sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O que é um estúpido?

De vez em quando sabe bem numa época aproximativa poder recorrer a trabalho de rigor e excelência. Por isso quando ouço algo muito estúpido nada mais repousante que ler matemática, poesia latina ou o bom velho dicionário etimológico do senhor Meillet. Procurando no verbete “stupidus”, de fácil tradução, verifico que tem parentesco com o hitita “tuputu”, “grande barulho”, o “tupto” grego, “bater” e o “tupati” sânscrito, “ele bate”; e, imagine-se, é palavra cognata com “stuprum”, “violação”.


Em suma, para os nossos antepassados, mais sábios e directos, e mais ligados aos dados fundamentais da realidade que nós, porque menos carregados de mediação, um estúpido é alguém que levou uma pancada. De quem? Nada se diz. A verdade é que uma cultura tão aristocrática como a indo-europeia era afinal mais optimista do que geralmente queremos reconhecer. Ninguém nasce estúpido. Existe uma explicação: levou uma pancada. A estupidez é por outro lado barulhenta, incomodativa e em boa verdade pode ser mesmo uma violação.



Quando falo no estúpido entenda-se que a minha intenção não é a de insultar ninguém. Deus, na Sua infinita sabedoria, já lhes tornou a realidade insultuosa, não que pretenda eu substituir-me a Ele. Pretendo apenas que o leitor reconheça o espécime e possa tomar as medidas adequadas para o evitar no caminho, ou, caso não possa evitar as suas emboscadas, se possa defender. Se assim se entender, trata-se de um manual de sobrevivência na selva do estúpido. Como reconhecê-lo, como evitá-lo, e como se defender dele.



Como reconhecer o animal em questão?



O estúpido descobriu um refúgio. Os Temas Inteligentes. Pode comprá-los no supermercado, estão já devidamente enlatados, e dão-lhe um estatuto imediato. Um estúpido reconhece-se por querer fazer algo de temas inteligentes que sejam de fácil acesso. Se alguém quiser falar das formas nominais no indo-europeu pode ser um especialista, um homem dotado de imensa erudição, ou simplesmente um pretensioso. Se alguém quiser discutir sobre os teoremas relativos a grafos ou reticulados estará na mesma situação. Um estúpido não se mete nesses temas. Esses não se encontram ainda nas grandes superfícies comerciais da atenção.


Não, é noutros temas que temos de reconhecer o estúpido. Observe-se o bicho. De que temas gosta ele de falar? Do ambiente, particularmente do buraco da camada de ozono. De buracos saberá, caso tenha experiência de introspecção, mas da molécula do ozono nada sabe. O ozono para ele é um motivo folclórico, como poderia falar nos lírios do campo. Assim faziam os seus antepassados. Assim como antes os seus avós diriam que fica bem a rosa ao peito, ele afirma com determinação que não fica bem um buraco na camada de ozono. Longe de mim fazer a apologia de tal buraco. Apenas saliento que o espécime em causa nada sabe sobre ele.



Outro tema inteligente é tão simplesmente, o dos equilíbrios económicos internacionais. Pouco humilde, o exemplar desta espécie pode nada saber de como calcular juros de obrigações e muito menos saberá avaliar uma opção. Mas o vasto tema da economia mundial está ao seu acesso. Ou defendendo o capitalismo ou atacando, aqui vem ele cheio de impulso de doutrinação definir o que é injusto e injusto e de como resolver o magno problema.



O tabaco é outro dos temas. A alimentação saudável. A Europa, geralmente para dizer que é velha, decadente, e irracional. Ou então para dizer que é democracia, direitos do homem e economia de mercado. Ou então fala de Turquia e diz que ninguém sabe quais são as fronteiras da Europa. Ou então disserta em ciência infusa sobre a guerra e paz, as suas causas e efeitos, bem como a terapêutica para as mesmas. Ou então a importância da vida sexual para a felicidade. Ou ainda a relatividade das civilizações e das religiões. O estúpido é aliás especialista em exotismo.



É evidente que falar nestes temas por si só não denuncia o estúpido. Quem fala disto não comete pecado. Mas quem só fala disto e a esta receita apenas junta discussões sobre o que se encontra na despensa, nos programas de televisão e questões do seu trabalho, aí se encontra o estúpido.



O estúpido reconhece-se pois pela paleta temática em que se considera autorizado para actuar. Bipolar, para ele o mundo divide-se em temas inteligentes e temas do quotidiano.


Mas o estúpido é bipolar noutro aspecto. Não é pelo torpor ou pela excitação que se reconhece. Uma pessoa inteligente pode padecer de qualquer destes estados. O que define o estúpido, o que o denuncia, é passar de um estado a outro com uma grande rapidez. Comece o leitor a falar de temas realmente preocupantes como a violação de regras de etiqueta específicas. O estúpido quedar-se-á no seu torpor. Mas fale-lhe das fronteiras da Europa ou do tabaco, que o estúpido se levanta imediatamente. Aí está uma boa técnica para o reconhecer. O tema inteligente excita-o, porque se sente finalmente legitimado na sua existência. E o que era um silêncio relativamente consolador para os seus próximos transforma-se com rapidez num discurso em torrente.



Anatole France dizia que tinha mais medo de um homem néscio que de um homem cruel, porque ao menos o homem cruel descansa algumas vezes. Bipolar, o estúpido caracteriza-se pela sua infinita coerência. Mesmo a pessoa mais inteligente tem dias de estupidez. O estúpido é a coerência incarnada, constante, perseverante na sua natureza. Diabólico, em suma.



O estúpido descobre-se sempre em alguém que recorrentemente diz que gosta de coisas práticas. A obsidiante enunciação de um dever é sempre confissão de uma carência. Se diz que temos de ser práticos é apenas por não o ser. Um homem inteligente é prático na actuação, não precisa de atirar o mote à praça pública. O estúpido vê em tudo fundamentalismos, porque tem horror à fundamentação. Escapa-se-lhe o que seja e para que sirva.



O estúpido é igualitário. O mundo para ele mede-se todo com a mesma medida, a da sua limitação. Fala de tudo, tem ideias sobre tudo, e manifesta a mais absoluta coerência na matéria: todas elas são estúpidas. A estupidez é violação. Barulho, pancada, violência. Precisamente o que caracteriza a discussão no espaço público actual, em que todos sabem o que é a Europa mesmo que não derivem, demonstrem, declinem ou declamem. O estúpido concentrou-se na discussão europeia exactamente porque quanto mais o tema o ultrapassa mais ele se sente à vontade para o abordar. O mundo escapa-se-lhe e quanto mais se escapa mais ele se sente no mundo. Como o tema complexo por excelência é a Europa assim o estúpido se sente nele à vontade. O seu à vontade a dissertar sobre a matéria apenas demonstra até que ponto a questão o transcende.



Como o evitar? Esta uma questão mais difícil não na resposta, mas no seu custo. Como o evitar? Ficar em casa e desligar o contacto com o mundo. Os romanos têm um provérbio que diz “la madre dei imbecili è sempre incinta”, a mãe dos imbecis está sempre grávida. Se o leitor quiser ter vida social não os pode evitar. Como a doença, os cataclismos naturais ou a morte, o estúpido é uma inevitabilidade da vida.



Como se defender dele? Dê-lhe um leitor uma pancada na cabeça. Apenas o reinstaura na sua natureza. Acto de piedade, entenda-o como uma dádiva. Faz o estúpido retornar a casa, à sua natureza primeira. Alguém que, mesmo que não mereça levar uma pancada – questão discutível – faz bem que a receba. Se não a ele, pelo menos a quem a dá. Criatura barulhenta, perturbadora do silêncio, violadora por natureza, e nascida para o mundo de uma pancada, precisa de ser lembrada do seu estado natural e do seu merecimento efectivo. Não lhe responda o leitor. Mantém a criatura na ilusão de que participa no mundo dos comuns mortais. Responder é socializá-la. Dê-lhe uma pancada e repita a dose, tanto quanto seja necessário. Por mais estranho que lhe pareça, as garantias do Estado de Direito protegem à saciedade o estúpido. Mas mesmo que o Estado não perdoe o leitor, parta confiante para a acção, sabendo que Deus, na sua infinita sabedoria, não se sentirá identificado com o estúpido.


Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

É a ciência cultura?

Entrando em qualquer livraria e procurando livros de matemática ou física (mais raramente confesso, de química ou de ciências da vida) apenas os encontro sob a epígrafe de “livros técnicos”. Quando muito, livros de divulgação encontro-os numa secção de divulgação científica. Consoante a dimensão, qualidade ou especialização da livraria encontro literatura, História, arte etc. Cada um destes temas devidamente diferenciado.


Em programas de televisão, ciência apenas a encontro em programas de divulgação científica, ou quando muito numa entrevista – forçosamente em termos algo ligeiros – a um cientista famoso. A maioria dos programas ditos culturais trata de literatura, ciências humanas ou mesmo curiosidades ou viagens turísticas.


Este traço que marca o espaço público europeu sempre me intrigou. Repare-se que neste aspecto a Europa é bem melhor que o resto do mundo. Ao menos estes programas existem, ao menos têm uma visibilidade acrescida na Europa, ao contrário dos outros continentes. Mas como com o mal dos outros bem podemos nós, gostaria de apresentar algumas reflexões sobre o que isto significa para o definir o espaço mental do homem público.


É que este espaço público me parece formado por uma imensa ilusão, um conjunto de equívocos, que formata a sua argumentação, que lhe atribui uma falsa legitimidade para discorrer, que assenta em premissas todas elas distorcidas. Vejamos quais.

A cultura é humanidades. A ciência não é cultura, é apenas uma técnica. Ou, na melhor das hipóteses, uma especialidade. Quando alguém se quer cultivar lê poesia, romances mais ou menos intelectuais, vê filmes, ouve música. Mas esta atitude tem dois vícios. Em primeiro lugar, resta saber que humanidades estão aqui em presença. Na maioria dos casos duvido que estes humanistas saibam duas regras do latim ou grego clássico, as regras de poética, ou análise musical. Na maioria dos casos, o percurso pelas ditas humanidades é apenas passageiro, em que lugares comuns se sucedem uns aos outros (“códigos”, “linguagem”, “discurso”, “estruturas”, “valorações”, “representações”, etc.). Lugares comuns esses que em acréscimo têm o demérito de serem velhos quando se julgam frescos.


Em segundo lugar, reverso desta medalha é o de que a ciência despreza as humanidades. É pelo menos o que dizem os cientistas menores. Sempre que vejo alguém com formação científica dizer que “letras são tretas” lembro-me dos grandes cientistas, como Maxwell, Heisenberg, Schroedinger, Berthelot, para citar apenas alguns, que tinham um profundo amor pela arte, pela literatura, pela filosofia, pela música, ou por todos elas de uma só vez. Quando vejo um mestre do estilo que era um Poincaré ou um Pascal percebo que alguém que não sabe escrever é em geral fraco cientista. Ao desprezo folclórico dos não cientistas corresponde um desprezo igualmente étnico dos (maus) cientistas.


O outro sofisma é o de que só as ciências exactas e naturais têm arcanos, tudo o resto é facilmente transmissível, e mera questão de opinião. Afinal a cultura é acessível e é apenas questão de predisposição ou interesse, não de capacidade ou trabalho. Uma das reacções a este fenómeno é a tendência que certas ciências humanas tiveram para o barroco durante décadas. As estruturas mergulham, emergem, ficam em banho-maria, são objecto de tortura, marinam... toda a espécie de cozinhado era legítimo, incluso o abuso das ciências ditas exactas, cujo vocabulário foi apropriado e em erro palmar. O caso Sokal demonstrou-o à saciedade, como a fraude e o abuso irrompeu nas ciências humanas. A outra tendência para criar arcano é a do arcaísmo, de que mais sofreu a História. Em que se vê uma tendência irritante para se falar em “mesteres” em vez de profissões, ou de “El-Rey” em vez do “rei”. A verdade é que a História é das mais difíceis ciências que possa existir. Tem um método muito difícil de ensinar e exige uma maturidade de percepção da vida humana simultaneamente proba e universal. Conciliação difícil. Mas é precisamente onde todos se sentem autorizados a pisar. Literalmente. Os arcanos das ciências humanas existem. Basta pensar na complexidade da morfologia histórica ou na imensa complexidade da análise histórica.


