segunda-feira, 25 de julho de 2011

Sinais de servidão

Uma vez um funcionário muito bem colocado disse-me: “eu prefiro ser mandado pelos americanos que pelos franceses e alemães”. Curiosa concepção de liberdade a que ele se resume a escolher um senhor. Escusado será dizer que a criatura em causa tinha um posto tão alto quão baixa era a sua origem. Em bom rigor, o problema da origem não é de onde se vem mas o facto de ainda se lá estar. A graduação apenas estica, não eleva. Que sofrimento.

Dá-se o caso de os últimos anos terem servido de demonstração. Não é muito relevante para estes efeitos saber onde está o vencedor a cada momento, se a ideia europeia de política internacional (aliás muito criticável em muitos aspectos) se a americana (muito boa talvez... para os americanos).


Mais importante é saber o que se aprende com estas reacções. E aprenderam-se coisas. Em primeiro lugar que é nas situações de crise, em que se têm de fazer opção claras, que se percebem as principais fidelidades. Elas existem sempre, mas só têm mesmo de vir ao de cima em períodos de grande crise.


O que ficou expresso nesta crise foi que alguns políticos, alguns comentadores, alguns jornalistas fizeram uma opção clara. Estarão sempre com os Estados Unidos, aconteça o que acontecer. E por mais irracional que seja a sua política. Dizem-se democratas, mas apoiam políticas condenadas por mais de 80% dos povos em que estão integrados. Acima da sua pátria, acima da Europa, acima da democracia, está a fidelidade aos americanos. Primeira lição importante.

Segunda lição a retirar é que decorre da frase “os americanos são só nossos principais aliados”. E como se não bastara apresentam-se como alternativa eventuais enormes projectos de investimento americanos, como contrapeso aos europeus. Onde está o dinheiro americano a fundo perdido? Onde está a solidariedade americana económica e social? É que talvez não dêem porque não é essa a sua forma de fazer política. Financiam exércitos estrangeiros e sistemas políticos, mas muito pouco o desenvolvimento. E talvez não dêem porque não têm. Gastam o dinheiro todo em armas. E talvez não dêem porque não lhes interessa, quando são investidores particulares. Não é por amor aos povos que as empresas investem. Os americanos continuaram a investir mais em França e na Alemanha que em Portugal e em Espanha.

Mas “aliados”? Que se acharia de uma criança de três anos que falando do homem mais forte da Terra dissesse: ele e eu somos aliados? Achar-se-ia ternurento, próprio de um desenvolvimento intelectual incipiente, ou pura tontice. Será que os cargos públicos criam a impunidade intelectual?


Terceira lição a retirar, os erros próprios. Se a Europa não foi capaz de impor uma política própria deve ter culpas no cartório. Sofrendo mais com complexo de imunidade que a outras regiões do mundo, achámos que não tínhamos de investir na segurança e na investigação. Provavelmente devemos ser mais selectivos nos nossos benefícios sociais, dando a quem realmente precisa, para poder investir mais nestas duas áreas. Não tínhamos defesa própria credível e isso criou tentações de curto prazo junto de alguns novos países aderentes para seguirem os Estados Unidos.


No que me diz respeito, a identidade de um homem maduro não se define pelas sua alianças, mas pelos valores e objectivos que são os seus. Nunca definiria uma Europa de acordo com a sua aliança em relação aos Estados Unidos, porque se trata de uma realidade com apenas algumas décadas. A Europa tem milhares de anos, e na sua História esta aliança é meramente conjuntural.


Em primeiro lugar a Europa é a Europa. Frase só aparentemente redundante, porque a pressão americana nos leva a dizer que é Europa o que não é. Depois, em função do que é, e do que lhe interessa, escolhe os seus aliados.


O seu primeiro aliado natural é a Rússia, com todas a dificuldades que essa aliança e uma futura integração venha a ter. É um parceiro da Europa (e uma parte dela) no longo prazo. Partilha de uma História profundamente comum, deu contributos inestimáveis para a nossa civilização. Entre Tolstoï ou Strawinski ou Mendeleev e Hemingway ou Gershwin ou Michelson não tenho dúvidas sobre quem mais contribuiu com grandes obras para a nossa cultura. Entre a profundidade histórica de relações entre as pessoas no dia a dia não tenho igualmente dúvidas quem são os nossos principais aliados.


Temos as nossas antigas colónias americanas e africanas com as quais temos relações de paternidade emancipada (não de irmandade, esse é um disparate) com os quais partilhamos uma História comum e uma cultura comum.


Temos igualmente vizinhos, muito diferentes de nós mas em graus diversos. Os turcos e turcófonos, e os árabes e arabizados. Temos de viver uns com os outros em boas relações de vizinhança e somos nós e não os americanos quem tem de construir o padrão desse relacionamento. São mais distantes de nós pela cultura que povos bem mais distantes geograficamente. Mas é com esses vizinhos que temos de viver, e eles connosco.

Finalmente, e só finalmente, temos os Estados Unidos, a Índia e a China. Em graus diversos, com parentescos diversos (mais próximos com os americanos, de seguida com os indianos, nulos com os chineses) que se apresentam como potências e com as quais temos de lidar, optando pela cooperação, ou a confrontação.


É evidente que este quadro parece relativamente distorcido, ou mesmo muito, para quem tem uma visão histórica apenas de décadas. Que disparate, diz o nativo, a terra é plana. É verdade, no horizonte estreito. Mas ela é curva, num longo horizonte. E é por ser redonda que funciona como funciona. Para se compreender o seu comportamento a longo prazo tenho de perceber que ela é redonda. Se quero apenas ir buscar um copo é melhor ficcionar que ela é plana. Basta-me. Se quero pensar nos grandes destinos do planeta tenho de incorporar a sua curvatura.


Confesso que estas discussões entre os amigos da paz contra os amigos dos americanos me parecem conversas de míopes. Resultam apenas do hábito, são em conclusão mero folclore urbano, a que todos nos vergamos, por falta de espaço mental, por fracos pulmões, pequena capacidade de respiração.


Começámos com o suburbano que de forma arrojada decidiu alvitrar sobre política. O suburbano não está em lugar nenhum, não pertence nem à cidade nem ao campo. Traz consigo um passado de dominação mas já não sabe a quem se entregar. Deixemo-lo na sua paz.


Verificámos afinal onde ficam os defensores da aliança com os Estados Unidos. A sua fidelidade não está na Europa, nem sequer em relação ao seu país nem sequer em relação à democracia. Sobre tudo isto prevalece a fidelidade aos americanos. Só lhes fica bem, mas demonstra o que para eles é realmente mais importante, acima de tudo o resto. Acreditam que são nossos aliados e aceitam a sua dominação, mesmo que não levem nada em troca. Não se vendem por dinheiro embora tenham a esperança de recebê-lo. Mas mesmo que não o recebam rezam ao altar americano. A pureza dos seus sentimentos apenas lhes fica bem.


Apenas pecam moralmente por falta de visão. Julgam-se aliados de um gigante e sorriem como crianças perante ele. Se deixamos estas crianças fazerem birra, a culpa não é dos Estados Unidos, mas nossa, dos europeus. É evidente que há e haverá sempre crianças malcriadas, mas se elas proliferam, o erro é sempre de quem educa. A Europa entregou-se nas mãos dos Estados Unidos e por isso deixou mãos largas aos fedelhos discursivos.


Citando os americanos: “Arranjem uma vida”. E isto é válido tanto para os que defendem os americanos a todo o transe como para os que os atacam. Vivam em casa própria, instalem-se na própria morada, em vez de se definirem pelas amizades (ou inimizades) que supostamente têm.







Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Aprendendo matemática e outras coisas III

Mas vejamos o fundo da questão. A tese que hoje em dia corre insurge-se contra uma concepção que se afirma romântica da aprendizagem. No entanto, em boa verdade é uma concepção meramente gestionária da educação. É verdade que na versão pública a ideologia educativa prevalecente parece ser de “esquerda”, romântica, à la Rousseau. Parece. Mas em boa verdade vejamos quais são as suas práticas: organigramas, fluxogramas, enunciação de objectivos, fichas, idolatria das competências em detrimento do conhecimento como valor. A sua lógica substitutiva e não cumulativa torna-a parente das técnicas da obsolescência induzida, típica da sociedade de consumo.

A teoria pedagógica criticada em boa verdade não é de esquerda, nem romântica. O romantismo, sobretudo o alemão, é demasiado profundo para a sua capacidade. Não é acaso que em Portugal se impôs com os chamados doutorados de Boston, que há uma décadas atrás eram sinónimos de doutorados da Farinha Amparo.

A teoria em causa é gestionária, originada nas técnicas empresariais, e julgando-se que a sua prática era romântica e de esquerda, em boa verdade tem origem americana e empresarial. A escola é analisada como uma empresa complacente com os seus clientes, no caso, os alunos. Cada cliente é especial, cada aluno é especial. Se os resultados desta pedagoga são medíocres, não é tanto pelos seus pressupostos filosóficos, mas pela intranscendência filosófica. O ensino foi entregue nas mãos de gestionários, que sob a capa benevolente julgaram tratar dos alunos como de clientes, e do ensino como um produto que tem de ter o agrado do consumidor. O professor que tenta seduzir mais não é que mais um avatar da sociedade de consumo em que o sorriso é uma forma de angariação de clientes. O seu romantismo é assim, não o de Schelling ou Rousseau, mas o da publicidade de férias numa ilha (ilusoriamente) deserta.

O problema dessas teorias pedagógicas não é tanto o de serem românticas. É o de não serem teorias e em boa verdade, mais um instrumento capitalista. Não são pedagogia, apenas marketing. O aluno é tratado como consumidor a quem se tem de agradar, a matéria a ensinar um produto que se tem de embrulhar para seduzir, sempre substituível por um novo, de preferência a deitar fora passado um certo prazo de validade. Quando descemos abaixo do reino da aparências vermos a verdadeira face das coisas. O que torna o actual ensino inútil para as empresas não é ser pouco empresarial na sua cultura, mas de o ser em demasia. É o de criar consumidores e não produtores. É o excesso de sentido empresarial que o torna inútil. Tivera-o menos, seria nos seus efeitos mais rico para todos nós. Consumo rápido, agrado do consumidor, desgaste rápido do produto, ilusão de exclusividade do cliente, estão aqui todos os traços desta ideologia. Não é em assento filosófico que se funda, mas mero resultado da sociedade que o criou. Sendo de consumo a sociedade, é igualmente de consumo a educação.







Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 12 de julho de 2011

Aprendendo matemática e outras coisas II

Qual é o oposto do sistema cumulativo? Um sistema substitutivo, seja assim assumido intencionalmente, seja nos seus efeitos práticos, pela forma como funciona. O problema deste sistema substitutivo é que anuncia pela sua natureza a sua irrelevāncia. Se o aluno pode esquecer sem problemas o que antes aprendeu quer isso dizer que o que aprendeu antes não era assim tão relevante. Qualquer sistema substitutivo é assim forçosamente uma aprendizagem de irrelevâncias. Se é permitido esquecer, se é irrelevante que se esqueça, é porque o esquecido não era essencial em conclusão.

Qual é o segundo vício de um sistema substitutivo de aprendizagem, seja em que área for? E entramos na segunda incompletude dos que afirmam que o ensino da matemática é cumulativo, e apenas ele. É que se as aprendizagens forem cumulativas a probabilidade de relacionamento entre as matérias aumenta exponencialmente.

Imaginemos que em cada matéria aprendida cumulativamente se forma uma coluna. Se essas colunas nos estiverem presentes na mente, as possibilidades de inter-relação entre elas são muito grandes. Mas se a cada momento apenas sei as matérias que estou a aprender nesse momento restam apenas fatias dessas colunas. A probabilidade dessas matérias se entreajudarem fica muitíssimo mais reduzida. Tenho de contar com a sorte de, no mesmo momento, estar a aprender algo que se possa relacionar entre si.

A História das ciências está repleta dessas ligações. Einstein quando começa a estudar a teoria de relatividade generalizada percebe que existem estruturas matemáticas que lhe fazem lembrar algo de que tinha umas luzes, os tensores. Poucas pessoas no mundo estudavam essa matéria e teve de contar com a ajuda de Levi-Cività. Não tivera jamais tido algum contacto com os tensores, a relação nunca se teria feito na sua mente. Toda a linguística assenta em conhecimentos cumulativos. É por haver um conjunto de cavalheiros que sobretudo desde o fim dos século XVIII e ao longo de todo o século XIX tinham aprendido latim, e grego, e alemão, e sânscrito, que começaram a suspeitar que as semelhanças entre as palavras e as estruturas das línguas não poderiam ser fruto do acaso. É a cumulação de uma imensa mole de informação por Cuvier que conseguiu perceber aspectos essenciais da anatomia comparada que hoje em dia tanto excitam os amantes dos filmes sobre a Pré-História.

