vez que ouvir alguém dizer que todas as culturas são iguais e que todos os homens são iguais melhor perceberá o leitor que afinal está a criatura a afirmar que tem medo da morte e se sente revoltado pela mudança e pela diversidade do mundo. Não profere juízo de facto, mas impõe um diktat. Tem alma de ditador instalado, que impõe aos outros o que apenas devia estar nas leis e em algum comportamento social. Visa instalar no coração alheio os seus medos e as suas revoltas. Está falando da sua fada madrinha, o que é comovente, mas que deve deixar as mentes adultas preocupadas com tanta falta de lucidez. E apenas quer impor o império do seu ressentimento. Olhando para ele, temos de lhe dar razão. Tem boas razões para o sentir.
Cavaco Silva construiu o seu cv político explicando ao Povo que estava apenas programado para o sucesso. Do armazém de figos, para as boas notas do liceu de Faro; do curso superior em Lisboa, para o doutoramento em Inglaterra; de ministro das finanças de um Governo efémero, para Primeiro Ministro de um Governo íman de riquezas europeias. Contou-nos a sua história como se fosse a de uma escadinha em que a derrota das Presidenciais de 1995 foi o patamar para um novo lance. O Povo acreditou e deu-lhe a confiança do voto sentindo-se, assim, co-vitorioso de sucessivas eleições.
