sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O desprezo na cultura europeia

Todas as grandes civilizações desprezam. Este facto é esquecido. Mas o que tem de específico a cultura europeia é isso contradizer a divindade de amor do cristianismo. O turco e o árabe desprezavam o europeu, mesmo muito depois de este ser mais civilizado que ele. Os gregos e romanos desprezavam o bárbaro, tanto quanto eram capazes de o admirar (Heródoto e os egípcios, César e os gauleses, Tácito e os germanos).


O que torna específica uma cultura é saber quem ela despreza e o quê.

Não é hoje muito bem pensante falar no desprezo como constitutivo de uma civilização, mas isso diz mais sobre a nossa época e a sua falta de lucidez que sobre a civilização enquanto tal.


Na Europa despreza-se o grão-vizir turco porque, por mais rico e poderoso que seja, é um escravo. A hereditariedade é um valor tradicional europeu e ainda hoje em dia não vi ninguém chorar de desgosto por ter grandes antepassados, mesmo que nem sempre isso lhe encha a vida. Pelo contrário vejo pessoas que douram o passado familiar.


O grande despreza em geral o pequeno: “Odeio a multidão profana e mantenho-a longe de mim “, diz Petrónio no Satiricon. Chateaubriand dizia que deveríamos ser parcos no desprezo tendo em conta a grande quantidade de pessoas que o merecem. “O ladrar dos cães que se ouve debaixo de nós apenas significa que estamos a cavalo”, dizia Goethe. “O governo da maioria é a ditadura da canalha”, dizia Voltaire. “Tudo o que brote da mera indigência é desprezível”, afirmava Schiller. As citações poder-se-iam multiplicar até ao infinito.

O nobre despreza o plebeu, o burguês o proletário, o rico o pobre, o liberal o revolucionário (e vice-versa), o democrata o monárquico, os países desenvolvidos os menos desenvolvidos, os organizados os ineficientes.


O desprezo é inevitável em qualquer civilização. Toda a cultura tem algum grau de autoconsciência. Mas se é uma civilização esta autoconsciência é sempre composta em maior ou menor grau de desprezo.


O que tem de específico o europeu? Despreza o ignóbil, ou seja o não nobre. Ou seja, o homem sem passado.


Despreza o não livre, ou seja o turco, o oriental em geral. O grego não se prosterna perante o rei (um sobrinho de Aristóteles pagou com a vida por não o ter feito perante Alexandre Magno). O romano não quer um rei (o nome de imperator, de princeps surge como sucedâneo da realeza). O cristão vive uma religião de libertação e não de submissão.


Despreza o uniforme, a platitude do Oriente. Mesmo que tenha sido por vezes injusto, encontra nas outras culturas a prevalência incontestada de um princípio. Guizot bem descreveu a Europa ao afirmar que nela nenhum princípio imperou inequivocamente sobre o outro, papado sobre império, nação sobre Europa ou feudo, linhagem sobre riqueza, monarquia sobre nobreza. Mesmo que a paisagem seja variada, os costumes diversos, as cores folclóricas e diversificadas, o europeu encontra no turco, no árabe, no chinês, o uniforme. Aquele em que um princípio venceu sobre o outro, em que a religião, a sociedade, as classes dominantes são dominadas pelo poder político.


Escusado será dizer que muitos destes princípios podem sofrer uma crítica cerrada, mais ou menos precisamente científica. A questão não é tanto de se ver a justiça da visão de uns ou de outros, mas verificar que existiu e os seus efeitos. Se os seus efeitos são Dante e Camões (“terras viciosas de África e Ásia” ou o “o Turco oriental”), Bach e Racine, Fourier e Gauss não estamos tão mal quanto isso.


O desprezo não afasta a sede de conhecimento. Poucos povos desprezaram mais os outros que os gregos e inventaram a geografia humana com Heródoto. Não afasta a reflexão sobre a diferença. O chinês e o japonês ignoram o mundo exterior, mas o grego descobre-o e o romano gere-o, e o europeu faz uma e outra coisa. Não afasta sequer a admiração. O grego despreza o bárbaro e admira o egípcio, o romano despreza o grego politicamente e idolatra-o culturalmente, o europeu despreza o turco, mas fica fascinado com o indiano ou o chinês. O europeu sabe ser superior a sua cultura e por isso inventa a antropologia cultural. Muitos povos ainda hoje em dia têm de vir à Europa para conhecerem a sua História. E um egípcio nada pode estudar do seu passado sem Champollion ou Maspero.


O europeu tem no entanto, uma especificidade. A sua religião não é apenas de irmandade, em que todos são filhos de Deus. Porque pode haver filhos preferidos, por serem detentores da primeira mensagem (judeus) ou da última (muçulmanos). É uma religião de amor. O que tem de específico a cultura europeia não é ter desprezo (todas têm), mas a contradição entre o seu princípio (cristianismo) e o seu funcionamento (desprezo). Ironia da História é precisamente esta contradição que vem ao de cima quando a Europa está no auge do seu poder.

A decadência da Europa é um duplo suicídio: guerras fratricidas (as guerras mundiais) e auto-culpabilização. As teorias contra a Europa são forjadas na própria Europa. No império turco nada vemos disto. No fim dos impérios árabes nada vemos disto igualmente. É o princípio cristão, degenerado, mal interpretado, a gerar o auto-martírio da Europa.


O desprezo está lá, mas vira-se contra a própria civilização. A Europa é colonialista, imperialista, tem “responsabilidades históricas”. Nenhum império em encerramento fez tal passo. Os turcos sentem-se vítimas do sultanato e têm orgulho do seu passado. Os europeus sentem-se culpados das suas glórias.


Que se retira de relevante para a política actual? É que mais uma vez, cristianismo e paganismo indo-europeu moldam a Europa, de uma forma de ou de outra, ainda hoje em dia, como desde há dois mil anos. O princípio cristão vence parcialmente, na forma da culpa em relação aos outros e na sua perpétua justificação (“não julgues (os outros) para não seres julgado”). O princípio pagão vence pela admiração da grandeza (alheia, mesmo que ficcionada) e pelo desprezo (próprio).


Jogando sempre com as mesmas peças a Europa reproduz-se a si mesma, manipula sempre os mesmos símbolos. A questão é que o faz hoje em dia de forma perigosa. Nunca se mete a faca à boca, nem se vira o garfo contra si mesmo. Porque a sanidade mental exige o “como te amas a ti mesmo”... E um salutar desprezo, sobretudo pelo que é desprezável em nós e nos outros. Se se amam os outros apenas porque nos desprezamos nós mesmos o amor pelos outros está inquinado deste desprezo, é o desprezo e não o amor a sua causa. Justiça, em suma.


Alexandre Brandão da Veiga




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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Arrependimento e exame de consciência

“Nunca me arrependo do que faço”. Quantas vezes ouvimos esta frase. Da mesma maneira que é de bom tom dizer-se que se tem dúvidas, ao mesmo tempo é mau manifestar arrependimento pessoal. Alguns têm de pedir desculpa, mas estes são bem seleccionados. São os culpados oficiais do século. As igrejas cristãs e sobretudo os católicos, a Alemanha e em geral a Europa.

Quanto aos restantes, se disseram que se arrependem, sobretudo a título pessoal, suscitam o constrangimento, ainda mais que a condenação.


Quando saem ministros porque acusados de baixas movimentações e afirmam que têm a consciência tranquila, como se a sua consciência fosse estalão para seja quem for, quando saem governos do poder e nem um mea culpa aparece na praça pública, começamos a verificar paradigmas que mudaram de forma, mais que evidente, despudorada.

Como é possível um ser humano nunca se arrepender? E ter sempre a consciência tranquila? Só vejo uma explicação simples para isto: é que não se arrepende porque as dúvidas públicas são apenas um bom alibi para desresponsabilização. Em bom rigor não tem dúvidas, mas ignorância, nem humildade, mas sede de se escusar à responsabilidade. E uma consciência só é plenamente tranquila na perfeita santidade, o que sem medo de acusações de difamação posso afirmar ser impossível na maioria dos homens públicos. Ou caso seja absolutamente inepta.

Não se arrepende quem não assume responsabilidades, assenta na tranquilidade o de consciência inepta. O que dizem então tais pessoas? Estão a afirmar: “eu fujo às responsabilidades e a minha consciência é inepta”. Num rasgo de generosidade dou-lhes toda a razão, mas é esta razão que lhes tenho de dar que me preocupa.


Tentemos ir um pouco mais fundo. Que falta a estas pessoas? Que lacuna lhes define a vida?

Só há arrependimento havendo exame de consciência. Nós entendemos estes conceitos como fazendo parte da nossa paisagem natural, ao ponto de os querermos por vezes recusar do espaço público. A sua recusa tornou-se mesmo em doutrina oficial dos bem-pensantes. No entanto, estes conceitos levaram milénios a ser elaborados.


Ulisses não faz ainda exames de consciência autónomos. Precisa da deusa Atena para os fazer. É a primeira pessoa na História, porque percebe pela primeira vez que em certos momentos está sozinho para fazer esses exames de consciência. Ao contrário de Job, que pergunta a Deus para depois aceitar, Ulisses discute com o divino. Em ambos os casos a consciência constrói-se sempre por referência a uma entidade externa, pelo menos simbolicamente externa.


Com os estóicos este exame de consciência ganha outra acuidade e perfeição. Em Séneca já se encontra profundamente elaborado. Em certo sentido o exame da consciência é para a alma o que é a água canalizada para a saúde física. Pode-se viver sem ela, mas o preço pago em mortes prematuras é muito grande. O exame de consciência é o primo do aqueduto romano.

Com o cristianismo o exame de consciência assume a sua máxima dimensão. As exigências morais do cristianismo são as maiores que jamais se viram na História. “Amar o inimigo” como prova da moral estabelece uma bitola de moral acima das possibilidades humanas comuns. “Vós sois como deuses”, lembra o Apocalipse. E eis que por via do exame de consciência, também dele, se exige que o homem se divinize (os ortodoxos orientais têm estes conceitos mais vívidos que nós).


O exame de consciência não implica apenas uma especial relação com Deus. Muitos agnósticos e ateus receberam esta herança antiga e cristã. Carreia antes do mais uma determinada visão do homem. Uma visão em que a sua alma, a sua atitude, os seus sentimentos, os seus actos, são maleáveis, dependem em parte pelo menos do seu poder. Em que o ser humano é agente. O homem que faz exame de consciência não é apenas um homem com capacidades de conhecimento que se desenvolvem. É um homem que sabe poder agir sobre si mesmo, que tem poder de se modificar, que não é um mero balão ao vento.


Daí que se arrependa. Arrepender-se é travar caminho, mudar de direcção. Diz o clássico princípio da inércia que um corpo se mantém na sua situação de repouso ou movimento se não for perturbado por nenhum força externa. O arrependimento é o que em física se chama impulso. Não se vê aí logo a mudança de direcção, mas é o primeiro requisito para que ela exista. Quem é incapaz de arrependimento vive uma antropologia rígida, pouco livre, em que nada do que é é passível de ser moldado. É um hirto, nada mais.


Que conclusões retiramos? Que os homens públicos apenas querem fugir às responsabilidades, têm consciências ineptas, são passivos e inertes, incapazes de mudança de direcção e consequentemente de melhoria. É o que nos dizem, pelo menos.


Ao contrário do que se pensa nunca há em absoluto excesso de exame de consciência nem excesso de arrependimento. Tudo depende das forças de cada qual. Em muitos casos há excesso de leitura, porque a leitura em vez de enriquecer apenas confunde. Noutros há excesso de reflexão que apenas esgota sem permitir conclusões. Mas se de excesso se trata apenas se refere às capacidades de quem exerce a actividade. Uns lêem gozosamente tratados sobre cálculo tensorial, outros embatem contra uma simples conta de somar. Uns fascinam-se com a beleza da Odisseia lida no original, outros têm dificuldade em perceber de quem é prima certa personagem da vida social.


