quinta-feira, 3 de março de 2011
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Falta um boné nas mãos de Sócrates
«José Sócrates foi chamado a Berlim por Angela Merkl». O anúncio feito, nestes termos, pela TVI é eloquente.sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
É agora ou nunca
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
A marca de Mértola

A primeira vez que a vi foi descendo o Guadiana, nos idos anos 80. Mértola deu-se a conhecer, imponente e sóbria, de pedra e cal, como um porto seguro para quem chega exausto depois da longa viagem azul a partir de Jeromenha. Não havia Alqueva e o Pulo do Lobo era evitado por curto desvio pelas aldeias do fim.
Muito mudou. Desde os anos 70 que a vontade de voltar a ser única no Alentejo construiram a imagem de marca da vila.
Sabíamos que Mértola era o último porto do Guadiana, a partir da foz. Agora os títulos dos panfletos explicam que se trata do último porto do Mediterrâneo. Conhecíamos os mitos da presença muçulmana no Al Andaluz transformado no Paraíso do Islão, alcançado e por alcançar. Em Portugal, apontávamos Silves como a grande musa inspiradora para reis e poetas árabes. Mas para quem visita Mértola agora, parece que o Algarve é como um subúrbio do centro de interesses da civilização islâmica e que os três séculos de presença muçulmana nesta vila vingaram mais do que todos os outros romanos ou cristãos.
Não quero fazer análise histórica pela aritmética dos séculos. O que seria da Irlanda, da Polónia ou da Hungria apenas com o tempo de ocupação que viveram. É conhecida também a tendência para contar a História de Portugal de Norte para Sul, ao sabor da Reconquista Cristã, favorecendo os heróis e as raizes da nacionalidade. Uma leitura mais atenta diz-nos que toda a Civilização veio do Sul e que os autóctones pouco se mexeram com a entrada e saída de cartagineses, romanos, suevos, árabes ou cruzados.
Para quê então esta narrativa que nos leva a ter, em Mértola, a construção de uma imagem de marca tomada por um período de três séculos? O heroi a cavalo na porta do castelo contruído por um Rei português, é muçulmano. Na propaganda, a Igreja Matriz é apresentada como a única Mesquita de Portugal. Ora é sabido que, em todo o Alentejo - e até a Sé de Lisboa - os templos cristãos foram construídos nas fundações das Mesquitas que, por sua vez, se fizeram erguer na base de outros templos cristãos visigodos. A Arqueologia é fértil no aproveitamento das pedras de sinal contrário, como se viu na grande exposição do Jubileu do Ano 2000 na Alfândega do Porto.
Esta lógica pendular da leitura histórica é como a da toponímia de Mértola, ainda ocupada pelos nomes dos heróis vermelhos. Ou será apenas uma táctica turístico-comercial para vender mais um destino?
Mértola é mais rica e mais verdadeira do que isso. Basta lá chegar pelo rio e ceder aos seus encantos.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Afinal era mentira

Passava um minuto da meia noite e meia de ontem quando o Correio da Manhã fez publicar seis linhas on line sobre a ilibação de Helena Lopes da Costa das graves acusações de que foi alvo, há dois anos, durante a campanha para as Autárquicas de Lisboa. Sob o título «Ex vereadora absolvida», a timidíssima notícia adianta «O Tribunal da Relação de Lisboa não deu provimento ao recurso do Ministério Público sobre a não pronúncia da Ex Vereadora da Câmara de Lisboa, Helena Lopes da Costa, a propósito da atribuição de casas da autarquia. O Ministério Público tinha feito uma acusação por cerca de 20 crimes mas a actual deputada não foi pronunciada e julgada». Na época, os jornais não falaram em cerca de 20 crimes mas em 22. Deram-lhes nomes e pormenores sórdidos. O título do DN denunciou o «Lisboa Gate», a SIC falou no assunto de hora a hora, tal como os outros canais de TV.
Bem sei que o CM fecha antes da meia noite e que a edição escrita de hoje não poderia incluir esta notícia. Veremos o CM de amanhã. Mas, se houvesse algum sentido de proporção e de pudor, já não digo de Justiça, o erro sobre a acusação de alguém inocente deveria ser minimamente destacado on line.
Recordo como tudo surgiu: estava em discussão se Santana Lopes deveria ser candidato a Lisboa. Lançaram-se suspeitas graves sobre a atribuição indevida de casas a próximos de Santana que chegou a ser constituído arguido durante um tempo. A campanha foi para a frente com esta «bandeira eleitoral» até que, afinal, a investigação fez surgir casas e mais casas entregues a dirigentes da esquerda virtuosa e a proto-intelectuais, como Baptista Bastos. O assunto arrefeceu, não fosse a lama da ventoínha continuar a espirrar para mais nomes da rosa.