A segunda parte da tese que corre é a de que só se pode passar para uma nova fase de aprendizagem caso se conheça bem a anterior. Concordo mais uma vez, mas discordo por ser condição necessária mas não suficiente.

É verdade que tenho de compreender bem a fase anterior antes de passar à seguinte. E que isso é verdade para todos as disciplinas e não apenas para a matemática. Mas existe mais uma lacuna nesta ideia. É que se tem de compreender bem a fase anterior – na sua relevância cultural. A minha experiência foi a de ser bom aluno a matemática e tê-la detestado até ao 9º ano, exclusive. Aquilo tinha regras, e bastava uma pessoa cumpri-las para ser fácil fazer. Mas o que sobra disso? Nada. Apenas um exercício. Queriam que eu resolvesse problemas com homotetias, pares ordenados, conjuntos? Seja. Era fácil. Despacha-se e não se pensa mais nisso.

Aqui está a incompletude da tese defendida. É que não basta compreender funcionalmente a anterior fase de aprendizagem. É preciso compreendê-la como cultura. Isto é tanto mais notório na matemática, em que uma cultura plebeia a trata como mera questão técnica. Não basta saber resolver o problema, não basta saber demonstrar o teorema.

Vejamos isto com um exemplo. A demonstração do teorema fundamental da trigonometria. Há várias demonstrações, e algumas muito elementares. Um aluno pode saber demonstrar esse teorema, mas se não perceber porque é fundamental não percebeu nada da sua relevância cultural. É fundamental, não por ser difícil de perceber, ou demonstrar, mas porque no fundo diz que no plano euclidiano toda a trigonometria assenta no teorema de Pitágoras (e no de Tales, se se quiser). A matemática tem aliás bons exercícios nessa matéria porque os matemáticos, seres respeitadores da tradição, são useiros em designar cuidadosamente como fundamentais certos teoremas. Se um aluno conseguir explicar porque razão são fundamentais, já é um bom passo para mostrar que adquiriu cultura matemática.

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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Aprendendo matemática e outras coisas I

Nestes últimos anos várias pessoas têm vindo a dizer que o ensino da matemática é cumulativo e que, caso não tenhamos consciência disso, não perceberemos que estamos a criar uma fraude no ensino. Em segundo lugar, só se pode passar a uma nova fase de aprendizagem após conhecer bem a anterior. O paradoxo é que não posso simultaneamente concordar mais e discordar mais desta ideia.

Não posso senão concordar plenamente porque não há dúvida que o ensino da matemática é cumulativo. A teoria dos conjuntos é vazia caso não se perceba as implicações que tem para a análise, aprender análise sem saber álgebra é impossível, discorrer sobre álgebra abstracta sem perceber as suas implicações na geometria é exercício vão. Não há parte da matemática que não esteja relacionada com outra e um dos mais aspectos mais fascinantes da matemática é exactamente o momento em que duas áreas que cresceram isoladamente se percebe que estão profundamente ligadas. Quando Descartes liga a geometria e a álgebra, ou os números complexos mostram a sua importância para a trigonometria, eis momentos de glória da matemática.

Quanto a isto não tenho dúvida nenhuma. Em que discordo desta ideia afinal? Bem sei que isso pode acontecer por probidade, por espírito de contenção. Os matemáticos falam só de matemática e isso os mostra a sua honestidade intelectual. Mas ao insistirem que o ensino da matemática é cumulativo esquecem dois aspectos essenciais. É que toda a aprendizagem é cumulativa e, em segundo lugar, sem essa natureza cumulativa torna-se impossível interconexão de conhecimentos. Vejamos então estas duas ideias.

O ensino da sintaxe sem conhecimento da morfologia é um dislate. O estudo das gramáticas generativas estruturais ou o que lhe queiram chamar nos níveis elementares e secundários de educação revelou-se um desastre. E porque? Em grande medida por causa, não dos seus defeitos, mas da sua natureza generalizada. Entramos num espaço vaporoso, que tenta resolver problemas que uma criança ou um adolescente nunca pensaram nem podem pensar. Aliás nem os professores em geral em boa verdade. Porque para os perceber na íntegra isso implica conhecer uma enciclopédia de línguas muito vasto, cada uma com a sua estrutura. Os conceitos destas gramáticas tentam resolver problemas que não existem em português, mas em polaco, outras vezes em sânscrito, outras ainda em árabe.

Mas existem sinais bem práticos deste desastre. Atiram-se as crianças para estes tipos de gramáticas, que são defectivas, na substância sobretudo sintaxes sem morfologia própria. E eis que aparece um sintagma preposicional. A criança não deu morfologia, não sabe o que é uma preposição. E decora. Nada mais pode fazer.

Outro exemplo prático nas línguas em geral. Suponhamos que se exige a uma criança que decore certo vocabulário num ano, mas já não seja exigido no ano seguinte. Ou o primeiro era muito especializado e era inútil ensiná-lo, ou estão é essencial e no segundo ano anda a criança coxa na sua expressão. Tente-se aprender as declinações, esquece-las de seguida, e aprender depois os verbos. Não servem de nada. Bem podem reger o ablativo, que ele anda morto coitado.

Na História, para variar o exemplo. A falta de cumulação nota-se mesmo em teses de doutoramento e em investigações. Mesmo trabalhos muito sérios claudicam quando vem a tentação comparatística, e esta é inevitável sob pena de provincianismo. Quando o especialista em História medieval se atira à comparação com a Antiguidade é quase certo aparecer uma síntese apressada. “Na Idade Média, ao contrário da Antiguidade...”. “Surge pela primeira vez nesta época...”. A consequência? A comparação é feita com uma caricatura. O historiador contemporâneo especialista na sua época perde-se em pormenores e não consegue revelar estruturas já antes vistas.

Nas ciências da vida estuda-se o corpo humano num ano mas no ano seguinte ensinam-se patologias. Deixa de ser importante que o aluno saiba distinguir o estômago dos intestinos nesse momento só porque os aprendeu no ano anterior? Na química podemos esquecer a química inorgânica apenas porque vamos aprender a orgânica?

Os exemplos são muitos. São aliás todos. Toda a aprendizagem é cumulativa. Toda a aprendizagem que se queira realmente útil.

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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Maria José Nogueira Pinto

Maria José Nogueira Pinto merecia escapar ao habitual carrocel de elogios fúnebres. Tinha uma frontalidade rara que não se compadeceria com a lamúria de exaltações que desfilam sempre que alguém morre.
Fazia o pleno na radicalidade. Conseguia ser correcta politicamente e politicamente incorrecta; chamar os bois pelos nomes com a garganta forrada de pérolas; cruzava racionalidade com sensibilidade social; humor caustico com exigência espiritual; gosto pela vida e compromissos cumpridos. Nunca passou por um lugar sem o fazer. Prosseguia ideais conhecendo o pó dos caminhos para os pôr em prática. Tinha a inteligência dos teóricos e o pragmatismo dos que mexem no mundo das coisas.
Há poucos meses, perdeu comigo uma manhã, em sua casa, para me dar uma luz sobre os problemas sociais em Lisboa. Bebia um chá amargo, depois de ter tentado a limonada. Não percebia o que estava a correr mal consigo. Nem eu percebo. Vai fazer falta a todos. A Portugal. Que Deus guarde a sua alma.

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sexta-feira, 1 de julho de 2011

Porque está o francês fora de moda?

That monstrous region, whose dull rivers poor
Keats


O império do inglês tem posto a nu um fenómeno que se tinha manifestado em alguns países europeus, mas também na América Latina, em África e em alguns países asiáticos. O inglês impera, mas às custas da decadência de uma outra língua: o francês.

As causas desta decadência são fáceis de analisar: seguiram-se duas potências hegemónicas anglófonas, o inglês básico (mal falado) é mais fácil que o francês básico (que tem de ser sempre minimamente bem falado). Por outro lado, o inglês é um híbrido em que germânicos e latinos encontram sempre um apoio para sua ignorância, em que é comum haver uma palavra, uma construção, uma mais latina e outra mais germânica. A própria estrutura da língua é mais flexível, mas menos rica em flexões. Factores endógenos à própria língua e ao canto histórico em que se implantou tornaram o inglês a língua do mundo ecuménico. Geralmente um inglês veicular, aculturado, pobre, mas de qualquer modo uma forma de inglês.


Que uma língua franca seja substituída por outra não é em si factor de desgraça nem nos deve fazer chorar muito. Que o persa ou o baazari tenham deixado esse papel na Índia, que o babilónio tenha perdido esse papel, ou o acádico, ou o grego ou o latim, em si mesmo pode ter tido maiores ou menores desvantagens, mas não é a primeira nem será a última vez na História que uma língua franca perde o seu papel. Se fosse por essa razão não choraria a perda do francês. Mais uma para o rol da História.


O que é importante é saber que significado sob o ponto de vista civilizacional – e consequentemente político – tem esta perda do francês.


Em primeiro lugar, o mundo do francês imperante nunca foi monolítico quanto a línguas francas. A Europa culta sabia francês, mas sabia igualmente latim e grego, por vezes italiano, ou alemão, se era comerciante igualmente inglês. Quando o francês impera como língua franca não há monolitismo. É um mundo de muitas línguas francas, mesmo que algumas fossem mortas. Até à primeira guerra mundial muitas teses de doutoramento, seja em filosofia, em matemática, em filologia, em lógica, em teologia eram escritas em Latim. O grego era a base de formação das classes cultas, e ler Dante era tão natural para um inglês culto quanto ler Shakespeare. O francês representa um império que não uniformiza.


Em segundo lugar, o mundo do francês imperante é formado por uma língua com uma estrutura de tal modo complexa para um primeiro manuseamento que exigia a elevação de qualquer locutor que o usasse como língua veicular. O francês elevava, mesmo os medíocres. Ao contrário do inglês, língua minoritária se pensada no seu alto nível, o francês mínimo é exigente. O francês tinha assim um efeito equalizador. Um português que o falasse bem era tendencialmente mais ouvido que um rico inglês que a assassinasse, caindo no ridículo.

Em terceiro lugar, o produto cultural francês, muitas vezes retórico, vácuo, meramente panfletário, era em média de muito maior qualidade que o produto cultural em língua inglesa (do basic English, entenda-se). Mesmo não se percebendo, lia-se Hugo ou Balzac. Hoje em dia o inglês é usado para ler folhetos truísticos ou jornais económicos. Poucos leram Swift, Pope ou Huxley. Era um mundo de uma certa exigência mínima.


Em quarto lugar, o mundo do francês imperante carrega uma ideia de civilização, consequentemente de melhoria, de aperfeiçoamento. Da moda ao estilo de falar, de se mexer, de se expressar. Não se pode falar nesse mundo ou estar no mesmo sem uma certa postura. O mundo do inglês básico, língua que foi criada para o indígena, é o mundo do indígena, não o mundo do Dr. Johnson. O seu paradigma é a selva, não a civilização.


Como antes disse, não verteria uma lágrima por esta queda do francês, se ela não estivesse associada, e não por acaso, à queda de uma civilização, ou seja, de um modo de respirar mais livre pelo homem. Por vezes mantém-se a língua, mas abafa-se o sopro, como aconteceu com o grego do império bizantino. Outras vezes a língua mantém-se a balões de oxigénio, para insuflar o mundo, como aconteceu com o latim até à Renascença. Outras vezes morre como o acádico e babilónico sem que tenhamos de ter uma infinita pena de um mundo que morreu, mas que foi substituído por algo de muito mais infinitamente rico, como o mundo helénico.


Mas que o francês esteja a perder força deixa-me inquieto, mais que pela língua, pelo que ela representa: um mundo plural, diversificado, um mundo de uma complexidade mínima e esforço, um mundo de exigência e um mundo de aperfeiçoamento.


Adivinho no leitor mais impaciente algumas, diria mesmo, muitas reticências. Que verbalismo, que verborreia, que dislate de demonstração! Vá-se lá acreditar que a simples mudança de língua vai causar tanta desgraça! Pois é esse o ponto. É que não é a mudança de língua que causa a desgraça, mas a desgraça que favorece a mudança da língua. Depois desta última consumada, apenas se alimenta o terreno da desgraça.


