quinta-feira, 16 de junho de 2011

Quem são os artistas?

Cada um tem a sua história e o seu gosto. No meu caso confesso ter sempre preferido a gnoseologia, em especial a epistemologia, e, em épocas variáveis, a metafísica à ética e à estética. A penúltima sempre me pareceu algo arbitrária sem um sustento religioso e a segunda algo mais esparsamente elaborada que as primeiras. Mas a verdade é que há épocas para tudo na vida e a seu devido tempo acabei por me decidir a estudar algo de estética.

Reconheço que não foi um frete, mas seria igualmente exagero considerá-la uma paixão. Um trabalho necessário e frutuoso sem dúvida, pouco mais, e já não é ser pouco. A verdade é que no meio de tantas teorias, ora genialmente elaboradas mas como que nas fronteiras dos grandes sistemas, ora centro de preocupação mas com destrinças algo bizantinas para o meu gosto, tentei orientar-me para dar um assento simples para algo que sabia ser sumamente complexo.

Se algo caracteriza a arte, pensei, é o facto de se tornar presente. A realidade por vezes escapa ao homem e existe sempre um ruído de fundo que nos avisa da relativa dissonância que existe entre o facto de estarmos por aqui e isso tornar-se-nos vivamente incarnado. Para regular esse desvio o homem criou a arte. Torna a realidade real, torna presentes as coisas. O ex-voto é assim uma das pedras fundadoras da arte.

Tornar presente tem sempre três momentos: quem torna presente, o que se torna presente e para quem se torna presente. A situação paradigmática da arte encontra-se na adoração dos reis magos. Mostra que o mais importante é sempre para quem se torna presente. De seguida o que se torna presente. E o menos importante quem dá o presente.

Uma arte que tem o destinatário como centro, desde que este seja o merecedor por excelência é uma arte de grandeza. Uma que se centre no presente é uma de pertinência. A que se centra em quem dá é folclórica. Não é por caso de quando os reis magos se transformam em figura principal do presépio é sinal de que a teologia foi destronada pelo folclore.

O problema é que o folclore redunda rapidamente em comércio quando os reis magos passam a ser substituíveis. Por Pais Natal nomeadamente. Quando o que se dá é centro, mas se torna obsessão, a arte transforma-se em feiticismo. E quando a quem se dá presente passa a ser medíocre a arte passa a ser mera adulação. Comércio, feiticismo e adulação são os três estados tristes da arte.

A herança romântica deu-nos o artista como centro. Os classicismos a coisa em si. E o barroco o destinatário. Cada um deles tem o seu mérito, mas cada um o seu perigo. A verdade é que é a avalanche romântica que ainda nos domina. A arte considerada legítima centrou-se no criador, geralmente a pessoa menos interessante para falar dela e com frequência pessoa pouco interessante em si mesma. Ou seja a arte tendeu a ser folclore.

Mas se assim foi enquanto o artista era insubstituível, quando passa a ser reprodutível passa a puro comércio. Nunca tanto se bradou pela pureza da arte e nunca tanto esta passou a ser comercial. O que há que ver é que espécies de Pais Natal nos aparecem sob a figura de artistas.

Em primeiro lugar são pessoas que “não ligam”. Seja a convenções, seja aos outros, seja às pequenezas da vida, seja à opinião do público. Como nestas coisas os sentimentos são recíprocos, nunca tão pouca gente lhes ligou a eles. Se o Estado os subsidia fá-lo não a vidas de abandono, mas com frequência a vidas de abandonados.

Em segundo lugar são pessoas profundamente preocupadas, que gostam de dizer que andam profundamente preocupadas. O que é estranho para quem não liga às coisas. O que só pode ter alguma coerência caso a sua preocupação seja destituída de conexão. E portanto para não ser muito levada a sério.

Em terceiro lugar são pessoas com sentimentos, pessoas que são movidas pelos sentimentos. O que é razoável na devida dose, mas que corre sempre o risco de criar tartufos quando é permanentemente exposto. E sentimentos geralmente algo malcriados, em que se indicam recorrentemente os sacrifícios e os custos em que incorreram para nos ofertar a obra de arte. Como o oferente malcriado que nos lembra o preço do presente e quanto custou encontrá-lo.

Em quarto lugar, se bem observarmos o espécime típico, são pessoas de expressão espasmódica, do esgar, do olhar virado para o tecto, em que o discurso não fluí, mas é entrecortado por auto-concentração, como se buscassem algures na alma, mesmo no fundo da alma, algo para dizer. O que não é bom sinal, porque quando é necessário ir buscar ao fundo da alma algo que dizer, quer isto significar que se trata de um poço com reservas esgotadas, de colheita difícil. O seu paradigma não é o rio que corre, mas o poço no meio do deserto, de onde se retira o líquido a custo. Mesmo que o espasmódico seja calmo, isto quando não é realmente ciclotímico, mostra que a sua vivência é entrecortada, descontínua, e portanto fracturada. São convalescentes da existência, pouco saudáveis, a recuperarem do facto de existirem.

Tendo exposto este quadro clínico, facilmente verificamos que a arte, e isto é tanto mais verdade quanto mais afastada do êxito de audiência, tende a ser cada vez mais comercial. Centrada no autor deixou de ser folclórica, porque os personagens passaram a ser substituíveis. Contestou os heróis e foi por isso engolida por essa contestação. O artista passa a ser um produtor comercial, fungível, um entre tantos. Perdeu o estrelato.

Comercial?, saltam já algumas almas caridosas? Como, se é tantas vezes contestatária, marginal, fora dos circuitos comerciais? Ora essa, respondo, comercial sem dúvida. Se incompetente, inepta também sob o ponto de vista económico, apenas mostra mais uma sua fraqueza e não uma escusa da qualificação.

Comércio inepto, centrado em produtores desligados, preocupados não se sabe bem com o quê e porquê, proclamadores de sentimentos e de expressão espasmódica. Que arte é esta? Que efeitos pode trazer ao espaço público?

Não vou dizer que uma arte na sua versão menos adulterada serviu sempre a verdade. Não foi de verdade que falei, mas de tornar presente. Se inepta, apenas deixa de preencher a sua função de tornar presentes as coisas. Uma arte inepta começa por ser uma arte desautorizada. Nunca se levou tão pouco a sério os artistas. Mesmo que se possa dizer que os concretos que temos o mereçam muitas vezes, este não é facto que nos deva causar regozijo. Uma sociedade com artistas desautorizados é uma sociedade que desautoriza o próprio facto de tornar presente, de conferir realidade às coisas.

Aqui é difícil destrinçar quem foi a causa quem o efeito. Se os artistas se desautorizaram e desautorizaram o próprio facto de tornar presente na sociedade, ou se o facto de esta ter desautorizado este facto desautorizou os artistas. Ambas as hipóteses devem ser verdadeiras em graus diferentes consoante as épocas. O fundamental é que se a arte sempre serviu a propaganda, mesmo quando o fazia, as origens que tornavam as coisas presentes eram identificáveis. Podiam ser por isso mais facilmente atacáveis. A arte não escapou à deslocalização, à massificação, aos fenómenos do comércio. A autoria evanesce de tanto o autor fungível ser importante. E por isso se a arte perde a sua função de propaganda dirigida, perde também o seu papel identificador. Significativo o facto de à explosão de movimentos de ter seguido a sua quase desaparição. Cada autor gosta de afirmar que não pertence a nenhum movimento, ou pertence a vários.

Deixando de ser propaganda não colabora com a mentira, mas em nada ajuda a verdade. Apenas passou a ser inepta, mais um elemento na paisagem do espaço público dissolvido e mole. Se antes podia manipular, podia igualmente impedir a manipulação. Hoje não faz nem uma nem outra coisa.

O homem público não podia negar nem Vénus nem a Madonna ou o vitral. Estavam presentes, tornavam a realidade evidente. E evidente o passado indo-europeu da Europa. Se se alimenta dele ainda hoje, a arte apenas o obnubila.

Num espaço público em que ninguém assume a função de tornar presente, seja a verdade, seja a mentira, tudo é manipulável, a realidade esvai-se. Por isso é fácil afirmar que os tapetes de Antalya ou Izmir são Europa. Com artistas perpetuamente demissionários, temos mais um elemento que forma o caldo da manipulação do espaço público. Quando contestam, contestam o que é fácil contestar e por isso nem geram escândalo, nem são ouvidos.

Qual a solução? De preferência que os artistas tomem a iniciativa de tornar de novo presentes as coisas. De preferência a verdade. Se ainda forem capazes. E se para isso não lhes falhar a coragem.

Alexandre Brandão da Veiga


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quarta-feira, 8 de junho de 2011

António Manuel


Conheci-te no I Congresso dos Jornalistas Portugueses, no início dos anos 80, na Gulbenkian.
Ali estavam os homens da imprensa, os rapazes da rádio e as meninas da TV.
Tu trabalhavas na RDP com um grupo assombroso de jornalistas onde pontuava Fernando Alves. Eu ainda andava na Faculdade.
A esquerda de Abril tinha aberto as portas das redacções e a Democracia definiria rapidamente uma fronteira entre os que teriam voz e os que ficavam na prateleira, alternadamente. A maioria dos media era propriedade do Estado o que facilitava essa arrumação. Numa cave da Estefânea, a TSF de Emídio Rangel fazia emissões experimentais clandestinas.
Gostei daqueles dias em que pude conhecer os injustiçados do momento. Lembro-me do cuidado que tinhas com os que não iam à Bicaense, por falta de verba, e só apareciam para o café. Lembro-me da tua calma e da capacidade de fazer pontes. Lembro-me do sentido de humor e do que ríamos com as historias caricatas do jornalismo português.
Fiquei com pena quando, mais tarde, soube que tinhas decidido ir trabalhar com os socialistas. Mas mantiveste intacta a afabilidade, a vontade de esclarecer e de fazer pontes nas conversas que tivemos de cada lado da linha.
Faria depois uma escolha parecida com a tua mas sem contacto com jornalistas para não cruzar registos. Não saberia fazê-lo como tu. Não saberia manter-me, como tu.
Que Deus guarde a tua alma.

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quarta-feira, 1 de junho de 2011

A grosseria como modo de governo

O primeiro-ministro italiano chama nazi a um deputado alemão. Intervém na televisão pública interrompendo um programa de futebol, invocando a sua qualidade de primeiro-ministro. Diz que o islão é uma cultura inferior e depois diz que a Turquia tem de entrar na União Europeia (vê-se assim o calibre dos defensores desta ideia). Em Portugal um ex-primeiro-ministro insulta deputados lembrando o seu passado criminoso de revolucionários de esquerda e leva uma resposta na mesma medida. Um político da oposição ataca um ministro com artigos que ele escreveu há vinte anos atrás, ao que este responde na mesma moeda. O dito ex-primeiro-ministro e o citado ministro batem as palmas das mãos no parlamento como jogadores de futebol americano. Um presidente de câmara distribui frigoríficos, outro dá pontapés num estádio de futebol, outra foge à justiça. Dois ministros saem de consciência tranquila depois de acusados de uma reles cunha.

Já nem refiro exemplos internacionais, nomeadamente americanos. O espaço público é invadido destes exemplos.

Argumentam-me que estão sujeitos a grande pressão. Do espelho suponho. Porque a verdade é que conheço pessoas sob pressão que são grosseiras e outras que não o são. O que faz a diferença entre elas não é estar ou não sob pressão. É serem ou não... grosseiras. É disso que se trata.