Veio a verificar-se agora que as acusaçõas à Vereadora de Santana não passaram de uma atoarda. Curiosamente na mesma semana em que um canal de televisão faz uma peça com Helena Roseta a dizer que as rendas de casa vão passar a ser conforme os rendimentos dos inquilinos para acabar com os abusos de longa data. A peça «jornalística» não cuidou de ouvir a Oposição na CML sobre a mesma matéria, o que no meu tempo de jornalista seria um pecado mortal. Nem tão pouco se interrogou porque é que essa actualização ainda não foi feita, ao fim de quatro anos de poder PS na CML. E nem se informou do preceito, inaugurado pelo socialista Vasco Franco nos anos 90, de actualizar anualmento o levantamento das rendas. Sabemos que a fiscalização e manutenção das boas regras é menos empolgante. Mas deve ser feita porque há muito tempo que acabou o arraial das campanhas e dos amanhãs que cantam. Poder é responsabilidade. Poder é trabalho. Poder é serviço.
Mas, aparentemente, nascemos todos hoje, como as notícias do dia.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Freguesias, para que vos quero?
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
A caixa de Pandora
Um dos mitos gregos mais ricos e mais glosados é o da caixa de Pandora. Que este nome significa todos os dons, ou mesmo a totalidade na dádiva, que desta caixa saíram todas as desgraças do mundo, que a causa dessa desgraça foi a curiosidade e que no fundo ficou a esperança, todos nós sabemos igualmente. No entanto, poucos se apercebem da profundidade do mito e consequentemente da sua permanente actualidade. Na melhor das hipóteses achamos belo o conto e pouco mais.
O problema de tratar como infantis os mitos gregos é que isso é esquecer que é pela mesma razão que criaram mitos e criaram a ciência: porque eram efectivamente inteligentes, ou seja, estavam efectivamente despertos para a realidade.
Sejamos pois coerentes e vejamos a actualidade do mito. Há basicamente duas formas de se abrir uma caixa de Pandora: ou retirar o pão ou retirar a identidade. Quando ambos ocorrem em simultâneo a mistura é explosiva.
Hoje em dia a maioria dos representantes da dita extrema-esquerda (pouco extrema na verdade) tem pão na mesa. Não é bem pelo pão que reclama, nem sequer pela sua proletarização. Na maioria dos casos são recrutados de classes muito baixas que paradoxalmente estão melhor agora economicamente não apenas que os seus antepassados, mas que o que eram na infância. Reclama mais por frustração, por medo. Não por lhes retirarem uma identidade que nunca foi forte, mas por desesperarem de ter uma que tenha significado. Gostariam de ter privilégios aristocráticos, pelo que lhes mimam os tiques: o desprezo pelo dinheiro, pelo trabalho criador, pela disciplina. Avançam-se como arautos da liberdade (pretensão aristocrática se a há) e anseiam por um poder sacramental. A extrema-esquerda não é hoje em dia tão perigosa porque no fundo sabe bem que este sistema a favorece bem mais que qualquer outro. Dá-lhe emprego mais ou menos seguro, obnubila a sua mediocridade intelectual, social, estética. Vive bem no mundo de confusão porque é destituída de projecto em boa verdade, mas viveria mal com qualquer projecto. O seu paradigma é o travesti. Critica a sociedade capitalista, mas usufrui das suas vantagens, despreza a democracia, mas faz-se paladina das suas conquistas na medida em que favorecem os seus caprichos.
Ficamos assim sem saber quem são os deserdados e para onde eles vão? Quem, além de ver o seu pão diminuir, vê a sua identidade ser negada? São estes que tendem para as soluções de extrema-direita.
Quem vê o pão diminuir são os operários, classe aparentemente em vias de extinção, mas que com a longevidade da nossa época resiste e resistirá ainda por muitos anos. Os jovens sem emprego. Os habitantes dos subúrbios. Em acréscimo, e em grau mais agudo, os que são de origem europeia. Porque a estes é-lhes retirada qualquer identidade. O primitivo pode e deve ter orgulho de ser primitivo. O oriental deve ter orgulho da sua origem. O turco vem de uma imensa civilização. De que se pode orgulhar o europeu? De nada. As ciências, a arte, a música, a tecnologia, a filosofia europeias são afinal bens universais. Invocar a sua origem europeia é sinal de racismo. A Europa não tem direito ela mesma a ter origem, seja o cristianismo, seja o paganismo indo-europeu, porque como todos nós sabemos isso é racismo também.
A Europa é o único continente, ou melhor a única civilização, a que não é dado o direito de ter orgulho em si mesma. Sempre que há este duplo desapossamento quem ganha é a extrema-direita. E é ela que cresce na Europa, sobretudo entre os abandonados da globalização. Veja-se em França que os operários passaram do partido comunista directamente para o Le Pen, e na Alemanha de Leste passou-se rapidamente do socialismo real para o nazismo, o mesmo se passando na Polónia e na restante Europa Central.
Em vez de procederem a uma afirmação identitária saudável da Europa, os políticos europeus, (por pressão americana em parte, por pressão dos bem pensantes, dos nacionalistas e por pressão do capitalismo liberal – os programas são muito mais comuns do que se julga) continuam a não querer afirmar a identidade da Europa. Se bem se vir somos o único povo no mundo que não tem direito a identidade. Destituíram-nos do direito a uma antropologia, a rituais próprios, a fontes próprias. O europeu é o único homem despojado de uma antropologia, como se tivesse perdido irremediavelmente direito a ela por um pecado original de ser europeu. E esse jogo abre uma caixa de Pandora que já está em curso e neste momento acho difícil que pare.