A alergia que vejo em relação não apenas à língua francesa, mas igualmente ao país e ao povo, sobretudo nos meios tecnocráticos, mostra o desvio que existe entre a representação do poder e a realidade ela mesma. Execram no francês um poder que estes já não têm, assim como aceitam nos ingleses a arrogância que ainda mantêm em relação ao resto da Europa por se terem submetido aos americanos. O que não percebem estes cidadãos é que contribuem assim para o enfraquecimento da Europa. Desprezar a França é sempre desprezar a Europa. A gosto ou a contragosto, mais nenhuma potência cultural foi hegemónica tantas vezes e durante tanto tempo como a França – o desprezo da França é apenas um epifenómeno de uma verdade bem mais vasta, a do desprezo da Europa.


Porque se passarmos pela História da Europa, vemos que nasce em França a primeira literatura vernácula europeia consistente, e que em múltiplos saltos de esplendor encontramos em muitos séculos picos de apogeu cultural. Os trovadores, mas igualmente a poesia de Avinhão, que marcou Petrarca, Ronsard, Rabelais, mais tarde o Grande Século de Racine e Molière, no século XVIII escritores que iniciam o movimento do romance na Europa continental, no XIX Hugo, Balzac, Flaubert, no XX Proust, Gide... Paris é o centro da cultura com a Sorbonne na Idade Média, Abelardo e São Tomás de Aquino é em Paris que florescem. É o centro da matemática, da física e da química entre o fim do século XVIII e o início do século XIX, ainda no século XX oferece homens como Bergson, Broglie, e a mais pujante (embora por vezes, reconheço-o, enfadonha) diversificação das ciências humanas. Ainda hoje em dia é o país do mundo que produz dos maiores matemáticos. E para quem só respeita dados económicos é dos países com das maiores produtividades por hora do mundo, um dos maiores exportadores do mundo, a maior potência turística do mundo.


É certo que um país pode ser poderoso política, económica mas de igual forma culturalmente, e ser no entanto irritante. E é certo que sou insuspeito, porque sou o primeiro a agastar-me quando pretendem exportar discursos como o da pátria dos direitos do homem (neste aspecto, os seus herdeiros são os americanos), do laicismo ou outros elementos meramente folclóricos da cultura francesa. Se de um lado me derem a escolher Poincaré, Fourier (falo dos cientistas, não dos homónimos conhecidos dos políticos), Broglie, Racine e Molière e do outro tiver à minha frente Robespierre, Marat, Mirabeau, Gambetta ou Thiers, a minha escolha está feita de há muito. Reconhecendo os méritos dos segundos, conheço-lhes demais as mediocridades e mesquinhez para os admirar de sobremaneira.


Ninguém se agasta mais com a retórica de exportação da França quanto eu. Porque em geral as retóricas de exportação são produtos de fancaria e porque no caso francês são injustas por diminuírem a grandeza do país. Mas a França pertence aos países de Verdun, aos países do império carolíngio, e foram eles o principal motor da aventura europeia, tenhamos a lucidez e, se se preferir, a humildade, de o reconhecer, nós que não fazemos parte desse núcleo central.

Da minha parte sempre me pareceu da mais elementar justiça admirar a grandeza, tanto quanto desprezar a pequenez. E creio não me deixar iludir na matéria. Um mundo onde se ataca o francês, ataca-se uma cultura, uma civilização. Tenta-se atacar o núcleo dessa civilização. Quem o faz pretende a bem ou a mal um mundo uniforme, a planura, e que o centro do poder esteja fora da Europa. Não gosta de países nem de culturas com vontade própria, salvo se essa vontade for alheia à Europa. Em suma, no dia em que se deitar fora o francês para renascer a poliglotia com o alemão, o italiano, o russo, o espanhol e o inglês, poderia ficar descansado com a qualidade dos sucessores. Mas se apenas se pretende a monotonia do inglês do indígena colonizado, apenas se será secundado pelos analfabetos, os submissos e os enfadonhos. Para quem a vida é um bocejo, que se sinta bem servido.

Alexandre Brandão da Veiga




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quinta-feira, 16 de junho de 2011

Quem são os artistas?

Cada um tem a sua história e o seu gosto. No meu caso confesso ter sempre preferido a gnoseologia, em especial a epistemologia, e, em épocas variáveis, a metafísica à ética e à estética. A penúltima sempre me pareceu algo arbitrária sem um sustento religioso e a segunda algo mais esparsamente elaborada que as primeiras. Mas a verdade é que há épocas para tudo na vida e a seu devido tempo acabei por me decidir a estudar algo de estética.

Reconheço que não foi um frete, mas seria igualmente exagero considerá-la uma paixão. Um trabalho necessário e frutuoso sem dúvida, pouco mais, e já não é ser pouco. A verdade é que no meio de tantas teorias, ora genialmente elaboradas mas como que nas fronteiras dos grandes sistemas, ora centro de preocupação mas com destrinças algo bizantinas para o meu gosto, tentei orientar-me para dar um assento simples para algo que sabia ser sumamente complexo.

Se algo caracteriza a arte, pensei, é o facto de se tornar presente. A realidade por vezes escapa ao homem e existe sempre um ruído de fundo que nos avisa da relativa dissonância que existe entre o facto de estarmos por aqui e isso tornar-se-nos vivamente incarnado. Para regular esse desvio o homem criou a arte. Torna a realidade real, torna presentes as coisas. O ex-voto é assim uma das pedras fundadoras da arte.

Tornar presente tem sempre três momentos: quem torna presente, o que se torna presente e para quem se torna presente. A situação paradigmática da arte encontra-se na adoração dos reis magos. Mostra que o mais importante é sempre para quem se torna presente. De seguida o que se torna presente. E o menos importante quem dá o presente.

Uma arte que tem o destinatário como centro, desde que este seja o merecedor por excelência é uma arte de grandeza. Uma que se centre no presente é uma de pertinência. A que se centra em quem dá é folclórica. Não é por caso de quando os reis magos se transformam em figura principal do presépio é sinal de que a teologia foi destronada pelo folclore.

O problema é que o folclore redunda rapidamente em comércio quando os reis magos passam a ser substituíveis. Por Pais Natal nomeadamente. Quando o que se dá é centro, mas se torna obsessão, a arte transforma-se em feiticismo. E quando a quem se dá presente passa a ser medíocre a arte passa a ser mera adulação. Comércio, feiticismo e adulação são os três estados tristes da arte.

A herança romântica deu-nos o artista como centro. Os classicismos a coisa em si. E o barroco o destinatário. Cada um deles tem o seu mérito, mas cada um o seu perigo. A verdade é que é a avalanche romântica que ainda nos domina. A arte considerada legítima centrou-se no criador, geralmente a pessoa menos interessante para falar dela e com frequência pessoa pouco interessante em si mesma. Ou seja a arte tendeu a ser folclore.

Mas se assim foi enquanto o artista era insubstituível, quando passa a ser reprodutível passa a puro comércio. Nunca tanto se bradou pela pureza da arte e nunca tanto esta passou a ser comercial. O que há que ver é que espécies de Pais Natal nos aparecem sob a figura de artistas.

Em primeiro lugar são pessoas que “não ligam”. Seja a convenções, seja aos outros, seja às pequenezas da vida, seja à opinião do público. Como nestas coisas os sentimentos são recíprocos, nunca tão pouca gente lhes ligou a eles. Se o Estado os subsidia fá-lo não a vidas de abandono, mas com frequência a vidas de abandonados.

Em segundo lugar são pessoas profundamente preocupadas, que gostam de dizer que andam profundamente preocupadas. O que é estranho para quem não liga às coisas. O que só pode ter alguma coerência caso a sua preocupação seja destituída de conexão. E portanto para não ser muito levada a sério.

Em terceiro lugar são pessoas com sentimentos, pessoas que são movidas pelos sentimentos. O que é razoável na devida dose, mas que corre sempre o risco de criar tartufos quando é permanentemente exposto. E sentimentos geralmente algo malcriados, em que se indicam recorrentemente os sacrifícios e os custos em que incorreram para nos ofertar a obra de arte. Como o oferente malcriado que nos lembra o preço do presente e quanto custou encontrá-lo.

Em quarto lugar, se bem observarmos o espécime típico, são pessoas de expressão espasmódica, do esgar, do olhar virado para o tecto, em que o discurso não fluí, mas é entrecortado por auto-concentração, como se buscassem algures na alma, mesmo no fundo da alma, algo para dizer. O que não é bom sinal, porque quando é necessário ir buscar ao fundo da alma algo que dizer, quer isto significar que se trata de um poço com reservas esgotadas, de colheita difícil. O seu paradigma não é o rio que corre, mas o poço no meio do deserto, de onde se retira o líquido a custo. Mesmo que o espasmódico seja calmo, isto quando não é realmente ciclotímico, mostra que a sua vivência é entrecortada, descontínua, e portanto fracturada. São convalescentes da existência, pouco saudáveis, a recuperarem do facto de existirem.

Tendo exposto este quadro clínico, facilmente verificamos que a arte, e isto é tanto mais verdade quanto mais afastada do êxito de audiência, tende a ser cada vez mais comercial. Centrada no autor deixou de ser folclórica, porque os personagens passaram a ser substituíveis. Contestou os heróis e foi por isso engolida por essa contestação. O artista passa a ser um produtor comercial, fungível, um entre tantos. Perdeu o estrelato.

Comercial?, saltam já algumas almas caridosas? Como, se é tantas vezes contestatária, marginal, fora dos circuitos comerciais? Ora essa, respondo, comercial sem dúvida. Se incompetente, inepta também sob o ponto de vista económico, apenas mostra mais uma sua fraqueza e não uma escusa da qualificação.

Comércio inepto, centrado em produtores desligados, preocupados não se sabe bem com o quê e porquê, proclamadores de sentimentos e de expressão espasmódica. Que arte é esta? Que efeitos pode trazer ao espaço público?

Não vou dizer que uma arte na sua versão menos adulterada serviu sempre a verdade. Não foi de verdade que falei, mas de tornar presente. Se inepta, apenas deixa de preencher a sua função de tornar presentes as coisas. Uma arte inepta começa por ser uma arte desautorizada. Nunca se levou tão pouco a sério os artistas. Mesmo que se possa dizer que os concretos que temos o mereçam muitas vezes, este não é facto que nos deva causar regozijo. Uma sociedade com artistas desautorizados é uma sociedade que desautoriza o próprio facto de tornar presente, de conferir realidade às coisas.

Aqui é difícil destrinçar quem foi a causa quem o efeito. Se os artistas se desautorizaram e desautorizaram o próprio facto de tornar presente na sociedade, ou se o facto de esta ter desautorizado este facto desautorizou os artistas. Ambas as hipóteses devem ser verdadeiras em graus diferentes consoante as épocas. O fundamental é que se a arte sempre serviu a propaganda, mesmo quando o fazia, as origens que tornavam as coisas presentes eram identificáveis. Podiam ser por isso mais facilmente atacáveis. A arte não escapou à deslocalização, à massificação, aos fenómenos do comércio. A autoria evanesce de tanto o autor fungível ser importante. E por isso se a arte perde a sua função de propaganda dirigida, perde também o seu papel identificador. Significativo o facto de à explosão de movimentos de ter seguido a sua quase desaparição. Cada autor gosta de afirmar que não pertence a nenhum movimento, ou pertence a vários.

Deixando de ser propaganda não colabora com a mentira, mas em nada ajuda a verdade. Apenas passou a ser inepta, mais um elemento na paisagem do espaço público dissolvido e mole. Se antes podia manipular, podia igualmente impedir a manipulação. Hoje não faz nem uma nem outra coisa.

O homem público não podia negar nem Vénus nem a Madonna ou o vitral. Estavam presentes, tornavam a realidade evidente. E evidente o passado indo-europeu da Europa. Se se alimenta dele ainda hoje, a arte apenas o obnubila.

Num espaço público em que ninguém assume a função de tornar presente, seja a verdade, seja a mentira, tudo é manipulável, a realidade esvai-se. Por isso é fácil afirmar que os tapetes de Antalya ou Izmir são Europa. Com artistas perpetuamente demissionários, temos mais um elemento que forma o caldo da manipulação do espaço público. Quando contestam, contestam o que é fácil contestar e por isso nem geram escândalo, nem são ouvidos.