Em conjunto e em consequência, surge um outro sofisma. A cultura não reveste carácter técnico. Vive ao sabor do espontâneo e do sentimental. É evidente que isto nunca é confessado desta forma. Mas o pano de fundo é tão planamente este. Cada um tem a sua opinião e nada a fazer. A turba decidiu o que é Europa e nada a fazer. Nada leu das fontes, mas já sabe quais elas são. Das humanidades todos estão autorizados a falar, todos se sentem com opinião própria. Quais são as fronteiras da Europa, quais são as características da Europa. Antigamente este era desporto de aristocratas de província com presunções intelectuais. Hoje em dia todos se acham no direito de ser tão destituídos quanto o fidalgote de província pretérito. No que têm razão, mas é razão que não os eleva.


A ciência é meramente utilitária, mera prestadora de serviços. Por isso basta pôr dinheiro na investigação para se obterem resultados. Há SIDA? Arranja-se cura em data certa desde que se atire dinheiro para a investigação? Não se descobre cura? Apenas falta de investimento, logo, há falta de vontade política.


A cultura comunga da política por circular no mesmo espaço (televisivo, de venda de livros, de discussão). Esta ideia falsa é reforçada pelo facto de a maioria dos políticos terem formação humanística e mesmo quando a têm científica, não a revertem no seu discurso.

Qualquer cientista avisado chama a atenção para o facto de as classes políticas, dos jornalistas e das populações decidirem em tema científico sem conhecerem uma linha do que seja a ciência. Mas o problema não se reduz à ignorância do objecto, ao facto de a ciência ser objecto de decisão política. É que a ciência deixou de ser paradigma de método na decisão política. Se nunca o foi em exclusivo (e ainda bem) deixou de o inspirar (péssima conclusão).

O que é a ciência? É dialéctica controlada, é aventura sindicada, é extrapolação regulada.

Uma visão primitiva da Historia da ciência diz que os senhores cientistas foram buscar à natureza para depois meterem nos laboratórios. A verdade é que o contrário se passou também. Quando no início do século XIX Berzelius quer reduzir a mineralogia à química tenta demonstrar, na medida em que o poude, que com os minerais se passava o que ele observava no laboratório. A História da ciência, sobretudo a experimental, europeia, foi feita sempre desta dialéctica controlada.


O afastamento do paradigma científico por um paradigma mágico faz das nossas democracias um espaço que tem horror à dialéctica controlada. Não há dialéctica, mas discursos sobrepostos, não há sindicância, mas apenas incontinência. E quando um espaço público é constituído de uma mera sobreposição insistente a acumulação é a do detrito e em vez de tesouro temos lixo.


Mas a ciência é aventura. Só é cientista quem procura sustentadamente o desconhecido. Os outros podem ser quando muito pessoas de cultura científica (nada mau) ou meros burocratas da ciência. O abatimento do paradigma científico significa que ou o homem público se atira ao desconhecido de forma infundamentada ou, o que é mais comum, se agarra ao seu folclore, e às suas ideias feitas. O problema é que ambas as negações se verificam na nossa época. De tanto se agarrarem ao folclore a que estão habituados (basicamente, os quadros da guerra fria, em que a Europa é a Europa NATO, a Rússia é nossa inimiga, a Europa não é uma civilização, mas uma aliança) são os mesmos aldeões que nos afirmam o que lhes é apenas desconhecido.

É igualmente extrapolação regulada. Nenhum cientista analisou todos os fenómenos, nem sequer todos os da mesma espécie. É impossível. Não assistiu a todas as quedas de graves que no mundo se passaram nem a todas a criações de antipartículas. Tem por isso de extrapolar. Mas fá-lo com regras.


Um espaço onde a cultura científica é falha é um espaço sem dialéctica, sem aventura ou sem extrapolação. Onde tudo se reduz ao diktat, ao caseiro ou ao denotativo. Ou então onde elas existem sem controlo, sindicância ou regulação. Tudo se traduz a mero empilhamento de fonações, à temeridade atrevida ou à mera generalidade. É um espaço caótico e em boa verdade da pura intolerância.


Este espaço da intolerância que nega o seu nome é o da aldeia global, em que o adjectivo apenas está para significar o seu lado totalitário e tirânico e o substantivo é o imperante: uma aldeia, como tudo o que isso significa de isolamento, pequenez e mero folclore.


Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Diogo Vasconcelos - um tributo devido.



Porto, 16 de Maio de 1968 / Londres, 8 de Julho de 2011.

No dia 16 de Julho de 2011, na Igreja da Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, o Senhor Bispo do Porto disse, na missa de corpo presente do Diogo, que ele era um "Evangelizador do digital". Pois era, era também um querido amigo.

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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Vale a pena ter um império?

O lugar comum da época é o de que a Europa é imperialista e colonialista e por isso tem de pagar o preço dos imensos crimes que cometeu. A verdade é que a Europa é talvez o único conjunto imperial que, tendo-se dissolvido, voluntariamente paga o preço dessa responsabilidade. Se bem virmos, a Europa paga a países subdesenvolvidos, menos poderosos que ela, não um tributo de pacificação, como o império romano teve de fazer, mas uma ajuda substancial. Se eficaz ou não, se bastante ou não, essa é a outra questão. Nem interessa saber se a Europa prejudicou os povos que dominou, o que é puro truísmo em relação a qualquer relação de domínio. O que se trata de saber é qual a especificidade da Europa na sua aventura imperial.


O primeiro movimento de expansão da Europa são as cruzadas. As cruzadas contra o Islão (não as contra os pagãos) são antes do mais reconquistas. Na Península Ibérica isto é evidente, nos Balcãs contra os turcos também. Mais difícil é de explicar o caso de Jerusalém. As cruzadas em Jerusalém no entanto são apenas uma aparente excepção. Os turcos impedem os peregrinos europeus de ir a Jerusalém e a Europa revolta-se. A conquista de Jerusalém é também sob o ponto de vista simbólico uma reconquista. Jerusalém é a pátria d cristão. Não nos podemos esquecer que a Palestina tem um peso superior para cristãos e judeus que o que tem para muçulmanos. Para estes é apenas o terceiro lugar mais santo, enquanto que para aqueles é o primeiro.


No entanto, a ideia de império na Europa é secularmente a ideia de restauração do Império Romano. Os títulos de imperadores são em primeiro lugar o carolíngio e seus descendentes e mais tarde o russo, quando se assume como terceira Roma. Significativo que só no século XIX a ideia e o conceito se espalhou. Napoleão I e depois III por imitação, a Alemanha, Disraeli que faz de Victória imperatriz da Índia, o conceito de império colonial, todos estes fenómenos são oitocentistas.


A ideia de império liberta-se da ideia de restauração (do império romano) ou seja de retornar a si mesmo, à sua verdadeira identidade e unidade, e de forma consistente, apenas no século XIX. Se historicamente a Europa é expansionista desde o fim do século XI esta expansão aparece como restauração sob o ponto de vista ideológico até ao século XIX.

Esta é uma ideia totalmente oposta à identidade turco-mongol. Povos nómadas nas suas origens, a ideia de império foi sempre constitutiva da sua identidade. O turco e o mongol, seja nos Balcãs, seja na Índia, seja na Ásia Central, ou se identifica como nómada ou como império. Este é um dos factores, juntamente com a ausência de cristianismo, que leva os turcos a terem orgulho num império que é em suma banal (foi um entre muitos impérios continentais na História) e que a Europa pelo contrário se sinta constrangida com o facto de ter tido impérios.

Volvidas algumas décadas sobre o fim dos impérios coloniais podemos já fazer um balanço algo mais sereno do que eles representaram na História da Europa. É evidente que ainda existem estudos inflamados sobre a matéria, geralmente propagandísticos ou moralistas, em geral imbuídos do espírito de infantilidade birrenta que caracteriza a nossa época. Mas o leitor, que espero seja adulto, poderá acompanhar-me em alguns reflexões.


Cometeram-se crimes? Tudo depende de saber se o conceito de crime é histórico. Mas mesmo admitindo que o seja, sem dúvida se cometeram crimes. Embora os lacrimejantes oficiais salientem que é a Europa a máxima detentora do género convenhamos que nenhum império foi construído com base em beijos e abraços. É uma prática tenaz ter de se matar alguns maçadores que não querem aceitar o nosso poder. Sem espada, espingarda ou sequer calhau não existe império. Mesmo a casa de Áustria (“casa-te, Áustria feliz”) que construí o seu império sobretudo por via da alcova teve de estar em permanente estado de guerra para salvaguardar o que o tálamo tinha conquistado. Quantificar o horror é sempre temerário e em geral acaba por ser arbitrário. Seja como for, em função da dimensão do império europeu do século XIX, o maior que a História já viu, talvez o sofrimento imposto seja proporcionalmente menor ao de muitos outros impérios enfadonhos que a História viu nascer.


A escravatura de África? Sem dúvida. Mas talvez tenhamos de ter em conta que esta é instituição perene em África. Os egípcios praticaram-na, os núbios também, depois os gregos os romanos, romanos e até recentemente os turcos e os árabes. Quando a Europa começa a negociar escravos em África conta com fontes de distribuição... africanas. A Europa apenas desviou circuitos comerciais já existentes. Se os outros foram mais ineficazes por incompetência não vejo que lhes venha daí mérito. Todos nós descendemos de vítimas e de carrascos e por vezes da vítima dos carrascos e deste carrasco da mesma vítima.


A Europa explorou economicamente as colónias por todo o mundo? Também não conheço império que não o tenha feito e pergunto-me se tem sentido fazer um império se esse não for um dos efeitos pretendidos. A verdade é que a História quantitativa começa-nos a mostrar que, se os impérios coloniais tiveram um efeito importante no take off de muitas economias europeias, nunca representaram senão quantidades pouco significativas das trocas económicas. A Europa negoceia sobretudo com a Europa. Ganhos económicos? No impulso sim, mas a mais valia é intra europeia. Tirando o período de Entre Guerras, que já hoje em dia aparece como um período de decadência imperial, tanto os ganhos económicos como a importância simbólica das colónias é relativamente menor, sobretudo entre as populações.


Por outro lado, os impérios coloniais tiveram custos imensos. A própria Inglaterra, apegada por excelência à sua jóia da coroa, a Índia, desde pelo menos a Primeira Guerra Mundial, começou a preparar-se para sair dela. Porquê? Porque estava a começar a custar mais do que dava ganho. A longo prazo a colónia tem mais custos que dá ganhos. Em pessoas, em cérebros, em ideias, em vidas humanas, em financiamento. Os americanos desde há muito que perceberam que saia mais barato deixar os custos de administração para os próprios povos e apenas fazer negócio com eles. Senão vejamos. A Europa entre os anos 50 e 60 perdeu um imenso património, as suas antigas colónias. Se o facto fosse tão desastroso assim, qualquer pessoa mais avisada diria que estes anos foram de miséria económica na Europa, ou pelo menos de retracção. Ora é precisamente quando a Europa perde as colónias que se expande como nunca o tinha feito sob o ponto de vista económico. Os lacrimejantes oficiais, associando a riqueza da Europa à miséria alheia, esquecem-se sempre de referir esta imensa contraprova.

Em boa verdade, o maior custo que a Europa impôs às outras culturas foi a maior benesse que lhes deu: o choque de civilizações. Nunca na História tanta disparidade de desenvolvimentos se havia visto. Uma Europa no século XIX confronta-se com um mundo que em muitos aspectos se encontrava séculos e mesmo mais de um milénio atrasado em relação a ela. Em alguns casos tecnologicamente, noutros cientificamente, noutros sob o ponto de vista da estrutura económica ou da organização social. A Europa é a primeira cultura que apresenta um pacote completo de vida humana a grande distância dos outros povos e de forma tão intensa. Muitos impérios houve com vizinhos retardados, mas o comum foi sempre o da conquista ser gradual. A Núbia acultura-se ao Egipto aos poucos. A Gália a Roma. Que o mundo inteiro seja invadido por um só paradigma, com tantas variantes e em acréscimo de uma civilização com paradigmas dialécticos é coisa jamais vista na sua dimensão. A verdade é que, ao contrário de mongóis e turcos, deixámos as nossas línguas, instituições, religião e cultura.