Mas se o excesso não se mede em absoluto, mas apenas relativamente às capacidades de cada qual, se afirmarmos e insistirmos nessa afirmação que há excesso de arrependimento e de exame de consciência, que este excesso rapidamente se atinge, apenas estamos a dizer que quem exerce é destituído, nada mais.


É evidente que quem pronuncia tal tipo de afirmações não o faz inocentemente. Pretende afirmar que é moderno, descontraído e, usando linguagem pouco em moda, puro como um cordeiro. Ser moderno ou descontraído nunca foi para mim qualidade ou defeito. É um estado que em nada é meritório se apenas resulta de falta de alternativa e mesmo condenável se apenas é fruto de preguiça ou má fé. É mais fácil ser como a maioria quer que sejamos que de outra forma. E quanto a ser puro como um cordeiro não deixa de ser curioso como quer os resultados mais arcaicos quem recusa os meios mais antigos.


É que em verdade do que tratamos é de gente sem sofisticação. Perdeu uma técnica porque já não se lembra onde pôs a alma. Habituados a falar para a arena pública sem ter público que os ouça, é o vazio que contemplam e assim acham que vai o mundo e a sua alma.


Que não vejamos actos de contrição por parte dos homens públicos é significativo. Que a sua consciência tenha andado sempre tranquila igualmente o é. São regressões, a períodos pré-cristãos e pré-antigos. Sem querer insultar os trogloditas, a sua relação com a própria alma a eles regrediu. E se alguém toma decisões ou emite opiniões que influenciam a minha vida não se arrepende, tenho boas razões para andar em preocupação. Não vão mudar de direcção, senão houver uma força externa a que isso os obrigue. Aí é o vento que os domina, e afinal é ele quem nos governa.

Alexandre Brandão da Veiga


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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Ineptos e anti-heróis

Para as pessoas que passaram pelo sistema de ensino depois do fim dos anos de 1960 a figura do anti-herói é sobejamente conhecida. Foi-nos inculcado o culto do anti-herói. O herói era um enfado, plano, demasiado liso, preferia-se a complexidade do anti-herói, que reunia o fascínio do herói com uma frescura que este não tinha.



É evidente que este culto não é neutro sob o ponto de vista ideológico nem nos seus efeitos. Criou gerações que se empenhavam a fazer mal para emularem os anti-heróis, ou que se compraziam com o facto de fazer mal as coisas porque tinham exemplos ilustres que os justificavam.



O problema desta mitologia é que esquece muitos aspectos da realidade. Vejamos quais.



Em primeiro lugar o herói. Etimologicamente é palavra que se parece ligar ao de arete grega, de virtude. O herói é o nobre, o melhor. O destino do herói raras vezes é feliz e é sempre trágico. Mesmo que acabe em apoteose como Hércules, ou em destino cósmico, como os Dióscuros Castor e Pólux, o seu destino é atravessado de imensas feridas, trabalhos ou decisões. A destruição do herói é correlato da destruição de todos os paradigmas de nobreza, da ideia do melhor. Muitas vezes o herói falha, perde. Antígona é desses. O que caracteriza o herói não é o sucesso, mas a grandeza, a ânsia pelo melhor e a plena disposição de se sacrificar pelo melhor.


Em segundo lugar os ineptos. A Historia está cheia de personagens ineptas. Esta são trazidas mais pela literatura que pela mitologia. É certo que a mitologia tem alguns exemplos. Cidipe que pede o melhor para os seus filhos e faz com que estes morram em plena flor da juventude porque é esse o melhor destino, como conta Sólon ao rei da Pérsia. Igualmente o amante de Aurora para o qual esta pede a imortalidade sem pedir a eterna juventude, pelo que este envelhece sem parar, inexoravelmente, mas também sem nunca morrer. Tchekov é o grande descritor dos ineptos. Nos seus contos Cervantes cria o paradigma do inepto com Don Quixote. Os ineptos são as figuras mais diversificadas que há, talvez as mais próximas da humanidade comum. Daí que não tenham sido centro de interesse da mitologia. Uns têm a exigência dos heróis como Don Quixote, mas estão condenados pelo riso, porque a sua inadequação é mais saliente que a sua auto-exigência. Outros são apenas pessoas comuns, medíocres, que são apenas ineptas, mesmo que não exijam muito da vida. Cómicos, trágicos, um pouco de tudo, são condenados pela disparidade entre o seu projecto de vida e o projecto que a vida para eles tem.


E só em terceiro lugar os anti-heróis. O que caracteriza o anti-herói é a adequação consigo mesmo e com o seu destino. Por isso para mim Don Quixote não é um anti-herói. O anti-herói é sempre bem sucedido, ou tende a sê-lo pelo menos. Atravessa a vida de forma mais ou menos tortuosa, mas por mais aventuras que viva, por mais dificuldades que atravesse, a vida é-lhe amena, é-lhe pelo menos favorável. A vida sorri-lhe. O maior exemplo de anti-herói na cultura popular dos últimos anos é a Gabriela de Jorge Amado. “Eu nasci assim, vou ser sempre assim” podia ser dado como lema da cultura da segunda metade do século XX: os heróis picarescos que são dados como seus antepassados são mau exemplo. Porque na maioria dos casos os heróis picarescos são mal sucedidos, são apenas ineptos. O facto de a nossa época querer arvorar ineptos em anti-heróis é aliás significativo. Tudo é válido, desde que tenha por efeito recusar os heróis.



Passemos à História. Épocas houve em que a gratidão da Europa em relação a Dom João de Áustria e ao príncipe Eugénio de Sabóia, sobretudo o último exemplo de moderação e sentimentos nobres, a quem devemos a libertação de Viena contra os turcos, ou Jan Sobieski, grande herói polaco da mesma época, ou o culto dos heróis nacionais era motivo evidente, tópico corrente da nossa cultura. O mesmo se passa com cientistas, políticos, escritores, religiosos, que foram heróis da cultura europeia, ou das suas culturas nacionais. É evidente que tudo sofre o risco de cair na sua caricatura. Os heróis do trabalho soviético, a dedicação pia a heróis nacionais cujo papel obnubila outras personagens, estes e outros exemplos explicam-nos que o culto dos heróis não é isento de riscos. Mas que banalidade. Nada do que é vivo o é.



Parecendo flutuar para além destes paradigmas está o super-homem de Nietzsche. Nada tendo a ver com o cruzamento de malabarismo, eficácia tecnológica a instituição de caridade que é o personagem da banda desenhada, o super-homem de Nietzsche é o homem que se supera, em nome da vida, e para além da vida. Mas se bem virmos a Nietzsche segue-se um mundo de equívocos. É apropriado por nazis, por marxistas mas sobretudo por uma mentalidade delicodoce dos pequenos-burgueses que se querem ver isentos de uma moral tradicional porque isso lhes facilita a vida. Mas o super-homem de Nietzsche nada tem de fácil, é trágico, é apenas mais uma das formas do herói.



Entremos no espaço público sem receio de sujarmos os pés. Não sendo por enquanto mesquita podemos ir calçados dos nossos altos coturnos e observar ao longe os escombros que esta paisagem nos mostra. Obviamente que apenas veremos versões reduzidas destes paradigmas.


O discurso do político médio está longe destes paradigmas. O discurso expresso entenda-se. Tirando os extremos à esquerda cultivando os anti-heróis de pacotilha e à direita os heróis de fancaria, o discurso político quer-se razoável, anti-mitológico, ponderado.



Mas uma coisa são as modulação das palavras, outra o que estas dizem e outra ainda as acções. Quando encontram oposição são vítimas de cabalas, como Antígonas defendendo o que é direito contra tudo e contra todos. Quando atacam vestem a armadura guerreira do conquistador ousado como Hércules a caminhar par a apoteose. Perante a guerra fazem-se de heróis.



Perante a prova por excesso, o processo judicial, fazem-se de ineptos quando o papel de heróis, vítima ou conquistador já não lhes quadra. Ignoravam – dizem – que essas seriam as consequências, que nada sabiam sobre a corrupção.



Mas estes são apenas papéis sabiamente doseados ou não. Em boa verdade o seu comportamento é do anti-herói. Uns mais eficazes, outros menos eficazes, fazem atravessar o espaço público da sua auto-satisfação. Adequam-se a um destino de permanente desadequação. Estão muito acima do que imaginaram algum dia, não foram formados para a alta esfera, mas apenas para a oblonga baixeza, Mas passeiam-se no passeio público sendo simplesmente o que são. “Sapato não, seu Nacib”, parecemos ouvi-los dizer.



O problema é que se o anti-herói sem poder pode ser comovente, como a tonta da Gabriela, quando o tem torna-se grotesco e perigoso. O anti-herói não vive, sobrevive, e escora a sua concepção da política na sobrevivência. Para ele o cruzado morto em batalha é um perdedor, um falhado e não alguém que se cobriu de glória. Para ele Aquiles é um exagerado, um pateta, Ulisses um mero turista. Se reza a Cristo é para lhe pedir ajuda, mas não para o acompanhar na sua Paixão, que considera desajustada e pouco razoável.



Ensinados para serem anti-heróis, ou seja nunca aceitando esse título, os mesmos no espaço público mostram ser bons alunos, bem endoutrinados pelo sistema educativo que tão carinhosamente os formou. Se mandam apagar dos programas escolares os paradigmas clássicos não é por terem horror a paradigmas, mas por adorarem com profunda devoção (na medida das suas forças, entenda-se) altares de onde constam Ti Maneis, Ti Jaquinas e agora Bernados e Marias do Mar. É a esse altar que incensam e nos imolam. “Adaptem-se” é a sua palavra de ordem, “sejam conformes”. Se forem de esquerda façam happenings, se de direita procissões, em ambos os casos vigílias contra injustiças que nunca existiram. Tudo desde que desprezem os heróis, e tendo na melhor das hipóteses condescendência em relação aos ineptos.



Deixaram de ser comoventes, estes espécimes que encontramos na savana pública. Os seus paradigmas são o chacal e a hiena, para os que sabem voar o abutre. Se virem esta fauna nos meios de comunicação social podem reconhecê-los facilmente. O seu riso é de hiena, voam para procurar carne caçada por outrem. O seu espaço natural são os despojos. E tudo o que encontram vivo – é superior às suas forças – transformam-no em despojos. Quanto à Europa esta chusma já a dilacera na esperança de a transformar em carcaça. Apoiantes ou opositores oficiais da Europa confundem-se neste festim. Uns por a quererem encher de parasitas, outros por lhe querem tirar a seiva. Não há reais diferenças entres eles, porque só num mundo feito despojo se sentem em casa.


Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A aristocracia é necessária?

Por vezes há alguma tendência a condenar os lugares comuns só por o serem. Ora o que condena um lugar não é a sua natureza comum, mas a sua injustiça. Se são com frequência condenáveis é porque a injustiça é com frequência muito comum. Mas existem lugares comuns cuja valia se percebe melhor quando desaparecem, quando o deixam de ser.

Era lugar comum citar a tese de Políbio quando este afirmava que a origem da excelência e do poder do sistema romano se encontrava no facto de conciliar democracia, aristocracia e monarquia. Todos os sistemas equilibrados, se bem repararmos, distribuem de forma equitativa o poder entre todos, alguns e um só. O poder do presidente da república não é igual ao do merceeiro da esquina, o poder da massa da população não é igual ao dos que vivem nos vários círculos de decisão. É assim em todas as comunidades, a questão é a de saber em que graus e com que justiça se distribuem esses poderes.


A aristocracia não é apenas um conceito de poder. Nem um conceito quantitativo. É qualitativo. É o poder dos melhores. Não vou discutir a questão de saber se tem de haver a formação de novas aristocracias. Nem sequer directamente o papel das tradicionais aristocracias hereditárias. Aquilo que quero salientar é a própria importância da ideia de aristocracia numa sociedade, que papel pode desempenhar.