Qual a solução? De preferência que os artistas tomem a iniciativa de tornar de novo presentes as coisas. De preferência a verdade. Se ainda forem capazes. E se para isso não lhes falhar a coragem.

Alexandre Brandão da Veiga


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quarta-feira, 8 de junho de 2011

António Manuel


Conheci-te no I Congresso dos Jornalistas Portugueses, no início dos anos 80, na Gulbenkian.
Ali estavam os homens da imprensa, os rapazes da rádio e as meninas da TV.
Tu trabalhavas na RDP com um grupo assombroso de jornalistas onde pontuava Fernando Alves. Eu ainda andava na Faculdade.
A esquerda de Abril tinha aberto as portas das redacções e a Democracia definiria rapidamente uma fronteira entre os que teriam voz e os que ficavam na prateleira, alternadamente. A maioria dos media era propriedade do Estado o que facilitava essa arrumação. Numa cave da Estefânea, a TSF de Emídio Rangel fazia emissões experimentais clandestinas.
Gostei daqueles dias em que pude conhecer os injustiçados do momento. Lembro-me do cuidado que tinhas com os que não iam à Bicaense, por falta de verba, e só apareciam para o café. Lembro-me da tua calma e da capacidade de fazer pontes. Lembro-me do sentido de humor e do que ríamos com as historias caricatas do jornalismo português.
Fiquei com pena quando, mais tarde, soube que tinhas decidido ir trabalhar com os socialistas. Mas mantiveste intacta a afabilidade, a vontade de esclarecer e de fazer pontes nas conversas que tivemos de cada lado da linha.
Faria depois uma escolha parecida com a tua mas sem contacto com jornalistas para não cruzar registos. Não saberia fazê-lo como tu. Não saberia manter-me, como tu.
Que Deus guarde a tua alma.

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quarta-feira, 1 de junho de 2011

A grosseria como modo de governo

O primeiro-ministro italiano chama nazi a um deputado alemão. Intervém na televisão pública interrompendo um programa de futebol, invocando a sua qualidade de primeiro-ministro. Diz que o islão é uma cultura inferior e depois diz que a Turquia tem de entrar na União Europeia (vê-se assim o calibre dos defensores desta ideia). Em Portugal um ex-primeiro-ministro insulta deputados lembrando o seu passado criminoso de revolucionários de esquerda e leva uma resposta na mesma medida. Um político da oposição ataca um ministro com artigos que ele escreveu há vinte anos atrás, ao que este responde na mesma moeda. O dito ex-primeiro-ministro e o citado ministro batem as palmas das mãos no parlamento como jogadores de futebol americano. Um presidente de câmara distribui frigoríficos, outro dá pontapés num estádio de futebol, outra foge à justiça. Dois ministros saem de consciência tranquila depois de acusados de uma reles cunha.

Já nem refiro exemplos internacionais, nomeadamente americanos. O espaço público é invadido destes exemplos.

Argumentam-me que estão sujeitos a grande pressão. Do espelho suponho. Porque a verdade é que conheço pessoas sob pressão que são grosseiras e outras que não o são. O que faz a diferença entre elas não é estar ou não sob pressão. É serem ou não... grosseiras. É disso que se trata.

Confesso que ainda seria (a custo) suportável o facto de estarem bem longe de serem belezas clássicas. Menos admissível que sejam destituídos de grande inteligência ou qualquer cultura. Que sejam grosseiros de aspecto é facto que já nos provoca anestesia. Mas que sejam grosseiros de modos, que o atrevimento, a má-criação passem das suas casas, bastamente habituadas ao espectáculo, e nos ofereçam de bandeja aquilo que são, começa a ter significado político.

Os políticos sempre foram acusados de hipocrisia. Agora pelo contrário mostram-se como são. Devemos assim reflectir se queremos sempre a sinceridade no espaço público. Se sob o ponto de vista pessoal o fenómeno é de despudor, sob o ponto de vista político mostra que a ágora se transformou em cozinha. O povo quis que os políticos fossem populares, espontâneos, os meios de comunicação social incensaram esta ideia, e obtivemos a satisfação deste desejo. Se os políticos são grosseiros no espaço público é tão simplesmente porque são grosseiros.

É que há certas coisas que não se justificam nem se desculpam nem sequer a posteriori. Pura e simplesmente não se fazem. Não devem existir. Nada mais.

Que o fossem no espaço privado era fácil de adivinhar. Basta ter olhos de ver, para se perceber que não são grandes aristocratas. Mas coisa bem diferente é terem invadido o espaço público... com o que são.

Tentemos avançar mais um pouco.

É que os políticos não se apresentam apenas na glória da sua grosseria. Apresentam teorias justificativas do seu comportamento. Uns afirmam que os actos foram reflectidos. É grave, na medida em que mesmo com reflexão só chegam a estes resultados. Além de grosseiros, com fracas capacidades de reflexão. Outros que é campanha contra eles. Grave igualmente, dado que estão a afirmar que a grosseria própria se explica pela alheia, o que só pode ser verdade se os alheios forem os pais. Outros afirmam que apenas são espontâneos e não hipócritas, e isso leva-nos de novo a reflectir se queremos que, políticos que são assim, sejam como são no espaço público.

A grosseria passou a estar no espaço público e que em consequência o espaço público passou a ser um campo de grosseria. Vemos agora que a grosseria criou uma teoria política própria. Pobre, mas própria, ou talvez pobre porque própria.

É que há certas coisas que depois de feitas é melhor nem serem referidas. Não se pede desculpa por se ter arrotado. Facto lamentável, é sempre melhor fazer de conta que não existiu. Já que entrou da História, ao menos que seja esquecido.

Demos um terceiro passo.

Confesso não saber como cuspir na rua. Não se trata de um imperativo moral. De algo em que me tenha de conter porque sei ser ordinário. Não me implica esforço. Pura e simplesmente desconheço a técnica. Não vi como se fazia, a não ser ao longe, e por pessoas que se distanciavam do meu mundo pelo simples facto de o fazerem. Os meus pais não me transmitiram essa ciência. Em conclusão: falta-me a técnica.

Mas, mais importante que isso, inexiste no meu mundo. A educação não significa apenas alargar. Significa igualmente afastar do nosso mundo. A fome de crueldade, o desejo de vingança, o desrespeito dos outros, em suma, as várias formas de grosseria, fazem parte do elenco dos instintos naturais dos homens. Não carecem de grande formação para serem exercidas, apenas para o serem com requinte. Uma educação supostamente tem como papel igualmente afastar do mundo pelo menos algumas misérias da alma humana. Quando se diz que alguém é incapaz de inveja a nossa tradição europeia vê isso como um elogio. Algumas incapacidades são méritos. Em grande medida porque é mais fácil ter a capacidade correspondente que dela ser destituído.

O espaço público está repleto portanto de sobredotados... para o lado errado da vida. Pessoas espontâneas, que se apresentam como são, com uma grande cultura técnica, manifestando aspectos da vida não realmente inovadores, mas diversos.

Um espaço público decorado de grosseria, com uma teoria política subjacente e uma sobreabundância de vida. Três elementos já referidos.

É que há certas apetências que é melhor não se ter. Quem as tem, que as ampute, ou ao menos as contenha. Já que estão lá que se faça ao menos conta que não existem.

Falta um quarto passo a dar.

É que a questão não é apenas de bom-tom, de boa sociedade, embora no que me respeita isso já lhe dê importância bastante. É que a própria forma de fazer política, a técnica, o instrumento político se transformou em grosseria. Sem ideias, sem berço, sem projecto, o espaço político transformou-se no espaço da gestão da grosseria. A grosseria não é um seu episódio, mas um seu fundamento, e o seu instrumento privilegiado.

Tenho plena consciência do que digo pode passar por exagerado, mera vontade de caricaturar, pura arbitrariedade. Ou então de que afinal, trata-se “apenas”(!) de uma questão de boas maneiras, sem grande relevância na decisão política. Mas gente com modos grosseiros e aspecto grosseiro tem o teimoso hábito de ter sentimentos grosseiros, desejos grosseiros, aspirações grosseiras, ideias grosseiras. Tudo o que subjaz à decisão política. E se as finalidades da política forem grosseiras os efeitos sê-lo-ão igualmente. A longo prazo são os homens do bem comum que deixam obra feita na História. Os desesperados e os grosseiros (são duas formas de dizer a mesma coisa no espaço público), deixam apenas um rasto. O de Átila, o seu paradigma. Ou o dos bobos da corte, um outro. Antes os reis tinham bobos, hoje são os bobos que esmagam os reis. E as decisões estratégicas a que assistimos, com uma Europa fracturada, subserviente ou timorata mostram o resultado prático dessa grosseria.




Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 20 de maio de 2011

São os alemães culpados? III

Resta-nos o terceiro conjunto de aspectos. Os de política interna. É que a birra e a peixaria da esquerda à direita ajudam a esconder um simples facto: o de a classe política não ter pensamento, capacidade e vontade de impor por si mesma as medidas que deveriam ser tomadas. E estas são simplesmente três, respondendo a três perguntas.

A primeira é: como distribuir pelos portugueses o encargo da dívida? As soluções simples são: os ricos que paguem crise ou os ricos já pagam demais. Aqui está um bom momento para quem usa a palavra “patriótico” da esquerda à direita para demonstrar uma verdadeira solidariedade nacional. Os grupos e pessoas que se querem escusar a uma justa distribuição dos encargos apenas mostram que não se encontram vinculados a Portugal, o que é de seu direito, mas apenas demonstra que não podem falar de pátria. É um bom teste para sabermos se Portugal se sente como um país ou não.


A segunda é: como punir quem mente nas contas? Uma empresa privada é punida por falsear a contas, não se compreende que o Estado não o seja. Não me faz sentido criminalizar a má execução orçamental. Essa é uma questão política. Mas o que me parece evidente é que quem mente em causa pública tem de ser punido. Não encontro quem propunha seriamente uma punição severa dos membros do governo até aos funcionários públicos que mentem nas contas. Esta a matéria que mereceria legislação especial. A clara definição de quem é responsável a que nível e do quê.

A terceira é: que fazer para que não sejamos mais caloteiros? Pessoalmente nunca fiz dívidas, salvo para comprar casa, e paguei-a em cinco anos. Mesmo com sacrifícios, não gosto de ter dívidas. Mas quem não se importa está no seu direito. Mas o calote é uma vergonha, e independentemente da política de cada qual, quem não quer calotes ou paga ou não faz dívidas. Um caloteiro é criatura sem palavra, um povo que aceitasse o calote, um só que seja, mesmo que não seja forma de vida, já tem a sua honra manchada. Os partidos que anunciam “uma outra política” só teriam a autoridade se tivessem denunciado o endividamento público e privado, se tivessem lutado eficazmente contra ele. O que não fizeram. Mas só há duas formas de não se ser caloteiro: ou não fazendo dívidas ou pagando-as.

Não costumo falar de temas comuns, os que ocupam as actualidades dos jornais. Já há muita gente que o faça. E também em relação a este não perdi tempo em questões técnicas ou políticas. Há igualmente muito quem o faça. Independentemente da minha opinião sobre uma e outras dimensões, mais importante para mim é não esquecer dados elementares de lucidez. Quem ouve o vulgo berrar parece que está ele cheio de razão. Mas apenas berra. Quem deve, paga. Foram os alemães como nós e nós como eles muito mais venenosa seria a nossa língua que a deles. Louvo-lhes o espírito de contenção. O que se torna insuportável no espaço público é ver a criança que, depois de ter batido no mano e tendo levado a bofetada correctiva, ainda chora e se sente injustiçado. Existe uma idade para isso. Fora dela a infantilidade é apenas humilhante. A política revela os homens. Quem exige a quem deve esquece-se do mais elementar. Deve. Que pague. O resto é jogo de interesses, não de direitos.










Alexandre Brandão da Veiga

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quinta-feira, 19 de maio de 2011

São os alemães culpados? II

O segundo conjunto de aspectos tem a ver com a política europeia.

Têm a Alemanha, a Finlândia, a Holanda interesse em que a situação dos países mais pobres se estabilize? Têm. É do seu interesse e do interesse de todos.

Mas mais uma vez parece um mau começo e sinal de grosseria lembrar o que a Alemanha nos deve pelas malandrices que fez na II Guerra Mundial e pela ajuda que recebeu quando da unificação.