Mas, pode-se contra-argumentar, criámos instrumentos na Europa que evitam o conflito. Instrumentos? Sim. Mas os instrumentos só são eficazes enquanto são alimentandos por uma substância. Só acredita em direitos humanos quem foi formado numa determinada concepção do homem. Quando se diz que essa concepção não nos caracteriza tudo é admissível. Os chineses e os sauditas dizem que respeitam os direitos humanos, mas na sua concepção de homem. Uma dialéctica meramente instrumental mostra a sua fragilidade, porque rapidamente é transformada no seu contrário.
Não espanta por isso que cresça a extrema-direita sob uma ou outra forma, com várias capas ou diversas dialécticas. O encobrimento não é exclusivo da extrema-direita. A extrema-esquerda e os muçulmanos “moderados" turcos, para quem conhece a sua História fazem o mesmo. O que é específico da extrema-direita na Europa é o total encobrimento, não apenas dos seus modos, como das suas fontes.
A extrema-esquerda é perigosa porque é eficaz. Dissolve a identidade europeia, e é aliada objectiva da política americana que quer fazer da Europa um espaço multicultural, bebe das mesmas fontes e conduz aos mesmos resultados geoestratégicos fundamentais (adesão turca, apagamento de referências clássicas, de educação disciplinada, etc.). A extrema-direita é perigosa porque é crescente e porque todas as forças políticas visíveis contribuem para o seu crescimento. Desapossados ora do pão ora da identidade, ora de ambos, cria-se na Europa uma classe crescente nas suas bases, de velhos e jovens largados à margem da sociedade e fora de qualquer possibilidade de legitimação identitária.
A extrema-direita é tanto mais perigosa quanto menos for ouvida, quanto mais for afastada do espaço da comunicação social, quando totalitários verdes, fúcsias, vermelhos e de outras cores têm livre-trânsito no espaço público. Ganha assim a aura do herói e da vítima de um só golpe. Os extremistas de direita não são obrigados a ser confrontados racionalmente com as suas contradicções e passam por ser isentos de contradicções.
Alexandre Brandão da Veiga
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
II. Mehmed efendi. Le Paradis des Infidèles. Un ambassadeur ottoman en France sous la Régence. La Découverte. Paris. 2004.
As frases são eloquentes do imenso espírito de tolerância e amor que tiveram desde sempre os turcos pela Europa. Repare-se que se trata de um pró-europeu, um dos primeiros turcos a sê-lo, favorável a que se passe do mero desprezo à imitação.
O argumentário de Ibrahim é simples: devemos reconhecer a superioridade técnica da Europa e parasitá-la para melhor vencermos politicamente. O argumento já se viu no Japão do século XIX. Os argumentos de aproximação em relação à Europa são por isso meramente tecnológicos e de poder, nada têm a ver com o fascínio cultural e muito menos com a identificação.
Tenho obviamente que salientar viários aspectos metodológicos:
1) Não é pela recolha de duas simples fontes que se pode fazer uma tese, quando muitas outras haverá.
2) Mas a verdade é que quem conhece as restantes fontes, em geral europeias, não chega a conclusões mais simpáticas.
3) Mas a verdade igualmente é que estas são particularmente significativas, na medida em que representam o início de ligação da cultura turca a uma Europa que pela primeira vez têm de reconhecer como válida por si mesma. Estão aqui os monumentos fundadores (além da diplomacia com casa de Áustria e, em muito menor grau, a Inglaterra) de uma relação com a Europa que se baseia no mimetismo pela primeira vez e não pela simples vontade de conquista. O cerco de Viena não tinha muito mais de três décadas na altura em que estes documentos são escritos.
Sobretudo, e mais importante que isso, percebo que haja quem tenha o desejo de integrar a Turquia. Desejos, cada um tem os seus, e não seria condenador de quem adorasse chibatar-se a si mesmo em casa. Aplaudi-lo-ia e achá-lo-ia merecedor de tal prazer.
Mas uma coisa é um desejo, outra a argumentação. Não esgoto e nem sequer começo aqui a minha. Apenas destruo a falsa aparência de argumentação de muitos. Os que pretendem usar uma História que sempre rejeitaram e só conhecem sob a versão de slogan, que nunca se defrontaram com fontes, mas apenas com torneiras. O pergaminho não foi feito para mão de canalizadores. E que vivem bem de mentiras desde que lhes ajudem os desejos. Desejar fica com cada qual. A falsidade espalha-se pelo mundo.
http://www.akadem.org/sommaire/themes/histoire/3/4/module_1680.php
http://www.stratisc.org/IHCC_3.htm
http://www.tropismes.be/books/content_detail.html?id=537
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
I. Mehmed efendi. Le Paradis des Infidèles. Un ambassadeur ottoman en France sous la Régence. La Découverte. Paris. 2004.

O editor é conhecido pela sua simpatia pela Turquia e pela causa turca http://www.bibliomonde.net/pages/fiche-auteur.php3?id_auteur=272. O autor é um turco, ou melhor, um turquificado (não há diferença entre um e outro conceito, como se poderia demonstrar, o que deixo para outras núpcias). Não se pode por isso dizer que se trata de propaganda anti-turca.