Vale a pena? Ora bem se a pergunta foi no pretérito, eu diria que sim no que à Europa respeita. O europeu é pouco orgulhoso dos seus impérios mas tem bons motivos para o estar. Ter tido poder nunca é vergonha para ninguém. Ter tido mais poder que alguma vez alguém teve da História não é desprestigiante quanto a mim. Temos mais razões para estar orgulhosos que velhos detentores de banais impérios continentais asiáticos que, esses, não obstante, sentem orgulho da sua confrangedora banalidade. Se valeria a pena hoje em dia, essa é outra questão. Eu diria que não. A ideia de império consistente na Europa é a do retorno. Um retorno pode ser expansivo, pode ser glorioso. Não significa fechar-se entre portas. Toda a revolução é uma restauração. Até a revolução francesa se instituiu como a restauração do estado natural de liberdade do homem. Por isso para mim o que de mais revolucionário e imperial pode fazer agora a Europa é restaurar-se. Em suma, ser o que é.



Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 13 de setembro de 2011

A democracia absoluta

No seu mínimo denominador comum a democracia baseia-se em dois princípios muito simples: todos participam na decisão política e a decisão da maioria prevalece. Vista à luz desta simplicidade a democracia tem dois fundamentos simples. Em primeiro lugar, ninguém pode ser excluído da decisão colectiva, é uma regra de humanidade. Em segundo lugar aceita-se uma retórica universal, a da matemática. Em vez de discutirmos qual é o melhor plano para um país, uma cidade, uma região, temos uma regra matemática que deixa inequívoco que decisão prevalece.



Tudo isto visto de uma forma muito simples. Porque quando procuramos saber quem são “todos” abrem-se distinções segundo a nacionalidade e a idade (estrangeiros e crianças não podem votar), que são as toleradas hoje em dia. Mas não nos podemos esquecer que outras existiram até hoje em dia. Na democrática Inglaterra há cargos públicos hereditários e até há poucas décadas os membros das universidades tinham dois votos, um como membros de uma circunscrição territorial e outro como membros da universidade. E quem contesta que o Reino Unido seja uma democracia? Apenas contesto que seja a mais antiga democracia do mundo, dado que quem sabe a sua História sabe que se trata antes de um feudalismo que se soube adaptar, como Burke bem analisou.



E quando se trata da regra matemática há para todos os gostos, seja sistemas maioritários, proporcionais, e mil outras variantes.



Se bem virmos, os sistemas tradicionais da Europa eram igualmente bipolares. A regra da humanidade baseava-se na integração na Respublica Christiana, na humanidade de cada pessoa, a regra matemática existia também sobre várias formas, seja a da primogenitura (regra reticular de álgebra abstracta e não aritmética), voto por classes, voto por clãs, partidos ou outros sistemas.



Seja qual for o sistema político tem de se basear numa regra de humanidade e numa regra retoricamente aceite, geralmente de natureza matemática, por forma a que decisão seja legítima. Observação banal, não fora esquecida.



A questão actual não passa por aqui, mas pelo fenómeno a que se assiste de entronização da democracia, de uma democracia absoluta, que tudo justifica. Desde que se diga que algo é democrático, fica legitimado. O vício não está na democracia, mas na sua absolutização.
Senão vejamos.



O nosso mais próximo paradigma de absolutização encontra-se na Idade Moderna. O poder real vai-se tornando cada vez mais absoluto, e sobretudo o discurso vai cada vez mais defendendo esse poder. O curioso da coisa é que o discurso democrático incensa essa absolutização quando destrói a nobreza e condena-o quando defende as revoluções liberais. O mesmo discurso que aplaude a destruição da nobreza na Europa continental admira a manutenção dos privilégios quando se trata da inglesa.



O segundo paradigma de absolutização, mais longínquo, é o do império romano e ainda mais longe o das monarquias helenísticas.



Em todos estes casos o processo de absolutização gerou a pacificação da sociedade, mas fez esgotar o princípio a longo prazo.



Numa Europa cada vez mais obcecada com a paz a todo o transe, encontramos um caldo de cultura em que a absolutização pode crescer sem ser incomodada. Como o regime actual é o da democracia, absolutiza-se o princípio. Descobrimos a panaceia universal. Desde que se diga que é para democratizar, tudo fica legitimado. Democratiza-se o ensino, mesmo se os resultados são um abaixamento geral do nível cultural das elites e uma subida relativa da restante população que não o compensa. Mas mais importante, desde que haja aparência democrática, permite-se que o ensino seja elitista de forma arbitrária (e hoje em dia é-o na Europa mais que nunca, por lançar para o mercado criaturas sem preparação sólida em nenhuma matéria e atraindo-os assim para tarefas pouco qualificadas). Democratiza-se a discussão pública, mas tendo por efeito nunca chamar pessoas que realmente conheçam os temas. Democratizar significa aqui sempre afastar a competência, a seriedade, o conhecimento. Em nome da democracia podem-se lançar guerras contra terceiros países. Em nome da democracia, e de uma democracia definida não se sabe bem por quem, condena-se o artista que participa em festas dos partidos mais votados apenas porque não são bem vistos pela cultura “democrática”.



O problema da democracia quando se absolutiza é que se estende para campos onde nunca deveria ter chegado, cria um discurso que perdeu assento na regra humana e na regra matemática. Estabelece-se a priori o que é democrático (quem o faz? É sempre um mistério) e a partir daí lança-se um rolo compressor sobre tudo o que não obedece a esses critérios.



Quando um princípio se absolutiza parasita o que não lhe pertence. Por isso pudemos assistir ao longo de todo o século, isto porque a democracia passou a ser o bem pensar, a “repúblicas democráticas” que eram ditaduras, a partidos “democráticos” que são totalitários, e pensadores da “democracia” que eram anti-democráticos.



Arrancada às suas regras e à sua natureza de regra, a democracia transforma-se em religião, com sacerdotes instalados que lançam anátemas mesmo às maiorias. São eles quem decide o que é democrático. Ainda recentemente na Suíça um referendo não permitiu a facilitação do estatuto de naturalização aos estrangeiros. A grande maioria dos suíços foi contra. E vêm daí vozes levantar-se e a chamar de fascista a maioria dos suíços. Isto mostra que a regra humana e a regra matemática não são o mais importante, mas o ter razão, o ser detentor da razão.



A verdade é que o culto da democracia absoluta mostra assim as suas contradicções internas. Matérias há em que a democracia não é, nunca foi, nem nunca poderá ser a regra. Não somos democráticos na nossa vida privada. Não escolhemos amigos, amantes, contactos sociais por critérios democráticos. Não vamos a votos para determinar de quem gostamos. Não somos democráticos nos gostos. Muita gente pode ser muito influenciável na escolha de filmes, roupa, comida, restaurantes, mas não vai a votos nessas matérias. Não somos democráticos na nossa saúde. Não escolhemos um médico porque tem mais votos. Não somos democráticos na vida laboral. Não preferimos um chefe só porque ele teria sido eleito. Não somos democráticos na gestão do nosso património. Não escolhemos uma zona para investir ou num produto porque tem mais votos. Não somos democráticos na ciência. Uma teoria não prevalece porque se foi a votos. Não o somos na arte e na cultura. Um pintor ou um escritor ou um filósofo não é considerado melhor porque é mais lido ou comprado ou visto. Não somos democráticos no lazer. Não decidimos por votos qual o local de férias ou o filme que vamos ver. Não somos democráticos espiritualmente. As nossas convicções não dependem absolutamente da maioria da população.



Os aspectos mais íntimos, e mais importantes, da nossa vida não se passam de acordo com critérios democráticos. A organização da vida social é deixada à democracia e mesmo assim só parcialmente. E é evidente que nos influencia a vida privada. Mas não a constitui nem lhe dá o principal sentido (quando se dá o caso de dar algum sentido). A grande vantagem pelo menos teórica da democracia é a de não se impor no que é mais importante. E quedar-se (na medida do possível) no espaço público, ou apenas em parte dele.



Se a democracia se quer constitutiva de uma identidade está a pretender não só invadir todo o espaço público, em violação do que ela é, como acaba por invadir o espaço privado. Não só a comunicação em sociedade se obriga a ser democrática, o que é uma perversão da democracia (Aristóteles e Gauss seriam proibidos ou pelo menos esmagados) como o espaço privado é contorcido por critérios democráticos. A democracia é por definição o regime que se contrai. Outros o fazem, mas em mais nenhum deles está no centro do regime contrair-se. A democracia abstém-se. Abstém-se no espaço público de intervir nas ciências, na arte, no diálogo cultural. E no espaço privado abstém-se de determinar a vida das pessoas.



Há dois tipos de pessoas que lutam pela democracia: os que não a têm e os que nada têm senão ela. Os primeiros são heróis, os segundos apenas desprovidos. Quando um regime se absolutiza, ou apodrece ou cai. A primeira hipótese é a do marasmo turco e chinês. A segunda a das revoluções europeias. Ou a podridão ou o sangue a escorrer nas ruas, eis a opção. Querer fundar a Europa na democracia, como encontramos tristemente nos discursos públicos, é fadá-la a este destino. Porque a Europa é bem mais que democracia e é sobretudo no que ela realmente é que vai buscar a sua força.


Alexandre Brandão da Veiga

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domingo, 28 de agosto de 2011

Porquê Beethoven está fora de moda?

Ao longo de todo o século XIX os grandes mestres incensaram a Beethoven. Seja Schumann, seja Wagner, perguntassem-lhes sobre o seu maior mestre, Beethoven aparecia logo na primeira linha. Até aos anos de 1960 assim acontecia com o grande público, que anda atrasado por definição, quando é certo que desde o fim do século XIX já havia quem, como Brahms, escolhia Bach para esse lugar.



Não se trata aqui se de saber quem é o maior músico, até porque esta obsessão de podia é profundamente imbecil. A partir de um certo grau parece-me que não tem sentido dizer quem é o maior. Se Dante ou Homero ou Camões, se Bach, Mozart ou Beethoven, se Gauss, Poincaré ou Leibniz, se Rafael, Da Vinci ou Rembrandt... A obsessão dos pódios mostra até que ponto a nossa época é unilateral; nada diz sobre o objecto do seu juízo, mas apenas sobre a falta de justiça do mesmo.



O relevante para o que me interessa é bem diverso. A que estado de espírito corresponde este fenecimento relativo de Beethoven? E que relevância tem isso no espaço público, que nos pode dizer nomeadamente sobre a política, e o que, e mais uma vez, subtende à política?



Beethoven era um compositor de palavra. O seu amor ao texto escrito manifestava-se no seu amor à obra de Goethe, nomeadamente. Mais, mais ainda, conta-se que registava ideias musicais em palavras. Quem ouve as suas obras facilmente verifica que são dialécticas, seja o piano a dialogar com a orquestra (banal no género, pode-se contra-argumentar, mas forte em Beethoven como em poucos). As peças para piano são diálogos, outras vezes conversas, outras reflexões isoladas, mas em que o isolamento existe porque alguém de afastou do grupo, não porque esteja originariamente só, ou outras vezes ainda fortíssimas discussões. A palavra tem de tal forma força na sua obra que irrompe da Nona Sinfonia. Suprema heresia, a forma sonata por excelência, a sinfonia, transforma-se em cantata. Isto apenas para fazer vir ao de cima palavras.



Mas Beethoven é também o homem que traz o sentimento para a música. Não que antes ela fosse dele destituída. Mas dá-lhe o mesmo valor que à regra pela primeira vez de forma consistente. Equilíbrio extremamente difícil entre pensamento e razão, a obra de Beethoven apela para o homem completo, para o homem na sua totalidade.


Afirmadas estas premissas qualquer pessoa pode já começar a perceber as conclusões. Um mundo da palavra e um mundo onde o sentimento é diferenciado, onde manifesta a sua glória sem abdicar da razão, é tudo o contrário do que vemos na nossa época.