Confesso que ainda seria (a custo) suportável o facto de estarem bem longe de serem belezas clássicas. Menos admissível que sejam destituídos de grande inteligência ou qualquer cultura. Que sejam grosseiros de aspecto é facto que já nos provoca anestesia. Mas que sejam grosseiros de modos, que o atrevimento, a má-criação passem das suas casas, bastamente habituadas ao espectáculo, e nos ofereçam de bandeja aquilo que são, começa a ter significado político.

Os políticos sempre foram acusados de hipocrisia. Agora pelo contrário mostram-se como são. Devemos assim reflectir se queremos sempre a sinceridade no espaço público. Se sob o ponto de vista pessoal o fenómeno é de despudor, sob o ponto de vista político mostra que a ágora se transformou em cozinha. O povo quis que os políticos fossem populares, espontâneos, os meios de comunicação social incensaram esta ideia, e obtivemos a satisfação deste desejo. Se os políticos são grosseiros no espaço público é tão simplesmente porque são grosseiros.

É que há certas coisas que não se justificam nem se desculpam nem sequer a posteriori. Pura e simplesmente não se fazem. Não devem existir. Nada mais.

Que o fossem no espaço privado era fácil de adivinhar. Basta ter olhos de ver, para se perceber que não são grandes aristocratas. Mas coisa bem diferente é terem invadido o espaço público... com o que são.

Tentemos avançar mais um pouco.

É que os políticos não se apresentam apenas na glória da sua grosseria. Apresentam teorias justificativas do seu comportamento. Uns afirmam que os actos foram reflectidos. É grave, na medida em que mesmo com reflexão só chegam a estes resultados. Além de grosseiros, com fracas capacidades de reflexão. Outros que é campanha contra eles. Grave igualmente, dado que estão a afirmar que a grosseria própria se explica pela alheia, o que só pode ser verdade se os alheios forem os pais. Outros afirmam que apenas são espontâneos e não hipócritas, e isso leva-nos de novo a reflectir se queremos que, políticos que são assim, sejam como são no espaço público.

A grosseria passou a estar no espaço público e que em consequência o espaço público passou a ser um campo de grosseria. Vemos agora que a grosseria criou uma teoria política própria. Pobre, mas própria, ou talvez pobre porque própria.

É que há certas coisas que depois de feitas é melhor nem serem referidas. Não se pede desculpa por se ter arrotado. Facto lamentável, é sempre melhor fazer de conta que não existiu. Já que entrou da História, ao menos que seja esquecido.

Demos um terceiro passo.

Confesso não saber como cuspir na rua. Não se trata de um imperativo moral. De algo em que me tenha de conter porque sei ser ordinário. Não me implica esforço. Pura e simplesmente desconheço a técnica. Não vi como se fazia, a não ser ao longe, e por pessoas que se distanciavam do meu mundo pelo simples facto de o fazerem. Os meus pais não me transmitiram essa ciência. Em conclusão: falta-me a técnica.

Mas, mais importante que isso, inexiste no meu mundo. A educação não significa apenas alargar. Significa igualmente afastar do nosso mundo. A fome de crueldade, o desejo de vingança, o desrespeito dos outros, em suma, as várias formas de grosseria, fazem parte do elenco dos instintos naturais dos homens. Não carecem de grande formação para serem exercidas, apenas para o serem com requinte. Uma educação supostamente tem como papel igualmente afastar do mundo pelo menos algumas misérias da alma humana. Quando se diz que alguém é incapaz de inveja a nossa tradição europeia vê isso como um elogio. Algumas incapacidades são méritos. Em grande medida porque é mais fácil ter a capacidade correspondente que dela ser destituído.

O espaço público está repleto portanto de sobredotados... para o lado errado da vida. Pessoas espontâneas, que se apresentam como são, com uma grande cultura técnica, manifestando aspectos da vida não realmente inovadores, mas diversos.

Um espaço público decorado de grosseria, com uma teoria política subjacente e uma sobreabundância de vida. Três elementos já referidos.

É que há certas apetências que é melhor não se ter. Quem as tem, que as ampute, ou ao menos as contenha. Já que estão lá que se faça ao menos conta que não existem.

Falta um quarto passo a dar.

É que a questão não é apenas de bom-tom, de boa sociedade, embora no que me respeita isso já lhe dê importância bastante. É que a própria forma de fazer política, a técnica, o instrumento político se transformou em grosseria. Sem ideias, sem berço, sem projecto, o espaço político transformou-se no espaço da gestão da grosseria. A grosseria não é um seu episódio, mas um seu fundamento, e o seu instrumento privilegiado.

Tenho plena consciência do que digo pode passar por exagerado, mera vontade de caricaturar, pura arbitrariedade. Ou então de que afinal, trata-se “apenas”(!) de uma questão de boas maneiras, sem grande relevância na decisão política. Mas gente com modos grosseiros e aspecto grosseiro tem o teimoso hábito de ter sentimentos grosseiros, desejos grosseiros, aspirações grosseiras, ideias grosseiras. Tudo o que subjaz à decisão política. E se as finalidades da política forem grosseiras os efeitos sê-lo-ão igualmente. A longo prazo são os homens do bem comum que deixam obra feita na História. Os desesperados e os grosseiros (são duas formas de dizer a mesma coisa no espaço público), deixam apenas um rasto. O de Átila, o seu paradigma. Ou o dos bobos da corte, um outro. Antes os reis tinham bobos, hoje são os bobos que esmagam os reis. E as decisões estratégicas a que assistimos, com uma Europa fracturada, subserviente ou timorata mostram o resultado prático dessa grosseria.




Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 20 de maio de 2011

São os alemães culpados? III

Resta-nos o terceiro conjunto de aspectos. Os de política interna. É que a birra e a peixaria da esquerda à direita ajudam a esconder um simples facto: o de a classe política não ter pensamento, capacidade e vontade de impor por si mesma as medidas que deveriam ser tomadas. E estas são simplesmente três, respondendo a três perguntas.

A primeira é: como distribuir pelos portugueses o encargo da dívida? As soluções simples são: os ricos que paguem crise ou os ricos já pagam demais. Aqui está um bom momento para quem usa a palavra “patriótico” da esquerda à direita para demonstrar uma verdadeira solidariedade nacional. Os grupos e pessoas que se querem escusar a uma justa distribuição dos encargos apenas mostram que não se encontram vinculados a Portugal, o que é de seu direito, mas apenas demonstra que não podem falar de pátria. É um bom teste para sabermos se Portugal se sente como um país ou não.


A segunda é: como punir quem mente nas contas? Uma empresa privada é punida por falsear a contas, não se compreende que o Estado não o seja. Não me faz sentido criminalizar a má execução orçamental. Essa é uma questão política. Mas o que me parece evidente é que quem mente em causa pública tem de ser punido. Não encontro quem propunha seriamente uma punição severa dos membros do governo até aos funcionários públicos que mentem nas contas. Esta a matéria que mereceria legislação especial. A clara definição de quem é responsável a que nível e do quê.

A terceira é: que fazer para que não sejamos mais caloteiros? Pessoalmente nunca fiz dívidas, salvo para comprar casa, e paguei-a em cinco anos. Mesmo com sacrifícios, não gosto de ter dívidas. Mas quem não se importa está no seu direito. Mas o calote é uma vergonha, e independentemente da política de cada qual, quem não quer calotes ou paga ou não faz dívidas. Um caloteiro é criatura sem palavra, um povo que aceitasse o calote, um só que seja, mesmo que não seja forma de vida, já tem a sua honra manchada. Os partidos que anunciam “uma outra política” só teriam a autoridade se tivessem denunciado o endividamento público e privado, se tivessem lutado eficazmente contra ele. O que não fizeram. Mas só há duas formas de não se ser caloteiro: ou não fazendo dívidas ou pagando-as.

Não costumo falar de temas comuns, os que ocupam as actualidades dos jornais. Já há muita gente que o faça. E também em relação a este não perdi tempo em questões técnicas ou políticas. Há igualmente muito quem o faça. Independentemente da minha opinião sobre uma e outras dimensões, mais importante para mim é não esquecer dados elementares de lucidez. Quem ouve o vulgo berrar parece que está ele cheio de razão. Mas apenas berra. Quem deve, paga. Foram os alemães como nós e nós como eles muito mais venenosa seria a nossa língua que a deles. Louvo-lhes o espírito de contenção. O que se torna insuportável no espaço público é ver a criança que, depois de ter batido no mano e tendo levado a bofetada correctiva, ainda chora e se sente injustiçado. Existe uma idade para isso. Fora dela a infantilidade é apenas humilhante. A política revela os homens. Quem exige a quem deve esquece-se do mais elementar. Deve. Que pague. O resto é jogo de interesses, não de direitos.










Alexandre Brandão da Veiga

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quinta-feira, 19 de maio de 2011

São os alemães culpados? II

O segundo conjunto de aspectos tem a ver com a política europeia.

Têm a Alemanha, a Finlândia, a Holanda interesse em que a situação dos países mais pobres se estabilize? Têm. É do seu interesse e do interesse de todos.

Mas mais uma vez parece um mau começo e sinal de grosseria lembrar o que a Alemanha nos deve pelas malandrices que fez na II Guerra Mundial e pela ajuda que recebeu quando da unificação.

Quais são os vícios dessa argumentação?
1) Um país que teve 48 anos de ditadura não tem muita moral para falar de 12 anos de nazismo, por mais brutais que sejam.
2) Um país que dependeu da ajuda alemã (e não americana) para a passagem para a democracia é grosseiro se esquecer o que deve à Alemanha (não fora apenas o empréstimo alemão de 1976, mas igualmente a ajuda que a Alemanha deu aos partidos democráticos e o apoio que deu a Portugal na Europa muito poderíamos pensar sobre se a transição para a democracia não teria sido bem mais sangrenta)
3) Quem não gosta de alemães faça o favor de andar de burro, de nem usar telemóvel, porque foi graças à ciência alemã que os aviões e as telecomunicações se devem. Mais à ciência alemã que à portuguesa, é o mínimo que se pode dizer. Que ande de nau e use o grito para comunicar.
4) Os alemães pagaram fortemente a sua reunificação desde 89. Congelamentos de ordenados na função pública, endurecimento do regime de reformas, contenção de salários. E pagando a sua reunificação (não me lembro dos subsídios portugueses à Alemanha para esse ou outro efeito), não deixaram de pagar mal ou bem (e muito) para outros países europeus.
5) Os alemães ganham muito com a Europa unida? Sem dúvida. Graças ao seu trabalho, ao seu estudo, à qualidade do que produzem. Não vejo porque alguém deve algo apenas porque ganha com o seu trabalho. Tanto mais que aceitou regras de solidariedade em que paga, e muito.
6) Coloquemo-nos na pele dos alemães. Que seria se se dissesse ao povo português que teria de pagar mais impostos para financiar os alemães? Os finlandeses são soberanos e fazem com o seu dinheiro o que bem querem e entendem. Que diríamos nós caso os nossos políticos nos dissessem que os nossos impostos tinham de ser aumentados para ajudar os alemães? Demos já exemplos de solidariedade desta natureza que nos permita falar de cátedra? Que se levante o primeiro que concorde com um aumento de impostos para salvar islandeses ou irlandeses. Não me lembro de na altura alguém se ter mostrado solidário. Bem pelo contrário, do que me lembro em Portugal fizeram-se todos desentendidos, esperando que não os chegasse a nossa vez. Apenas pode pedir em dobro quem ofereceu em singelo.