Em 1720 é embaixador do sultão junto do rei de França. Pela primeira vez um embaixador turco em sentido próprio contacta o rei de França. Primeiro mito: o que afirma que os contactos entre a Europa e a Turquia desde sempre se fizeram ao mais alto nível. A França é o país com mais antiga aliança com a Turquia. O império da casa de Áustria o primeiro a receber uma embaixada de alto nível turca. A França o segundo. Numa perspectiva de longo prazo, os países que mais intensos e longos contactos tiveram com a Turquia (esquecendo obviamente os conquistados, destruídos ou pilhados, mas essa é mais uma vez outra demonstração) são exactamente mais são contra a sua natureza de país europeu.
Segundo lugar comum: a Turquia sempre fez parte da Europa e se sentiu parte da cultura europeia. O turco Mehmed bem pelo contrário mostra a absoluta alteridade entre a Europa e o império turco ainda em 1720: “ O mundo é o paraíso dos infiéis…” (p. 126).
Terceiro lugar comum que vemos na propaganda turca: tradicionalmente a mulher turca nunca sentiu o Islão como uma prisão, tendo tido sempre uma grande liberdade de movimentos. Que nos diz Mehmed? Que Paris não é maior que Constantinopla. Só o pode parecer porque as mulheres se passeiam nas ruas e por isso a cidade parece mais populosa do que é (p. 135). Coisa espantosa, esta das mulheres se passearem na rua! A libertação da mulher turca veio da Europa, assim como a da mulher libanesa, egípcia e japonesa.
Quarta afirmação temerária: a Turquia participou da revolução científica europeia. No entanto, Mehmed passeia-se por Paris espantado com os laboratórios, os observatórios astronómicos, os centros de investigação sem paralelo na sua cultura (v.g., pp. 147 ss.).
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
O que fazer com Antígona? IV
Não é fruto de acaso que Antígona seja uma das grandes campeãs da diferenciação sentimental. Não antecede o cristianismo, no sentido em que tenha percebido todas as suas implicações, mas no sentido em que lhe percebeu a necessidade para ser possível uma expansão do ser humano. Os factos de não ser catalogável, nem suscitar essa tentação em grau bastante, de separar o espaço público do privado em nome de deuses inferiores, não políticos, e de ser legitimista estão ligados entre si.
Antígona não é contra a ordem instituída. Quer restabelecê-la na sua plena verdade. Os que vêm levar a lei à sua compleição e não à sua destruição são os verdadeiros revolucionários. São os que encaram de frente a complexidade. Ao contrário dos que querem destruir as leis, todas elas, que são apenas birrentos sem projecto próprio, amuados com o passado só porque existe e os limita, os revolucionários sabem que o passado, por existir, pode ser fonte de força e só prende quando é vivido de forma simplista.
Alexandre Brandão da Veiga
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
O que fazer com Antígona? III
O problema é que não encontra melhor fundamento que a lei divina. Em acréscimo a lei dos deuses de baixo, que é respeitada até por Zeus. São os seus desuses inferiores que tutelam o espaço privado. Demasiada complexidade para a mente moderna. Invocar a lei divina e em acréscimo hierarquizá-la, mostrar que tem uma orgânica própria, algo de complexo demais para o suspiro pensativo do homem actual. Muito cansado anda ele sem pensar, quanto mais obrigá-lo a pensar.
Em terceiro lugar, é uma legitimista. Quem pretende ela enterrar? O irmão mais velho, Polinices. Em relação a Etéocles não mostra piedade. É certo que Creonte o quer enterrar com honras de Estado, por isso não se teria de preocupar com ele. Mas quando define o que seria um destino feliz fala no além com os seus pais e o seu irmão Polinices. De Etéocles nem uma palavra. Se bem virmos a explicação encontra-se em parte, não na tragédia com o nome desta heroína, mas no Édipo em Colona de Sófocles. Polinices é o irmão mais velho, é o legítimo herdeiro do trono. Etéocles é apenas um usurpador por não ter direito de primogenitura.
Antígona é uma legitimista. Os seus amores são ordenados, apesar de tudo. Uma coisa é a violação da ordem não consciente, a dos seus pais, que praticam incesto. Outra a consciente e voluntária, de usurpação. A clara diferença entre infracção voluntária e involuntária, tratada tecnicamente como essencial no direito, é esbatida numa moral algo frouxa que acha que a motivação explica mais que a vontade e que portanto a distância entre o voluntário e o involuntário, e as fronteiras da consciência, são factores menores, com limites esbatidos.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
O que fazer com Antígona? II
Mas que Freud recorra aos conhecimentos filológicos do seu tempo e não os use plenamente já seria mau. Subtrai das personagens uma metáfora e não contribui assim em nada para a compreensão dos gregos nesta matéria. E lançou um equívoco, importante, mas algo pouco eficaz no mundo (quantos homens com impotência provocada pela diabetes tiveram de perder vinte anos da vida em psicanálise a tentar convencer-se que afinal a sua impotência se deveria a quererem ir para a cama com uma mãe que nunca desejaram, por exemplo?). Muito mais grave é que os seus apaniguados repitam escolasticamente as suas como verdades absolutas.
Sobra-nos pouco de Sófocles, apenas sete peças completas das mais de cem que ele terá feito. Sobram-nos apenas três tragediógrafos com peças completas, mas apenas escolhos da maioria delas. E estes três são apenas uma gota num oceano de criadores. É por isso quase impossível retirar ideias gerais justas sobre o que seja a cultura grega nesta sede.