Quais são os vícios dessa argumentação?
1) Um país que teve 48 anos de ditadura não tem muita moral para falar de 12 anos de nazismo, por mais brutais que sejam.
2) Um país que dependeu da ajuda alemã (e não americana) para a passagem para a democracia é grosseiro se esquecer o que deve à Alemanha (não fora apenas o empréstimo alemão de 1976, mas igualmente a ajuda que a Alemanha deu aos partidos democráticos e o apoio que deu a Portugal na Europa muito poderíamos pensar sobre se a transição para a democracia não teria sido bem mais sangrenta)
3) Quem não gosta de alemães faça o favor de andar de burro, de nem usar telemóvel, porque foi graças à ciência alemã que os aviões e as telecomunicações se devem. Mais à ciência alemã que à portuguesa, é o mínimo que se pode dizer. Que ande de nau e use o grito para comunicar.
4) Os alemães pagaram fortemente a sua reunificação desde 89. Congelamentos de ordenados na função pública, endurecimento do regime de reformas, contenção de salários. E pagando a sua reunificação (não me lembro dos subsídios portugueses à Alemanha para esse ou outro efeito), não deixaram de pagar mal ou bem (e muito) para outros países europeus.
5) Os alemães ganham muito com a Europa unida? Sem dúvida. Graças ao seu trabalho, ao seu estudo, à qualidade do que produzem. Não vejo porque alguém deve algo apenas porque ganha com o seu trabalho. Tanto mais que aceitou regras de solidariedade em que paga, e muito.
6) Coloquemo-nos na pele dos alemães. Que seria se se dissesse ao povo português que teria de pagar mais impostos para financiar os alemães? Os finlandeses são soberanos e fazem com o seu dinheiro o que bem querem e entendem. Que diríamos nós caso os nossos políticos nos dissessem que os nossos impostos tinham de ser aumentados para ajudar os alemães? Demos já exemplos de solidariedade desta natureza que nos permita falar de cátedra? Que se levante o primeiro que concorde com um aumento de impostos para salvar islandeses ou irlandeses. Não me lembro de na altura alguém se ter mostrado solidário. Bem pelo contrário, do que me lembro em Portugal fizeram-se todos desentendidos, esperando que não os chegasse a nossa vez. Apenas pode pedir em dobro quem ofereceu em singelo.

Em suma, não temos direitos, e reclamar direitos inexistentes é berraria de varina. Sob o ponto de vista argumentativo é grosseiro, desrespeita a liberdade dos outros povos de fazerem com o seu dinheiro o que bem entendem, e, não sendo nossos pais, não têm o dever de nos sustentar.

Quem tem coluna paga as suas dívidas e não estrebucha. Pode salientar ao credor o interesse que tem em aliviar a carga, pode invocar junto dos associados o interesse comum. Isso é legítimo. Mas um homem que é gente assume as suas responsabilidades e não faz birra.

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quarta-feira, 18 de maio de 2011

São os alemães culpados? I

A propósito desta discussão sobre a dívida pública tenho apenas três conjuntos de reflexões a oferecer. O primeiro de coerência, o segundo de política europeia e o terceiro de política interna. O pano de fundo é que os malandros dos alemães são culpados, não têm solidariedade, devem muito à Europa. E mais os maldosos finlandeses e quejandos.

Comecemos pelo primeiro. De coerência. Na política é importante por vezes ir aos fundamentos mais simples da coisa. A política é feita por seres humanos. Vejamos que humanos são estes que se queixam.

Portugal entrou no euro porque quis. Ninguém o forçou a tal. Lembremo-nos mais ainda que, quando aos alemães, mas também os holandeses, e já agora os ingleses (não entraram na brincadeira mas gostaram de pontificar mais que os outros sobre ela), disseram que Portugal não estava pronto, muito português se sentiu ofendido por estar a ser desconsiderado. Estávamos prontos e seria uma ofensa entender o contrário. Ou seja, quisemos e quisemos muito.

Em segundo lugar, sabíamos bem o que era o euro. A Alemanha deixou claro que não deixaria nunca o marco e que o euro, para existir, seria um marco europeu. Convenhamos: se alguém tem algo de muito valioso atira-o ao lixo? Fizeram eles senão bem em impor o marco. Os outros quiseram ter a melhor moeda, a Alemanha deu a sua quota. Mas impôs que o produto não piorasse a qualidade. Quem os critica é apenas quem está habituado à fancaria. Eu prefiro produtos de melhor qualidade aos de pior. Por isso parece razoável a exigência alemã. Os países tiveram de fazer profundas mudanças no seu enquadramento institucional do mercado monetário, nomeadamente aceitando a independência dos bancos centrais, sabiam o que estavam a comprar e quiseram. Sabiam bem, o aviso foi feito.

Em terceiro lugar este marco despejado sobre todos implica uma política. O vulgo chama-a de monetarista, mas depende do que se pretende dizer com isso. Só nos meados doa anos 70 Milton Friedemann se torna conhecido e já há trinta anos antes a Alemanha praticava a mesma política. Não creio que se possa chamar de monetarista. Os alemães são um povo inteligente e com capacidade para criar soluções por si mesmos. A política alemã é no fundo muito simples. Numa economia baseada numa moeda fiduciária o único bem potencialmente infinito é a moeda. E isso não é bom. É o pior que pode acontecer. A memória da hiperinflação está bem presente nos alemães, mas os países latinos bem se deviam lembrar do imposto escondido, ínvio e desigualitário, esse bem mais desigualitário que qualquer outro, chamado inflacção.

A política alemã não deveria ser chamada de monetarista, mas de realista. Não se podendo brincar com a moeda, uma economia vale pelo que vale a economia real, não manipulações monetárias. Ou seja, o mais importante numa economia é a sua estrutura, não políticas ocasionais de conjuntura, por mais úteis que sejam. Sabíamos isto, todos sabíamos isto, que era a estrutura da economia que tinha de ser adaptada e nada ou pouco fizemos.

Em quarto lugar, não tenho ideia de que alguém tenha posto uma pistola ao pescoço dos portugueses para pedir empréstimos no estrangeiro, nem me lembro de ter visto ministros das finanças ou primeiros-ministros sequestrados para os obrigarem a pedir empréstimos ao exterior. Memória curta a minha, talvez, mas confesso que perdi esse episódio. Tenho a vaga memória que se pedimos empréstimos foi de nossa palavra, e por nossa exclusiva vontade.

Em quinto lugar, o que significa pedir um empréstimo? Significa dizer a outros senhores que querermos o dinheiro deles, mas que depois o devolvemos, e em acréscimo pagamos o serviço que nos estão a fazer. Foi o que fizemos. Dissemos a esse mundo fora que lhes íamos pagar o que devíamos. Se não nos acreditassem não nos tinham emprestado dinheiro. Acreditaram em nós. Podemos agora dizer que esses senhores foram ingénuos e que não deveriam ter acreditado em nós. Estaríamos assim a dizer que somos gente que não merece confiança. Nesse caso, estão eles já começando a acreditar nessa faceta. Não nos façamos ofendidos por isso.

Em sexto lugar, deixemos o jargão técnico e falemos como gente. Que nome se dá a quem não paga as dívidas? Caloteiro. A simples hipótese de se dizer que os outros são malandros porque nos exigem o que prometemos é sinal de baixeza de carácter. Um homem vale pela sua palavra, criaturas sem palavra não valem nada. Por isso os que criticam os finlandeses e alemães por estarem a ser pouco solidários mostram assim a baixeza da sua extracção e a falha educação que tiveram. Não lhes ensinaram que quem deve voluntariamente paga, cumpre o seu dever e engole, não se queixa do cobrador. O cobrador está a ser coerente com o que fez. Somos nós quem não o está a ser.

Em suma goste-se ou não do euro, goste-se ou não da dívida, existem ambos. E ambos existem por vontade nossa. Adultos são responsáveis e não fazem birras.

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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Têm os políticos de ser bonitos?

A pergunta parece descabida, convenhamos. Se falássemos de modelos, actrizes ou de cantores de música popular, talvez mesmo de apresentadores de televisão, o assunto poderia parecer ao menos de actualidade (o que não é sinónimo de razoável, apesar de tudo). Mas que sequer se coloque esta questão em relação aos políticos parece um poço de sem sentidos.

Mas propus-me analisar o campo que subtende à política. Se subtende é porque não aparece expresso. Porque, muitas vezes nem como pergunta foi suscitado. A pergunta de Einstein “o que se passaria comigo se eu viajasse num feixe de luz?” ou a pergunta ainda mais antiga “o que é o ser?” são perguntas reconhecidamente patetas, mas com resultados sobejamente fecundos. Sem ambição de obter os mesmos resultados, não tanto por humildade de autor, mas antes mais por menoridade do objecto, vejamos a que resultados ela nos conduz.


Convenhamos, não é na política onde se costumam encontrar as maiores belezas clássicas. No entanto, Alcibíades, uma das maiores belezas de Atenas, foi político. Filipe o Belo foi rei, e não dos menores. E os Anjous de Nápoles eram das famílias mais belas da Europa e isso não os impediu de ser reis de Nápoles, Polónia, Hungria, duques de Durazzo, de Atenas, condes da Provença e senhores de Avinhão (se se tornou cidade dos papas isso deveu-se a uma compra forçada à rainha Joana I de Nápoles, uma das mulheres mais belas do seu tempo). Por sinal, nem medíocres intelectualmente nem maus políticos.


Que não se espere dos governantes a beleza, pode-se dar de barato. Mas que lhes seja proibido já parece escandaloso. Ora, e admitamo-lo, a classe política actual é fundamental e irrevogavelmente... feia. E feia até à náusea em muitos casos, perdoem-me a asserção.


Se a coisa se ficasse por aqui, teríamos apenas a exposição pública de desgraças pessoais, o que é triste, mas não teria grande relevância política. O problema é que não se fica por aqui.

Em primeiro lugar porque representam externamente o país. Por essa Europa e por esse mundo afora o que se espalha é que os portugueses são...enfim, são assim. Como português confesso sentir-me muito mal representado. Porque admitindo a hipótese de serem realmente representativos da nação portuguesa, preferiria uma mentira indulgente a uma verdade tenebrosa. Sempre que passeiam pelo espaço internacional os seus semblantes o mundo olha e diz: ah, aquilo é um português. Nessas alturas sinto-me reconfortado de julgarem que sou italiano e fico tentado a não desfazer o equívoco.


A imagem já é relevante sobretudo para pessoas públicas que só vivem dela, que pouco mais têm que oferecer. Mas podemos ir um pouco mais fundo na análise.


É que um semblante esteticamente desfavorecido é sinal de uma adolescência e juventude sem grande sucesso junto do sexo oposto. Em bom rigor apenas o torna oposto, nada mais. Qual a psicologia que se forma quando as pessoas nunca tiveram ninguém que para elas olhasse e dissesse: que bonito, que bonita?


Nuns casos, as pessoas são sensatas, equilibradas, razoáveis. Vivem a sua vida privada, e consta-me mesmo que atingem a felicidade, seja na vida amorosa, seja na dedicação social, outras vezes religiosa. Mais raramente profissional.


O problema é que a grande maioria dos políticos actualmente em curso nos estrados do poder não trazem grandes êxitos profissionais. Olhando os seus curricula quando muito estiveram por engano nos Estados Unidos, a que foram chamados mas mais para endoutrinação passiva que para darem sabedoria, ou por meros acasos de juventude. Ou então, o que corresponde à maioria dos casos, não têm sequer grande experiência profissional mas apenas em aparelhos partidários.


Neste momento resta-nos a hipótese optimista de serem objecto de profundas paixões, ou de serem furiosos activistas sociais ou religiosos. Mesmo aí teríamos de verificar até que ponto qualquer destas actividades os preenchem. Prova impossível, intrometida e pouco curial. E mesmo que fosse verdade a causa, a consequência ficaria por provar, a saber, a de essas actividades lhes preencherem a vida.


A verdade é que tudo indica que não. Em primeiro lugar porque precisam de ir para a política, em segundo porque o semblante se mantém o que é. O que já o qualifica.

Resta-nos outro critério. De Gaulle ou Churchill não eram propriamente belezas clássicas. Mas eram homens imbuídos de História e consequentemente grandes políticos. Além do mais eram aristocratas. E nada redime mais a fealdade que a classe ou certas formas de santidade pelo menos.