Em suma, não temos direitos, e reclamar direitos inexistentes é berraria de varina. Sob o ponto de vista argumentativo é grosseiro, desrespeita a liberdade dos outros povos de fazerem com o seu dinheiro o que bem entendem, e, não sendo nossos pais, não têm o dever de nos sustentar.

Quem tem coluna paga as suas dívidas e não estrebucha. Pode salientar ao credor o interesse que tem em aliviar a carga, pode invocar junto dos associados o interesse comum. Isso é legítimo. Mas um homem que é gente assume as suas responsabilidades e não faz birra.

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quarta-feira, 18 de maio de 2011

São os alemães culpados? I

A propósito desta discussão sobre a dívida pública tenho apenas três conjuntos de reflexões a oferecer. O primeiro de coerência, o segundo de política europeia e o terceiro de política interna. O pano de fundo é que os malandros dos alemães são culpados, não têm solidariedade, devem muito à Europa. E mais os maldosos finlandeses e quejandos.

Comecemos pelo primeiro. De coerência. Na política é importante por vezes ir aos fundamentos mais simples da coisa. A política é feita por seres humanos. Vejamos que humanos são estes que se queixam.

Portugal entrou no euro porque quis. Ninguém o forçou a tal. Lembremo-nos mais ainda que, quando aos alemães, mas também os holandeses, e já agora os ingleses (não entraram na brincadeira mas gostaram de pontificar mais que os outros sobre ela), disseram que Portugal não estava pronto, muito português se sentiu ofendido por estar a ser desconsiderado. Estávamos prontos e seria uma ofensa entender o contrário. Ou seja, quisemos e quisemos muito.

Em segundo lugar, sabíamos bem o que era o euro. A Alemanha deixou claro que não deixaria nunca o marco e que o euro, para existir, seria um marco europeu. Convenhamos: se alguém tem algo de muito valioso atira-o ao lixo? Fizeram eles senão bem em impor o marco. Os outros quiseram ter a melhor moeda, a Alemanha deu a sua quota. Mas impôs que o produto não piorasse a qualidade. Quem os critica é apenas quem está habituado à fancaria. Eu prefiro produtos de melhor qualidade aos de pior. Por isso parece razoável a exigência alemã. Os países tiveram de fazer profundas mudanças no seu enquadramento institucional do mercado monetário, nomeadamente aceitando a independência dos bancos centrais, sabiam o que estavam a comprar e quiseram. Sabiam bem, o aviso foi feito.

Em terceiro lugar este marco despejado sobre todos implica uma política. O vulgo chama-a de monetarista, mas depende do que se pretende dizer com isso. Só nos meados doa anos 70 Milton Friedemann se torna conhecido e já há trinta anos antes a Alemanha praticava a mesma política. Não creio que se possa chamar de monetarista. Os alemães são um povo inteligente e com capacidade para criar soluções por si mesmos. A política alemã é no fundo muito simples. Numa economia baseada numa moeda fiduciária o único bem potencialmente infinito é a moeda. E isso não é bom. É o pior que pode acontecer. A memória da hiperinflação está bem presente nos alemães, mas os países latinos bem se deviam lembrar do imposto escondido, ínvio e desigualitário, esse bem mais desigualitário que qualquer outro, chamado inflacção.

A política alemã não deveria ser chamada de monetarista, mas de realista. Não se podendo brincar com a moeda, uma economia vale pelo que vale a economia real, não manipulações monetárias. Ou seja, o mais importante numa economia é a sua estrutura, não políticas ocasionais de conjuntura, por mais úteis que sejam. Sabíamos isto, todos sabíamos isto, que era a estrutura da economia que tinha de ser adaptada e nada ou pouco fizemos.

Em quarto lugar, não tenho ideia de que alguém tenha posto uma pistola ao pescoço dos portugueses para pedir empréstimos no estrangeiro, nem me lembro de ter visto ministros das finanças ou primeiros-ministros sequestrados para os obrigarem a pedir empréstimos ao exterior. Memória curta a minha, talvez, mas confesso que perdi esse episódio. Tenho a vaga memória que se pedimos empréstimos foi de nossa palavra, e por nossa exclusiva vontade.

Em quinto lugar, o que significa pedir um empréstimo? Significa dizer a outros senhores que querermos o dinheiro deles, mas que depois o devolvemos, e em acréscimo pagamos o serviço que nos estão a fazer. Foi o que fizemos. Dissemos a esse mundo fora que lhes íamos pagar o que devíamos. Se não nos acreditassem não nos tinham emprestado dinheiro. Acreditaram em nós. Podemos agora dizer que esses senhores foram ingénuos e que não deveriam ter acreditado em nós. Estaríamos assim a dizer que somos gente que não merece confiança. Nesse caso, estão eles já começando a acreditar nessa faceta. Não nos façamos ofendidos por isso.

Em sexto lugar, deixemos o jargão técnico e falemos como gente. Que nome se dá a quem não paga as dívidas? Caloteiro. A simples hipótese de se dizer que os outros são malandros porque nos exigem o que prometemos é sinal de baixeza de carácter. Um homem vale pela sua palavra, criaturas sem palavra não valem nada. Por isso os que criticam os finlandeses e alemães por estarem a ser pouco solidários mostram assim a baixeza da sua extracção e a falha educação que tiveram. Não lhes ensinaram que quem deve voluntariamente paga, cumpre o seu dever e engole, não se queixa do cobrador. O cobrador está a ser coerente com o que fez. Somos nós quem não o está a ser.

Em suma goste-se ou não do euro, goste-se ou não da dívida, existem ambos. E ambos existem por vontade nossa. Adultos são responsáveis e não fazem birras.

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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Têm os políticos de ser bonitos?

A pergunta parece descabida, convenhamos. Se falássemos de modelos, actrizes ou de cantores de música popular, talvez mesmo de apresentadores de televisão, o assunto poderia parecer ao menos de actualidade (o que não é sinónimo de razoável, apesar de tudo). Mas que sequer se coloque esta questão em relação aos políticos parece um poço de sem sentidos.

Mas propus-me analisar o campo que subtende à política. Se subtende é porque não aparece expresso. Porque, muitas vezes nem como pergunta foi suscitado. A pergunta de Einstein “o que se passaria comigo se eu viajasse num feixe de luz?” ou a pergunta ainda mais antiga “o que é o ser?” são perguntas reconhecidamente patetas, mas com resultados sobejamente fecundos. Sem ambição de obter os mesmos resultados, não tanto por humildade de autor, mas antes mais por menoridade do objecto, vejamos a que resultados ela nos conduz.


Convenhamos, não é na política onde se costumam encontrar as maiores belezas clássicas. No entanto, Alcibíades, uma das maiores belezas de Atenas, foi político. Filipe o Belo foi rei, e não dos menores. E os Anjous de Nápoles eram das famílias mais belas da Europa e isso não os impediu de ser reis de Nápoles, Polónia, Hungria, duques de Durazzo, de Atenas, condes da Provença e senhores de Avinhão (se se tornou cidade dos papas isso deveu-se a uma compra forçada à rainha Joana I de Nápoles, uma das mulheres mais belas do seu tempo). Por sinal, nem medíocres intelectualmente nem maus políticos.


Que não se espere dos governantes a beleza, pode-se dar de barato. Mas que lhes seja proibido já parece escandaloso. Ora, e admitamo-lo, a classe política actual é fundamental e irrevogavelmente... feia. E feia até à náusea em muitos casos, perdoem-me a asserção.


Se a coisa se ficasse por aqui, teríamos apenas a exposição pública de desgraças pessoais, o que é triste, mas não teria grande relevância política. O problema é que não se fica por aqui.

Em primeiro lugar porque representam externamente o país. Por essa Europa e por esse mundo afora o que se espalha é que os portugueses são...enfim, são assim. Como português confesso sentir-me muito mal representado. Porque admitindo a hipótese de serem realmente representativos da nação portuguesa, preferiria uma mentira indulgente a uma verdade tenebrosa. Sempre que passeiam pelo espaço internacional os seus semblantes o mundo olha e diz: ah, aquilo é um português. Nessas alturas sinto-me reconfortado de julgarem que sou italiano e fico tentado a não desfazer o equívoco.


A imagem já é relevante sobretudo para pessoas públicas que só vivem dela, que pouco mais têm que oferecer. Mas podemos ir um pouco mais fundo na análise.


É que um semblante esteticamente desfavorecido é sinal de uma adolescência e juventude sem grande sucesso junto do sexo oposto. Em bom rigor apenas o torna oposto, nada mais. Qual a psicologia que se forma quando as pessoas nunca tiveram ninguém que para elas olhasse e dissesse: que bonito, que bonita?


Nuns casos, as pessoas são sensatas, equilibradas, razoáveis. Vivem a sua vida privada, e consta-me mesmo que atingem a felicidade, seja na vida amorosa, seja na dedicação social, outras vezes religiosa. Mais raramente profissional.


O problema é que a grande maioria dos políticos actualmente em curso nos estrados do poder não trazem grandes êxitos profissionais. Olhando os seus curricula quando muito estiveram por engano nos Estados Unidos, a que foram chamados mas mais para endoutrinação passiva que para darem sabedoria, ou por meros acasos de juventude. Ou então, o que corresponde à maioria dos casos, não têm sequer grande experiência profissional mas apenas em aparelhos partidários.


Neste momento resta-nos a hipótese optimista de serem objecto de profundas paixões, ou de serem furiosos activistas sociais ou religiosos. Mesmo aí teríamos de verificar até que ponto qualquer destas actividades os preenchem. Prova impossível, intrometida e pouco curial. E mesmo que fosse verdade a causa, a consequência ficaria por provar, a saber, a de essas actividades lhes preencherem a vida.


A verdade é que tudo indica que não. Em primeiro lugar porque precisam de ir para a política, em segundo porque o semblante se mantém o que é. O que já o qualifica.

Resta-nos outro critério. De Gaulle ou Churchill não eram propriamente belezas clássicas. Mas eram homens imbuídos de História e consequentemente grandes políticos. Além do mais eram aristocratas. E nada redime mais a fealdade que a classe ou certas formas de santidade pelo menos.


Quanto a classe, não vale a pena discutirmos. De entre os apelidos toda a flora, fauna ou desagradáveis posturas atravessam os noticiários. Não são apelidos, são ferretes. Quanto a conhecimento de Historia, a avaliar pelo que dizem, começam na segunda guerra mundial, e as fontes são séries americanas dos anos de 1970. Lembro-me de um antigo deputado europeu que, dirigindo-se aos alemães, disse que a Alemanha ainda devia muito ao mundo. Talvez se ele referisse o facto de a China, o Japão e a Turquia terem dívida igual, mas totalmente por pagar, que apesar de tudo era essa Alemanha que lhe pagava o ordenado na sua maioria e que, sobretudo, a essa Alemanha se devia ele poder ir de avião para Bruxelas e não de burro, transporte de tecnologia portuguesa, talvez nesse caso pudesse haver alguma justiça nas suas palavras.


Nem classe, nem História. Consequentemente, nem presença nem futuro. Até agora só descobrimos factos deprimentes. O visível é deplorável, os apelidos pouco apresentáveis em sociedade, o passado nulo, o conhecimento pouco, o futuro curto, as compensações pouco prováveis.