Mas, mais importante que isso para a nossa época, é a necessidade de catalogação que a tem, obsessiva, tanto quanto se diz livre de preconceitos. São duas vertentes de uma mesma moeda.
Antígona não tem um complexo que a identifique e por isso é pouco manipulável. Ama o seu pai e irmão como pai apenas. É-lhe fiel. Continua fiel à mãe e ao irmão mais velho Polinices. Despreza a sua irmã Ismene e o seu irmão Etéocles. Enfim, ama e odeia sem se poder estabelecer um padrão rígido que explique esse amor e desamor de modo definitivo e catalogável. Ama e odeia como qualquer ser humano, o que as teorias mecânicas não admitem.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
O que fazer com Antígona? I

Antígona pode estar na moda entre os intelectuais por mais um ou outro livro que a refira, mas a verdade é que é pouco citada, e sobretudo pensada, no espaço público. Em grande medida isto acontece pela profunda incultura clássica, em suma, incultura, da nossa época. Mas, apesar de tudo, algumas figuras e expressões ainda surgem. Édipo e Aquiles ainda oferecem uns dramas ou calcanhares ao mundo visível.
Já Antígona por sua vez anda muito calada. Não é a única. Efigénia, como as múltiplas faces da sua história, mereceria mais atenção. Dejanira das “Traquinianas” de Sófocles ou Medeia mereceriam bem mais atenção. Filoctetes ou Neoptolemo poderiam ser mais estudados. Seja, fiquemo-nos por Antígona, até porque aparece alvo de uma atenção um pouco maior de momento.
Porque é pouco usada como referência? É que Antígona suscita três grandes desconfortos na época actual. Não tem complexo com o seu nome, invoca a lei divina e é uma legitimista.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Recordando Sophia III
A desilusão de Sophia com a vida parlamentar é um reflexo de todo o horror ao mecanismo que sempre caracterizou o aristocrata. Para o bem e para o mal. A subtileza jurídica, a rotina fora da ideia, a inércia de movimento são aspectos tristes e pouco expansivos da vida. O burguês domina-os melhor, e tanto melhor que assim seja.
O que me pergunto é se a mistura de Grécia, catolicismo e aristocracia, que gera pessoas de imensa elevação, não pode ser perigosa para os próprios numa democracia que desce à realidade chã e passa a ser dominada pelos denunciantes de Sócrates e pelos comerciantes de ideais, os que os invocam em proveito próprio e de mais ninguém. O que diria Sophia se visse o espectáculo actual? Pura especulação.
Não compreendo os facciosismos. Leni Riefenstahl fez o único documentário político de génio com o Triunfo da Vontade e a única reportagem desportiva que tem nome pleno de arte e que ainda hoje em dia influencia o jornalismo desportivo, mera glosa lateral da sua grande obra. Nem a I República nem o 28 de Maio tiveram obra digna desde nome que os cantasse. O 25 de Abril tem. “O dia inteiro e limpo”.
“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.“
Daqui a uns séculos será mais lembrado por quem o fez lembrar que pelo que aconteceu. Se nos preocupamos com os vencedores das Olimpíadas é Píndaro quem o conseguiu, não os atletas. Não me interessa saber se as pessoas são contra ou a favor do 25 de Abril, até porque à luz dos tempos nada é tão simples. Quem me disse bem de Sophia quando eu era criança era nuns casos forte opositor e noutros forte apoiante do regime salazarista. Essa grandeza de alma falta hoje muitas vezes na discussão no espaço público.
Hoje em dia achamos que é pieguice a ideia de um poeta imortalizar pessoas e eventos. Um duque de Saxe-Weimar que acolhe Goethe pôs Weimar no mapa do mundo graças a isso. Carlos Magno seria um pouco menos magno sem Alcuíno, ou Augusto sem Virgílio. E muita gente inteligente por esse mundo fora não perderia muito tempo com as Descobertas se não fosse Camões. Passámos da pieguice da omnipresença do criador, para a grosseria da sua ausência. Mas as obras que se guardam carinhosamente ao longo dos séculos não são relatos desportivos nem notícias sobre ministros. No desespero, na necessidade de escolha, e na medida do possível, são as grandes obras que se tentam salvaguardar. Tendo ido ao essencial, e tendo tentado viver o essencial, só posso ter o maior respeito pela obra e pela pessoa. E tenho pena que a democracia não a tome por modelo e prefira tomar por tal, não quem por ela se sacrificou, mas os seus beneficiários.
Alexandre Brandão da Veiga
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Recordando Sophia II
O seu estilo eleva-nos. Não é obrigatório que a literatura nos eleve. Pode-nos fazer cair no chão. Mas se se fica por nos deixar arrastar na lama, não nos dá a grandeza de Heráclito, mas apenas ar de pocilga. E a verdade é que é sempre mais difícil elevar que manter rasteiro.
O que mais me agrada nela é a ligação entre a personagem e a obra. A elevação não era um esforço, era uma tarefa inevitável. Nesse sentido era plenamente uma aristocrata, como sobram poucos, para a qual um mundo de evidências não limita, mas apenas enriquece. Uma problemática mal digerida apenas gera confusão. E não há criação sem certezas. Platão podia criticar Homero, mas não dita a sua existência.