Uma sociedade não vive apenas quatro ou cinco anos. Uma das técnicas de limitação do poder é a sua limitação temporal. Mandatos limitados no tempo, prescrições, toda a técnica do Direito Público desemboca de uma forma ou de outra nas limitações temporais do poder. Facto positivo. Mas nada na vida é só positivo. O perigo deste sistema é o da impermanência. O do império da impermanência. Nada existe que não influencie de uma forma ou de outra o longo prazo. E o mais importante só nele se instala. Quando se fala em reformas estruturais e da incapacidade de muitas democracias de as fazerem é desta incompatibilidade entre mandato (poder) e tempo (serviço) que se fala. Entre o melhor e o mais eficaz a curto prazo opta-se pelo segundo.


Os economistas têm vindo a analisar a influência dos ciclos eleitorais na gestão da economia. Mas os ciclos eleitorais têm influências muito mais vastas. Na educação, na saúde, na justiça social, existe sempre a tentação de sacrificar ao curto prazo o que deveria ser feito no longo.


Aristocracia não é só governo dos melhores, mas governo pelo melhor. E o melhor é por definição um projecto inatingível na modalidade e no tempo. O aristocrata projecta-se assim sempre no infinito e na eternidade. O que faz é com frequência absurdo para a sua vida, para o pequeno espaço de tempo. Porque a sua meta não obedece a ciclos de poder.


Damos como evidente associar aristocracia a hereditariedade. Esse é mais um dos aspectos que demonstra o nosso etnocentrismo e a dimensão pagã da civilização europeia. Não se encontra no cristianismo nada que justifique uma aristocracia hereditária. E no entanto, a Europa foi governada mais de 1400 anos por esse sistema. É evidente que em todos os sistemas há tendência à reprodução das desigualdades sociais, tendência maior ou menor. O filho do burguês tem sempre mais hipóteses de vencer que o do proletário. Mas a hereditariedade como factor de posição social é típica do paganismo, sobretudo o indo-europeu. Platão era nobre porque descendente de Codro, rei de Atenas, Heraclito era “rei”, Júlio César porque descendente de Iulus, filho de Vénus, os sistemas de poder germânicos e celtas, embora não baseados na primogenitura, eram baseados na descendência.


Em países não europeus, como a Turquia e a China, nada disto se passa. Um escravo passa a grão-vizir, o mandarim pode ser filho do pobre. Mais uma vez saliento: a tendência para a reprodução de desigualdades sociais existe sempre. Mas a hereditariedade como fundamento não existe. Na China eram nobilitados os ascendentes quando o era alguém, não forçosamente os descendentes. Ao contrário do que se pensa, a hereditariedade contribuiu para a atenuação de desigualdades sociais e não o contrário. Nunca como nos regimes orientais foi tão escandalosa a má distribuição de riqueza. Nunca como no capitalismo.


A perenidade no tempo pode ser incarnada por uma ideia transmitida de múltiplas formas. Assim fizeram as repúblicas. Mas a verdade é que os mitos de continuidade que criaram foram sempre frágeis a longo prazo sem aristocracias. A república romana vive da sua aristocracia, mesmo que absorvendo novos membros. A democracia ateniense tem como patronos aristocratas (Sólon, Clístenes, Péricles) a república francesa mais longeva nasce da aceitação de padrões aristocráticos. Portugal, república durante 90 anos, ainda tem horror ao verde e encarnado como de mau gosto, apesar de ser de bom tom em Itália.


Os aristocratas não são melhores que os outros a fazer coisas, nem mais inteligentes, nem mais estúpidos. Mas foram sempre melhores a escolher coisas. Escolheram Mozart e Beethoven, e mesmo Strawinski. Projectando-se no eterno, não têm de fazer escolhas para agradar no curto prazo. Podem-se dar ao luxo de proteger Molière contra a vontade dos pudibundos.

E são melhores nos modos. Quem apenas luta para sobreviver ou para subir tem menos tempo para o modo. Se a opção é entre comer ou não comer apenas se discute do sim e do não. Quem carece de subir na sociedade usa o modo como instrumento, mas não como postura.


Infinitivos, modos, optativos. Categorias gramaticais que se esvaem na nossa época. Categorias gramaticais que mostram a riqueza de perspectivas de vida que a aristocracia nos trouxe. As nossas línguas indo-europeias, tanto quanto a erudição o pode retraçar, são línguas aristocráticas, enriquecidas pela aristocracia.


O que se perde com a perda da aristocracia? Não a comida, que abunda. Não a saúde, que é medicalizada. Nem forçosamente a ligação à vida, porque o povo também a tem. O que se perde é tão simplesmente a possibilidade de viver a vida em civilização. Civilização e vida opõem-se sem aristocracia. É quando esta perde o poder que se percebe a sua oposição. Antes uma era consequência de outra.


Daí que o perigo na política seja o de se ter de optar hoje em dia entre uma ou outra. Na melhor das hipóteses. Porque se corre o risco de perder ambas. Os homens públicos já são destituídos de civilização, e muito menos a incarnam. A sua ligação à vida é mediatizada e não serve de paradigma. O grave ainda está para vir. É que se identificam com o mundo que os rodeia, porque esse mundo está cada vez mais como eles. Sem seiva, sem infinitivo, nem modo, sem optativos. Apenas um indicativo, um presente fugaz, um pequeno futuro, um pretérito estreito. A redução gramatical está na medida da redução da vida possível. Ou seja, não vai além do simplesmente indicativo. Ignora a possibilidade, a alternativa e a escolha. Sem civilização pode florescer o selvagem. Nela, sem aristocracia, impera o mendigo da vida. É esse que nos aparece nas televisões.


Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Islão civilizador

Neste modo de pseudo-exotismo que invade a Europa ouve-se falar com frequência no papel civilizador do Islão. Talvez seja bom ter um quadro mais adequado da coisa. E perdoem-me aqueles que se queixam que falo mais de História que de política, mas tenho pena que sejam aqueles que falam de política que mais se aventuram num terreno em que são ignorantes, o da História.


O islão é criação de sarracenos. O sul da Arábia, a Arabia Felix, era na altura zona de civilização sofisticada (o mesmo se poderia dizer dos árabes da grande Síria na época helenística e império romano, como os nabateus e iturianos, por exemplo). Não um grande centro de criação de civilização, mas zona que sofreu as múltiplas influências do Egipto, do Império Romano e mais tarde bizantino e das correntes do tráfego do Oceano Índico. O sul da Arábia, embora não centro de expansão da civilização, era região efectivamente civilizada no século VII d. C., quando surge o islão.


No entanto, o corpo central da península arábica, onde nasce o islão, é zona desprezada pelo sul da Arábia, que a considera bárbara, e pelos grandes impérios circundantes, o persa e o bizantino. É a zona dos sarracenos, povos nómadas ou semi-nómadas, de fraca criação cultural.


Ao contrário do que se diz, o islão não civilizou o espaço cristão, mas foi o inverso que se passou. O cristianismo é seis séculos mais antigo que o Islão. Maomé é influenciado pelo cristianismo, crê-se que de tipo nestoriano, e pelo judaísmo. Na sua base religiosa, na sua matriz cultural de base, o Islão deve ao cristianismo e não a inversa.


Continuemos, com o risco de chocar os bem-pensantes. Quando o islão se torna conquistador, muito prematuramente, não partiu para conquistar hordas bárbaras. Conquista dois impérios de brilhante civilização, muito superior à sua: o império bizantino cristão e o império persa mazdeísta e com uma forte minoria cristã nestoriana, nomeadamente. Quando o islão conquista este espaço não tinha estruturas nem administrativas, nem culturais, nem políticas preparadas para governar tão vasto império. Vai beber ao império cristão e ao persa o seu desenvolvimento civilizacional. Não é por acaso que São João Damasceno, santo ortodoxo para o Oriente e para os Latinos, foi grão-vizir. Os sarracenos não tinham outra alternativa.

O mérito do primeiro império muçulmano foi fazer uma síntese de duas grandes civilizações, o império cristão bizantino e o persa. Entrou em zona mais civilizada que a deles, a eles deve a sua civilização.


O mesmo se passa com o segundo grande movimento de expansão do Islão, o turco-mongol (esqueço agora o islão relativamente marginal, como o dos curdos, e afegãos). Quais são os seus pontos de invasão? A Índia, zona mais civilizada que as hordas turco-mongóis. Ou a Europa e Bizâncio, zonas que civilizaram, em conjugação com a civilização árabe, os turcos. Mais uma vez, a força de conquista islâmica não se abateu sobre povos primitivos, mas sobre povos ainda mais civilizados. Foram os conquistados que civilizaram o Islão e não o inverso.


Vejamos um terceiro ponto de actuação do Islão. Na África norte ocidental e em geral da África negra. O Islão trouxe alguns paradigmas de civilização novos para esses povos, sem dúvida. Mas eram povos marginais às grandes correntes históricas e não o deixaram de ser. Mouros e núbios já tinham sofrido a influência de impérios egípcio, púnico, romano, pagãos, cristãos. De marginais que eram, marginais ficaram.


E um quarto ponto, a Europa. O domínio tártaro, turco-mongol, em suma, da Rússia. O tempo do governo da Horda de Ouro não é tempo de expansão cultural na Rússia. O domínio turco nos Balcãs fez dos Balcãs a zona mais pobre e subdesenvolvida da Europa. A Hungria divida entre turcos, Habsburgos e o principado da Transilvânia, tem a sua zona mais pobre na dominada pelos turcos. E o principado só se desenvolve quando sai do protectorado turco para passar a mãos austríacas.


O Islão teve como efeito a miscisgenação de culturas já por si desenvolvidas e teve o mérito de criar grandes espaços de circulação de culturas. Comunicação e miscisgenação são as suas palavras-chave. Mas nunca elevação.


Vejamos o contra-teste. O cristianismo parasita uma grande civilização como a romana. É natural. Qualquer religião começa por parasitar um espaço já circundante. Mas quando se expande para zonas primitivas, ou mais primitivas, cria o grande cristianismo irlandês, do séc. VI, a conquista da Germânia pagã, das regiões eslavas e magiares faz surgir países com uma imensa cultura. Não viveríamos na mesma cultura sem os nomes de Leibniz, Gauss, Alberto Magno, Dürer, Bach, Tolstoï, Liszt, Brahms, Cantor, Kant... A lista é sem fim. O cristianismo entra nas Américas e um continente com civilizações de desenvolvimento irregular, desde o mais primitivo ao civilizado, passa a fazer parte de um mesmo padrão civilizacional. Tirando um período que vai do séc. VIII até ao XI a superioridade civilizacional do Islão em relação a certas zonas do cristianismo (não em relação a Bizâncio) inexiste. Ou seja, apenas durante quatro séculos. O cristianismo teve seis séculos em que teve o papel de comunicação e miscisgenação seguidos de mais de mil anos de elevação civilizacional e dos quais mais de seis séculos de notória superioridade civilizacional.


A rede de comunicações mais vasta do mundo foi criação europeia, cristã, as maiores fontes de miscisgenação foram europeias cristãs, e as maiores fontes de elevação civilizacional foram europeias, cristãs. Mais nenhuma cultura transformou o descendente de camponês alemão em Mozart e Bach, ou o nobre caçador russo em Turgueneev ou Tolstoï.