Que são então políticos feios? Que psicologia podem trazer, dado que todos os factores de redenção que lhes tentámos encontrar não são existentes ou pelo menos passíveis de prova? Adolescentes e jovens de triste passado, que quando muito obtiveram parceira à força, ou graças a muito esforço, o que frequentemente é o mesmo. Habituaram-se a seduzir mentindo, em suma, porque não são sedutores. Ou a obter forçando, porque não lhes foi naturalmente oferecido. Trabalham no instável mas não para construir o permanente, porque perenizar no seu caso seria perenizar igualmente a sua desgraça. Sabem que conquistar no seu caso não é formar impérios, mas antes proceder a pilhagens. Usurpam, em conclusão.

A democracia não é para eles um valor mas apenas uma oportunidade. Sem ela seriam escorraçados liminarmente da vida política, ou teriam apenas lugares sem visibilidade. A democracia permite igualmente a existência do feio, do simplesmente feio, sem qualquer factor de redenção: classe, origem, obra ou serviço. Não são a sua seiva, mas o seu musgo.


Parecia que a pergunta não tinha qualquer sentido. Realmente. Mas atacando-a por várias frentes verificámos que apesar de tudo tem alguma valia. Houvéramos descoberto pontos de compensação, de salvação para a sua fealdade, e teríamos ficados descansados quanto ao nosso futuro. Não se trata de saber se as pessoas têm culpa de serem feias. Trata-se de saber se lhes é legítimo passear a sua fealdade, apenas ela e nada mais, no espaço público.


E trata-se, mais que tudo, de perceber a psicologia que se gera no feio típico que anseia pelo espaço público, o que nada mais tem para oferecer. Começámos na estética, passamos para a política e desembocamos na biologia. Porque falamos do contrário do que é nobre função do político: servir. Falamos em suma de parasitas. Esperemos que a tendência passe.


Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 26 de abril de 2011

Como nos verão os vindouros?

É um exercício simultaneamente arriscado e divertido proceder a este tipo de ponderação. A impunidade presente é compensada pela condenação futura de um eventual leitor que tenha a paciência de ler o que escrevo daqui a cinquenta ou cem anos. Para o qual pisco o olho antecipadamente, é óbvio.


Mas assim como fazer cartas persas permitiu, pelo distanciamento geográfico, ver o mundo onde estamos, da mesma maneira afastarmo-nos um pouco no tempo para o futuro permite-nos ver com maior perspectiva o que somos.


Como aparecerá a nossa época aos olhos dos vindouros?

Para começar uma época muito fechada sobre si mesma. Desprezando o passado, pudibunda na projecção do futuro.


As épocas míopes vêem-se mais pelo que desprezam no seu passado no que a ela estão agarradas. Para um romano os seus maiores eram referência. A decadência em relação aos tempos primevos da República foi sempre tema recorrente desde a maturidade da mesma até ao fim do Império. A cultura cristã, para se impor na cultura antiga, teve de salientar a sua antiguidade por estar ancorada no judaísmo. Lembremo-nos que uma das acusações que se lhe fazia era a de novidade. Uma acusação, entenda-se, não um mérito. E no entanto, ninguém pode negar o papel de Roma na História.

A nossa época é pouco inteligente no seu conjunto e pouco criativa. Pergunte-se pelo Bach, o Dante ou do Rafael da segunda metade do século XX que ainda hoje vivemos. Mas está pronta a ter um olhar condescendente em relação ao seu passado. A verdade é que o cidadão comum, (e falo de políticos, universitários, homens da comunicação social, por exemplo) é incapaz de perceber uma linha de Duns Scoto e sumariamente frequentou Platão no liceu. É incapaz de perceber a primeira linha dos Elementos de Euclides, e muito menos as Disquisitiones Arithmeticae de Gauss. E no entanto, sente que esses senhores de toga, peruca ou hábito são algo ridículos porque não tomavam banho todos os dias nem apanhavam aviões.


As projecções de futuro reduzem-se a uma ficção que se apelida de científica, mas em bom rigor é meramente tecnológica. O que nos apresentam são culturas, não mais sábias, mas que viajam mais depressa, curam melhor as doenças, mesmo se se vestem com um gosto duvidoso. A incapacidade de antecipar, de imaginar novos gostos, novos valores, novas formas de comportamento, é evidente. Imitações boas ou más (geralmente más) da Antiguidade, da Idade Média repetem padrões, não os criam. A nossa época gosta de lustro. O projecto político, a antecipação realmente estratégica, essa quase inexiste. Tirando o projecto europeu, tão mal tratado pelos seus usuários, nada de futuro, de nova ideia se apresenta na política mundial.

Em segundo lugar uma época que quer sair de si geograficamente. Se é fechada no tempo e se encosta na sua ilusoriamente perene contemporaneidade quer sair do espaço onde está. Os não europeus ou se pretendem europeus ou querem imitar o padrão primeiro ou as versões revisitadas (americanas). Os europeus querem deixar de sê-lo, ou têm vergonha de dizer que o são, ou sobretudo porque o são. Mais que as viagens físicas, a migração cultural é aflitiva, desesperada, desencontrada.


Um pateta lê um livro, não sabe uma palavra de sânscrito ou pâli, e toca de dizer que é budista ou adorador de Krishna. Outros inventam neopaganismos que têm mais similitude com a banda desenhada que com o verdadeiro sacrifício humano. Outros fazem-se adoradores do diabo, ignorando que ele não perde tempo com medíocres. Há muitos candidatos a vender a alma, mas a procura é exigente e majestosa. Analfabetos não lhe interessam. Outros ainda encontram no Terceiro Mundo culturas integradas, onde as pessoas vivem alegremente imersas numa cultura. E daí criticam a cultura europeia por não ter essa capacidade de integração do homem na vida. Autobiográfico empedernido o turista fala sempre do seu próprio umbigo.

A terceira característica que vai encontrar é a superficialidade. Tudo está tão facilmente disponível que muita pouca coisa é realmente absorvida. O argumento é bem sabido: antigamente havia tão pouca coisa que saber que era fácil saber de tudo, hoje em dia há tanto que isso não é possível. Realmente... Mas quando pergunto que opção fez quem diz isto, se se dedica apenas a Jâmblico já que não pode estudar toda a filosofia de língua grega, ou apenas a Desargues porque não pode saber toda a geometria, ou apenas Burke, dado que toda a teria política lhe é inatingível, e estas perguntas podem ser alargadas até ao infinito, a resposta é invariavelmente que nada foi estudado.


A bíblia da época está nos anúncios publicitários, nas frases tão rápidas nos debates que se reduzem à condição de meros slogans, sem demonstração, simples expressões tabeliónicas de revisor oficial de contas, em jornais, em sítios da Internet que se vasculham distraidamente. E estudo, a releitura, a memorização, a atenção deixaram de ter espaço nobre na nossa cultura sendo reduzidos a uma semi clandestinidade.


A quarta, o desenvolvimento material, sobretudo tecnológico. No entanto, não podemos esperar que os vindouros nos idolatrem nesta matéria. Em primeiro lugar, porque é natural que estejam mais desenvolvidos tecnologicamente que nós. Admiraram a aceleração, mas não se sentirão esmagados pelos resultados. Por outro lado, é verdade que a Europa, mais que qualquer outro continente, conseguiu um equilíbrio entre prosperidade económica e redistribuição da riqueza raro na História. Mas essa era está a esgotar-se, pelo menos no modelo inicial. É comum os eruditos admirarem grandes realizações materiais. Os turistas fazem-no também por breves momentos. Mas ainda hoje em dia é mais comum a paixão pelos gregos que pelos romanos. É que as obras que tocam o coração humano e o seu espírito deixam marcas mais profundas e mais excitantes. E a nossa época anda algo falha de Leibniz.

A quinta, o medo da vida. Timoratos, queremos ser imunes a tudo, à doença, à vida, à morte, à guerra, ao desemprego, à miséria, à velhice. Nós, que nos julgamos os últimos juizes, esquecendo-nos que essa situação é por definição verdadeira mas rapidamente caduca, achamos os nosso juízos definitivos. As cruzadas são condenadas pela opinião corrente, mas esquecemo-nos que ainda há um século atrás eram vistas como heroísmo e glória europeia. O Islão é agora religião de tolerância quando secularmente (em 1960, por exemplo, a biografia de Beaumarchais pelo duque de Castries ainda identificava islão e fanatismo, como é longa tradição europeia).


Muitos de nós se riem da toga romana, da peruca da Europa clássica, da cota de armas cruzada. Esquecemo-nos que o futuro se vai rir de nós, com a diferença que tenho francas dúvidas que sinta uma imensa admiração. A toga romana produziu Virgílio, a Europa clássica Bach a cota de armas cruzada produziu Dante. As nossas calças apenas se borram. Sem heroísmo, sem projectos de longo prazo, com um sorriso alvar e condescendente típico do novo-rico perante tudo o que é sério, eterno, ou absoluto, o pateta contemporâneo passeia-se no transitório e julga-o definitivo. Mas, sabendo que não o é, e porque tem tanto medo de morrer como de ser eterno, diz que a morte e a eternidade têm o mesmo valor, ou seja nenhum.


Os vindouros, esses, rir-se-ão uns, ou terão piedade outros, de tanta estreiteza, de tanta obcecação com o presente, tanta ânsia de se estar onde não se está, de tanta superficialidade e distracção e de tanto mal-estar perante conquistas técnicas que afinal foram gloriosas mas tornaram-se banais. E o riso só não será maior caso respeitem um pouco mais os seus antepassados que nós. A nossa redenção estará em serem eles o oposto do que nós somos.

Alexandre Brandão da Veiga


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sexta-feira, 8 de abril de 2011

Para que serve a arte?

Confesso que nunca concordei com a pudicícia que leva a traduzir “Israel” como aquele que lutou contra um anjo. Se “el” significa recorrentemente Deus, é estranho que só com Israel a tradução seja diversa. Daniel é “Deus é o meu juiz”, Miguel é “Deus é o meu rei”, Manuel o “enviado por Deus”, Parente do “ili” babilónio (Babel, Bab-ili, é a “porta de Deus”) e do Alá árabe (são todos semitas afinal) seria natural que a tradução corrente fosse a de “aquele que lutou com Deus”. Não é para todos, mas nem sempre é pecaminoso. Sendo dos episódios mais estranhos do Antigo Testamento, ainda não teve a mesma profunda análise psicológica que Job teve com Jung.

O que têm estes considerandos a ver com a arte?, pergunta o leitor mais apressado. O que tem a ver com o espaço público?, insiste o que preza as coisas directas.

Já antes o tinha confrontado com algo de muito simples, o facto de a arte ter como papel o tornar presentes as coisas. Essa a sua razão de ser e essa a sua bitola. Nesta perspectiva a arte é guerreira, invasiva. A arte é por definição bélica. Hesíodo n’”Os Trabalhos e os Dias” insiste na ideia de que a vida é luta. Camponês e guerreiro são parte da alma fundamental da Europa. São os seus símbolos perenes. A arte impõe-se-nos, luta connosco. Uma arte que não dê luta é uma arte fracota.

No entanto, qual é o discurso da arte e sobre a arte a que assistimos desde a segunda metade do século XX sobretudo? O espectador queixa-se de que não compreende ou que os outros não compreendem. O crítico fica satisfeito ou agastado pela incompreensão do vulgo. O artista sente-se incompreendido. A arte deixa de ter de ser centro de luta para ser centro de compreensão. A arte tem agora de ser compreendida, esse o centro da apreciação estética.

Quantas vezes não viu o leitor alguém sair de um filme, de uma exposição, da leitura de um livro e dizer: “não compreendi”, julgando que esse era o centro da questão. As pessoas postam-se perante a arte procurando compreendê-la. E a arte busca compreensão. A imagem antropomórfica da arte actual é a do adolescente, que procura ser compreendido. Perante uma arte com borbulhas considera-se que a postura adequada é a do assistente social. Uma arte púbere e em crise existencial atrai assistentes sociais. O curioso é que o que é problema, reconhecidamente problema, torna-se de repente mérito.