Do que percebo, porque saliento que não sou especialista de Sophia, era a mesma elevação que a levou para a luta política. Conheci ao longo do tempo muitas pessoas do mesmo meio que lutaram contra os seus privilégios de classe, lutaram pelos outros, por uma concepção de justiça, sem terem nada a ganhar com isso. A luta do proletário pode ser justa, mas é forçosamente egoísta. Sei que está fora de moda, mas a luta do privilegiado contra os privilégios é sempre mais elevada.
Do que percebo, e nisso mais uma vez é uma personagem comovente, a sua história é uma repetição de um drama muitas vezes repetido ao longo dos séculos. É o segundo estado que toma a iniciativa de abdicar dos seus privilégios nos Estados Gerais da França pré-revolucionária, são aristocratas que proclamam os ideais igualitários da maçonaria e do iluminismo. A democracia ateniense é obra de três grandes aristocratas, Sólon, Clístenes e Péricles, e entra na grosseria quando o poder chega às mãos do povo recentemente promovido. E quando vemos a distância infinita que vai de um Churchill a uma Thatcher ou um Blair percebemos que a democracia mantém o seu viço quando não diz o seu verdadeiro nome, a de um regime misto.
Políbio e os estóicos elogiavam uma constituição mista de monarquia, aristocracia e democracia. Cícero acompanhou-os. Num mundo que se sentia velho, e tantas vezes o disse, é sinal de maturidade. O que dá esplendor a uma democracia é manter uma aristocracia e dela recolher uma figura humana que leva dezenas de gerações a produzir. Não é indo para a faculdade que se aprende o mais difícil e o essencial.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Recordando Sophia I
A vez seguinte que ouvi falar nela foi em Amarante, onde eu passava férias. Na Casa da Cerca indicaram-me um rapaz e disseram-me. É filho da poetisa Sophia de Mello Breyner. Era casa de poetas, onde a memória de Teixeira de Pascoaes ainda estava presente, e por isso era natural que não dissessem que era filho do Francisco de Sousa Tavares, mas da poetisa. Do que me lembro, o seu nome foi referido com o maior respeito. Era uma poetisa, uma verdadeira.
Leio pouca literatura contemporânea, devo confessar. Em parte por tempo, em parte por gosto. Não se pode aprender tudo, não se pode ler tudo. E como sempre gostei muito de ciência, sobretudo de matemática, e de literatura grega e romana, não me dediquei muito à obra de Sophia. Do que conheço, lembro-me apenas de uns lugares comuns, o que só vai em meu desfavor e não dela.
Também não gosto de falar de autores contemporâneos, ou em geral de pessoas contemporâneas, porque sei que isso suscita o discurso de ódio em que nunca se discutem ideias, mas apenas gostos e desgostos sem fundamentação, o que sempre achei pobre. Salientar alguém que nos é contemporâneo pode sempre gerar o “a contrario”: “se ele não fala desta e daquela pessoa é porque as acha medíocres”. O que é uma generalização apressada, mesmo que em algumas situações possa ser justa.
Mas por mais que se queira, quando um conjunto de pessoas, cuja opinião respeitamos, só nos diz bem de alguém, algum reflexo isso tem. No meu caso, começou por ser o da curiosidade. E quanto mais sei da pessoa, mais me suscita o respeito. E quanto mais vejo da obra, mais lhe admiro o estilo.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Torre e Espada II
Nessa altura, a minha desilusão com as condecorações transformou-se definitivamente em desconfiança absoluta. As condecorações tinham-se tornado em... caricas. Aquilo que prometia em vão e criava desilusões em criança, aquilo que depois não poderia nunca ser motivo de maçada, tinha-se transformado definitivamente numa carica.
As voltas da vida fecham ciclos de formas algo inesperadas. Passados uns anos, por vias algo distorcidas, vim-me a deparar com um diploma sobre a Torre e Espada.
Decreto-lei n.º 414-A/86,de 15 de Dezembro, que aprova a lei orgânica das ordens honoríficas portuguesas. Encontro o artigo 40º que afirma que os agraciados com a Torre e Espada têm direito a uma pensão. Nesse momento não posso deixar de pensar em Blenheim construído no início do século XVIII para John Churchill, o primeiro duque de Malborough, antepassado do nosso velho Winston. Embora a coisa tenha suscitado intrigas, invejas e polémica, a verdade é que a nação inglesa pagou um imenso palácio ao herói de uma batalha. Isto é que é um país, grato aos seus heróis, generoso com eles.
Assim pensei, até perceber o que dizia este decreto-lei. A pensão que atribuía era equivalente... ao ordenado mínimo nacional. E, não satisfeitos com a coisa, os senhores legisladores tiveram ainda o cuidado de dizer que poderia mesmo ser reduzida a pensão, caso o agraciado tivesse outras pensões. Bem pensado, não vá o malandro que recebeu a Torre e Espada querer aproveitar-se dos dinheiros públicos.