Quanto a classe, não vale a pena discutirmos. De entre os apelidos toda a flora, fauna ou desagradáveis posturas atravessam os noticiários. Não são apelidos, são ferretes. Quanto a conhecimento de Historia, a avaliar pelo que dizem, começam na segunda guerra mundial, e as fontes são séries americanas dos anos de 1970. Lembro-me de um antigo deputado europeu que, dirigindo-se aos alemães, disse que a Alemanha ainda devia muito ao mundo. Talvez se ele referisse o facto de a China, o Japão e a Turquia terem dívida igual, mas totalmente por pagar, que apesar de tudo era essa Alemanha que lhe pagava o ordenado na sua maioria e que, sobretudo, a essa Alemanha se devia ele poder ir de avião para Bruxelas e não de burro, transporte de tecnologia portuguesa, talvez nesse caso pudesse haver alguma justiça nas suas palavras.


Nem classe, nem História. Consequentemente, nem presença nem futuro. Até agora só descobrimos factos deprimentes. O visível é deplorável, os apelidos pouco apresentáveis em sociedade, o passado nulo, o conhecimento pouco, o futuro curto, as compensações pouco prováveis.


Que são então políticos feios? Que psicologia podem trazer, dado que todos os factores de redenção que lhes tentámos encontrar não são existentes ou pelo menos passíveis de prova? Adolescentes e jovens de triste passado, que quando muito obtiveram parceira à força, ou graças a muito esforço, o que frequentemente é o mesmo. Habituaram-se a seduzir mentindo, em suma, porque não são sedutores. Ou a obter forçando, porque não lhes foi naturalmente oferecido. Trabalham no instável mas não para construir o permanente, porque perenizar no seu caso seria perenizar igualmente a sua desgraça. Sabem que conquistar no seu caso não é formar impérios, mas antes proceder a pilhagens. Usurpam, em conclusão.

A democracia não é para eles um valor mas apenas uma oportunidade. Sem ela seriam escorraçados liminarmente da vida política, ou teriam apenas lugares sem visibilidade. A democracia permite igualmente a existência do feio, do simplesmente feio, sem qualquer factor de redenção: classe, origem, obra ou serviço. Não são a sua seiva, mas o seu musgo.


Parecia que a pergunta não tinha qualquer sentido. Realmente. Mas atacando-a por várias frentes verificámos que apesar de tudo tem alguma valia. Houvéramos descoberto pontos de compensação, de salvação para a sua fealdade, e teríamos ficados descansados quanto ao nosso futuro. Não se trata de saber se as pessoas têm culpa de serem feias. Trata-se de saber se lhes é legítimo passear a sua fealdade, apenas ela e nada mais, no espaço público.


E trata-se, mais que tudo, de perceber a psicologia que se gera no feio típico que anseia pelo espaço público, o que nada mais tem para oferecer. Começámos na estética, passamos para a política e desembocamos na biologia. Porque falamos do contrário do que é nobre função do político: servir. Falamos em suma de parasitas. Esperemos que a tendência passe.


Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 26 de abril de 2011

Como nos verão os vindouros?

É um exercício simultaneamente arriscado e divertido proceder a este tipo de ponderação. A impunidade presente é compensada pela condenação futura de um eventual leitor que tenha a paciência de ler o que escrevo daqui a cinquenta ou cem anos. Para o qual pisco o olho antecipadamente, é óbvio.


Mas assim como fazer cartas persas permitiu, pelo distanciamento geográfico, ver o mundo onde estamos, da mesma maneira afastarmo-nos um pouco no tempo para o futuro permite-nos ver com maior perspectiva o que somos.


Como aparecerá a nossa época aos olhos dos vindouros?

Para começar uma época muito fechada sobre si mesma. Desprezando o passado, pudibunda na projecção do futuro.


As épocas míopes vêem-se mais pelo que desprezam no seu passado no que a ela estão agarradas. Para um romano os seus maiores eram referência. A decadência em relação aos tempos primevos da República foi sempre tema recorrente desde a maturidade da mesma até ao fim do Império. A cultura cristã, para se impor na cultura antiga, teve de salientar a sua antiguidade por estar ancorada no judaísmo. Lembremo-nos que uma das acusações que se lhe fazia era a de novidade. Uma acusação, entenda-se, não um mérito. E no entanto, ninguém pode negar o papel de Roma na História.

A nossa época é pouco inteligente no seu conjunto e pouco criativa. Pergunte-se pelo Bach, o Dante ou do Rafael da segunda metade do século XX que ainda hoje vivemos. Mas está pronta a ter um olhar condescendente em relação ao seu passado. A verdade é que o cidadão comum, (e falo de políticos, universitários, homens da comunicação social, por exemplo) é incapaz de perceber uma linha de Duns Scoto e sumariamente frequentou Platão no liceu. É incapaz de perceber a primeira linha dos Elementos de Euclides, e muito menos as Disquisitiones Arithmeticae de Gauss. E no entanto, sente que esses senhores de toga, peruca ou hábito são algo ridículos porque não tomavam banho todos os dias nem apanhavam aviões.


As projecções de futuro reduzem-se a uma ficção que se apelida de científica, mas em bom rigor é meramente tecnológica. O que nos apresentam são culturas, não mais sábias, mas que viajam mais depressa, curam melhor as doenças, mesmo se se vestem com um gosto duvidoso. A incapacidade de antecipar, de imaginar novos gostos, novos valores, novas formas de comportamento, é evidente. Imitações boas ou más (geralmente más) da Antiguidade, da Idade Média repetem padrões, não os criam. A nossa época gosta de lustro. O projecto político, a antecipação realmente estratégica, essa quase inexiste. Tirando o projecto europeu, tão mal tratado pelos seus usuários, nada de futuro, de nova ideia se apresenta na política mundial.

Em segundo lugar uma época que quer sair de si geograficamente. Se é fechada no tempo e se encosta na sua ilusoriamente perene contemporaneidade quer sair do espaço onde está. Os não europeus ou se pretendem europeus ou querem imitar o padrão primeiro ou as versões revisitadas (americanas). Os europeus querem deixar de sê-lo, ou têm vergonha de dizer que o são, ou sobretudo porque o são. Mais que as viagens físicas, a migração cultural é aflitiva, desesperada, desencontrada.


Um pateta lê um livro, não sabe uma palavra de sânscrito ou pâli, e toca de dizer que é budista ou adorador de Krishna. Outros inventam neopaganismos que têm mais similitude com a banda desenhada que com o verdadeiro sacrifício humano. Outros fazem-se adoradores do diabo, ignorando que ele não perde tempo com medíocres. Há muitos candidatos a vender a alma, mas a procura é exigente e majestosa. Analfabetos não lhe interessam. Outros ainda encontram no Terceiro Mundo culturas integradas, onde as pessoas vivem alegremente imersas numa cultura. E daí criticam a cultura europeia por não ter essa capacidade de integração do homem na vida. Autobiográfico empedernido o turista fala sempre do seu próprio umbigo.

A terceira característica que vai encontrar é a superficialidade. Tudo está tão facilmente disponível que muita pouca coisa é realmente absorvida. O argumento é bem sabido: antigamente havia tão pouca coisa que saber que era fácil saber de tudo, hoje em dia há tanto que isso não é possível. Realmente... Mas quando pergunto que opção fez quem diz isto, se se dedica apenas a Jâmblico já que não pode estudar toda a filosofia de língua grega, ou apenas a Desargues porque não pode saber toda a geometria, ou apenas Burke, dado que toda a teria política lhe é inatingível, e estas perguntas podem ser alargadas até ao infinito, a resposta é invariavelmente que nada foi estudado.


A bíblia da época está nos anúncios publicitários, nas frases tão rápidas nos debates que se reduzem à condição de meros slogans, sem demonstração, simples expressões tabeliónicas de revisor oficial de contas, em jornais, em sítios da Internet que se vasculham distraidamente. E estudo, a releitura, a memorização, a atenção deixaram de ter espaço nobre na nossa cultura sendo reduzidos a uma semi clandestinidade.


A quarta, o desenvolvimento material, sobretudo tecnológico. No entanto, não podemos esperar que os vindouros nos idolatrem nesta matéria. Em primeiro lugar, porque é natural que estejam mais desenvolvidos tecnologicamente que nós. Admiraram a aceleração, mas não se sentirão esmagados pelos resultados. Por outro lado, é verdade que a Europa, mais que qualquer outro continente, conseguiu um equilíbrio entre prosperidade económica e redistribuição da riqueza raro na História. Mas essa era está a esgotar-se, pelo menos no modelo inicial. É comum os eruditos admirarem grandes realizações materiais. Os turistas fazem-no também por breves momentos. Mas ainda hoje em dia é mais comum a paixão pelos gregos que pelos romanos. É que as obras que tocam o coração humano e o seu espírito deixam marcas mais profundas e mais excitantes. E a nossa época anda algo falha de Leibniz.

A quinta, o medo da vida. Timoratos, queremos ser imunes a tudo, à doença, à vida, à morte, à guerra, ao desemprego, à miséria, à velhice. Nós, que nos julgamos os últimos juizes, esquecendo-nos que essa situação é por definição verdadeira mas rapidamente caduca, achamos os nosso juízos definitivos. As cruzadas são condenadas pela opinião corrente, mas esquecemo-nos que ainda há um século atrás eram vistas como heroísmo e glória europeia. O Islão é agora religião de tolerância quando secularmente (em 1960, por exemplo, a biografia de Beaumarchais pelo duque de Castries ainda identificava islão e fanatismo, como é longa tradição europeia).


Muitos de nós se riem da toga romana, da peruca da Europa clássica, da cota de armas cruzada. Esquecemo-nos que o futuro se vai rir de nós, com a diferença que tenho francas dúvidas que sinta uma imensa admiração. A toga romana produziu Virgílio, a Europa clássica Bach a cota de armas cruzada produziu Dante. As nossas calças apenas se borram. Sem heroísmo, sem projectos de longo prazo, com um sorriso alvar e condescendente típico do novo-rico perante tudo o que é sério, eterno, ou absoluto, o pateta contemporâneo passeia-se no transitório e julga-o definitivo. Mas, sabendo que não o é, e porque tem tanto medo de morrer como de ser eterno, diz que a morte e a eternidade têm o mesmo valor, ou seja nenhum.


Os vindouros, esses, rir-se-ão uns, ou terão piedade outros, de tanta estreiteza, de tanta obcecação com o presente, tanta ânsia de se estar onde não se está, de tanta superficialidade e distracção e de tanto mal-estar perante conquistas técnicas que afinal foram gloriosas mas tornaram-se banais. E o riso só não será maior caso respeitem um pouco mais os seus antepassados que nós. A nossa redenção estará em serem eles o oposto do que nós somos.

Alexandre Brandão da Veiga


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sexta-feira, 8 de abril de 2011

Para que serve a arte?

Confesso que nunca concordei com a pudicícia que leva a traduzir “Israel” como aquele que lutou contra um anjo. Se “el” significa recorrentemente Deus, é estranho que só com Israel a tradução seja diversa. Daniel é “Deus é o meu juiz”, Miguel é “Deus é o meu rei”, Manuel o “enviado por Deus”, Parente do “ili” babilónio (Babel, Bab-ili, é a “porta de Deus”) e do Alá árabe (são todos semitas afinal) seria natural que a tradução corrente fosse a de “aquele que lutou com Deus”. Não é para todos, mas nem sempre é pecaminoso. Sendo dos episódios mais estranhos do Antigo Testamento, ainda não teve a mesma profunda análise psicológica que Job teve com Jung.

O que têm estes considerandos a ver com a arte?, pergunta o leitor mais apressado. O que tem a ver com o espaço público?, insiste o que preza as coisas directas.

Já antes o tinha confrontado com algo de muito simples, o facto de a arte ter como papel o tornar presentes as coisas. Essa a sua razão de ser e essa a sua bitola. Nesta perspectiva a arte é guerreira, invasiva. A arte é por definição bélica. Hesíodo n’”Os Trabalhos e os Dias” insiste na ideia de que a vida é luta. Camponês e guerreiro são parte da alma fundamental da Europa. São os seus símbolos perenes. A arte impõe-se-nos, luta connosco. Uma arte que não dê luta é uma arte fracota.

No entanto, qual é o discurso da arte e sobre a arte a que assistimos desde a segunda metade do século XX sobretudo? O espectador queixa-se de que não compreende ou que os outros não compreendem. O crítico fica satisfeito ou agastado pela incompreensão do vulgo. O artista sente-se incompreendido. A arte deixa de ter de ser centro de luta para ser centro de compreensão. A arte tem agora de ser compreendida, esse o centro da apreciação estética.