A palavra descurada?, perguntarão uns chocados. Mas nunca época como a nossa viu teorizar a palavra, o discurso, a retórica, a lógica, a linguagem. Sem dúvida. É que, depois de martirizada, qualquer realidade não passa para o mundo do inexistente, mas refugia-se onde menos se espera. O homem antigo confiava na palavra, a política era por ela regida. A vida da Europa foi regida pela palavra durante quase toda a sua existência (e pela imagem). No mito babilónico Marduk mata a deusa Tiamat e dos restos do seu corpo morto faz o mundo. A palavra invade obsessivamente o nosso espaço, seja na linguística, na antropologia, na filosofia. Mas é uma palavra morta despedaçada, mais obra da mão do anatomista que da do amante.



Basta fazer a experiência de ir a um chat na Internet. Numa sociedade que se diz de imagem, que destronaria a palavra, mostra-se a necessidade de palavra na nossa época... e a incapacidade de a vivificar. Os discursos são repetidos, entrecortados, boa parte deles gastos apenas para fazer contacto entre as pessoas. Tentei várias vez ir a chats de política, filosofia, arte, dos mais variados. Verifiquei que não há uma ideia que neles circule, se não quando muito uma ânsia de auto-sagração por certos temas, ou quando muito uma curiosidade insatisfeita, mas que nem tem o mínimo vislumbre de como se começar a satisfazer. Falta de método, por outras palavras. Falta de cultura.



Um mundo em que a palavra é meramente funcionalizada, em que a mensagem foi substituída pelo slogan, em que o paradigma da comunicação é o discurso publicitário, falho de demonstração, não apenas pela sua ausência, como pelo desconhecimento da sua necessidade. Convence-se ainda, mas não demonstrando, não enchendo corações, mas motivando meros comportamentos, simples actos.



O estertor da palavra surge da fanática separação do espaço público e privado, como se o ser humano se pudesse reduzir a uma solução que é funcionalmente útil, mas essencialmente limitadora. A palavra já não vivifica, é um mero instrumento, uma máquina. Se compararmos os textos de análise política de um Burke, de um Tocqueville ou de um Maistre com os actuais vemos que um mundo os separa. Não em maior lucidez, mas de menor estilo. O estertor da palavra é também o do estilo.



Mas igualmente o sentimento está na mó de baixo. O sentimento admissível é público, pré-formatado, um mero produto industrial. O que se deve amar ou não está previamente definido. Amam-se: as culturas não europeias, os esfomeados, as lutas ecológicas, (certas) minorias. Odeiam-se: o elitismo, a procura de excelência, o auto-aperfeiçoamento, a correcção, a crítica à mediocridade.



O cristianismo criou a civilização mais diferenciada sob o ponto de vista sentimental que o mundo já viu. Esta diferenciação tem por fonte o “ama os teus inimigos” e o “ama o teu próximo como te amas a ti mesmo”. Sentimentos que nos parecem “naturais” são o resultado de séculos de difícil elaboração, auto-reflexão, de dolorosas lutas internas e públicas.


Voltemos pois a Beethoven. Numa cultura que disseca a palavra como se faz a um morto, e que a usa como cabedal de sapato, o diálogo verdadeiro torna-se impossível. Os debates passam a ser feito de marchantes atirando-se nacos de cadáveres, como se a deusa Tiamat não tivesse um Marduk que ordenasse os seus despojos. Os deuses já não são cruéis, mas não são nem sequer ordenadores. Numa cultura que está cansada de sentimento, o que dele sobra é industrializado no espaço público. O sentimento apenas é suportável porque devidamente acondicionado.



É compreensível. O espaço público está repleto de pessoas em que o convívio com a palavra complexa não foi aprendido em casa, mas na escola. Não estão habituados a associar a palavra rica ao amor. Da mesma forma, recrutados de classes muito baixas, as suas memórias são as da distante contemplação de classes altas de racionavam a sua manifestação de sentimentos. Confundem assim a aristocracia com a inexistência de sentimentos, equívoco de camponês mal informado.



Beethoven está fora de moda? Sem dúvida. Para quem queria a nobilitação do ser humano deveria ser cruel ver um mundo em que até a nobreza se plebeizou. Um mundo plebeu, dominado por plebeus, de sangue, de alma, de sentimentos é sempre um mundo sem espaço para a palavra ou o sentimento. Subiram por uma escada de esforço e é com ar de esforço de manifestam qualquer elevação.



Fora de moda? É certo. Porque quem não incarna regras, sempre que quer mostrar sentimento apenas mostra cacofonia e quando quer usar a palavra desconhece a noção de harmonia.



Fora de moda, não obstante. Não caduco. Chanel dizia que a moda é o que passa de moda. Sendo a História mais justa do que se crê, o seu retorno será particularmente cruel para os Metternich do politicamente correcto, os amantes serôdios de Congresso de Viena hoje em dia mais mal vestidos e mal falantes. E o regresso virá. Sempre mais tarde do que se deseja, mas sempre mais cedo do que os beneficiados julgam.




Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

É a Europa uma construção anti-histórica?

“A Europa não é fundada no cristianismo, e além do mais a Europa é uma construção anti-histórica”. Este é em síntese o argumento invocado. A sua simples formulação mostra que não se trata de um discurso racional, fundamentado, mas que a conclusão se quer impor a toda a força independentemente de ter consistência ou não a ideia. O que visa? Visa sempre a pacificação dos proletariados externos, imigrados ou não, sobretudo de origem muçulmana.


A construção não tem lógica porque ignora o outro fundamento da Europa, a herança pagã indo-europeia, para já não falar do substrato de Velha Europa. Falha de fundamento igualmente porque, preparados para o desespero de causa de não poder apagar a herança cristã da Europa, lançam de um argumento de expediente que é o de dizer: mas isso não interessa porque a Europa é uma construção anti-histórica.


Da mesma forma que as leis da física não se violam, mas apenas se têm em conta, as inércias históricas (seja de estabilidade, seja de movimento) não podem ser ignoradas. Um avião não viola a lei da gravidade. É precisamente por a ter em conta que pode voar. Não voa por causa dela, mas tem de voar num ambiente que a ela obedece. Da mesma forma ficcionar que se vive num mundo anti-histórico é presunção de anjo. É frase angélica proferida por anjo caído.

Quem é esta fauna que profere tal tipo de afirmações? A mesma que teve História no liceu duas horas por semana na sua adolescência. O que aprendeu nessa altura? Um prima minha dizia que a História que se aprendia no liceu era muito simples: vieram os egípcios... e depois morreram todos; vieram depois os gregos... e depois morreram todos; os romanos... e assim por diante. Como eu sempre desconfiei desses genocídios mentais tentei dedicar-me um pouco mais à época helenística, ao império bizantino, à Idade Média latina, no que muito devo a Ferdinand Werner, a Curtius, Ostrogorski, Gregorovius, Gibbon mas também aos neoplatónicos e Padres da Igreja, entre alguns outros.


O que resulta para quem não tenha uma concepção genocidária da História é que não apenas as pessoas não deixam de viver, mas bem pelo contrário essas épocas menos observadas pelo comum (refiro-me ao homem público, evidentemente) marcaram tanto as mentes quanto as mais iluminadas pelo foco da atenção escolar. Euclides, Santo Agostinho, Martianus Capella ou Boécio estão fora desse foco, mas marcaram mais directamente os milénios que os mais conhecidos Platão ou Aristóteles.


O que é afinal anti-histórico? Na construção europeia o facto de se ter feito uma construção pacífica da Europa pela primeira vez. Desta forma, sem dúvida. Mas o Nube Austria Felix mostra que a expansão dos Habsburgos enquanto tal não foi feita com base na guerra e bem mais a manutenção desse império custou guerras. É certo que foi a primeira construção da Europa em democracia. Mas foi igualmente a primeira feita com electricidade e televisão. Significa isto que é anti-histórica? A História é guerra, é o que nos afirmam. É consolador saber finalmente o segredo de todos os nossos antepassados. O que faziam? Guerra. A mulher mata o marido, o filho a filha. Não tinham tempo, pobres coitados, para fazer outra coisa. Como toda a gente sabe, a guerra é ofício de analfabetos, como Cervantes, Camões, Sócrates ou Ésquilo, esses medíocres, bem sabiam.


Anti-histórica construção quanto aos seus fundadores? Ou será que a obra inicial, e a mais difícil sem dúvida, foi obra de grandes conhecedores de História e só graças a isso possível?

Mais uma vez estamos perante um caso de engenharia histórica, mas feita por ignorantes da dita. Não conheço bom engenheiro civil que desconheça física. Se a desconhece tem outro nome: mestre-de-obras... ou trolha. Uma Europa construída por trolhas mostra a solidez dos seu fundamentos.


É possível fazer algo anti-histórico? Não, tudo se incorpora na História. É possível fazer algo contra a inércia histórica? É bem provável que sim, embora a mesma História nos tenha demonstrado que em geral os frutos só caem de maduros. O império romano, o Ancien Régime francês ou o império dos czares caíram por dentro. E cortaram realmente com a História? O império romano do Ocidente continua com Boécio, Prudêncio, Ausónio na cultura, com a militia Christi nas instituições, para já não falar na parte oriental do império. O Ancien Régime perpetua-se e agrava-se com a Revolução Francesa em muitos aspectos, como a situação da mulher, que piora, a protecção social, que evanesce. E do que se lembram na Revolução Francesa como paradigma? Algo de tão moderno... como a República Romana. O império soviético foi tão russo quanto os seus antecessores, espalhando a sua influência duradoura na Europa central e oriental e na Ásia central, na boa tradição tzarista. E manteve um sistema cesaropapista com uma religião de Estado, do cristianismo para o estalinismo, ambos religiões de Estado.


As rupturas não quebram todas as continuidades e bem pelo contrário são em grande medida retornos. O argumento histórico de alguns sociólogos (!!!) é o de que a Europa se construiu contra si mesma. Num certo sentido tudo cresce contra o que foi. Nessa perspectiva é banalidade. Mas de que fala esta gente? Da Renascença? Que maior retorno mítico à Antiguidade poderia haver? O Barroco? Construção em grande medida peninsular e retorno à Idade Media latina, como bem viu Curtius. A revolução científica? Em parte retorno a Diofanto, Arquimedes, Euclides, Eudoxo e Platão. A reforma? Em boa parte retorno a Santo Agostinho e aos Padres da Igreja. A teoria da relatividade? Reposição em parte de Maxwell e retorno inconsciente a Duns Escoto. A psicanálise? Em boa parte revivescência de secular tradição de valorização dos sonhos e do mito da eterna criança. A construção europeia? Retorno em boa parte à Europa de Verdun de 849 na sua fundação e expressamente assente da ideia de Respublica Christiana pelos seus fundadores. Retorno a Dante, acima de tudo, com a sua separação entre o imperium, e o sacerdotium.


As épocas que se pretendem originais são apenas esquecidas.

O que seria fazer algo contra a inércia histórica? Negar de vez o cristianismo por exemplo. Nietzsche bem o tentou, sendo dos raros que disse em alta voz o que muitos pensaram e ou praticaram antes dele. Que a maioria das vidas humanas não têm valor, que os seres humanos são fundamentalmente desiguais e que só a vida heróica é digna de ser vivida, ou seja, que a maioria delas é apenas magma para fazer tijolo. O único problema é que quando este tipo de ideias sai de um certo círculo aristocrático costuma haver nazismos. Anti-histórico seria fazer tábua rasa de muitas pequenas instituições que parecem ser meros resquícios históricos, como as regras de etiqueta, por exemplo. Passamos assim a viver num mundo em que escarrar para o parceiro passa por vivência democrática. E a Revolução Francesa mostra como isso pode ir em crescendo até a guilhotina e Robespierre.


Se querem ser anti-históricos que sejam ousados e não enfadonhos e rotineiros, apregoando uma mais que vista democracia, regime instalado na História e dela dependente por excelência. Se querem ser anti-históricos têm de proceder como Nietzsche à subversão de todos os valores. Mas que seja efectivamente coerente. Que não apregoem valores cristãos de fancaria. Sejam homenzinhos e revoguem de vez a História. Atirem-se para o realmente inovador. Do bordel ao parlamento e vice-versa (Aristófanes apenas o fez como exercício de estilo), que o façam como é de seu apanágio: sem estilo. Ou transformando instituições humanitárias em centros de tortura abertos (a palavra “abertos” é a parte mais inovadora da expressão).

