É a Europa uma construção anti-histórica?
A construção não tem lógica porque ignora o outro fundamento da Europa, a herança pagã indo-europeia, para já não falar do substrato de Velha Europa. Falha de fundamento igualmente porque, preparados para o desespero de causa de não poder apagar a herança cristã da Europa, lançam de um argumento de expediente que é o de dizer: mas isso não interessa porque a Europa é uma construção anti-histórica.
Da mesma forma que as leis da física não se violam, mas apenas se têm em conta, as inércias históricas (seja de estabilidade, seja de movimento) não podem ser ignoradas. Um avião não viola a lei da gravidade. É precisamente por a ter em conta que pode voar. Não voa por causa dela, mas tem de voar num ambiente que a ela obedece. Da mesma forma ficcionar que se vive num mundo anti-histórico é presunção de anjo. É frase angélica proferida por anjo caído.
O que resulta para quem não tenha uma concepção genocidária da História é que não apenas as pessoas não deixam de viver, mas bem pelo contrário essas épocas menos observadas pelo comum (refiro-me ao homem público, evidentemente) marcaram tanto as mentes quanto as mais iluminadas pelo foco da atenção escolar. Euclides, Santo Agostinho, Martianus Capella ou Boécio estão fora desse foco, mas marcaram mais directamente os milénios que os mais conhecidos Platão ou Aristóteles.
O que é afinal anti-histórico? Na construção europeia o facto de se ter feito uma construção pacífica da Europa pela primeira vez. Desta forma, sem dúvida. Mas o Nube Austria Felix mostra que a expansão dos Habsburgos enquanto tal não foi feita com base na guerra e bem mais a manutenção desse império custou guerras. É certo que foi a primeira construção da Europa em democracia. Mas foi igualmente a primeira feita com electricidade e televisão. Significa isto que é anti-histórica? A História é guerra, é o que nos afirmam. É consolador saber finalmente o segredo de todos os nossos antepassados. O que faziam? Guerra. A mulher mata o marido, o filho a filha. Não tinham tempo, pobres coitados, para fazer outra coisa. Como toda a gente sabe, a guerra é ofício de analfabetos, como Cervantes, Camões, Sócrates ou Ésquilo, esses medíocres, bem sabiam.
Anti-histórica construção quanto aos seus fundadores? Ou será que a obra inicial, e a mais difícil sem dúvida, foi obra de grandes conhecedores de História e só graças a isso possível?
É possível fazer algo anti-histórico? Não, tudo se incorpora na História. É possível fazer algo contra a inércia histórica? É bem provável que sim, embora a mesma História nos tenha demonstrado que em geral os frutos só caem de maduros. O império romano, o Ancien Régime francês ou o império dos czares caíram por dentro. E cortaram realmente com a História? O império romano do Ocidente continua com Boécio, Prudêncio, Ausónio na cultura, com a militia Christi nas instituições, para já não falar na parte oriental do império. O Ancien Régime perpetua-se e agrava-se com a Revolução Francesa em muitos aspectos, como a situação da mulher, que piora, a protecção social, que evanesce. E do que se lembram na Revolução Francesa como paradigma? Algo de tão moderno... como a República Romana. O império soviético foi tão russo quanto os seus antecessores, espalhando a sua influência duradoura na Europa central e oriental e na Ásia central, na boa tradição tzarista. E manteve um sistema cesaropapista com uma religião de Estado, do cristianismo para o estalinismo, ambos religiões de Estado.
As rupturas não quebram todas as continuidades e bem pelo contrário são em grande medida retornos. O argumento histórico de alguns sociólogos (!!!) é o de que a Europa se construiu contra si mesma. Num certo sentido tudo cresce contra o que foi. Nessa perspectiva é banalidade. Mas de que fala esta gente? Da Renascença? Que maior retorno mítico à Antiguidade poderia haver? O Barroco? Construção em grande medida peninsular e retorno à Idade Media latina, como bem viu Curtius. A revolução científica? Em parte retorno a Diofanto, Arquimedes, Euclides, Eudoxo e Platão. A reforma? Em boa parte retorno a Santo Agostinho e aos Padres da Igreja. A teoria da relatividade? Reposição em parte de Maxwell e retorno inconsciente a Duns Escoto. A psicanálise? Em boa parte revivescência de secular tradição de valorização dos sonhos e do mito da eterna criança. A construção europeia? Retorno em boa parte à Europa de Verdun de 849 na sua fundação e expressamente assente da ideia de Respublica Christiana pelos seus fundadores. Retorno a Dante, acima de tudo, com a sua separação entre o imperium, e o sacerdotium.
As épocas que se pretendem originais são apenas esquecidas.
Se querem ser anti-históricos que sejam ousados e não enfadonhos e rotineiros, apregoando uma mais que vista democracia, regime instalado na História e dela dependente por excelência. Se querem ser anti-históricos têm de proceder como Nietzsche à subversão de todos os valores. Mas que seja efectivamente coerente. Que não apregoem valores cristãos de fancaria. Sejam homenzinhos e revoguem de vez a História. Atirem-se para o realmente inovador. Do bordel ao parlamento e vice-versa (Aristófanes apenas o fez como exercício de estilo), que o façam como é de seu apanágio: sem estilo. Ou transformando instituições humanitárias em centros de tortura abertos (a palavra “abertos” é a parte mais inovadora da expressão).
Alexandre Brandão da Veiga