Adivinho uma objecção do leitor. O islão elevou turcos, mongóis e tártaros. A resposta é bem algo mais complexa. O judaísmo e o cristianismo, bem como o hinduísmo e as religiões chinesas tiveram semelhante papel. Mas os turco-mongóis pertencem ao imenso buraco negro que é a Ásia Central, constituído por povos simpáticos quando não tem poder, mas que deixaram na História não pensamento nem glória, mas apenas impérios guerreiros e destruição das quatro grandes fontes de cultura da humanidade: a Europa, o Levante, a Índia e a China. Se o leitor pretender viajar de acordo com a física turca que use um burro e esqueça o avião, se pretender fazer cálculos de acordo com a matemática mongol que use os dedos e não um computador. E a cozinha huna é bem simples. Coloque o leitor carne crua entre as pernas durante um dia até a amolecer enquanto cavalga e depois delicie-se com esse petisco. Convenhamos: elevar turcos e hunos não é tarefa difícil.


Se invoco esta questão, tenho de o lembrar mais uma vez, não é por prazer em escavar o passado. É que os indigentes da História passam a vida a invocar farrapos da mesma, mal pintados, de falsa textura e mau fabrico, falsificações e conclusões forjadas, apenas para assentar a sua prática de um irenismo desrespeitoso da Europa. Que se desrespeite a Europa não os preocupa. Estão habituados a viver no desrespeito. No que me toca eu não me habituarei nunca a isso.


A História não é qualquer coisa que já se passou. É o que se está a passar. E quem tem uma visão esfarrapada da História apenas pode ser uma vivência do dia a dia indigente. O discurso político que visa adocicar minorias sub-proletárias na Europa lembrando-lhes gloriosos passados faz-me lembrar o fidalgote mal instalado e pouco provido que é lisonjeado pelos seus avoengos. Sem mérito neles, e convenhamos, com avoengos não tão gloriosos quanto isso. Se insisto nesta ideia é porque semi-alfabetizados, incapazes de fazer grandes viagens no tempo ou no espaço, insistem do alto dos seus púlpitos na grandeza civilizadora do islão como forma de manipulação da acção e da decisão políticas. Se alguma consolação podemos ter é que destes farrapos a História não reza e não temos por isso de rezar por eles.



Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Descrença e ignorância

Aposta-se, professa-se, insiste-se na descrença. A nossa época seria uma época de descrença. E em que a descrença cresce. Vistas as estatísticas, a coisa não é assim tão linear. A grande maioria dos europeus declara-se cristã, apesar de todas as cruzadas ideológicas contra o cristianismo. Algo semelhante se passou com a visibilidade dos extremismos de esquerda que nunca levaram no entanto a que a maioria da população votasse em partidos desse calibre.


Uma coisa é o discurso, a forma como uma sociedade fala sobre ela mesma, uma outra é o que essa sociedade sente, quer e entende como justo e adequado para ela. Não nos devemos pois deixar enganar pelos discursos que a Europa faz sobre ela mesma. Nas alturas de crise, nomeadamente da segunda guerra mundial, mas também em crises de fome ou alojamento mais recentes por toda a Europa, vimos que as instituições religiosas cristãs tiveram e têm um papel pouco visível mas muito mais presente que o que o discurso oficial admite.


Por outro lado, temos de ter sempre cuidado com o discurso sobre a intimidade. As distorções e os jogos de espelhos são moeda comum nesta matéria. Por vontade, por incapacidade de expressão, por inércias ideológicas, o discurso pode estar muito distorcido em relação à realidade que representa. A verdade é que na Europa as pessoas têm vergonha de se proclamarem cristãs. Por um lado, porque isso significa expor uma religião que se pretende eminentemente íntima. Em segundo lugar, porque são logo perseguidas por lugares comuns que conformam a sua imagem. Um cristão é beato, tem uma vida sexual pouco rica (pecado dos pecados!), é bem comportadinho, sem capacidade de aventura ou de imaginação. É o que a plebe intelectualizada gosta de dar a entender, pelo menos.


Se observarmos com mais atenção, o que verificamos não é tanto um fenómeno de descrença, mas, associada à vergonha, uma profunda ignorância. O problema da nossa época não é a descrença, mas a ignorância. Não é por alguém ter estudado em profundidade a teologia da Santíssima Trindade ou os vícios do monotelismo que tendeu para uma visão antitrinitária da divindade ou recusou pura e simplesmente o cristianismo. Convenhamos: para o comum estes problemas são puro chinês. As pessoas não são descrentes, mas ignorantes.


Vejamos exemplos. Ponhamos o cidadão comum, refiro-me ao doutorado, obviamente, perante uma igreja, perante um quadro, um requiem, ou uma obra-prima da literatura europeia. Reconhece ele um kantismo mal digerido em certas passagens da Anna Karenina? Percebe ele o que significam as conchas nas catedrais? Sabe ele porventura a importância capital do pomo da discórdia? Por vezes usa estes conceitos, esses símbolos, apenas porque está neles embebido. Sem mais. É a sua paisagem natural. Como o selvagem conhece a floresta, o europeu contemporâneo passeia-se sobre conceitos e símbolos que nunca será capaz de dominar. Diz recusar a cultura, mas apenas sabe comer dos seus frutos. Quantas pessoas recusaram a possibilidade da demonstração racional da existência de Deus depois de entenderem profundamente a filosofia medieval? Como a maioria nem sabe o que dizia esta riquíssima filosofia apenas recusa esta possibilidade por preguiça ou incapacidade. Incapaz de ler latim, ou sequer de seguir em vernáculo uma demonstração. Seja qual for, cérebro congenitamente cansado, não pode dar-se ao luxo de admitir a sua pequenez e por isso torna inexistente o que o ultrapassa, apenas porque o ultrapassa.


Recusar a metafísica é já uma atitude metafísica. Dizer que não existe metafísica é algo de estranhamente confuso. Não é verdadeiro se se recusa existência de uma História da metafísica. Ela existiu, ela existe. Se recusa a possibilidade de pensar metafisicamente ou a sua utilidade apenas se pode escorar em raciocínios metafísicos ou na pobreza dos seus próprios.


Uma das manifestações do espírito eminentemente metafísico da nossa época é a noção de eternidade de alma que tem. É sabido que muitas das pessoas não acreditam na imortalidade da alma nas sociedades desenvolvidas. Só que a maioria das pessoas é incapaz de pensar em termos estritamente pessoais. Atira-nos à cara uma metafísica imperiosa. Não regem apenas a sua vida. Não pensam: a minha alma não é imortal, aliás nem ela existe. Pensam: a alma é mortal, ou a alma não existe. Podem mesmo respeitar profundamente as convicções dos outros, mas são incapazes, mais que alguns outros, de sair de um pensamento igualitário, substancialista. Nunca se colocam a seguinte hipótese: A minha alma não é imortal, a minha alma não existe, mas nada posso afirmar sobre a existência ou a imortalidade das outras. A boa notícia é que se pensarem assim poderão ter a boa surpresa de terem razão quanto à sua, e não se enganarem redondamente sobre as outras. Muitas sabedorias antigas eram bem mais avisadas, porque reconheciam que tanto a existência como a imortalidade da mesma se conquistam. A custo. E sem haver acesso gratuito e universal a todos da mesma. Os que negam a imortalidade e a existência da alma são assim incapazes de se passear em paisagens diversas do cristianismo. Estão por ele tanto mais marcados que o recusam, a ele em primeiro lugar. Confortados pelo amor universal de um Deus que confere imortalidade a toda a alma humana, sentem-se com o privilégio de poder recusar esse abraço universal. Se soubessem trabalhar fora do cristianismo, realmente fora dele, poderiam colocar a hipótese de serem apenas pretensiosos, porque estão recusar um privilégio que nunca lhes fora conferido. Recusam o que nunca lhes foi dado, e pode-se dar o caso de a divindade apenas se rir da sua presunção.


A prova que este é um dos testes que demonstra que o vulgar apenas sabe trabalhar com conceitos cristãos é o de associar a ideia de imortalidade da alma a Deus. Esta associação é natural para um cristão, mas absurda para um jinaísta ou para um budista.


Pôr em suspenso, entre parêntesis. Este o exercício típico da nossa época. Corte com a realidade que começa por ser método científico gloriosamente frutuoso, mas para quem persegue uma ideia. Corte que leva a resultados de uma imensa pobreza, embora inteligente, quando se trata da fenomenologia de Husserl. Mas mero facto de preguiça quando é realizado pelo vulgar. Suspender o juízo pode ser acto de economia de pensamento, de avareza ou mais comummente de pura pobreza. Eu nunca abdiquei de comprar os maiores bancos do mundo. Pura e simplesmente não os posso comprar.


Desçamos então ao espaço público (infelizmente, trata-se geralmente mesmo de descer) e vejamos quais os efeitos desta ignorância que se disfarça em descrença. Esta postura permite ao homem público nunca se declarar ignorante, mas apenas descrente. A descrença aparece como uma forma particularmente avisada de prudência, quando apenas o é de má fé. Não se acredita na Europa, nem em grandes projectos. O homem que usa a etiqueta da descrença para esconder a sua ignorância é o homem da vidinha, que é legítima no vulgar, mas confrangedora no homem público. É o homem das soluçõezinhas, das politiquinhas, das pequenas alianças.


A descrença pública não é um acto de coragem, mas antes de uma imensa cobardia. Incapaz de defender uma posição de grandeza vive de ridicularizar quem a tem. Poucas personagens podem ser mais ridículas que um De Gaulle sem exército, sem legitimação eleitoral, sem dinheiro, sem meios. Mas foi esse “ridículo” que convolou uma França derrotada numa França vitoriosa do pós-guerra. O homem público descrente sabe que a sua alma, e a sua memória não são imortais. Trabalha portanto exclusivamente para si. Como o seu espaço temporal é limitado, apenas sabe trabalhar no aperto e gosta de dar vidas apertadas, bem balizadas, aos outros.

É esse o homem que nos governa. Metafísico sem o saber, ignorante esgotado com o trabalho de dissimulação, escondendo-se em tocas sempre que quer ser íntimo e saindo à luz do dia com a sua cartola de descrenças. Julgando suspender o juízo, suspende apenas a vida, a sua e a dos outros. Sendo curto o seu espaço de respiração, obriga os outros a conter a sua. Pequeno, assustam-no as infinitas possibilidades do mundo. Abomina toda a possibilidade e toda a abertura. Tendo nascido no meio do ridículo apenas sabe reagir perante a profunda intimidade com um sorriso de escárnio. Bendito seja. Terminará como começou.



Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A necessidade de demonstração

Desde há muitos anos que tenho de dar formação profissional, seja informal, seja formal. Passaram-me pelas mãos pessoas de todos os níveis do ensino, e sobretudo algumas das melhores notas de faculdade. Incluindo mestres e por vezes doutorandos. De todas as idades. O que pretendo enunciar nada tem a ver com a suposta decadência recente de um sistema de ensino, mas com uma postura geral de civilização.


A verdade é que ao longo destes anos o que se me tornou mais difícil foi o de inculcar nas pessoas ideia de que têm de demonstrar o que defendem. Nos serviços, que correspondem à grande maioria das actividades em sociedades como as nossas, vive-se de comunicação, e tem de se viver de comunicação consistente. Ora, uma comunicação só é consistente se obedecer às três regras clássicas da correcção, da propriedade e da adequação.

Correcção gramatical, para começar. Não temos todos de ser artistas da língua, mas devemos pelo menos tentar não ser cubistas no que exprimimos, sobretudo na nossa profissão. A propriedade é uma qualidade semântica. Corresponde ao uso das palavras com o seu correcto sentido, das estruturas gramaticais com a maior eficácia comunicativa. E adequação, porque tendo um destinatário qualquer comunicação é em função dele que se tem de construir o discurso.


Tudo isto pode ser exigido socialmente por regras de cortesia, e já seria bastante. Mas quando exercemos uma função, seja qual ela for, maior força têm estes deveres.


Mas existe um dever adicional para quem exerce uma função. O de demonstrar. Um canalizador que vai a nossa casa não pode apenas montar as torneiras. Se houver mais de uma solução possível tem de nos comunicar as várias soluções possíveis e porque umas serão melhores que outras e em quê. O mesmo se diga do médico que faz o diagnóstico ou propõe uma terapêutica. Tem de explicar porque chegou a essa conclusão. De igual forma o jurista tem de fundamentar as conclusões a que chega.