Reconheçamo-lo. A liberdade de expressão significa apenas que não pode haver relação directa entre o que se diz e a prisão. O que é justo. Mas não devia repelir a sindicância nem o apupo. Ninguém devia ser preso por dizer disparates, mas o que é grave é que só se seja livre para os dizer. A História está nas mãos de sociólogos, juristas, políticos, economistas, ou quando muito de especialistas na lei das sesmarias. Ora a História é abertura, alargamento de horizontes. Como todas as ciências, sofre com a superficialidade ou a especialização. Quem afirma que a construção europeia é anti-histórica vive nesse mundo pequenino em que tudo é aparentemente novo, mas flutuante; no fim de contas, irrelevante. Apenas se fascina com brinquedos novos disponíveis no retalho das ideias.




Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

" Little Portugal in Newark "


October of 2010,City Sandwich made its way to NYC - in the heart of Hells Kitchen. A concept I launched in Lisbon a few years ago which to my surprise, did not work out as I planned.
"ItaLisboNYka"inspired sandwiches. Three cultures deliciously infused between a good quality portuguese bread...the end result, Mediterranean perfection !

Delicious press, feedback from locals, mouth watering opinions of those who are up to date with todays trendy way of social media - is making Portugal something more to talk about. Alheira, Morcela, Paio, Sardines to name a few, will soon become a household name before I'm done in this " never sleeping city ".

The variety of Portuguese restaurants in NY are limited - could be due to the fact the "heart of Portugal" is just on the other side of the river, New Jersey, where you will find 1st,2nd,3rd-even 4th generation Portuguese making the area as "Portugal as it gets".
Who needs to eat in Manhattan when you can get the true essence and surroundings just a short ferry or tunnel ride away- the distance is almost the same as Almada is to Lisbon. Thanks to this dedicated community, it made it possible for me to research, learn, and bring back to life my Portuguese inspired sandwich shop. Supermarkets, restaurants, deli's, even the electronic stores are mostly run by Portuguese who speak their language so well, you would think they "just got off the boat" - no matter what generation - the community sure takes pride in being who they are..Portuguese !

I remember the way Little Italy used to be - if you didn't speak Italian, you would feel like a minority walking through the streets of Mulberry and Mott. You were able to get a full taste of the culture- expressed in the food, the language or simply a screaming italian on every other corner - Italy was there !

I solute the Portuguese for keeping their culture alive - for understanding the importance of ther heritage and roots and passing it down to "their off springs".

Take a moment to visit http://www.portuguesecircle.com/ need to know what's going on in NY with the Portuguese community - this is the site to visit.

Chef Guerrieri

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segunda-feira, 25 de julho de 2011

Sinais de servidão

Uma vez um funcionário muito bem colocado disse-me: “eu prefiro ser mandado pelos americanos que pelos franceses e alemães”. Curiosa concepção de liberdade a que ele se resume a escolher um senhor. Escusado será dizer que a criatura em causa tinha um posto tão alto quão baixa era a sua origem. Em bom rigor, o problema da origem não é de onde se vem mas o facto de ainda se lá estar. A graduação apenas estica, não eleva. Que sofrimento.

Dá-se o caso de os últimos anos terem servido de demonstração. Não é muito relevante para estes efeitos saber onde está o vencedor a cada momento, se a ideia europeia de política internacional (aliás muito criticável em muitos aspectos) se a americana (muito boa talvez... para os americanos).


Mais importante é saber o que se aprende com estas reacções. E aprenderam-se coisas. Em primeiro lugar que é nas situações de crise, em que se têm de fazer opção claras, que se percebem as principais fidelidades. Elas existem sempre, mas só têm mesmo de vir ao de cima em períodos de grande crise.


O que ficou expresso nesta crise foi que alguns políticos, alguns comentadores, alguns jornalistas fizeram uma opção clara. Estarão sempre com os Estados Unidos, aconteça o que acontecer. E por mais irracional que seja a sua política. Dizem-se democratas, mas apoiam políticas condenadas por mais de 80% dos povos em que estão integrados. Acima da sua pátria, acima da Europa, acima da democracia, está a fidelidade aos americanos. Primeira lição importante.

Segunda lição a retirar é que decorre da frase “os americanos são só nossos principais aliados”. E como se não bastara apresentam-se como alternativa eventuais enormes projectos de investimento americanos, como contrapeso aos europeus. Onde está o dinheiro americano a fundo perdido? Onde está a solidariedade americana económica e social? É que talvez não dêem porque não é essa a sua forma de fazer política. Financiam exércitos estrangeiros e sistemas políticos, mas muito pouco o desenvolvimento. E talvez não dêem porque não têm. Gastam o dinheiro todo em armas. E talvez não dêem porque não lhes interessa, quando são investidores particulares. Não é por amor aos povos que as empresas investem. Os americanos continuaram a investir mais em França e na Alemanha que em Portugal e em Espanha.

Mas “aliados”? Que se acharia de uma criança de três anos que falando do homem mais forte da Terra dissesse: ele e eu somos aliados? Achar-se-ia ternurento, próprio de um desenvolvimento intelectual incipiente, ou pura tontice. Será que os cargos públicos criam a impunidade intelectual?


Terceira lição a retirar, os erros próprios. Se a Europa não foi capaz de impor uma política própria deve ter culpas no cartório. Sofrendo mais com complexo de imunidade que a outras regiões do mundo, achámos que não tínhamos de investir na segurança e na investigação. Provavelmente devemos ser mais selectivos nos nossos benefícios sociais, dando a quem realmente precisa, para poder investir mais nestas duas áreas. Não tínhamos defesa própria credível e isso criou tentações de curto prazo junto de alguns novos países aderentes para seguirem os Estados Unidos.


No que me diz respeito, a identidade de um homem maduro não se define pelas sua alianças, mas pelos valores e objectivos que são os seus. Nunca definiria uma Europa de acordo com a sua aliança em relação aos Estados Unidos, porque se trata de uma realidade com apenas algumas décadas. A Europa tem milhares de anos, e na sua História esta aliança é meramente conjuntural.


Em primeiro lugar a Europa é a Europa. Frase só aparentemente redundante, porque a pressão americana nos leva a dizer que é Europa o que não é. Depois, em função do que é, e do que lhe interessa, escolhe os seus aliados.


O seu primeiro aliado natural é a Rússia, com todas a dificuldades que essa aliança e uma futura integração venha a ter. É um parceiro da Europa (e uma parte dela) no longo prazo. Partilha de uma História profundamente comum, deu contributos inestimáveis para a nossa civilização. Entre Tolstoï ou Strawinski ou Mendeleev e Hemingway ou Gershwin ou Michelson não tenho dúvidas sobre quem mais contribuiu com grandes obras para a nossa cultura. Entre a profundidade histórica de relações entre as pessoas no dia a dia não tenho igualmente dúvidas quem são os nossos principais aliados.


Temos as nossas antigas colónias americanas e africanas com as quais temos relações de paternidade emancipada (não de irmandade, esse é um disparate) com os quais partilhamos uma História comum e uma cultura comum.


Temos igualmente vizinhos, muito diferentes de nós mas em graus diversos. Os turcos e turcófonos, e os árabes e arabizados. Temos de viver uns com os outros em boas relações de vizinhança e somos nós e não os americanos quem tem de construir o padrão desse relacionamento. São mais distantes de nós pela cultura que povos bem mais distantes geograficamente. Mas é com esses vizinhos que temos de viver, e eles connosco.

Finalmente, e só finalmente, temos os Estados Unidos, a Índia e a China. Em graus diversos, com parentescos diversos (mais próximos com os americanos, de seguida com os indianos, nulos com os chineses) que se apresentam como potências e com as quais temos de lidar, optando pela cooperação, ou a confrontação.


É evidente que este quadro parece relativamente distorcido, ou mesmo muito, para quem tem uma visão histórica apenas de décadas. Que disparate, diz o nativo, a terra é plana. É verdade, no horizonte estreito. Mas ela é curva, num longo horizonte. E é por ser redonda que funciona como funciona. Para se compreender o seu comportamento a longo prazo tenho de perceber que ela é redonda. Se quero apenas ir buscar um copo é melhor ficcionar que ela é plana. Basta-me. Se quero pensar nos grandes destinos do planeta tenho de incorporar a sua curvatura.


Confesso que estas discussões entre os amigos da paz contra os amigos dos americanos me parecem conversas de míopes. Resultam apenas do hábito, são em conclusão mero folclore urbano, a que todos nos vergamos, por falta de espaço mental, por fracos pulmões, pequena capacidade de respiração.


Começámos com o suburbano que de forma arrojada decidiu alvitrar sobre política. O suburbano não está em lugar nenhum, não pertence nem à cidade nem ao campo. Traz consigo um passado de dominação mas já não sabe a quem se entregar. Deixemo-lo na sua paz.


Verificámos afinal onde ficam os defensores da aliança com os Estados Unidos. A sua fidelidade não está na Europa, nem sequer em relação ao seu país nem sequer em relação à democracia. Sobre tudo isto prevalece a fidelidade aos americanos. Só lhes fica bem, mas demonstra o que para eles é realmente mais importante, acima de tudo o resto. Acreditam que são nossos aliados e aceitam a sua dominação, mesmo que não levem nada em troca. Não se vendem por dinheiro embora tenham a esperança de recebê-lo. Mas mesmo que não o recebam rezam ao altar americano. A pureza dos seus sentimentos apenas lhes fica bem.


Apenas pecam moralmente por falta de visão. Julgam-se aliados de um gigante e sorriem como crianças perante ele. Se deixamos estas crianças fazerem birra, a culpa não é dos Estados Unidos, mas nossa, dos europeus. É evidente que há e haverá sempre crianças malcriadas, mas se elas proliferam, o erro é sempre de quem educa. A Europa entregou-se nas mãos dos Estados Unidos e por isso deixou mãos largas aos fedelhos discursivos.


Citando os americanos: “Arranjem uma vida”. E isto é válido tanto para os que defendem os americanos a todo o transe como para os que os atacam. Vivam em casa própria, instalem-se na própria morada, em vez de se definirem pelas amizades (ou inimizades) que supostamente têm.







Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Aprendendo matemática e outras coisas III

Mas vejamos o fundo da questão. A tese que hoje em dia corre insurge-se contra uma concepção que se afirma romântica da aprendizagem. No entanto, em boa verdade é uma concepção meramente gestionária da educação. É verdade que na versão pública a ideologia educativa prevalecente parece ser de “esquerda”, romântica, à la Rousseau. Parece. Mas em boa verdade vejamos quais são as suas práticas: organigramas, fluxogramas, enunciação de objectivos, fichas, idolatria das competências em detrimento do conhecimento como valor. A sua lógica substitutiva e não cumulativa torna-a parente das técnicas da obsolescência induzida, típica da sociedade de consumo.

A teoria pedagógica criticada em boa verdade não é de esquerda, nem romântica. O romantismo, sobretudo o alemão, é demasiado profundo para a sua capacidade. Não é acaso que em Portugal se impôs com os chamados doutorados de Boston, que há uma décadas atrás eram sinónimos de doutorados da Farinha Amparo.

A teoria em causa é gestionária, originada nas técnicas empresariais, e julgando-se que a sua prática era romântica e de esquerda, em boa verdade tem origem americana e empresarial. A escola é analisada como uma empresa complacente com os seus clientes, no caso, os alunos. Cada cliente é especial, cada aluno é especial. Se os resultados desta pedagoga são medíocres, não é tanto pelos seus pressupostos filosóficos, mas pela intranscendência filosófica. O ensino foi entregue nas mãos de gestionários, que sob a capa benevolente julgaram tratar dos alunos como de clientes, e do ensino como um produto que tem de ter o agrado do consumidor. O professor que tenta seduzir mais não é que mais um avatar da sociedade de consumo em que o sorriso é uma forma de angariação de clientes. O seu romantismo é assim, não o de Schelling ou Rousseau, mas o da publicidade de férias numa ilha (ilusoriamente) deserta.