Quantas vezes não viu o leitor alguém sair de um filme, de uma exposição, da leitura de um livro e dizer: “não compreendi”, julgando que esse era o centro da questão. As pessoas postam-se perante a arte procurando compreendê-la. E a arte busca compreensão. A imagem antropomórfica da arte actual é a do adolescente, que procura ser compreendido. Perante uma arte com borbulhas considera-se que a postura adequada é a do assistente social. Uma arte púbere e em crise existencial atrai assistentes sociais. O curioso é que o que é problema, reconhecidamente problema, torna-se de repente mérito.

O segundo comentário a que assistimos é “gostei, não gostei”. Esse o discurso que gira à volta da arte. Nada mais. Como se a arte estivesse para ali postada para dar prazer ou não, e esse fosse o critério de apreciação último. Para o espectador comum, a arte, além de adolescente, é uma espécie de menina que é apreciada segundo um concurso de beleza. “Acho esta mais bonita, esta menos bonita”. A arte dá ao fruidor a vantagem de se sentir consumidor com poder, podendo escolher entre este sabor do gelado ou outro, entre esta cachopa ou outra. A arte não o põe em causa, a arte apenas confirma o seu poder. A teoria da escolha do consumidor invade o campo da apreciação estética.

O terceiro nível de análise do fruidor é o “este filme é melhor que outro, este escritor pior que outro, ah este disco é muito melhor que o anterior”. E por aqui se queda. A terceira postura do fruidor é a do júri de um concurso não fundamentado. O paradigma é agora desportivo. O pódio a sua maneira de hierarquizar. “E o vencedor é...”. E está tudo decidido. Nada mais há que dizer. A arte é um campo onde se encerra de vez um concurso. Quando muito pode-se esperar que reabra no ano seguinte.

O leitor mais avisado já compreendeu. Adolescentes, apreciações sumárias e não fundamentadas, poder do julgador...O paradigma da arte contemporânea é... o concurso de misses. A arte pode ser assim um percurso turístico, inessencial, em que se espera algum choro, mas em suma em nada determinante.

Isto para não falar no mercado da arte. O mecenas escolhe para o bem e para o mal como ser humano. O mercado de arte é um mecenas sem alma, apenas com licitações, em que se cria um produto vindo não se sabe de onde para dar valor não se sabe bem ao quê, com motivações que são a única coisa efectivamente palpável e cognoscível no meio desta imensa Babel.

Convenhamos: há mais dialéctica nos sorrisos de Sant’Ana, mais percurso de conhecimento, que nas infantilidades de Pollock. Há mais complexidade em Mondriaan que nas infantilidades de Andy Wharol.

Qual a alternativa que Hesíodo nos ensina? A arte é luta, como a vida. Fruto do superávite de energia que é concedido a alguns, sinal do privilégio dada à raça humana, a arte é um campo de batalha. Logo, de conhecimento. De sentimento, sem dúvida. Mas de emoção, apenas lateralmente.

Para enfrentarmos uma obra de arte temos de nos preparar como o guerreiro ou como o camponês. Juntarmos as armas e o arado e estar prontos para umas vezes ganharmos ou perdermos. O que faz a grande arte não é a maior fruição, mas a maior luta. Quando se vence facilmente é arte menor. Quando se lavra o campo sem dificuldade é mero passatempo. Pessoas sensíveis fazem massagens, não arte.

Retornemos ao espaço público, fazendo de conta que antes não falávamos dele. Que relevância têm estes considerandos para o espaço público?

É evidente que a arte tem (também) por mecenas os Estados. E os vários Estados europeus patrocinam a arte e certa arte, ou certas artes, por critérios e razões que são elas políticas. O nosso dinheiro de contribuintes é gasto em propaganda que tenta demonstrar que umas tantas culturas são europeias, ou pior ainda que não há cultura europeia, que tudo é difuso e afinal europeu é o que alguns homens querem. Resta saber quais.

Mas a relação da arte com o espaço público é bem mais profunda que a anedota do servo e o novo-rico a querer-se fazer de mecenas. É que – e isto é tanto mais verdadeiro quanto menos conhecimento de arte tem o homem no espaço público – a arte define o nosso espaço, para o bem e para o mal. A capacidade de tornar presente, a confiança na efectividade é muito determinada pela imagem da arte que nos é transmitida. Uma política cubista pode ser imaginativa, mas deixa-nos sem perspectiva. E quando o surrealismo invade a prática e o discurso político podemos começar-nos a assustar, porque o mundo de pesadelos deixa de estar contido na tela, para nos invadir a vida quotidiana.

Esta concepção da arte atravessa o discurso político. Perde-se um referendo? É simples. Os políticos foram incompreendidos. Têm de explicar a obra de arte que construíram. Construir a Europa? É uma questão de gosto. Uns gostam da Europa outros não. Assim como uns gostam de um partido outros não. E no final, no concurso de misses escolhe-se a mais bela, seja ela um partido político, seja um país asiático com presunções europeias.

Desde que explicada a arte é legítima. Contaram-me outro dia que numa exposição em Londres alguém expôs bosta de elefante, tel quel, como obra de arte. A obra é de magnitude e acredito que o autor se reveja na obra. Sou mesmo um fervoroso adepto que o faça ao ponto de nela viver. Da mesma forma que, desde que bem explicado, qualquer bosta de mamute se pode tornar em país europeu, desde que se manipule o valor da obra no mercado da arte. Faz-se propaganda, folhetos bem coloridos, e tudo se transforma no seu contrário. A contestação do contexto ficou bem a Duchamps. Era novo, fez pensar. Hoje em dia temo bem que apenas enfade... e cheire mal.

“Pai, afasta de mim esse cálice” remete para um mundo onde a arte é desnecessária. A presença é efectiva e plena. O facto de haver arte cristã é uma contradicção nos termos caso o plano divino estivesse plenamente realizado. O facto de existir é a demonstração de que é cristã na sua finalidade, mas careceu de um substrato não cristão onde assentar. Isso mesmo: o paganismo indo-europeu. Porque o cristianismo tem a maturidade de se saber um projecto. E hoje em dia qual é oficialmente? Os critérios de Copenhaga. Os tais que inspiram epopeias, alimentam dípticos e foram musas para um sem número de sinfonias. Não as incompletas, mas as desconhecidas. Instrumentos úteis, mas que, transformados em obras de arte, nos remetem para um mundo sem luta, e por isso de submissão, sem projecto substantivo, para o puro pesadelo, para o embuste e para a bosta.




Alexandre Brandão da Veiga

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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Topo de Gama!

«É caso para o Presidente da Assembleia da República dizer ao Deputado Jaime Gama: Senhor Deputado, terminou o seu tempo». Foi assim que, esta semana, Jaime Gama se despediu da Assembleia da República como Presidente e como Deputado. Custa-me aceitar que este «peixe de águas profundas», como um dia o definiu Mário Soares, saia da cena política. O tempo de Jaime Gama não acabou porque não começou. As suas capacidades políticas e pessoais são de primeira linha mas o casuísmo da partidocracia, mal casado com a oportunidade mediática, nunca o apurou para o topo. Na única vez que Jaime Gama se perfilou para a liderança do PS desistiu por ponderáveis razões familiares. Portugal perde com este desencontro. Por enquanto. Porque o seu tempo não terminou.

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terça-feira, 22 de março de 2011

Ciência e cristianismo


Quando produzo uma afirmação assumo na íntegra o ónus da prova. Precisamente o contrário dos que pretendem dissolver a Europa num amálgama de fontes mais ou menos indeterminadas para melhor lhe poderem manipular a identidade. Vejamos por isso até que ponto o cristianismo marcou de forma profunda a própria ciência. Para isso temos de ouvir de novo o que dizem as crianças.

As crianças dizem basicamente o seguinte: o cristianismo destruiu a ciência grega, a ciência é neutra em relação à religião, o cristianismo (sobretudo o catolicismo) opôs-se à formação da ciência contemporânea. As crianças odeiam a complexidade na formulação, o que lhes quadra bem, mas como não falo para crianças, nem as acho competentes para perorar no espaço público, vejamos até que ponto esta argumentação é pura e simplesmente desprovida.

Começando com questões prévias: a ciência contemporânea nasceu em terra cristã, não em terra budista ou muçulmana. E foi obra igualmente de eclesiásticos. Argumento contrário: é evidente, nessa altura toda a Europa era cristã, e eram os eclesiásticos a única classe intelectual. Admitamos. Então afinal a Europa é terra cristã e afinal nem sempre os eclesiásticos foram contra a cultura e a ciência. Algo lhes devemos. Isto porque não conheço muitos imãs que tenham feito obra científica.

Falemos pois de coisas mais sérias. O cristianismo destruiu a ciência grega? A verdade é que o século II e I a.C. já tinham visto uma profunda decadência da ciência grega. E estes séculos têm o ligeiro inconveniente... de serem anteriores ao nascimento do próprio Cristo. Maravilhoso cristianismo que já prejudica antes de ter nascido. O próprio pensamento pagão desde o fim da antiguidade tendeu mais para a doutrinação moral, a retórica e mais tarde a religião (Possidónio, Séneca, Aulo Gélio, Quintiliano; mais tarde Plotino, Jâmblico, Porfírio) que o pensamento científico. O império do pensamento religioso sobre o científico é feito da própria cultura pagã e não do cristianismo. E das últimas marcas da cultura científica que nos sobraram do fim da antiguidade são de um autor cristão, Boécio.

Vejamos a segunda frente de ataque: a ciência é neutra em relação à religião e à ideologia. É curioso que sejam os mesmos que proferem esta afirmação que depois, em toques pós-modernos, neoconstrutivistas, neoestruturalistas (seja lá o que signifiquem estes palavrões), vêm dizer que a ciência é mera construção ritual, pura relatividade, fruto da sociedade e da sua ideologia. Entendam-se por favor, e que não se mude a argumentação consoante o destinatário. É que a própria tese de que o cristianismo destruiu a ciência vem de movimento anticristão francês e inglês da segunda metade do século XIX (não de Nietzsche mas mais de Berthelot e Renan – que pouco sabia de ciência, embora fosse um mestre de estilo, e de físicos menores ingleses). Parte não da física mas de ciências recentes em crise de menoridade, como a química e a biologia, e das ciências humanas, em busca de parasitar o prestígio da física e da matemática. Teve bases e efeitos tipicamente ideológicos, com a formação de manuais escolares que apagaram o cristianismo como fonte de ciência e geraram movimentos persecutórios (Berthelot, aliás um grande químico, e a sua clique, não tão relevante quanto o primeiro, perseguiram cientistas da dimensão de um Duhem ou de um Tannery porque eram católicos, o que toda a gente sabe que torna incompetente para a ciência, como os casos de Pascal e Pasteur demonstram).

O terceiro argumento é bem conhecido. O cristianismo opôs-se à formação da ciência moderna. Basta ver a perseguição a Galileu e a Darwin. A História é bem mais complexa. Darwin foi muito mais perseguido pelos protestantes e só bem mais tarde posto no Index. E as reacções contra o heliocentrismo foram tão acesas entre protestantes quanto entre católicos. E a relação entre Galileu e o papa é bem menos linear que o mito simplista de Brecht (que por sinal nada sabia de física) dá a entender.

Vejamos só alguns exemplos que mostram como o cristianismo contribuiu para a ciência.

O principio da inércia e a ideia de um movimento inercial rectilíneo, por exemplo. Matéria tão relevante quando Mach achou que era central no pensamento da física. E sabemos que Mach influenciou profundamente Einstein. Para os gregos (simplifiquemos um pouco) o movimento perfeito era o circular. Velho padrão de Mandala, de circulo mágico bem conhecido. O cristianismo, e sobretudo Santo Agostinho, denuncia o falsus circulus. Inaugura o pensamento de um movimento rectilíneo com base não apenas da ideia de Criação, mas de...Hapax. Da ideia do evento único da Incarnação de que instaura a História. Newton não poderia ter concebido o princípio da inércia como o fez, se as condições intelectuais não tivessem preparado a evidência da sua natureza fundamental.