E mais uma vez este aspecto me fez lembrar outra história. A minha bisavó Eugénia, que ainda conheci, era de Chaves. Senhora trasmontana típica, era rija, pés bem assentes na terra, e sem papas na língua. Vivia entre Chaves e o Campo de Cima, mas durante alguns anos vivia sobretudo na cidade. Dá-se o caso de o terreno dela na cidade confinar com uma taberna, ou hospedaria, nem me lembro bem. A dona da taberna, senhora que veio a ser conhecida pelo casamento com uma personagem famosa do antigo regime, era no mínimo também sem papas na língua, embora as dela fossem outras.
O negócio dela expandia-se e precisava de mais espaço para estacionar os cavalos. E por isso mandou pedir à minha bisavó que a deixasse usar parte do seu terreno para o efeito. A minha bisavó lá concedeu a coisa, até perceber que estava a ficar com as terras cheias de bosta de cavalo. Por isso mandou uma criada dizer à senhora que tinha acabado a tolerância. Quando a criada voltou a minha bisavó perguntou-lhe qual tinha sido a resposta da taberneira. A criada não quis dizer. Depois de a minha bisavó insistir, ouviu a resposta da taberneira pela boca da criada. Era simples e directa. “Favores de m... com m... se pagam”.
Ora pois, entrámos no centro da questão. O legislador português inspira-se na taberneira de Chaves. A Torre e Espada supostamente premeia grandes feitos. Mas o que o legislador português diz é que com m... se pagam favores de m... Afinal é o legislador a confirmar as minhas suspeitas: a Torre Espada não vale grande coisa. O que está a dizer é: “lá por teres realizado feitos extraordinários não julgues que fizeste grande coisa, nem abuses do Estado”. O que é justo, porque um feito extraordinário, como toda a gente sabe, não é coisa de grande importância. A melhor medalha é carica afinal.
Por isso tinha uma proposta para o legislador português. Que mude o nome da medalha. Não dá torres nem espadas. Que o legislador português seja finalmente consistente com o que acha e revela. Nada de Torre e Espada. Que apareça o novo nome da condecoração. Antes Carica e Gorjeta.
Alexandre Brandão da Veiga
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Torre e Espada I
Quando era criança apanhei por acaso uma conversa em que se referia que o meu pentavô, João Manuel de Menezes da Veiga, tinha recebido uma Torre e Espada. A espada não me impressionou muito, porque já tinha visto que chegassem, e torres já conhecia algumas, mas integradas em casas. Agora uma torre, isolada, sem mais, parecia-me de história de sonho. Já a imaginava, quadrada, em pedra, sólida, em cima da qual se veria uma vasta paisagem.
Mas as crianças têm as suas manhas, e já tinha percebido que fazer certas perguntas poderia trazer a condescendência dos adultos. E por isso, em vez de perguntar onde estava a torre, decidi perguntar o que significava isso de receber uma Torre e Espada. Quando me disseram que era uma condecoração, fiquei profundamente desiludido. A torre com que eu tinha sonhado esvanecera-se de vez. Mas como senti alguma ponta de orgulho quando mo disseram – os adultos podem querer disfarçar essas coisas, mas nunca o conseguem totalmente – achei que, não sendo tão importante quando uma torre a sério, não seria algo de desprezar totalmente.
No entanto, ao longo da minha infância fui percebendo que as condecorações não eram algo tão importante assim. A minha tia Anaísa Velha (velha porque era tia-bisavó, para a distinguir da nova que era tia-avó) vivia em Chaves. Tinha tido cancro no peito, na altura doença quase certamente mortal, e prometeu que, caso se curasse, faria obra de protecção a doentes cancerosos. Recuperou da doença e assim fez. Fez um asilo para doentes onde estes eram tratados gratuitamente. O problema é que, quando a obra se tornou notória, já estávamos em plena I República. E lá teve a coitada da I República, laica e antimonárquica, de oferecer uma ordem, da benemerência se bem me lembro, a uma senhora católica e legitimista.
A situação só aparentemente era nova. Muitas vezes antes tinha acontecido. A pobre da III República francesa teve de engolir o católico Pasteur como um dos seus heróis. Não se pode nunca viver num mundo cor-de-rosa. A verdade que intimaram esta minha tia a vir a Lisboa receber a condecoração e ela disse que não podia vir a Lisboa receber. Não sei se invocou motivos de saúde, mas a verdade é que no fundo não achava que era motivo bastante para fazer uma longuíssima viagem a Lisboa ir receber uma condecoração.
As condecorações são assim coisas que não podem exigir muita maçada, pensei eu.
A terceira experiência que tive foi em casa de um primo meu que herdou as medalhas da família. Como por outros ramos tinha também família militar, a casa dele estava cheia de Torres e Espadas e Ordens de Aviz entre dezenas ou centenas de medalhas. Ele e um sobrinho foram conhecidos por nos anos 50 irem a uma recepção com medalhas espalhadas pela casaca à frente... e atrás. Em suma, as medalhas são coisas que existem aos pontapés e podem ser entendidas como brincadeira.
O destino das Torre e Espada não era muito risonho. Desiludiam crianças, não mereciam muita maçada e em acréscimo eram coisa que havia em abundância, sem grande importância.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Um mundo e algumas valsas II
Ravel parte da Valsa do que tem de mais fundamental e não foge dela. Enfrenta-a no que tem de mais rigoroso e grandioso. A valsa é a negação da gravidade e nesse aspecto é um símbolo maior de civilização. O tosco assenta na terra. O que valsa age como se as leis da natureza tendessem todas para a ausência de fricção, entropia, atrito e gravidade. O mundo é legível mas, mais importante, atravessa-se com leveza. Obra difícil se a há.