O segundo comentário a que assistimos é “gostei, não gostei”. Esse o discurso que gira à volta da arte. Nada mais. Como se a arte estivesse para ali postada para dar prazer ou não, e esse fosse o critério de apreciação último. Para o espectador comum, a arte, além de adolescente, é uma espécie de menina que é apreciada segundo um concurso de beleza. “Acho esta mais bonita, esta menos bonita”. A arte dá ao fruidor a vantagem de se sentir consumidor com poder, podendo escolher entre este sabor do gelado ou outro, entre esta cachopa ou outra. A arte não o põe em causa, a arte apenas confirma o seu poder. A teoria da escolha do consumidor invade o campo da apreciação estética.

O terceiro nível de análise do fruidor é o “este filme é melhor que outro, este escritor pior que outro, ah este disco é muito melhor que o anterior”. E por aqui se queda. A terceira postura do fruidor é a do júri de um concurso não fundamentado. O paradigma é agora desportivo. O pódio a sua maneira de hierarquizar. “E o vencedor é...”. E está tudo decidido. Nada mais há que dizer. A arte é um campo onde se encerra de vez um concurso. Quando muito pode-se esperar que reabra no ano seguinte.

O leitor mais avisado já compreendeu. Adolescentes, apreciações sumárias e não fundamentadas, poder do julgador...O paradigma da arte contemporânea é... o concurso de misses. A arte pode ser assim um percurso turístico, inessencial, em que se espera algum choro, mas em suma em nada determinante.

Isto para não falar no mercado da arte. O mecenas escolhe para o bem e para o mal como ser humano. O mercado de arte é um mecenas sem alma, apenas com licitações, em que se cria um produto vindo não se sabe de onde para dar valor não se sabe bem ao quê, com motivações que são a única coisa efectivamente palpável e cognoscível no meio desta imensa Babel.

Convenhamos: há mais dialéctica nos sorrisos de Sant’Ana, mais percurso de conhecimento, que nas infantilidades de Pollock. Há mais complexidade em Mondriaan que nas infantilidades de Andy Wharol.

Qual a alternativa que Hesíodo nos ensina? A arte é luta, como a vida. Fruto do superávite de energia que é concedido a alguns, sinal do privilégio dada à raça humana, a arte é um campo de batalha. Logo, de conhecimento. De sentimento, sem dúvida. Mas de emoção, apenas lateralmente.

Para enfrentarmos uma obra de arte temos de nos preparar como o guerreiro ou como o camponês. Juntarmos as armas e o arado e estar prontos para umas vezes ganharmos ou perdermos. O que faz a grande arte não é a maior fruição, mas a maior luta. Quando se vence facilmente é arte menor. Quando se lavra o campo sem dificuldade é mero passatempo. Pessoas sensíveis fazem massagens, não arte.

Retornemos ao espaço público, fazendo de conta que antes não falávamos dele. Que relevância têm estes considerandos para o espaço público?

É evidente que a arte tem (também) por mecenas os Estados. E os vários Estados europeus patrocinam a arte e certa arte, ou certas artes, por critérios e razões que são elas políticas. O nosso dinheiro de contribuintes é gasto em propaganda que tenta demonstrar que umas tantas culturas são europeias, ou pior ainda que não há cultura europeia, que tudo é difuso e afinal europeu é o que alguns homens querem. Resta saber quais.

Mas a relação da arte com o espaço público é bem mais profunda que a anedota do servo e o novo-rico a querer-se fazer de mecenas. É que – e isto é tanto mais verdadeiro quanto menos conhecimento de arte tem o homem no espaço público – a arte define o nosso espaço, para o bem e para o mal. A capacidade de tornar presente, a confiança na efectividade é muito determinada pela imagem da arte que nos é transmitida. Uma política cubista pode ser imaginativa, mas deixa-nos sem perspectiva. E quando o surrealismo invade a prática e o discurso político podemos começar-nos a assustar, porque o mundo de pesadelos deixa de estar contido na tela, para nos invadir a vida quotidiana.

Esta concepção da arte atravessa o discurso político. Perde-se um referendo? É simples. Os políticos foram incompreendidos. Têm de explicar a obra de arte que construíram. Construir a Europa? É uma questão de gosto. Uns gostam da Europa outros não. Assim como uns gostam de um partido outros não. E no final, no concurso de misses escolhe-se a mais bela, seja ela um partido político, seja um país asiático com presunções europeias.

Desde que explicada a arte é legítima. Contaram-me outro dia que numa exposição em Londres alguém expôs bosta de elefante, tel quel, como obra de arte. A obra é de magnitude e acredito que o autor se reveja na obra. Sou mesmo um fervoroso adepto que o faça ao ponto de nela viver. Da mesma forma que, desde que bem explicado, qualquer bosta de mamute se pode tornar em país europeu, desde que se manipule o valor da obra no mercado da arte. Faz-se propaganda, folhetos bem coloridos, e tudo se transforma no seu contrário. A contestação do contexto ficou bem a Duchamps. Era novo, fez pensar. Hoje em dia temo bem que apenas enfade... e cheire mal.

“Pai, afasta de mim esse cálice” remete para um mundo onde a arte é desnecessária. A presença é efectiva e plena. O facto de haver arte cristã é uma contradicção nos termos caso o plano divino estivesse plenamente realizado. O facto de existir é a demonstração de que é cristã na sua finalidade, mas careceu de um substrato não cristão onde assentar. Isso mesmo: o paganismo indo-europeu. Porque o cristianismo tem a maturidade de se saber um projecto. E hoje em dia qual é oficialmente? Os critérios de Copenhaga. Os tais que inspiram epopeias, alimentam dípticos e foram musas para um sem número de sinfonias. Não as incompletas, mas as desconhecidas. Instrumentos úteis, mas que, transformados em obras de arte, nos remetem para um mundo sem luta, e por isso de submissão, sem projecto substantivo, para o puro pesadelo, para o embuste e para a bosta.




Alexandre Brandão da Veiga

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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Topo de Gama!

«É caso para o Presidente da Assembleia da República dizer ao Deputado Jaime Gama: Senhor Deputado, terminou o seu tempo». Foi assim que, esta semana, Jaime Gama se despediu da Assembleia da República como Presidente e como Deputado. Custa-me aceitar que este «peixe de águas profundas», como um dia o definiu Mário Soares, saia da cena política. O tempo de Jaime Gama não acabou porque não começou. As suas capacidades políticas e pessoais são de primeira linha mas o casuísmo da partidocracia, mal casado com a oportunidade mediática, nunca o apurou para o topo. Na única vez que Jaime Gama se perfilou para a liderança do PS desistiu por ponderáveis razões familiares. Portugal perde com este desencontro. Por enquanto. Porque o seu tempo não terminou.

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terça-feira, 22 de março de 2011

Ciência e cristianismo


Quando produzo uma afirmação assumo na íntegra o ónus da prova. Precisamente o contrário dos que pretendem dissolver a Europa num amálgama de fontes mais ou menos indeterminadas para melhor lhe poderem manipular a identidade. Vejamos por isso até que ponto o cristianismo marcou de forma profunda a própria ciência. Para isso temos de ouvir de novo o que dizem as crianças.

As crianças dizem basicamente o seguinte: o cristianismo destruiu a ciência grega, a ciência é neutra em relação à religião, o cristianismo (sobretudo o catolicismo) opôs-se à formação da ciência contemporânea. As crianças odeiam a complexidade na formulação, o que lhes quadra bem, mas como não falo para crianças, nem as acho competentes para perorar no espaço público, vejamos até que ponto esta argumentação é pura e simplesmente desprovida.

Começando com questões prévias: a ciência contemporânea nasceu em terra cristã, não em terra budista ou muçulmana. E foi obra igualmente de eclesiásticos. Argumento contrário: é evidente, nessa altura toda a Europa era cristã, e eram os eclesiásticos a única classe intelectual. Admitamos. Então afinal a Europa é terra cristã e afinal nem sempre os eclesiásticos foram contra a cultura e a ciência. Algo lhes devemos. Isto porque não conheço muitos imãs que tenham feito obra científica.

Falemos pois de coisas mais sérias. O cristianismo destruiu a ciência grega? A verdade é que o século II e I a.C. já tinham visto uma profunda decadência da ciência grega. E estes séculos têm o ligeiro inconveniente... de serem anteriores ao nascimento do próprio Cristo. Maravilhoso cristianismo que já prejudica antes de ter nascido. O próprio pensamento pagão desde o fim da antiguidade tendeu mais para a doutrinação moral, a retórica e mais tarde a religião (Possidónio, Séneca, Aulo Gélio, Quintiliano; mais tarde Plotino, Jâmblico, Porfírio) que o pensamento científico. O império do pensamento religioso sobre o científico é feito da própria cultura pagã e não do cristianismo. E das últimas marcas da cultura científica que nos sobraram do fim da antiguidade são de um autor cristão, Boécio.

Vejamos a segunda frente de ataque: a ciência é neutra em relação à religião e à ideologia. É curioso que sejam os mesmos que proferem esta afirmação que depois, em toques pós-modernos, neoconstrutivistas, neoestruturalistas (seja lá o que signifiquem estes palavrões), vêm dizer que a ciência é mera construção ritual, pura relatividade, fruto da sociedade e da sua ideologia. Entendam-se por favor, e que não se mude a argumentação consoante o destinatário. É que a própria tese de que o cristianismo destruiu a ciência vem de movimento anticristão francês e inglês da segunda metade do século XIX (não de Nietzsche mas mais de Berthelot e Renan – que pouco sabia de ciência, embora fosse um mestre de estilo, e de físicos menores ingleses). Parte não da física mas de ciências recentes em crise de menoridade, como a química e a biologia, e das ciências humanas, em busca de parasitar o prestígio da física e da matemática. Teve bases e efeitos tipicamente ideológicos, com a formação de manuais escolares que apagaram o cristianismo como fonte de ciência e geraram movimentos persecutórios (Berthelot, aliás um grande químico, e a sua clique, não tão relevante quanto o primeiro, perseguiram cientistas da dimensão de um Duhem ou de um Tannery porque eram católicos, o que toda a gente sabe que torna incompetente para a ciência, como os casos de Pascal e Pasteur demonstram).

O terceiro argumento é bem conhecido. O cristianismo opôs-se à formação da ciência moderna. Basta ver a perseguição a Galileu e a Darwin. A História é bem mais complexa. Darwin foi muito mais perseguido pelos protestantes e só bem mais tarde posto no Index. E as reacções contra o heliocentrismo foram tão acesas entre protestantes quanto entre católicos. E a relação entre Galileu e o papa é bem menos linear que o mito simplista de Brecht (que por sinal nada sabia de física) dá a entender.

Vejamos só alguns exemplos que mostram como o cristianismo contribuiu para a ciência.

O principio da inércia e a ideia de um movimento inercial rectilíneo, por exemplo. Matéria tão relevante quando Mach achou que era central no pensamento da física. E sabemos que Mach influenciou profundamente Einstein. Para os gregos (simplifiquemos um pouco) o movimento perfeito era o circular. Velho padrão de Mandala, de circulo mágico bem conhecido. O cristianismo, e sobretudo Santo Agostinho, denuncia o falsus circulus. Inaugura o pensamento de um movimento rectilíneo com base não apenas da ideia de Criação, mas de...Hapax. Da ideia do evento único da Incarnação de que instaura a História. Newton não poderia ter concebido o princípio da inércia como o fez, se as condições intelectuais não tivessem preparado a evidência da sua natureza fundamental.