Demonstrar implica dividir as questões, organizá-las e obedecer a uma sequência. Não é a mesma coisa dizer A, B, C ou C, A, B. Não tem o mesmo significado. Dá-se o caso de me dizerem com frequência: “sim, mas eu tinha cá tudo era só uma questão de sequência”. Só? Só?


Fermat partiu da enunciação do seu célebre último teorema. As pessoas tinham fé em que aquilo fizesse sentido. Chamaram-lhe teorema por respeito, ou talvez porque muitos acreditaram que ele o tinha demonstrado. Hoje em dia há quem o ponha em causa, ignoro se com ou sem razão. Mas afirmações conclusivas aceitam-se de quem já demonstrou muito por já ter dado bastamente à demonstração. É por confiança que se aceita a importância, mas não pode por confiança aceitar-se a verdade. É quando muito um desafio relevante, mas não de uma resposta que curamos.


Como disse, pessoas de todas as idades descuram a necessidade de demonstração. É uma quebra civilizacional, uma quebra de cortesia, uma quebra moral, mas também de uma quebra intelectual que se trata. Não é uma opção, o que já seria condenável em quase todos os contextos, mas mais uma vez uma falta de alternativa. As pessoas tornam-se pura e simplesmente cada vez mais incapazes de demonstrar. E com a arrogância que só um ignorante encartado pode ter, quando são confrontadas com este defeito... desvalorizam-no.


Mais uma vez parece que, tendo prometido falar do espaço público, vou ao simplesmente (!) intelectual, ou ao mero (?) quotidiano. Mas a vida pública, e nomeadamente a vida política não se sustenta em si mesma. Sustenta-se sempre num pano de fundo. E é esse pano de fundo, tão presente que nem o vemos, que é o principal objecto da minha preocupação. É maior desafio que andar a falar de personagens historicamente irrelevantes de que todos conhecem agora os nomes, para em poucos anos os esquecer.


No espaço público vemos sintomas bem graves desta falha de comunicação. Já nem falo de pessoas que, longe de serem artistas da língua, a torturam furiosamente a cada palavra que dizem. Uma prosódia passeando-se turisticamente entre o campestre e o suburbano, sem os méritos do primeiro nem a miséria justificada do segundo, uma paleta gramatical pobre, a embater permanentemente contra o escolho, a tremenda maçada, da regra gramatical que nunca se incarnou, uma impropriedade galopante e uma inadequação geral que mais não é que uma exposição da própria falência. Estes os traços que vemos ganhar terreno no espaço público.


Mas, e a cavalo destes fenómenos, e não por acaso, vem a total indiferença perante a demonstração. Temos de ser aliados dos americanos, temos de ser contra a guerra, temos de ser multiculturais ou de fechar ou abrir as fronteiras. Temos de fazer muitas coisas, parece. Uma sociedade cada vez mais normativa, mais sufocada com deveres que nos aparecem de surpresa no meio do caminho, sem codificação, como salteadores que impedem o livre comércio das ideias.


Temos de... Mas poucos referem porque razão temos. Temos porque é generoso, porque olhamos com um sorriso, e a nossa alvar dentadura é argumento bastante, ou então o nosso sobrolho carregado. Como nunca considerei que a exposição da anatomia fosse demonstração de coisa nenhuma, ou quando muito de uma beleza (rara), ou de uma fealdade (mais que provável) o espaço dos indemonstrantes torna-se cada vez mais um palco de nudismo facial ou na melhor das hipóteses de mimo. O mimo deixou de ser espectáculo para as massas porque já integrou a vida do dia a dia. Deixa por isso de ser diversão, ou seja, desvio do caminho, para ser o percurso normal.


Basta fazer um teste. Quantas vezes se ouve um jornalista perguntar: porquê? “Porque diz isso, quais os seus fundamentos? Porque fez aquilo, quais as suas razões?” Quando a pergunta surge, recebe-se uma resposta, qualquer resposta, e passa-se para a pergunta seguinte. Mesmo que a resposta seja desconexa, contraditória, fora do contexto. A sociedade do mimo é uma sociedade do “como”, não do porquê.


Ora dá-se o caso de quem se atreve a pôr o pé na rua, e por maioria de razão a entrar no espaço público, ter de se justificar.


Todos ocupamos espaço, temos por isso de ter a certeza de que, ou ele nos pertence, ou fazemos melhor uso dele que outros. Hoje em dia todos concordam com esta ideia se falamos da propriedade privada, mas ninguém se coíbe de ser ocupador ilegal do espaço público.

Em segundo lugar, porque um Estado civilizado, já nem é preciso que seja democracia, basta que seja civilizado, implica que qualquer espécie de poder encontre alguma justificação. O poder fere sempre alguém, seja que natureza ele tem. Ser humano significa respeitar o espaço dos outros.


Em terceiro lugar porque o nosso espaço custa aos outros, eles não o podem ocupar enquanto nós lá estamos. E sobretudo, se estamos a prestar um serviço, seja na profissão, seja na comunicação, seja na decisão política, temos de explicar porque razão nós e não eles o ocupamos.


O homem que se escusa à demonstração tem no fundo como paradigma o salteador. Aparece-nos na estrada, ocupa-nos o caminho e corremos sempre o risco de ser roubados por ele. Mesmo que tenhamos posto na estrada para nos proteger nada nos garante que é essa a tarefa que desempenhará. Dá-se o caso de as estradas da Europa estarem bem policiadas, sobretudo desde o século XVIII. E nestes últimos séculos temos menos experiência de viajar nos carros e sermos assaltados a meio do percurso, que nos mandem parar para nos assaltarem. Para onde foram eles, os salteadores? Morreram todos? Temo bem que não. As estradas onde actuam são hoje bem diferentes, apenas desviaram o seu negócio. São as da informação e do poder. A sociedade não o policia. E ele sente-se assim mais livre que nunca.



Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O que é um estúpido?

De vez em quando sabe bem numa época aproximativa poder recorrer a trabalho de rigor e excelência. Por isso quando ouço algo muito estúpido nada mais repousante que ler matemática, poesia latina ou o bom velho dicionário etimológico do senhor Meillet. Procurando no verbete “stupidus”, de fácil tradução, verifico que tem parentesco com o hitita “tuputu”, “grande barulho”, o “tupto” grego, “bater” e o “tupati” sânscrito, “ele bate”; e, imagine-se, é palavra cognata com “stuprum”, “violação”.


Em suma, para os nossos antepassados, mais sábios e directos, e mais ligados aos dados fundamentais da realidade que nós, porque menos carregados de mediação, um estúpido é alguém que levou uma pancada. De quem? Nada se diz. A verdade é que uma cultura tão aristocrática como a indo-europeia era afinal mais optimista do que geralmente queremos reconhecer. Ninguém nasce estúpido. Existe uma explicação: levou uma pancada. A estupidez é por outro lado barulhenta, incomodativa e em boa verdade pode ser mesmo uma violação.



Quando falo no estúpido entenda-se que a minha intenção não é a de insultar ninguém. Deus, na Sua infinita sabedoria, já lhes tornou a realidade insultuosa, não que pretenda eu substituir-me a Ele. Pretendo apenas que o leitor reconheça o espécime e possa tomar as medidas adequadas para o evitar no caminho, ou, caso não possa evitar as suas emboscadas, se possa defender. Se assim se entender, trata-se de um manual de sobrevivência na selva do estúpido. Como reconhecê-lo, como evitá-lo, e como se defender dele.



Como reconhecer o animal em questão?



O estúpido descobriu um refúgio. Os Temas Inteligentes. Pode comprá-los no supermercado, estão já devidamente enlatados, e dão-lhe um estatuto imediato. Um estúpido reconhece-se por querer fazer algo de temas inteligentes que sejam de fácil acesso. Se alguém quiser falar das formas nominais no indo-europeu pode ser um especialista, um homem dotado de imensa erudição, ou simplesmente um pretensioso. Se alguém quiser discutir sobre os teoremas relativos a grafos ou reticulados estará na mesma situação. Um estúpido não se mete nesses temas. Esses não se encontram ainda nas grandes superfícies comerciais da atenção.


Não, é noutros temas que temos de reconhecer o estúpido. Observe-se o bicho. De que temas gosta ele de falar? Do ambiente, particularmente do buraco da camada de ozono. De buracos saberá, caso tenha experiência de introspecção, mas da molécula do ozono nada sabe. O ozono para ele é um motivo folclórico, como poderia falar nos lírios do campo. Assim faziam os seus antepassados. Assim como antes os seus avós diriam que fica bem a rosa ao peito, ele afirma com determinação que não fica bem um buraco na camada de ozono. Longe de mim fazer a apologia de tal buraco. Apenas saliento que o espécime em causa nada sabe sobre ele.



Outro tema inteligente é tão simplesmente, o dos equilíbrios económicos internacionais. Pouco humilde, o exemplar desta espécie pode nada saber de como calcular juros de obrigações e muito menos saberá avaliar uma opção. Mas o vasto tema da economia mundial está ao seu acesso. Ou defendendo o capitalismo ou atacando, aqui vem ele cheio de impulso de doutrinação definir o que é injusto e injusto e de como resolver o magno problema.



O tabaco é outro dos temas. A alimentação saudável. A Europa, geralmente para dizer que é velha, decadente, e irracional. Ou então para dizer que é democracia, direitos do homem e economia de mercado. Ou então fala de Turquia e diz que ninguém sabe quais são as fronteiras da Europa. Ou então disserta em ciência infusa sobre a guerra e paz, as suas causas e efeitos, bem como a terapêutica para as mesmas. Ou então a importância da vida sexual para a felicidade. Ou ainda a relatividade das civilizações e das religiões. O estúpido é aliás especialista em exotismo.



É evidente que falar nestes temas por si só não denuncia o estúpido. Quem fala disto não comete pecado. Mas quem só fala disto e a esta receita apenas junta discussões sobre o que se encontra na despensa, nos programas de televisão e questões do seu trabalho, aí se encontra o estúpido.



O estúpido reconhece-se pois pela paleta temática em que se considera autorizado para actuar. Bipolar, para ele o mundo divide-se em temas inteligentes e temas do quotidiano.


Mas o estúpido é bipolar noutro aspecto. Não é pelo torpor ou pela excitação que se reconhece. Uma pessoa inteligente pode padecer de qualquer destes estados. O que define o estúpido, o que o denuncia, é passar de um estado a outro com uma grande rapidez. Comece o leitor a falar de temas realmente preocupantes como a violação de regras de etiqueta específicas. O estúpido quedar-se-á no seu torpor. Mas fale-lhe das fronteiras da Europa ou do tabaco, que o estúpido se levanta imediatamente. Aí está uma boa técnica para o reconhecer. O tema inteligente excita-o, porque se sente finalmente legitimado na sua existência. E o que era um silêncio relativamente consolador para os seus próximos transforma-se com rapidez num discurso em torrente.



Anatole France dizia que tinha mais medo de um homem néscio que de um homem cruel, porque ao menos o homem cruel descansa algumas vezes. Bipolar, o estúpido caracteriza-se pela sua infinita coerência. Mesmo a pessoa mais inteligente tem dias de estupidez. O estúpido é a coerência incarnada, constante, perseverante na sua natureza. Diabólico, em suma.



O estúpido descobre-se sempre em alguém que recorrentemente diz que gosta de coisas práticas. A obsidiante enunciação de um dever é sempre confissão de uma carência. Se diz que temos de ser práticos é apenas por não o ser. Um homem inteligente é prático na actuação, não precisa de atirar o mote à praça pública. O estúpido vê em tudo fundamentalismos, porque tem horror à fundamentação. Escapa-se-lhe o que seja e para que sirva.