Ravel parte da valsa para mostrar o que é uma civilização: a sublimação de uma barbárie. Isto não lhe retira nenhuma grandeza. É precisamente por saber que a barbárie está na base de todo o comportamento humano que o civilizado tem mérito. Opta. E opta pelo melhor. Ravel põe a nu as bases da civilização, de toda a civilização, mas sobretudo da mais complexa de todas, a europeia, mostrando que, nunca saindo da valsa e partindo dela tudo se pode desfazer. A civilização, toda ela, é frágil, assenta num tecido sempre muito ténue. Rasgões são tão mais fáceis e desfigurantes quanto delicado é o tecido. No pano grosso o rasgão custa e passa despercebido frequentemente.
Aceitemo-lo. La Valse é uma obra inteligente, superiormente inteligente. Não é mais profunda que as restantes sob o ponto de vista musical, nem forçosamente mais bela. Não é aí que a coisa é relevante para estes efeitos. Ideologicamente é mais lúcida. E mais lúdica porque não dialoga com o exótico como Strauss, nem finge partir dele como Strawinski, nem se fica pelos limites da civilização como Sibelius. Em certo sentido, pelas suas limitações, são mais artistas. Ravel é mais inteligente aqui porque faz obra de antropólogo, trata o civilizado como se deve tratar o selvagem: de dentro, a partir das próprias premissas. Percebe que a solução para o civilizado não é deixar de o ser, mas a de perceber que nunca o é totalmente. Que nas bases do que vive há um lodaçal de massas vulcânicas e poeiras nascidas e vividas pela violência. O civilizado não é menos que o selvagem. Porque tem tudo o que o selvagem tem e mais qualquer coisa. Na base somos todos selvagens. É esse o mérito do civilizado. O de não se ficar só pela base.
Alexandre Brandão da Veiga
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Um mundo e algumas valsas I
Reconheçamos em primeiro lugar o seguinte: só La Valse é posterior à Primeira Guerra Mundial e é composta por um músico com idade mais avançada que as outros. Este facto terá mais ou menos importância, relativa ajuda para explicar alguma coisa, mas não pode ser o único decisivo.
Não pretendo julgar da valia musical de cada obra. Uma das obsessões da nossa época é a de criar pódios, de falar do melhor músico, do melhor escritor, do mais vendido dos cantores, do mais visto dos filmes, como se isso tivesse algum fundamento ou alguma importância. Pode-se definir uma plêiade, mas não um pódio. A cultura tem níveis, mas não listas de vendas.
Não me interessa por isso saber qual das obras foi mais importante para a História da música, qual dos compositores é musicalmente mais profundo, até porque a cada momento cada um deles tem importâncias diversas e da minha parte não dispensaria nenhum.
Nem procuro ser completo. Outras valsas, como a Shostakovski poderiam ser referidas. Comecemos por isso por o que não é uma valsa.
O Sacre du Printemps é tudo menos uma valsa. Fez-se tudo para que fosse o inverso de uma valsa. Se sob o ponto de vista musical é indubitavelmente um monumento, a verdade é que sob o ponto de vista ideológico mostra alguma ingenuidade. Strawinski parte de um primitivo imaginado, mais que conhecido, e usa a complexidade da teoria musical europeia para o representar. Obra maior sem dúvida, mas que acaba por se tornar hoje em dia relativamente inofensiva. Como tantas outras, ajudou a produzir grandes efeitos, criando uma moda do primitivo, do tosco, do telúrico, que fica bem em gente de grande complexidade e cultura como o compositor e os seus verdadeiros apreciadores, mas torna-se mera rotina na sala de espectáculo em que se mostra o Bantu estilizado na malha urbana.
A dita dança dos sete véus da Salomé é outra obra-prima. Aqui toda a sofisticação sem vergonha de Strauss aparece em glória. Mas reconheçamo-lo: trata-se de uma valsa. Não é ambiente de Tetrarquia, mas mais de dupla coroa. Ninguém se engana: é de Viena e não da Palestina que se trata. Strauss nunca teve a obsessão do primitivo. Trabalha com o sofisticado até ao seu último grau, conhecia profundamente os instrumentos da História da música, os seus mecanismos mais profundos, e por isso não tinha medo de os diluir. É desta oscilação entre bom comportamento e ousadia, sempre com um pano de fundo disciplinado, que aparece a impressão de primitivo.
Sibelius é outro mundo. A Valse triste é um monumento de um romantismo que não sai de si, mas tenta ir aos seus últimos limites. O título é justo, mas apenas parcialmente. Em certas partes não é triste, é revoltada. Corre, mas não sai do mundo impecavelmente branco da Belle Epoque nórdica. No fundo é uma interpretação. Plenamente integrada na Europa, a Finlândia marca o seu lugar próprio nela. Nesse sentido é mais um testemunho politico que directamente sentimental. Mas a marca sentimental é muito forte. Por isso Sibelius não sai do mundo onde vive, rodeia-o, mostra-lhe as fronteiras. Guia-nos dentro dele, mas não consegue dele sair.