São cientistas medievais, como Buridan e Oresme e Nomariarus, clérigos católicos, que estabelecem uma ideia revolucionária: os corpos celestes não têm de ser movidos por inteligências espíritos ou instâncias angelicais. Deus quando criou o mundo deixou postas as leis do movimento, que actuam por si mesmas. A própria possibilidade da existência de leis da física precisou de mais este passo, passo que foi dado no âmbito do pensamento cristão e por clérigos. Damos este facto como evidência, mas precisava de ser estabelecido. Não falamos como os pitagóricos de uma música celestial, mas de leis da física.

Etienne Tempier, esse grande reaccionário, bispo de Paris no século XIII, impede que se ensine o averroísmo em Paris. Curiosa versão da História. O grande movimento revolucionário que impede é o que gera a escolástica, que para os mesmos ideólogos é apenas reaccionário em si mesmo quando lhes dá jeito. Mas porque não gosta Tempier das novas correntes? A questão é sempre mais complexa, mas em síntese, porque é contrário ao cristianismo na sua perspectiva. Porquê? Porque impede, pelo retorno da ideia de inteligências que governam os movimentos celestes, a ideia de lei física imposta por Deus.

A grande revolução científica tem o seu impulso sobretudo no século XVII. Já não falando das influências da escola (clerical) da física de Paris e Oxford em Leonardo da Vinci e Galileu, se pensarmos em todos os grandes criadores de ciência estamos a falar de convictos cristãos, que pensam na ciência numa perspectiva religiosa. Leibniz inventa o cálculo infinitesimal a tentar perscrutar o pensamento divino e daí retira consequências na sua teodiceia, Pascal, Newton, entre tantos outros são bons exemplos disso. Sem o Padre Mersenne não se teria formado o modo dialogante de fazer ciência. Sem os jesuítas muita da ciência moderna não se teria estendido até à Rússia. Ainda no século XX o abbé Lemaître, um padre belga, é o primeiro a retirar a teoria do Big Bang da teoria da relatividade generalizada. Na altura foi vilipendiado por misturar teologia com ciência, quando mais tarde se demonstra ter razão, mas apenas para ser apagado o seu mérito nessa descoberta. Isto para já não falar num célebre monge austríaco que cria a ciência da genética clássica (Mendel), de um cristianíssimo matemático que cria a álgebra dos transfinitos e a teoria dos conjuntos (Cantor), ou de um padre Fourier (peculiar, é certo) que de um só golpe inova na teoria do calor e na matemática. Os exemplos poderiam ser desenvolvidos até ao infinito.

Tentando sintetizar algo que é realmente complexo, apenas podemos dizer que foram cristãos e enquanto cristãos quem criou a ciência moderna. Que foi o cristianismo que fundou não apenas o modo, mas igualmente muitas das possibilidades da ciência moderna. Que foi numa civilização cristã que nasceu a dita ciência. Que se diga que a ciência é meramente ideologia ou ritual apenas mostra desconhecer o que seja ciência. Que se diga que esta é inerte em relação ao ambiente em que nasce é igualmente dislate. A ciência não nasce como libertação em relação ao cristianismo e se se desenvolve muitas vezes nesse sentido isso apenas mostra que quem a faz desconhece com frequência as bases do que pratica. Não é consequência da ciência, mas em geral instinto de novo-rico, de menorizado (Comte que me lembre contribuiu menos para a ciência que Leibniz, Pascal ou Cantor – ou mesmo Einstein, que era crente em Deus, ou ainda Maxwell).

Resta um argumento. Pode-se aceitar que a ciência europeia é construção cristã e que tanto os cristãos como o cristianismo contribuíram para o seu desenvolvimento, mas isso é afinal apenas História. O “apenas” quando é usado diz geralmente algo mais sobre quem o usa que sobre o que fala. Quando Hegel fala do “apenas psicológico”, diz mais sobre ele que sobre a psicologia. Mas ainda aqui temos de reconhecer dois factos: em primeiro lugar, não seria então necessário desacreditar tanto as origens cristãs da ciência europeia, caso elas fossem tão irrelevantes hoje em dia; em segundo lugar, resta saber que revoluções científicas estamos a preparar e o que elas preparam hoje em dia. Se concluirmos que estamos apenas a desenvolver sem revolucionar (no que a segunda metade do século XX tem sido mais useira e vezeira, salvo tecnologicamente falando), talvez seja necessário perguntar o que deixou de alimentar a ciência. Se acreditamos que estamos a preparar novas revoluções científicas, é preciso demonstrar em quê elas saltam fora do paradigma da ciência europeia e se isso vale a pena.
Lembro a frase de Heisenberg: quem disser que sou cristão exagera, quem disser que não sou exagera igualmente. Frase de alguém que esteve sempre bem longe das religiões institucionais. Mas é evidente que Heisenberg é menos relevante para a ciência que tecnocratas da política que decidiram definir o que é Europa. ^



Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 9 de março de 2011

A economia de mercado

Os idólatras de uma construção meramente técnica da Europa dizem que a Europa é economia de mercado. Um dos miraculosos critérios de Copenhaga. A copulativa é aqui assustadora. É? Ou tem como condição? Trata-se de duas coisas bem distintas.

Tenho tido o cuidado de salientar que não faço análise económica e nem sequer política, mas trabalho apenas no subterrâneo da política, no que a fundamenta. Não venho pois aqui fazer laudas ou diatribes sobre a economia do mercado. O que me preocupa é saber o que sustenta este discurso e o que significa sob o ponto de vista civilizacional.

Toda a economia no limite é de mercado. Em muitos aspectos é inevitável que o seja. Por mais planificada que seja uma economia, se não houver pão, este não pode ser distribuindo em grande quantidade e baixo preço. Quando muito ficciona-se pão, como fez a Albânia (país ídolo dos detentores das esquerdas doces antes de se converterem à política moral), ou a China ou a Roménia. E bem se pode inundar o mercado de manuais de cálculo tensorial que não é por isso que a sua procura aumenta sem mais.

A economia de mercado é manifestação de liberdade e fomenta a liberdade. A dimensão patrimonial é fundamental na vida humana. O que eu como, visto, onde habito, no que trabalho são sectores fundamentais da minha liberdade, manifestam os meus gostos e a minha opção de vida. Todas alternativas à economia de mercado mostraram-se, além de ineficientes no seu conjunto, limitadoras da liberdade.

A economia de mercado tem um efeito redistributivo muito potente. Costuma-se dizer que o Estado distribui melhor e a economia de mercado produz melhor. Este lugar comum está de há muito afastado. Nenhuma televisão privada atingiu a excelência da BBC nos seus tempos áureos, ou da ARTE nos seus bons anos. Há certos tipos de bens que consoante os países e a épocas o Estado produziu melhor que os privados, seja na saúde, na cultura, na educação, em alguns casos na infra-estrutura. Os serviços públicos nórdicos são mais bem eficientes que as empresas do Burkina Faso. De igual forma a economia de mercado por via da concorrência tem permitido o acesso a bens e serviços a camadas de população que nem com eles sonhavam há anos atrás. Tudo depende da época, do país e do modelo ético de organização que exista.
Só por isto seria legítimo política e civilizacionalmente que a Europa se baseie na economia de mercado. É uma visão mais adulta, mais realista da vida, uma visão mais livre e generosa do ser humano.

Mas coisa bem diversa é esquecer as taras do mercado.

Os critérios do mercado são anti-democráticos. O poder de voto não é igual para todos. Gera desigualdades tanto mais insuportáveis quanto entra em crise. Se no momento de crescimento todos beneficiam ainda que desigualmente, em momentos de crise os mais frágeis sofrem mais, e as redistribuições gerais dependem de factores de depredação mais que de mérito. O mercado opõe-se à meritocracia em muitos aspectos. Os depredadores ganham sempre em mercados instáveis.

O mercado deixado a si mesmo despreza o ser humano. Um velho, um analfabeto, uma criança enquanto não têm valor económico, são deixados de lado pelo mercado. São outras instituições, sejam elas formais ou informais, que atribuem valor à fragilidade humana. Por isso, mesmo nos países ditos mais liberais, o mercado nunca actua sozinho. Daí que se afirmar a natureza fundante do mercado é esquecer o papel que nas grandes economias capitalistas o evergetismo, sobretudo de dimensão cristã, tem no seu equilíbrio e no equilíbrio dos seus efeitos. Quem conhece o modo de vida do proletário do século XIX, ou as formas de proletarização actuais, obnubiladas, precarizadas, em ambientes laborais de humilhação e opressão que ainda hoje em dia são permitidos sabe até que ponto o ser humano pode efectivamente ser destruído por uma lógica de poder económico. Porque a economia de mercado, endeusada por si mesma, esquece os homens concretos que nela vivem. Com o seu poder e as suas fraquezas, as suas frustrações e a sua crueldade, mas também a sua generosidade.

O mercado deixado a si mesmo despreza a cultura, o património, em suma é indiferente às identidades humanas. Mesmo quando na aparência se escora nestas identidades (como vemos pelas especializações em finanças muçulmanas, ou indígenas) irreleva-lhes o centro dessa cultura, apenas aproveita o facto de ela existir como oportunidade de negócio. Assim como o inválido não é um humano que sofre, mas apenas uma oportunidade de vender uma prótese, o índio não é um ser humano que vive de certa forma, mas apenas um consumidor de objectos de penas.

Em suma, falar só de mercado é desprezar a democracia, o ser humano, e pôr em causa a cultura e a sua identidade.

A economia de mercado assenta numa antropologia e gera uma antropologia. Em cada cultura tem formas bem diversas. O que se produz, como se produz, quem produz, para quem produz depende de cultura para cultura. Mas gera igualmente uma antropologia. Enquanto só e apenas economia de mercado é indiferente à cor, raça, credo, não por amor ao ser humano, mas apenas por este lhe ser absolutamente indiferente. Sem assentar noutra antropologia que não em si mesma, reduz-se à indiferença perante a alegria e o sofrimento humanos. Uma Europa exclusivamente baseada na economia do mercado seria assim indiferente à sorte humana.
Mas, pode-se contra argumentar, os critérios de Copenhaga contém a democracia na sua referência. Quais sejam as limitações da democracia já o vimos. Esta referência conjuntamente com o mercado apenas tempera o lado anti-democrático do mercado. Não apaga o seu lado esmagador das culturas, da identidade e nem forçosamente de uma determinada visão do ser humano que só a cultura e a identidade transportam.

O pior ainda é dizer que a Europa é economia de mercado. Dizer que qualquer país que preencha os critérios de Copenhaga é um país europeu resulta de uma pobreza intelectual, de uma falácia lógica e de uma mendicidade espiritual sem nome. Porque assim sendo tanto os Estados Unidos como o Japão, Marrocos ou a Turquia serão países europeus. Porque demonstra que o que são condições fundamentais passam por ser essência. Ou seja, que a essência da Europa é meramente instrumental, condicional, e acessível por qualquer um. Que mesmo que apenas que formalmente se atinjam esses critérios, qualquer casca “europeia” (e que casca) é o que é a Europa. A Europa fica reduzida assim a uma casca.