O estúpido é igualitário. O mundo para ele mede-se todo com a mesma medida, a da sua limitação. Fala de tudo, tem ideias sobre tudo, e manifesta a mais absoluta coerência na matéria: todas elas são estúpidas. A estupidez é violação. Barulho, pancada, violência. Precisamente o que caracteriza a discussão no espaço público actual, em que todos sabem o que é a Europa mesmo que não derivem, demonstrem, declinem ou declamem. O estúpido concentrou-se na discussão europeia exactamente porque quanto mais o tema o ultrapassa mais ele se sente à vontade para o abordar. O mundo escapa-se-lhe e quanto mais se escapa mais ele se sente no mundo. Como o tema complexo por excelência é a Europa assim o estúpido se sente nele à vontade. O seu à vontade a dissertar sobre a matéria apenas demonstra até que ponto a questão o transcende.



Como o evitar? Esta uma questão mais difícil não na resposta, mas no seu custo. Como o evitar? Ficar em casa e desligar o contacto com o mundo. Os romanos têm um provérbio que diz “la madre dei imbecili è sempre incinta”, a mãe dos imbecis está sempre grávida. Se o leitor quiser ter vida social não os pode evitar. Como a doença, os cataclismos naturais ou a morte, o estúpido é uma inevitabilidade da vida.



Como se defender dele? Dê-lhe um leitor uma pancada na cabeça. Apenas o reinstaura na sua natureza. Acto de piedade, entenda-o como uma dádiva. Faz o estúpido retornar a casa, à sua natureza primeira. Alguém que, mesmo que não mereça levar uma pancada – questão discutível – faz bem que a receba. Se não a ele, pelo menos a quem a dá. Criatura barulhenta, perturbadora do silêncio, violadora por natureza, e nascida para o mundo de uma pancada, precisa de ser lembrada do seu estado natural e do seu merecimento efectivo. Não lhe responda o leitor. Mantém a criatura na ilusão de que participa no mundo dos comuns mortais. Responder é socializá-la. Dê-lhe uma pancada e repita a dose, tanto quanto seja necessário. Por mais estranho que lhe pareça, as garantias do Estado de Direito protegem à saciedade o estúpido. Mas mesmo que o Estado não perdoe o leitor, parta confiante para a acção, sabendo que Deus, na sua infinita sabedoria, não se sentirá identificado com o estúpido.


Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

É a ciência cultura?

Entrando em qualquer livraria e procurando livros de matemática ou física (mais raramente confesso, de química ou de ciências da vida) apenas os encontro sob a epígrafe de “livros técnicos”. Quando muito, livros de divulgação encontro-os numa secção de divulgação científica. Consoante a dimensão, qualidade ou especialização da livraria encontro literatura, História, arte etc. Cada um destes temas devidamente diferenciado.


Em programas de televisão, ciência apenas a encontro em programas de divulgação científica, ou quando muito numa entrevista – forçosamente em termos algo ligeiros – a um cientista famoso. A maioria dos programas ditos culturais trata de literatura, ciências humanas ou mesmo curiosidades ou viagens turísticas.


Este traço que marca o espaço público europeu sempre me intrigou. Repare-se que neste aspecto a Europa é bem melhor que o resto do mundo. Ao menos estes programas existem, ao menos têm uma visibilidade acrescida na Europa, ao contrário dos outros continentes. Mas como com o mal dos outros bem podemos nós, gostaria de apresentar algumas reflexões sobre o que isto significa para o definir o espaço mental do homem público.


É que este espaço público me parece formado por uma imensa ilusão, um conjunto de equívocos, que formata a sua argumentação, que lhe atribui uma falsa legitimidade para discorrer, que assenta em premissas todas elas distorcidas. Vejamos quais.

A cultura é humanidades. A ciência não é cultura, é apenas uma técnica. Ou, na melhor das hipóteses, uma especialidade. Quando alguém se quer cultivar lê poesia, romances mais ou menos intelectuais, vê filmes, ouve música. Mas esta atitude tem dois vícios. Em primeiro lugar, resta saber que humanidades estão aqui em presença. Na maioria dos casos duvido que estes humanistas saibam duas regras do latim ou grego clássico, as regras de poética, ou análise musical. Na maioria dos casos, o percurso pelas ditas humanidades é apenas passageiro, em que lugares comuns se sucedem uns aos outros (“códigos”, “linguagem”, “discurso”, “estruturas”, “valorações”, “representações”, etc.). Lugares comuns esses que em acréscimo têm o demérito de serem velhos quando se julgam frescos.


Em segundo lugar, reverso desta medalha é o de que a ciência despreza as humanidades. É pelo menos o que dizem os cientistas menores. Sempre que vejo alguém com formação científica dizer que “letras são tretas” lembro-me dos grandes cientistas, como Maxwell, Heisenberg, Schroedinger, Berthelot, para citar apenas alguns, que tinham um profundo amor pela arte, pela literatura, pela filosofia, pela música, ou por todos elas de uma só vez. Quando vejo um mestre do estilo que era um Poincaré ou um Pascal percebo que alguém que não sabe escrever é em geral fraco cientista. Ao desprezo folclórico dos não cientistas corresponde um desprezo igualmente étnico dos (maus) cientistas.


O outro sofisma é o de que só as ciências exactas e naturais têm arcanos, tudo o resto é facilmente transmissível, e mera questão de opinião. Afinal a cultura é acessível e é apenas questão de predisposição ou interesse, não de capacidade ou trabalho. Uma das reacções a este fenómeno é a tendência que certas ciências humanas tiveram para o barroco durante décadas. As estruturas mergulham, emergem, ficam em banho-maria, são objecto de tortura, marinam... toda a espécie de cozinhado era legítimo, incluso o abuso das ciências ditas exactas, cujo vocabulário foi apropriado e em erro palmar. O caso Sokal demonstrou-o à saciedade, como a fraude e o abuso irrompeu nas ciências humanas. A outra tendência para criar arcano é a do arcaísmo, de que mais sofreu a História. Em que se vê uma tendência irritante para se falar em “mesteres” em vez de profissões, ou de “El-Rey” em vez do “rei”. A verdade é que a História é das mais difíceis ciências que possa existir. Tem um método muito difícil de ensinar e exige uma maturidade de percepção da vida humana simultaneamente proba e universal. Conciliação difícil. Mas é precisamente onde todos se sentem autorizados a pisar. Literalmente. Os arcanos das ciências humanas existem. Basta pensar na complexidade da morfologia histórica ou na imensa complexidade da análise histórica.


Em conjunto e em consequência, surge um outro sofisma. A cultura não reveste carácter técnico. Vive ao sabor do espontâneo e do sentimental. É evidente que isto nunca é confessado desta forma. Mas o pano de fundo é tão planamente este. Cada um tem a sua opinião e nada a fazer. A turba decidiu o que é Europa e nada a fazer. Nada leu das fontes, mas já sabe quais elas são. Das humanidades todos estão autorizados a falar, todos se sentem com opinião própria. Quais são as fronteiras da Europa, quais são as características da Europa. Antigamente este era desporto de aristocratas de província com presunções intelectuais. Hoje em dia todos se acham no direito de ser tão destituídos quanto o fidalgote de província pretérito. No que têm razão, mas é razão que não os eleva.


A ciência é meramente utilitária, mera prestadora de serviços. Por isso basta pôr dinheiro na investigação para se obterem resultados. Há SIDA? Arranja-se cura em data certa desde que se atire dinheiro para a investigação? Não se descobre cura? Apenas falta de investimento, logo, há falta de vontade política.


A cultura comunga da política por circular no mesmo espaço (televisivo, de venda de livros, de discussão). Esta ideia falsa é reforçada pelo facto de a maioria dos políticos terem formação humanística e mesmo quando a têm científica, não a revertem no seu discurso.

Qualquer cientista avisado chama a atenção para o facto de as classes políticas, dos jornalistas e das populações decidirem em tema científico sem conhecerem uma linha do que seja a ciência. Mas o problema não se reduz à ignorância do objecto, ao facto de a ciência ser objecto de decisão política. É que a ciência deixou de ser paradigma de método na decisão política. Se nunca o foi em exclusivo (e ainda bem) deixou de o inspirar (péssima conclusão).

O que é a ciência? É dialéctica controlada, é aventura sindicada, é extrapolação regulada.

Uma visão primitiva da Historia da ciência diz que os senhores cientistas foram buscar à natureza para depois meterem nos laboratórios. A verdade é que o contrário se passou também. Quando no início do século XIX Berzelius quer reduzir a mineralogia à química tenta demonstrar, na medida em que o poude, que com os minerais se passava o que ele observava no laboratório. A História da ciência, sobretudo a experimental, europeia, foi feita sempre desta dialéctica controlada.


O afastamento do paradigma científico por um paradigma mágico faz das nossas democracias um espaço que tem horror à dialéctica controlada. Não há dialéctica, mas discursos sobrepostos, não há sindicância, mas apenas incontinência. E quando um espaço público é constituído de uma mera sobreposição insistente a acumulação é a do detrito e em vez de tesouro temos lixo.


Mas a ciência é aventura. Só é cientista quem procura sustentadamente o desconhecido. Os outros podem ser quando muito pessoas de cultura científica (nada mau) ou meros burocratas da ciência. O abatimento do paradigma científico significa que ou o homem público se atira ao desconhecido de forma infundamentada ou, o que é mais comum, se agarra ao seu folclore, e às suas ideias feitas. O problema é que ambas as negações se verificam na nossa época. De tanto se agarrarem ao folclore a que estão habituados (basicamente, os quadros da guerra fria, em que a Europa é a Europa NATO, a Rússia é nossa inimiga, a Europa não é uma civilização, mas uma aliança) são os mesmos aldeões que nos afirmam o que lhes é apenas desconhecido.

É igualmente extrapolação regulada. Nenhum cientista analisou todos os fenómenos, nem sequer todos os da mesma espécie. É impossível. Não assistiu a todas as quedas de graves que no mundo se passaram nem a todas a criações de antipartículas. Tem por isso de extrapolar. Mas fá-lo com regras.


Um espaço onde a cultura científica é falha é um espaço sem dialéctica, sem aventura ou sem extrapolação. Onde tudo se reduz ao diktat, ao caseiro ou ao denotativo. Ou então onde elas existem sem controlo, sindicância ou regulação. Tudo se traduz a mero empilhamento de fonações, à temeridade atrevida ou à mera generalidade. É um espaço caótico e em boa verdade da pura intolerância.


Este espaço da intolerância que nega o seu nome é o da aldeia global, em que o adjectivo apenas está para significar o seu lado totalitário e tirânico e o substantivo é o imperante: uma aldeia, como tudo o que isso significa de isolamento, pequenez e mero folclore.


Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Diogo Vasconcelos - um tributo devido.



Porto, 16 de Maio de 1968 / Londres, 8 de Julho de 2011.

No dia 16 de Julho de 2011, na Igreja da Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, o Senhor Bispo do Porto disse, na missa de corpo presente do Diogo, que ele era um "Evangelizador do digital". Pois era, era também um querido amigo.

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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Vale a pena ter um império?

O lugar comum da época é o de que a Europa é imperialista e colonialista e por isso tem de pagar o preço dos imensos crimes que cometeu. A verdade é que a Europa é talvez o único conjunto imperial que, tendo-se dissolvido, voluntariamente paga o preço dessa responsabilidade. Se bem virmos, a Europa paga a países subdesenvolvidos, menos poderosos que ela, não um tributo de pacificação, como o império romano teve de fazer, mas uma ajuda substancial. Se eficaz ou não, se bastante ou não, essa é a outra questão. Nem interessa saber se a Europa prejudicou os povos que dominou, o que é puro truísmo em relação a qualquer relação de domínio. O que se trata de saber é qual a especificidade da Europa na sua aventura imperial.


