O Islão civilizador
O islão é criação de sarracenos. O sul da Arábia, a Arabia Felix, era na altura zona de civilização sofisticada (o mesmo se poderia dizer dos árabes da grande Síria na época helenística e império romano, como os nabateus e iturianos, por exemplo). Não um grande centro de criação de civilização, mas zona que sofreu as múltiplas influências do Egipto, do Império Romano e mais tarde bizantino e das correntes do tráfego do Oceano Índico. O sul da Arábia, embora não centro de expansão da civilização, era região efectivamente civilizada no século VII d. C., quando surge o islão.
No entanto, o corpo central da península arábica, onde nasce o islão, é zona desprezada pelo sul da Arábia, que a considera bárbara, e pelos grandes impérios circundantes, o persa e o bizantino. É a zona dos sarracenos, povos nómadas ou semi-nómadas, de fraca criação cultural.
Ao contrário do que se diz, o islão não civilizou o espaço cristão, mas foi o inverso que se passou. O cristianismo é seis séculos mais antigo que o Islão. Maomé é influenciado pelo cristianismo, crê-se que de tipo nestoriano, e pelo judaísmo. Na sua base religiosa, na sua matriz cultural de base, o Islão deve ao cristianismo e não a inversa.
Continuemos, com o risco de chocar os bem-pensantes. Quando o islão se torna conquistador, muito prematuramente, não partiu para conquistar hordas bárbaras. Conquista dois impérios de brilhante civilização, muito superior à sua: o império bizantino cristão e o império persa mazdeísta e com uma forte minoria cristã nestoriana, nomeadamente. Quando o islão conquista este espaço não tinha estruturas nem administrativas, nem culturais, nem políticas preparadas para governar tão vasto império. Vai beber ao império cristão e ao persa o seu desenvolvimento civilizacional. Não é por acaso que São João Damasceno, santo ortodoxo para o Oriente e para os Latinos, foi grão-vizir. Os sarracenos não tinham outra alternativa.
O mesmo se passa com o segundo grande movimento de expansão do Islão, o turco-mongol (esqueço agora o islão relativamente marginal, como o dos curdos, e afegãos). Quais são os seus pontos de invasão? A Índia, zona mais civilizada que as hordas turco-mongóis. Ou a Europa e Bizâncio, zonas que civilizaram, em conjugação com a civilização árabe, os turcos. Mais uma vez, a força de conquista islâmica não se abateu sobre povos primitivos, mas sobre povos ainda mais civilizados. Foram os conquistados que civilizaram o Islão e não o inverso.
Vejamos um terceiro ponto de actuação do Islão. Na África norte ocidental e em geral da África negra. O Islão trouxe alguns paradigmas de civilização novos para esses povos, sem dúvida. Mas eram povos marginais às grandes correntes históricas e não o deixaram de ser. Mouros e núbios já tinham sofrido a influência de impérios egípcio, púnico, romano, pagãos, cristãos. De marginais que eram, marginais ficaram.
E um quarto ponto, a Europa. O domínio tártaro, turco-mongol, em suma, da Rússia. O tempo do governo da Horda de Ouro não é tempo de expansão cultural na Rússia. O domínio turco nos Balcãs fez dos Balcãs a zona mais pobre e subdesenvolvida da Europa. A Hungria divida entre turcos, Habsburgos e o principado da Transilvânia, tem a sua zona mais pobre na dominada pelos turcos. E o principado só se desenvolve quando sai do protectorado turco para passar a mãos austríacas.
O Islão teve como efeito a miscisgenação de culturas já por si desenvolvidas e teve o mérito de criar grandes espaços de circulação de culturas. Comunicação e miscisgenação são as suas palavras-chave. Mas nunca elevação.
Vejamos o contra-teste. O cristianismo parasita uma grande civilização como a romana. É natural. Qualquer religião começa por parasitar um espaço já circundante. Mas quando se expande para zonas primitivas, ou mais primitivas, cria o grande cristianismo irlandês, do séc. VI, a conquista da Germânia pagã, das regiões eslavas e magiares faz surgir países com uma imensa cultura. Não viveríamos na mesma cultura sem os nomes de Leibniz, Gauss, Alberto Magno, Dürer, Bach, Tolstoï, Liszt, Brahms, Cantor, Kant... A lista é sem fim. O cristianismo entra nas Américas e um continente com civilizações de desenvolvimento irregular, desde o mais primitivo ao civilizado, passa a fazer parte de um mesmo padrão civilizacional. Tirando um período que vai do séc. VIII até ao XI a superioridade civilizacional do Islão em relação a certas zonas do cristianismo (não em relação a Bizâncio) inexiste. Ou seja, apenas durante quatro séculos. O cristianismo teve seis séculos em que teve o papel de comunicação e miscisgenação seguidos de mais de mil anos de elevação civilizacional e dos quais mais de seis séculos de notória superioridade civilizacional.
A rede de comunicações mais vasta do mundo foi criação europeia, cristã, as maiores fontes de miscisgenação foram europeias cristãs, e as maiores fontes de elevação civilizacional foram europeias, cristãs. Mais nenhuma cultura transformou o descendente de camponês alemão em Mozart e Bach, ou o nobre caçador russo em Turgueneev ou Tolstoï.
Se invoco esta questão, tenho de o lembrar mais uma vez, não é por prazer em escavar o passado. É que os indigentes da História passam a vida a invocar farrapos da mesma, mal pintados, de falsa textura e mau fabrico, falsificações e conclusões forjadas, apenas para assentar a sua prática de um irenismo desrespeitoso da Europa. Que se desrespeite a Europa não os preocupa. Estão habituados a viver no desrespeito. No que me toca eu não me habituarei nunca a isso.
A História não é qualquer coisa que já se passou. É o que se está a passar. E quem tem uma visão esfarrapada da História apenas pode ser uma vivência do dia a dia indigente. O discurso político que visa adocicar minorias sub-proletárias na Europa lembrando-lhes gloriosos passados faz-me lembrar o fidalgote mal instalado e pouco provido que é lisonjeado pelos seus avoengos. Sem mérito neles, e convenhamos, com avoengos não tão gloriosos quanto isso. Se insisto nesta ideia é porque semi-alfabetizados, incapazes de fazer grandes viagens no tempo ou no espaço, insistem do alto dos seus púlpitos na grandeza civilizadora do islão como forma de manipulação da acção e da decisão políticas. Se alguma consolação podemos ter é que destes farrapos a História não reza e não temos por isso de rezar por eles.
Alexandre Brandão da Veiga