Vejamos pois que imagem da Europa se desprende deste fetiche da economia do mercado. Se a Europa não tem uma economia de mercado mas é, então daqui decorre que a Europa é uma realidade meramente instrumental. E este resultado, se não é querido por todos os cultores dos critérios de Copenhaga, é expressamente querido e propagandeado pelos subservientes a políticas americanas que dizem que a Europa não é uma cultura, mas uma mera encruzilhada de culturas. A Europa não tem substância, substância é coisa que as outras culturas possuem: os turquemenos, os persas, os chineses e os turcos. Os europeus, esses reduzem-se a ser uma encruzilhada, um ponto de encontro. Vivem sem abrigo, ao sabor do clima e dos visitantes que passam nas três vias. A Europa é a trivialidade em suma.

O lugar comum diz que se quer uma economia de mercado e não uma sociedade de mercado. Seja. Cada um que escolha a sua fórmula. Mas assim como me parece infantil fazer de conta que a economia de mercado não existe e existirá sempre, sob uma ou outra forma, ou num ou noutro grau, parece-me igualmente infantil, e igualmente dogmatismo puro, esquecer o que pode ter de tarada uma economia de mercado deixada a si mesma ou apenas temperada pela democracia ou o “acquis communautaire”. Numa Europa construída com base apenas nestes critérios, apenas uma coisa está ausente: o ser humano. É um deserto em que existe de tudo, menos europeus, com a sua cultura, a sua maneira de viver, a sua civilização. É um mundo feito por mortos de inteligência para mortos de espírito. E em que só mortos de uma e outra coisa acreditam.




Alexandre Brandão da Veiga

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quinta-feira, 3 de março de 2011

António Toyota Costa?


António Costa anunciou hoje que será candidato à Câmara Municipal de Lisboa nas próximas autárquicas de 2013. À vista desarmada, este parece ser um gesto sábio. O vazio do poder pós-Sócrates é mais propício a divisões estéreis do que à fecunda realização do ofício. Por outro lado, com um só gesto, António Costa sugere que a obra feita lhe garante a recondução na Capital, a ausência de um rival no perímetro e a promessa de um tapete encarnado para Belém, em 2016, à imagem de Jorge Sampaio.
Tudo faz sentido. Ou talvez não. A recondução na CML, como tudo o resto, depende da obra feita. E a desculpa da falta de verba não pode ser tapada com mais empréstimos e dívida para a CML. Terá de haver capacidade de decisão e resultados. Podemos avaliar os próximos 2,5 anos pela performance dos últimos quatro. E lembramo-nos que também o Colosso da Babilónia tinha pés de barro, não resistindo às cheias.

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Falta um boné nas mãos de Sócrates

«José Sócrates foi chamado a Berlim por Angela Merkl». O anúncio feito, nestes termos, pela TVI é eloquente.
Quem é quem? Estaremos na Europa sonhada da fraternidade de Estados soberanos ou na imprudência de uma nova era imperial?
A verdade é que o vencedor é sempre assimilado pelo vencido. Os gregos colonizaram os romanos depois da hora. E a raça ariana faz-se finalmente reconhecer como «superior», depois de todos os genocídios. Terá aptidões na filosofia, na música e na organização. Mas tudo mais é tendênciazinha para a supremacia que os tratados preveniram e os povos esqueceram.
Só falta oferecerem um boné ao amigo de Chavez para ele segurar na mão, cheio de nervos, quando lhe for permitido entrar agradecido na sala da Chanceler.

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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

É agora ou nunca


Está aberto o debate público sobre as alterações das Ferguesias de Lisboa que, supostamente, servirão de candeia para iluminar duas vezes o que se irá passar no resto do País. (ver post anterior) Façam o favor de não transformarem a discussão sobre esta alteração radical da nossa identidade e representação democrática num expediente que a Democracia concebe para não ser praticada. Inundem o site com o que pensam e com alternativas concretas. Sejam!.
Obrigada.

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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A marca de Mértola


A primeira vez que a vi foi descendo o Guadiana, nos idos anos 80. Mértola deu-se a conhecer, imponente e sóbria, de pedra e cal, como um porto seguro para quem chega exausto depois da longa viagem azul a partir de Jeromenha. Não havia Alqueva e o Pulo do Lobo era evitado por curto desvio pelas aldeias do fim.
Muito mudou. Desde os anos 70 que a vontade de voltar a ser única no Alentejo construiram a imagem de marca da vila.
Sabíamos que Mértola era o último porto do Guadiana, a partir da foz. Agora os títulos dos panfletos explicam que se trata do último porto do Mediterrâneo. Conhecíamos os mitos da presença muçulmana no Al Andaluz transformado no Paraíso do Islão, alcançado e por alcançar. Em Portugal, apontávamos Silves como a grande musa inspiradora para reis e poetas árabes. Mas para quem visita Mértola agora, parece que o Algarve é como um subúrbio do centro de interesses da civilização islâmica e que os três séculos de presença muçulmana nesta vila vingaram mais do que todos os outros romanos ou cristãos.
Não quero fazer análise histórica pela aritmética dos séculos. O que seria da Irlanda, da Polónia ou da Hungria apenas com o tempo de ocupação que viveram. É conhecida também a tendência para contar a História de Portugal de Norte para Sul, ao sabor da Reconquista Cristã, favorecendo os heróis e as raizes da nacionalidade. Uma leitura mais atenta diz-nos que toda a Civilização veio do Sul e que os autóctones pouco se mexeram com a entrada e saída de cartagineses, romanos, suevos, árabes ou cruzados.
Para quê então esta narrativa que nos leva a ter, em Mértola, a construção de uma imagem de marca tomada por um período de três séculos? O heroi a cavalo na porta do castelo contruído por um Rei português, é muçulmano. Na propaganda, a Igreja Matriz é apresentada como a única Mesquita de Portugal. Ora é sabido que, em todo o Alentejo - e até a Sé de Lisboa - os templos cristãos foram construídos nas fundações das Mesquitas que, por sua vez, se fizeram erguer na base de outros templos cristãos visigodos. A Arqueologia é fértil no aproveitamento das pedras de sinal contrário, como se viu na grande exposição do Jubileu do Ano 2000 na Alfândega do Porto.
Esta lógica pendular da leitura histórica é como a da toponímia de Mértola, ainda ocupada pelos nomes dos heróis vermelhos. Ou será apenas uma táctica turístico-comercial para vender mais um destino?
Mértola é mais rica e mais verdadeira do que isso. Basta lá chegar pelo rio e ceder aos seus encantos.

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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Afinal era mentira



Passava um minuto da meia noite e meia de ontem quando o Correio da Manhã fez publicar seis linhas on line sobre a ilibação de Helena Lopes da Costa das graves acusações de que foi alvo, há dois anos, durante a campanha para as Autárquicas de Lisboa. Sob o título «Ex vereadora absolvida», a timidíssima notícia adianta «O Tribunal da Relação de Lisboa não deu provimento ao recurso do Ministério Público sobre a não pronúncia da Ex Vereadora da Câmara de Lisboa, Helena Lopes da Costa, a propósito da atribuição de casas da autarquia. O Ministério Público tinha feito uma acusação por cerca de 20 crimes mas a actual deputada não foi pronunciada e julgada». Na época, os jornais não falaram em cerca de 20 crimes mas em 22. Deram-lhes nomes e pormenores sórdidos. O título do DN denunciou o «Lisboa Gate», a SIC falou no assunto de hora a hora, tal como os outros canais de TV.

Bem sei que o CM fecha antes da meia noite e que a edição escrita de hoje não poderia incluir esta notícia. Veremos o CM de amanhã. Mas, se houvesse algum sentido de proporção e de pudor, já não digo de Justiça, o erro sobre a acusação de alguém inocente deveria ser minimamente destacado on line.

Recordo como tudo surgiu: estava em discussão se Santana Lopes deveria ser candidato a Lisboa. Lançaram-se suspeitas graves sobre a atribuição indevida de casas a próximos de Santana que chegou a ser constituído arguido durante um tempo. A campanha foi para a frente com esta «bandeira eleitoral» até que, afinal, a investigação fez surgir casas e mais casas entregues a dirigentes da esquerda virtuosa e a proto-intelectuais, como Baptista Bastos. O assunto arrefeceu, não fosse a lama da ventoínha continuar a espirrar para mais nomes da rosa.

Veio a verificar-se agora que as acusaçõas à Vereadora de Santana não passaram de uma atoarda. Curiosamente na mesma semana em que um canal de televisão faz uma peça com Helena Roseta a dizer que as rendas de casa vão passar a ser conforme os rendimentos dos inquilinos para acabar com os abusos de longa data. A peça «jornalística» não cuidou de ouvir a Oposição na CML sobre a mesma matéria, o que no meu tempo de jornalista seria um pecado mortal. Nem tão pouco se interrogou porque é que essa actualização ainda não foi feita, ao fim de quatro anos de poder PS na CML. E nem se informou do preceito, inaugurado pelo socialista Vasco Franco nos anos 90, de actualizar anualmento o levantamento das rendas. Sabemos que a fiscalização e manutenção das boas regras é menos empolgante. Mas deve ser feita porque há muito tempo que acabou o arraial das campanhas e dos amanhãs que cantam. Poder é responsabilidade. Poder é trabalho. Poder é serviço.

Mas, aparentemente, nascemos todos hoje, como as notícias do dia.

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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Freguesias, para que vos quero?


Ontem a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou, pela maioria dos votos, o debate público sobre o acordo do PS e do PSD sobre o novo mapa das Freguesias de Lisboa. No ambiente impoluto dos gabinetes, estes senhores combinaram eliminar 29 freguesias de Lisboa. Porque não conseguem convencer o resto do País, a medida só se aplica à Capital. E a mudança vem com tintura de iodo: mais competências e mais verbas para as freguesias de Lisboa.
Como é aceitável que se proponha uma legislação que defende para as freguesias da Capital privilégios e competências não reconhecidos às unidades políticas equivalentes do resto do País? Passaremos a ter «um país, dois sistemas», como na China?
A liberdade e o desprendimento são condições do espírito reformista de que o nosso País carece. Mas é falta de discernimento dispensar o respeito pela identidade secular da cidade e enfraquecer o imperativo da proximidade entre eleito e eleitor.
Uma freguesia não se julga apenas pelo número de camas mas pelo número mutante de fregueses que a vive durante o dia. A dos Mártires (Chiado), por exemplo, criada por D. Afonso Henriques antes do Município, terá 400 habitantes durante a noite mas ultrapassa largamente os 40 mil durante o dia. Do mesmo modo não se pensa eliminar as freguesias dormitório favorecidas pelo desordenamento do território.
Reconheço que o actual modelo de gestão de 53 Freguesias em Lisboa, com dimensões territoriais e populacionais tão díspares, não é viável para atender aos fenómenos sociais emergentes de cidades mais frequentadas do que habitadas. Proponho, por isso, a criação de dez conjuntos de freguesias na Capital que favorecem a gestão autárquica sem o estrago social, histórico e político da extinção das freguesias. É também um modelo mais adaptável às exigências de cada época e exportável para cada concelho do nosso País. E será, com certeza, uma solução menos agressiva para os sentimentos de pertença das populações que merecem o nosso respeito e que devem ser considerados, também na perspectiva da segurança interna.
Uma machadada certeira no dispendioso universo empresarial da CML, o corte nas despesas correntes e uma avaliação criteriosa de cada um dos mais de 11 mil funcionários da CML obteria maiores ganhos e menos custos. Sem demagogia.