O primeiro movimento de expansão da Europa são as cruzadas. As cruzadas contra o Islão (não as contra os pagãos) são antes do mais reconquistas. Na Península Ibérica isto é evidente, nos Balcãs contra os turcos também. Mais difícil é de explicar o caso de Jerusalém. As cruzadas em Jerusalém no entanto são apenas uma aparente excepção. Os turcos impedem os peregrinos europeus de ir a Jerusalém e a Europa revolta-se. A conquista de Jerusalém é também sob o ponto de vista simbólico uma reconquista. Jerusalém é a pátria d cristão. Não nos podemos esquecer que a Palestina tem um peso superior para cristãos e judeus que o que tem para muçulmanos. Para estes é apenas o terceiro lugar mais santo, enquanto que para aqueles é o primeiro.


No entanto, a ideia de império na Europa é secularmente a ideia de restauração do Império Romano. Os títulos de imperadores são em primeiro lugar o carolíngio e seus descendentes e mais tarde o russo, quando se assume como terceira Roma. Significativo que só no século XIX a ideia e o conceito se espalhou. Napoleão I e depois III por imitação, a Alemanha, Disraeli que faz de Victória imperatriz da Índia, o conceito de império colonial, todos estes fenómenos são oitocentistas.


A ideia de império liberta-se da ideia de restauração (do império romano) ou seja de retornar a si mesmo, à sua verdadeira identidade e unidade, e de forma consistente, apenas no século XIX. Se historicamente a Europa é expansionista desde o fim do século XI esta expansão aparece como restauração sob o ponto de vista ideológico até ao século XIX.

Esta é uma ideia totalmente oposta à identidade turco-mongol. Povos nómadas nas suas origens, a ideia de império foi sempre constitutiva da sua identidade. O turco e o mongol, seja nos Balcãs, seja na Índia, seja na Ásia Central, ou se identifica como nómada ou como império. Este é um dos factores, juntamente com a ausência de cristianismo, que leva os turcos a terem orgulho num império que é em suma banal (foi um entre muitos impérios continentais na História) e que a Europa pelo contrário se sinta constrangida com o facto de ter tido impérios.

Volvidas algumas décadas sobre o fim dos impérios coloniais podemos já fazer um balanço algo mais sereno do que eles representaram na História da Europa. É evidente que ainda existem estudos inflamados sobre a matéria, geralmente propagandísticos ou moralistas, em geral imbuídos do espírito de infantilidade birrenta que caracteriza a nossa época. Mas o leitor, que espero seja adulto, poderá acompanhar-me em alguns reflexões.


Cometeram-se crimes? Tudo depende de saber se o conceito de crime é histórico. Mas mesmo admitindo que o seja, sem dúvida se cometeram crimes. Embora os lacrimejantes oficiais salientem que é a Europa a máxima detentora do género convenhamos que nenhum império foi construído com base em beijos e abraços. É uma prática tenaz ter de se matar alguns maçadores que não querem aceitar o nosso poder. Sem espada, espingarda ou sequer calhau não existe império. Mesmo a casa de Áustria (“casa-te, Áustria feliz”) que construí o seu império sobretudo por via da alcova teve de estar em permanente estado de guerra para salvaguardar o que o tálamo tinha conquistado. Quantificar o horror é sempre temerário e em geral acaba por ser arbitrário. Seja como for, em função da dimensão do império europeu do século XIX, o maior que a História já viu, talvez o sofrimento imposto seja proporcionalmente menor ao de muitos outros impérios enfadonhos que a História viu nascer.


A escravatura de África? Sem dúvida. Mas talvez tenhamos de ter em conta que esta é instituição perene em África. Os egípcios praticaram-na, os núbios também, depois os gregos os romanos, romanos e até recentemente os turcos e os árabes. Quando a Europa começa a negociar escravos em África conta com fontes de distribuição... africanas. A Europa apenas desviou circuitos comerciais já existentes. Se os outros foram mais ineficazes por incompetência não vejo que lhes venha daí mérito. Todos nós descendemos de vítimas e de carrascos e por vezes da vítima dos carrascos e deste carrasco da mesma vítima.


A Europa explorou economicamente as colónias por todo o mundo? Também não conheço império que não o tenha feito e pergunto-me se tem sentido fazer um império se esse não for um dos efeitos pretendidos. A verdade é que a História quantitativa começa-nos a mostrar que, se os impérios coloniais tiveram um efeito importante no take off de muitas economias europeias, nunca representaram senão quantidades pouco significativas das trocas económicas. A Europa negoceia sobretudo com a Europa. Ganhos económicos? No impulso sim, mas a mais valia é intra europeia. Tirando o período de Entre Guerras, que já hoje em dia aparece como um período de decadência imperial, tanto os ganhos económicos como a importância simbólica das colónias é relativamente menor, sobretudo entre as populações.


Por outro lado, os impérios coloniais tiveram custos imensos. A própria Inglaterra, apegada por excelência à sua jóia da coroa, a Índia, desde pelo menos a Primeira Guerra Mundial, começou a preparar-se para sair dela. Porquê? Porque estava a começar a custar mais do que dava ganho. A longo prazo a colónia tem mais custos que dá ganhos. Em pessoas, em cérebros, em ideias, em vidas humanas, em financiamento. Os americanos desde há muito que perceberam que saia mais barato deixar os custos de administração para os próprios povos e apenas fazer negócio com eles. Senão vejamos. A Europa entre os anos 50 e 60 perdeu um imenso património, as suas antigas colónias. Se o facto fosse tão desastroso assim, qualquer pessoa mais avisada diria que estes anos foram de miséria económica na Europa, ou pelo menos de retracção. Ora é precisamente quando a Europa perde as colónias que se expande como nunca o tinha feito sob o ponto de vista económico. Os lacrimejantes oficiais, associando a riqueza da Europa à miséria alheia, esquecem-se sempre de referir esta imensa contraprova.

Em boa verdade, o maior custo que a Europa impôs às outras culturas foi a maior benesse que lhes deu: o choque de civilizações. Nunca na História tanta disparidade de desenvolvimentos se havia visto. Uma Europa no século XIX confronta-se com um mundo que em muitos aspectos se encontrava séculos e mesmo mais de um milénio atrasado em relação a ela. Em alguns casos tecnologicamente, noutros cientificamente, noutros sob o ponto de vista da estrutura económica ou da organização social. A Europa é a primeira cultura que apresenta um pacote completo de vida humana a grande distância dos outros povos e de forma tão intensa. Muitos impérios houve com vizinhos retardados, mas o comum foi sempre o da conquista ser gradual. A Núbia acultura-se ao Egipto aos poucos. A Gália a Roma. Que o mundo inteiro seja invadido por um só paradigma, com tantas variantes e em acréscimo de uma civilização com paradigmas dialécticos é coisa jamais vista na sua dimensão. A verdade é que, ao contrário de mongóis e turcos, deixámos as nossas línguas, instituições, religião e cultura.


Vale a pena? Ora bem se a pergunta foi no pretérito, eu diria que sim no que à Europa respeita. O europeu é pouco orgulhoso dos seus impérios mas tem bons motivos para o estar. Ter tido poder nunca é vergonha para ninguém. Ter tido mais poder que alguma vez alguém teve da História não é desprestigiante quanto a mim. Temos mais razões para estar orgulhosos que velhos detentores de banais impérios continentais asiáticos que, esses, não obstante, sentem orgulho da sua confrangedora banalidade. Se valeria a pena hoje em dia, essa é outra questão. Eu diria que não. A ideia de império consistente na Europa é a do retorno. Um retorno pode ser expansivo, pode ser glorioso. Não significa fechar-se entre portas. Toda a revolução é uma restauração. Até a revolução francesa se instituiu como a restauração do estado natural de liberdade do homem. Por isso para mim o que de mais revolucionário e imperial pode fazer agora a Europa é restaurar-se. Em suma, ser o que é.



Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 13 de setembro de 2011

A democracia absoluta

No seu mínimo denominador comum a democracia baseia-se em dois princípios muito simples: todos participam na decisão política e a decisão da maioria prevalece. Vista à luz desta simplicidade a democracia tem dois fundamentos simples. Em primeiro lugar, ninguém pode ser excluído da decisão colectiva, é uma regra de humanidade. Em segundo lugar aceita-se uma retórica universal, a da matemática. Em vez de discutirmos qual é o melhor plano para um país, uma cidade, uma região, temos uma regra matemática que deixa inequívoco que decisão prevalece.



Tudo isto visto de uma forma muito simples. Porque quando procuramos saber quem são “todos” abrem-se distinções segundo a nacionalidade e a idade (estrangeiros e crianças não podem votar), que são as toleradas hoje em dia. Mas não nos podemos esquecer que outras existiram até hoje em dia. Na democrática Inglaterra há cargos públicos hereditários e até há poucas décadas os membros das universidades tinham dois votos, um como membros de uma circunscrição territorial e outro como membros da universidade. E quem contesta que o Reino Unido seja uma democracia? Apenas contesto que seja a mais antiga democracia do mundo, dado que quem sabe a sua História sabe que se trata antes de um feudalismo que se soube adaptar, como Burke bem analisou.



E quando se trata da regra matemática há para todos os gostos, seja sistemas maioritários, proporcionais, e mil outras variantes.



Se bem virmos, os sistemas tradicionais da Europa eram igualmente bipolares. A regra da humanidade baseava-se na integração na Respublica Christiana, na humanidade de cada pessoa, a regra matemática existia também sobre várias formas, seja a da primogenitura (regra reticular de álgebra abstracta e não aritmética), voto por classes, voto por clãs, partidos ou outros sistemas.



Seja qual for o sistema político tem de se basear numa regra de humanidade e numa regra retoricamente aceite, geralmente de natureza matemática, por forma a que decisão seja legítima. Observação banal, não fora esquecida.



A questão actual não passa por aqui, mas pelo fenómeno a que se assiste de entronização da democracia, de uma democracia absoluta, que tudo justifica. Desde que se diga que algo é democrático, fica legitimado. O vício não está na democracia, mas na sua absolutização.
Senão vejamos.



O nosso mais próximo paradigma de absolutização encontra-se na Idade Moderna. O poder real vai-se tornando cada vez mais absoluto, e sobretudo o discurso vai cada vez mais defendendo esse poder. O curioso da coisa é que o discurso democrático incensa essa absolutização quando destrói a nobreza e condena-o quando defende as revoluções liberais. O mesmo discurso que aplaude a destruição da nobreza na Europa continental admira a manutenção dos privilégios quando se trata da inglesa.



O segundo paradigma de absolutização, mais longínquo, é o do império romano e ainda mais longe o das monarquias helenísticas.



Em todos estes casos o processo de absolutização gerou a pacificação da sociedade, mas fez esgotar o princípio a longo prazo.



Numa Europa cada vez mais obcecada com a paz a todo o transe, encontramos um caldo de cultura em que a absolutização pode crescer sem ser incomodada. Como o regime actual é o da democracia, absolutiza-se o princípio. Descobrimos a panaceia universal. Desde que se diga que é para democratizar, tudo fica legitimado. Democratiza-se o ensino, mesmo se os resultados são um abaixamento geral do nível cultural das elites e uma subida relativa da restante população que não o compensa. Mas mais importante, desde que haja aparência democrática, permite-se que o ensino seja elitista de forma arbitrária (e hoje em dia é-o na Europa mais que nunca, por lançar para o mercado criaturas sem preparação sólida em nenhuma matéria e atraindo-os assim para tarefas pouco qualificadas). Democratiza-se a discussão pública, mas tendo por efeito nunca chamar pessoas que realmente conheçam os temas. Democratizar significa aqui sempre afastar a competência, a seriedade, o conhecimento. Em nome da democracia podem-se lançar guerras contra terceiros países. Em nome da democracia, e de uma democracia definida não se sabe bem por quem, condena-se o artista que participa em festas dos partidos mais votados apenas porque não são bem vistos pela cultura “democrática”.