São cientistas medievais, como Buridan e Oresme e Nomariarus, clérigos católicos, que estabelecem uma ideia revolucionária: os corpos celestes não têm de ser movidos por inteligências espíritos ou instâncias angelicais. Deus quando criou o mundo deixou postas as leis do movimento, que actuam por si mesmas. A própria possibilidade da existência de leis da física precisou de mais este passo, passo que foi dado no âmbito do pensamento cristão e por clérigos. Damos este facto como evidência, mas precisava de ser estabelecido. Não falamos como os pitagóricos de uma música celestial, mas de leis da física.

Etienne Tempier, esse grande reaccionário, bispo de Paris no século XIII, impede que se ensine o averroísmo em Paris. Curiosa versão da História. O grande movimento revolucionário que impede é o que gera a escolástica, que para os mesmos ideólogos é apenas reaccionário em si mesmo quando lhes dá jeito. Mas porque não gosta Tempier das novas correntes? A questão é sempre mais complexa, mas em síntese, porque é contrário ao cristianismo na sua perspectiva. Porquê? Porque impede, pelo retorno da ideia de inteligências que governam os movimentos celestes, a ideia de lei física imposta por Deus.

A grande revolução científica tem o seu impulso sobretudo no século XVII. Já não falando das influências da escola (clerical) da física de Paris e Oxford em Leonardo da Vinci e Galileu, se pensarmos em todos os grandes criadores de ciência estamos a falar de convictos cristãos, que pensam na ciência numa perspectiva religiosa. Leibniz inventa o cálculo infinitesimal a tentar perscrutar o pensamento divino e daí retira consequências na sua teodiceia, Pascal, Newton, entre tantos outros são bons exemplos disso. Sem o Padre Mersenne não se teria formado o modo dialogante de fazer ciência. Sem os jesuítas muita da ciência moderna não se teria estendido até à Rússia. Ainda no século XX o abbé Lemaître, um padre belga, é o primeiro a retirar a teoria do Big Bang da teoria da relatividade generalizada. Na altura foi vilipendiado por misturar teologia com ciência, quando mais tarde se demonstra ter razão, mas apenas para ser apagado o seu mérito nessa descoberta. Isto para já não falar num célebre monge austríaco que cria a ciência da genética clássica (Mendel), de um cristianíssimo matemático que cria a álgebra dos transfinitos e a teoria dos conjuntos (Cantor), ou de um padre Fourier (peculiar, é certo) que de um só golpe inova na teoria do calor e na matemática. Os exemplos poderiam ser desenvolvidos até ao infinito.

Tentando sintetizar algo que é realmente complexo, apenas podemos dizer que foram cristãos e enquanto cristãos quem criou a ciência moderna. Que foi o cristianismo que fundou não apenas o modo, mas igualmente muitas das possibilidades da ciência moderna. Que foi numa civilização cristã que nasceu a dita ciência. Que se diga que a ciência é meramente ideologia ou ritual apenas mostra desconhecer o que seja ciência. Que se diga que esta é inerte em relação ao ambiente em que nasce é igualmente dislate. A ciência não nasce como libertação em relação ao cristianismo e se se desenvolve muitas vezes nesse sentido isso apenas mostra que quem a faz desconhece com frequência as bases do que pratica. Não é consequência da ciência, mas em geral instinto de novo-rico, de menorizado (Comte que me lembre contribuiu menos para a ciência que Leibniz, Pascal ou Cantor – ou mesmo Einstein, que era crente em Deus, ou ainda Maxwell).

Resta um argumento. Pode-se aceitar que a ciência europeia é construção cristã e que tanto os cristãos como o cristianismo contribuíram para o seu desenvolvimento, mas isso é afinal apenas História. O “apenas” quando é usado diz geralmente algo mais sobre quem o usa que sobre o que fala. Quando Hegel fala do “apenas psicológico”, diz mais sobre ele que sobre a psicologia. Mas ainda aqui temos de reconhecer dois factos: em primeiro lugar, não seria então necessário desacreditar tanto as origens cristãs da ciência europeia, caso elas fossem tão irrelevantes hoje em dia; em segundo lugar, resta saber que revoluções científicas estamos a preparar e o que elas preparam hoje em dia. Se concluirmos que estamos apenas a desenvolver sem revolucionar (no que a segunda metade do século XX tem sido mais useira e vezeira, salvo tecnologicamente falando), talvez seja necessário perguntar o que deixou de alimentar a ciência. Se acreditamos que estamos a preparar novas revoluções científicas, é preciso demonstrar em quê elas saltam fora do paradigma da ciência europeia e se isso vale a pena.
Lembro a frase de Heisenberg: quem disser que sou cristão exagera, quem disser que não sou exagera igualmente. Frase de alguém que esteve sempre bem longe das religiões institucionais. Mas é evidente que Heisenberg é menos relevante para a ciência que tecnocratas da política que decidiram definir o que é Europa. ^



Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 9 de março de 2011

A economia de mercado

Os idólatras de uma construção meramente técnica da Europa dizem que a Europa é economia de mercado. Um dos miraculosos critérios de Copenhaga. A copulativa é aqui assustadora. É? Ou tem como condição? Trata-se de duas coisas bem distintas.

Tenho tido o cuidado de salientar que não faço análise económica e nem sequer política, mas trabalho apenas no subterrâneo da política, no que a fundamenta. Não venho pois aqui fazer laudas ou diatribes sobre a economia do mercado. O que me preocupa é saber o que sustenta este discurso e o que significa sob o ponto de vista civilizacional.

Toda a economia no limite é de mercado. Em muitos aspectos é inevitável que o seja. Por mais planificada que seja uma economia, se não houver pão, este não pode ser distribuindo em grande quantidade e baixo preço. Quando muito ficciona-se pão, como fez a Albânia (país ídolo dos detentores das esquerdas doces antes de se converterem à política moral), ou a China ou a Roménia. E bem se pode inundar o mercado de manuais de cálculo tensorial que não é por isso que a sua procura aumenta sem mais.

A economia de mercado é manifestação de liberdade e fomenta a liberdade. A dimensão patrimonial é fundamental na vida humana. O que eu como, visto, onde habito, no que trabalho são sectores fundamentais da minha liberdade, manifestam os meus gostos e a minha opção de vida. Todas alternativas à economia de mercado mostraram-se, além de ineficientes no seu conjunto, limitadoras da liberdade.

A economia de mercado tem um efeito redistributivo muito potente. Costuma-se dizer que o Estado distribui melhor e a economia de mercado produz melhor. Este lugar comum está de há muito afastado. Nenhuma televisão privada atingiu a excelência da BBC nos seus tempos áureos, ou da ARTE nos seus bons anos. Há certos tipos de bens que consoante os países e a épocas o Estado produziu melhor que os privados, seja na saúde, na cultura, na educação, em alguns casos na infra-estrutura. Os serviços públicos nórdicos são mais bem eficientes que as empresas do Burkina Faso. De igual forma a economia de mercado por via da concorrência tem permitido o acesso a bens e serviços a camadas de população que nem com eles sonhavam há anos atrás. Tudo depende da época, do país e do modelo ético de organização que exista.
Só por isto seria legítimo política e civilizacionalmente que a Europa se baseie na economia de mercado. É uma visão mais adulta, mais realista da vida, uma visão mais livre e generosa do ser humano.

Mas coisa bem diversa é esquecer as taras do mercado.

Os critérios do mercado são anti-democráticos. O poder de voto não é igual para todos. Gera desigualdades tanto mais insuportáveis quanto entra em crise. Se no momento de crescimento todos beneficiam ainda que desigualmente, em momentos de crise os mais frágeis sofrem mais, e as redistribuições gerais dependem de factores de depredação mais que de mérito. O mercado opõe-se à meritocracia em muitos aspectos. Os depredadores ganham sempre em mercados instáveis.

O mercado deixado a si mesmo despreza o ser humano. Um velho, um analfabeto, uma criança enquanto não têm valor económico, são deixados de lado pelo mercado. São outras instituições, sejam elas formais ou informais, que atribuem valor à fragilidade humana. Por isso, mesmo nos países ditos mais liberais, o mercado nunca actua sozinho. Daí que se afirmar a natureza fundante do mercado é esquecer o papel que nas grandes economias capitalistas o evergetismo, sobretudo de dimensão cristã, tem no seu equilíbrio e no equilíbrio dos seus efeitos. Quem conhece o modo de vida do proletário do século XIX, ou as formas de proletarização actuais, obnubiladas, precarizadas, em ambientes laborais de humilhação e opressão que ainda hoje em dia são permitidos sabe até que ponto o ser humano pode efectivamente ser destruído por uma lógica de poder económico. Porque a economia de mercado, endeusada por si mesma, esquece os homens concretos que nela vivem. Com o seu poder e as suas fraquezas, as suas frustrações e a sua crueldade, mas também a sua generosidade.

O mercado deixado a si mesmo despreza a cultura, o património, em suma é indiferente às identidades humanas. Mesmo quando na aparência se escora nestas identidades (como vemos pelas especializações em finanças muçulmanas, ou indígenas) irreleva-lhes o centro dessa cultura, apenas aproveita o facto de ela existir como oportunidade de negócio. Assim como o inválido não é um humano que sofre, mas apenas uma oportunidade de vender uma prótese, o índio não é um ser humano que vive de certa forma, mas apenas um consumidor de objectos de penas.

Em suma, falar só de mercado é desprezar a democracia, o ser humano, e pôr em causa a cultura e a sua identidade.

A economia de mercado assenta numa antropologia e gera uma antropologia. Em cada cultura tem formas bem diversas. O que se produz, como se produz, quem produz, para quem produz depende de cultura para cultura. Mas gera igualmente uma antropologia. Enquanto só e apenas economia de mercado é indiferente à cor, raça, credo, não por amor ao ser humano, mas apenas por este lhe ser absolutamente indiferente. Sem assentar noutra antropologia que não em si mesma, reduz-se à indiferença perante a alegria e o sofrimento humanos. Uma Europa exclusivamente baseada na economia do mercado seria assim indiferente à sorte humana.
Mas, pode-se contra argumentar, os critérios de Copenhaga contém a democracia na sua referência. Quais sejam as limitações da democracia já o vimos. Esta referência conjuntamente com o mercado apenas tempera o lado anti-democrático do mercado. Não apaga o seu lado esmagador das culturas, da identidade e nem forçosamente de uma determinada visão do ser humano que só a cultura e a identidade transportam.

O pior ainda é dizer que a Europa é economia de mercado. Dizer que qualquer país que preencha os critérios de Copenhaga é um país europeu resulta de uma pobreza intelectual, de uma falácia lógica e de uma mendicidade espiritual sem nome. Porque assim sendo tanto os Estados Unidos como o Japão, Marrocos ou a Turquia serão países europeus. Porque demonstra que o que são condições fundamentais passam por ser essência. Ou seja, que a essência da Europa é meramente instrumental, condicional, e acessível por qualquer um. Que mesmo que apenas que formalmente se atinjam esses critérios, qualquer casca “europeia” (e que casca) é o que é a Europa. A Europa fica reduzida assim a uma casca.

Vejamos pois que imagem da Europa se desprende deste fetiche da economia do mercado. Se a Europa não tem uma economia de mercado mas é, então daqui decorre que a Europa é uma realidade meramente instrumental. E este resultado, se não é querido por todos os cultores dos critérios de Copenhaga, é expressamente querido e propagandeado pelos subservientes a políticas americanas que dizem que a Europa não é uma cultura, mas uma mera encruzilhada de culturas. A Europa não tem substância, substância é coisa que as outras culturas possuem: os turquemenos, os persas, os chineses e os turcos. Os europeus, esses reduzem-se a ser uma encruzilhada, um ponto de encontro. Vivem sem abrigo, ao sabor do clima e dos visitantes que passam nas três vias. A Europa é a trivialidade em suma.

O lugar comum diz que se quer uma economia de mercado e não uma sociedade de mercado. Seja. Cada um que escolha a sua fórmula. Mas assim como me parece infantil fazer de conta que a economia de mercado não existe e existirá sempre, sob uma ou outra forma, ou num ou noutro grau, parece-me igualmente infantil, e igualmente dogmatismo puro, esquecer o que pode ter de tarada uma economia de mercado deixada a si mesma ou apenas temperada pela democracia ou o “acquis communautaire”. Numa Europa construída com base apenas nestes critérios, apenas uma coisa está ausente: o ser humano. É um deserto em que existe de tudo, menos europeus, com a sua cultura, a sua maneira de viver, a sua civilização. É um mundo feito por mortos de inteligência para mortos de espírito. E em que só mortos de uma e outra coisa acreditam.




Alexandre Brandão da Veiga

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