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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A caixa de Pandora

Confesso que nunca acreditei muito na lei das compensações, pelo menos na sua formação vulgata. Geralmente diz-se que os gregos eram muito racionais, inventaram a razão e outras trivialidades quejandas, mas esquecemo-nos que se trata de um dos povos com a mais fértil imaginação. Se a laboração intelectual dos celtas nos fosse mais perceptível talvez víssemos que a sua capacidade intelectual igualava o seu génio para a imaginação. Da mesma forma trata-se de povos que criaram tipos de uma imensa beleza física. É triste para os desprovidos, mas a natureza não é muito igualitária.

Um dos mitos gregos mais ricos e mais glosados é o da caixa de Pandora. Que este nome significa todos os dons, ou mesmo a totalidade na dádiva, que desta caixa saíram todas as desgraças do mundo, que a causa dessa desgraça foi a curiosidade e que no fundo ficou a esperança, todos nós sabemos igualmente. No entanto, poucos se apercebem da profundidade do mito e consequentemente da sua permanente actualidade. Na melhor das hipóteses achamos belo o conto e pouco mais.

O problema de tratar como infantis os mitos gregos é que isso é esquecer que é pela mesma razão que criaram mitos e criaram a ciência: porque eram efectivamente inteligentes, ou seja, estavam efectivamente despertos para a realidade.

Sejamos pois coerentes e vejamos a actualidade do mito. Há basicamente duas formas de se abrir uma caixa de Pandora: ou retirar o pão ou retirar a identidade. Quando ambos ocorrem em simultâneo a mistura é explosiva.

Hoje em dia a maioria dos representantes da dita extrema-esquerda (pouco extrema na verdade) tem pão na mesa. Não é bem pelo pão que reclama, nem sequer pela sua proletarização. Na maioria dos casos são recrutados de classes muito baixas que paradoxalmente estão melhor agora economicamente não apenas que os seus antepassados, mas que o que eram na infância. Reclama mais por frustração, por medo. Não por lhes retirarem uma identidade que nunca foi forte, mas por desesperarem de ter uma que tenha significado. Gostariam de ter privilégios aristocráticos, pelo que lhes mimam os tiques: o desprezo pelo dinheiro, pelo trabalho criador, pela disciplina. Avançam-se como arautos da liberdade (pretensão aristocrática se a há) e anseiam por um poder sacramental. A extrema-esquerda não é hoje em dia tão perigosa porque no fundo sabe bem que este sistema a favorece bem mais que qualquer outro. Dá-lhe emprego mais ou menos seguro, obnubila a sua mediocridade intelectual, social, estética. Vive bem no mundo de confusão porque é destituída de projecto em boa verdade, mas viveria mal com qualquer projecto. O seu paradigma é o travesti. Critica a sociedade capitalista, mas usufrui das suas vantagens, despreza a democracia, mas faz-se paladina das suas conquistas na medida em que favorecem os seus caprichos.

Ficamos assim sem saber quem são os deserdados e para onde eles vão? Quem, além de ver o seu pão diminuir, vê a sua identidade ser negada? São estes que tendem para as soluções de extrema-direita.

Quem vê o pão diminuir são os operários, classe aparentemente em vias de extinção, mas que com a longevidade da nossa época resiste e resistirá ainda por muitos anos. Os jovens sem emprego. Os habitantes dos subúrbios. Em acréscimo, e em grau mais agudo, os que são de origem europeia. Porque a estes é-lhes retirada qualquer identidade. O primitivo pode e deve ter orgulho de ser primitivo. O oriental deve ter orgulho da sua origem. O turco vem de uma imensa civilização. De que se pode orgulhar o europeu? De nada. As ciências, a arte, a música, a tecnologia, a filosofia europeias são afinal bens universais. Invocar a sua origem europeia é sinal de racismo. A Europa não tem direito ela mesma a ter origem, seja o cristianismo, seja o paganismo indo-europeu, porque como todos nós sabemos isso é racismo também.
O europeu em vias de proletarização, ou precarizado, é o verdadeiro desapossado. Duplamente desapossado. Economicamente, por uma globalização que lhe dizem inevitável e em que nada ganha, ao contrário do turco que se instala nos sistemas de segurança social europeus que para ele são comparativamente vantagem. O culturalmente desapossado, porque o que a sua cultura fez de bom é reivindicado pelo universo e nada do que o que constitui pode ser invocado como diferença.

A Europa é o único continente, ou melhor a única civilização, a que não é dado o direito de ter orgulho em si mesma. Sempre que há este duplo desapossamento quem ganha é a extrema-direita. E é ela que cresce na Europa, sobretudo entre os abandonados da globalização. Veja-se em França que os operários passaram do partido comunista directamente para o Le Pen, e na Alemanha de Leste passou-se rapidamente do socialismo real para o nazismo, o mesmo se passando na Polónia e na restante Europa Central.

Em vez de procederem a uma afirmação identitária saudável da Europa, os políticos europeus, (por pressão americana em parte, por pressão dos bem pensantes, dos nacionalistas e por pressão do capitalismo liberal – os programas são muito mais comuns do que se julga) continuam a não querer afirmar a identidade da Europa. Se bem se vir somos o único povo no mundo que não tem direito a identidade. Destituíram-nos do direito a uma antropologia, a rituais próprios, a fontes próprias. O europeu é o único homem despojado de uma antropologia, como se tivesse perdido irremediavelmente direito a ela por um pecado original de ser europeu. E esse jogo abre uma caixa de Pandora que já está em curso e neste momento acho difícil que pare.

Mas, pode-se contra-argumentar, criámos instrumentos na Europa que evitam o conflito. Instrumentos? Sim. Mas os instrumentos só são eficazes enquanto são alimentandos por uma substância. Só acredita em direitos humanos quem foi formado numa determinada concepção do homem. Quando se diz que essa concepção não nos caracteriza tudo é admissível. Os chineses e os sauditas dizem que respeitam os direitos humanos, mas na sua concepção de homem. Uma dialéctica meramente instrumental mostra a sua fragilidade, porque rapidamente é transformada no seu contrário.

Não espanta por isso que cresça a extrema-direita sob uma ou outra forma, com várias capas ou diversas dialécticas. O encobrimento não é exclusivo da extrema-direita. A extrema-esquerda e os muçulmanos “moderados" turcos, para quem conhece a sua História fazem o mesmo. O que é específico da extrema-direita na Europa é o total encobrimento, não apenas dos seus modos, como das suas fontes.

A extrema-esquerda é perigosa porque é eficaz. Dissolve a identidade europeia, e é aliada objectiva da política americana que quer fazer da Europa um espaço multicultural, bebe das mesmas fontes e conduz aos mesmos resultados geoestratégicos fundamentais (adesão turca, apagamento de referências clássicas, de educação disciplinada, etc.). A extrema-direita é perigosa porque é crescente e porque todas as forças políticas visíveis contribuem para o seu crescimento. Desapossados ora do pão ora da identidade, ora de ambos, cria-se na Europa uma classe crescente nas suas bases, de velhos e jovens largados à margem da sociedade e fora de qualquer possibilidade de legitimação identitária.

A extrema-direita é tanto mais perigosa quanto menos for ouvida, quanto mais for afastada do espaço da comunicação social, quando totalitários verdes, fúcsias, vermelhos e de outras cores têm livre-trânsito no espaço público. Ganha assim a aura do herói e da vítima de um só golpe. Os extremistas de direita não são obrigados a ser confrontados racionalmente com as suas contradicções e passam por ser isentos de contradicções.
Nos anos de 1920 o Mein Kampf era desdenhado com desprezo aristocrático pelas elites europeias, e alemãs sobretudo. É verdade que é um livro mal escrito. Mas em muitos aspectos portador de lucidez. Se alguém o soubesse ter lido em devida altura teria percebido tanto a legitimidade de algumas queixas como o horror de muitas soluções. Umas e outras foram descuradas e o resultado é conhecido. A política sub-reptícia que hoje em dia impera é a de conceder lentamente às pressões de extrema-direita, em matéria de segurança, imigração, nalguns planos sociais esparsos, nuns países mais abertamente que noutros (sobretudo na Europa do Norte e Central, enquanto a Europa latina continua seguindo a matriz anglo-americana – ironia do destino, a Inglaterra começa a abandonar essa matriz aos poucos).
Não deixa de ser irónico que se abra a caixa de Pandora, a caixa do dom total, quando se descura quem nada recebe. Que no fundo haja a esperança só é boa notícia para quem se esquece que é preciso descer ao fundo para que ela renasça. Numa Europa que descura o desapossamento económico e identitário muito se pagará por esta inépcia.



Alexandre Brandão da Veiga



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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

II. Mehmed efendi. Le Paradis des Infidèles. Un ambassadeur ottoman en France sous la Régence. La Découverte. Paris. 2004.

Um outro testemunho curioso é o de outro turco do século XVIII (pp. 237 ss.). Ibrahim müteferrika. Ibrahim deixa claro que os cristãos são para ele um só povo (p. 238), que se consola das suas antigas perdas (para o Islão) conquistando novos territórios (p. 238). “Os muçulmanos, seja por ódio da sua religião (cristã), seja por abominação dos seus usos e costumes, sempre testemunharam uma grande aversão pelo conhecimento dos negócios destes reis e potências destas execráveis nações (cristãs)” (pp. 238-239).

As frases são eloquentes do imenso espírito de tolerância e amor que tiveram desde sempre os turcos pela Europa. Repare-se que se trata de um pró-europeu, um dos primeiros turcos a sê-lo, favorável a que se passe do mero desprezo à imitação.

O argumentário de Ibrahim é simples: devemos reconhecer a superioridade técnica da Europa e parasitá-la para melhor vencermos politicamente. O argumento já se viu no Japão do século XIX. Os argumentos de aproximação em relação à Europa são por isso meramente tecnológicos e de poder, nada têm a ver com o fascínio cultural e muito menos com a identificação.

Tenho obviamente que salientar viários aspectos metodológicos:
1) Não é pela recolha de duas simples fontes que se pode fazer uma tese, quando muitas outras haverá.
2) Mas a verdade é que quem conhece as restantes fontes, em geral europeias, não chega a conclusões mais simpáticas.
3) Mas a verdade igualmente é que estas são particularmente significativas, na medida em que representam o início de ligação da cultura turca a uma Europa que pela primeira vez têm de reconhecer como válida por si mesma. Estão aqui os monumentos fundadores (além da diplomacia com casa de Áustria e, em muito menor grau, a Inglaterra) de uma relação com a Europa que se baseia no mimetismo pela primeira vez e não pela simples vontade de conquista. O cerco de Viena não tinha muito mais de três décadas na altura em que estes documentos são escritos.

Sobretudo, e mais importante que isso, percebo que haja quem tenha o desejo de integrar a Turquia. Desejos, cada um tem os seus, e não seria condenador de quem adorasse chibatar-se a si mesmo em casa. Aplaudi-lo-ia e achá-lo-ia merecedor de tal prazer.

Mas uma coisa é um desejo, outra a argumentação. Não esgoto e nem sequer começo aqui a minha. Apenas destruo a falsa aparência de argumentação de muitos. Os que pretendem usar uma História que sempre rejeitaram e só conhecem sob a versão de slogan, que nunca se defrontaram com fontes, mas apenas com torneiras. O pergaminho não foi feito para mão de canalizadores. E que vivem bem de mentiras desde que lhes ajudem os desejos. Desejar fica com cada qual. A falsidade espalha-se pelo mundo.






http://www.akadem.org/sommaire/themes/histoire/3/4/module_1680.php

http://www.stratisc.org/IHCC_3.htm

http://www.tropismes.be/books/content_detail.html?id=537


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