O problema da democracia quando se absolutiza é que se estende para campos onde nunca deveria ter chegado, cria um discurso que perdeu assento na regra humana e na regra matemática. Estabelece-se a priori o que é democrático (quem o faz? É sempre um mistério) e a partir daí lança-se um rolo compressor sobre tudo o que não obedece a esses critérios.



Quando um princípio se absolutiza parasita o que não lhe pertence. Por isso pudemos assistir ao longo de todo o século, isto porque a democracia passou a ser o bem pensar, a “repúblicas democráticas” que eram ditaduras, a partidos “democráticos” que são totalitários, e pensadores da “democracia” que eram anti-democráticos.



Arrancada às suas regras e à sua natureza de regra, a democracia transforma-se em religião, com sacerdotes instalados que lançam anátemas mesmo às maiorias. São eles quem decide o que é democrático. Ainda recentemente na Suíça um referendo não permitiu a facilitação do estatuto de naturalização aos estrangeiros. A grande maioria dos suíços foi contra. E vêm daí vozes levantar-se e a chamar de fascista a maioria dos suíços. Isto mostra que a regra humana e a regra matemática não são o mais importante, mas o ter razão, o ser detentor da razão.



A verdade é que o culto da democracia absoluta mostra assim as suas contradicções internas. Matérias há em que a democracia não é, nunca foi, nem nunca poderá ser a regra. Não somos democráticos na nossa vida privada. Não escolhemos amigos, amantes, contactos sociais por critérios democráticos. Não vamos a votos para determinar de quem gostamos. Não somos democráticos nos gostos. Muita gente pode ser muito influenciável na escolha de filmes, roupa, comida, restaurantes, mas não vai a votos nessas matérias. Não somos democráticos na nossa saúde. Não escolhemos um médico porque tem mais votos. Não somos democráticos na vida laboral. Não preferimos um chefe só porque ele teria sido eleito. Não somos democráticos na gestão do nosso património. Não escolhemos uma zona para investir ou num produto porque tem mais votos. Não somos democráticos na ciência. Uma teoria não prevalece porque se foi a votos. Não o somos na arte e na cultura. Um pintor ou um escritor ou um filósofo não é considerado melhor porque é mais lido ou comprado ou visto. Não somos democráticos no lazer. Não decidimos por votos qual o local de férias ou o filme que vamos ver. Não somos democráticos espiritualmente. As nossas convicções não dependem absolutamente da maioria da população.



Os aspectos mais íntimos, e mais importantes, da nossa vida não se passam de acordo com critérios democráticos. A organização da vida social é deixada à democracia e mesmo assim só parcialmente. E é evidente que nos influencia a vida privada. Mas não a constitui nem lhe dá o principal sentido (quando se dá o caso de dar algum sentido). A grande vantagem pelo menos teórica da democracia é a de não se impor no que é mais importante. E quedar-se (na medida do possível) no espaço público, ou apenas em parte dele.



Se a democracia se quer constitutiva de uma identidade está a pretender não só invadir todo o espaço público, em violação do que ela é, como acaba por invadir o espaço privado. Não só a comunicação em sociedade se obriga a ser democrática, o que é uma perversão da democracia (Aristóteles e Gauss seriam proibidos ou pelo menos esmagados) como o espaço privado é contorcido por critérios democráticos. A democracia é por definição o regime que se contrai. Outros o fazem, mas em mais nenhum deles está no centro do regime contrair-se. A democracia abstém-se. Abstém-se no espaço público de intervir nas ciências, na arte, no diálogo cultural. E no espaço privado abstém-se de determinar a vida das pessoas.



Há dois tipos de pessoas que lutam pela democracia: os que não a têm e os que nada têm senão ela. Os primeiros são heróis, os segundos apenas desprovidos. Quando um regime se absolutiza, ou apodrece ou cai. A primeira hipótese é a do marasmo turco e chinês. A segunda a das revoluções europeias. Ou a podridão ou o sangue a escorrer nas ruas, eis a opção. Querer fundar a Europa na democracia, como encontramos tristemente nos discursos públicos, é fadá-la a este destino. Porque a Europa é bem mais que democracia e é sobretudo no que ela realmente é que vai buscar a sua força.


Alexandre Brandão da Veiga

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domingo, 28 de agosto de 2011

Porquê Beethoven está fora de moda?

Ao longo de todo o século XIX os grandes mestres incensaram a Beethoven. Seja Schumann, seja Wagner, perguntassem-lhes sobre o seu maior mestre, Beethoven aparecia logo na primeira linha. Até aos anos de 1960 assim acontecia com o grande público, que anda atrasado por definição, quando é certo que desde o fim do século XIX já havia quem, como Brahms, escolhia Bach para esse lugar.



Não se trata aqui se de saber quem é o maior músico, até porque esta obsessão de podia é profundamente imbecil. A partir de um certo grau parece-me que não tem sentido dizer quem é o maior. Se Dante ou Homero ou Camões, se Bach, Mozart ou Beethoven, se Gauss, Poincaré ou Leibniz, se Rafael, Da Vinci ou Rembrandt... A obsessão dos pódios mostra até que ponto a nossa época é unilateral; nada diz sobre o objecto do seu juízo, mas apenas sobre a falta de justiça do mesmo.



O relevante para o que me interessa é bem diverso. A que estado de espírito corresponde este fenecimento relativo de Beethoven? E que relevância tem isso no espaço público, que nos pode dizer nomeadamente sobre a política, e o que, e mais uma vez, subtende à política?



Beethoven era um compositor de palavra. O seu amor ao texto escrito manifestava-se no seu amor à obra de Goethe, nomeadamente. Mais, mais ainda, conta-se que registava ideias musicais em palavras. Quem ouve as suas obras facilmente verifica que são dialécticas, seja o piano a dialogar com a orquestra (banal no género, pode-se contra-argumentar, mas forte em Beethoven como em poucos). As peças para piano são diálogos, outras vezes conversas, outras reflexões isoladas, mas em que o isolamento existe porque alguém de afastou do grupo, não porque esteja originariamente só, ou outras vezes ainda fortíssimas discussões. A palavra tem de tal forma força na sua obra que irrompe da Nona Sinfonia. Suprema heresia, a forma sonata por excelência, a sinfonia, transforma-se em cantata. Isto apenas para fazer vir ao de cima palavras.



Mas Beethoven é também o homem que traz o sentimento para a música. Não que antes ela fosse dele destituída. Mas dá-lhe o mesmo valor que à regra pela primeira vez de forma consistente. Equilíbrio extremamente difícil entre pensamento e razão, a obra de Beethoven apela para o homem completo, para o homem na sua totalidade.


Afirmadas estas premissas qualquer pessoa pode já começar a perceber as conclusões. Um mundo da palavra e um mundo onde o sentimento é diferenciado, onde manifesta a sua glória sem abdicar da razão, é tudo o contrário do que vemos na nossa época.


A palavra descurada?, perguntarão uns chocados. Mas nunca época como a nossa viu teorizar a palavra, o discurso, a retórica, a lógica, a linguagem. Sem dúvida. É que, depois de martirizada, qualquer realidade não passa para o mundo do inexistente, mas refugia-se onde menos se espera. O homem antigo confiava na palavra, a política era por ela regida. A vida da Europa foi regida pela palavra durante quase toda a sua existência (e pela imagem). No mito babilónico Marduk mata a deusa Tiamat e dos restos do seu corpo morto faz o mundo. A palavra invade obsessivamente o nosso espaço, seja na linguística, na antropologia, na filosofia. Mas é uma palavra morta despedaçada, mais obra da mão do anatomista que da do amante.



Basta fazer a experiência de ir a um chat na Internet. Numa sociedade que se diz de imagem, que destronaria a palavra, mostra-se a necessidade de palavra na nossa época... e a incapacidade de a vivificar. Os discursos são repetidos, entrecortados, boa parte deles gastos apenas para fazer contacto entre as pessoas. Tentei várias vez ir a chats de política, filosofia, arte, dos mais variados. Verifiquei que não há uma ideia que neles circule, se não quando muito uma ânsia de auto-sagração por certos temas, ou quando muito uma curiosidade insatisfeita, mas que nem tem o mínimo vislumbre de como se começar a satisfazer. Falta de método, por outras palavras. Falta de cultura.



Um mundo em que a palavra é meramente funcionalizada, em que a mensagem foi substituída pelo slogan, em que o paradigma da comunicação é o discurso publicitário, falho de demonstração, não apenas pela sua ausência, como pelo desconhecimento da sua necessidade. Convence-se ainda, mas não demonstrando, não enchendo corações, mas motivando meros comportamentos, simples actos.



O estertor da palavra surge da fanática separação do espaço público e privado, como se o ser humano se pudesse reduzir a uma solução que é funcionalmente útil, mas essencialmente limitadora. A palavra já não vivifica, é um mero instrumento, uma máquina. Se compararmos os textos de análise política de um Burke, de um Tocqueville ou de um Maistre com os actuais vemos que um mundo os separa. Não em maior lucidez, mas de menor estilo. O estertor da palavra é também o do estilo.



Mas igualmente o sentimento está na mó de baixo. O sentimento admissível é público, pré-formatado, um mero produto industrial. O que se deve amar ou não está previamente definido. Amam-se: as culturas não europeias, os esfomeados, as lutas ecológicas, (certas) minorias. Odeiam-se: o elitismo, a procura de excelência, o auto-aperfeiçoamento, a correcção, a crítica à mediocridade.



O cristianismo criou a civilização mais diferenciada sob o ponto de vista sentimental que o mundo já viu. Esta diferenciação tem por fonte o “ama os teus inimigos” e o “ama o teu próximo como te amas a ti mesmo”. Sentimentos que nos parecem “naturais” são o resultado de séculos de difícil elaboração, auto-reflexão, de dolorosas lutas internas e públicas.


Voltemos pois a Beethoven. Numa cultura que disseca a palavra como se faz a um morto, e que a usa como cabedal de sapato, o diálogo verdadeiro torna-se impossível. Os debates passam a ser feito de marchantes atirando-se nacos de cadáveres, como se a deusa Tiamat não tivesse um Marduk que ordenasse os seus despojos. Os deuses já não são cruéis, mas não são nem sequer ordenadores. Numa cultura que está cansada de sentimento, o que dele sobra é industrializado no espaço público. O sentimento apenas é suportável porque devidamente acondicionado.



É compreensível. O espaço público está repleto de pessoas em que o convívio com a palavra complexa não foi aprendido em casa, mas na escola. Não estão habituados a associar a palavra rica ao amor. Da mesma forma, recrutados de classes muito baixas, as suas memórias são as da distante contemplação de classes altas de racionavam a sua manifestação de sentimentos. Confundem assim a aristocracia com a inexistência de sentimentos, equívoco de camponês mal informado.



Beethoven está fora de moda? Sem dúvida. Para quem queria a nobilitação do ser humano deveria ser cruel ver um mundo em que até a nobreza se plebeizou. Um mundo plebeu, dominado por plebeus, de sangue, de alma, de sentimentos é sempre um mundo sem espaço para a palavra ou o sentimento. Subiram por uma escada de esforço e é com ar de esforço de manifestam qualquer elevação.



Fora de moda? É certo. Porque quem não incarna regras, sempre que quer mostrar sentimento apenas mostra cacofonia e quando quer usar a palavra desconhece a noção de harmonia.



Fora de moda, não obstante. Não caduco. Chanel dizia que a moda é o que passa de moda. Sendo a História mais justa do que se crê, o seu retorno será particularmente cruel para os Metternich do politicamente correcto, os amantes serôdios de Congresso de Viena hoje em dia mais mal vestidos e mal falantes. E o regresso virá. Sempre mais tarde do que se deseja, mas sempre mais cedo do que os beneficiados julgam.




Alexandre Brandão da Veiga

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