O problema dessas teorias pedagógicas não é tanto o de serem românticas. É o de não serem teorias e em boa verdade, mais um instrumento capitalista. Não são pedagogia, apenas marketing. O aluno é tratado como consumidor a quem se tem de agradar, a matéria a ensinar um produto que se tem de embrulhar para seduzir, sempre substituível por um novo, de preferência a deitar fora passado um certo prazo de validade. Quando descemos abaixo do reino da aparências vermos a verdadeira face das coisas. O que torna o actual ensino inútil para as empresas não é ser pouco empresarial na sua cultura, mas de o ser em demasia. É o de criar consumidores e não produtores. É o excesso de sentido empresarial que o torna inútil. Tivera-o menos, seria nos seus efeitos mais rico para todos nós. Consumo rápido, agrado do consumidor, desgaste rápido do produto, ilusão de exclusividade do cliente, estão aqui todos os traços desta ideologia. Não é em assento filosófico que se funda, mas mero resultado da sociedade que o criou. Sendo de consumo a sociedade, é igualmente de consumo a educação.







Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 12 de julho de 2011

Aprendendo matemática e outras coisas II

Qual é o oposto do sistema cumulativo? Um sistema substitutivo, seja assim assumido intencionalmente, seja nos seus efeitos práticos, pela forma como funciona. O problema deste sistema substitutivo é que anuncia pela sua natureza a sua irrelevāncia. Se o aluno pode esquecer sem problemas o que antes aprendeu quer isso dizer que o que aprendeu antes não era assim tão relevante. Qualquer sistema substitutivo é assim forçosamente uma aprendizagem de irrelevâncias. Se é permitido esquecer, se é irrelevante que se esqueça, é porque o esquecido não era essencial em conclusão.

Qual é o segundo vício de um sistema substitutivo de aprendizagem, seja em que área for? E entramos na segunda incompletude dos que afirmam que o ensino da matemática é cumulativo, e apenas ele. É que se as aprendizagens forem cumulativas a probabilidade de relacionamento entre as matérias aumenta exponencialmente.

Imaginemos que em cada matéria aprendida cumulativamente se forma uma coluna. Se essas colunas nos estiverem presentes na mente, as possibilidades de inter-relação entre elas são muito grandes. Mas se a cada momento apenas sei as matérias que estou a aprender nesse momento restam apenas fatias dessas colunas. A probabilidade dessas matérias se entreajudarem fica muitíssimo mais reduzida. Tenho de contar com a sorte de, no mesmo momento, estar a aprender algo que se possa relacionar entre si.

A História das ciências está repleta dessas ligações. Einstein quando começa a estudar a teoria de relatividade generalizada percebe que existem estruturas matemáticas que lhe fazem lembrar algo de que tinha umas luzes, os tensores. Poucas pessoas no mundo estudavam essa matéria e teve de contar com a ajuda de Levi-Cività. Não tivera jamais tido algum contacto com os tensores, a relação nunca se teria feito na sua mente. Toda a linguística assenta em conhecimentos cumulativos. É por haver um conjunto de cavalheiros que sobretudo desde o fim dos século XVIII e ao longo de todo o século XIX tinham aprendido latim, e grego, e alemão, e sânscrito, que começaram a suspeitar que as semelhanças entre as palavras e as estruturas das línguas não poderiam ser fruto do acaso. É a cumulação de uma imensa mole de informação por Cuvier que conseguiu perceber aspectos essenciais da anatomia comparada que hoje em dia tanto excitam os amantes dos filmes sobre a Pré-História.

A segunda parte da tese que corre é a de que só se pode passar para uma nova fase de aprendizagem caso se conheça bem a anterior. Concordo mais uma vez, mas discordo por ser condição necessária mas não suficiente.

É verdade que tenho de compreender bem a fase anterior antes de passar à seguinte. E que isso é verdade para todos as disciplinas e não apenas para a matemática. Mas existe mais uma lacuna nesta ideia. É que se tem de compreender bem a fase anterior – na sua relevância cultural. A minha experiência foi a de ser bom aluno a matemática e tê-la detestado até ao 9º ano, exclusive. Aquilo tinha regras, e bastava uma pessoa cumpri-las para ser fácil fazer. Mas o que sobra disso? Nada. Apenas um exercício. Queriam que eu resolvesse problemas com homotetias, pares ordenados, conjuntos? Seja. Era fácil. Despacha-se e não se pensa mais nisso.

Aqui está a incompletude da tese defendida. É que não basta compreender funcionalmente a anterior fase de aprendizagem. É preciso compreendê-la como cultura. Isto é tanto mais notório na matemática, em que uma cultura plebeia a trata como mera questão técnica. Não basta saber resolver o problema, não basta saber demonstrar o teorema.

Vejamos isto com um exemplo. A demonstração do teorema fundamental da trigonometria. Há várias demonstrações, e algumas muito elementares. Um aluno pode saber demonstrar esse teorema, mas se não perceber porque é fundamental não percebeu nada da sua relevância cultural. É fundamental, não por ser difícil de perceber, ou demonstrar, mas porque no fundo diz que no plano euclidiano toda a trigonometria assenta no teorema de Pitágoras (e no de Tales, se se quiser). A matemática tem aliás bons exercícios nessa matéria porque os matemáticos, seres respeitadores da tradição, são useiros em designar cuidadosamente como fundamentais certos teoremas. Se um aluno conseguir explicar porque razão são fundamentais, já é um bom passo para mostrar que adquiriu cultura matemática.

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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Aprendendo matemática e outras coisas I

Nestes últimos anos várias pessoas têm vindo a dizer que o ensino da matemática é cumulativo e que, caso não tenhamos consciência disso, não perceberemos que estamos a criar uma fraude no ensino. Em segundo lugar, só se pode passar a uma nova fase de aprendizagem após conhecer bem a anterior. O paradoxo é que não posso simultaneamente concordar mais e discordar mais desta ideia.

Não posso senão concordar plenamente porque não há dúvida que o ensino da matemática é cumulativo. A teoria dos conjuntos é vazia caso não se perceba as implicações que tem para a análise, aprender análise sem saber álgebra é impossível, discorrer sobre álgebra abstracta sem perceber as suas implicações na geometria é exercício vão. Não há parte da matemática que não esteja relacionada com outra e um dos mais aspectos mais fascinantes da matemática é exactamente o momento em que duas áreas que cresceram isoladamente se percebe que estão profundamente ligadas. Quando Descartes liga a geometria e a álgebra, ou os números complexos mostram a sua importância para a trigonometria, eis momentos de glória da matemática.

Quanto a isto não tenho dúvida nenhuma. Em que discordo desta ideia afinal? Bem sei que isso pode acontecer por probidade, por espírito de contenção. Os matemáticos falam só de matemática e isso os mostra a sua honestidade intelectual. Mas ao insistirem que o ensino da matemática é cumulativo esquecem dois aspectos essenciais. É que toda a aprendizagem é cumulativa e, em segundo lugar, sem essa natureza cumulativa torna-se impossível interconexão de conhecimentos. Vejamos então estas duas ideias.

O ensino da sintaxe sem conhecimento da morfologia é um dislate. O estudo das gramáticas generativas estruturais ou o que lhe queiram chamar nos níveis elementares e secundários de educação revelou-se um desastre. E porque? Em grande medida por causa, não dos seus defeitos, mas da sua natureza generalizada. Entramos num espaço vaporoso, que tenta resolver problemas que uma criança ou um adolescente nunca pensaram nem podem pensar. Aliás nem os professores em geral em boa verdade. Porque para os perceber na íntegra isso implica conhecer uma enciclopédia de línguas muito vasto, cada uma com a sua estrutura. Os conceitos destas gramáticas tentam resolver problemas que não existem em português, mas em polaco, outras vezes em sânscrito, outras ainda em árabe.

Mas existem sinais bem práticos deste desastre. Atiram-se as crianças para estes tipos de gramáticas, que são defectivas, na substância sobretudo sintaxes sem morfologia própria. E eis que aparece um sintagma preposicional. A criança não deu morfologia, não sabe o que é uma preposição. E decora. Nada mais pode fazer.

Outro exemplo prático nas línguas em geral. Suponhamos que se exige a uma criança que decore certo vocabulário num ano, mas já não seja exigido no ano seguinte. Ou o primeiro era muito especializado e era inútil ensiná-lo, ou estão é essencial e no segundo ano anda a criança coxa na sua expressão. Tente-se aprender as declinações, esquece-las de seguida, e aprender depois os verbos. Não servem de nada. Bem podem reger o ablativo, que ele anda morto coitado.

Na História, para variar o exemplo. A falta de cumulação nota-se mesmo em teses de doutoramento e em investigações. Mesmo trabalhos muito sérios claudicam quando vem a tentação comparatística, e esta é inevitável sob pena de provincianismo. Quando o especialista em História medieval se atira à comparação com a Antiguidade é quase certo aparecer uma síntese apressada. “Na Idade Média, ao contrário da Antiguidade...”. “Surge pela primeira vez nesta época...”. A consequência? A comparação é feita com uma caricatura. O historiador contemporâneo especialista na sua época perde-se em pormenores e não consegue revelar estruturas já antes vistas.

Nas ciências da vida estuda-se o corpo humano num ano mas no ano seguinte ensinam-se patologias. Deixa de ser importante que o aluno saiba distinguir o estômago dos intestinos nesse momento só porque os aprendeu no ano anterior? Na química podemos esquecer a química inorgânica apenas porque vamos aprender a orgânica?

Os exemplos são muitos. São aliás todos. Toda a aprendizagem é cumulativa. Toda a aprendizagem que se queira realmente útil.

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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Maria José Nogueira Pinto

Maria José Nogueira Pinto merecia escapar ao habitual carrocel de elogios fúnebres. Tinha uma frontalidade rara que não se compadeceria com a lamúria de exaltações que desfilam sempre que alguém morre.
Fazia o pleno na radicalidade. Conseguia ser correcta politicamente e politicamente incorrecta; chamar os bois pelos nomes com a garganta forrada de pérolas; cruzava racionalidade com sensibilidade social; humor caustico com exigência espiritual; gosto pela vida e compromissos cumpridos. Nunca passou por um lugar sem o fazer. Prosseguia ideais conhecendo o pó dos caminhos para os pôr em prática. Tinha a inteligência dos teóricos e o pragmatismo dos que mexem no mundo das coisas.
Há poucos meses, perdeu comigo uma manhã, em sua casa, para me dar uma luz sobre os problemas sociais em Lisboa. Bebia um chá amargo, depois de ter tentado a limonada. Não percebia o que estava a correr mal consigo. Nem eu percebo. Vai fazer falta a todos. A Portugal. Que Deus guarde a sua alma.

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sexta-feira, 1 de julho de 2011

Porque está o francês fora de moda?

That monstrous region, whose dull rivers poor
Keats


O império do inglês tem posto a nu um fenómeno que se tinha manifestado em alguns países europeus, mas também na América Latina, em África e em alguns países asiáticos. O inglês impera, mas às custas da decadência de uma outra língua: o francês.

As causas desta decadência são fáceis de analisar: seguiram-se duas potências hegemónicas anglófonas, o inglês básico (mal falado) é mais fácil que o francês básico (que tem de ser sempre minimamente bem falado). Por outro lado, o inglês é um híbrido em que germânicos e latinos encontram sempre um apoio para sua ignorância, em que é comum haver uma palavra, uma construção, uma mais latina e outra mais germânica. A própria estrutura da língua é mais flexível, mas menos rica em flexões. Factores endógenos à própria língua e ao canto histórico em que se implantou tornaram o inglês a língua do mundo ecuménico. Geralmente um inglês veicular, aculturado, pobre, mas de qualquer modo uma forma de inglês.


Que uma língua franca seja substituída por outra não é em si factor de desgraça nem nos deve fazer chorar muito. Que o persa ou o baazari tenham deixado esse papel na Índia, que o babilónio tenha perdido esse papel, ou o acádico, ou o grego ou o latim, em si mesmo pode ter tido maiores ou menores desvantagens, mas não é a primeira nem será a última vez na História que uma língua franca perde o seu papel. Se fosse por essa razão não choraria a perda do francês. Mais uma para o rol da História.


O que é importante é saber que significado sob o ponto de vista civilizacional – e consequentemente político – tem esta perda do francês.


Em primeiro lugar, o mundo do francês imperante nunca foi monolítico quanto a línguas francas. A Europa culta sabia francês, mas sabia igualmente latim e grego, por vezes italiano, ou alemão, se era comerciante igualmente inglês. Quando o francês impera como língua franca não há monolitismo. É um mundo de muitas línguas francas, mesmo que algumas fossem mortas. Até à primeira guerra mundial muitas teses de doutoramento, seja em filosofia, em matemática, em filologia, em lógica, em teologia eram escritas em Latim. O grego era a base de formação das classes cultas, e ler Dante era tão natural para um inglês culto quanto ler Shakespeare. O francês representa um império que não uniformiza.


Em segundo lugar, o mundo do francês imperante é formado por uma língua com uma estrutura de tal modo complexa para um primeiro manuseamento que exigia a elevação de qualquer locutor que o usasse como língua veicular. O francês elevava, mesmo os medíocres. Ao contrário do inglês, língua minoritária se pensada no seu alto nível, o francês mínimo é exigente. O francês tinha assim um efeito equalizador. Um português que o falasse bem era tendencialmente mais ouvido que um rico inglês que a assassinasse, caindo no ridículo.

Em terceiro lugar, o produto cultural francês, muitas vezes retórico, vácuo, meramente panfletário, era em média de muito maior qualidade que o produto cultural em língua inglesa (do basic English, entenda-se). Mesmo não se percebendo, lia-se Hugo ou Balzac. Hoje em dia o inglês é usado para ler folhetos truísticos ou jornais económicos. Poucos leram Swift, Pope ou Huxley. Era um mundo de uma certa exigência mínima.


Em quarto lugar, o mundo do francês imperante carrega uma ideia de civilização, consequentemente de melhoria, de aperfeiçoamento. Da moda ao estilo de falar, de se mexer, de se expressar. Não se pode falar nesse mundo ou estar no mesmo sem uma certa postura. O mundo do inglês básico, língua que foi criada para o indígena, é o mundo do indígena, não o mundo do Dr. Johnson. O seu paradigma é a selva, não a civilização.


Como antes disse, não verteria uma lágrima por esta queda do francês, se ela não estivesse associada, e não por acaso, à queda de uma civilização, ou seja, de um modo de respirar mais livre pelo homem. Por vezes mantém-se a língua, mas abafa-se o sopro, como aconteceu com o grego do império bizantino. Outras vezes a língua mantém-se a balões de oxigénio, para insuflar o mundo, como aconteceu com o latim até à Renascença. Outras vezes morre como o acádico e babilónico sem que tenhamos de ter uma infinita pena de um mundo que morreu, mas que foi substituído por algo de muito mais infinitamente rico, como o mundo helénico.


Mas que o francês esteja a perder força deixa-me inquieto, mais que pela língua, pelo que ela representa: um mundo plural, diversificado, um mundo de uma complexidade mínima e esforço, um mundo de exigência e um mundo de aperfeiçoamento.


Adivinho no leitor mais impaciente algumas, diria mesmo, muitas reticências. Que verbalismo, que verborreia, que dislate de demonstração! Vá-se lá acreditar que a simples mudança de língua vai causar tanta desgraça! Pois é esse o ponto. É que não é a mudança de língua que causa a desgraça, mas a desgraça que favorece a mudança da língua. Depois desta última consumada, apenas se alimenta o terreno da desgraça.


A alergia que vejo em relação não apenas à língua francesa, mas igualmente ao país e ao povo, sobretudo nos meios tecnocráticos, mostra o desvio que existe entre a representação do poder e a realidade ela mesma. Execram no francês um poder que estes já não têm, assim como aceitam nos ingleses a arrogância que ainda mantêm em relação ao resto da Europa por se terem submetido aos americanos. O que não percebem estes cidadãos é que contribuem assim para o enfraquecimento da Europa. Desprezar a França é sempre desprezar a Europa. A gosto ou a contragosto, mais nenhuma potência cultural foi hegemónica tantas vezes e durante tanto tempo como a França – o desprezo da França é apenas um epifenómeno de uma verdade bem mais vasta, a do desprezo da Europa.


Porque se passarmos pela História da Europa, vemos que nasce em França a primeira literatura vernácula europeia consistente, e que em múltiplos saltos de esplendor encontramos em muitos séculos picos de apogeu cultural. Os trovadores, mas igualmente a poesia de Avinhão, que marcou Petrarca, Ronsard, Rabelais, mais tarde o Grande Século de Racine e Molière, no século XVIII escritores que iniciam o movimento do romance na Europa continental, no XIX Hugo, Balzac, Flaubert, no XX Proust, Gide... Paris é o centro da cultura com a Sorbonne na Idade Média, Abelardo e São Tomás de Aquino é em Paris que florescem. É o centro da matemática, da física e da química entre o fim do século XVIII e o início do século XIX, ainda no século XX oferece homens como Bergson, Broglie, e a mais pujante (embora por vezes, reconheço-o, enfadonha) diversificação das ciências humanas. Ainda hoje em dia é o país do mundo que produz dos maiores matemáticos. E para quem só respeita dados económicos é dos países com das maiores produtividades por hora do mundo, um dos maiores exportadores do mundo, a maior potência turística do mundo.


É certo que um país pode ser poderoso política, económica mas de igual forma culturalmente, e ser no entanto irritante. E é certo que sou insuspeito, porque sou o primeiro a agastar-me quando pretendem exportar discursos como o da pátria dos direitos do homem (neste aspecto, os seus herdeiros são os americanos), do laicismo ou outros elementos meramente folclóricos da cultura francesa. Se de um lado me derem a escolher Poincaré, Fourier (falo dos cientistas, não dos homónimos conhecidos dos políticos), Broglie, Racine e Molière e do outro tiver à minha frente Robespierre, Marat, Mirabeau, Gambetta ou Thiers, a minha escolha está feita de há muito. Reconhecendo os méritos dos segundos, conheço-lhes demais as mediocridades e mesquinhez para os admirar de sobremaneira.


Ninguém se agasta mais com a retórica de exportação da França quanto eu. Porque em geral as retóricas de exportação são produtos de fancaria e porque no caso francês são injustas por diminuírem a grandeza do país. Mas a França pertence aos países de Verdun, aos países do império carolíngio, e foram eles o principal motor da aventura europeia, tenhamos a lucidez e, se se preferir, a humildade, de o reconhecer, nós que não fazemos parte desse núcleo central.

Da minha parte sempre me pareceu da mais elementar justiça admirar a grandeza, tanto quanto desprezar a pequenez. E creio não me deixar iludir na matéria. Um mundo onde se ataca o francês, ataca-se uma cultura, uma civilização. Tenta-se atacar o núcleo dessa civilização. Quem o faz pretende a bem ou a mal um mundo uniforme, a planura, e que o centro do poder esteja fora da Europa. Não gosta de países nem de culturas com vontade própria, salvo se essa vontade for alheia à Europa. Em suma, no dia em que se deitar fora o francês para renascer a poliglotia com o alemão, o italiano, o russo, o espanhol e o inglês, poderia ficar descansado com a qualidade dos sucessores. Mas se apenas se pretende a monotonia do inglês do indígena colonizado, apenas se será secundado pelos analfabetos, os submissos e os enfadonhos. Para quem a vida é um bocejo, que se sinta bem servido.

Alexandre Brandão da Veiga




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quinta-feira, 16 de junho de 2011

Quem são os artistas?

Cada um tem a sua história e o seu gosto. No meu caso confesso ter sempre preferido a gnoseologia, em especial a epistemologia, e, em épocas variáveis, a metafísica à ética e à estética. A penúltima sempre me pareceu algo arbitrária sem um sustento religioso e a segunda algo mais esparsamente elaborada que as primeiras. Mas a verdade é que há épocas para tudo na vida e a seu devido tempo acabei por me decidir a estudar algo de estética.

Reconheço que não foi um frete, mas seria igualmente exagero considerá-la uma paixão. Um trabalho necessário e frutuoso sem dúvida, pouco mais, e já não é ser pouco. A verdade é que no meio de tantas teorias, ora genialmente elaboradas mas como que nas fronteiras dos grandes sistemas, ora centro de preocupação mas com destrinças algo bizantinas para o meu gosto, tentei orientar-me para dar um assento simples para algo que sabia ser sumamente complexo.

Se algo caracteriza a arte, pensei, é o facto de se tornar presente. A realidade por vezes escapa ao homem e existe sempre um ruído de fundo que nos avisa da relativa dissonância que existe entre o facto de estarmos por aqui e isso tornar-se-nos vivamente incarnado. Para regular esse desvio o homem criou a arte. Torna a realidade real, torna presentes as coisas. O ex-voto é assim uma das pedras fundadoras da arte.

Tornar presente tem sempre três momentos: quem torna presente, o que se torna presente e para quem se torna presente. A situação paradigmática da arte encontra-se na adoração dos reis magos. Mostra que o mais importante é sempre para quem se torna presente. De seguida o que se torna presente. E o menos importante quem dá o presente.

Uma arte que tem o destinatário como centro, desde que este seja o merecedor por excelência é uma arte de grandeza. Uma que se centre no presente é uma de pertinência. A que se centra em quem dá é folclórica. Não é por caso de quando os reis magos se transformam em figura principal do presépio é sinal de que a teologia foi destronada pelo folclore.

O problema é que o folclore redunda rapidamente em comércio quando os reis magos passam a ser substituíveis. Por Pais Natal nomeadamente. Quando o que se dá é centro, mas se torna obsessão, a arte transforma-se em feiticismo. E quando a quem se dá presente passa a ser medíocre a arte passa a ser mera adulação. Comércio, feiticismo e adulação são os três estados tristes da arte.

A herança romântica deu-nos o artista como centro. Os classicismos a coisa em si. E o barroco o destinatário. Cada um deles tem o seu mérito, mas cada um o seu perigo. A verdade é que é a avalanche romântica que ainda nos domina. A arte considerada legítima centrou-se no criador, geralmente a pessoa menos interessante para falar dela e com frequência pessoa pouco interessante em si mesma. Ou seja a arte tendeu a ser folclore.

Mas se assim foi enquanto o artista era insubstituível, quando passa a ser reprodutível passa a puro comércio. Nunca tanto se bradou pela pureza da arte e nunca tanto esta passou a ser comercial. O que há que ver é que espécies de Pais Natal nos aparecem sob a figura de artistas.

Em primeiro lugar são pessoas que “não ligam”. Seja a convenções, seja aos outros, seja às pequenezas da vida, seja à opinião do público. Como nestas coisas os sentimentos são recíprocos, nunca tão pouca gente lhes ligou a eles. Se o Estado os subsidia fá-lo não a vidas de abandono, mas com frequência a vidas de abandonados.

Em segundo lugar são pessoas profundamente preocupadas, que gostam de dizer que andam profundamente preocupadas. O que é estranho para quem não liga às coisas. O que só pode ter alguma coerência caso a sua preocupação seja destituída de conexão. E portanto para não ser muito levada a sério.

Em terceiro lugar são pessoas com sentimentos, pessoas que são movidas pelos sentimentos. O que é razoável na devida dose, mas que corre sempre o risco de criar tartufos quando é permanentemente exposto. E sentimentos geralmente algo malcriados, em que se indicam recorrentemente os sacrifícios e os custos em que incorreram para nos ofertar a obra de arte. Como o oferente malcriado que nos lembra o preço do presente e quanto custou encontrá-lo.

Em quarto lugar, se bem observarmos o espécime típico, são pessoas de expressão espasmódica, do esgar, do olhar virado para o tecto, em que o discurso não fluí, mas é entrecortado por auto-concentração, como se buscassem algures na alma, mesmo no fundo da alma, algo para dizer. O que não é bom sinal, porque quando é necessário ir buscar ao fundo da alma algo que dizer, quer isto significar que se trata de um poço com reservas esgotadas, de colheita difícil. O seu paradigma não é o rio que corre, mas o poço no meio do deserto, de onde se retira o líquido a custo. Mesmo que o espasmódico seja calmo, isto quando não é realmente ciclotímico, mostra que a sua vivência é entrecortada, descontínua, e portanto fracturada. São convalescentes da existência, pouco saudáveis, a recuperarem do facto de existirem.

Tendo exposto este quadro clínico, facilmente verificamos que a arte, e isto é tanto mais verdade quanto mais afastada do êxito de audiência, tende a ser cada vez mais comercial. Centrada no autor deixou de ser folclórica, porque os personagens passaram a ser substituíveis. Contestou os heróis e foi por isso engolida por essa contestação. O artista passa a ser um produtor comercial, fungível, um entre tantos. Perdeu o estrelato.

Comercial?, saltam já algumas almas caridosas? Como, se é tantas vezes contestatária, marginal, fora dos circuitos comerciais? Ora essa, respondo, comercial sem dúvida. Se incompetente, inepta também sob o ponto de vista económico, apenas mostra mais uma sua fraqueza e não uma escusa da qualificação.

Comércio inepto, centrado em produtores desligados, preocupados não se sabe bem com o quê e porquê, proclamadores de sentimentos e de expressão espasmódica. Que arte é esta? Que efeitos pode trazer ao espaço público?

Não vou dizer que uma arte na sua versão menos adulterada serviu sempre a verdade. Não foi de verdade que falei, mas de tornar presente. Se inepta, apenas deixa de preencher a sua função de tornar presentes as coisas. Uma arte inepta começa por ser uma arte desautorizada. Nunca se levou tão pouco a sério os artistas. Mesmo que se possa dizer que os concretos que temos o mereçam muitas vezes, este não é facto que nos deva causar regozijo. Uma sociedade com artistas desautorizados é uma sociedade que desautoriza o próprio facto de tornar presente, de conferir realidade às coisas.

Aqui é difícil destrinçar quem foi a causa quem o efeito. Se os artistas se desautorizaram e desautorizaram o próprio facto de tornar presente na sociedade, ou se o facto de esta ter desautorizado este facto desautorizou os artistas. Ambas as hipóteses devem ser verdadeiras em graus diferentes consoante as épocas. O fundamental é que se a arte sempre serviu a propaganda, mesmo quando o fazia, as origens que tornavam as coisas presentes eram identificáveis. Podiam ser por isso mais facilmente atacáveis. A arte não escapou à deslocalização, à massificação, aos fenómenos do comércio. A autoria evanesce de tanto o autor fungível ser importante. E por isso se a arte perde a sua função de propaganda dirigida, perde também o seu papel identificador. Significativo o facto de à explosão de movimentos de ter seguido a sua quase desaparição. Cada autor gosta de afirmar que não pertence a nenhum movimento, ou pertence a vários.

Deixando de ser propaganda não colabora com a mentira, mas em nada ajuda a verdade. Apenas passou a ser inepta, mais um elemento na paisagem do espaço público dissolvido e mole. Se antes podia manipular, podia igualmente impedir a manipulação. Hoje não faz nem uma nem outra coisa.

O homem público não podia negar nem Vénus nem a Madonna ou o vitral. Estavam presentes, tornavam a realidade evidente. E evidente o passado indo-europeu da Europa. Se se alimenta dele ainda hoje, a arte apenas o obnubila.

Num espaço público em que ninguém assume a função de tornar presente, seja a verdade, seja a mentira, tudo é manipulável, a realidade esvai-se. Por isso é fácil afirmar que os tapetes de Antalya ou Izmir são Europa. Com artistas perpetuamente demissionários, temos mais um elemento que forma o caldo da manipulação do espaço público. Quando contestam, contestam o que é fácil contestar e por isso nem geram escândalo, nem são ouvidos.

Qual a solução? De preferência que os artistas tomem a iniciativa de tornar de novo presentes as coisas. De preferência a verdade. Se ainda forem capazes. E se para isso não lhes falhar a coragem.

Alexandre Brandão da Veiga


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quarta-feira, 8 de junho de 2011

António Manuel


Conheci-te no I Congresso dos Jornalistas Portugueses, no início dos anos 80, na Gulbenkian.
Ali estavam os homens da imprensa, os rapazes da rádio e as meninas da TV.
Tu trabalhavas na RDP com um grupo assombroso de jornalistas onde pontuava Fernando Alves. Eu ainda andava na Faculdade.
A esquerda de Abril tinha aberto as portas das redacções e a Democracia definiria rapidamente uma fronteira entre os que teriam voz e os que ficavam na prateleira, alternadamente. A maioria dos media era propriedade do Estado o que facilitava essa arrumação. Numa cave da Estefânea, a TSF de Emídio Rangel fazia emissões experimentais clandestinas.
Gostei daqueles dias em que pude conhecer os injustiçados do momento. Lembro-me do cuidado que tinhas com os que não iam à Bicaense, por falta de verba, e só apareciam para o café. Lembro-me da tua calma e da capacidade de fazer pontes. Lembro-me do sentido de humor e do que ríamos com as historias caricatas do jornalismo português.
Fiquei com pena quando, mais tarde, soube que tinhas decidido ir trabalhar com os socialistas. Mas mantiveste intacta a afabilidade, a vontade de esclarecer e de fazer pontes nas conversas que tivemos de cada lado da linha.
Faria depois uma escolha parecida com a tua mas sem contacto com jornalistas para não cruzar registos. Não saberia fazê-lo como tu. Não saberia manter-me, como tu.
Que Deus guarde a tua alma.

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quarta-feira, 1 de junho de 2011

A grosseria como modo de governo

O primeiro-ministro italiano chama nazi a um deputado alemão. Intervém na televisão pública interrompendo um programa de futebol, invocando a sua qualidade de primeiro-ministro. Diz que o islão é uma cultura inferior e depois diz que a Turquia tem de entrar na União Europeia (vê-se assim o calibre dos defensores desta ideia). Em Portugal um ex-primeiro-ministro insulta deputados lembrando o seu passado criminoso de revolucionários de esquerda e leva uma resposta na mesma medida. Um político da oposição ataca um ministro com artigos que ele escreveu há vinte anos atrás, ao que este responde na mesma moeda. O dito ex-primeiro-ministro e o citado ministro batem as palmas das mãos no parlamento como jogadores de futebol americano. Um presidente de câmara distribui frigoríficos, outro dá pontapés num estádio de futebol, outra foge à justiça. Dois ministros saem de consciência tranquila depois de acusados de uma reles cunha.

Já nem refiro exemplos internacionais, nomeadamente americanos. O espaço público é invadido destes exemplos.

Argumentam-me que estão sujeitos a grande pressão. Do espelho suponho. Porque a verdade é que conheço pessoas sob pressão que são grosseiras e outras que não o são. O que faz a diferença entre elas não é estar ou não sob pressão. É serem ou não... grosseiras. É disso que se trata.

Confesso que ainda seria (a custo) suportável o facto de estarem bem longe de serem belezas clássicas. Menos admissível que sejam destituídos de grande inteligência ou qualquer cultura. Que sejam grosseiros de aspecto é facto que já nos provoca anestesia. Mas que sejam grosseiros de modos, que o atrevimento, a má-criação passem das suas casas, bastamente habituadas ao espectáculo, e nos ofereçam de bandeja aquilo que são, começa a ter significado político.

Os políticos sempre foram acusados de hipocrisia. Agora pelo contrário mostram-se como são. Devemos assim reflectir se queremos sempre a sinceridade no espaço público. Se sob o ponto de vista pessoal o fenómeno é de despudor, sob o ponto de vista político mostra que a ágora se transformou em cozinha. O povo quis que os políticos fossem populares, espontâneos, os meios de comunicação social incensaram esta ideia, e obtivemos a satisfação deste desejo. Se os políticos são grosseiros no espaço público é tão simplesmente porque são grosseiros.

É que há certas coisas que não se justificam nem se desculpam nem sequer a posteriori. Pura e simplesmente não se fazem. Não devem existir. Nada mais.

Que o fossem no espaço privado era fácil de adivinhar. Basta ter olhos de ver, para se perceber que não são grandes aristocratas. Mas coisa bem diferente é terem invadido o espaço público... com o que são.

Tentemos avançar mais um pouco.

É que os políticos não se apresentam apenas na glória da sua grosseria. Apresentam teorias justificativas do seu comportamento. Uns afirmam que os actos foram reflectidos. É grave, na medida em que mesmo com reflexão só chegam a estes resultados. Além de grosseiros, com fracas capacidades de reflexão. Outros que é campanha contra eles. Grave igualmente, dado que estão a afirmar que a grosseria própria se explica pela alheia, o que só pode ser verdade se os alheios forem os pais. Outros afirmam que apenas são espontâneos e não hipócritas, e isso leva-nos de novo a reflectir se queremos que, políticos que são assim, sejam como são no espaço público.

A grosseria passou a estar no espaço público e que em consequência o espaço público passou a ser um campo de grosseria. Vemos agora que a grosseria criou uma teoria política própria. Pobre, mas própria, ou talvez pobre porque própria.

É que há certas coisas que depois de feitas é melhor nem serem referidas. Não se pede desculpa por se ter arrotado. Facto lamentável, é sempre melhor fazer de conta que não existiu. Já que entrou da História, ao menos que seja esquecido.

Demos um terceiro passo.

Confesso não saber como cuspir na rua. Não se trata de um imperativo moral. De algo em que me tenha de conter porque sei ser ordinário. Não me implica esforço. Pura e simplesmente desconheço a técnica. Não vi como se fazia, a não ser ao longe, e por pessoas que se distanciavam do meu mundo pelo simples facto de o fazerem. Os meus pais não me transmitiram essa ciência. Em conclusão: falta-me a técnica.

Mas, mais importante que isso, inexiste no meu mundo. A educação não significa apenas alargar. Significa igualmente afastar do nosso mundo. A fome de crueldade, o desejo de vingança, o desrespeito dos outros, em suma, as várias formas de grosseria, fazem parte do elenco dos instintos naturais dos homens. Não carecem de grande formação para serem exercidas, apenas para o serem com requinte. Uma educação supostamente tem como papel igualmente afastar do mundo pelo menos algumas misérias da alma humana. Quando se diz que alguém é incapaz de inveja a nossa tradição europeia vê isso como um elogio. Algumas incapacidades são méritos. Em grande medida porque é mais fácil ter a capacidade correspondente que dela ser destituído.

O espaço público está repleto portanto de sobredotados... para o lado errado da vida. Pessoas espontâneas, que se apresentam como são, com uma grande cultura técnica, manifestando aspectos da vida não realmente inovadores, mas diversos.

Um espaço público decorado de grosseria, com uma teoria política subjacente e uma sobreabundância de vida. Três elementos já referidos.

É que há certas apetências que é melhor não se ter. Quem as tem, que as ampute, ou ao menos as contenha. Já que estão lá que se faça ao menos conta que não existem.

Falta um quarto passo a dar.

É que a questão não é apenas de bom-tom, de boa sociedade, embora no que me respeita isso já lhe dê importância bastante. É que a própria forma de fazer política, a técnica, o instrumento político se transformou em grosseria. Sem ideias, sem berço, sem projecto, o espaço político transformou-se no espaço da gestão da grosseria. A grosseria não é um seu episódio, mas um seu fundamento, e o seu instrumento privilegiado.

Tenho plena consciência do que digo pode passar por exagerado, mera vontade de caricaturar, pura arbitrariedade. Ou então de que afinal, trata-se “apenas”(!) de uma questão de boas maneiras, sem grande relevância na decisão política. Mas gente com modos grosseiros e aspecto grosseiro tem o teimoso hábito de ter sentimentos grosseiros, desejos grosseiros, aspirações grosseiras, ideias grosseiras. Tudo o que subjaz à decisão política. E se as finalidades da política forem grosseiras os efeitos sê-lo-ão igualmente. A longo prazo são os homens do bem comum que deixam obra feita na História. Os desesperados e os grosseiros (são duas formas de dizer a mesma coisa no espaço público), deixam apenas um rasto. O de Átila, o seu paradigma. Ou o dos bobos da corte, um outro. Antes os reis tinham bobos, hoje são os bobos que esmagam os reis. E as decisões estratégicas a que assistimos, com uma Europa fracturada, subserviente ou timorata mostram o resultado prático dessa grosseria.




Alexandre Brandão da Veiga

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